Open-access Sex wars, Terf wars: ecos da segunda onda feminista nas políticas antigênero

Sex wars, Terf wars: echoes of second-wave feminism on anti-gender politics

Sex wars, Terf wars: ecos de la segunda ola feminista en las políticas antigénero

COUSENS, Emily. . Trans epistemologies in the US second wave . London: Palgrave Macmillan, 2023

A complexidade do pensamento feminista há décadas tem levado pesquisadoras a reavaliar os modos pelos quais a historiografia organiza seu conteúdo. Nesse sentido, essa reavaliação aponta para o fato de que quaisquer exercícios de sistematização estarão, inevitavelmente, produzindo silêncios e simplificações que podem reproduzir ou tensionar relações de poder estabelecidas. Embora contribuições como as de Clare Hemmings (2009) e Sonia Alvarez (2014) tenham auxiliado na tarefa de problematizar as categorizações tradicionais, persiste uma narrativa de progresso que define a segunda onda feminista a partir das contribuições de um movimento branco e cisgênero centrado nos EUA e no Reino Unido, contrapondo-a aos estudos de gênero, de inspiração queer e transfeminista, que teria superado suas limitações em direção um horizonte de inclusão; uma narrativa que precisa ser tensionada.

Este é o argumento de Emily Cousens, Professore Assistente da Northeastern University (Reino Unido) e Doutore em Filosofia Política, com extensa pesquisa acerca das confluências entre o feminismo de segunda onda e o pensamento transfeminista. Este trabalho se consolida com o lançamento de Trans feminist epistemologies in the US second wave (2023), seu primeiro livro, e é o mais recente da série Breaking feminist waves, publicada pela Palgrave Macmillan.

A obra revisita a segunda onda do feminismo nos Estados Unidos, complexificando a narrativa tradicional ao articular pensamento feminista, estudos trans e a emergente ciência da sexualidade, demonstrando sua imbricação mútua. Cousens reivindica a publicação como um gesto arquivístico que busca intervir não somente para recuperar a importância das epistemologias trans no discurso científico e na consolidação do campo feminista de segunda onda, mas também para confrontar a instrumentalização das narrativas tradicionais acerca do feminismo por grupos transexcludentes. Esta última é, provavelmente, a contribuição mais urgente do livro, especialmente em um contexto político no qual o feminismo transfóbico vem ganhando força mundial, em articulação com movimentos de extrema-direita, por meio do discurso antigênero (Ruth Pearce; Sonja Erikainen; Ben Vincent, 2020; Sonia Corrêa; Carla Rodrigues, 2023; Observatório de Sexualidade e Política et al., 2025).

Para executar sua proposta, Cousens (2023) reivindica a ampliação do cânone da segunda onda para incluir a cultura impressa trans, a exemplo da imprensa feminista já considerada canônica do período, escolha metodológica que reflete a necessidade de reconhecer como legítimos os saberes experienciais e corporificados - característicos de saberes insurgentes e declaradamente tributário dos princípios do feminismo negro - produzidos na rede colaborativa da cultura impressa da comunidade. A partir deste cânone ampliado, confronta-se a temporalidade da historiografia tradicional em que a relação entre segunda e terceira onda feministas pode ser representada por pares binários como mulher/gênero, essencialismo/construcionismo, exclusão/inclusão, universalismo/interseccionalidade.

No segundo capítulo do livro “The ‘Women’ of Women’s Liberation”, por exemplo, o trabalho de Margo Schultz - transfeminista lésbica estadunidense - é recuperado em conjunto com as contribuições dos feminismos não-brancos para demonstrar que, mesmo naquele período, havia a compreensão de que a categoria mulher poderia ser um espaço coalisional de resistência e não uma identidade essencialista fixada pela biologia, disputando a ideia de que a categoria “mulher” tenha sido, de fato, fundamento indiscutível das políticas feministas durante a segunda onda. Complementarmente, os registros de influentes personalidades trans - Virginia Prince, Reed Edwards e Louise Lawrence - no desenvolvimento das pesquisas de John Money, Robert Stoller e Harry Benjamin são recuperados como evidência de que a ciência da sexualidade incorporou saberes trans em sua conceituação do gênero, que seria acolhida pelos feminismos cisgêneros da segunda onda.

Neste movimento, Cousens (2023) demonstra que a noção de gênero operada pelos feminismos radicais é também marcada por abordagens normativas do poder e fundamentos patologizantes, o que contrapõe diretamente discursos basilares dos feminismos transfóbicos como os de Janice Raymond (1994), Sheila Jeffreys (2014) e Holly Lawford-Smith (2022). Contudo, Cousens não se compromete com uma defesa ingênua das políticas de gênero. Em uma linha argumentativa que faz recordar a proposta de uma genealogia alternativa do pensamento queer defendida por Catarina Rea (2018) em “Pensamento lésbicas e formação da crítica queer of color”, Cousens (2023) defende que a representação de Judith Butler como singularmente responsável pela desnaturalização do sexo, aliada à centralidade atribuída a Gayle Rubin na constituição do pensamento queer, foram operações discursivas relevantes para construir a noção de uma ruptura entre a segunda e a terceira ondas, reabilitando o feminismo de sua reputação excludente por meio da reelaboração do campo a partir da categoria gênero. Esta reabilitação, entretanto, se deu às custas do apagamento de epistemologias lésbicas, trans e não-brancas na sua construção.

Em um exercício ousado e muito produtivo, Cousens (2023) se propõe a reavaliar o pensamento de Andrea Dworkin, teórica do feminismo radical e ferrenha defensora de políticas antipornografia e antiprostituição, cuja obra, no entendimento da autoria do livro, foi sobrecodificada e desacreditada em razão de sua posição no lado ‘perdedor’ das guerras sexuais. Mais uma vez, Cousens não adota posição simplista em relação ao tema: reconhece que Dworkin esteve equivocada em seu próprio tempo e permanece equivocada no contexto atual por seu entendimento rígido das relações de poder e incapacidade de compreender a ressignificação de práticas sexuais em contexto de resistência à norma, mas não se furta a identificar certos pontos de interesse em sua obra.

Cousens (2023) identifica princípios transfeministas na obra de Dworkin na medida em que a estadunidense elabora a feminilização como processo de vulnerabilização e negação da autonomia ao qual todos os corpos estão suscetíveis, independente da sua anatomia sexual, reconhecendo que a violência está nos modos como a encarnação generificada é coercitiva e determina posições de poder. Ademais, recupera suas elaborações acerca do controle reprodutivo de populações marginalizadas para demonstrar que ela reconhecia o caráter racializado do gênero e sua centralidade em projetos necropolíticos de extermínio racial.

Mais além, entende que sua crítica à heterossexualidade e à violência como definidoras da sexualidade não deriva de um entendimento essencialista, mas da percepção de que o ato sexual é juridicamente regulado e performativo, de tal modo que opera na construção de significados de gênero. Longe de ratificar uma interpretação sectária e fatalista de Dworkin, Cousens (2023) rememora sua proposta de reelaboração da relação masculina com a corporalidade - que depende de um descentramento da genitalidade como eixo organizador do sexo - e seu otimismo quanto à prática sexual como possiblidade ética.

Considero a releitura de Dworkin particularmente interessante ao ponderar o interesse declarado de Cousens em se opor à reivindicação do feminismo de segunda onda por feminismos transfóbicos contemporâneos, uma vez que aponta aproximações indiscutíveis com o pensamento transfeminista, a teoria queer, com os estudos de gênero e com a virada subjetiva que lhe é característica, - atestando de modo decisivo que recuperar produções antitrans como representantes ‘verdadeiras’ de um feminismo ‘original’ -, é uma escolha política transfóbica que instrumentaliza em vez de honrar os princípios radicais daquele período.

Cousens (2023), que escreve da posição de pessoa branca a partir do Reino Unido, responde diretamente à influência que o feminismo britânico teve na reemergência do feminismo transfóbico em articulação com a extrema-direita no mundo, embora a Austrália - de Holly Lawford-Smith e Sheila Jeffreys - tenha se mostrado, também um centro de difusão destas políticas (Claire Thurlow, 2024; Sally Hines, 2025). Todavia, é inegável a importância de difundir iniciativas como a de Trans feminist epistemologies in the US second wave também no Brasil, onde já se identificam organizações antigênero atuantes no campo feminista, como demonstra o relatório Fronteiras borradas (Observatório de Sexualidade e Política et al., 2025).

Finalmente, cumpre ressaltar que Cousens (2023) compreende as limitações de seu trabalho, apontando para a ausência do pensamento transmasculino em sua recuperação do arquivo transfeminista da segunda onda, bem como para o perfil demográfico majoritariamente branco e de classe média que compõe a cultura impressa discutida no livro. Reconhece, ainda, que a cultura impressa resgatada, embora inestimável em sua contribuição para o projeto em questão, era um privilégio de indivíduos cuja posição social lhes permitia desfrutar de certa segurança social, enquanto pessoas trans não-brancas, migrantes, encarceradas, tinham como foco a sobrevivência em situações de extrema vulnerabilidade, recorrendo à ação direta prioritariamente, o que dificulta a recuperação de seus registros. Estas lacunas, ao invés de invalidarem a contribuição, representam um convite a pesquisadoras que desejam contribuir para a construção de uma historiografia feminista mais complexa, que dê o devido destaque e legitimidade aos saberes produzidos na resistência.

Referências

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  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    COELHO, Mônica Saldanha. “Sex wars, Terf wars: ecos da segunda onda feminista nas políticas antigênero”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 2, e110965, 2026.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Fev 2026
  • Revisado
    21 Maio 2026
  • Aceito
    26 Maio 2026
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