Open-access Educação e mulher nas obras de Maria Amália Vaz de Carvalho (1880 a 1905)

Education and Women in the Works of Maria Amália Vaz de Carvalho (1880 to 1905)

Educación y mujer en la obra de Maria Amália Vaz de Carvalho (1880-1905)

Resumo:

Este texto tem como objetivo analisar a representação da mulher portuguesa nos livros Mulheres e Crianças: notas sobre educação, Cartas a Luiza: moral, educação e costumes e As nossas filhas: cartas às mães, de Maria Amália Vaz de Carvalho, publicados em 1880, 1886 e 1905, respectivamente. A metodologia se dá na perspectiva da Nova História Cultural, tomando como referência Chartier (1999), já que o livro instaura uma ordem, teoria defendida por esse autor. Nas obras, a autora, por meio da narrativa circular e da escrita epistolar, orienta a conduta moral e educacional das leitoras tanto na esfera pública quanto na privada, recursos utilizados para tornar o discurso mais persuasivo, uma vez que, na época, havia a influência de obras com figuras femininas transgressoras, a exemplo de Emma Bovary e Indiana.

Palavras-chave:
mulher; educação; livros

Abstract:

This text aims to analyze the representation of Portuguese women in the books Mulheres e Crianças: notas sobre educação, Cartas a Luiza: moral, educação e costumes and As nossas filhas: cartas às mães, by Maria Amália Vaz de Carvalho, published in 1880, 1886 and 1905, respectively. The methodology is based on the New Cultural History, taking Chartier (1999) as a reference, since the book establishes an order, a theory defended by this author. In these works, the author, through circular narrative and epistolary writing, guides the moral and educational conduct of her readers in both the public and private spheres, resources used to make the discourse more persuasive, since, at the time, there was the influence of works with transgressive female figures, such as Emma Bovary and Indiana.

Keywords:
Women; Education; Books

Resumen:

Este texto pretende analizar la representacion de la mujer portuguesa en los libros Mulheres e Crianças: notas sobre educação, Cartas a Luiza: moral, educação e costumes y As nossas filhas: cartas às mães, de Maria Amália Vaz de Carvalho, publicados en 1880, 1886 y 1905, respectivamente. La metodología se basa en la Nueva Historia Cultural, tomando como referencia a Chartier (1999), ya que el libro establece un orden, teoría defendida por este autor. A través de la narrativa circular y de la escritura epistolar, la autora orienta el comportamiento moral y educativo de los lectores, tanto en el ámbito público como en el privado, recursos utilizados para hacer más persuasivo el discurso, ya que en la época existía la influencia de obras con figuras femeninas transgresoras, como Emma Bovary e Indiana.

Palabras clave:
Mujeres; educación; libros

Introdução

O tema educação, mulher e literatura, nas obras de Maria Amália Vaz de Carvalho, foi e continua sendo objeto de interesse de pesquisadoras e pesquisadores na área das Letras, História, Sociologia e Educação, a exemplo de Maria Celi Vasconcelos (2020); Germana Sales e Márcia do Socorro Pinheiro (2024); Juliana Mariano (2021); Ana Cláudia da Silva e Tania de Luca (2022); Bianca Reis (2012); Guilherme Barp e Cecil Zinani (2020), conectando - e não por acaso - essas ciências à Literatura. Em razão de ser um dos pilares da cultura de uma localidade, a literatura serve como referência para a compreensão das transformações sociais, políticas e culturais [educação] de um tempo e espaço. Assim, a produção literária de Maria Amália Vaz de Carvalho contribui para compreender a força de significação da mulher portuguesa na transição do século XIX para o XX.

Maria Amália Vaz de Carvalho, autora portuguesa do século XIX, está inserida em uma lista de

ilustres escritoras [que] não são frequentemente lembradas pelas histórias da literatura. Certa parte delas figurou durante o século XIX, em que à mulher era conferida uma educação cujo modelo, frequentemente, não desenvolvia a sua intelectualidade, além de privações de atuação na vida pública, aspectos que resultaram na sua marginalização no âmbito literário desse período (Barp; Zinani, 2020, p. 1).

Outras tantas escritoras da sociedade oitocentista em Portugal compõem essa lista, conforme Conceição Flores, Constância Duarte e Zenóbia Moreira, (2009, p. 9):

Temos autoras do passado, cuja obra parece ainda ecoar em nós, como Ana de Castro Osório, Fernanda de Castro, Florbela Espanca, Maria Amália Vaz de Carvalho. E autoras cuja obra é conhecida apenas por dedicados investigadores da literatura como Ana Plácido, Maria Felicidade do Couto Brown, Feliciana de Milão, Antonia Margarida.

Para o desenvolvimento deste estudo, delimitamos três das diversas obras de Maria Amália: Mulheres e Crianças: notas sobre educação (1880), Cartas a Luiza: moral, educação e costumes (1886) e As nossas filhas: cartas às mães (2017 [1905]), a fim de analisar a força de significação da mulher, na perspectiva da sua narrativa circular, a partir da “arte do bem viver”. De início, questionamos: qual é a representação de mulher nessas obras? Como a narrativa circular é apresentada para que a autora atinja o seu objetivo por meio da literatura? Como a feminilidade da mulher foi abordada nessas obras?

Partimos da compreensão de que as obras formam uma tríade para o aconselhamento ou, ainda, de civilidade na formação das mulheres. Com base nessa compreensão, poderemos identificar as orientações de moral e de educação para as moças e senhoras mais experientes na arte de ser mulher na sociedade portuguesa, e, por extensão, no além-mar, já que seus escritos circularam no Brasil - por meio da colaboração nos periódicos Jornal do Comércio, Eco do Sul, O País e A Mensageira -, demonstrando a sua circulação transatlântica no período de transição do século XIX para o XX.

A restrição a três obras supracitadas ocorre em razão dos limites deste texto bem como por vermos, em seu enredo, material cujo estudo consideramos de grande relevância, já que a questão feminina era um tema recorrente no século XIX e com fortes reflexos na literatura da época.

De acordo com Irene Vaquinhas (2009, p. 242), “a história das mulheres tem procurado recuperar a voz feminina como colectivo social no passado e afirmar a presença e o contributo das mulheres para o processo histórico”. Neste horizonte e na intenção de ampliar a fortuna crítica de Maria Amália Vaz de Carvalho, atentamos para as formas discursivas e materiais, para entendermos que seus livros - objetos culturais - são documentos históricos, e, assim, por meio do seu acesso, favorecer um aprendizado para as gerações da época. Assim, tomamos as três obras, aqui, como fonte de informação histórica, observando os “lugares de inscrição, formas de transmissão e usos ideológicos” (Roger Chartier, 2011, p. 116).

Este estudo está na perspectiva da Nova História Cultural, em razão do processo de circulação de livros, o qual se configura como necessário para as investigações da história do livro, da leitura e da educação. Entende-se, portanto, que, desde sua origem, o livro torna possível “instaurar uma ordem; fosse a ordem de sua decifração, a ordem no interior da qual ele deve ser compreendido ou, ainda, a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu a sua publicação” (Chartier, 1999, p. 8). Esse tráfego, ainda, e de acordo com Robert Darnton (2010, p. 122), possibilita “entender como as ideias eram transmitidas por vias impressas” e como esse movimento afetou o pensamento e o comportamento dos/as leitores/as e não leitores/as, considerando o contexto de produção que reverberou o discurso literário de Maria Amália Vaz de Carvalho.

O percurso da escrita desse artigo está estruturado em três partes, sendo que a primeira apresenta a autora portuguesa em uma breve nota, situando-a para o/a leitor/a no seu contexto de produção e circulação na sociedade portuguesa; a segunda discorre sobre os três livros publicados entre fins do século XIX e início do XX; e, por fim, a terceira seção consiste em analisar entre a mulher ideal e a mulher a ser combatida pela literatura da época, demonstrando tais pressupostos por meio de exemplos transgressores.

Breve nota sobre a autora portuguesa

Maria Amália Vaz de Carvalho, cronista, crítica literária, ensaísta, contista, biógrafa, nasceu em Lisboa, no dia primeiro de fevereiro de 1847, e faleceu no dia 24 de março de 1921, com 74 anos, nessa mesma cidade. Era filha e descendente de pessoas da aristocracia portuguesa. Seu pai, José Vaz de Carvalho, era deputado e sobrinho paterno do 1.º Visconde de Monção. Sua mãe, D. Maria Cristina de Almeida e Albuquerque, era descendente do chanceler-mor do reino, D. José Vaz de Carvalho, no reinado de D. João V. Maria Amália teve irmãos, José Vaz de Carvalho, o mais velho, e uma irmã mais nova, Maria do Carmo Vaz de Carvalho. Teve um irmão mais novo, José Vaz de Carvalho, filho de uma relação ilegítima de seu pai. Foi casada com o poeta brasileiro naturalizado português, António Cândido Gonçalves Crespo (1846-1883), durante nove anos, quando ficou viúva e com dois filhos menores (Flores; Duarte; Moreira, 2009; Amaro Silva, 1997).

A partir das suas poesias, que chamaram atenção de António Feliciano de Castilho, Bulhão Pato, Tomás Ribeiro, Mendes Leal e Luciano Cordeiro, recebeu incentivo do seu tio materno, Luís Albuquerque, para publicar na imprensa, já que ele era proprietário do Jornal do Commercio, em Lisboa. Assim, seus escritos circularam nos jornais portugueses, a exemplo do Diário Popular, Diário de Notícias, Comércio do Porto, Repórter, Artes e Letras, e brasileiros, como O Paiz e Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro (Barp; Zinani, 2020).

Como outras escritoras da época, Maria Amália Vaz de Carvalho fez uso de pseudônimo. Assinava suas obras como Valentina de Lucena. Para disseminar suas ideias, usou a própria residência como um salão literário de Lisboa, por onde circularam personalidades da literatura e da cultura portuguesas, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão ou Guerra Junqueiro. Manteve estreita relação, por correspondência, com Antero de Quental - escreveu Alguns Homens do Meu Tempo (Carvalho, 1957), tomando-o como referência.

Vale destacar que os salões literários eram considerados ambientes, conforme Rodrigo Bittencourt (2020, p. 11), “com poder de divulgação e consagração de um artista no século XIX”. Ainda de acordo com esse autor, os salões são “herança do século XVIII e da vivência aristocrática, os salões com seus saraus, festins temáticos e mesmo reuniões informais de intelectuais e artistas contribuíram para a carreira de muitos escritores” (Bittencourt, 2020, p. 11, sic).

Embora toda a sua produção esteja sob a égide da moralidade, civilidade e feminilidade, Maria Amália Vaz de Carvalho teve um caráter versátil para transmitir suas ideias, pois transitou entre vários gêneros literários, a exemplo da poesia: Uma Primavera de Mulher (1867) e (Vozes no Ermo (1867); crônica: Cronicas de Valentina: com uma carta de Ramalho Ortigão (1890); conto: Contos para os nossos filhos (Carvalho; Crespo, 1915 [1886]); Contos e Fantasias (1880); ensaios: Serões no Campo (1877); biografia: Vida do Duque de Palmela D. Pedro de Sousa e Holstein (1898-1903); crítica literária: Alguns Homens do Meu Tempo (1889); Pelo Mundo Fora (1889); A Arte de Viver na Sociedade (1897); Em Portugal e no Estrangeiro (1899); Figuras de Hoje e de Ontem (1902); Cérebros e Corações (1903); Ao Correr do Tempo (1906); Impressões da História (1911); Scenas do Século XVIII em Portugal, Coisas de Agora (1913); e de aconselhamento: Mulheres e crianças: nota sobre educação (1880); Cartas a Luíza (1886); Cartas a uma noiva (1891);1As Nossas Filhas: Cartas às Mães (2017 [1905]).

Num arco temporal de umas cinco décadas, a participação de Maria Amália Vaz de Carvalho no campo literário foi marcada pelo grande número de publicações e de sua inserção na Academia das Ciências de Lisboa, em 1912. Assim, ao atentarmos para o seu projeto de criação literária e sua consolidação, podemos identificar as táticas por ela empregadas para ascender à posição de autoridade e legitimidade no campo literário e ali permanecer, considerando que se tratava de um espaço social da época, que, assim como os demais, foi criado e estruturado com vista à participação e ao domínio masculinos. De acordo com a noção de campo formulada por Pierre Bourdieu (1996), as estruturas das relações estabelecidas neste campo, principalmente com os homens que a cercaram - pai, tio, marido, poetas e outros escritores -, o habitus e a posição social de Maria Amália Vaz de Carvalho determinaram as escolhas na escrita de suas obras literárias e, neste sentido, a sua permanência na anamnese literária portuguesa.

A partir dos sujeitos acima mencionados, anterior e imediatamente, são reveladas as redes de sociabilidade da autora, em particular do salão literário que criou. Ao perquirirmos Maria Amália Vaz de Carvalho, sob a perspectiva de Jean-François Sirinelli (2003), faz-se necessário atentar para os vínculos que mantinha com o seu entorno, para a relação de sua vida com as histórias política, social e cultural de seu tempo. Com base nesse mesmo autor, analisam-se as redes de sociabilidade da escritora, o que nos permite compreender sua relação com os grupos de sujeitos com os quais partilhava afetos, ideias e ações, produzindo, de diversas maneiras, relações de trocas, acordos e disputas intelectuais, se apresentando como uma intelectual engajada da sua época.

A autora portuguesa esteve inserida num campo literário cujo universo de produção artística se fincava sob três pilares: i) a presença inovadora de um rol de escritoras especializadas - Maria Amália Vaz de Carvalho integrou esse grupo de escritoras que escreviam sobre o tema educação de mulheres; ii) as instâncias de legitimação - suas produções eram divulgadas em jornais, no salão literário e na Academia das Ciências; e iii) a emergência de um mercado - a temática de sua literatura esteve presente no acervo de leitores/as, livrarias e editores.

Três livros e uma orientação: moralizar/educar as mulheres portuguesas entre fins do século XIX e início do XX

A maioria das obras de Maria Amália Vaz de Carvalho gira em torno da temática do feminino, de modo que, entre os anos de 1880 e 1905, publicou quatro obras - Mulheres e crianças: nota sobre educação (1880), Cartas a Luiza: moral, educação e costumes (1886), Cartas a uma Noiva (1891) e As Nossas Filhas: Cartas às Mães (2017 [1905]) - na direção da arte do bem viver/civilidade/educação das mulheres. Assim, podemos considerar que a autora traçou um programa moral e educacional para a formação das mulheres portuguesas, ao orientar jovens/mulheres burguesas que estavam adentrando na vida social moderna e que poderiam se deparar com os grandes deveres da existência feminina.

Embora cada livro apresente as suas particularidades de produção, os objetivos são os mesmos, já que estes convergem para um ideal de mulher “reconstruindo um feminismo doméstico, apoiado na casa e na religião” (Michelle Perrot, 1988, p. 172). Observamos nesses livros uma narrativa circular, talvez até redundante, uma vez que a autora, na tentativa de ratificar sua ideia central (e com intensa marcação subjetiva), repete os mesmos temas e estrutura narrativa, retornando ao mesmo argumento - o de educar as mulheres na moral e nos bons costumes portugueses -, na perspectiva de “sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa educação a teem submergido” (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1880, p. 13). Podemos exemplificar esse tipo de narrativa a partir do sumário, do endereçamento das suas obras, dos objetivos de cada um dos livros e de outros marcadores, conforme expomos a seguir.

Inicialmente, Carvalho publicou a narrativa Mulheres e Crianças: notas sobre educação, em 1880, por meio dos editores Joaquim Antunes Leitão e Irmão, cuja editora se localizava na rua do Almada 209, 1º andar, no Porto, em Portugal, e na Typ. de Alexandre da Fonseca Vasconcellos, na Rua do Moinho de Vento, 29. Escrito na primeira pessoa, em tom de aconselhamento, a autora narra as adversidades que a mulher no final do século XIX enfrenta para ser respeitada. Nesse tom, dá lições de como educar a mulher para atuar na sociedade portuguesa que se apresenta para o novo século. Este livro é composto por 17 capítulos, sem índice, assim dispostos: Capítulo I - Apresentação; Capítulo II - O falso luxo; Capítulo III - A velhice das mulheres; Capítulo IV - A dissolução dos costumes e o casamento; Capítulo V - As mães e as filhas; Capítulo VI - Leitura para nossas filhas; Capítulo VII - As datas d’uma vida; Capítulo VIII - Casamentos pobres e casamentos ricos; Capítulo IX - A uma noiva; Capítulo X - O dever de ser bonita; Capítulo XI - O trabalho das mulheres; Capítulo XII - A toilette; Capítulo XIII - Victoria Woodhall; Capítulo XIV - Criados e amos; Capítulo XV - Crianças; Capítulo XVI - Cartas de um marido; Capítulo XVII - Confidências maternais.

Carvalho dedicou o livro à sua mãe, com a seguinte dedicatória: “Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo” (Carvalho, 1880, p. 4). As orientações dadas estão na sua expertise como filha, mãe - teve três filhos - e na sua circulação em espaços sociais relevantes da época em Portugal, a exemplo dos salões literários.

O contexto em que a autora apresenta as suas lições está na direção de combater as agruras do final do século XIX, como bem aponta: “Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc.” (Carvalho, 1880, p. 4). Divórcio e suicídio, na época, eram considerados e tratados como dois graves temas na sociedade. O primeiro era “concebido como símbolo por excelência da desagregação conjugal e familiar, ao divórcio imputam-se doenças sociais dramáticas como adultério e a poligamia, sendo-lhe associada, ainda, a desvalorização do estatuto da mulher” (Maria de Fátima Ferreira, 1993, p. 34). Quanto ao segundo, a Psiquiatria, surgida no século XIX, “[...] via o suicídio como sintoma possível em diversas doenças mentais” (Alexandre Reis; Jalane Bezerra; Polyana Reis, 2020, p. 390), contrapondo-se à obra de Émile Durkheim (2004), O Suicídio, publicada em 1897, que abordou sobre o tema no sentido dos limites morais.

Nesse mesmo livro, ainda na seção que se configura como prelúdio, Carvalho mostra como as mulheres são vistas e tratadas na sociedade portuguesa no período:

Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos d'uma imaginação doentia.

Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós estamos.

Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade, cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam os costumes (Carvalho, 1880, p. 5).

Ao fazer esse apontamento, a autora chama a atenção da leitora para a seguinte recomendação no final dessa seção: “Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa educação a teem submergido” (Carvalho, 1880, p. 13).

O que se pode entender por “a manutenção da ordem da família na sociedade que pode ocorrer pelo equilíbrio entre os sexos”? E por “sair das trevas intelectuais e morais”? Que funesta e falsa educação é essa a que Carvalho se refere? Essas questões podem ser entendidas por meio da relação entre “família e Estado”, sendo a “lei do equilíbrio histórico”, conforme assegura Perrot (1988, p. 175), de modo que “o curso dos acontecimentos coletivos depende, como a felicidade e a paz dos lares, desse equilíbrio dos sexos” (Perrot, 1988, p. 174). Estes elementos se estendem, entrementes, de outra forma, no livro que a seguir comentamos.

Seis anos após a publicação da obra acima, mais precisamente em 1886, veio a público o livro Cartas a Luiza: moral, educação e costumes, publicado na cidade do Porto, pelos editores Barros e Filha, editora localizada na rua do Almada, 104 a 111. O livro é formado por 23 cartas independentes, a saber: Carta I - Educação, moralização; Carta II - Educação, moralização II; Carta III - A propósito dos lyceus femininos; Carta IV - O século XIX e as suas contradições; Carta V - Conflitos modernos; Carta VI - Conflitos modernos II; Carta VII - O divórcio e a caricatura; Carta VIII - As crises do casamento; Carta IX - A nossa imaginação; Carta X - A Caridade; Carta XI - A ida para o colégio; Carta XII - O romantismo d’hontem e de amanhã; Carta XIII - As mulheres que matam; Carta XIV - A influência da natureza; Carta XV - Gente moça e gente velha; Carta XVI - O estylo é a mulher; Carta XVII - A mulher moderna na obra de Balsac; Carta XVIII - As escolas moveis pelo methodo João de Deus; Carta XIX - O pessimismo contemporâneo; Carta XX - A emancipação da mulher à luz da physiologia; Carta XXI - Quem são os pobres?; Carta XXII - Os excessos do naturalismo; Carta XXIII - Os reabilitadores literários.

A narrativa tem como inspiração Luiza de Almeida e Albuquerque, modelo de mulher a ser seguido, conforme o ponto de vista de Maria Amália Vaz de Carvalho: “Tu, que és uma das raras mulheres que se levantam acima do nível intelectual do nosso sexo” (Carvalho, 1886, p. 6). Podemos supor que a pessoa mencionada seja sua prima, considerando o sobrenome do seu tio, “Dr. Luís de Almeida e Albuquerque, director e proprietário do Jornal do Commercio-Lisboa, Lente e Director da Escola Politécnica e vereador da Câmara Municipal de Lisboa” (Silva, 1997, p. 69). Na dedicatória, Carvalho ainda aponta o objetivo do livro:

[...] este livro, escripto dia a dia, sem ordem, sem methodo, mas sob a impressão sincera do momento que o inspirava. [...] Tu, que és uma das raras mulheres que se levantam acima do nível intelectual do nosso sexo, deves compreender e aprovar que eu lucte, no estreito limite do meu poder, pela libertação moral e intelectual das nossas irmãs oprimidas (Carvalho, 1886, p. 6).

Com a mesma intensidade de admiração e respeito que a autora manifestou à mulher para a qual o livro foi ofertado, ela também ansiou a sua aprovação para que pudesse exercer a sua missão: a de libertar, moral e intelectualmente, outras mulheres oprimidas. Que opressão é essa a que Carvalho se referiu? Por que anseia fazer tal libertação?

Na primeira carta sob o título “Educação e moralização”, a autora já apresenta o mote do livro - a libertação de que trata diz respeito a uma interpretação deturpada sobre educação, conforme ela aponta:

[...] a péssima interpretação que até hoje se tem dado á educação e aos deveres da mulher.

Que me importa a mim que muitas mulheres, ilustres e célebres tenham prevaricado?

Ninguém, pelo facto de serem célebres, me provou ainda que ellas fossem educadas.

Pelo contrário.

A educação que receberam, por desharmonica e contradictoria com o seu meio, produziu toda a espécie de efeitos funestos sem produzir um único bom (Carvalho, 1886, p. 9).

A desarmonia e a contradição presentes no meio onde as mulheres precisavam se inserir, para receberem a educação esperada, podem ser encontradas na própria narrativa da autora quando afirma que é:

[...] o conflito entre a sciencia e a fé, esse medonho conflito que existe desde muito, mas cuja explosão geral se manifestou n’este século, produziu como inevitável consequência todas as perturbações que agitam, convulsionam, dilaceram a consciência moderna (Carvalho, 1886, p. 60).

Esse conflito, possivelmente, provocou angústia na autora, a ponto de elaborar livros para esclarecer, lançar luz e direcionar as jovens/mulheres. Sendo assim, ela via como sua a missão de orientar as demais mulheres, visto que, no capítulo dedicado à “A emancipação da mulher à luz da Physiologia”, a autora afirma a importância de a mulher ser emancipada, desde que haja cautela nesse processo e entendimento do ser mulher em cada sociedade. Para a escritora:

A mulher é uma doente. No dia em que essa verdade passar dos domínios da sciencia medica e physiologica para o domínio das leis, dos costumes e dos factos, haverá duas coisas a fazer: tratar de cural-a, e tratar de protegel-a proficuamente e racionalmente (Carvalho, 1886, p. 244).

O excerto acima é a compreensão da autora portuguesa, cujo discurso - diferença dos sexos - é oriundo do século XVIII e foi retomado no século seguinte, a partir das descobertas da Medicina e Biologia. De acordo com Perrot (1988, p. 177),

é um discurso naturalista, que insiste na existência de duas ‘espécies’ com qualidades e aptidões particulares. Aos homens, o cérebro (muito mais importante do que o falo), a inteligência, a razão lúcida, a capacidade de decisão. Às mulheres, o coração, a sensibilidade, os sentimentos.

Já no século XX, em 1905, Maria Amália Vaz de Carvalho fecha o seu programa moral e educacional com a publicação d’As nossas filhas: cartas às mães. Esta edição foi publicada pela editora Parceria A. M. Pereira, em Lisboa, em 1906. O livro é dividido em duas partes, sendo composto de: PRIMEIRA PARTE: 1ª CARTA - A mulher perante a sociedade moderna; 2ª CARTA - A mulher na sociedade passada; 3ª CARTA - Da discipula de Madame de Maintenon até á discipula dos Lyceus francezes actuaes; 4ª CARTA - A primeira educação da creança; 5ª CARTA - Rehabilitação do trabalho; 6ª CARTA - O mais grave problema da educação feminina; 7ª CARTA - No Convento; 8ª CARTA - No collegio; 9ª CARTA - Em casa; 10ª CARTA - O Estado educando a mulher; 11ª CARTA - Mestras extrangeiras - Prós e contras; SEGUNDA PARTE: 12ª CARTA - A grande licção de uma vida obscura; 13 ª CARTA - A verdade como base da educação; 14ª CARTA - As enfermeiras nos hospitaes ingleses; 15ª CARTA - O exemplo como elemento educador; 16ª CARTA - Vertigem da vida moderna; 17ª CARTA - A mulher do Norte e a mulher Latina; 18ª CARTA - A base da moral segundo Schopenhauer; 19ª CARTA - A educação christã resume tudo; 20ª CARTA - O novo ideal feminino; 21ª CARTA - Ensino domestico e seus programas.

Embora não haja no livro apresentação ou seção semelhante que nos forneça informação sobre o processo de escrita da autora, está explícito, no título, para quem o texto é endereçado: às mães, as formadoras/educadoras das suas filhas. A 1ª Carta, intitulada “A mulher perante a sociedade moderna”, ainda nos dá outras informações para compreendermos a pretensão da autora com esta narrativa. Assim, o texto se inicia da seguinte forma:

Se ha presentemente em Portugal - muito atrazado em questões d’esta natureza - problema que deva preoccupar o espirito das mães, é este: o destino das nossas filhas!. E’ facil dizer que o mundo é velho, que este mesmo problema foi posto deante do espirito de centenas de gerações, e que centenas de gerações o resolveram do mesmo modo, pouco mais ou menos, por que nós havemos de resolvel-o tambem. Isto não é positivamente a verdade. A cada phase social correspondem leis, ideias, instituições e costumes, que são traslados e espelhos d’aquellas. A nossa não se parece com nenhuma outra do Passado. E’ muito mais complexa a difficuldade com que temos de arcar. Destruimos toda a auctoridade; demolimos toda a tradição. A familia, apparentemente a mesma, pouco tem em commum com a familia de outros tempos. O que se tem escripto sobre a educação das raparigas não tem applicação, a não ser em principios geraes de moral, ao momento difficil em que vivemos; ao momento mais difficil ainda em que vamos entrar (Carvalho, 2017 [1905], p. 09).

Como era Portugal na época? Que noções dizem respeito a autoridade, tradição e família? Segundo Ferreira (1993), por meio da repressão e da imobilidade dos dogmas da Igreja Católica, o temor a Deus possibilita o controle social do Estado. Neste sentido, a autora prossegue com a afirmativa:

Na ausência deste quadro disciplinador e valorativo, ela [Igreja] prevê, ainda, os efeitos sociais mais catastróficos: degeneração da raça no plano físico e moral, degradação da família, pela propensão à poligamia e ao incesto derivado da instabilidade nascida do divórcio (complemento legislativo tido como inerente ao casamento civil), declínio, por fim, da unidade familiar pela faculdade de os seus membros adotarem comportamentos contrários à vontade dos pais, entrando em conflito com os valores sociais dominantes (Ferreira, 1993, p. 19).

A situação acima apontada pode se explicar, também, pelas transformações pelas quais Portugal passou durante o segundo quarto do século XIX, impulsionadas pelas modificações na economia - Revolução Industrial ainda no século XVIII - por que outros países da Europa passaram, como Inglaterra, França, Alemanha. As cidades cresciam, os camponeses transformavam-se em operários e a vida cultural intensificava-se nos centros urbanos.

Portugal, que teve um papel de destaque na conquista do império ultramarino, foi perdendo, gradativamente, a hegemonia, embora se mantendo apegado às glórias coloniais do passado; no século XIX, portanto, não desenvolveu uma elite intelectual significativa que incentivasse o desenvolvimento das artes e das ciências. Alguns intelectuais - como Eça de Queiroz, por exemplo - tiveram consciência dessa realidade e, por meio de suas obras, criticaram a sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX. Em As Farpas, o literato português, em seu primeiro número, apresentou a sua impressão sobre seu país:

Aproxima-te um pouco de nós, e vê. O paiz perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a consciência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inercia (Queiroz, 1871-1883, p. 5).

Diante dessa realidade, a burguesia dominante que defendia a liberdade de iniciativa, a igualdade de oportunidades e de direitos, a possibilidade de ascensão social do indivíduo isolado e a autonomia financeira como pilares de sua ideologia continuava a fazer esse mesmo discurso, porém tão somente na esfera pública. No espaço privado da família, fazia-se necessário cercear a liberdade, principalmente a feminina, controle que garantiria, em última instância, que tudo permaneceria do mesmo modo.

Dito isto, retornemos à citação já feita aqui de Carvalho, em Cartas a Luiza (1886, p. 60):

[...] o conflito entre a sciencia e a fé, esse medonho conflito que existe desde muito mas cuja explosão geral se manifestou n’este século produziu como inevitável consequencia todas, as perturbações que agitam, convulsionam, dilaceram a consciência moderna.

É mediante esse cenário que as orientações da autora portuguesa fazem sentido, ratificando a sua missão de libertar as mulheres oprimidas da situação na qual elas se encontravam. Ao mesmo tempo que as suas obras tratam da domesticidade feminina - se configurando como um tratado do bem viver -, estas revelam o poder da autora sobre o feminino. Nesse propósito, ela busca, por meio da escrita direta, a epistolar, em Mulheres e Crianças, Cartas a Luiza e As nossas filhas, abordar assuntos, já descritos anteriormente, em tom de conversa familiar e ou amigável.

Vê-se uma escrita permeada de regras evidenciadas na relação central entre signatário, conteúdo e destinatário, cuja prática é exigida pela distância e favorecida pelo uso da primeira pessoa. Nessa relação interativa, o signatário tenta convencer o outro dos seus conselhos, de suas instruções. A narrativa de Carvalho, escrita no gênero epistolar, expressa forte aproximação dialógica com a leitora - embora seja “uma conversa entre ausentes” -, o que é denunciado pela presença de marcadores linguísticos do tipo “minha querida amiga”, “eu”, “tu”, “ti”, “minha”, “nossa”, ao longo das obras, como podemos identificar em Mulheres e Crianças (1880, p. 22-166, grifos nossos): “Afastemos porém os olhos d’estes quadros sombrios e que no entanto, leitora querida, tu bem sabes que não são carregados” e “Como estou velha, minha querida amiga de outros dias! Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento do meu Luiz!”; em Cartas a Luiza (1886, p. 44): “Entende bem, minha querida”; e em As nossas filhas (2017 [1905], p. 27-62): “Na minha primeira carta disse eu que era necessario [...]” e “Emquanto lá fóra, como de leve apontei na minha ultima carta [...]. Como forma de “jogo de estados textuais”, numa interação verbal, o modo epistolar possibilita que a mensagem seja recebida, entendida e posta em prática.

Por meio dessa escrita - “fórmula editorial” para Chartier (1999, p. 15) -, Carvalho buscou convencer suas leitoras, nos seus três livros, de que suas lições são pertinentes para se ter uma sociedade harmônica em que se mantenham as tradições sociais, religiosas e familiares. Nessa direção, identificamos que a estratégia textual e a intenção da autora nos livros aqui apresentados estão na perspectiva da narrativa circular.

Entre a mulher ideal e a mulher a ser combatida: a literatura e seus exemplos transgressores

A literatura do século XIX está repleta de arquétipos de mulheres que eram subversivas para a época. Ao apresentar personagens com esse perfil, citamos alguns escritores, tais como Victor Hugo, Frédéric Soulié, Stendhal, Ernest Feydeau, Champfleury, George Sand, Honoré de Balzac, Charles Baudelaire e Gustave Flaubert. Estes exibiram, em seus romances, mulheres com poder de decisão e sentimentos lascivos. Baudelaire e Flaubert foram, inclusive, alvos de processo judicial por ofensa à moral pública, à religião e aos bons costumes.

Essas personagens são exemplos, entre tantos outros, que nos permitem refletir sobre a leitura no Oitocentos, por meio de critérios da própria época. Para compreendermos esse universo literário, é necessário que atentemos para um dos principais critérios que norteavam a crítica e a produção literária na ocasião: a moralidade. A literatura, capaz de excitar a vida de seus/suas leitores/as e interferir em comportamentos e hábitos, provocava discussões sobre o conteúdo dos livros, pois que não despertavam o interesse somente de escritores e críticos, mas também de médicos, magistrados e religiosos.

Embora estivessem recebendo mais adeptos/as, fossem escritores/as, fossem leitores/leitoras, as narrativas romanescas no Oitocentos ainda eram consideradas como “um gênero sob suspeita” (Andréa Correia Paraiso Müller, 2013, p. 106), pois:

Autoridades e críticos literários temiam de modo particular a leitura de romances por mulheres, jovens e membros das camadas populares. Essas parcelas da população eram consideradas mais vulneráveis à influência da literatura; representavam, aos olhos dos que ocupavam posições de poder, um perigo maior se se deixassem influenciar pelo que liam.

Temorosa e conhecedora do perigo que alguns livros poderiam trazer para as moças portuguesas, Carvalho se colocou com o propósito de libertar as mulheres da opressão do seu tempo, em razão das circunstâncias que atravessavam Portugal na transição do século XIX para o XX, como já apontamos aqui anteriormente. Assim, a autora, em Mulheres e Crianças (1880), alertou a respeito dessas mulheres que se fascinavam pela vida burguesa que estava em ascensão em Portugal e que estava também representada na literatura francesa - conforme os autores supracitados - que circulava no país lusitano:

São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel elemento para a sua completa felicidade. São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do ménage, á carne que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de pacotille que não illude, nem excita a commiseração de ninguem. E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos á miseria e á desolação! (Carvalho, 1880, p. 15).

Com uma configuração de um novo código de deveres para a mulher, a autora busca, em suas publicações, a remodelação interior deste ser que deveria se opor à mais célebre das personagens francesas do Oitocentos, Emma Bovary, de Gustave Flaubert (1981), publicada em 1856, ou a tantas outras, como as de Honoré de Balzac. Essas personagens se apresentam como contraponto para a mulher que Carvalho quer educar, já que, em sua perspectiva, a leitura dos romances pode provocar desequilíbrios e alucinações pela distorção entre o real e a ficção:

A ignorância nunca salvou uma só mulher, e se os desequilíbrios fataes da imaginação téem perdido algumas, é isso devido ainda ao mesmo desgraçado facto, quer dizer, á péssima interpretação que até hoje se tem dado á educação e aos deveres da mulher.

A essas basta-lhes de certo a cruz que n’este mundo arrastaram por desfiladeiros escabrosos, por traiçoeiras charnecas. Falo da generalidade das mulheres, das tristes exiladas de todas as alegrias da intelligencia das que, tendo de possuir todas as virtudes heroicas, são ao mesmo tempo condemnadas a todas as enfraquecedoras ignorancias.

Essas é que eu lamento, essas é que eu desejo resgatar (Carvalho, 1886, p. 10-11, grifos nossos).

Conheci uma rapariga a quem por inadvertência, de certo lastimável, deixaram ler aos dezoito anos a obra quase inteira de Balzac. Desde esse tempo, por uma allucinação bem explicável, as figuras creadas pela exuberante fantasia do autor dos Parents pauvres entraram como personagens vivos, palpáveis, reais, na vida da fascinada creança (Carvalho, 1886, p. 205-206).

Na citação acima, fica explícito o combate da autora contra os romances, demonstrando o equívoco da família em permitir que uma jovem lesse, antes dos 18 anos de idade, a obra de Balzac (2012) e, em particular, Parents pauvres [Pais pobres], sendo um contraponto com a vida burguesa que as moças portuguesas almejavam, assim como o protagonista do livro, que era um homem pobre. Qual a relação da pobreza do protagonista com os desejos das moças burguesas? Qual o perigo que se encontra nesse livro, se elas poderiam continuar burguesas? Seria de se renderem a uma vida desregrada e repleta de prazeres mundanos, longe da moral e dos bons costumes?

Ao prosseguirmos analisando a resistência de Carvalho às leituras romanescas, faz-se necessário abrirmos um parêntese para expor, de forma breve, o enredo do clássico Indiana, de George Sand (2021 [1832]) - pseudônimo de Amandine Aurore Dupin. Este livro apresenta personagem feminina que é oposta à proposta de mulher que Carvalho defende nas suas obras, conforme ela aponta e que mostramos mais adiante.

Indiana é uma narrativa sentimental cujo fundamento é a crítica à sociedade patriarcal, mais precisamente ao modo como a mulher era tratada no matrimônio. Aborda temas como a vulnerável condição da mulher na esfera pública e privada -, apontando as opressões e colocando em xeque os paradigmas da ideologia dominante que a marginalizava - e o adultério. Nessa obra, a personagem Indiana, moça de origem nobre, na tentativa de fugir de um casamento arranjado com um Coronel, buscou viver um romance com o personagem Raymon, mesmo sendo rejeitada por ele.

Exemplo de narrativa do Oitocentos, em meio a tantos outras, que trata do adultério, convenções sociais, suicídio e o desejo insatisfeito de amor romântico. Estes temas típicos do romance surgem da exploração do desejo feminino da época, imbricado pelas restrições de classe social e por códigos sociais, no que diz respeito à infidelidade. E, como uma leitora ávida, Carvalho admirava esse tipo de literatura, embora fizesse contraposição a essa personagem, conforme fica explícito em Cartas a Luiza (1886). No primeiro livro, a autora portuguesa faz a seguinte ponderação:

Outra houve ainda, que nos contou nos seus livros a historia acidentada e trágica, cheia de luctas, de lágrimas, de combates íntimos, de remorsos frenéticos, de indomáveis paixões, de melancholico arrependimento da sua vida, que foi como que a epopéa do romantismo.

Adivinhaste já, de certo, que estou falando de George Sand. Desde a Indiana, o seu primeiro livro de guerra até ás ultimas obras, tão pacífica, tão aureoladas de amorável e serena claridade, a gente segue aquella existência de luctadora dos píncaros iluminados pelo incêndio das ruins paixões, que dilaceram e suplicam, até os umbrosos valles da sua aldeia natal [...] (Carvalho, 1886, p. 186).

Entre uma publicação e outra, entretanto, Carvalho emite o seu parecer. Em Cartas a Luiza (1886), a respeito das personagens dos romances de alguns autores franceses, em particular, de Balzac e de Flaubert, ela parte em defesa do primeiro - Balzac -, embora tivesse em páginas anteriores da sua obra condenado a leitura excessiva:

As mulheres de Balsac (sic), porém, não são as heroínas doentias e hystericas de Flaubert, de Goncourt, de Zola, do próprio Daudet, creações que exigem mais do que o pincel delicado do artista, o estudo atento e paciente do médico.

Elle não apresenta casos pathologicos ao horror, á compaixão ou á curiosidade insalubre dos leitores. Não são excepções mórbidas as que ele desenha; são mulheres completas, mulheres de uma quadra de rebaixamento moral ou de remodelação transitória, convenho, mas mulheres com alma, coração, sentimentos, nervos e paixões.

E quantas figuras encantadoras, de um encanto abominável e perverso que só o século XIX podia produzir! (Carvalho, 1886, p. 212).

Na tentativa de alertar sobre os efeitos que a leitura de romances dessa natureza poderia provocar nas mulheres portuguesas, Carvalho, preponderantemente, estabelece, nas três publicações aqui em análise, os livros que as mulheres deveriam ler, uma vez que elas poderiam portar-se com firmeza, mantendo-se longe das tentações. Assim, seu conselho dizia que, como “a arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso é limitar seu alcance”.

Desse modo, a autora nos leva a considerar as palavras de Alberto Manguel (1997, p. 315): “a censura, portanto, de qualquer tipo, é o corolário de todo poder”. E é investida desse poder, o de orientar para a moralidade das moças e mulheres portuguesas, que Carvalho indica as leituras apropriadas. Sua perspectiva se assemelha ao que diz Perrot (1988, p. 180): “[...] a fé contra a razão, a caridade contra o capitalismo e a reprodução como justificativa fundamental constituem os eixos principais dessa moral”.

Primeiramente, em Mulheres e Crianças (1880), entre diversas orientações, apresentamos autores e autoras de origem inglesa, especificamente, no capítulo VI, “Leitura para nossas filhas”:

As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação. Os livros de algumas d’ellas teem a graça d’um narrar discreto e nuancé. Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam, sem a inquietarem.

Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell, Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar, ahi estão para desmentirem.

Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo (Carvalho, 1880, p. 62).

Em outra passagem desse livro, a autora apresenta outra indicação de leitura, sendo esta de origem francesa:

Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras. Intitula-se - Nos filles et nos fils, e contém uma serie de scenas e estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil missão (Carvalho, 1880, p. 142).

Uma única recomendação explícita de leitura pode ser encontrada em Cartas a Luiza (1886, p. 66):

A mãe, já ensinada assim, pela sua própria mãe, ensinara-lhe todas as virtudes por um pequeno livro chamado Cathecismo e sempre em vista da salvação da sua alma, nunca fazendo-a conceber, independentemente de qualquer fórmula religiosa, um ideal de bem, superior e indestructivel.

Tal livro sem indicação de autoria faz parte do acervo da religião católica, presente nos ensinamentos dos códigos de bem viver para as mulheres, assegurando-lhes a moral e os bons costumes.

Nos três livros há, entretanto, diversas impressões de leituras de Carvalho. Há passagens sobre suas preferências, a exemplo de jornais franceses, e das obras romanescas da época, que citam com propriedade autores franceses e ingleses, passando pelas escritoras francesas do século XVIII, em particular as que tinham salões literários, os quais podem demonstrar o conhecimento da literatura europeia, legitimando a autora, pelo lugar que ocupava, a um direito ou até obrigação: o de dar as devidas lições de educação para as mulheres burguesas. Outrossim, as menções às escritoras - Scudery, Lespinasse, Deffand, Girardin, Maintenon, Sevigné, La Fayette, Pompadour e Rolland - que tinham salões - podem evidenciar as características em comum que a autora portuguesa tem com as literatas de outros tempos, já que tinha um salão literário na própria residência.

No livro As nossas filhas: cartas às mães (1905), Carvalho, 15 anos depois da publicação de Mulheres e Crianças, apresenta a mesma orientação de leitura inglesa, conforme os grifos abaixo:

Haverá ainda aquellas que ás artes plasticas prefiram as cousas do pensamento. As que escrevam bellos livros, em que as mães se deliciem e em que as filhas aprendam; excellentes monographias; biographias de homens e de mulheres, cuja existencia póde ser ou um encantamento para o espirito ou uma fecunda lição para o caracter; relações de viagens; livros de propaganda para o povo, tão infeliz e tão pobre de bons livros; romances de observação profunda e de profunda sympathia, como os de George Elliot, ou de vibrante, apaixonada e fremente sensibilidade, como os de mrs. Gaskell ou misse Brontë, ou bellas pinturas de caracteres e costumes, como os de mrs. Humphry Ward (Carvalho, 2017 [1905], p. 59, grifos nossos).

Essa repetição somente ratifica a narrativa circular nas obras de Carvalho, cujos temas, orientações de leitura, semelhança entre forma e conteúdo se repetem e convergem, nos três livros, para o mesmo objetivo: definir o comportamento feminino mais adequado para a época. Esse estilo literário pode se configurar como uma estratégia de convencimento quanto à sua proposta de conduta, a fim de interferir na formação de suas leitoras e também se constituir numa memória coletiva.

Considerações finais

Ao tomar como referência suas próprias vivências e observações sobre o cotidiano lusitano, Carvalho alertou quanto aos perigos que acometiam a sociedade do século XIX e buscou prevenir as mães, dando-lhes orientações para moralizar o feminino e tornar a família mais unida. Conforme as lições da autora, à mulher caberia a manutenção da ordem social e moral, atuando na esfera privada, principalmente, se lhe faltasse um marido e esta tivesse que ser a provedora da família, assim como ela mesma foi após a morte do seu marido. Como tal, deveria agir com elegância, mantendo inabalável sua moral e dignidade, buscando a harmonia entre os sexos e, consequentemente, na sociedade. Acreditava-se que, no período que recortamos para este estudo, o ambiente doméstico deveria ser entregue às mulheres com determinado controle.

Na medida em que, em meados do século XIX, o espaço público foi se tornando um local de convivência de diversos tipos de pessoas e de classes sociais, surgiu um “novo” sujeito, compelido a desempenhar vários papéis na sociedade. Assim, enquanto o homem lutava para manter o seu posto na vida pública, à mulher era destinado o cuidado com a família, espaço privado que era, logo, necessário de se manter como um lugar sagrado. Dessa maneira, ela - esposa e mãe - se tornou a figura responsável por manter o equilíbrio, a harmonia, a paz no lar. Nessa direção, compreendemos que as obras de Carvalho tinham o objetivo de formar a mulher para servir como apoio ao homem, em uma sociedade que, mesmo em transformação entre fins do século XIX e início do XX, precisava conservar alguns de seus antigos valores, em especial, a família.

A família representava, então, uma base social e econômica sobre a qual se fundou a sociedade burguesa, instituída no sistema de propriedade e das empresas comerciais, de modo que ela se mantinha e ou se expandia, articulando-se a outras unidades similares, por meio do casamento de filhos e filhas. Com fins de que esse sistema funcionasse de forma equilibrada, considerando que a família estava acima de qualquer questão, a virtude das mulheres deveria ser a pedra angular. Por isso, a imaginação, a busca pelos desejos fugazes e a paixão física descontrolada eram peremptoriamente temidas e rechaçadas nas obras de Carvalho, que atribuía os desequilíbrios à leitura de romances e do conflito entre fé, ciência e capitalismo, conforme as páginas acima evidenciaram.

Quanto aos livros, objeto de nosso estudo, sua linguagem coloquial e próxima - “amiga”, “querida” - e o uso da primeira pessoa do singular possibilitaram obter confiança no imaginário das leitoras, o que se deu pela escrita de diversas obras no gênero literário epistolar. Sua narrativa - a qual comprovamos como circular, redundante, repetitiva -, que tematizou em suas produções a educação feminina, revela um discurso autoritário e de censura, que classifica, hierarquiza e organiza, de forma unilateral, ou seja, unicamente sob a perspectiva da submissão feminina, o mundo da leitura das mulheres portuguesas.

As obras aqui analisadas abordam um cenário da condição e do papel da mulher portuguesa pela ótica de Carvalho. A autora representa bem a sociedade oitocentista, a qual enquadra a mulher em uma naturalização de papéis sociais como dona de casa, responsável pela educação e instrução dos filhos e da família, sob a superioridade masculina. Carvalho​ é expressamente a provocadora dessa educação feminina por demonstrar que as suas memórias do passado ainda estão no seu presente, na sua escrita, reconhecendo que há questões em aberto e/ou a serem aprofundadas, pois que merecem um olhar acurado a ser empreendido sobre família, Estado e religião.

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    » https://periodicos.pucpr.br/dialogoeducacional/article/view/27363
  • 1
    Objeto de investigação que foi apresentado no XII Congresso Brasileiro de História da Educação, apresentado nas Modalidade(s) Comunicação Coordenada e Área(s) Temática(s) Eixo Temático 11 - Processos educativos e práticas de sociabilidade não escolares, realizado em Natal, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no mês de agosto de 2024.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    SILVA, Fabiana Sena da; SOUSA, Pâmella Tamires Avelino de. “Educação, sociedade e mulher nas obras de Maria Amália Vaz de Carvalho (1880 a 1905)”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 2, e110993, 2026.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    24 Fev 2026
  • Aceito
    02 Mar 2026
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