Open-access Outing midiático no voleibol: performance, voleifãs e paradoxos da visibilidade lésbica

Media Outing in Volleyball: Performance, Fans, and the Paradoxes of Lesbian Visibility

Outing mediático en el voleibol: Performance, voleifans y paradojas de la visibilidad lésbica

Resumo:

O presente estudo parte do episódio midiático de um beijo entre duas atletas de vôlei como instaurador de performances em redes sociais digitais que envolvem: as especulações sobre a sexualidade de atletas lésbicas em ambientes digitais como traço central da mobilização dos chamados voleifãs; as negociações performáticas envolvendo o outing de atletas LGBTQIAPN+ e o engajamento de fãs na nomeação das práticas homoafetivas entre mulheres; e os paradoxos da visibilidade de mulheres lésbicas que operam fortemente sob a lógica da cisheteronormatividade. Aposta-se na noção de outing midiático como dispositivo de revelação da sexualidade de atletas para além das práticas de entrevistas e como forma de ampliação do debate sobre performance e vivências dissidentes no âmbito esportivo.

Palavras-chave:
performance; voleibol; fãs; redes sociais digitais; lésbicas

Abstract:

The study is based on the media episode of a kiss between two volleyball athletes as an instigator of performances on digital social networks, involving: speculations about the sexuality of lesbian athletes in digital environments as a central feature of the mobilization of so-called volley fans; the performative negotiations involving the outing of LGBTQIAPN+ athletes and the engagement of fans in naming homo-affective practices between women; and the paradoxes of visibility for lesbian women, which strongly operate under the logic of cis-heteronormativity. The notion of media outing is proposed as a device for revealing athletes' sexuality beyond interview practices and as a way to broaden the debate on performance and dissident experiences in the sports arena.

Keywords:
Performance; Volleyball; Fans; Digital social networks; Lesbians

Resumen:

El estudio parte del episodio mediático de un beso entre dos atletas de voleibol como instaurador de performances en redes sociales digitales que involucran: las especulaciones sobre la sexualidad de atletas lesbianas en entornos digitales como rasgo central de la movilización de los llamados voleifans; las negociaciones performativas que involucran el outing de atletas LGBTQIAPN+ y el compromiso de los fans en la identificación de prácticas homoafectivas entre mujeres, y las paradojas de la visibilidad de mujeres lesbianas que operan fuertemente bajo la lógica de la cisheteronormatividad. Se apuesta por la noción de outing mediático como dispositivo de revelación de la sexualidad de atletas más allá de las prácticas de entrevistas y como una forma de ampliar el debate sobre la performance y vivencias disidentes en el ámbito deportivo.

Palabras clave:
performance; voleibol; fans; redes sociales digitales; lesbianas

Introdução

Em 13 de outubro de 2022, a Seleção Brasileira Feminina de Vôlei derrotou a Itália em partida da semifinal do Campeonato Mundial de Voleibol Feminino, competição realizada pela Federação Internacional de Voleibol (Fédération Internationale de Volleyball - FIVB). Além de garantir a classificação para a final, aquele confronto, sediado na Holanda, foi cenário para uma cena até então inédita no contexto da midiatização do voleibol feminino no Brasil. Após festejar com as companheiras de seleção, a jogadora da posição de meio de rede, Ana Carolina Silva, dirigiu-se às arquibancadas, de onde a holandesa Anne Buijs, também voleibolista, acompanhava a partida como espectadora. Namoradas desde 2016 e conhecidas pelos shippers (Adriana AMARAL et al., 2015) por meio da alcunha #Buijrol,1 o casal celebrou a conquista da brasileira com um beijo, numa cena que foi flagrada por inúmeras câmeras de celular na plateia e que rapidamente circulou em plataformas de redes sociais.

O episódio serve como ponto de partida para a identificação de um conjunto de enredamentos midiáticos que, dentro de limites normativos em torno da performance de gênero das jogadoras de vôlei, se destaca por promover uma ruptura com uma cultura de silenciamento de relações homoafetivas nas transmissões esportivas. Apesar de terem atuado como companheiras de equipe em clubes brasileiros e/ou estrangeiros por sucessivas temporadas, e de terem conquistado o afeto dos fãs ao longo do seu relacionamento, a dupla levou aproximadamente seis anos para ser de fato nomeada como casal pelos principais veículos de jornalismo esportivo do Brasil.

Este artigo parte da midiatização da cena do beijo entre as jogadoras como um ato performativo (John AUSTIN, 1975; Judith BUTLER, 2003) que instaura uma agenda temática na mídia esportiva e se espraia em redes sociais digitais em torno da nomeação de relações homoafetivas entre jogadoras. Entendemos que a cena mobiliza ecossistemas midiáticos, ativando a visibilidade de práticas de fandom2 de voleibol feminino e questões de gênero e sexualidade que orbitam sobre a modalidade. O beijo das duas jogadoras é debatido como um gesto performativo nas mídias; ou seja, uma ação que, embora espontânea, recebe, através do enquadramento midiático, uma clivagem que passa a operar discursivamente com certa autonomia do ato em si - evocando uma série de ambiguidades sobre as intencionalidades do gesto, suas funções, consequências e desdobramentos. O gesto performativo funcionou como uma forma de outing, ou seja, a revelação sobre a sexualidade das atletas naquilo que se convencionou chamar de mídia tradicional, que englobaria os conglomerados de comunicação em sistema broadcasting e que consagraram a chamada comunicação de massa.

Como questão transversal, cabe debater os papéis da televisão, das transmissões em streaming e das redes sociais digitais na consagração deste formato de aparição em suas dimensões performáticas e mobilizadoras. O gesto protagonizado por Carol e Anne parece ter aberto uma fissura no silenciamento sobre relações homoafetivas femininas no campo esportivo dos sistemas broadcasting, que envolvem, sobretudo, os canais de televisão. Discutimos, no escopo deste artigo, dois campos razoavelmente próximos ao episódio: a dinâmica classificatória de reconhecimento de Carol e Anne como um casal, a partir das formações discursivas entre palavra e poder; e a repercussão na cultura de fãs de vôlei, que passa a ser intitulada “vôleifã”, assumindo uma alcunha que desloca o termo “fã” das abordagens ligadas às culturas de celebridades e da cultura pop para o território esportivo, rivalizando com a noção de “torcedor”, bastante associada ao campo do futebol.

Nas seções seguintes, buscamos compreender o tratamento dado ao relacionamento das atletas pela mídia esportiva - do silenciamento até o processo de outing que culmina na cena do beijo em questão - e como as negociações entre apagamento e visibilidade engendram discussões de gênero e sexualidade relacionadas ao campo dos esportes. Discutimos o papel das práticas de conversação do fandom de vôlei feminino brasileiro e da própria atividade das atletas em seus perfis de mídias sociais como parte da construção de um enunciado que, de tão publicizado, já não pode ser negado pela mídia tradicional.

Narrativas de “outing” nos esportes

Austin (1975) debate o performativo como uma distinção-ação de um enunciado, algo que realiza uma ação simplesmente ao ser proferido. O autor introduziu o conceito de “atos de fala” ao apontar, no campo da filosofia da linguagem, para o caráter declaratório da enunciação em que a própria emissão da declaração é o ato. Austin define o performativo como um enunciado que executa uma ação ao ser pronunciado - “Eu vos declaro casados”, “Estão abertas as Olimpíadas” - na medida em que não descreve uma ação que é realizada, mas é a própria realização da ação. O beijo de duas jogadoras emerge como um ato performativo que enuncia uma ação e implica a sua adequação e eficácia em um determinado contexto social e midiático.

Tomar o beijo entre duas mulheres esportistas como um ato performativo midiatizado pressupõe reconhecer um processo de outing de pessoas LGBTQIAPN+3 no campo das práticas esportivas. As vivências de pessoas dissidentes de gênero envolvem aspectos relacionados à privacidade e aos impactos sociais e emocionais do ato de revelar sua identidade. O outing refere-se ao ato de revelar a orientação sexual ou identidade de gênero de uma pessoa a partir de seu ponto de vista, dentro de seu próprio escopo discursivo, ou também sem o seu consentimento - em forma de denúncia ou de revelação.

O debate sobre o outing é comum nos estudos de performance e dinâmicas sociais LGBTQIAPN+, pois envolve aspectos legais, éticos, organizacionais e relações entre autonomia, privacidade e consentimento. No campo dos esportes, Peter Stott (2019) catalogou, por meio de pesquisa ancorada na análise do discurso, um conjunto de métodos de outing, recorrendo a aspectos históricos que constituíram a base do que o autor chama de uma “diminuição da homofobia cultural e desportiva”. “Anúncios discretos e quase envergonhados”, com “pedidos de desculpas” tanto em livros biográficos ou autobiográficos quanto em veículos midiáticos conviviam com “revelações da imprensa sensacionalista” em formato de escândalos que associavam pessoas LGBTQIAPN+ ao estigma de minorias. Stott aponta para uma mudança nas “histórias e narrativas de outing” a partir tanto da gestão midiática do outing quanto do decréscimo do tom de ameaça ao encerramento da carreira de esportistas LGBTQIAPN+ em função de sua identidade de gênero ou sexualidade.

Eric Anderson, Rory Magrath e Rachael Bullingham (2016) elaboram o outing como um traço da experiência de vida “aberta” no cotidiano esportivo a partir do que chama de redes de apoio para uma experiência de vida “completa”. Ao adotarem uma metodologia de entrevistas e de relatos contidos em livros biográficos, constatam que atletas atestam não viver plenamente suas experiências esportivas em função do fato de “viverem no armário”. A noção de completude, de uma vivência fraturada e de uma necessidade de revelação aparece como traço discursivo e performático. A experiência de uma vida “completa” é apontada como possível diante do que Anderson e Bullingham (2015) classificam como “diminuição de uma homo histeria”, que seria um excesso de ruídos diante da revelação da sexualidade de atletas. Eles apontam para uma normatividade atlética que incidiria na presentificação de corpos masculinos e femininos bastante assentados dentro de padrões de gênero. A homo histeria seria, portanto, uma crise instaurada pelo outing como ruptura de padrões normativos do campo dos esportes.

Cabe uma crítica à noção de homo histeria, na medida em que as variações sobre a noção de histeria são historicamente associadas às mulheres, como um traço de loucura, desvio e crise das normas, como apontam inúmeros estudos feministas em torno das dissidências de gênero no escopo do feminino (BUTLER, 2003; Silvia FEDERICI, 2019). O uso do termo homo histeria pode estar associado às assimetrias de gênero contidas nas identidades da sigla LGBTQIAPN+, para a qual os estudos sobre homens gays encontram ampla ressonância, inclusive nas abordagens que envolvem gênero e esportes.

Elizabeth Cavalier (2013) já identificava esta pregnância masculina nas abordagens sobre esportes, masculinidades e sexualidades ao tratar das experiências de homens cis no campo esportivo, das relações interpessoais, passando pelas formações e alianças em equipes, relações em torno de convivência, aceitação e zonas ambíguas de sexualidade em longos períodos de confinamento e concentração para competições, até mitos em torno do celibato voluntário como forma de concentração de energia para competições - rivalizando com o relaxamento do gozo erótico.

No contexto de pesquisa anglófona, o debate sobre sexualidade e cultura LGBTQIAPN+ nos esportes atribui importância para o processo de outing de atletas da NBA, a liga de basquete mais importante do mundo, sediada nos Estados Unidos. As abordagens dão conta dos problemas de ordem econômica - como perda de patrocínio, diminuição do valor de atividades de marketing, perda de popularidade e demissão de equipes - que acometem atletas LGBTQIAPN+ quando assumem sua sexualidade. Edward Kian, Anderson e Danny Shipka (2015) relatam o processo de outing do jogador de basquete Jason Collins como um importante passo na consolidação de uma agenda pública de outing na NBA, apontando para aberturas possíveis para que outros atletas também ganhassem notoriedade em gestos análogos.

Lori Dann e Tracy Everbach (2016) avançam no debate, ao analisarem a cobertura midiática não só de Jason Collins, mas também da atleta Brittney Griner, revelando as assimetrias de gênero na cobertura, no alcance e na relevância entre homens e mulheres nas intersecções entre gênero, sexualidade e outing nos esportes. As autoras mostram que, embora haja uma salutar normalização do processo de outing, ainda é possível revelar diferenças de tratamento da cobertura jornalística em torno dos atletas: associações do outing com humor, comparações entre diferentes procedimentos de revelação de sexualidade e nas graduais perdas econômicas decorrentes do fato. Jayne Caudwell (2007) sugere que o debate sobre gênero e sexualidade, quando feito de forma organizacional, nos clubes e agremiações esportivas, “queeriza o campo”, abrindo espaço para a diversidade e convivências de diferenças nas práticas esportivas, o que associa os esportes às práticas disciplinares, mas também de cidadania e aprendizado sobre diferença.

Se conjugarmos as teorias sobre ato performativo juntamente com as noções de outing nos esportes, é possível identificar a revelação sobre sexualidade de atletas ancorada em atos de fala, ou seja, entrevistas. O beijo entre as voleibolistas Carol e Anne, captado por câmeras de dispositivos móveis e de televisão, e compartilhado nas redes sociais digitais, difere do status de “ato de fala” e aponta para um gesto sugestivamente performativo, que congrega a carga metafórica do amor, da celebração e da união entre duas mulheres, num ato de aparente espontaneidade e efemeridade. Propõe-se, então, pensar uma nova categoria de outing não ancorada na entrevista ou na revelação através de dispositivos declaratórios, mas aquela que se apresenta como cena, imagem e som que sugerem (re)enquadramentos nas dinâmicas das plataformas digitais.

Endosso e engajamento dos voleifãs

A cena do beijo de Carol e Anne mobiliza um ator social central na cultura digital: o fã. Compreendemos fãs como consumidores de mídia que se envolvem ativa e emocionalmente com os objetos admirados e que mantêm hábitos de consumo previsíveis, com grande potencial de permanecerem estáveis (Matt HILLS, 2002). O termo é frequentemente associado a manifestações da cultura popular, significando um interesse intenso em música pop, esportes, televisão, cinema ou celebridades (Garry CRAWFORD, 2004). Ser fã significa integrar uma dinâmica identitária, comunitária e uma performance (HILLS, 2002). Nesse sentido, suas atividades associam-se à formação de comunidades e de subculturas que por vezes destoam ou desafiam o circuito mainstream (Henry JENKINS, 1992; Cornel SANDVOSS, 2013), e envolvem códigos complexos e subjetivos de autenticidade (CRAWFORD, 2004). Importante assinalar que fãs são frequentemente vistos como sujeitos desviantes, muitas vezes sendo considerados perigosos, retratados como solitários ou histéricos (JENKINS, 1992; SANDVOSS, 2013; CRAWFORD, 2004). Tais estereótipos estão permeados por questões de gênero, como o solitário e introvertido colecionador masculino ou a groupie histérica feminina.

Embora a expressão “fã” tenha originalmente se popularizado para se referir a fãs de esportes do final do século XIX (Viktor CHAGAS; Vivian FONSECA, 2020), no Brasil, a palavra foi pouco incorporada ao âmbito esportivo. Especialmente a partir da consolidação da cultura do futebol, no início do século XX, o termo “torcedor” ou “torcida” (Soraya BARRETO JANUÁRIO, 2019) passou a ser adotado para se referir aos entusiastas da modalidade, cunhado a partir do comportamento de mulheres que torciam os lenços ou as luvas nos momentos mais empolgantes das partidas. Apesar dessa presença feminina na construção do significado do ato de “torcer”, ressalta-se que o futebol, no Brasil, consolidou-se como um espaço que historicamente excluiu as mulheres e que foi demarcado por símbolos representativos de uma masculinidade hegemônica (BARRETO JANUÁRIO, 2019) - como virilidade, força e agressividade, fatores que se associaram à noção de “torcedor”. Sendo o principal esporte do Brasil, com o maior número de adeptos e altos investimentos financeiros, o futebol masculino carrega uma trajetória permeada por práticas de violência, silenciamento e interdição direcionadas a mulheres e populações LGBTQIAPN+ (Silvana GOELLNER, 2003), tanto no campo quanto nas arquibancadas. Esses fatores fizeram da modalidade um ambiente pouco acolhedor para mulheres e pessoas com identidades dissidentes.

A cultura do vôlei no Brasil constituiu-se de modo distinto. A profissionalização e a popularização da modalidade se deu a partir dos anos de 1980, com a chamada “Geração de Prata” da Seleção Brasileira Masculina. O desempenho em competições internacionais, como os Jogos Olímpicos, foi gradativamente gerando mais atenção midiática, permitindo o surgimento de campeonatos nacionais e a transmissão das partidas em veículos especializados, especialmente canais de televisão por assinatura. A Seleção Masculina tornou-se tricampeã olímpica; enquanto a Seleção Feminina viveu momentos memoráveis, como a rivalidade contra Cuba, na década de 1990, e se tornou bicampeã olímpica nos Jogos de Pequim (2008) e Londres (2012).

As conquistas olímpicas aliadas à profissionalização do esporte no Brasil e ao modelo de marketing esportivo que associa importantes marcas a clubes nos principais campeonatos habilitaram o voleibol como segundo esporte coletivo mais popular no país, segundo estudo encomendado ao Ibope pela Confederação Brasileira de Vôlei (VÔLEI BRASIL, 2024). O vôlei fica atrás apenas do futebol de campo, com 32% da população de usuários de internet brasileiros se considerando “muito interessados” na modalidade. Ainda assim, embora a exposição midiática do vôlei tenha crescido, com transmissões em TVs por assinatura com destaque para o canal SporTV do Grupo Globo, sua presença na TV aberta brasileira ainda se reduz a jogos pontuais. A comparação com o futebol que, em 2024, goza de horários fixos na grade de transmissão na TV Globo, aos domingos e quartas-feiras e ainda eventuais aparições em outros dias da semana, localiza o voleibol com uma ampla defasagem de presença no que se convencionou chamar de mídia tradicional.

Por isso, fãs de vôlei brasileiros ainda enfrentam dificuldades para acompanhar os jogos e as informações sobre a modalidade. Como resultado, torcedores encontram nas plataformas e redes sociais digitais um ambiente propício à criação de conteúdo, compartilhamento de acesso a jogos muitas vezes sob forma de pirataria, formando comunidades fortemente apoiadas na ideia de solidariedade. Ao invés de rejeitar o termo fã, parte desses torcedores abraçou a palavra, passando a se autodenominar de “vôleifãs” para representar o fandom do vôlei no Brasil. Com o tempo, a nomenclatura também foi adotada por canais de esportes e pela própria Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em transmissões esportivas e comunicações oficiais, como relatam Ana Maria França e Cecília Lima (2024).

No cerne da subcultura de fãs de vôlei brasileiro, é possível identificar que os consumidores têm características, práticas e comportamentos próprios, distintos dos torcedores de futebol, a começar pelo aspecto demográfico com a forte presença de mulheres. Dados da CBV sobre a plataforma de streaming por assinatura Canal Vôlei Brasil confirmam a maioria de mulheres (54%) e de jovens adultos entre 18 e 34 anos (54%) na base de assinantes de mais de 186 mil fãs (CBV, 2024). Embora não haja estudos que correlacionem o consumo de vôlei a marcadores de sexualidade, a especulação sobre a presença de pessoas LGBTQIAPN+ como vôleifãs é debatida em fóruns e redes sociais digitais. Sob a alcunha da pergunta “Por que gays gostam tanto de vôlei?”,4 o fórum BCharts, dedicado a debates sobre cultura pop, incorporou uma discussão também presente em sites de redes sociais e perfis no Instagram dedicados à modalidade.

O debate sobre o perfil demográfico de pessoas LGBTQIAPN+ como vôleifãs em fóruns de cultura pop permite visualizar práticas comuns aos fandoms de música pop e de vôlei como um traço que difere das dinâmicas de consumo dos torcedores de, por exemplo, futebol. A produção de memes, fanfics,5fancams6 e o já mencionado shipping, focados principalmente em atletas da modalidade feminina, aproximam as práticas de consumo da cultura pop e dos vôleifãs. Jogadoras de vôlei são associadas, em perfis de redes sociais como X (antigo Twitter) e TikTok, a divas pop, sugerindo entrelaçamentos performáticos e discursivos que amparam as vivências em rede de pessoas LGBTQIAPN+.

Tais evidências sugerem que comunidades de vôleifãs consolidam-se como ambientes mais seguros para pessoas LGBTQIAPN+, corroborando a ideia de Mark Duffet (2013) de que fandoms podem ser considerados refúgios potencialmente seguros para indivíduos desviantes de gênero. Para Sandvoss (2005), a experiência do fandom está conectada ao sentimento de “Heimat”, uma zona de segurança física, emocional e ideológica, que se aproxima de um lar, oferecendo uma sensação de segurança e estabilidade emocional.

Kate Crawford (2009), ao explorar o desenvolvimento de conexões por meio das mídias sociais, descreve o compartilhamento de ações, hábitos e experiências cotidianas nas plataformas digitais como a consolidação de vínculos entre pessoas fisicamente distantes e como a criação de zonas de fantasia e especulação. No caso dos vôleifãs, para além da conexão com outros fãs da modalidade, é possível reconhecer a vinculação a seus ídolos quando estes estabelecem uma presença digital. Para Lucy Bennett (2012), o uso de mídias sociais por celebridades pode nutrir e expandir sua base de fãs, criando uma sensação de intimidade, na qual seguidores sentem que estão expostos ao lado autêntico da estrela. Importa ponderar que essa prática envolve o que se pode chamar de “intimidade performada” (Alice MARWICK; danah boyd, 2011), o que faz com que a celebridade pareça mais acessível, destacando seus traços comuns, sem que seja possível distinguir o conteúdo estratégico do espontâneo.

Assim, diante do episódio do beijo entre as atletas e a discussão sobre o outing midiático do casal #Buijrol na mídia, entendemos o contexto da subcultura dos voleifãs nas mídias sociais como central para o processo de consagração e consolidação da noção de casal para as atletas como plataforma discursiva a ser narrativizada nos meios de comunicação de massa como o SporTV. A seguir, analisamos o papel que o perfil na rede social Instagram da atleta Ana Carolina teve nessa construção performativa de um senso de intimidade com Anne, as conjecturas e especulações em torno do romance pelos voleifãs e a demarcação do beijo como um fator de ancoragem e inevitabilidade do que chamamos de outing midiático.

O “aparecimento” do casal Carol e Anne

Ativa no Instagram, a jogadora Ana Carolina Silva, conhecida como Carol ou Carolana, utiliza seu perfil pessoal7 na rede principalmente para divulgar imagens de partidas, celebrando vitórias e comentando derrotas, ou convocando seguidores para acompanhar os jogos de que ela participa, sejam eles válidos pela temporada de clubes ou da Seleção Brasileira. A atleta também utiliza o perfil para publicar imagens em momentos de descontração, com amigos, familiares ou sozinha, além de publicações patrocinadas, motivadas pelo investimento de empresas, e posts relacionados a datas comemorativas e acontecimentos contemporâneos. Anne Buijs, por sua vez, não possui perfil na rede social.

Para este estudo, observamos 606 publicações (posts) da linha do tempo (ou feed8) do perfil de Carol desde outubro de 2016, quando o elenco do clube Rexona/RJ foi apresentado, ocasião em que Carol e Anne se conheceram, até setembro de 2024, momento em que este artigo é escrito. As imagens são complementadas por legendas compostas por caracteres textuais e iconográficos (emojis), que também foram analisados. Para cada post, foram contabilizadas as curtidas e comentários deixados pelo público.

Ao longo do período observado, houve 107 fotografias e/ou vídeos (17,6% do total) em que Anne está visível. Nesse conjunto, a holandesa aparece em situações de grupo (39%), apenas com Carol (55%), ou sozinha (6%). Essas publicações envolvem dois tipos de cenário: 1) A quadra de vôlei (imagens tiradas durante competições ou fotografias oficiais), em que Anne é situada como companheira de clube de Carol; 2) Situações sociais, momentos de lazer que revelam a intimidade da dupla.

Entre outubro de 2016 e maio de 2017, todas as 15 fotos publicadas no perfil de Instagram de Carol em que Anne aparece referiam-se a situações de grupo (em jogos, confraternizações, festas, passeios na praia etc.). Durante esse período, identificamos comentários de interagentes que especulavam sobre o casal e alguns que já se autodenominavam como shippers. Em foto de 12 de março de 2017,9 na qual as atletas aparecem numa praia, juntamente com uma terceira pessoa, um usuário perguntou: “desculpa a intromissão na sua vida mais [sic] vc e a anne bujis estao namorando?”. Na imagem, Anne toca o ombro de Carol e a legenda diz “Dia perfeito”.

Foi em 01 de maio de 201710 que as duas apareceram pela primeira vez sozinhas, numa praia do Rio de Janeiro, em imagem em que Anne beija o pescoço de Carol. Como legenda, Carol escreveu: “My girl... Last day in Brazil!! I’ll miss this...” (“Minha garota… Último dia no Brasil!! Vou sentir falta disso…”), referindo-se ao final da temporada de clubes e à separação física do par, que passaria a atuar em países diferentes. A publicação recebeu mais de 6 mil curtidas e 316 comentários, número acima da média de engajamento que o perfil de Carol recebia, com mensagens de fãs enaltecendo o casal. Consideramos que o grande aumento no número de curtidas justifica-se porque esta publicação funcionou como um outing, ainda que sutil, confirmando um namoro que já era alvo de especulações nas conversações do fandom.

A partir daí, as imagens de Carol e Anne se intensificaram, com fotografias em que elas aparecem em viagens e momentos de lazer, acompanhadas por legendas recheadas de palavras afetivas: “Eu te amo”, “Tudo com você é incrível”, entre outras mensagens publicadas pela voleibolista. A maior parte desses textos é redigida como se fosse dirigida à própria Anne, embora esta não tenha perfil no Instagram, atribuindo assim uma camada de visibilidade pública a mensagens de teor privado, que parecem endereçadas a uma única destinatária. Esse aspecto reforça a “intimidade performada” pontuada anteriormente.

Apesar de mencionarem o afeto presente na relação, os textos de legenda publicados por Carol entre 2017 e 2018 não fazem uso de termos como “namorada” ou outras palavras que pudessem identificar inequivocamente a natureza romântica do relacionamento das atletas. As imagens sugerem um grau de intimidade - beijos na bochecha, no pescoço, na testa - complementado pelo carinho expresso nas legendas (“minha garota”, “te amo” etc.), mas, nesses primeiros anos, não aparecem marcadores imagéticos e/ou textuais que demarquem de forma definitiva o status do casal. Essa característica estabelece uma zona de incerteza em relação ao outing, favorecendo a especulação dos fãs e o desconhecimento por parte do público mais amplo.

A especulação é um dos principais ativos de mobilização entre fãs num contexto de conversações em rede, plataformização e dinâmicas algorítmicas. Entende-se redes sociais digitais como ambientes que promovem e agenciam uma cultura de especulação (Thiago SOARES, 2023) através de rastros e vestígios datificados em affordances (Carlos D’ANDRÉA, 2020) sob a forma de sugestão ou indireta. As práticas digitais da subcultura dos vôleifãs envolvem aspectos especulativos na medida em que colocam em foco não só as qualidades técnicas das atletas, mas a sua intimidade, destacamento de “rixas”, inimizades, problemas de saúde mental e fofocas. Desde meados dos anos 2000, supostos pares românticos do vôlei foram alvo de especulação intensa por parte dos fãs, com destaque para a shippagem em torno das atletas Sheilla Castro e Mari Steinbrecher.11 No caso da especulação ao redor de Carol e Anne, os vôleifãs funcionam como um “termômetro” em torno da formação discursiva e performática do casal - primeiro dentro dos parâmetros das redes sociais digitais e, posteriormente, na televisão.

Gradativamente, os resquícios de ambiguidade vão dando lugar a palavras (“meu amor”12), declarações (“saudades de passar cada segundo do teu lado”13) e imagens que evidenciam mais nitidamente o envolvimento romântico das atletas. Além disso, fotografias do casal em datas especiais como Natal e Réveillon, com mensagens desejando boas festas para o público, tornaram-se tradição ao longo dos anos que se seguiram. Em 14 de fevereiro de 2019,14 Carol fez uma publicação em comemoração ao Dia de São Valentino, que delimita o caráter de oficialização do status de relacionamento. A imagem, em que ela e Anne aparecem tomando café foi complementada pela legenda: “Happy Valentine’s Day ♥️👩‍❤️‍👩 You’re my best company!! Love U”. (“Feliz dia de São Valentino ♥️👩‍❤️‍👩 Você é minha melhor companhia!! Te amo”). Em outra publicação do mês de maio do mesmo ano,15 Carol referiu-se à Anne como “alma gêmea”. Em resposta a essas publicações, os fãs deixam comentários em reconhecimento e admiração ao casal.

Outros momentos marcantes identificados no período analisado incluem mais publicações de Dia dos Namorados, além de postagens em comemoração ao aniversário de Anne (02/12) e ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ (28/06). Sobre este último, em 2020,16 Carol postou uma imagem em que ela e Anne aparecem se beijando, acompanhada pelo texto: “Ser AMOR, Ter AMOR, Compartilhar AMOR!! 🌈♥️✨ #pride2020 #lgbtqiaplus”. Este foi o primeiro post com um beijo do casal, tendo sido curtido por mais de 24 mil usuários.

Assim, consolidou-se entre os voleifãs uma dimensão pública da sexualidade das atletas e do seu relacionamento, que partiu da intencionalidade da jogadora performada em seu perfil. Porém, como aponta Eve Sedgwick (2007), para pessoas LGBTQIAPN+, é comum que o ato de “sair do armário” precise ser repetido diversas vezes ao longo da vida, já que existe uma presunção de heterossexualidade implícita e institucionalizada em grande parte dos ambientes sociais. No caso de pessoas públicas, o “armário” ganha uma série de camadas midiatizadas que estabelecem uma tensão complexa entre modos de visibilidade distintos. Afinal, o perfil de Instagram de Carol, apesar de público, é uma instância restrita aos seguidores da voleibolista, ou seja, àqueles que têm interesse em acompanhar suas publicações.

Apesar da relação de Carol e Anne não ser tratada como um segredo no perfil da brasileira e nem por sites especializados em vôlei, a mídia televisiva de massa, aqui representada principalmente pela Rede Globo e pelo SporTV, canal que detém os direitos de transmissão das principais competições de vôlei do Brasil e do mundo, optou por omiti-la nos comentários dos jogos. Aqui vale a pena pontuar a natureza da transmissão midiática do vôlei. Além do jogo em si, que conta com um narrador e um comentarista, há um repórter em quadra que comenta ações entre técnicos e jogadores. As partidas são classificadas como ambientes amistosos, “para toda família”, em que o tom de informalidade e frugalidade permite mesclar conteúdos técnicos com notas sobre a intimidade.

Wanderley Marchi Júnior (2008) comenta que a entrada da televisão na transmissão dos jogos de vôlei promoveu uma série de alterações particulares do processo de midiatização dos esportes, entretanto, em decorrência de sua natureza mais familiar, o vôlei integrou um ethos mais “aberto”, permissivo e informal, que se converteu em expressividades humorísticas e pessoais - bastante aderente às lógicas meméticas da cultura digital. Casais heterossexuais de atletas da modalidade, a saber, Murilo e Jaqueline ou Dani Lins e Sidão, costumavam ser nomeados espontaneamente em transmissões e tornaram-se pauta em segmentos de jornalismo esportivo. Neste sentido, é possível especular sobre um silenciamento de casais homoafetivos no contexto da transmissão televisiva.

Mobilização de voleifãs em busca de reparação

O silenciamento em torno do casal Buijrol nas transmissões do SporTV funcionou como alicerce para mobilizações em redes sociais digitais com um desejo de reparação. Nas conversações no X, é possível encontrar comentários de fãs de vôlei feminino reagindo ao tratamento17 que situa Carol e Anne como amigas ou apenas companheiras de equipe. Em 2017, durante partida entre Brasil e Holanda em que Carol e Anne se enfrentaram, uma usuária provocou: “Carol é NAMORADA da Anne. Será que se fosse um casal hetero hipoteticamente se enfrentando no vôlei eles já não teriam destacado esse fato?”.18 Em 2019, durante a Copa do Mundo de Futebol Feminino, quando casais de jogadoras foram mencionados por veículos internacionais como a BBC, outro usuário assinalou: “AQUI NO VÔLEI NINGUÉM TEM A DECÊNCIA DE PERGUNTAR PRA CAROL COMO É JOGAR CONTRA A ANNE. ODIOOOO”.19

Os comentários de fãs que cobram da imprensa o papel de dar visibilidade a modos de existência distintos da heteronormatividade apontam para um desejo de reparação: “era uma ótima oportunidade de naturalizar a situação”.20 Esse tipo de posicionamento em torno do contraste entre a vida performática “fora do armário” das atletas no Instagram e o silenciamento em torno da natureza do relacionamento nas transmissões apontam para o que se pode chamar de ativismo de fãs (AMARAL et al., 2015).

Entendemos ativismo de fãs como a mobilização de grupos de fãs em torno de causas sociais, políticas ou culturais, utilizando suas paixões e plataformas para promover mudanças. Liesbet van Zoonen (2004) considera haver uma equivalência entre práticas de fãs e práticas políticas, o que favorece a troca entre os domínios do entretenimento e da política. A partir de seu investimento afetivo, fãs fazem circular informações, discutem, propõem alternativas e deliberam coletivamente práticas essenciais ao exercício democrático. Assim, campanhas para apoiar artistas, denunciar injustiças ou conscientizar sobre questões específicas das subculturas integram uma agenda pública do ativismo de fãs. Fãs podem usar as redes sociais, eventos e outras formas de comunicação para amplificar mensagens e conquistar adeptos em torno de uma causa comum, exercendo influência significativa em alguns casos.

O silêncio da mídia televisiva sobre Carol e Anne perdurou ao longo dos anos seguintes, e o tratamento desigual dado a casais homoafetivos em relação aos heterossexuais continuou sendo notado pela audiência consumidora de vôlei feminino. Em 8 de novembro de 2020, um usuário publicou: “Não ‘entendo’ pq o pessoal do @SporTV adora falar da Jaque e do Murilo, mas nunca falam da Anne e da Carol ou outros casais gays”.21 Já em 28 de março de 2021, outra espectadora afirmava: “A Carol e a Anne são NAMORADAS, mas a galera que narra vôlei ignora esse fato”.22 Além disso, segundo outro usuário, em abril de 2021, o técnico do Praia Clube, Paulo Coco, referiu-se às então comandadas Carol e Anne como um “casal de amigas” em entrevista ao canal após um jogo. A escolha de palavras (“casal” e “amigas”) reforça a ideia de um ‘não dito’, uma interdição ao status do relacionamento das jogadoras naquele espaço midiático. O fato de que essas estratégias (ou acidentes) de omissão e ocultação não passavam despercebidas pelos fãs também realça a conexão deste fandom com identidades LGBTQIAPN+.

No final de 2021, outro veículo de comunicação trataria mais abertamente da relação entre as atletas. Em 16 de dezembro, durante transmissão de partida entre Conegliano e Praia Clube, válida pelo Campeonato Mundial de Clubes, o narrador Rômulo Mendonça, do canal Fox Sports Brasil, chamou atenção para a reação de Carol após um ponto da ponteira holandesa: “Anne Buijs! Olha o sorriso da Carol! E viva o amor, neném!”. O narrador foi elogiado como “um dos poucos que não trata o casal de milhões Carol e Anne como amigas”.23

Já no SporTV, a natureza do relacionamento de Carol e Anne foi nomeada durante uma transmissão da Superliga Feminina de Vôlei de 30 de janeiro de 2022. Naquela partida, Carol não estava jogando, pois havia testado positivo para Covid-19, enquanto Anne optou por jogar de máscara. O comentarista Marco Freitas pediu a palavra para explicar o fato, informando que “Anne normalmente não joga de máscara. Lembrando que a Anne é mulher da Carol, a Carol foi testada e deu positivo”. No Twitter, os voleifãs imediatamente celebraram o reconhecimento. “Vivi pra ver o SporTV falando com naturalidade do relacionamento da Anne com Carol, finalmente”,24 elogiou uma espectadora que incluiu em seu post o trecho de vídeo da transmissão.

Ao longo de 2022, o espaço dado à vida das atletas cresceu progressivamente. Em 16 de junho, pouco antes de uma disputa entre Brasil e Holanda válida pela Liga das Nações, um segmento especial destacou o confronto, como que atendendo ao pedido antigo dos fãs. Durante a transmissão do pré-jogo, o narrador Jader Rocha estava acompanhado pela ex-jogadora e comentarista Fabi Alvim e pela jogadora Carol Gattaz, que, por acaso, foram duas das primeiras voleibolistas brasileiras a se assumirem como lésbicas. A tela foi preenchida por imagens extraídas do perfil de Instagram de Carol, além do texto: “Amor na Liga das Nações: Carol e Anne são namoradas, atuam pelo Praia Clube, mas se enfrentam hoje pelas seleções”. O narrador enunciou:

[...] pra quem não acompanha, as duas [Carol e Anne] são namoradas. E hoje vão se enfrentar. Então imagino como é que não tenha sido o papo... Elas atuam juntas no Praia Clube, dividem o clube e tal, têm o relacionamento delas... Mas hoje é cada uma defendendo o seu lado. A gente tem imagens das redes sociais, elas sempre demonstram muito carinho, que são muito parceiras, dividem os seus momentos com os seus fãs e tudo mais. Um relacionamento muito legal, muito saudável, muito leve, a gente percebe isso (Jader ROCHA, 2022, informação verbal).

No dia seguinte, este trecho do vídeo foi repercutido pelo perfil de Carolana, que festejou: “Que ORGULHO, no mês do orgulho LGBTQIA+, ver o nosso amor ser falado de forma tão natural na televisão. É sempre sobre isso, sobre amar! Que vejamos cada vez mais!!”.25 No Twitter, a matéria também foi comemorada, com usuários reagindo em tempo real: “Que legal o Sportv deixando claro o relacionamento da Anne e Carol, isso tempos atrás jamais seria falado”.26

A culminância desse processo de outing se deu em outubro daquele mesmo ano, durante o Campeonato Mundial de Vôlei Feminino. Ao longo da competição, o Brasil novamente enfrentou a seleção de Anne, eliminando a rival. O confronto contra a Itália, no dia 13, garantiu às brasileiras a improvável vaga na final do campeonato. A cena do beijo de Carol e Anne ganhou as redes sociais, circulando entre fãs e páginas de portais especializados em vôlei, escalou para perfis de esportes, de cultura pop e de cultura lésbica, até ser repercutida pelo perfil oficial da própria CBV,27 que, já no dia 14 de outubro, twittou:

Vídeo mais lindo para finalizarmos esse dia histórico! 🥰 Só hoje a central Carol marcou 10 pontos de bloqueio e recebeu o carinho da namorada Anne e da sogra Irene! Toda a família da Anne, que é holandesa, fez questão de vir para o ginásio torcer pela nossa seleção! (CBV, 2022).

A partir do beijo, o interesse midiático no casal aumentou ao ponto de se tornar assunto da edição de 14 de outubro de 2022 do Jornal Nacional, que exibiu uma reportagem de quase dois minutos sobre o confronto da semifinal, nomeando Anne como namorada de Carol. O telejornal da Globo não mostrou a cena do beijo, mas ela foi exibida dias depois pelo SporTV, junto a uma entrevista exclusiva com Anne. A repercussão foi mais uma vez comentada nas redes de fãs: “Carol e Anne viraram notícia nacional. Te amo, mundial de vôlei. Te amo”.28

Desde então, outros fatos envolvendo o casal foram noticiados pela imprensa. Carol e Anne se casaram, em março de 2023, o que rendeu notícias em portais jornalísticos e comentários durante as transmissões de partidas, com imagens da festa sendo exibidas em segmentos televisivos. O momento parece sugerir uma maior abertura da imprensa para tratar de questões de gênero e sexualidade no campo esportivo, mas tal visibilidade merece maiores problematizações.

Paradoxos da visibilidade lésbica

O processo de visualidade de um casal de mulheres no vôlei brasileiro pressupõe reconhecer o que Guacira Lopes Louro (2004) chama de paradoxos da visibilidade lésbica, um conjunto de fatores que permitem o reconhecimento das lógicas de aparição, negociação e enquadramento de ações de mulheres lésbicas no contexto midiático, evidenciando aspectos contraditórios e conflitantes. Nos Estudos de Performance, o chamado “framing” (BUTLER, 2015), ou o enquadramento de fenômenos que são tomados como gestos-ações para episódios que vão se capilarizar no tecido social, se configura na base para a compreensão de como roteiros performáticos (Diana TAYLOR, 2013) são encenados no campo das mídias. Reconhecer a história do enquadramento sobre os corpos de mulheres que amam mulheres no contexto das mídias permite apontar zonas de permissividade, acomodação e fissura de padrões em torno dessas imagens.

Iara Beleli (2009) aponta para os paradoxos da visibilidade lésbica sob a rubrica da normalidade como uma forma de construção de padrões normativos para corpos dissidentes. Para a autora, compreender o enquadramento midiático a partir dos estereótipos em torno do corpo lésbico e a performance de masculinidade e suas derivações auxilia no entendimento de forças que operam no escopo do olhar e do enquadramento e nas possibilidades de ruptura. Tal noção de normalidade está próxima dos padrões normativos da branquitude e da heterossexualidade como formas de legitimação de práticas sociais e simbólicas. Cabe, então, pensar sobre as dinâmicas de mobilização de voleifãs em torno do casal Buijrol como um traço da prática de shipping inscrita em padrões normativos: ambas gozam do privilégio da beleza e dos padrões normativos do corpo atlético - esguio e desejável, no auge da juventude e da performance física. Na provocação de Beleli, emerge a premissa da normatividade como um aparato de reiteração da norma mesmo diante do olhar sobre corpos dissidentes de gênero.

O argumento de Beleli sobre o enquadramento do corpo lésbico atlético apresenta rastros da clássica tese da teórica feminista Laura Mulvey (1975), ao debater como a forma com que as mulheres são olhadas e enquadradas no cinema refletiria uma perspectiva dominada pelo que a autora chama de “olhar masculino” (male gaze). Ao aproximarmos os argumentos de Beleli e Mulvey, propomos debater como a rasura do olhar masculino permanece no enquadramento do corpo lésbico atlético e normativo, fazendo aderir a uma agenda que mobiliza fãs e admiradores, além de sistemas midiáticos televisivos.

O destacamento de Mulvey que nos interessa é o do prazer visual atrelado às lógicas normativas: olhar um beijo de duas atletas num contexto de amor romântico parece apontar para a reincidência de um padrão sobre um olhar que enquadra o gesto, tornando-o espetáculo visual que, mesmo em sistemas de alta visibilidade, também reitera padrões voyeurísticos. A cena foi captada quase como um “fora de quadro”, acionando aquilo que Mulvey vai avaliar como modos escopofílicos de prazer visual, tornar o outro objeto e pactuar da normalidade a partir de lógicas associativas da cisheteronormatividade.

A teoria de Mulvey foi criticada por ser heteronormativa e por não considerar suficientemente outras formas de olhar bem como a experiência de sujeitos desviantes neste contexto de visualidade. Assim, cabe apontar como a dinâmica de aparição dos corpos lésbicos e de mulheres bissexuais no contexto esportivo está inscrita em padrões que variam a partir dos enquadramentos corporais, das dinâmicas interseccionais e das variáveis que incidem sobre os esportes e suas performatividades.

Considerações finais

O outing das atletas Anne e Carol, analisado neste artigo por meio da interface entre os Estudos de Performance em redes sociais digitais e as abordagens sobre culturas de fãs no campo esportivo, evidencia uma disputa no terreno midiático em torno da nomeação de um casal de jogadoras lésbicas. Postulamos que a cena do beijo gerou tensionamentos discursivos entre as transmissões da mídia televisiva tradicional, as demandas dos voleifãs pela nomeação do estatuto de casal das jogadoras e as publicações de atletas nas redes sociais, constituindo assim uma lógica reparativa para corpos dissidentes nas mídias. O beijo no Campeonato Mundial, compreendido enquanto ato performativo, aparece como um acontecimento midiático que enreda diferentes pontos de vista e favorece, ainda que de forma pontual, o acolhimento por parte da mídia esportiva aos corpos de atletas lésbicas e/ou bissexuais.

A noção de outing midiático, desenvolvida de forma inicial neste artigo, permite a abertura de um campo de estudos sobre as relações entre performance, vivências LGBTQIAPN+ nos esportes e análise de redes sociais digitais como forma de debate sobre a midiatização dos esportes. Diante de uma era profundamente performática e autorreferente nas plataformas digitais, compreender as maneiras como atletas LGBTQIAPN+ constroem seus aparatos discursivos, seja em torno de agendas políticas e militantes, mas também afetivas e sensíveis, coloca em evidência avanços teóricos e metodológicos para os Estudos de Performance. A ideia de outing midiático é produtiva para ampliar o escopo de análises performáticas possíveis para além do reconhecimento da dimensão declaratória de se assumir como LGBTQIAPN+ - já amplamente estudado nos campos acadêmicos sobre esportes e discurso. O outing midiático abre possibilidades para a compreensão das ambiguidades de gestos, ações, enquadramentos e nomeações, acionando classificações, debates públicos e gestões de crise e de marketing, colocando em cena discussões especulativas que envolvem as biografias de atletas, sexualidade e engajamento em rede.

O episódio sugere um agendamento temático sobre a abertura para narrativização de atletas lésbicas/bissexuais no campo midiático. Em junho de 2024, em partida válida pela Liga das Nações, no Rio de Janeiro, a capitã da seleção feminina Gabriela Guimarães entrou em quadra de mãos dadas com a então namorada e ex-jogadora Sheilla Castro, enquanto ela e suas companheiras de equipe vestiam a camiseta de uma campanha da CBV contra a LGBTfobia. Cerca de um mês depois, a jogadora Rosamaria Montibeller, uma das mais populares da seleção feminina de vôlei, com 1,8 milhões de seguidores no Instagram em 2024, concedeu entrevista ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, quando comentou, entre outros assuntos, que a namorada iria aos Jogos Olímpicos de Paris para assisti-la em quadra. A perspectiva de nomeação da sua namorada em um programa da televisão aberta brasileira e a dramaturgia do ato - uma entrevista em tom casual e entusiasmado - sugerem novas condições de aparecimento na política de visibilidade de mulheres lésbicas e/ou bissexuais nos esportes.

Dados do Outsports (TERRA, 2024) corroboram essas novas possibilidades de condições de visibilidade para atletas dissidentes de gênero. Nas Olimpíadas de Paris, de 2024, a delegação do Brasil foi a segunda maior em termos de atletas assumidamente LGBTQIAPN+ (24 atletas). Desses 24 atletas brasileiros, 21 eram mulheres, o que representa quase 90% do total de esportistas que se identificam publicamente como LGBTQIAPN+.

No campo de estudos sobre fãs e cultura esportiva, apontamos para a aparição do termo nativo vôleifã - disseminado nas autonomeações em redes sociais digitais - como sintoma de uma generificação das perspectivas sobre sentidos e sensibilidades de torcer. As práticas de vôleifãs colocam em evidência aproximações temáticas, discursivas, performáticas e estéticas entre a cultura esportiva e a cultura pop, promovendo embaralhamentos discursivos produtivos para estudos futuros. Se tomarmos as quadras de vôlei como lugares povoados por famílias, como ambientes mais aprazíveis e acolhedores que, comparativamente, os estádios de futebol, compreender as práxis de vôleifãs nos habilita a ampliar o escopo de estudos sobre o voleibol no Brasil em suas esferas midiáticas, afetivas e performáticas.

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  • 1
    No âmbito das culturas de fãs, “shippar” um casal é a prática de torcer pela sua felicidade (AMARAL et al., 2015). Shippers geralmente nomeiam os casais admirados formando acrônimos a partir de seus nomes abreviados, como é o caso com as duas jogadoras aqui citadas.
  • 2
    O termo fandom se refere à junção das palavras fan e kingdom, significando “reino dos fãs”.
  • 3
    Sigla para referir-se à população formada por pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgênero/Travestis, Queer/Questionando, Intersexuais, Assexuais/Agênero/Aliados, Pansexuais/Polissexuais, Não-binárias, entre outras.
  • 4
    Disponível em https://bcharts.com.br/t/por-que-os-gays-gostam-tanto-de-volei/56880. Acesso em 10/11/2024.
  • 5
    Histórias criadas por fãs, baseada em personagens, celebridades ou universos de obras já existentes, como filmes, séries, livros, quadrinhos ou jogos.
  • 6
    Fancams são vídeos curtos focados em ídolos, feitos para serem compartilhados nas redes sociais digitais, que capturam detalhes e momentos que nem sempre são mostrados nas transmissões oficiais.
  • 7
    Disponível em: http://www.instagram.com/carolana15. Acesso em 30/09/2024.
  • 8
    Além do feed de publicações, o Instagram possui outro recurso para envio de conteúdos visuais, o Instagram Stories, cujas imagens desaparecem após 24 horas e não podem ser recuperadas.
  • 9
    Disponível em https://www.instagram.com/p/BRjKdrEjDzl/. Acesso em 30/09/2024.
  • 10
    Disponível em https://www.instagram.com/p/BTj3CqPD-ZW/. Acesso em 30/09/2024.
  • 11
    Sheilla Castro e Marianne “Mari” Steinbrecher (Shari) teriam começado a se relacionar por volta de 2006. Fãs participavam de fóruns específicos para falar do assunto, discutindo evidências do (até então) suposto namoro e de seu posterior término. As atletas teriam rompido à época das Olimpíadas de Londres, em 2012, o que supostamente teria influenciado no corte de Mari para os referidos jogos. A especulação dos fãs mostrou contornos de “detetivismo”, com indícios como tatuagens, anéis, fotografias, declarações de atletas e publicações em redes sociais digitais sendo citados como comprovação do relacionamento. Entre várias outras contas dedicadas ao casal, o perfil Acervo Shari é um exemplo de página que reúne registros que permitem recuperar a história da dupla. Disponível em: https://x.com/acervoshari. Acesso em 13/11/2024.
  • 12
    Disponível em https://www.instagram.com/p/Bng1ASWHje7. Acesso em 30/09/2024.
  • 13
    Disponível em https://www.instagram.com/p/BnxRrLoH5Uq. Acesso em 30/09/2024.
  • 14
    Disponível em https://www.instagram.com/p/Bt3rJlIgYYn. Acesso em 30/09/2024.
  • 15
    Disponível em https://www.instagram.com/p/BxS9xk0BOk_. Acesso em 30/09/2024.
  • 16
    Disponível em https://www.instagram.com/p/CB_UIdqBTwT/. Acesso em 30/09/2024.
  • 17
    Os posts foram coletados a partir das configurações de busca avançada do X. Inserimos combinações de palavras-chave relacionadas aos objetivos deste artigo (“Carol”, “Anne” e “Sportv”; “Carol”, “Anne” e “Vôlei”, e “Carol”, “Anne” e “VoleiNoSporTV”) nas opções predefinidas da plataforma. Os tweets que mencionavam o tratamento dado ao casal pelos narradores e comentaristas do canal foram inseridos numa planilha. A coleta não teve finalidades quantitativas, servindo para estabelecer uma cronologia das transmissões do canal SporTV em que as duas jogadoras estavam em quadra, para identificar momentos em que o relacionamento foi (ou não) enunciado.
  • 18
    Disponível em https://x.com/Mari_gaf/status/888463808548786182. Acesso em 30/09/2024.
  • 19
    Disponível em https://x.com/boskovix18/status/1097149008450080768. Acesso em 30/09/2024.
  • 20
    Disponível em https://x.com/mariah_fernanda/status/1096456809597026305. Acesso em 30/09/2024.
  • 21
    Disponível em https://x.com/amoreto/status/1325459083990851585. Acesso em 30/09/2024.
  • 22
    Disponível em https://x.com/Mari_gaf/status/1376322347305689090. Acesso em 30/09/2024.
  • 23
    Disponível em https://x.com/costagrandecath/status/1475593788114489345. Acesso em 30/09/2024.
  • 24
    Disponível em https://x.com/alineoli1290/status/1487916007834677250. Acesso em 30/09/2024.
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  • 26
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  • 27
    Disponível em https://x.com/volei/status/1580742393086676992. Acesso em 30/09/2024.
  • 28
    Disponível em https://x.com/carlaluccio/status/1580728923234906112. Acesso em 30/09/2024.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    LIMA, Cecília Almeida Rodrigues; SOARES, Thiago. “Outing midiático no voleibol: performance, voleifãs e paradoxos da visibilidade lésbica”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 2, e 105351, 2025.
  • Financiamento:
    Artigo financiado com Bolsa Produtividade em Pesquisa Nível 2 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o coautor Thiago Soares
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Fev 2025
  • Aceito
    21 Fev 2025
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