Resumo:
Os estudos feministas da deficiência nos mostram que o esporte é uma arena marcada por corpos masculinos e sem deficiência. Dentro dessa arena, a mídia tem papel fundamental ao reforçar estereótipos de gênero e normatividade. Por outro lado, as atletas paralímpicas têm, cada vez mais, utilizado as mídias sociais para se autorrepresentarem e tomar o controle da narrativa sobre seus corpos, histórias e deficiências. Ao empregarmos a análise de conteúdo, buscamos explorar as formas de autorrepresentação feitas por duas atletas paralímpicas, uma brasileira e uma norte-americana, no Instagram, focando suas representações relacionadas à tríade: gênero, deficiência e esporte. Nossos resultados apontam que a brasileira se representa primeiro como atleta, reforça os padrões de feminilidade sem, no entanto, esconder sua deficiência, enquanto a norte-americana opta por focar sua identidade enquanto mulher.
Palavras-chave:
gênero; deficiência; esporte; atletas paralímpicas; Instagram
Abstract:
Feminist Disability Studies show us that sports are an arena marked by male bodies without disabilities, and within this arena the media plays a fundamental role in reinforcing gender stereotypes and normativity. On the other hand, Paralympic athletes have increasingly used social media to self-represent themselves and take control of the narrative about their bodies, stories and disabilities. Using content analysis, we sought to explore the forms of self-representation made by two Paralympic athletes, one Brazilian and one American, on Instagram, focusing on their representations related to the triad: gender, disability and sport. Our results indicate that the Brazilian represents herself first as an athlete, reinforcing the standards of femininity without, however, hiding her disability, while the American chooses to focus on her identity as a woman.
Keywords:
Gender; Disability; Sport; Paralympic Athletes; Instagram
Resumen:
Los estudios feministas da disapacidad nos muestran que el deporte es un ámbito marcado por los cuerpos masculinos e sin disacapacidad, dentro de este ámbito los medios de comunicación juegan un papel fundamental en el refuerzo de los estereotipos y la normatividad de género. Por otro lado, las atletas paralímpicas han utilizado cada vez más las redes sociales para autorrepresentarse y tomar el control de la narrativa sobre sus cuerpos, historias y discapacidades. A través del análisis de contenido, buscamos explorar las formas de autorrepresentación realizadas por dos atletas paralímpicas, uno brasileña y otra norteamericana, en Instagram, centrándonos en sus representaciones relacionadas con la tríada: género, discapacidad y deporte. Nuestros resultados indican que la mujer brasileña se representa a sí misma primero como deportista, reforzando los estándares de feminidad sin ocultar, sin embargo, su discapacidad, mientras que la norteamericana opta por centrarse en su identidad como mujer.
Palabras clave:
género; deficiencia; deporte; atletas paralímpicos; Instagram
Introdução
Existem menos mulheres participando do esporte, e isso também é um fato no esporte adaptado. Essa disparidade tem razões complexas e diversas como relações de poder, barreiras sociais, culturais, políticas e religiosas. Pesquisas como a de Lyusyena Kirakosyan (2021) assinalam que os principais problemas apontados pelas atletas paralímpicas brasileiras são recursos financeiros escassos, falta de suporte, transporte adequado e arenas acessíveis. As atletas com deficiência, em comparação com os seus pares do sexo masculino, enfrentam mais barreiras sociais e culturais que dificultam o acesso a oportunidades no esporte e acabam por desencorajá-las de seguir com carreiras esportivas. Lisa Olenik, Joan Matthews e Robert Steadward (1995) entrevistaram atletas paralímpicas e concluíram, em seu estudo, que as famílias ou comunidades em que essas mulheres estão inseridas podem não considerar a prática do esporte para pessoas com deficiência como “normal”. Assim, a prática esportiva pode reforçar a ideia de ser “diferente”, o que pode afastá-las ainda mais do esporte.
Os estudos feministas nos mostram que o esporte é uma arena marcada por corpos masculinos, e seus sentidos, objetivos, organização e experiências são construídos e valorizados como atributos de formas dominantes da masculinidade na sociedade. Em geral, a ideia de força física, ou poder, é vista como incompatível com as definições de feminilidade; muitas vezes, então, a mera presença da mulher no esporte subverte as ordens sociais ligadas ao gênero, uma vez que sua participação e sexualidade foram historicamente negadas, uma vez que as características femininas, presentes ou ausentes, desvirtuam a hegemonia masculina. As mulheres atletas com deficiência ferem ainda a ordem social corponormativa, ao apresentarem um corpo funcional e apto para o esporte, desafiando a ideia de que seus corpos são inferiores, incompletos e passivos.
Dentro dessa arena, a mídia tem papel fundamental ao relacionar ideais como agressividade, força e competitividade a atletas masculinos, enquanto características como emoção, passividade e fraqueza são relacionadas às mulheres atletas, fortalecendo estereótipos. Nesse sentido, os discursos midiáticos ajudam a definir, normalizar, influenciar e refletir os valores dominantes. As imagens de mulheres atletas com deficiência na mídia, por sua vez, quando existentes, tendem a representá-las como passivas e esconder seus corpos e deficiências.
Podemos citar dois exemplos de como as atletas com deficiência são excluídas ou deslegitimadas na mídia tradicional. Uma campanha publicada em março de 2016 - meses antes dos Jogos Olímpicos do Rio - em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, apresentava um clip com três atletas olímpicas que celebravam “as vitórias, conquistas e superação de todas as mulheres do Brasil”, e terminava com a frase “Somos todos Olímpicos”. A campanha excluía as atletas paralímpicas e o que elas representam, como se não fossem mulheres a serem celebradas. Outro caso emblemático foi o ensaio da Vogue Brasil publicado no perfil da revista no Instagram, em agosto de 2016, que tinha por objetivo homenagear os atletas paralímpicos na sequência da campanha “Somos todos Paralímpicos” e que gerou polêmica. Isso porque os atores brasileiros e sem deficiência Paulo Vilhena e Cléo Pires eram apresentados em imagens digitalmente alteradas a fim de simular a presença da deficiência em seus corpos, ao invés de retratar pessoas ou atletas com deficiências reais.
Por outro lado, as mídias sociais permitem que essas pessoas lidem diretamente com a sociedade, com possibilidades de concordar, contrapor ou complementar o que é divulgado pelos meios tradicionais (Jimmy SANDERSON, 2010). De acordo com Katie Ellis e Gerard Goggin (2015), as mídias sociais como Instagram, Facebook, Blog, X/Twitter etc. permitem que as pessoas com deficiência valorizem sua identidade, podendo, inclusive, influenciar a agenda midiática ao oferecerem representações e interpretações conforme a perspectiva desse grupo de indivíduos. No entanto, devemos levar em conta que a internet é ao mesmo tempo uma forma democrática de acesso a serviços, ou ao mundo, com enorme potencial de promoção de justiça social, mas também é mais um elemento que fortalece as desigualdades, principalmente no que se refere à inacessibilidade, seja de plataformas e aplicativos, seja do próprio acesso à internet.
No esporte, as mídias sociais e a Web 2.0 transformaram a interação entre torcedores, ou fãs de esporte, e seus ídolos. As novas ferramentas dão às usuárias a oportunidade de revelar informações e perspectivas que, de outra forma, não estariam disponíveis. Assim, neste artigo, nos situamos nos debates sobre o potencial das mídias sociais em dar visibilidade a paratletas, uma vez que elas têm menos cobertura midiática que homens e que atletas sem deficiência. Buscamos, assim, explorar as formas de autorrepresentação feitas por duas atletas paralímpicas, uma brasileira e uma norte-americana, no Instagram, entre agosto e setembro de 2021, focando suas representações relacionadas à tríade: gênero, deficiência e esporte.
Estudos feministas da deficiência
O conceito de deficiência é abrangente por ser um termo que inclui diversas variações e grupos e todos com corpos que não se adequam a certos padrões culturais. Além disso, o conjunto de estruturas e práticas sociais, geralmente inacessíveis a esse grupo, reforça seu lugar à margem. Dentro dos Estudos críticos da deficiência, existem diversos modelos que visam entender a deficiência, sendo o médico e o social considerados os modelos clássicos e os mais discutidos na literatura.
No modelo médico, a deficiência é vista como um problema que precisa ser tratado. Através deste modelo, busca-se que as pessoas com deficiência sejam, ou voltem a ser, funcionais para que, assim, possam ser integradas à sociedade. Este modelo trabalha a partir de uma perspectiva biológica e vê as limitações individuais como a principal causa das múltiplas dificuldades experienciadas pelas pessoas com deficiência. Também adota as definições e percepções nas quais a deficiência é tida como uma incapacidade que resulta na perda ou limitação de uma ou mais funções (Nigel THOMAS; Andy SMITH, 2009).
Face à crescente insatisfação com a explicação medicalizada dominante, que prevaleceu durante o século XX, este pensamento e prática ortodoxos começaram a ser questionados por diversas organizações autônomas a partir do final dos anos 1960 quando ativistas, especificamente pessoas com deficiência, se organizaram e ergueram bandeiras contra o modelo vigente (THOMAS; SMITH, 2009; Bill HUGHES, 2000). O modelo social surge e transfere o foco do corpo para o ambiente e as barreiras que excluem as pessoas com deficiência da sociedade (THOMAS; SMITH, 2003). Nesse modelo, a pessoa com deficiência é construída por mecanismos de repressão cultural e institucional que policiam o corpo e a construção de um mundo inacessível. Esta abordagem considera uma vasta gama de fatores e condições, tais como as circunstâncias familiares, suporte financeiro, educação, mercado de trabalho, habitação, transporte e o ambiente físico, entre outros.
Tal como aconteceu com o modelo médico, o desenvolvimento do pensamento acerca da deficiência levou também o modelo social a ser alvo de críticas. Os primeiros teóricos do modelo foram homens brancos com deficiência e membros da elite econômica e intelectual, o que levou o movimento a não politizar as questões de gênero. Foram, portanto, as feministas as primeiras a apontarem os problemas do modelo social. Foram elas que, pela primeira vez, trouxeram o tema da dor e da experiência do corpo com deficiência e do corpo doente - aqueles que não serão produtivos ou independentes - para o centro das discussões. Assim, a principal crítica ao modelo social é o fato de que ele representava o esquecimento da experiência fenomenológica do corpo.
Thomas Gerschick (2000) nos alerta de que, para contextualizar a experiência de mulheres e homens com deficiência, é preciso estar atento a três conjuntos de dinâmicas sociais: o estigma associado à deficiência; o gênero como processo interacional; e a importância do corpo para a performance de gênero. Assim, ainda segundo esse autor, para terem suas performances de gênero validadas, as pessoas com deficiência precisam, primeiro, serem reconhecidas enquanto sujeitos. Percebemos, então, que o corpo é central nesse processo de reconhecimento do gênero, uma vez que é o local onde ele é performado. Para o corpo das pessoas com deficiência que, muitas vezes, é apagado e invisibilizado, o tipo de deficiência, bem como sua extensão e sua visibilidade (se são mais ou menos perceptíveis ao olhar), medeiam o grau de comprometimento social desse corpo. Para deixar ainda mais clara essa relação, Gerschick (2000) aponta que crianças que nascem com alguma deficiência severa terão uma designação de sexo, porém aqueles que as rodeiam terão baixas expectativas quanto à performance e ao reconhecimento de gênero, enquanto crianças com deficiências menos severas ou menos perceptíveis poderão experienciar as categorias de gênero de forma diferente.
Durante os anos 1980, as pesquisas que focavam as experiências vividas por mulheres com deficiência (Michelle FINE; Adrienne ASCH, 1988; Jenny MORRIS, 1991) mostravam que as questões e experiências específicas desse grupo permaneciam invisíveis e fora do debate acadêmico, tanto de feministas quanto dos estudos da deficiência, e mostravam que reconhecer as diferenças de gênero dentro do movimento de pessoas com deficiência era fundamental.
Na primeira década dos anos 2000 houve um aumento no número de publicações que traziam a intersecção entre estudos feministas e da deficiência, o que ampliou o debate nessa área. Muitos desses trabalhos continuavam focando as experiências vividas por mulheres com deficiência trazendo narrativas em primeira pessoa. Morris (1991) afirma que a desvalorização da deficiência, conceitualizada e vista a partir de uma visão capacitista, leva à ideia de que essas vidas não têm valor, ou seja, são vidas que não importam, como nos traz Judith Butler (2000), e por isso devem ser extintas. Morris também aponta que as feministas têm historicamente excluído as mulheres com deficiência dos debates e das pesquisas e situa a necessidade de criar novos enquadramentos teóricos que se situem na intersecção entre as duas categorias.
Assim, Rosemarie Garland-Thomson (2004) propõe a teoria feminista da deficiência a partir da perspectiva interseccional que une feminismo e deficiência a fim de demonstrar que as instituições, práticas, construções e discursos sociais fazem com que corpos categorizados como femininos e com deficiência sejam alvo de, no mínimo, uma dupla desvantagem, ou, nas palavras de Ossie Stuart (1993), uma “opressão simultânea” - em que a experiência da opressão é mais do que a soma das partes - por um lado, pela sociedade patriarcal e, por outro, pela corponormatividade, que pode ser entendida como um conjunto de normas e regras construídas socialmente que definem quais são os corpos adequados.
Garland-Thomson (2005) afirma que a deficiência é uma importante categoria para a teoria feminista porque questiona identidade, teoriza a interseccionalidade e investiga a corporalidade. Os estudos feministas da deficiência, vertente através da qual essa pesquisa se desenvolverá, analisam as relações de poder, visando também corrigir o feminismo tradicional que ignora, sub-representa ou até vai de encontro às necessidades de mulheres com deficiência, como, por exemplo, a capacidade reprodutiva de seus corpos - a maternidade é vista como tabu e o “corpo grávido” da mulher com deficiência choca (ver MILLETT-GALLANT, 2017) -, ou a escolha pelo aborto de fetos com deficiência, ou a luta das mulheres por autonomia e independência que ignora as necessidades dos corpos de mulheres com deficiência.
As premissas fundamentais da teoria crítica feminista da deficiência são: que a representação estrutura a realidade; que a margem define o centro; que gênero e deficiência são formas [de] dar sentido às relações de poder; que a identidade humana é múltipla e instável; e que todas as análises e avaliações têm implicações políticas (GARLAND-THOMSON, 2001, p. 06).
O objetivo dos Estudos feministas da deficiência é, portanto, aumentar os limites de nosso entendimento sobre a diversidade humana, o corpo, o multiculturalismo, e as construções sociais que interpretam as diferenças corporais (GARLAND-THOMSON, 2004).
Gênero, deficiência e esporte nas mídias
Ao considerar que a deficiência é uma categoria culturalmente construída que produz sentidos por meio das diferenças corporais, percebemos que gênero e deficiência funcionam como sistemas de opressão. Isso nos leva a pensar deficiência e gênero como significantes culturais. “Juntos, os sistemas de gênero, raça, etnicidade, sexualidade, classe, e capacidade [deficiência] exercem imensa pressão social para moldar, regular e mobilizar corpos subjugados” (GARLAND-THOMSON, 2004, p. 80, tradução nossa).
Entendemos que essas opressões ficam ainda mais latentes quando a mulher está inserida no âmbito esportivo, pois ela enfrenta barreiras associadas ao fato de ser mulher com deficiência em um mundo masculino, corponormativo e heteronormativo.
Os sistemas sociais marcados pela corponormatividade e heterossexualidade compulsórias construíram uma história representacional marcada por uma ausência quase completa de um corpo deficiente generificado. De fato, a deficiência é uma questão adicional na construção tanto da masculinidade, ligada a ideologias capacitistas de fisicalidade, autonomia e poder, quanto da feminilidade, ligada à estética “normativa” da beleza e à atração física.
Garland-Thomson (2005) afirma que a aparência tende a ser o aspecto mais excludente da deficiência, e que corpos que não se conformam com as expectativas sociais de comportamento e estética sofrem profunda discriminação. Ann Millett-Gallant (2008) discute a representação de mulheres com deficiências como indivíduos socialmente produtivos e seres sexuais por meio da introdução da escultura Alison Lapper Pregnant, que foi exibida em 2005 em uma praça de Londres. Lapper, que nasceu sem braços e com pernas encurtadas, foi retratada nua quando estava grávida de 7 meses. De acordo com Millett-Gallant (2008), a obra gerou polêmica - enquanto Lapper foi chamada de heroína contemporânea da diversidade cultural, o trabalho foi considerado um golpe publicitário de mau gosto. Ao contrário das fotos de corpos de celebridades grávidas em revistas femininas tradicionais, como Demi Moore, que posou nua no sétimo mês de gestação em 1991 para a capa da revista Vanity Fair, ou como diversas celebridades como Rihanna, Taís Araújo e Claudia Raia, que publicaram fotos em seus perfis de mídias sociais em que posavam nuas durante a gravidez, o corpo grávido de Lapper não se conforma aos padrões e valores estéticos e sociais. Seu corpo provoca, em muitos, o medo de que um corpo deficiente gere outro corpo deficiente ou, nas palavras de Millett-Gallant, uma “(...) criança ‘danificada’ - de um corpo ‘quebrado’ e de um lar ‘desfeito’” (2008, p. 431, tradução nossa). Em uma sociedade que idealiza o corpo, pessoas que se desviam dos ideais e normas tornam-se, conforme Susan Wendell (1996, p. 91, tradução nossa), “pessoas desvalorizadas por causa de seus corpos desvalorizados”.
No livro Feminist, Queer, Crip, Alison Kafer (2013) relata a história de Ashley X, uma criança que nasceu com encefalopatia e que, aos 8 anos, após os médicos concordarem que ela não se desenvolveria mais, em comum acordo com os pais, para que esses pudessem cuidar de Ashley em casa, decidiram por atenuar o crescimento da menina através da administração de altas doses de estrogênio, remoção do útero e mastectomia. Kafer afirma que as feministas têm historicamente criticado a redução da mulher às suas capacidades reprodutivas, no entanto, o caso de Ashley X, ao mesmo tempo, possibilita e complica essa redução, uma vez que, por um lado, por conta do tratamento, é vedada à Ashley a possibilidade de reprodução e, por outro, mostra o quanto o corpo da mulher é sempre enquadrado a partir de questões reprodutivas. Ao falar sobre a mastectomia, Kafer afirma:
A incapacidade ou falta de vontade de imaginar esses prazeres [do toque dos seios] é fruto de abordagens culturais à sexualidade feminina e à deficiência. É aparentemente inconcebível imaginar o corpo de Ashley - seu corpo feminino com deficiência - como a fonte de qualquer sensação que não seja dor. Temos poucas ferramentas para reconhecer a sexualidade feminina, particularmente a sexualidade da mulher com deficiência, como positiva; nem podemos reconhecer o potencial para uma sexualidade autogerada e autodirigida (KAFER, 2013, p. 65, tradução nossa).
Assim, percebemos que os estereótipos culturais enquadram as mulheres com deficiência como assexuadas, incapazes de se reproduzir, excessivamente dependentes, pouco atraentes, geralmente afastadas da esfera da verdadeira feminilidade e da beleza feminina.
Tatiane Hilgemberg (2023) discute o ensaio fotográfico “Meet Ellen Stohl”, publicado na Playboy americana em 1987, a primeira vez em que uma mulher com deficiência foi fotografada pela revista.
Nas fotos em que aparece nua, a deficiência da modelo está invisível, sua cadeira de rodas não aparece, ela não posa de pé, está sempre sentada ou deitada, e não há qualquer indício de sua paraplegia. Contudo, nas fotos do dia a dia ela é representada fazendo coisas consideradas inacessíveis para pessoas com deficiência. Há uma clara divisão entre a sexualidade em que a deficiência está invisível e o cotidiano em que a deficiência é mostrada (HILGEMBERG, 2023, p. 98).
Ben Mattlin (2022) aponta que hoje, trinta e dois anos depois da publicação da edição da Playboy, Ellen diz ter orgulho das fotos, uma vez que essa foi uma das formas que encontrou de expressar sua sexualidade. Apesar de considerar a revista Playboy como uma publicação não feminista por objetificar o corpo da mulher, reforçar padrões de beleza e contribuir para a opressão do patriarcado, Ellen reconhece ter sucumbido a esses estereótipos, mas afirma que a ideia era romper com a definição de sexy, uma vez que as mulheres com deficiência são consideradas assexuais, e mostrar que as mulheres podiam aceitar suas imperfeições e buscar sua própria beleza.
Como afirmamos, as atletas com deficiência são enquadradas de forma assexual através do processo de infantilização e trivialização com representação de dependência passiva e infantil e falta de autonomia. Contudo, a partir de Londres 2012, em sintonia com a mercantilização do espetáculo paralímpico, percebe-se uma cobertura mais sexualizada e generificada muito semelhante ao esporte olímpico, como, por exemplo, a revista inglesa FHM com a publicação da sessão Hottest Female Paralympians (Atletas Paralímpicas mais belas) e o jornal Daily Mirror’s, com a publicação de uma lista das Sexiest Female Paralympians (Atletas Paralímpicas mais sexys). De acordo com Pullen e Silk (2020), essas listas de beldades levantam questões sobre deficiência, esporte e sexualidade, com foco nas ideologias de heteronormatividade compulsória. Percebe-se, portanto, o crescimento de uma cultura sexualizada e de celebridades sobre a deficiência (“estética protética”). Um exemplo é o da modelo e atleta Aimee Mullins, que é celebrada por sua feminilidade, apesar de sua prótese. Luna Dolezal (2017) destaca como Mullins - uma atleta paralímpica aposentada, amputada abaixo do joelho - desafiou as percepções capacitistas de que as mulheres com deficiência são vulneráveis, assexuadas ou que falta a elas feminilidade. A ex-atleta e agora modelo e embaixadora de diversas marcas promove sua deficiência e uso de próteses como objetos de beleza de forma a subverter e reivindicar uma forma de feminilidade deficiente. E, atualmente, diversas modelos e influenciadoras mostram suas deficiências em fotos como parte de seus corpos e também como forma de expressar sua sexualidade, sensualidade e feminilidade.
O esporte foi criado por e para pessoas sem deficiência, dá prioridade para alguns tipos de movimentos humanos e apresenta também padrões por meio dos quais os atletas são avaliados. Esses padrões são designados, segundo Ian Brittain (2012), para destacar e reverenciar o extremo da perfeição corporal através da associação com fitness, saúde, dinamismo, juventude e apelo sexual, o que está fortemente em contraste com a imagem do esporte para pessoas com deficiência, vistas como “doentes”, “aleijadas”, “deficientes”, “mutiladas” (Otto SCHANTZ; Keith GILBERT, 2001). E há a naturalização do poder que subjuga o diferente, ou o “outro”, à autoridade representada pelo sexo, cor da pele, gênero, etnia, classe social, ou seja, o poder é representado pelo homem, branco, cisgênero, de classe social mais elevada e sem deficiência. A classe dominante mantém seu poder hegemônico, em parte, através dos meios de comunicação. Então, por um lado, as pessoas com deficiência são alvo de um discurso dominante capacitista, principalmente pela mídia tradicional, que reforça ideologias, enquadra determinados aspectos e leva sua audiência a uma rede simbólica de significações que organiza o mundo social.
Emma Pullen e Michael Silk (2020) afirmam, ainda, que a representação do corpo masculino com deficiência tem um espectro mais diverso, por conta, em parte, da afinidade entre deficiência, guerra, militarização e esporte paralímpico. A história dos jogos é, inclusive, associada à reabilitação de soldados feridos na guerra. Portanto, o processo de reabilitação pelo esporte não é visto como o rompimento com a masculinidade, mas como o ressurgimento de uma nova forma de masculinidade resiliente.
Podemos apontar dois exemplos da análise da programação paralímpica transmitida pelo canal britânico Channel 4 durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016, feita por Pullen e Silk (2020).
O corpo de Richard Whitehead, atleta biamputado britânico, é apresentado em um vídeo promocional como um corpo tecnologicamente capacitado por suas próteses de fibra de carbono, evocando uma visão “ciborguetificada”. A narrativa em torno do atleta evoca a ideia de que superar a deficiência é meramente uma questão de motivação. Em algum momento da vinheta, o atleta aparece sentado na pista, seus membros amputados são expostos enquanto ele encaixa as próteses. Os autores entendem essa cena como demonstração de controle, ajuste e transformação através das próteses, significando e reenquadrando as relações de poder através da capacidade (funcionalidade), masculinidade (controle) e lógica neoliberal (estética) como marcadores de sucesso. Seu dorso nu, ao final do vídeo, é focalizado - uma imagem tão presente na cultura popular em que o corpo é apresentado para o consumo.
Ao contrário, Ellie Simmonds, atleta britânica com nanismo, teve menor visibilidade no filme promocional. Seu corpo é invisibilizado, aparecendo submerso na água, ou com a atleta sentada. Ela também passa por um processo de infantilização. Simmonds não é representada de acordo com as ideias de feminilidade e embelezamento vigentes para o corpo feminino, mas, sim, segundo a “objetificação assexual”. Pullen e Silk (2020) afirmam que sua baixa estatura apresenta uma complicação material para a estética feminina e que isso pode contribuir para que seja infantilizada.
Por outro lado, as mídias sociais permitem que essas pessoas lidem diretamente com a sociedade, e seu alcance é importante especialmente para minorias com pouca visibilidade na mídia tradicional, como é o caso de atletas paralímpicas, pois há potencial para mitigar percepções negativas. As atletas recebem exposição internacional, o que pode amplificar o impacto que suas redes sociais on-line têm nas percepções e atitudes sociais.
O Instagram, por exemplo, oferece uma plataforma visual para expressão da feminilidade através de vídeos e fotografias que demonstrem gostos pessoais, estilos de vida, preferências e personalidade que permitem aos usuários destacarem características de suas identidades através de narrativas em primeira pessoa. No entanto, sabemos que essas plataformas de mídias sociais usam algoritmos para ranquear os conteúdos produzidos. A forma com que a arquitetura dos algoritmos funciona nas mídias sociais é muito pouco transparente; o que se sabe é que eles são responsáveis por determinar o que vai ou não ganhar visibilidade, e servem como ferramentas disciplinadoras que definem as normas de participação. Ou seja, ao observar o tipo de conteúdo que ganha mais visibilidade, os usuários são capazes de discernir aquilo que o algoritmo recompensa e passam a replicar conteúdos e comportamentos. Por isso, muitas vezes, o que se percebe é a reprodução de imagens hegemônicas do corpo da mulher, em vez de imagens de resistência.
Fallon Mitchell, Sara Santarossa e Paula Wyk (2021) analisaram os posts no perfil do Instagram de 6 atletas paralímpicos dos Estados Unidos e Canadá, que competiram pela primeira vez nas Paralimpíadas de Inverno de 2018 e concluíram que, ao reforçarem sua identidade esportiva, os atletas podem amenizar suposições de que indivíduos com deficiência são fracos e inferiores.
Natilene Bowker e Keith Tuffin (2002), em estudo realizado na Nova Zelândia, entrevistaram pessoas com deficiência sobre suas interações sociais através da Internet. Sua pesquisa demonstrou que a deficiência é apenas uma das características que formam a identidade do sujeito, característica essa que pode ser omitida ou não em suas interações sociais on-line, dando controle ao indivíduo sobre sua identidade e representação.
Pullen, Laura Mora e Silk (2023), em um estudo recente, investigaram o perfil de 22 atletas britânicas no Instagram e perceberam que muitas das imagens publicadas por elas chamavam a atenção para a sua deficiência, tornando-a visível através de estilização centrada na deficiência corporal e marcando-a através de conteúdo semântico (hashtags) relacionado a deficiência e gênero.
Como apontam Pullen e Silk (2020), a partir de Londres 2012, em sintonia com a mercantilização do espetáculo paralímpico, percebe-se uma cobertura mais sexualizada e generificada, muito semelhante ao esporte olímpico. Rory Flindall (2018) analisou a cobertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno de PyeongChang 2018 pelos jornais britânicos e percebeu uma mudança na representação dos atletas. Alguns dos temas como nacionalismo e a hierarquização da normalidade continuaram a aparecer, no entanto, o autor apontou duas diferenças: os atletas paralímpicos começaram a ser considerados estrelas esportivas e alguns paratletas passaram a ser sexualizados.
Não há muitos trabalhos que versem sobre a representação de gênero, deficiência e esporte. No entanto, há um consolidado corpo teórico sobre o corpo da atleta sem deficiência. Essa escassez de pesquisas que se debruçam sobre as questões de gênero e deficiência no esporte mostra haver uma lacuna no diálogo entre os estudos feministas e os estudos críticos da deficiência, particularmente na intersecção entre mídia e esporte.
Metodologia
O corpus desta pesquisa foi composto da seguinte forma: primeiro, buscamos a lista de atletas brasileiras e norte-americanas que conquistaram medalha nos últimos Jogos em esportes individuais; dessas, identificamos aquelas que possuem perfil no Instagram e que são ativas nessa rede social on-line; finalmente, escolhemos as duas com maior número de seguidores: Raíssa Rocha Machado (brasileira, cadeirante, compete no lançamento de dardo) e Anastasia Pagonis (norte-americana, cega, compete na natação).
Para o presente estudo, coletamos todas as postagens feitas no feed do perfil do Instagram das atletas entre agosto e setembro de 2021, os dois meses que compreenderam os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, que aconteceram entre 24 de agosto a 05 de setembro daquele ano - o evento foi adiado para 2021 devido à pandemia de Covid-19, mas manteve o nome Tóquio 2020. Assim, nosso corpus é composto por 30 postagens - 24 posts de Raíssa Machado e 6 de Anastasia Pagonis. Como uma mesma postagem permite a publicação de mais de uma imagem, as 24 postagens da brasileira somaram 37 conteúdos imagéticos e as 6 da norte-americana geraram 17 conteúdos, somando 64 imagens.
Essa pesquisa utiliza a análise de conteúdo pelo fato de que o método é predominantemente útil em estudos no âmbito dos meios de comunicação social, buscando a interpretação das mensagens (Laurence BARDIN, 1977).
Ao investigarmos, portanto, a análise de conteúdo qualiquantitativa, encontramos as seguintes categorias:
-
• Tipo de post: foto, vídeo ou carrossel de fotos (série de imagens ou vídeos publicados em sequência).
-
• Tema da legenda da postagem (um mesmo post poderia evocar mais de um tema):
-
- Jogos Paralímpicos: bastidores da preparação das atletas para participar nos Jogos de Tóquio; datas e horários das competições; medalhas conquistadas e resultados etc.;
-
- Engajamento: conteúdo que visava à mobilização do público;
-
- Gênero: elementos textuais que destacavam a performance de gênero - feminilidade ou masculinidade;
-
- Motivacional: mensagens que visavam inspirar os seguidores;
-
- Vida pessoal: informações não relacionadas ao esporte, como férias e lazer;
-
- Outros.
-
• Tema do conteúdo - temas que emergiam das fotos e vídeos:
-
- Jogos Paralímpicos: abordava a presença das atletas no evento;
-
- Gênero: elementos que destacavam a performance de gênero - feminilidade ou masculinidade;
-
- Publicidade: apresentação de produtos e marcas;
-
- Vida pessoal: informações além do esporte;
-
- Outros.
-
• Tipo imagético:
-
- Esporte com ação: as atletas estavam em local esportivo, vestidas com uniforme da seleção ou roupas para prática esportiva e treinavam, competiam ou realizavam demonstrações de seu esporte;
-
- Esporte sem ação: as atletas estavam em local esportivo, vestidas com uniforme da seleção, mas seus corpos estavam estáticos ou em momento fora da prática esportiva;
-
- Pose: as atletas posavam para câmera com vestimentas diversas às esportivas.
-
• Vestuário:
-
- Uniforme da seleção;
-
- Roupa de banho;
-
- Roupa pouco reveladora: peças que não mostravam ou mostravam pouco o corpo das atletas;
-
- Roupa reveladora: peças que mostravam o corpo das atletas;
-
- Não identificável.
-
• Deficiência:
-
- Visível;
-
- Invisível.
A decisão por analisar separadamente o tema do conteúdo visual e o tema das legendas se deu porque, em muitos casos, eles podem ser diferentes e não complementares.
Autorrepresentação das atletas no Instagram
O Instagram, sendo uma plataforma fundamentalmente visual, é um local onde novas formas de consumo surgem, e tem se tornado uma ferramenta fundamental de marketing tanto para corporações quanto para indivíduos. No âmbito do esporte, as atletas usam seus nomes, imagens e outros elementos para construir ou representar suas personalidades ou identidades. Esse processo envolve a escolha de determinadas características que servirão para a representação da atleta enquanto marca pessoal e na comunicação com a audiência. Também requer que a atleta enfatize sua individualidade e quais aspectos são únicos tanto dentro quanto fora da arena esportiva.
Ao levar em conta que as atletas paralímpicas geralmente são representadas pelas mídias tradicionais através de estereótipos (HILGEMBERG; ARAÚJO; Ariene LIMA, 2019; Ianamary MARCONDES; HILGEMBERG; Doralice de SOUZA, 2023), as mídias sociais oferecem a elas uma plataforma alternativa para resistir a essas construções.
Em seu perfil no Instagram, Raíssa Machado publicou 24 posts. A maior parte das postagens foi composta por carrossel de fotos - 41,6% -, seguido por vídeos - 37,5% - e fotos - 21%. Todas as postagens de Anastasia Pagonis eram do tipo carrossel de fotos.
Blair Feehan (2019) afirma que o universo esportivo, em especial equipes, tem utilizado cada vez mais o carrossel de fotos em busca de maior engajamento. Percebemos, assim, que ambas as atletas utilizaram bastante esse recurso. O engajamento é um fator essencial para as relações on-line, uma vez que tem como objetivo criar vínculos positivos com seus públicos. Desse modo, as atletas, que pelo número de seguidores e tipo de conteúdo publicado também são consideradas influenciadoras, envolvem seu público, aumentam sua visibilidade e expandem seu alcance postando tipos de conteúdo que tendem a atrair mais a audiência. Ao analisarmos a temática das legendas (Gráfico 1), percebemos que Raíssa também se utiliza do recurso textual para buscar o engajamento. Além de estimular os seguidores a compartilharem, comentarem e curtirem com legendas como “compartilhe essa postagem e me marque”, “deixe curtida e comentário”, Raíssa também mobiliza os usuários a seguirem sua conta e fazerem parte da torcida em sua participação nos Jogos Paralímpicos como, por exemplo: “Torçam muito e fiquem ligadinhos aqui nos stories”. Isso demonstra a importância da conexão direta com a audiência.
Apesar de não termos encontrado elementos textuais ou imagéticos nas postagens de Anastasia que pudessem ser considerados uma busca por engajamento, a atleta norte-americana utiliza muitas hashtags e marcações de outros perfis.
Alice Marwick (2015) aponta que o uso estratégico de hashtags, principalmente aquelas que são populares no Instagram, pode aumentar o número de seguidores e curtidas de perfis. Em seu estudo, que analisa quarenta perfis públicos no Instagram com mais de dez mil seguidores, demonstra que os usuários que procuram aumentar esse número tendem a utilizar mais hashtags na tentativa de atrair um público que utiliza essa ferramenta na busca de conteúdo. Portanto, apesar de Anastasia não estimular diretamente o engajamento, o uso das ferramentas mencionadas demonstra a tentativa de atrair uma audiência mais ampla para o seu perfil.
Nas legendas de suas postagens, tanto Raíssa quanto Anastasia referenciaram os Jogos Paralímpicos de Tóquio com mais frequência, seguidos por mensagens motivacionais. Carlos Teixeira e Roberto Tietzmann (2018) analisaram perfis oficiais de cinco atletas olímpicos nas redes sociais digitais durante os Jogos Olímpicos de 2016 e concluíram, em seu estudo, que há influência de resultados positivos em competições no crescimento nas redes desses atletas. Nossa pesquisa corrobora o estudo de Hilgemberg, Bryan Araújo e Juliana Dama (2019), que analisaram o perfil de Daniel Dias no Instagram e no Facebook durante os Jogos Paralímpicos do Rio em 2016, e apontam que as publicações do atleta focaram a competição em si, com a divulgação de agenda e resultados, como forma de reforçar o agendamento midiático e angariar atenção do público e patrocinadores, gerando capital social.
O foco tanto da legenda quanto dos conteúdos (Gráfico 2) nos Jogos Paralímpicos era de se esperar, uma vez que o corpus deste estudo se constitui de publicações feitas durante o evento esportivo. Também percebemos, aqui, uma forma de as atletas acionarem o esporte como parte de suas identidades. O uso da hashtag #euapoioparatletismo e a marcação (tag) do Comitê Paralímpico Brasileiro e de outros atletas em suas postagens foram usados por Raíssa Machado a fim de apresentar sua identidade esportiva. Contudo, percebemos que os elementos mais presentes e que fortalecem sua identidade como atleta são: o uniforme da seleção brasileira paralímpica, que ela veste em 78,3% dos conteúdos postados (em 13,5% usa roupa reveladora e em 5,4% roupa pouco reveladora); a presença de locais e elementos relacionados ao esporte, como pista de atletismo, o dardo e a medalha; em cerca de 83% ela se encontra em contexto esportivo (70,2% esporte sem ação e 8,1% esporte com ação).
Já Anastasia Pagonis poucas vezes usa os recursos imagéticos para se apresentar como atleta. Na maior parte dos casos é na legenda, como em “to represent my country” (para representar meu país), e em diversas hashtags (#paralympics, #teamusa, #athlete, #swimmer1) que encontramos indícios de que Anastasia representará os Estados Unidos nos Jogos Paralímpicos. Entendemos que, como o Instagram é uma plataforma fundamentalmente visual, a ausência de elementos esportivos imagéticos nas postagens de Anastasia demonstra um afastamento visual dessa identidade perante os seus seguidores, mas o uso das referidas hashtags sugere seu posicionamento enquanto atleta perante novos usuários em busca de conteúdo a partir dessas palavras-chave e como forma de identificação com a comunidade de atletas representantes dos Estados Unidos nas Paralimpíadas.
Mesmo em contexto esportivo, na maior parte das imagens, Raíssa posava passivamente, se colocando como objeto para o olhar. Também se percebe que o conteúdo das imagens publicadas mostra maior tendência a transmitir mensagens associadas à feminilidade, como, por exemplo, uma foto em que Raíssa veste um agasalho da seleção brasileira paralímpica, tem os cabelos presos em coque e o rosto maquiado, apoia os braços nas pernas e com os lábios ligeiramente abertos ela olha para longe da câmera.2
Na verdade, verifica-se que ambas as atletas reforçam padrões de beleza e feminilidade hegemônica ao mobilizarem sua faceta identitária de gênero, no entanto, diferente de Raíssa, que utilizou o Tipo Imagético para fortalecer sua identidade atlética, Anastasia Pagonis reforçou sua feminilidade. A norte-americana posou em 70,5% das fotos e estava em contexto esportivo em apenas 29,3% (23,5% esporte sem ação e 5,8% esporte com ação). Além disso, trajava roupa de banho em 41,7% das imagens, em 23,5% apresentava o uniforme da seleção e em 17,6% sua roupa deixava à mostra seu corpo.
Ao apresentarem suas performances de gênero, a brasileira e a norte-americana tendem a produzir conteúdos que chamavam atenção para a feminilidade/sexualidade, como, por exemplo, imagens das atletas de biquíni ou roupas reveladoras em poses sensuais. Além disso, as paratletas usavam maquiagem e penteados em diversos posts. Pelo fato de que o reconhecimento do gênero é feito pela sociedade, levando-se em conta o que é “apropriadamente” feminino ou masculino, as atletas podem reforçar sua identidade enquanto mulheres buscando validação de outros de sua performance de gênero. Para exemplificar essa representação, podemos citar uma foto em que Anastasia Pagonis traja um vestido curto com uma fenda na barriga, está sentada no parapeito de uma sacada, uma das mãos segura o cabelo enquanto a outra está pousada no pescoço; a atleta olha para a câmera como se tivesse a intenção de seduzir a audiência.3
Expandindo as ideias foucaultianas sobre as práticas disciplinares que produzem os “corpos dóceis”, Wendell (1996) aponta a existência de processos que produzem um corpo que, através de seus gestos e aparência, é reconhecidamente feminino. Essas práticas visam produzir corpos de determinados tamanhos e configurações, e com um repertório de gestos, posturas e movimentos. A autora argumenta ainda que práticas disciplinadoras como o uso de maquiagem, depilação, controle de movimentos são autoimpostas e geralmente aparentam ser naturais e voluntárias. Aquelas que se distanciam dessas rotinas e representações consideradas “normais”, ou, dito de outra forma, hegemônicas, atraem a atenção de forma negativa. Assim, as mulheres que não estão ou agem de acordo com as normas de feminilidade são vistas como desviantes. Por isso percebemos que as atletas tendem a replicar essas práticas mais próximas das hegemônicas em suas representações de feminilidade.
As atletas paralímpicas, especialmente aquelas que competem em modalidades convencionadas como masculinas, ainda sofrem as tensões culturais entre esporte e feminilidade. Barbara Barnett (2017), que analisou a autorrepresentação de atletas sem deficiência em suas páginas pessoais na web, concluiu que as atletas, por um lado, detalham o rigor e o sacrifício a que precisam se submeter nos treinos e competições; ao mesmo tempo, mantêm seus papéis como objetos sexuais, mães e cuidadoras. Muitas vezes, as autorrepresentações também perpetuam a ideia de que elas são, primeiro, mulheres, dentro da ideia hegemônica do que significa ser mulher, e depois atletas. Essas ideias de feminilidade, porém, estão extremamente atreladas às noções patriarcais, e até machistas, de gênero. Segundo Wendell (1996), a normalização dos corpos femininos e a busca por feminilidade são forçadas pelos outros, mas também internalizadas. Para a autora, a proximidade aos padrões de normalidade pode ser um dos aspectos centrais ou muito importantes da identidade do sujeito, assim como a busca por aceitação social é um aspecto que compõe o respeito próprio.
De acordo com Kirakosyan (2021), que entrevistou atletas paralímpicas brasileiras, ao enfatizar a feminilidade, elas são capazes de controlar essas pressões sociais. Em sua pesquisa, a autora concluiu que as atletas com deficiência se sentem obrigadas a performar um tipo de feminilidade que não só resista aos estigmas, mas também confronte a imagem de uma atleta “pouco atraente” ou assexuada, como o uso de unhas longas e pintadas, maquiagem, cabelo comprido ou em penteado, além da exibição de seus corpos por meio de trajes de banho e roupas reveladoras. Ou seja, para refutar os estigmas relacionados à deficiência, as atletas precisam reforçar estereótipos de gênero.
As mulheres atletas enfrentam um paradoxo: serem bem-sucedidas num universo fundamentalmente masculino enquanto seguem as normas de feminilidade hegemônicas a fim de serem reconhecidas como mulheres. As atletas com deficiência que se identificam como mulheres sentem que precisam redobrar seus esforços para provar sua feminilidade e eficácia esportiva/atlética. A contradição está em se opor ao discurso dominante no esporte que exige que as mulheres performem feminilidade ao mesmo tempo que retrata as mulheres com deficiência como seres assexuais. Um interessante exemplo é Becky, a Barbie Paralímpica, uma boneca que rompe com as representações do corpo da mulher atleta uma vez que ela é uma mulher independente e ambiciosa capaz de participar do esporte de alto rendimento. Ao mesmo tempo, a boneca reforça essa representação, por reiterar os padrões de gênero heteronormativos. Becky não possui deficiência considerada severa e seu corpo é o mais próximo do socialmente aceito, o que a coloca na escala mais alta na hierarquia da deficiência.
Em vários momentos, ambas as atletas analisadas marcam seus corpos como ligados à feminilidade apropriada (características físicas e emocionais que as diferenciam dos homens). Vários trabalhos que acionam a cultura digital feminista mostram que mídias sociais, como o Instagram, recompensam aquelas que se apresentam de acordo com as políticas de gênero. Kim Toffoletti (2018) analisou diversos sites de mídias sociais de oito reconhecidas paratletas australianas entre julho e dezembro de 2016 (período que compreendeu os Jogos do Rio 2016), e seus dados apontaram que elas também postaram fotos sexys ou que reforçam a feminilidade. Nesse trabalho, a autora afirma que a feminilidade pós-feminista pode fornecer a algumas mulheres com deficiência um meio de celebrar seus corpos em um mundo capacitista, contudo, parece que os tipos de corpos esportivos com deficiência com maior visibilidade e sucesso on-line são aqueles socialmente reconhecíveis, ou seja, que não perturbam excessivamente os ideais normativos de feminilidade. Essas representações da feminilidade estão, portanto, mais próximas do mainstream do que de desafiá-lo, pois, na mesma medida em que as atletas estão no controle de suas imagens e representações, as expectativas sociais e de suas audiências, bem como as formas de gratificação do Instagram, limitam a liberdade de construção imagética.
O estudo de Pullen, Mora e Silk (2023) citado anteriormente aponta que, se por um lado, há a feminilização das imagens postadas por atletas, por outro, elas se utilizam de suas tecnologias assistivas como próteses e cadeiras de rodas como forma de reforçar os efeitos sexuais e de gênero das imagens, produzindo a “estética protética” de gênero. Em nossos dados, percebemos que tal é corroborado pelas postagens de Raíssa, mas não de Anastasia.
Rosalyn Darling (2013) afirma que, para alguns indivíduos, a deficiência é o componente mais saliente de seu autoconceito, enquanto, para outros, ela desempenha apenas um papel menor na maneira como eles se veem. Com um físico que notadamente se conforma com os padrões ocidentais cisgênero de beleza, a paratleta Anastasia Pagonis reforça sua identidade não apenas como mulher, mas como uma mulher bonita e desejável, através de sua imagem, mas também pelo uso da hashtag #model (#modelo). Diferentemente de Raíssa, que apresenta sua deficiência de forma imagética pela presença de sua cadeira de rodas e em alguns casos com suas pernas desnudas (deficiência visível em 56,7% dos conteúdos), Anastasia, que possui um tipo de deficiência visível apenas através de tecnologias assistivas, introduz-se como pessoa com deficiência apenas no uso de hashtags (#blind; #disabilities4 - deficiência invisível em 100% dos conteúdos). Ao mesmo tempo que a representação da norte-americana transmite a ideia de que seu corpo com deficiência pode ser bonito, sexy e elegante, por outro, aponta a performance da passibilidade, ou seja, ela pode se passar por uma pessoa sem deficiência, uma vez que ela tem uma deficiência invisível, isto é, que não possui marcas corporais distintas. Esse corpo é representado como aquele que pode fazer tudo o que os corpos sem deficiência podem fazer e tende a se assemelhar também a representações estéticas desses últimos. No entanto, dizer que a atleta assim se representa unicamente por conta da reprodução normativa é uma conclusão simplista.
Mitchell, Santarossa e Wyk (2021) apresentam duas hipóteses para o fato de as atletas paralímpicas tenderem a postar fotos que escondem suas deficiências: primeira, a de que o corpo ideal não possui deficiências, portanto, um corpo com deficiência não pode ser ideal; segunda, a de que paratletas se identificam primeiramente como atletas.
Diversos autores (SCHANTZ; GILBERT, 2001) afirmam que as atletas com deficiência são sujeitas a múltiplas discriminações, uma vez que, em geral, não se enquadram na perspectiva da fisicalidade, ou seja, à representação social de corpo atlético ideal; não correspondem à ideia de masculinidade, identificada por características como agressividade, independência, força e coragem; nem pela sexualidade, definida como uma visão socialmente esperada e aceita de comportamento sexual. E as mulheres com deficiência geralmente são consideradas indesejadas, assexuais e parceiras inadequadas. Essa pode ser uma explicação para a primeira hipótese de Mitchell, Santarossa e Wyk (2021) sobre o motivo pelo qual as atletas tendem a esconder suas deficiências.
A segunda hipótese, de que as atletas tendem a esconder suas deficiências nas mídias sociais a fim de se identificarem primeiro como atletas, pode ser confirmada pelo estudo de Olenik, Matthews e Steadward (1995), que entrevistaram cinco atletas do sexo feminino, da Europa e dos Estados Unidos, que competiram nos Jogos Paralímpicos de Inverno de 1994. De acordo com as entrevistas, o fato de a mídia tradicional focar histórias de interesse humano dificulta a identificação delas como atletas de alto rendimento pela sociedade. Assim, elas passam a usar as plataformas digitais para reforçar sua identidade atlética.
Sob a perspectiva pós-feminista a partir da ideia de automercantilização on-line, as mídias sociais são espaços em que mulheres jovens se apresentam como bem-sucedidas, se utilizando de discursos e práticas da cultura promocional. Percebemos que há pressão sobre as mulheres para que elas se adaptem à pós-modernidade, articulando formas de subjetividade feminina que demonstrem a capacidade individual. Isso nos leva a entender o motivo de essas jovens mulheres estarem performando a feminilidade heterossexual e celebrando suas exibições imagéticas como escolhas livres de sujeitos mulheres também livres.
Conclusão
A partir dos dados apresentados e discutidos, podemos concluir que a brasileira Raíssa Machado se representa primeiro como atleta, reforça os padrões de feminilidade sem, no entanto, esconder sua deficiência; enquanto a norte-americana Anastasia Pagonis opta por reforçar os padrões hegemônicos de feminilidade.
Como cada indivíduo possui diversas identidades, que são organizadas internamente de forma hierárquica, e desempenha múltiplos papéis, ele/ela deve decidir qual deles desempenhar, o que pode resultar na saliência ou no apagamento de uma das identidades. O desenvolvimento das identidades acontece a partir das interações sociais, portanto, uma pessoa pode ter diversas (relacionadas a raça, gênero, sexualidade, deficiência etc.), e cada uma delas pode ser mais ou menos saliente, a depender do histórico do indivíduo.
Dessa forma, a identidade não é fixa, e a cada nova situação o indivíduo pode ser confrontado com uma mudança. Além disso, os indivíduos podem escolher como se apresentar, dependendo da situação. Assim, reconhecendo que todas as mulheres são atravessadas por múltiplas identidades, os estudos feministas entendem que uma mulher nunca é simplesmente “mulher”, e os estudos feministas da deficiência acrescentam que uma mulher com deficiência não é apenas sua deficiência. A deficiência é apenas uma dentre as identidades de uma pessoa, podendo ser mais saliente e importante, ou de menor importância ou não existente, e essa ordem pode variar com o tempo e com a situação. Além disso, a experiência da deficiência não é binária, nem estática, mas diversa, e a forma como a pessoa experiencia sua própria deficiência pode variar de um dia para o outro ou até no mesmo dia.
Darling (2013) afirma ainda que as pessoas tendem a se associar mais fortemente com a primeira identidade, por exemplo, mulheres que adquiriram deficiência podem se identificar primeiro como mulheres, enquanto pessoas desse grupo com deficiência congênita podem se associar mais fortemente com a deficiência. Esse pode ser o caso das atletas desse estudo, uma vez que Raíssa Machado tem deficiência congênita e Anastasia Pagonis adquiriu a deficiência ao longo da vida. Raíssa nasceu com má-formação nas pernas e, aos 12 anos, começou a praticar lançamento de dardo. Já Anastasia foi diagnosticada com retinopatia autoimune vindo a perder a visão aos 14 anos, e começou a praticar natação aos 12. Esses fatores pessoais podem desempenhar um papel importante em como as atletas conceitualizam a deficiência, a feminilidade e o esporte em suas vidas. Em suma, a aparência, a duração e a gravidade da deficiência podem impactar o conteúdo produzido por essas atletas em seus perfis no Instagram.
Mulheres e pessoas com deficiência são pensadas através de seus corpos, ambos são sujeitos à disciplinarização preconizada por Michel Foucault (1989; 2001), e sofrem as pressões sociais para que seus corpos se conformem com as expectativas culturais. Atualmente, o conceito e as ideias acerca de feminilidade, principalmente a partir da perspectiva pós-feminista, são complexos e muitas vezes contraditórios, localizados na cultura global do consumo. O pós-feminismo é geralmente caracterizado pela aceitação do empoderamento feminino, ao mesmo tempo que invoca formas tradicionais de feminilidade. Isso ocorre através da exibição corporal, de escolhas pessoais de consumo e demonstrações de autenticidade que mudam a visão das mulheres de objetos sexuais para sujeitos liberados (TOFFOLETTI, 2018).
Para Toffoletti (2018), a noção de empoderamento feminino como uma aspiração e expectativa da feminilidade contemporânea é fundamental para que as paratletas consigam legitimidade em sua presença on-line. No entanto, a forma com que as atletas mobilizam essas representações e características corporais também muda de acordo com a idade, deficiência e modalidade da atleta. Como outros pesquisadores já notaram, quanto mais longe um corpo está das normas, menos reconhecimento e mais oprimido ele é. Isso cria o que Marie Hardin e Brent Hardin (2004) chamam de hierarquia da deficiência, em que corpos de atletas que utilizam próteses e cadeira de rodas têm mais atenção midiática do que corpos de atletas com paralisia cerebral, por exemplo.
Ou seja, não há padrão de representação entre as atletas, o que deixa claro que o ser é fluido e constituído cultural e performaticamente. Na mesma medida, pode ser evidência da mudança no cenário sobre gênero e esporte para pessoas com deficiência, consolidando a ideia de que o ciberespaço pode funcionar como local para a presença de uma maior diversidade representacional para minorias. Isso também pode sugerir que as mulheres atletas com deficiência escolhem livremente como e quais aspectos de sua identidade on-line irão apresentar (atletas, amigas, figuras públicas, trabalho) e operam a feminilidade e empoderamento por meio de uma imagem corporal positiva.
No entanto, a ambiguidade também reside no fato de que, apesar desse potencial, nosso estudo aponta para a persistência dos ideais de feminilidade e sexualidade no conteúdo on-line produzido pelas atletas. Nas sociedades capitalistas, onde os indivíduos são principalmente valorizados e compreendidos em termos de mercado como compradores, vendedores e consumidores, esta preocupação se estende agora à conceitualização da própria pessoa como uma mercadoria a ser circulada e trocada por lucro. E como na economia da visibilidade atual alguns corpos (brancos, magros, em forma) são mais visíveis que outros, as versões da feminilidade que mais se aproximam das formas dominantes são também aquelas que mais recebem atenção on-line, que geralmente são aquelas que apresentam imagens de mulheres com corpos em forma e que consolidam a heteronormatividade. Dessa forma, entendemos que as atletas paralímpicas cujos corpos são menos visíveis e que geralmente são representados estereotipicamente como não belos e assexuais tendem a reforçar a feminilidade heteronormativa que torna seus corpos mais visíveis e seus conteúdos mais susceptíveis ao engajamento.
Referências
- BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo Lisboa: Edições 70, 1977.
- BARNETT, Barbara. “Girls gone web: Self-depictions of female athletes on personal websites”. Journal of Communication Inquiry, v. 41, n. 2, p. 97-123, 2017.
- BOWKER, Natilene; TUFFIN, Keith. “Disability Discourses for Online Identity”. Disability & Society, v. 17, n. 3, p. 327-344, 2002.
- BRITTAIN, Ian. “British Media Portrayals of Paralympic and Disability Sport”. In: SCHANTZ, Otto; GILBERT, Keith (Eds.). Heroes or Zeroes? The media’s perceptions of Paralympic sport Illinois: Common Ground Publishing LLC, 2012. p. 105-113.
- BUTLER, Judith. “Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do ‘sexo’”. In: LOURO, Guacira L. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 151-172.
- DARLING, Rosalyn Benjamin. Disability and identity: negotiating self in a changing society Boulder, Colorado: Lynne Rienne Publishers, 2013.
- DOLEZAL, Luna. “Representing Posthuman Embodiment: Considering Disability and the Case of Aimee Mullins”. Women's Studies, v. 46, n. 1, p. 60-75, 2017.
- ELLIS, Katie; GOGGIN, Gerard. Disability & the Media Londres: Palgrave, 2015.
-
FEEHAN, Blair. “2019 Social Media industry brandmark report”. RivalIQ blog, 2019. Disponível em Disponível em https://www.rivaliq.com/blog/2019-social-media-benchmark-report/ Acesso em 05/03/2023.
» https://www.rivaliq.com/blog/2019-social-media-benchmark-report/ - FINE, Michelle; ASCH, Adrienne. “Introduction: Beyond Pedestals”. In: FINE, Michelle; ASCH, Adrienne (Eds.). Women with Disabilities: Essays in Psychology, Culture, and Politics Philadelphia: Temple University Press, 1988. p. 1-37.
- FLINDALL, Rory Alexander. “A Paralympic legacy? British newspaper representations of the Paralympic movement during the 2018 PyeongChang Winter Paralympic Games”. Diagoras: International Academic Journal on Olympic Studies, v. 2, p. 145-172, 2018.
- FOUCAULT, Michel. Os Anormais: Curso no Collège de France (1974-1975) Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
- FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder Rio de Janeiro: Graal, 1989.
-
GARLAND-THOMSON, Rosemarie. “Re-shaping, Re-thinking, Re-defining: feminist Disability Studies. Barbara Waxman Fiduccia Papers on Women and Girls with Disabilities”. Center for Women Policy Studies, 2001. Disponível em Disponível em http://www.centerwomenpolicy.org Acesso em 18/03/2022.
» http://www.centerwomenpolicy.org - GARLAND-THOMSON, Rosemarie. “Integrating Disability, Transforming Feminist Theory”. In: SMITH, Bonnie G.; HUTCHISON, Beth (Eds.). Gendering Disability Nova Jersey: Rutgers University Press, 2004. p. 73-103.
- GARLAND-THOMSON, Rosemarie. “Feminist Disability Studies”. Signs, v. 30, n. 2, p. 1577-1578, 2005.
- GERSCHICK, Thomas J. “Toward a Theory of Disability and Gender”. Signs, v. 25, n. 4, p. 1263-1268, 2000.
-
HARDIN, Marie; HARDIN, Brent. “The supercrip in sport media: Wheelchair athletes discuss hegemony’s disabled hero”. Sosol, v. 7, 2004. Disponível em Disponível em http://physed.otago.ac.nz/sosol/v7il/v7il.html Acesso em 15/03/2008.
» http://physed.otago.ac.nz/sosol/v7il/v7il.html - HILGEMBERG, Tatiane; ARAÚJO, Bryan; LIMA, Ariene. “Gênero, esporte e deficiência na cobertura fotográfica dos Jogos Paralímpicos Rio-2016”. Revista Cadernos de Comunicação, v. 23, n. 1, p. 2-21, 2019.
- HILGEMBERG, Tatiane; ARAÚJO, Bryan; DAMA, Juliana. “O controle do discurso sobre si - A autorrepresentação do atleta paralímpico Daniel Dias nas redes sociais”. In: 42º CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2019, Belém, Universidade Federal do Pará. Anais.. São Paulo: Intercom, 2019. p. 1-15.
- HILGEMBERG, Tatiane. “O corpo com deficiência nas mídias sociais: a autorrepresentação da atleta paralímpica Camille Rodrigues no Instagram”. Revista Mundaú, n. 13, p. 87-105, 2023.
- HUGHES, Bill. “Medicine and the Aesthetic Invalidation of Disabled People”. Disability & Society, v. 15, n. 4, p. 555-568, 2000.
- KAFER, Alison. Feminist, Queer, Crip Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 2013.
- KIRAKOSYAN, Lyusyena. “Challenging Gender and Disability Stereotypes: Narrative Identities of Brazilian Female Paralympians”. Disabilities, v. 1, p. 420-437, 2021.
- MARCONDES, Ianamary Monteiro; HILGEMBERG, Tatiane; SOUZA, Doralice Lange de. “A cobertura dos jogos Paralímpicos Rio 2016 pelo Comitê Paralímpico Brasileiro: investigando questões de gênero”. Comunicação & Sociedade, v. 45, n. 1, p. 113-143, jan.-abr. 2023.
- MARWICK, Alice. “Instafame: luxury selfies in the attention economy”. Public Culture, v. 27, n. 75, p. 137-160, 2015.
- MATTLIN, Ben. Disability Pride: Dispatches from a post-ADA world Boston: Beacon Press, 2022.
- MILLETT-GALLANT, Ann. “Sculpting body ideals: Alison Lapper pregnant and the public display of disability”. In: DAVIS, Leonard J. (Ed.). The Disability Studies Reader Nova York: Routledge, 2017. p. 427-439.
- MITCHELL, Fallon R.; SANTAROSSA, Sara; WYK, Paul M. V. “Curating a Culture: The Portrayal of Disability Stereotypes by Paralympians on Instagram”. International Journal of Sport Communication, v. 14, n. 3, p. 334-355, 2021.
- MORRIS, Jenny. Pride against prejudice: A personal politics of disability Londres: The Women’s Press, 1991.
- OLENIK, Lisa M.; MATTHEWS, Joan M.; STEADWARD, Robert D. “Women, disability and sport: Unheard voices”. Canadian Woman Studies/Les cahiers de la femme, v. 15, n. 4, p. 54-65, 1995.
- PULLEN, Emma; MORA, Laura; SILK, Michael. “Paralympic cripvertising: On the gendered selfrepresentations of Paralympic athletes on social media”. New media & society, n. 0, v. 0, p. 1-18, 2023.
- PULLEN, Emma; SILK, Michael. “Gender, technology and the ablenational Paralympic body politic”. Cultural Studies, v. 34, n. 3, p. 466-488, 2020.
- SANDERSON, Jimmy. “Framing Tiger’s Troubles: Comparing Traditional and Social Media”. International Journal of Sport Communication, v. 3, n. 4, p. 438-453, 2010.
- SCHANTZ, Otto; GILBERT, Keith. “An Ideal Misconscructed: Newspaper coverage of the Atlanta Paralympic Games in France and Germany”. Sociology of Sport Journal, v. 18, n. 1, p. 69-94, 2001.
- STUART, Ossie. “Double oppression: an appropriate starting-point?”. In: SWAIN, John; FRENCH, Sally; BARNES, Colin; THOMAS, Carol (Eds.). Disabling Barriers: Enabling Environments 2 ed. Londres: Sage, 1993. p. 93-100.
- TEIXEIRA, Carlos. R. G.; TIETZMANN, Roberto. “O desempenho dos perfis oficiais dos atletas olímpicos nas redes sociais como representação do ‘ciclo de vida’ de um produto da indústria cultural”. Revista Communicare, v. 18, n. 1, p. 68-84, 2018.
- THOMAS, Nigel; SMITH, Andy. “Preoccupied with able-bodiedness? An analysis of British Media Coverage of the 2000 Paralympic Games”. Adapted Physical Activity Quarterly, v. 20, n. 2, p. 166-181, 2003.
- THOMAS, Nigel; SMITH, Andy. Disability, Sport and Society: An Introduction New York: Routledge, 2009.
- TOFFOLETTI, Kim. “Sport, postfeminism and women with disabilities: female paralympians on social media”. In: TOFFOLETTI, Kim; FRANCOMBE-WEBB, Jessica; THORPE, Holly (Eds.). New Sporting Femininities Cham: Palgrave Macmillan, 2018. p. 253-275.
- WENDELL, Susan. The Reject Body: feminist philosophical reflections on disability Nova York and Oxon: Routledge, 1996.
-
Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
HILGEMBERG, Tatiane. “Estudos Feministas da Deficiência: análise da autorrepresentação de atletas no Instagram”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 2, e105335, 2025.
-
Financiamento:
Essa pesquisa foi realizada com financiamento da Fulbright por meio da Fulbright Junior Faculty Member Award
-
Consentimento de uso de imagem:
Não se aplica.
-
Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
Não se aplica.



#PraTodoMundoVer O gráfico apresenta os seguintes dados: Jogos Paralímpicos, mais de 40% de Raíssa Machado e 50% de Anastasia Pagonis; Motivacional, mais de 20% de Raíssa Machado e mais de 30% de Anastasia Pagonis; Vida Pessoal, cerca de 10% de Raíssa Machado e quase 20% de Anastasia Pagonis; Gênero, cerca de 15% de Raíssa Machado; Engajamento, 20% de Raíssa Machado; e Outros, mais de 20% de Raíssa Machado.
#PraTodoMundoVer O gráfico apresenta os seguintes dados: Jogos Paralímpicos, cerca de 30% de Raíssa Machado e 20% de Anastasia Pagonis; Publicidade, cerca de 20% de Raíssa Machado; Vida Pessoal, mais de 20% de Anastasia Pagonis; Gênero, mais de 40% de Raíssa Machado e cerca de 60% de Anastasia Pagonis; Outros, menos de 10% de Raíssa Machado.