Open-access Movimento LGBTIAPN+: desafios globais de uma luta constante

LGBTIAPN+ Movement: Global Challenges of an Ongoing Struggle

Movimiento LGBTIAPN+: Desafíos Globales de una Lucha Constante

BELMONTE, Laura A.. LGBT+ na luta: avanços e retrocessos . Trad. de Miguel, Alcebíades Diniz. . São Paulo: Contexto, 2024

Refletir sobre a história de um movimento social é um ato ousado. Levantar mitos, trabalhar com assimetrias e particularidades que se conectam a partir de um senso de coletividade histórica é um desafio de curadoria documental e de seleção das narrativas possíveis para o ato de contar uma história. Em LGBT+ na luta: avanços e retrocessos, Laura A. Belmonte (2024) lança seu olhar a partir de uma trajetória histórica transversal que ressalta transformações, articulações e desafios globais na esteira da emergência das mudanças e adversidades internas a um movimento tão plural.

A edição brasileira é acompanhada de prefácio de Luiz Mott, historiador pioneiro dos estudos de sodomia e um dos fundadores do Grupo Gay da Bahia - organização criada no contexto de surgimento do Movimento Homossexual Brasileiro em 1978 e ainda em atividade -, evidencia um cuidado editorial de tradução cultural. Esta obra, publicada pela primeira vez nos Estados Unidos sob o título The International LGBT Rights Movement: A History, por Laura Belmonte (2020), revela o reconhecimento intelectual e militante do historiador Luiz Mott.

A escolha de Mott e a diferença de título traz consigo as pretensões internacionalistas, globais e transnacionais na escrita e narrativa de um movimento cuja história está em disputa. O título brasileiro sugere um olhar sobre a dinâmica dialógica do movimento, enquanto a versão em língua inglesa aposta na perspectiva de ser uma possível história a ser contada sobre o movimento.

Neste sentido, Belmonte, que é professora de História no Tech College of Liberal and Human Sciences na Universidade Politécnica e Estadual da Virgínia, tem como proposta repensar o elo disciplinar a partir de desafios globais. Talvez daí venha o interesse em lançar um olhar internacional em seu livro - tal como proposto na edição norte-americana. É nesse contexto de produção que Belmonte estabelece uma narrativa que tensiona esta história em seis capítulos: “Origens, Protestos e perseguição (1914-1945)”, “O movimento homófilo global (1945-1965)”, “Fúria e esperança (1981-2000)”, “Igualdade Global, reação global (2001-2020)”.

Nos três primeiros capítulos, Belmonte lança um olhar sobre a função histórica cumprida pelos discursos repressivos pautados pela tradição judaico-cristã em um contexto ocidental, além de destacar as resistências protagonizadas por diferentes personagens já conhecidos pela historiografia especializada como discursos pioneiros, os quais Renan Quinalha (2022) delineou como formas de protoativismo. Nestas seções, a autora menciona a articulação de diferentes saberes, como a psiquiatria, a psicanálise e o próprio discurso religioso, como elementares no processo de criação de leis repressivas. Ao mesmo tempo, também deixa evidente a existência de sociedades em que estes saberes não se fizeram sentir, como no contexto do shogunato, com a formação de uma tradição erótica de mesmo sexo denominada de Nanshoku, “amor entre homens” (Laura BELMONTE, 2024, p. 40).

Já nos dois capítulos seguintes, que versam sobre o período das grandes guerras até a emergência das primeiras organizações de liberação sexual, Belmonte recorre a diferentes exemplos dos contextos estadunidense e europeu, ressaltando o impacto da Segunda Guerra Mundial nas formas de repressão sexual e no apagamento dos esforços de um discurso alternativo que havia começado a ganhar ênfase na Europa, a partir da atuação de sexólogos e outros estudiosos interessados no estudo das sexualidades a partir de um olhar não discriminatório. É interessante perceber que, ao voltar-se para o contexto de guerra, Belmonte concentra-se na Europa, perde de vista as possibilidades de análise e de narrativas que demonstram as transformações evidentes em outros lugares na América Latina.

Nos anos que antecederam e sucederam as guerras mundiais, houve uma transformação urbana, cultural e estética na América Latina. Neste ponto, os espaços se transformaram e as identidades sexuais ganharam uma maior flexibilidade nos grandes centros urbanos, ainda que houvesse guerra na Europa. Este é, sem dúvidas, um aspecto negativo do livro. O fluxo analítico centraliza-se em uma perspectiva difusionista marcada pelo circuito do Norte Global, Estados Unidos e Europa, sendo a América Latina, a África, a Ásia e a Oceania pouco relevantes nesse histórico.

Os efeitos deste movimento, ainda que possam não ser pressupostos, colocam os exemplos sobre México, Argentina e Brasil, ao longo do livro, muitas vezes como narrativas que confirmam uma agenda internacionalista que se pretende a partir da correspondência. Isto é, a confirmação da agenda e do fluxo dos agenciamentos políticos a partir e desde os Estados Unidos e Europa. Este ponto ganha ainda maior ênfase, por exemplo, quando observamos o capítulo sobre “O movimento homófilo global (1945-1965)”. Embora Belmonte se concentre nesta narrativa de centralidade do Norte Global, é possível ressaltar aqui que o olhar sobre este ativismo homófilo anterior ao mito de origem do movimento de liberação é percebido (BELMONTE, 2024, p. 102).

O esforço de reconhecimento de pequenas organizações com um nível de circularidade na região evidencia um olhar novo em relação à percepção destes movimentos e organizações anteriores. Este é, sem sombra de dúvidas, um contributo curioso à historiografia que vem se estabelecendo no Brasil. A análise de Belmonte nos faz questionar em quais termos se pensa política e a partir de quais estratégias são estabelecidas as resistências contra a discriminação sexual.

Vale também destacar, no capítulo que se segue, “Liberação e confronto (1965-1981)”, no qual destaca que no contexto dos anos 1960 diversas movimentações políticas ocorriam na Europa e nos Estados Unidos, dando ênfase a uma mudança de ares que viabilizava a emergência de um movimento homossexual. Com isso, o livro deixa evidente uma nova forma de pensar um ponto de “origem” deste primeiro movimento, além do tradicional olhar sobre Stonewall. Este, sem sombra de dúvidas, é um dos pontos altos do livro.

Quando Belmonte destina seu olhar para a América Latina, ressalta o surgimento dos movimentos na Argentina, no Brasil, no México e no Chile. Ao longo do livro, a autora defende que essas novas organizações “se formaram em oposição aos regimes autoritários” (BELMONTE, 2024, p. 179). Ou seja, existe uma especificidade na luta de liberação latino-americana desde seu início. Embora não dê ênfase a outros países da América Latina, é possível perceber o esforço em estabelecer que estes movimentos não teriam, necessariamente, uma relação direta de inspiração de Stonewall. Deste modo, a escolha de Belmonte ao narrar a história deste movimento, não só pluraliza algumas narrativas até então vistas como tradicionais, como viabiliza um olhar amplo a partir de outros fluxos de atuação política

O ponto alto do livro concentra-se na observação da agência da Associação Gay Internacional (International Gay Association), criada em 1978 com representantes de 14 países. Este tópico quase não foi abordado nos trabalhos historiográficos sobre o movimento de liberação no Brasil, mas recentemente alguns estudos de cunho transnacional e global começaram a observar tal elemento. Deste modo, o volume deixa evidente não apenas a interferência política da organização, como também sua atuação em diferentes espaços, inclusive no Sul Global.

Por último, em uma reflexão sobre os últimos 20 anos da trajetória do movimento, Belmonte estabelece uma análise sobre a agenda política que essas organizações teceram a partir de sua articulação com a ONU. A transformação e a atuação da IGA, já no contexto dos anos 1980 com o novo nome International Lesbian Gay Association, desenvolveu importante tuação em relação ao contexto da epidemia de AIDS e, em 2000, recebeu um financiamento da Comissão Europeia que lhe permitiu lançar um projeto de direitos humanos LGBT+ (BELMONTE, 2024).

No último capítulo, a autora ressalta de forma inovadora um olhar sobre a agenda e a forma com que as pautas de luta do movimento têm sido capturadas por outros pontos de emergência no século XXI. O primeiro deles relaciona-se com o homonacionalismo e o pinkwashing promovido no conflito entre Israel e Palestina, mas também em contextos de mobilização de correntes migratórias, em que a proteção da população LGBTIAPN+ é usada como justificativa para o fechamento da fronteira holandesa a imigrantes de origem religiosa mulçumana (BELMONTE, 2024). Em contrapartida, Belmonte deixa de fora o debate emergente sobre a ascensão do comportamento de extrema direita com o recrudescimento da violência contra a população LGBTIAPN+ tanto na Europa quanto nos Estados Unidos e América Latina, que puderam ser observadas com a ascensão do governo Trump, por exemplo, e a invisibilidade de uma reflexão mais profunda sobre a vulnerabilidade presente dentro da própria comunidade, como é o caso das especificidades.

Apesar de figurar como uma narrativa por vezes difusionista, LGBT+ na luta: avanços e retrocessos oferece um olhar inovador sobre o contexto pós-anos 2000. A leitura não apenas é instigante como também cumpre uma função não acadêmica do tema. Por fim, a pessoa leitora deste livro deve levar em consideração que esta publicação apresenta algumas das dimensões desta história ampla sem esgotar, necessariamente, o tema

Referências

  • BELMONTE, Laura A. The international LGBT rights movement: a history Londres: Bloomsbury Publishing, 2020.
  • BELMONTE, Laura A. LGBT+ na luta: avanços e retrocessos Trad. de Alcebiades Diniz Miguel. São Paulo: Editora Contexto, 2024.
  • QUINALHA, Renan.Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias São Paulo: Autêntica Editora, 2022
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    PINTO, Rhanielly Pereira do Nascimento. “Movimento LGBTIAPN+: desafios globais de uma luta constante”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 1, e103801, 2025.
  • Financiamento:
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Nov 2024
  • Revisado
    16 Dez 2024
  • Aceito
    21 Dez 2024
location_on
Centro de Filosofia e Ciências Humanas e da Universidade Federal de Santa Catarina Campus Universitário - Trindade, CEP: 88040-970, Telefone: +55 (48) 3721-8211 - Florianópolis - SC - Brazil
E-mail: ref@contato.ufsc.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error