Open-access (Re)invenções feministas: “acompanhamento outro” e vocabulário situado no México

Feminist (Re)inventions: “Other Accompaniment” and Situated Vocabulary in Mexico

(Re)invenciones feministas: “acompañamiento otro” y vocabulario situado en México

">MARTÍNEZ DE LA ESCALERA, Ana María; ENRÍQUEZ ROSAS, Lourdes; CRUZ SÁNCHEZ, Verónica; FERNÁNDEZ LOZANO, Martha Paola. . Las Libres: en los escenarios sociales de la resistencia y el acompañamiento.Guanajuato: [s. n.], 2024.

Las Libres. En los escenarios sociales de la resistencia y el acompañamiento promove o encontro de mulheres cujas trajetórias perpassam a academia, a atuação crítica sobre justiça e gênero e o ativismo feminista no México, e foi publicado de forma independente em Guanajuato, estado mexicano onde o coletivo atua. O livro reúne ensaios que articulam reflexões teóricas a um ‘vocabulário situado’, originado de memórias, práticas e saberes produzidos na experiência do coletivo Las Libres (Ana María Martínez de la Escalera et. al, 2024, p. 8). As autoras propõem, ao longo da publicação, construir categorias conceituais que advém da prática política e afetiva, afirmando a experiência como fonte legítima de conhecimento.

A expressão “acompanhamento outro” (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 16) é o eixo conceitual que atravessa a publicação. Em oposição ao discurso médico-jurídico tradicionalmente associado ao acompanhamento de mulheres que desejam interromper uma gestação, o acompanhamento outro amplia essa noção para abarcar dimensões legais, psicológicas, políticas e afetivas. As autoras demonstram, em suas narrativas, como essa prática transforma subjetividades, constrói solidariedade, e produz conhecimento coletivo.

O acompanhamento é apresentado enquanto uma categoria político-afetiva que opera de maneira dupla: simultaneamente é uma tática de redução de danos e um dispositivo de ressignificação afetiva e simbólica do aborto. Através de uma escuta responsável que acolhe medo, dor, alívio e experiências diversas, vai se firmando como um mecanismo de produção de sentido. A partir do seu modo de atuação, as que exercem o acompanhamento, constroem conhecimento e legitimidade política frente à luta pelo direito e acesso a um aborto seguro.

O livro inicia com uma cronologia da trajetória do Centro Las Libres, revelando uma atuação que integra práticas cotidianas e institucionais: o acompanhamento direto, com escuta e acolhimento, associado à invenção de categorias e vocabulários que intervêm no debate público; e a incidência em espaços institucionais, como a mobilização pela libertação de mulheres encarceradas por abortar (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 92).

Vinculado a teorias fundamentais sobre discurso, memória, poder e subjetivação, o conjunto de ensaios mobiliza referências como Hannah Arendt, Michel Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Essa interlocução oferece densidade teórica à construção de um “vocabulário situado” (Martínez de la Escalera et al, 2024, p. 15) feminista, inserindo a produção textual em uma genealogia crítica que problematiza a relação entre palavra, memória e retórica. Destaca-se a categoria de corpo coletivo, entendido como entidade política que “[...] se realiza, se organiza e se recria para entregar a luta que as circunstâncias patriarcais e sexistas nos exigem para permanecermos vivas e ativas” (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 112, tradução nossa).

Ao abordar a atuação em espaços institucionais, a obra reconhece a importância estratégica, mas também problematizam as hierarquias e exclusões que permeiam esses ambientes. Essa crítica é central no contexto mexicano contemporâneo, em que a descriminalização do aborto é recente e encontra limites nas desigualdades sociais e na persistência de estruturas patriarcais. O que as escritoras apontam vai ao encontro do que a teórica e ativista dos direitos reprodutivos Marta Lamas (2008) vem tensionando. Para ela, as transformações legais só se consolidam quando articuladas a práticas sociais e estratégias comunitárias. Isso se verifica no caso de Guanajuato, foco do livro, onde as iniciativas locais contribuíram para a anistia de mulheres presas por abortar (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 59).

Ao analisar as dimensões micropolíticas e macropolíticas da atuação do Las Libres, o livro evidencia o poder transformador das subjetividades na luta feminista. A força dos afetos, da escuta e dos vínculos comunitários aparece como elemento central ao desafiar narrativas punitivas e por reconfigurar fronteiras morais e discursivas. Essa reconfiguração, que deixa em segundo plano o âmbito jurídico-sanitário do aborto e dá espaço e protagonismo para as dimensões culturais e afetivas, dialoga diretamente com o que propõem teóricas que se debruçam no estudo dos afetos feministas, como Nayla Vacarezza e Julia Burton (2023). Elas argumentam sobre a necessidade de novas narrativas públicas em torno da experiência de abortar, capazes de tornar visíveis sentimentos e sentidos que permanecem silenciados pela moralidade e pela clandestinidade.

Nessa mesma chave, a obra nos é apresentada como um “[...] arquivo desde os saberes situados do ativismo e da academia crítica [...]” (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 82, tradução nossa), concepção que ressoa com a ideia de “arquivos de sentimentos” de Ann Cvetkovich (2003, p. 7). Seria, portanto, um arquivo no qual são depositadas emoções e práticas que compõem um repertório político-afetivo dissidente, ideia também desenvolvida por Nayla Vacarezza (2021).

O livro não introduz uma forma de atuação inédita dos movimentos sociais, e em especial do movimento feminista, mas contribuiu grandemente para um campo fértil nos estudos feministas contemporâneos, onde os entrelaçamentos entre afeto, política e ativismo vêm sendo cada vez mais explorados. A dimensão afetiva, portanto, não é secundária, mas estruturante da narrativa e do repertório conceitual elaborado ao longo da obra.

A reflexão sobre judicialização do aborto também aparece no texto e se aproxima de análises como a de Pauline Capdevielle (2025), para quem a judicialização do aborto no México é um processo dialógico que articula mobilização social, decisões judiciais e disputas normativas. Quando as autoras afirmam que a invenção dos direitos resulta do “[...] jogo, do enfrentamento, da confluência e do compromisso das lutas pelo acesso efetivo à justiça social nos tribunais [...]” (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 30, tradução nossa), reforçam que o direito não opera isolado, mas é sempre produto de conflitos e práticas situadas.

Um ponto que reflete a sua importância está justamente no fato de a publicação unir produção crítico-teórica e compromisso político, inserindo as lutas feministas em debates consolidados, ao mesmo tempo em que propõem um método próprio ancorado na experiência e no afeto. Muito além de narrar experiências naquele território, Las Libres propõe novas perspectivas epistemológicas e políticas em torno do aborto, e sobretudo, defendem a necessidade permanente de transgredir a dominação patriarcal e heteronormativa e a violência de gênero.

E sintetizam essa proposta ao afirmarem: “Se nós mulheres ‘nos fazemos a nós mesmas’, o mundo que reinventamos a partir dos nossos saberes, práticas e desejos é também um mundo ‘feito’ por nós e por grupos solidários que detêm a exploração que a modernidade e o capital introduziram em todo ser humano e na biosfera” (Martínez de la Escalera et al., 2024, p. 111, tradução nossa).

Ao apostar em um método que recusa formatos acadêmicos tradicionais, a publicação insiste na coerência de um fazer feminista que inventa e reinventa conceitos, práticas e alianças. O vocabulário situado e a escrita ancorada na vida cotidiana no interior do país oportunizam um outro olhar sobre a experiência do aborto e do acompanhamento pautados pelo afeto. Nesse sentido, se torna leitura fundamental para os debates e práticas sobre aborto, resistência e justiça reprodutiva. Mais que registro de uma trajetória de luta, é um convite à invenção permanente de outras realidades, tecidas pela escuta, pelo cuidado e pela força coletiva de imaginar outros futuros possíveis.

Referências

  • CAPDEVIELLE, Pauline. “La judicialización del aborto en México: la construcción dialógica de un derecho a decidir”. Anales de la Cátedra Francisco Suárez, n. 59, p. 215-241, 2025. Disponível em Disponível em https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=10001568 Acesso em 14/10/2025.
    » https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=10001568
  • CVETKOVICH, Ann. An archive of feelings: trauma, sexuality, and lesbian public cultures Durham: Duke University Press, 2003.
  • LAMAS, Marta. “El aborto en la agenda del desarrollo en América Latina”. Perfiles Latinoamericanos, v. 16, n. 31, p. 65-93, jun. 2008. Disponível em Disponível em https://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-76532008000100004 Acesso em 29/10/2025.
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  • MARTÍNEZ DE LA ESCALERA, Ana María; ENRÍQUEZ ROSAS, Lourdes; CRUZ SÁNCHEZ, Verónica; FERNÁNDEZ LOZANO, Martha Paola. Las Libres: en los escenarios sociales de la resistencia y el acompañamiento Guanajuato: [s. n.], 2024. Disponível em Disponível em https://laslibres.org.mx/wp/processes/ Acesso em 06/10/2025.
    » https://laslibres.org.mx/wp/processes/
  • VACAREZZA, Nayla Luz. “Archivos indisciplinados, afectos y políticas feministas sobre el aborto en América Latina”. In: GUTIÉRREZ, David; LÓPEZ, Helena; PALOMINO, Jorge Alberto (comps.). Lecturas interdisciplinares de los cuerpos: discursos, emociones y afectos Ciudad de México: Centro de Investigaciones y Estudios de Género (UNAM); Universidad Central, 2021. p. 77-104.
  • VACAREZZA, Nayla Luz; BURTON, Julia. “Transformar los sentidos y el sentir: el activismo cultural de las redes de acompañantes de abortos en América Latina”. Debate Feminista, v. 66, p. 61-90, 2023. Disponível em Disponível em https://debatefeminista.cieg.unam.mx/index.php/debate_feminista/article/view/2409 Acesso em 25/09/2025.
    » https://debatefeminista.cieg.unam.mx/index.php/debate_feminista/article/view/2409
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    MANDELLI, Thatiane. “(Re)invenções feministas: ‘acompanhamento outro’ e vocabulário situado no México”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 3, e111187, 2026.
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    Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC).
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Mar 2026
  • Revisado
    01 Jun 2026
  • Aceito
    02 Jun 2026
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