Open-access Lélia Gonzalez: um legado de interdisciplinaridade na construção de saberes decoloniais

Lélia Gonzalez: A Legacy of Interdisciplinarity in the Construction of Decolonial Knowledges

Lélia Gonzalez: Un legado de interdisciplinariedad en la construcción de saberes decoloniales

A seção temática Lélia Gonzalez Presente! surgiu do desejo de pesquisadoras de diversas áreas de prestar homenagem à intelectualidade, ao ativismo e ao legado interdisciplinar de Lélia Gonzalez, uma das mais importantes pensadoras brasileiras do século XX e também um exemplo de trabalho para os movimentos sociais negros e feministas não apenas no Brasil, seu legado indo além das fronteiras geográficas nacionais e também além do tempo. Em 2024, completaram-se 30 anos de seu falecimento (ocorrido no dia 10 de julho de 1994, em decorrência de um infarto, com apenas 59 anos), e, em 2025, celebramos o que seriam seus 90 anos de nascimento, no dia 1º de fevereiro. Essas datas nos convidam a refletir sobre a potência de seu pensamento, que continua a reverberar em diferentes campos do conhecimento e a inspirar lutas por justiça social, equidade e reconhecimento das vozes marginalizadas - reforçando o papel central que o feminismo afro-brasileiro continua tendo na disseminação de discursos que focam o poder coletivo das mulheres em transformar realidades (Sueli CARNEIRO, 2024).

O legado de Lélia Gonzalez e a descolonização do feminismo

O pensamento de Lélia Gonzalez transcende fronteiras geográficas e disciplinares, conectando-se a lutas globais por justiça social. Filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena, Gonzalez formou-se bacharel em História e Geografia e, posteriormente, em Filosofia, pela Universidade Estadual da Guanabara (atual UERJ), em um período em que o acesso ao ensino superior para mulheres negras era extremamente limitado. Sua trajetória acadêmica, que incluiu mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política/Social, com foco em gênero e etnia, foi marcada por uma atuação pioneira nos movimentos sociais negros. Durante a ditadura militar brasileira, um período particularmente perigoso para intelectuais e ativistas, Gonzalez desafiou as estruturas patriarcais e racistas ao fundar instituições fundamentais para a luta antirracista e feminista, como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras NZinga, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Olodum.

Com a redemocratização do país, nos anos 1980, Gonzalez intensificou sua atuação política, candidatando-se à deputada federal pelo PT, em 1982, e a deputada estadual pelo PDT, em 1986. Além disso, engajou-se na luta contra o Apartheid na África do Sul e na formulação de políticas públicas para mulheres negras como membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) de 1985 a 1989. Seus conceitos revolucionários, como Amefricanidade, Améfrica Ladina e Pretuguês (GONZALEZ, 2018), transformaram como entendemos as relações de raça, gênero e classe no contexto afro-diaspórico, desafiando estruturas coloniais e eurocêntricas ao proporem epistemologias que valorizam os saberes e experiências dos povos negros e indígenas (Alex RATTS; Flávia RIOS, 2010).

Gonzalez tornou-se uma das principais vozes do feminismo interseccional no Brasil, e antecipou debates que só ganhariam forma globalmente anos depois. Em 2020, o legado de Gonzalez inspirou a Latin American Studies Association (LASA) a adotar o tema Améfrica Ladina: Vinculando Mundos y Saberes, Tecendo Esperanças para sua conferência anual. O evento destacou a importância de reconhecer as contribuições das populações indígenas, afrodescendentes e mestiças na construção social e cultural da América Latina, promovendo um esforço intelectual e político para enfrentar as tendências conservadoras e neoliberais que fragmentam o tecido social da região.

Inspirada nesse mesmo espírito, esta seção especial propõe um espaço interdisciplinar para debater e construir conhecimentos que respondam às necessidades materiais e intelectuais do feminismo contemporâneo. Ao honrar os valores gonzalianos, buscamos promover sociedades mais justas, sustentáveis e decoloniais, fortalecendo laços de solidariedade e ampliando as vozes historicamente marginalizadas.

Amefricanidade e a conexão com a diáspora africana

Através do conceito da Amefricanidade, somos convidadas a pensar as conexões entre as experiências das populações negras e indígenas nas Américas, refletindo sobre a forma como Gonzalez utiliza os termos ‘amefricanas/amefricanos’ para designar toda uma descendência: não apenas a dos africanos trazidos pelo tráfico negreiro, mas também a daqueles que habitavam as Américas muito antes da chegada dos colonizadores. Essa perspectiva se mostra ainda fundamental para entender a produção literária e cultural de mulheres negras e indígenas, como discutido no artigo “A Amefricanidade como chave de leitura para as literaturas negro-brasileira e indígena de autoria de mulheres”, de Mirian Santos.

Santos propõe um diálogo crítico entre as literaturas de autoria feminina negra e indígena, ambas situadas à margem do cânone literário brasileiro. Ao analisar como essas escritoras questionam e deslocam os paradigmas tradicionais da literatura, a autora utiliza o conceito de Amefricanidade como ferramenta político-epistemológica, colocando-o em movimento junto a outras noções, como a ‘oralitura’ de Leda Martins. Essa abordagem não apenas amplia o olhar sobre a produção literária de mulheres negras e indígenas, mas também reforça a importância de suas vozes na construção de uma epistemologia decolonial e inclusiva.

Além de conectar as experiências das Américas, o conceito de Amefricanidade permite estabelecer diálogos com outras realidades afro-diaspóricas, como a moçambicana, abordada no artigo “Lélia e Paulina: uma conexão libertária de discursos feministas em Brasil e em Moçambique”, de Hilma Ribeiro de Mendonça Ferreira. Ao comparar as questões levantadas por Gonzalez com a obra da escritora moçambicana Paulina Chiziane, Ribeiro evidencia as semelhanças nas lutas contra o racismo e o sexismo em contextos distintos. Essa análise reforça a importância de uma perspectiva global e decolonial, demonstrando como o pensamento de Gonzalez transcende fronteiras nacionais e inspira conexões entre diferentes contextos afro-diaspóricos, com destaque para a relevância do conceito de Amefricanidade para a valorização das vozes e experiências das mulheres negras, o que contribui para a construção de um feminismo verdadeiramente global e interseccional (GONZALEZ, 2020).

Pretuguês e a agência político-cultural das mulheres negras

Outro conceito central desenvolvido por Gonzalez é o de Pretuguês, que se refere à linguagem e à cultura afro-brasileira como formas de resistência e afirmação identitária. No artigo “Pretuguês, interseccionalidade e agência político-cultural das mulheres negras no Brasil”, Mariana Sales de Abreu retoma esse conceito para discutir o papel central das mulheres negras na formação social brasileira e suas formas de resistência cotidiana, destacando como Gonzalez antecipou, em suas análises, a interseccionalidade entre raça, gênero e classe, e ressaltando a sua contribuição para a compreensão das questões raciais no contexto brasileiro e latino-americano, com ênfase na relevância de seu pensamento para a construção de um feminismo negro contemporâneo.

O Pretuguês também nos convida a refletir sobre a importância da tradução e da circulação de ideias como atos políticos. No artigo “Amefricanidades: sobre uma tradução de Lélia Gonzalez para o espanhol”, Andreia dos Santos Menezes, Bruna Macedo de Oliveira Rodrigues, Flávia Regina Dorneles Ramos, Júlia Batista Alves, Larissa Fostinone Locoselli e Mario René Rodríguez Torres abordam os desafios e as possibilidades de traduzir a obra de Gonzalez para o espanhol, com destaque para a necessidade de resgatar memórias negras apagadas e de incluir mulheres negras nesse processo. As autoras e o autor também analisam termos específicos no espanhol rioplatense, como ‘negro/a’, ‘quilombo’ e expressões relacionadas ao trabalho doméstico, demonstrando um aprofundamento teórico e prático relevante para os estudos feministas decoloniais.

Ambos os artigos reforçam a importância do Pretuguês não apenas como uma ferramenta linguística, mas como um instrumento político que contribui para a descolonização do conhecimento e a valorização das vozes afro-latino-americanas. Ao discutir a agência político-cultural das mulheres negras e os desafios da tradução, demonstram como o legado de Gonzalez continua a inspirar práticas intelectuais e ativistas que buscam ampliar e fortalecer as lutas por justiça social e equidade.

Honrando um legado de coletividade e interseccionalidade

A interseccionalidade, como defendida por Gonzalez, não se limita à análise das opressões, mas também propõe uma prática política coletiva e transformadora. Seu legado continua a nos inspirar a construir movimentos que valorizem a diversidade de experiências e promovam a justiça social para todas as mulheres, especialmente aquelas historicamente marginalizadas. Tal inspiração é vista no artigo “Juventude brasileira e interseccionalidade: Contribuições a partir da Pesquisa Ibero-Americana”, no qual as autoras Juliana Prata, Mônica Peregrino e Juliana de Souza Barbosa abordam as trajetórias escolares e laborais de jovens brasileiros pelo viés interseccional, revelando as barreiras enfrentadas por jovens em contextos de vulnerabilidade e também sugerindo políticas públicas mais inclusivas e eficazes, o que demonstra como é possível aplicar o pensamento de Gonzalez a um campo emergente e como sua teoria crítica pode orientar ações concretas para a promoção da equidade e da justiça social.

Com uma proposta semelhante, no artigo “Teoria Social Crítica de Lélia Gonzalez: reflexões para as Ciências da Saúde”, de Rosana da Silva Pereira e Amanda dos Santos Pereira, vemos o legado de Gonzalez se estendendo às ciências da saúde. As autoras argumentam que o pensamento de Gonzalez pode contribuir para descolonizar as ciências da saúde, desafiando a hegemonia intelectual branca e masculina por meio do questionamento de paradigmas dominantes, propondo, assim, uma prática médica mais inclusiva e equitativa ao destacar a importância de incorporar perspectivas interseccionais na formação dos profissionais de saúde. O artigo também traz uma contribuição original ao mobilizar os conceitos de Gonzalez para refletir sobre o epistemicídio de intelectuais negros nos currículos acadêmicos, especialmente nas áreas da saúde.

Juntos, esses artigos demonstram a versatilidade e a atualidade do pensamento de Gonzalez, aplicando seus conceitos a campos tão diversos e reforçando a importância da interseccionalidade e da descolonização do conhecimento, de forma a ficar evidente como Gonzalez continua presente ao inspirar práticas intelectuais e políticas que buscam transformar realidades marcadas pela desigualdade e pela exclusão.

Entretanto, a atualidade do pensamento de Gonzalez também nos leva a perguntas desconfortáveis: por que suas obras ainda não são amplamente conhecidas? Por que suas ideias não ocupam o espaço central que merecem nos currículos acadêmicos e na formação profissional? Honrar sua trajetória vai além de reconhecer sua importância; exige que enfrentemos essas lacunas e coloquemos suas reflexões em prática, fazendo delas ferramentas reais para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

Que esta seção temática seja, então, um convite e um instrumento para ampliar esse diálogo, conectando o pensamento de Gonzalez às lutas urgentes do presente e aos desafios que ainda estão por vir - renovando o interesse por sua obra (GONZALEZ, 2024) e consolidando o seu legado intelectual e político.

Referências

  • CARNEIRO, Sueli. Lélia Gonzalez: um retrato Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
  • GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras São Paulo: Filhos da África, 2018.
  • GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano Rio Janeiro: Zahar, 2020.
  • GONZALEZ, Lélia. Festas populares no Brasil 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2024.
  • RATTS, Alex; RIOS, Flávia. Lélia Gonzalez: o feminismo negro no Brasil São Paulo: Selo Negro, 2010.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    MORAES, Lidiana de; PRATA, Juliana de Moraes. “Lélia Gonzalez: um legado de interdisciplinaridade na construção de saberes decoloniais”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 33, n. 2, e105774, 2025.
  • Financiamento:
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    17 Mar 2025
  • Aceito
    19 Mar 2025
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