Open-access Ancestralidade em Diáspora: mulheres palestinas e interseccionalidade

Ancestry in Diaspora: Palestinian women and intersectionality

Ascendencia en la diáspora: mujeres palestinas e interseccionalidad

TELES, Bárbara Caramuru. . Palestina em Movimento: a diáspora a partir de um olhar interseccional . Curitiba: Appris Editora, 2024.

Bárbara Caramuru Teles é professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e possui Pós-Doutorado em Antropologia pela mesma instituição. É doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tendo realizado mestrado em Antropologia e bacharelado e licenciatura em História também pela UFPR. Participa de atividades do Núcleo de Estudos de Oriente Médio (NEOM) da Universidade Federal Fluminense (UFF), além de ampla experiência internacional em pesquisa sobre Oriente Médio e Mundo Árabe. Entre os anos de 2015 e 2016, de seu trabalho de campo com a comunidade palestina no Chile, resultou em sua tese de doutorado, que gerou o livro aqui resenhado.

Baseada em entrevistas realizadas com membros palestinos de diversos estados, entidades e ativistas do Brasil do Chile e da Palestina, tanto presencial quanto on-line, além bibliografia especializada, a autora desenvolveu a tese originalmente intitulada “La Resistencia Palestina es Mujer y está Furiosa”: palestinidades em diáspora a partir dos marcadores sociais de diferença: um olhar interseccional. Nela, realizou um estudo etnográfico com as comunidades palestinas no Chile, no Brasil e na Palestina, explorando como ocorriam a construção e ocupação do espaço pelos palestinos nas regiões estudadas, desde o estabelecimento da construção do lar (home-making) no cotidiano ou no ativismo. É aplicada uma perspectiva interseccional, analisando a as interações entre as diversas formas de opressão, especialmente, sobre as mulheres dessas comunidades.

No capítulo um, intitulado “A Diáspora”, descreve como e quando os palestinos vieram para o continente, dividido em dois momentos. O primeiro, após queda do império Turco-Otomano, era de maioria cristã ortodoxa, residindo no Recife. O segundo foi pós-Nakbah, a partir de 1967, devido à Guerra dos Seis Dias e da ocupação israelense, de maioria muçulmana, se dedicando à construção de mesquitas, particularmente no sul e sudeste do Brasil. Atualmente, as regiões de maior concentração de palestinos estão em São Paulo, Brasília, Rio Grande do Sul, Amazonas, Pará, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.

Logo que chegavam ao Brasil, eles atuavam como mascates (comerciantes), desenvolvendo uma trajetória de sucesso, contada por gerações. Os homens migravam em busca de empregos, para que pudessem buscar suas famílias, ou voltar à Palestina e se casar. Também eram comuns as viagens de volta das esposas e dos filhos para a Palestina, ou que os últimos fossem ficar com parentes na terra natal para aprender a língua e a cultura. O papel das mulheres é essencial, pois garante o cuidado do dia a dia para que ocorra o bom funcionamento das famílias e da sociedade.

Sobre o refúgio, Teles destaca que havia pouquíssimos vistos de refugiado concedidos a palestinos pós-Primavera árabe (apenas 57). A autora aponta para o caso de palestinos vindos de campos de refugiados iraquianos, os iraqui, no Chile. Há questões de reconhecimento mútuo entre os palestinos já estabelecidos e os recém-chegados. Estes últimos, considerados dependentes de políticas sociais, enfrentam desconfiança, uma vez que aqueles já estabelecidos prezam pelo seu crescimento e enriquecimento sem depender de auxílio. Em comum, no entanto, todos eles possuem a esperança de retorno. A autora aponta para alguns casos de palestinos que conseguiram ter uma vida bem-sucedida, mas voltam devido à saudade de suas famílias e sua terra.

No capítulo dois, “Habitando a Diáspora”, Teles aponta para a (re)organização das comunidades palestinas no Chile e no Brasil. Destaca a reorganização de instituições palestinas durante governos de direita na América do Sul e novamente com governos de esquerda. Ela evidencia as tentativas de preservação das tradições, como através do Taqalidi (tradição, em árabe), um evento realizado em 2019, no Peru. A antropóloga salienta a cristalização da cultura palestina na diáspora, conflitando com as interações nas sociedades dos países trabalhados.

Teles mostra o papel da juventude, que busca se autorreconhecer nas sociedades brasileira e chilena. Aqui, as subjetividades emergem. Nesse capítulo, há um diálogo com autoras negras, decolonias, pós-coloniais, e anticoloniais, ao estabelecer uma identificação com outros movimentos minoritários. Termos como pele cor de oliva, azeitonada, azeite de oliva, mulheres marrons, ou latino-arabianas emergem para descrever esse grupo étnico, buscando entender as particularidades palestinas. Teles destaca também a relação da causa palestina com classe, etnicidade e gênero, mostrando seu caráter interseccional da opressão sofrida por mulheres palestinas.

É apontada a diferenciação entre as lutas pela causa palestina nos países estudados, sendo no Brasil mais vinculado a movimentos de esquerda e no Chile a movimentos de direita. É importante destacar que essas divergências ideológicas podem ser superadas em nome da luta pela causa palestina, prevalecendo a identidade sobre os espectros políticos. A maternidade assume importância nesse contexto, uma vez que as mulheres possuem a função de produtoras e reprodutoras da sociedade, garantindo o funcionamento das comunidades, desencadeando a resistência cotidiana por meio da maternidade. Teles destaca a necessidade de descolonizar o olhar a respeito da maternidade, que pode ser algo que garanta a perpetuação das populações e, particularmente, das identidades.

Já no capítulo três, “Palestinian Lives Matter: manifestações em rede, redes de manifestações”, Teles destaca a adaptação da música “Un Violador en Tu Camino”, entoada em manifestações contra o patriarcado no Chile e que se espalhou ao redor do mundo. A antropóloga estabelece uma comparação da violência policial nos EUA, do Brasil e Chile com a violência estatal de Israel contra os palestinos. “El estado opresor es un macho violador” vira “Israel es un macho violador” (Bárbara Caramuru TELES, 2024, p. 194). Ela também aponta para a relação dos movimentos negros dos EUA com os movimentos palestinos da América do Sul (Brasil e Chile, especificamente). Com isso, ocorre uma solidariedade entre o Black Lives Matter e o Palestinian Lives Matter.

Teles ainda destaca a mobilização do discurso de Apartheid para definir a situação vivida pelos palestinos em seu território de origem e que se intensificou após a pandemia de Covid-19, ganhando outra roupagem com a restrição de acesso às vacinas e de circulação de pessoas e ajuda humanitária. Ela apresenta casos de influenciadoras muçulmanas, árabes e palestinas que ganharam espaço e falaram nas redes sociais sobre temas como a desmistificação do Islã e sobre a causa palestina, tendo adquirido engajamento durante a pandemia do novo coronavírus em decorrência da situação de isolamento. Dentre as que se destacam, estão Hyatt Omar, influenciadora muçulmana e palestina, e o Projeto Muçul-MANAS.

Por fim, na conclusão, são retomados os aspectos abordados ao longo do volume, destacando a diversidade e o contraste entre as diversas formas de palestinidades diaspóricas. Ao tomar como eixo analítico e organizacional central a questão de gênero, a antropóloga mostra as opressões compartilhadas e as narrativas construídas pelos interlocutores, fazendo um movimento de mostrar algo para além do que nos é contado por meio da história oficial, destacando a necessidade de observar o que ficou pelo caminho.

Dentre as contribuições para a área das Relações Internacionais e os estudos sobre América Latina, a obra mostra como os palestinos em diáspora mantêm e sustentam suas identidades, com destaque o papel feminino variado, preservando aspectos culturais e religiosos, questionando funções tradicionais de mãe e esposa ou atuando como ativistas pela causa palestina ou por pautas feministas. O estudo sistematiza a diversidade de atuações desempenhadas pelos membros dessas comunidades, podendo transitar entre os espectros da direita e da esquerda, ou mesmo superá-lo em nome da causa palestina. Outro aspecto foi a criação por algumas dessas ativistas de uma nomenclatura para mulheres que não se enquadram nos padrões de beleza e aparência estabelecidos, enfatizando sua herança árabe e, também, sua identidade latina.

Dentre as críticas, estão a ausência de autoras consagradas como Chandra Talpade Mohanty (2020) que nos mostra como o olhar ocidental de um feminismo civilizatório pode, além de dificultar a análise das especificidades locais de movimentos do Sul Global, perpetuar estereótipos e universalizar experiências de mulheres sem levar em conta aspectos fundamentais dos contextos, lutas e reivindicações dentro das quais estão inseridas. Também causa estranhamento a ausência de Gayatri Chakravorty Spivak (2010) e Deepika Bahri (2013), que poderiam trazer contribuições sobre a falta de voz da mulher subalterna e do duplo padrão de opressão que elas enfrentam, tanto de homens brancos quanto de seus pares.

Nota-se ao longo da leitura do livro de Teles a ausência de autoras muçulmanas decoloniais. Por isso, contribuições de pensadoras como Sirin Adlbi Sibai (2012), que trata de cárcere epistemológico, é uma contribuição de grande relevância para complementar o pensamento da antropóloga sobre a descolonização do olhar acadêmico. Devido ao fato das limitações das ferramentas de pesquisa ocidentais para entender os Islã e as sociedades nas quais ele é predominante, ocorrem situações em que estudiosos e estudiosas ocidentais reduzem determinadas categorias para que caibam em sua análise, de modo a perpetuar tanto violências epistêmicas quanto estereótipos da mulher muçulmana como oprimida ou do árabe como violento.

Referências

  • BAHRI, Deepika. “Feminismo e/no Pós-Colonialismo”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 2, p. 659-688, 2013.
  • MOHANTY, Chandra Talpade. Sob os Olhos Ocidentais Trad. de Ana Bernstein. Copenhague/Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2020.
  • SIBAI, Sirin Adlbi. “Colonialidad, feminismo e Islam”. Viento Sur, v. 122, p. 57-67, 2012.
  • SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar? Trad. de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
  • TELES, Bárbara Caramuru. Palestina em Movimento: a diáspora a partir de um olhar interseccional Curitiba: Appris Editora, 2024.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    OCHÔA, Natália Morari. “Ancestralidade em Diáspora: mulheres palestinas e interseccionalidade”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 1, e109920, 2026.
  • Financiamento:
    Não se aplica.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    Não se aplica.

Disponibilidade de dados

Não informado o uso de dados, não utilizou dados de pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Nov 2025
  • Revisado
    07 Jan 2026
  • Aceito
    11 Jan 2026
location_on
Centro de Filosofia e Ciências Humanas e da Universidade Federal de Santa Catarina Campus Universitário - Trindade, CEP: 88040-970, Telefone: +55 (48) 3721-8211 - Florianópolis - SC - Brazil
E-mail: ref@contato.ufsc.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error