Open-access Cuidadores familiares: o que eles necessitam? Uma revisão integrativa

Resumo

OBJETIVO  Este estudo teve como objetivo identificar quais as principais necessidades manifestadas pelo cuidador familiar no cuidado à pessoa dependente.

MÉTODO  Realizou-se uma revisão integrativa da literatura no período entre 2010 e 2015 com o recurso de instrumentos de busca específicos, nas bases de dados EBSCO e SCOPUS.

RESULTADOS  Foram selecionados 11 artigos A análise da evidência científica obtida permitiu organizar os resultados em cinco áreas temáticas: a transição para o cuidar, o ser responsável por tudo, a importância do suporte, o acesso aos apoios formais, a comunicação e a informação na tomada de decisão.

CONCLUSÃO  Os resultados demonstram que o cuidador apresenta inúmeras necessidades em áreas distintas,as quais devem ser abordadasnas intervenções de enfermagem.

Descritores
Cuidadores; Família; Assistência Domiciliar; Pessoas com Deficiência; Cuidados de Enfermagem; Revisão

Abstract

OBJECTIVE  Aimed to identify the main needs expressed by family caregivers in caring for adependent person.

METHOD  An integrative review of the literature in the period between 2010 and 2015 using specific search engine tools in the EBSCO and SCOPUSdatabases.

RESULTS  11 articles were selected, and the analysis of the scientific evidence obtained allowed for organizing the results into five thematic areas:transition into care, being responsible for everything, the importance of support, access to formal support, communication and informationprocesses.

CONCLUSION  The results showed that caregivers have many needs in different areas, which should be addressed in nursing interventions.

Descriptors
Caregivers; Family; Home Nursing; Disabled Persons; Nursing Care; Review

Resumen

OBJETIVO  Este estudio tuvo como objetivo identificar cuáles son las principales necesidades manifiestas por el cuidador familiar en el cuidado a la persona dependiente.

MÉTODO  Se llevó a cabo una revisión integrativa de la literatura en el período entre 2010 y 2015 con el recurso de instrumentos de búsqueda específicos, en las bases de datos EBSCO y SCOPUS.

RESULTADOS  Fueron seleccionados 11 artículos. El análisis de la evidencia científica permitió organizar los resultados en cinco áreas temáticas: la transición al cuidar, el ser responsable de todo, la importancia del soporte, el acceso a los apoyos formales, la comunicación y la información en la toma de decisión.

CONCLUSIÓN  Los resultados demuestran que el cuidador presenta innumerables necesidades en áreas distintas, las que se deben abordar en las intervenciones de enfermería.

Descriptores
Cuidadores; Familia; Atención Domiciliaria de Salud; Personas con Discapacidad; Atención de Enfermería; Revisión

Introdução

Muitas famílias, no decorrer do seu ciclo vital, experienciam a situação de doença e são confrontadas com a transição para um novo papel:Ser Cuidador. Os cuidados por parteda família surgem como um recurso para a desospitalização, esperando-se que as pessoas sem preparação prévia executem cuidados que seriam remunerados e da responsabilidade dos profissionais em meio hospitalar ou comunitário. No regresso a casa, a família encontra-se fragilizada e o cuidador familiar assegura os cuidados, muitas vezes, de forma intuitiva, podendo existir falhas no cuidado, decorrentes tanto da ausência ou lacunas de orientações recebidas no hospital que não vão ao encontro das reais necessidades do cuidador como dopouco tempo que tem para se apropriar das orientações1.

Compreender a experiência do cuidado familiar é adentrar em um universo complexo e ao mesmo tempo singular2. A experiência de cuidar de um doente dependente em casa temse tornado cada vez mais frequente no cotidiano das famílias e surge como um recurso para as instituições de saúde. Este novo papel é experienciado através de uma multiplicidade de necessidades e sentimentos, muitas vezes contraditórios e antagônicos, pela tensão, competência e conflito associado. O aparecimento da doença no seio de uma família, conduzindo o membro doente à dependência, leva à necessidade de modificação de suas atividades de vida diárias, sendo esse papel normalmente assumido pelo cuidador, geralmente mulheres, solteiras, domésticas ou desempregadas e que coabitam com a pessoa dependente. A expectativa de que as mulheres devem continuar a suportar este fardo desproporcional continua a ser um pressuposto de silêncio em grande parte da decisão política3. Este papel apresenta-se, assim, como uma extensão dos papéis expectáveis da família, o que, aliado à sustentabilidade alegada pelas instituições de saúde, pressiona a família no sentido de manter esse papel, sem equacionar as exigências e as necessidades associadas4. São inúmeros os trabalhos desenvolvidos nesta esfera, com cuidadores de doentes dependentes,portadores depatologias diversas.

Recorrendo a uma revisão integrativa da literatura, pretendemos identificar as necessidades mais evidenciadas pelos cuidadores familiares de doentes dependentes, que emergem da produção científica dos últimos cinco anos, e com isso contribuir para a melhoria dos cuidados de enfermagem. Neste contexto, a revisão integrativa permite o acesso rápido aos resultados relevantes de pesquisas que fundamentam a tomada de decisão do enfermeiro5.

Método

No sentido de agrupar o conhecimento existente sobre as necessidades dos familiares cuidadores de um doente dependente recorreu-se a uma revisão integrativa. Este método é a mais ampla abordagem referente às revisões, permitindo a inclusão de diversos tipos de estudos para uma compreensão mais vasta do fenômeno analisado, desempenhando um papel importante na prática baseada em evidência em enfermagem6. A revisão integrativa é uma ferramenta importante no processo de comunicação dos resultados de pesquisas, uma vez que proporciona uma síntese do conhecimento já produzido5.

Tendo em consideração o conhecimento que se pretendia sintetizar, a revisão teve como ponto de partida a seguinte questão: Quais as necessidades dos cuidadores familiares de doentes dependentes?

Após a identificação do tema e seleção da questão de pesquisa, foram estabelecidos os critérios de inclusão e exclusão de estudos. Foram incluídos os estudos com familiares cuidadores de doentes dependentes no domicílio, com idade superior a 18 anos, em que o objetivo do estudo fosse identificar as necessidades dos cuidadores. Utilizamos como critério de exclusão os artigos de revisão, os estudos cuja temática fosse centrada nos cuidadores familiares com menos de 18 anos e os estudos com cuidados prestados institucionalmente. A pesquisa bibliográfica foi realizada entre setembro e dezembro de 2015. Foram selecionados trabalhos publicados entre janeiro de 2010 e dezembro de 2015, utilizando como idioma o inglês, espanhol e português. Para o efeito, recorreu-se à pesquisa em bases de dados disponíveis na área da saúde, designadamente EBSCO e SCOPUS,por meiodos descritores e boleanos que se seguem: (Family caregiver OR Parents caregiver) AND (Patient OR Dependente care OR aged) AND (Heath services needs OR Information needs OR Needs) (Figura1). A pesquisa foi realizada no resumo/título do artigo e apenas foram incluídos os artigos com texto completo disponível.

Figura 1
Construção do protocolo de pesquisa- Portugal, 2016.

Após a leitura integral dos 41 estudos, a amostra final foi constituída por 11 artigos que atenderam aos critérios de inclusão. Após o estabelecimento da amostra, foram definidas as informações a serem extraídas dos estudos, e realizada a sua categorização5. Os 11 artigos foram analisados em profundidade e agrupados por similaridade.

Resultados

Esta revisão é composta por 11 artigos publicados entre 2010 e 2015. Da amostra selecionada, seis estudos eram de natureza qualitativa e cinco quantitativos, distribuindo-se, conforme ilustrado na Figura 2, nos seguintes países: Canadá, EUA, Brasil, Colômbia, Inglaterra, Itália e Tailândia.

Figura 2
Abrangência geográfica da pesquisa entre 2010 e 2015- Portugal, 2016.

Na pesquisa realizada obtivemos muitos estudos que, embora se referissem às necessidades dos cuidadores familiares de pessoas dependentes, majoritariamente descreviam o sentimento de ser cuidador(a) ou as vivências do mesmo, não explorando as necessidades dos cuidadores. Os estudos que foram incluídos nesta revisão integrativa são apresentados no Quadro 1.

Quadro 1
Estudos da amostra da revisão integrativa-Portugal, 2016.

Da análise dos estudos apresentados, emergiram cinco áreas temáticas, ilustradas na Figura 3: a transição para o cuidar, o ser responsável por tudo, a importância do suporte, o acesso aos apoios formais, os processos de comunicação e informação, os quaisserão abordados com mais profundidade.

Figura 3
Áreas temáticas da revisão integrativa- Portugal, 2016.

Discussão

A transição para o cuidar-Necessidade de conhecimento e aprendizagens

A transição para o papel de cuidador(a) de uma pessoa dependente é um processo complexo que envolve inúmeras variáveis. Transição é um conceito associado à teoria de crise que decorre, tal como nos refere Meleis na teoria das transições, de processos de transição quer sejam decorrentes do desenvolvimento, ou de saúde/doença16. O período de transição é visto como um período de grande importância na aprendizagem de competências para a quantidade de cuidados necessáriaao destinatário11. Para cuidar de forma independente, o cuidador(a) necessita de se apropriar de novos conhecimentos e habilidades no domínio dos autocuidados para satisfazer todas as atividades de vida diária, nomeadamente no que se refere à mobilização, transferência, assistência médica em casa, aos exercícios de reabilitação, como fornecer cuidados em casa, administrando o inesperado, entre outros12. O confronto com este novo papel ocorre no momento em que a pessoa dependente e o cuidador(a) retornam ao domicílio, deparando-se com novas dificuldades. As atividades relacionadas à alimentação, higienização, movimentação e ao vestuário, anteriormente realizadas com facilidade no cotidiano, tornaram-se tarefas que exigem apoio e cuidados específicos1.

O domínio do conhecimento e da aprendizagem do saber fazer é, para os cuidadores familiares, uma das necessidades referidas na maioria dos estudos7,9,11-12,14-15, pois este permite a melhor percepção deste novo papel, o de ser Ser Cuidador. Embora seja visível em alguns estudos o caráter progressivo deste processo, ou seja, a sua variação em complexidade e amplitude, no que se refere às necessidades instrumentais1,7,9,12,14-15,após um período, o cuidador(a) familiar adapta-se à situação e tem o sentimento de superação destas necessidades1.

Observaram-se num estudo longitudinal, com 60 cuidadores familiares de doentes com acidente vascular cerebral (AVC),as mudanças nas necessidades dos cuidadores ao longo do tempo, antes da alta, 2 semanas após a hospitalização e 3 meses após a hospitalização, e se evidenciou a diminuição destas necessidades ao longo do tempo14. O medo onipresente do desconhecido aumenta a percepção de falta de informação e de preparação, especialmente no período pré-alta, diminuindo no período pós-alta11. Os mesmos resultados são apresentados num outro estudo longitudinal com 10 cuidadores familiares de doentes com Doença do neurônio Motor/Esclerose Múltipla Amiotrófica, seguidos durante 2anos. Neste trabalho,os autores salientam que,inicialmente, eram muitas as necessidades, no entanto, ao longo do tempo, elas pareciam tornar-se menos prevalentes à medida que o cuidador(a) tornava-se mais experiente, apesar da condição da pessoa se deteriorar15.

Em contrapartida, um estudo longitudinal com 18 cuidadores de doentes dependentes, em dois momentos, antes e após a alta, salienta que o que mudou ao longo do tempo foi apenas o foco das perguntas. Somente no período pós-alta, as preocupações dos cuidadores foram afastando-se um pouco do destinatário e começaram a procurar reconhecimento das suas próprias necessidades e apreciar o cuidado prestado11.

Ser responsável por tudo-Necessidade de tempo para a multiplicidade de atividades

O sentimento de ser responsável por tudo representa uma característica fundamental da experiência dos cuidadores, encadeando várias necessidades. A necessidade de tentar manipular uma variedade de tarefas simultaneamente pesa sobre os cuidadores, gerando um fardo11. Ao papel de cuidador(a) acresce-se uma multiplicidade de papéis previamente existentes que dificultam a assunção deste novo papel, pela dificuldade inerente à gestão do tempo, interação e conflito de alguns dos papéis. Torna-se um desafio para os cuidadores conciliar o papel de cuidador(a) familiar com a manutenção dos diversos papéis e relações sociais, podendo originar tensão e conflito neste âmbito13. Um estudo enumera algumas destas necessidades: ter tempo para dormir; ajuda para cozinhar; fazer compras; ter tempo para a família e amigos; poder ir à igreja; ter tempo para si14.

Este papel é narrado como esquecido e abandonado por tempo indeterminadopelos cuidadores3. Os familiares cuidadores têm de garantir as tarefas que a pessoa dependente é incapaz de fazer por si mesma, tais como higiene pessoal e mobilidade. No entanto, incorpora muitas outras atividades destinadas à pessoa sob seus cuidadados, como garantir um ambiente adequado, proporcionar supervisão constante e apoio emocional, gestão de comportamentos difíceis, tomar decisões em seu nome, gestão financeira do cuidado, bem como assumir cuidados de enfermagem e tarefas terapêuticos. Além destes cuidados específicos e responsabilidades destinadas ao familiar dependente, os cuidadores têm de continuar a realizar as tarefas diárias que já eram da sua responsabilidade anteriormente: ser mãe, esposa, cozinheira,tentando fazer malabarismos com uma multidão de tarefas,simultaneamente11.

Num estudo realizado com 73 familiares cuidadores de idosos com demência, depressão e sobrecarga dos cuidadores foram relacionadas com algumas necessidades nesta temática,como ajudar nas tarefas domésticas, tempo para relaxar e tempo para dormir10. Assim, é importante neste processo fornecer estratégias para ajudar os cuidadores a gerir os seus papéis concorrentes e garantir a manutenção da saúde do cuidador14.

A importância do suporte-Necessidades emocionais e interpessoais

O suporte desempenha uma função decisiva na adaptação e no exercício do papel de cuidador(a) para obter apoio emocional num período de grande vulnerabilidade11 dos prórios familiares17.

As necessidades emocionais e interpessoais, nomeadamente, podercontar com alguém para desabafar e obter o reconhecimento pelo esforço do cuidar por parte de amigos e familiares são descritas ao longo dos estudos analisados, evidenciando a importância do suporte para o cuidador(a)1-3,7,11-15.

Os resultados da pesquisa indicam que os cuidadores experimentam muitos desafios, incluindo necessidades não atendidas em áreas de suportes relacionais, tais como manutenção de relacionamentos de longo prazo e apoio emocional7. O desenvolvimento de estratégias para apoiar cuidadores familiares e receptores de cuidados deve ser um foco de atenção no cuidar da família18.

No âmbito das necessidades emocionais, são enumeradas algumas destas carências, quais sejam, as necessidades: de ter ajuda para manter a esperança sobre o futuro; de ser encorajado a pedir aos outros para ajudar; de expressar seus sentimentos sobre o paciente com alguém que passou pela mesma experiência; de ter um parceiro ou amigos que compreendam o quão difícil é este papel; de ajuda sobre dúvidas e medos quanto ao futuro; de ter tempo para ir ao templo ou à igreja; de discutir os seus sentimentos sobre o paciente para se ter a certeza de que é habitual ter fortes sentimentos negativos, tais como ansiedade, preocupação, tristeza, culpa e raiva14.

Num estudo com familiares cuidadores de doentes vítimas de acidente vascular cerebral (AVC) são salientadas as emoções e os sentimentos vivenciados na transição para o papel de cuidador(a), por se tratar de um momento inesperado e desconhecido, gerando inicialmente um impacto que culmina em uma verdadeira explosão de sentimentos muito intensos vivenciados pelo cuidador(a)1. Dentre eles, foram citados sentimentos de desespero, medo e insegurança sobre o desconhecido e o futuro a partir daquele momento. O cuidador(a) vivencia uma ambivalência de sentimentos demonstrados por felicidade e esperança, em contraste com os sentimentos de estresse, angústia e tristeza profunda, que foram expressos por meio de choro contínuo, o que demonstrasentimentos próximos do descontrole, acompanhados da abdicação do cuidado consigo para cuidar do outro1.

Conforme aponta um dos estudos, quando os cuidadores refletem sobre o suporte necessário neste contexto, os familiares são descritos como essenciais11. A família é referida como uma fonte importante de apoio psicológico e organizacional, assim como alguns amigos próximos. Deste modo, referem sentir-se sozinhos e abandonados, quando este suporte informal desaparece completamente, esperando que o mesmo fosse oferecido sem ser necessário pedir.

Igualmente, encontrou-se que a maioria dos cuidadores relatou altos níveis de sobrecarga, depressão e problemas de saúde e que, independentemente das características sociodemográficas dos cuidadores, existe uma relação entre algumas das necessidades da família e a presença destes problemas. Além disso, as necessidades de apoio emocional e aconselhamento foram os melhores preditores do suporte em cuidadores10.

O acesso aos apoios formais - Necessidades sociais, rede apoio para cuidadores, apoio financeiro e estrutural

Os apoios formais são determinantes para uma transição eficaz para o papel de cuidador, pois a partir deles é possível obter informações de saúde, suporte profissional e redes de apoio comunitário14. As necessidades sociais, a rede de apoio para cuidadores e o apoio econômico e estrutural são descritos nos estudos analisados, evidenciando a importância de apoios formais1,3,7-15. Os cuidadores relataram diferentes experiências relacionadas com os apoios formais, alguns se sentiram apoiados e envolvidos em procedimentos de enfermagem e terapêuticos, outros experimentaram pouca ajuda, bem como pobre compreensão e empatia11. Algumas expressões de frustração dos cuidadores direcionavam-seao desejo de receber mais apoios formais, referentes à informação e ao encaminhamento, ao serviço em casa para a pessoa cuidada e aos serviços de alívio para si próprio3. São referidas as necessidades de cuidados temporários ou outro tipo de ajuda para a pessoa;necessidade de participação em um grupo de apoio;de ajuda financeira com as despesas; de equipamento especial para atender às necessidades físicas; de serviços de enfermagem em casa; e de ajuda com o transporte.

Num estudo com 120 cuidadores familiares de idosas vítimas de fratura da anca, 42,6% dos cuidadores referiram ter pelo menos uma necessidade de serviços de acompanhamento médico, 13,5%, pelo menos uma necessidade de serviços sociais e 13,5%, a necessidade de participar de um grupo de apoio e ou de se consultarpara aliviar o stress. Salienta-se que deve ser dada especial atenção aos cuidadores que relatam não ter nenhuma necessidade relacionada com a prestação de cuidados, grupo de apoio ou a ajuda do serviço social8.

Um dos apoios mais solicitados foi o descanso do cuidador, embora referido como muito burocrático e de difícil acesso3. Destacaram-se também a falta de recursos econômicos para a aquisição de materiais para o novo papel, como para adequação do edifício residencial ao cuidado, ao se identificar barreiras arquitetônicas na estrutura física do domicílio, dificultando o cuidado1. No geral, as interações pessoais com grupos de pessoal e apoio do cuidador sem fins lucrativos foram vistas como uma das fontes mais benéficas de informações e suporte3.

Muitos cuidadores têm um limitado acesso à informação e pouco conhecimento sobre os apoios existentes em suas comunidades. Além disso, mesmo que esses recursos estejam disponíveis,por exemplo,para descanso do cuidador, em geral os cuidadores familiares sentem-se na obrigatoriedade de cuidar e acabam por não osutilizar9.

Os processos de comunicação e informação -Necessidade de informação, comunicação

O papel dos enfermeiros é preponderante, enquanto profissionais de saúde habilitados a transmitir a informação necessária para a tomada de decisão para o cuidar19. A necessidade de informação e comunicação com os profissionais de saúde foi uma questão fundamental para os cuidadores1,3,7-12,14. Eles realçaram a importância da forma como a informação deveria ter sido transmitida, em termos de qualidade e quantidade7. A necessidade de informação consistente, confiável e atual foi referida pelos cuidadores, salientando o desafio que vivenciavam para reunir informações3.

No que diz respeito às orientações e informações recebidas pelos familiares cuidadores, os resultados indicam que não foram suficientes para deixá-los seguros ao prestar os cuidados e que, talvez, possam até ter contribuído para aumentar os temores relacionados ao cuidado1. Os cuidadores manifestaram a sua preferência por uma abordagem mais estruturada, acompanhada com alguma informação escrita para poderem rever os materiais numa data posterior12. Alguns cuidadores manifestaram também que foi transmitida muita informação,e fornecida uma única vez11.

A preparação do futuro cuidador(a) antes da alta hospitalar pode aumentar a satisfação de suas necessidades durante e após a alta e, muitas vezes, contribuir para o desenvolvimento de sua percepção em relação ao equilíbrio entre as novas e as antigas atividades que envolverão sua rotina1. Como consequência, uma das necessidades prioritárias do cuidador(a) é receber informação e preparação dos profissionais de saúde para adequar a sua tomada de decisão. Mas, só no regresso a casa é que os cuidadores se tornam conscientes do sentido pleno do cuidar, traçando um retrato realista da situação. Considerando-se estas questões, deve-se equacionar a possibilidade de os cuidadores experienciarem previamente este novo papel em estadias curtas de fimdesemana antes da alta11.

Por outro lado, pelo relato dos cuidadores, observa-se que a aprendizagem em relação a alguns cuidados não foi citada como orientações recebidas dos profissionais de saúde1. Talvez, por causa da sensação de estar sendo negligenciados por profissionais de saúde, procuram fontes informais de informação, atribuindo maior credibilidade e confiança as estas fontes11.

A comunicação entre os profissionais de saúde e os cuidadores durante a hospitalização é determinante, especificamente quando se debate as necessidades do cuidado e prestação de informações14, e em especial para aqueles que são novos neste papel, tendo de começar um novo capítulo nas suas vidas. A comunicação é um processo que torna possível o relacionamento entre a equipe de saúde e o cuidador(a), não integrando apenas uma dimensão de conteúdo, mas também uma dimensão de relações interpessoais11.

Desta forma, observa-se a importância da relação entre o cuidador(a) familiar e os profissionais de saúde, com destaque para o enfermeiro, por ser o profissional que permanece maior tempo ao lado do paciente durante a hospitalização1. É argumentado que a promoção de estratégias de comunicação positiva é essencial para o desenvolvimento de um relacionamento eficaz entre cuidador(a) e equipe de saúde, principalmente a da enfermagem, que deve apresentar uma atitude empática para incentivar os cuidadores a expressar as suas necessidades11.

O reconhecimento das necessidades dos cuidadores familiares é de extrema importância, tendo em consideração que é a primeira etapa para o diagnóstico do posterior planejamento das intervenções de enfermagem que poderá facilitar o processo de transição19. É determinante o aproveitamento deste diagnóstico, a fim de se introduzir mudanças na abordagem aos cuidadores, facilitando o seu papel no ambiente familiar. Fornecer essa atenção aos cuidadores irá promover a saúde pessoal e familiar das pessoas dependentes cuidadas em casa20.

Conclusão

A transição para o papel de cuidador(a) é complexa e incorpora diferentes necessidades ao longo do processo. O enfermeiro tem um papel preponderante, devendo ir ao encontro das necessidades do familiar cuidador(a) e da pessoa que tem ao seu encargo.

Dos estudos analisados nesta revisão integrativa, foram identificadas cinco áreas temáticas: a transição para o cuidar, ser responsável por tudo, a importância do suporte, o acesso aos apoios formais, a comunicação e a informação na tomada de decisão. Há inúmeras necessidades em diversas áreas,como as necessidades de conhecimento e aprendizagens para o autocuidado decorrentes da transição para o novo papel de cuidador(a). Estas necessidades apresentam um caráter progressivo, em que o saber fazer assume maior relevo numa fase inicial do processo.

Por outro lado,às novas tarefas associadas com o cuidar, que são desigualmente distribuídas entre os membros da família, acrescem-se os papéis previamente existentes de um único elemento, o cuidador(a), causando desequilíbrio na unidade da família pela necessidade de tempo para as diversas atividades que lhe são destinadas.

As necessidades emocionais são descritas como uma fonte importante de suporte para o novo papel, diminuindo a sobrecarga do cuidador(a). É descrita a importância de apoios formais, nomeadamente necessidades sociais, incluindo o descanso para o cuidador(a), a existência de uma rede de apoio para cuidadores, o apoio financeiro e estrutural para o cuidar. Por último, a referência às necessidades de informação e comunicação com os profissionais de saúde, salientando a dificuldade que o cuidador(a) tem de reunir informações para a sua tomada de decisão, procurando, assim, fontes informais de informação.

Considerando-se o carácter ímpar e irrepetível deste novo papel, salienta-se que apesar de os estudos científicos integrados nesta revisão integrativa terem sido desenvolvidos em diferentes contextos sociopolíticos e integrando doentes com patologias diversas, e tendo em consideração a unicidade dos mesmos, as necessidades evidenciadas são, de certo modo, transversais.

As evidências decorrentes desta revisão integrativa têm como implicações para a prática o acompanhamento efetivo dos cuidadores na comunidade e a metodologia utilizada para capacitar os cuidadores para os cuidados, além de alerta aos enfermeiros para o ajuste das intervenções de acordo com as reais necessidades do cuidador(a).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Aug 2016

Histórico

  • Recebido
    29 Fev 2016
  • Aceito
    30 Jun 2016
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