Open-access Maria da Conceição Tavares, a hegemonia americana e o dólar

Maria da Conceição Tavares, American hegemony, and the dollar

Maria da Conceição Tavares, la hegemonía estadunidense y el dólar

Resumo

RESUMO  A obra de Maria da Conceição Tavares foi objeto de releituras que, em geral, buscam apontar suas diferentes fases. Essa literatura, no entanto, atribuiu pouca relevância às suas contribuições para a economia política internacional. Este texto preenche essa lacuna, ao focalizar a evolução do pensamento de Conceição sobre a hegemonia americana e a centralidade do dólar. Essa temática, mantida implícita em sua pesquisa inicial, assumiu posição central em sua agenda a partir de 1979. Seu pensamento evoluiu, aos poucos, para uma visão própria e abrangente, que lhe permitiu, pioneiramente em 1984, identificar que a reversão do declínio do poder americano já estava em curso, graças ao choque de juros de 1981. Conceição apontou, ademais, que essa medida fazia parte de uma estratégia mais ampla e permanente de “enquadramento”, promovida pela elite americana, para retomar, em novas bases, sua hegemonia, recorrendo a dois instrumentos principais de enquadramento: o dólar e as armas. O texto também procura mostrar a atualidade da sua visão, à luz das novas estratégias americanas e de seus novos mecanismos de enquadramento que, a partir do atentado de 11 de setembro de 2001, permitiram a armamentização do dólar (“bomba dólar”) e o reposicionamento global do segundo governo Trump.

PALAVRAS-CHAVE:
Maria da Conceição Tavares; Hegemonia americana; Dólar; Sistema financeiro internacional; Pensamento econômico brasileiro


Abstract

ABSTRACT  Maria da Conceição Tavares's thinking has been the subject of recent reinterpretations, generally focused on identifying the distinct phases of her work. However, this literature has not given due attention to her contributions to international political economy. This text seeks to fill this gap by analyzing the evolution of her ideas on American hegemony and the centrality of the dollar. We aim to demonstrate that this theme, implicit in her initial research, came to the fore after 1979. It gradually evolved into a distinctive and comprehensive vision that enabled her to pioneer, in 1984, the identification that the reversal of the decline of American power was already underway, thanks to the 1981 interest rate shock. Conceição further pointed out that this measure was part of a broader "framing" strategy promoted by the American elite to reestablish its hegemony on a new basis, using two basic instruments: the dollar and weapons. The text also seeks to demonstrate the relevance of her vision by identifying the evolution of the American financial framing strategy and instruments since the September 11 attacks in 2001, which enabled the weaponization of the dollar and the coercive measures taken by the second Trump administration against the rest of the world.

KEYWORDS:
Maria da Conceição Tavares; American hegemony; Dollar; International financial system; Brazilian economic thought


Resumen

RESUMEN  La obra de Maria da Conceição Tavares ha sido objeto de reinterpretaciones que, en general, buscan resaltar sus diferentes fases. Sin embargo, esta literatura ha otorgado poca relevancia a sus contribuciones a la economía política internacional. Este texto llena este vacío, centrándose en la evolución del pensamiento de Conceição sobre la hegemonía estadounidense y la centralidad del dólar. Este tema, implícitamente presente en su investigación inicial, adquirió una posición central en su agenda a partir de 1979. Su pensamiento evolucionó gradualmente hasta convertirse en su propia visión integral, que le permitió, de forma pionera en 1984, identificar que la reversión del declive del poder estadounidense ya estaba en marcha, gracias a la crisis de las tasas de interés de 1981. Conceição también señaló que esta medida formaba parte de una estrategia de "encuadre" más amplia y permanente, promovida por la élite estadounidense, para recuperar su hegemonía sobre nuevos terrenos, recurriendo a dos instrumentos principales de encuadre: el dólar y las armas. El texto también busca demostrar la relevancia de su visión en la actualidad, a la luz de las nuevas estrategias estadounidenses y de sus nuevos mecanismos de comunicación que, desde los atentados del 11 de septiembre de 2001, han permitido la armamentización del dólar (la llamada "bomba dólar") y el reposicionamiento global de la segunda administración de Trump.

PALABRAS CLAVE:
Maria da Conceição Tavares; Hegemonía estadounidense; Dólar; Sistema financiero internacional; Pensamiento económico brasileño


1. INTRODUÇÃO

Maria da Conceição Tavares – ou simplesmente Conceição – marcou várias gerações de economistas brasileiros, desde o final da década de 1950 até seu falecimento em 2024. Chegou ao Brasil em 1954, formada em Matemática em Portugal, mas, pelas dificuldades para revalidar seu diploma, decidiu voltar aos bancos universitários. Para nossa sorte, resolveu cursar Economia na então Universidade do Brasil – hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Daí em diante, mergulhou nas atividades de ensino e pesquisa, tanto na teoria quanto na análise histórica e empírica, além de atuar como consultora de governos e como deputada federal. Nunca aceitou convites para trabalhar no setor privado. Fiel à sua visão romântica da vida, manteve-se coerente com o propósito de atuar como intelectual engajada a serviço da democracia e dos interesses das camadas sociais menos favorecidas. Crítica do capitalismo e do desenvolvimento periférico, acreditava na capacidade de mudar a sociedade por meio da ação política em direção à maior equidade. Em um texto de 2017, ela falou dessa sua visão de mundo:

Lamento, mas não me dobro; sofro, mas não me entrego. Jamais fugi ao bom combate, e não seria agora que iria fazê-lo. Há saídas para esse quadro de entropia nacional, e estou convicta de que elas passam pelas novas gerações. Como diria Sartre, não podemos acabar com as ilusões da juventude. Ao contrário, temos de estimulá-las, incuti-las. Por ilusão, em um sentido não literal, entenda-se a capacidade de mirar novos cenários, a profissão de fé de que é possível, sim, interferir no status quo vigente, o forte desejo de mudança, associado ao frescor, ao ímpeto e ao poder de mobilização necessário para que ela ocorra. (Tavares, 2017, p. 308).

Dona de uma inteligência perspicaz e polemista por natureza, era venerada pelos admiradores e temida pelos oponentes. Possuía uma grande capacidade de comunicação. Em uma época anterior à difusão da mídia digital, tornou-se uma das intelectuais mais conhecidas de sua geração. Lembro como se fosse hoje do impacto que tive quando a conheci, ainda estudante do 6º período da graduação em Economia da UFRJ. Ela, quando reassumiu sua posição de professora na UFRJ em 1976, lecionou a disciplina de Desenvolvimento Econômico. Nessa oportunidade, percebi pela primeira vez que era possível pensar a Economia de forma integrada, combinando o conhecimento histórico com o pensamento de autores clássicos e modernos.

Suas aulas eram magistrais e eletrizantes. Normalmente saíamos com a sensação de que estávamos em um certo transe, impactados pelo estilo dramático que ela adotava nesses encontros. Essa minha percepção era comum entre os outros alunos dela. Fernando Costa descreveu um sentimento semelhante quando frequentava as classes que ela dava na Universidade de Campinas:

Ela propiciava um brainstorm de ideias sobre tudo e todos. Tinha insights fantásticos aos borbotões, sem tempo sequer para os alunos anotarem. Resultado: saíamos da sala de aula encantados pelo espetáculo, mas se nos perguntassem o que tínhamos aprendido na aula, apenas teríamos condições de responder: “ficamos muito impressionados com a sapiência dela (mas) não conseguiríamos reproduzir nada do dito”. (Costa, 2019, p. 14).

Conceição deixou, ao longo de mais de seis décadas de vida profissional, uma ampla obra escrita – mas também filmada e hoje disponibilizada na internet. Era, no entanto, uma pessoa demasiadamente impaciente para se preocupar em publicar livros inteiramente autorais. Gostava de trabalhar e de pensar em equipe. Assim, seu pensamento está registrado em uma vasta coleção de capítulos de livros, ensaios, artigos e entrevistas, publicados em revistas acadêmicas e jornais de grande circulação. Suas ideias também podem ser resgatadas em suas teses e nos trabalhos dos alunos que orientou. Entre as coletâneas de textos seus, destacam-se as duas reunidas diretamente por ela ou sob sua orientação: Da substituição de importações ao capitalismo financeiro: ensaios sobre economia brasileira (Tavares, 1973) e Maria da Conceição Tavares: Vida, ideias, teorias e políticas, editada por Melo (2019).

Todas essas considerações ilustram a dificuldade de organizar o pensamento de Conceição. Normalmente, não é uma tarefa fácil escrever sobre o que passou pela mente de um autor, por força das reduções que se é obrigado a fazer. Ademais, essas leituras estão sempre impregnadas pela visão do narrador, que afeta tanto a sua avaliação quanto a escolha dos pontos ressaltados. Apesar de termos – eu e ela – mantido uma relação próxima de 1976 até seu falecimento em 2024, tenho claro que há sempre maneiras diferentes – e até mesmo contraditórias – de ler e interpretar a obra de pensadores tão férteis como ela.

Uma dificuldade adicional é o fato de Conceição ter adotado como método de trabalho a análise histórico-estrutural, difundida na América Latina por Raul Prebisch e Celso Furtado. Segundo suas próprias palavras, essa escolha lhe permitiu “usar elementos teóricos de várias escolas e tentar integrá-las” (Biderman et al., 1976, p. 133). Essa liberdade teórica atribuiu um caráter dinâmico e enriquecedor ao seu pensamento, que fluiu conforme as questões que buscava enfrentar, acompanhando a evolução da teoria econômica e da pesquisa histórica ao longo do tempo.

Os principais leitores do pensamento de Conceição buscaram segmentá-lo sob a perspectiva cronológica. Bielschowsky (2010) identificou a existência de duas fases: a inicial desenvolvimentista e a pós-1980, voltada à crítica do pensamento neoliberal. Já Possas (2001); Andrade e Silva (2009); Robilloti (2016) e Costa (2019) apontaram que haveria três períodos. O primeiro seria o cepalino, no qual ela se preocupou em trabalhar a questão do desenvolvimento latino-americano e brasileiro a partir das ideias de Prebisch e Furtado. O segundo seria o campineiro (Universidade Estadual de Campinas), que se iniciou com seu retorno ao Brasil, desde o Chile, em meados da década de 1970, caracterizado pela revisão teórica e histórica, que deu como fruto suas teses de livre-docência e de professora titular. O período final, o terceiro, corresponderia aos anos pós-1980, em que se dedicou à montagem e à implementação da pós-graduação na UFRJ, caracterizado por foco na avaliação dos condicionantes e das consequências da retomada da hegemonia americana.

O presente artigo pretende analisar a obra da Conceição sob uma perspectiva diferente. Nosso foco é identificar como evoluiu sua visão sobre um tema específico: a hegemonia americana e o papel central do dólar como instrumento do exercício do poder dos EUA sobre as economias centrais e periféricas. Portanto, propõe-se olhar transversalmente para sua obra e focar suas contribuições à economia política internacional, tema ainda tratado de forma limitada por seus principais leitores (Robilloti, 2016), apesar das contribuições de Fiori (2000).

Para tanto, este artigo baseou-se nos ensaios publicados por Melo (2019), a partir de uma seleção realizada pela própria Conceição. A esses, foram sendo adicionados outros trabalhos que ela publicou nas décadas de 1980 e 1990, bem como os de autores que trabalharam mais diretamente com ela sobre o tema da hegemonia americana. Essa extensão se apoia no fato de ela ter manifestado, em várias oportunidades, que sua maneira de pensar foi fortemente influenciada pelo que aprendia com as pesquisas de seus discípulos.

Diante desse cenário, este artigo está dividido em quatro partes, além desta introdução e das conclusões. A primeira apresenta, de forma sucinta, a evolução histórica do sistema financeiro e monetário internacional de 1945 até meados dos anos 1990. O intuito é identificar os elementos mais importantes que compuseram o pano de fundo das preocupações de Conceição, sob a perspectiva da economia política internacional.

A segunda seção rastreia a relevância da moeda internacional e da hegemonia americana em seu pensamento inicial, desde o ensaio sobre a substituição das importações de 1963 até a montagem do programa de mestrado na UFRJ em 1979. A terceira começa com suas primeiras reflexões sobre a hegemonia americana, ainda em 1980 e 1981, e perpassa seu artigo sobre a retomada da hegemonia americana de 1984 e o Pós-Escrito de 1997, no qual atualiza sua visão sobre o tema. Finalmente, a última parte explora possibilidades de aplicar os insights de Conceição sobre a hegemonia para pensar algumas das características mais recentes do curso seguido pelo poder americano e do ordenamento internacional.

2. EVOLUÇÃO DO SISTEMA MONETÁRIO INTERNACIONAL DE 1945 AOS ANOS 1990

A moeda americana mantém uma posição dominante no sistema monetário internacional desde a Segunda Guerra Mundial. Ao final do conflito, todos os demais países capitalistas, tanto centrais quanto periféricos, comprometeram-se a gerenciar, em dólares, seus pagamentos e dívidas externas, com base em uma taxa de câmbio fixa, ainda que reajustável. Com isso, essas nações soberanas concordaram, ao mesmo tempo, em submeter o direcionamento de seus governos e de suas economias à disponibilidade de uma única moeda estrangeira, cuja emissão seria feita exclusivamente de acordo com os interesses dos setores público e privado norte-americanos.

Essa hierarquia se refletiu explicitamente nas regras estabelecidas em Bretton Woods. Nessa oportunidade, a libra, por pressão americana, deixou de vez de ter qualquer papel central no sistema monetário internacional que estava sendo criado. No bojo da regulação então aprovada, não chegou nem mesmo a ser mencionada como alternativa de moeda de referência para que os demais países fixassem suas taxas de câmbio (Steil, 2013).

O acordo de 1945, no entanto, impôs uma limitação ao poder monetário americano no cenário internacional. Os EUA, a exemplo dos demais signatários, também ficaram sujeitos a uma “restrição externa”, porém de um formato diferente e exclusivo. Bretton Woods determinava que o governo estadunidense, sempre que solicitado por nações estrangeiras, estaria obrigado a converter cada dólar detido por qualquer país-membro do Acordo em uma quantidade fixa de ouro.

Nas duas décadas seguintes, o estoque de ouro americano foi suficiente para resguardar sua moeda contra ataques especulativos e pedidos de conversibilidade. Entretanto, mesmo nesse período, foi relevante também o “convencimento” realizado por Washington junto às autoridades dos principais países superavitários, em particular da Alemanha. Na condição de nação derrotada na Segunda Guerra e fronteiriça da “Cortina de Ferro”, foi-lhe “explicado” que a acumulação de saldos crescentes na moeda americana era uma forma de “retribuir”, no bojo da Guerra Fria, pelos serviços de segurança militar prestados pelos soldados americanos em seu território (Zimmermann, 2004).

Por força de Bretton Woods, os bancos centrais das nações superavitárias seriam obrigados a adquirir todos os dólares excedentes que seu setor privado não quisesse ou não pudesse manter em carteira. Essa operação, por sua vez, exerceria automaticamente pressão sobre a oferta de moeda local e a taxa de juros, a menos que fosse esterilizada por meio da venda de títulos do governo. Resultaria, portanto, em um aumento da dívida pública, que, por sua vez, ampliaria as despesas dos governos com juros e amortizações. A esterilização automática de dólares e o consequente aumento das reservas oficiais geravam, portanto, ônus fiscal para esses países, sem contrapartida por parte dos Estados Unidos.

Entretanto, a partir de meados dos anos 1960, esses mecanismos de represamento da demanda oficial por ouro tornaram-se insuficientes, levando os EUA a acionar, adicionalmente, instrumentos regulatórios, monetários e fiscais para sustentar a posição externa da sua moeda. Essas medidas, de acordo com o receituário dominante à época, deveriam incluir maior parcimônia nos gastos públicos, o aumento dos juros e a contenção da saída de capitais, o que reduziria o grau de manobra das políticas dos EUA, tanto domesticamente quanto no exterior.

Foram limitações que não tiveram boa acolhida entre os mandatários americanos. Ao contrário do que propunha o receituário ortodoxo, Lyndon Johnson e Richard Nixon ignoraram os apelos para que se curvassem à “restrição externa” da economia americana. Optaram, pelo contrário, por medidas como a intensificação das ações militares no Vietnã e a ampliação dos programas domésticos de bem-estar, negligenciando o efeito que esse aumento de gastos teria sobre o déficit externo do país (Volcker; Gyohthen, 1993).

Essa estratégia, apesar de alguns percalços, sustentou-se por algum tempo, graças ao aumento da circulação de dólares excedentes no euromercado, inclusive para financiar governos de países periféricos; ao boom econômico que se verificou em quase todo o mundo; e ao aumento dos preços das matérias-primas. Esse processo, no entanto, se tornou insustentável quando governos europeus resolveram desestabilizar os mercados cambiais, ameaçando converter seus ativos dolarizados em ouro. Segundo eles, era necessário combater o “desafio americano” e o “privilégio exorbitante” da sua moeda (Dormael, 1997; Kindelberger, 1964; Schreiber, 1967)

A reação americana veio em 1971, quando, para surpresa de seus parceiros comerciais, Washington, abusando de sua posição hegemônica, tomou unilateralmente a decisão de suspender definitivamente a conversão da sua moeda em ouro, em franco desacordo com o compromisso que tinha firmado em Bretton Woods. Nessa oportunidade, o Secretário do Tesouro americano informou, de forma arrogante, a seus contrapartes europeus que “o dólar era a moeda americana, mas o problema (gerado pelo fim da conversibilidade em ouro) era dos senhores (e não do governo dos EUA)”. Entretanto, essa medida não surpreendeu a elite financeira americana, uma vez que já vinha sendo discutida de forma restrita em círculos fechados desde pelo menos 1968 (Aguiar, 2016).

Assim, os EUA “com uma só penada” aumentavam ainda mais o “privilégio exorbitante” de sua moeda. Com o fim da conversibilidade em ouro, o dólar passou a ter, para seus usuários estrangeiros, a mesma natureza que já possuía no mercado interno. Tornou-se uma moeda fiduciária também na arena internacional. Dessa forma, o Estado americano eliminou uma fonte potencial de perda estrutural de poder hegemônico.

Com isso, o sistema monetário dos EUA estava apto a se expandir sem precisar obedecer a quaisquer limitações exógenas. Como consequência, o resto do mundo deixou de ter formalmente um mecanismo de contestação do poder monetário americano. Diante da ausência de competidores relevantes, a inconversibilidade do dólar representava para os Estados Unidos o fim de quaisquer “restrições externas”.

A decisão americana de tornar o dólar inconversível provocou uma profunda mudança na forma de operar do sistema financeiro e dos mercados internacionais. Provocou o colapso do sistema de taxas de câmbio fixas e deu lugar ao sistema de taxas flexíveis, que opera até hoje. A entrada em operação desse novo ordenamento cambial provocou, de imediato, um aumento substancial na volatilidade das taxas de câmbio, dos juros e dos preços das matérias-primas, acompanhando a expansão acelerada da liquidez, dos desequilíbrios nos balanços de pagamento e da atividade especulativa. Essas transformações, em vez de colocarem em xeque, intensificaram o uso da sua moeda pelo sistema global. Como demonstrou Serrano (2002), o mundo baseado no dólar fixo deu lugar a um novo regime monetário internacional: o dólar flexível.

O aumento da instabilidade não pôde ser contido na década de 1970. Inexistiam instituições adequadas. Faltavam também experiência pública e privada para lidar com essa nova situação, bem como a vontade política do governo americano de assumir o ônus de impor um ordenamento. Acostumado a um cenário mais estável, o mundo acadêmico das relações internacionais identificou que essa crise decorria do declínio da hegemonia americana (Fiori, 2000).

A extrema instabilidade monetária e financeira global começou, no entanto, a ceder no início dos anos 1980, com o aumento das taxas de juros nos EUA e a remontagem do sistema financeiro internacional. Os capitais voltaram a se refugiar no sistema financeiro e na dívida pública americanos. O desenvolvimento dos mercados de derivativos permitiram uma melhor convivência com a volatilidade.

Nesse cenário, os EUA submeteram os demais países centrais a um novo regramento compatível com o sistema do dólar flexível, levando alguns governos mais reativos a atravessar crises relevantes, como a França em 1981 e o Japão em 1989. O mesmo aconteceu com a periferia. Brasil e México, por exemplo, foram mantidos à margem do novo sistema até 1994. Tiveram que atravessar um longo e doloroso ajuste de balanço de pagamentos, acompanhado por surtos hiperinflacionários e por recessão da economia doméstica.

As políticas neoliberais provocaram a maior globalização das economias nacionais, reduzindo barreiras cambiais, fiscais, financeiras e regulatórias. Geraram um amplo espaço competitivo integrado que se ajustava automaticamente às políticas monetárias e fiscais americanas. Nesse contexto, os EUA lideraram a montagem de um modelo global de regulação financeira que permitiu a internacionalização dos capitais e dos mercados financeiros nacionais em escala jamais vista. Todas as principais praças passaram a operar como portas de entrada do sistema global, aplicando os mesmos critérios regulatórios.

Nesse contexto reformista, o colapso da União Soviética e de grande parte das economias socialistas em 1989 permitiu a incorporação desse espaço geopolítico ao processo de globalização, que fora até então interditado pela Guerra Fria. Para tanto, concorreu a estratégia armamentista americana – a Guerra nas Estrelas – de forçar a Rússia a enfrentar uma corrida militar que lhe seria extremamente custosa. O colapso do mundo socialista reforçou ainda mais o apelo ideológico e político das reformas em curso em todo o mundo. Deu-lhes um caráter de inevitabilidade.

As consequências da decisão americana de eliminar a “restrição externa”, autoimposta em Bretton Woods, submeteram a economia internacional a um ajuste longo, profundo e doloroso. Todos os países passaram a conviver com um regime de taxas de câmbio flexível e com situações de instabilidade mais frequentes. A capacidade de lidar com esses elementos só se tornou mais funcional a partir de meados da década de 1980, com o aprendizado dos bancos centrais, a criação de novos mercados financeiros e a disseminação de mecanismos institucionais e financeiros mais modernos, como os derivativos. A partir de 1994, a maturidade do sistema dólar flexível já permitia sua ampliação por meio da incorporação do antigo mundo socialista e das periferias asiáticas e latino-americanas. Foi a longa duração e os caminhos tortuosos dessa ruptura da ordem econômica internacional que deram origem, na academia, ao debate sobre o declínio da hegemonia americana e sobre os possíveis caminhos políticos que poderiam se seguir a essa transformação.

3. DA SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES À RETOMADA DA HEGEMONIA AMERICANA (1963-1984)

Em seus primeiros trabalhos, Conceição tratou do dólar e da hegemonia americana a partir de uma perspectiva cepalina. Esses autores, a despeito de partirem de uma visão histórica do capitalismo, não questionavam abertamente a posição hegemônica dos EUA e do dólar. Esses elementos eram implicitamente incluídos em uma constelação de fatores que compunham o que, na visão deles, era chamado de “restrição externa” à industrialização e ao desenvolvimento econômico.

A moeda americana era a unidade de conta que denominava os preços dos contratos de importação e exportação e das dívidas externas dos governos periféricos. Era também o meio de pagamento que precisavam obter por meio de exportações e, eventualmente, de empréstimos de organismos internacionais, para conseguir liquidar em dia suas obrigações externas. Tratava-se, assim, de uma limitação inquestionável – um dado de realidade – a que esses países estavam submetidos, sob o risco de serem penalizados por uma crise de balanço de pagamentos.

Os cepalinos originais não desconheciam a relevância da hierarquia nas relações entre as nações. Pelo contrário, esse tema marcou tão intensamente a vivência profissional de Prebisch, que constituiu um dos elementos centrais a embasar sua formulação da teoria do Centro e da Periferia.

“Don Raul”, como Conceição o chamava, foi um membro importante da elite e do governo argentinos durante os anos turbulentos das décadas de 1930 e 1940. Participou diretamente das tratativas que levaram seu país a firmar, em 1933, o Pacto Roca-Runciman com a Inglaterra. Nesse acordo, os argentinos foram obrigados a aceitar cláusulas econômicas muito desfavoráveis para continuar exportando seus produtos primários para o império inglês, seu principal mercado.

A partir de 1934, Prebisch tornou-se o presidente do banco central do seu país, cargo que manteve até 1943. Nesse período, assistiu, de um ângulo privilegiado, aos fortes embates travados entre os governos da Argentina e dos EUA. Buenos Aires adotou, nas reuniões pan-americanas, a posição de enfrentar Washington abertamente, negando-se a cortar relações com os países do Eixo, e chegou a estimular outros países da região a fazer o mesmo. Esse antagonismo com a potência hegemônica rendeu aos argentinos um longo período de isolamento internacional, que se estendeu por vários anos após o final da Segunda Guerra Mundial (Dosman, 2008).

Rodriguez (2001, p. 104) descreve a importância que essa experiência teve no pensamento de Prebisch e na construção da sua teoria do Centro e da Periferia da seguinte maneira:

No âmbito político, registrou-se entre ambos os países (EUA e Argentina) a velha rivalidade por prestígio e influência na América Latina, que gerou fricções em sucessivos congressos pan-americanos. Cabe destacar a oposição argentina à proposta de ruptura das relações diplomáticas com o Eixo e a reação hostil dos Estados Unidos, que, posteriormente, adquiriu especial significado econômico. De fato, desde fevereiro de 1942, essa reação se materializou em um extenso boicote econômico que afetou severamente a capacidade argentina de obter bens de capital e matérias-primas essenciais durante a guerra e no imediato pós-guerra. (...) Dificuldades nas negociações internacionais, a formulação e aplicação de novas políticas econômicas e a criação da institucionalidade requerida para levá-las a cabo são aspectos principais da dita experiência (de Prebisch)… que mais tarde alcançam graus de articulação que permitem considerá-las como um novo enfoque do subdesenvolvimento (Rodriguez, 2001, p. 104, tradução nossa).

A intenção de Prebisch, com sua teoria do Centro e da Periferia (Prebisch,1949), era oferecer uma visão inovadora sobre a divisão internacional do trabalho que pudesse se opor às abordagens dominantes à época, que defendiam a “naturalidade e inexorabilidade” de um ordenamento baseado nas vantagens comparativas ricardianas. Para ele, existia no sistema capitalista uma situação dual, que produzia dinâmicas econômicas distintas e complementares. Havia um centro, formado por um conjunto de países que se caracterizariam pela capacidade de se apropriarem da maior parte dos benefícios do progresso técnico gerado pelo processo de industrialização. Em contrapartida, existia uma periferia, formada por economias primário-exportadoras, que, pela natureza dos mercados em que atuavam, eram obrigadas a transferir aos preços os ganhos de produtividade que obtivessem.

Essa dualidade da economia internacional foi gerada muito antes da consolidação da hegemonia americana em 1945, e suas características básicas mantiveram-se, em grande medida, ao longo do tempo. A principal novidade introduzida no século XX teria sido a perda de tração da periferia em relação às economias centrais, na medida em que os EUA foram tomando da Inglaterra a posição de centro cíclico principal do sistema capitalista. Os Estados Unidos, diferentemente dos ingleses, dispunham de um setor primário exportador relevante e competitivo internacionalmente. Com isso, o efeito encadeador da expansão da sua economia sobre a dos países periféricos passou a ser substancialmente menor do que o observado nas décadas marcadas pela liderança inglesa.

A solução da Cepal para que a periferia pudesse manter e acelerar seu desenvolvimento estava na sustentação de um processo de industrialização voltado ao mercado interno. A substituição de importações havia sido uma resposta espontânea dessas economias à escassez de divisas decorrente das duas guerras mundiais, da instabilidade dos anos 1930 e dos problemas da reconstrução pós-1945. Garantir sua continuidade era visto como o caminho para o desenvolvimento.

Diante desse cenário, a Cepal propunha oferecer aos governos latino-americanos uma sustentação teórica e analítica diferenciada, bem como sugerir políticas que promovessem a industrialização periférica. Nesse contexto, a instituição alertava que o processo de substituição de importações, à medida que se intensificava, gerava obstáculos relevantes de diferentes ordens. Essas limitações podiam, por exemplo, decorrer de estruturas fundiárias e financeiras inadequadas ou do esgotamento da capacidade de importação. Tais restrições poderiam, no entanto, ser mitigadas ou administradas caso os Estados adotassem um gerenciamento adequado e racional do processo.

A despeito de a “restrição externa” em dólares ser uma condição comum a todos os países capitalistas, ela se manifestava de forma mais intensa na periferia. A posição inferior ocupada pela América Latina na hierarquia internacional das moedas, juntamente com a escassez de divisas, explicaria as crises recorrentes de balanço de pagamentos dos países da região. Em contrapartida, as economias centrais conseguiam emitir moedas conversíveis que também eram utilizadas – em menor escala do que o dólar – como unidade de contratos e como meio de pagamento internacional. Graças a essa habilidade, seus governantes possuíam um grau de liberdade externa maior do que o imposto à periferia. Podiam financiar seus déficits com o exterior a custos menores e a prazos mais longos, até mesmo na própria moeda. Essa maior autonomia na administração da sua restrição externa era, inclusive, vista pelos cepalinos como uma das características importantes que distinguiam o Centro da Periferia.

Conceição, em seu famoso ensaio de 1963 (Tavares, 1963), em que analisa a dinâmica da substituição de importações, mostra-se uma fiel discípula da abordagem cepalina. Em seu texto, a hegemonia e a moeda americanas, apesar de serem personagens importantes do tema em discussão, não aparecem explicitamente. Formam um pano de fundo implícito no conceito de “restrição externa”, uma limitação capaz de comprometer o dinamismo do processo de industrialização. Esse obstáculo potencial, alertava Conceição, era relevante e, portanto, precisava ser administrado centralmente pelos governos. Era necessário controlar as importações e implementar políticas de investimento que focassem na implantação planejada e sequencial dos diferentes setores industriais, segundo determinadas proporções entre bens de consumo de massa, bens duráveis e equipamentos.

Os textos adicionais da coletânea organizada por Melo (2019), referentes ao período cepalino de Conceição, concentram-se em dois temas conexos. Sua crítica às teorias estagnacionistas, principalmente de origem furtadiana, e a identificação de que estava em curso uma retomada do crescimento, apoiada em uma mudança relevante no padrão de financiamento brasileiro. A criação de novos mecanismos de crédito, voltados a sustentar a demanda doméstica por bens de consumo duráveis e de capital, havia garantido a sobrevida da industrialização brasileira.

Nesse contexto, ela e seu coautor, José Serra, não mencionam o papel do governo americano na superação da restrição externa brasileira nos meses seguintes ao golpe de 1964. Preferiram dar ênfase – e com alguma razão – ao fato de a remoção desse obstáculo advir primordialmente dos inesperados superávits que se verificaram em 1964 e 1965 no balanço de pagamentos, em “consequência do rápido declínio da demanda de importações de bens de produção, resultante da redução dos investimentos” (Tavares; Serra, 1971, p. 101). Entretanto, o apoio político e financeiro da potência hegemônica ao novo regime militar desempenhou papel relevante na reintegração do Brasil ao sistema financeiro internacional nos meses seguintes ao golpe.

As teses de livre-docência (Tavares, 1974) e de titular (Tavares, 1978), que Conceição apresentou em Campinas e na UFRJ na segunda metade dos anos 1970, não fugiram a essa configuração. Sua intenção nesses trabalhos era reler a experiência de ajuste da economia brasileira, ainda a partir de uma ótica cepalina – ou seja, endógena –, fazendo uso de um instrumental teórico novo, que integrava contribuições kaleckianas, steindlianas e schumpeterianas.

A virada da década de 1970 para os anos 1980 marcou uma ruptura no foco de Conceição, que passou a atribuir maior ênfase aos ajustes realizados nos países centrais e periféricos, em razão das mudanças em curso na economia internacional. Desde então, suas preocupações passaram a ter como aspecto central a temática da hegemonia americana e do dólar para explicar o ordenamento e as estratégias nacionais de ajuste. Essa mudança manifestou-se inicialmente em 1979, na estrutura do Curso de Mestrado em Economia da UFRJ, cuja montagem ela liderou. Nessa oportunidade, assumiu a disciplina de “Experiências Industriais Comparadas”, da qual fui seu aluno, cujo propósito, entre outros, era estudar e analisar as respostas – ou ajustes – das economias capitalistas centrais às mudanças impostas pelos EUA à economia global no pós-guerra.

A partir desse momento, ela começou a elaborar sua visão histórica da crise da hegemonia americana, entendida como uma forma de dominação consentida (Melo, 2019, p. 255). A supremacia dos EUA teria atingido seu auge ao final de 1945, quando adquiriu um caráter abrangente e, segundo ela, “indiscutível”. Essa posição absoluta teria se mantido até 1958. Ela não explica os motivos que a levaram a escolher esse ano como final do período, mas entendo que a data está associada ao início da conversibilidade das moedas europeias e aos primeiros sinais de dificuldades dos EUA em garantir, a longo prazo, a conversibilidade de sua moeda em ouro. Para ela, o poder hegemônico americano nesse período foi exercido simultaneamente em todos os planos relevantes: “comercial, industrial, financeiro, tecnológico e militar (e – por que não dizê-lo, moral)” (Tavares; Teixeira, 1981, p. 88).

A partir de 1958, teria ocorrido uma segunda etapa da evolução histórica da hegemonia americana, que durou uma década. Ela chamou esse período, provocativamente, de “desafio americano”, título de um best-seller publicado em meados da década de 1960, que criticava a penetração de capitais americanos na Europa (Schreiber, 1967). A principal característica desses anos teria sido o aumento da competição intercapitalista global, sobretudo entre os capitais americanos e europeus. Em vez de continuarem a se limitar à exportação de mercadorias e ao endividamento em relação aos EUA, os europeus responderam à hegemonia americana criando um espaço econômico regional protegido. No seu interior, criaram um ordenamento particular, que ela chamou de neoliberal, que teria estabelecido padrões próprios de comércio, manufatura e bancário. Esse processo teria se beneficiado dos déficits americanos e gerado oportunidades para que empresas e bancos dos EUA pudessem participar localmente por meio de investimentos diretos externos.

A terceira etapa seria caracterizada pelo início da crise da hegemonia americana do pós-guerra. Esse período, de 1968 a 1974, teria sido curto e fruto da resposta dos capitais europeus e japoneses à competição das empresas e dos bancos dos EUA em seus mercados. Diante desse “desafio”, eles se lançaram em um processo de concorrência em escala global com os capitais norte-americanos por meio do investimento direto — não sem antes terem vencido a batalha comercial. A transnacionalização dos capitais seria o elemento central da perda de hegemonia dos EUA nas esferas comercial e industrial, embora não tenha afetado a liderança tecnológica americana. Entretanto, o aspecto mais importante dessa crise, segundo ela, residiria na perda dos “mecanismos de regulação constituídos a partir da própria hegemonia” (Tavares; Teixeira, 1981, p. 91).

Sua preocupação principal nesse momento era o ordenamento monetário-financeiro internacional, uma vez que o dólar, desde antes de 1971, já não conseguia cumprir plenamente seu papel de âncora de um sistema de taxas fixas de câmbio. Esperava-se que a flexibilização desse mecanismo fizesse frente aos movimentos especulativos dos fluxos financeiros. Entretanto, nos anos seguintes, mostrou-se que a moeda americana, valorizada ou desvalorizada, não era mais capaz de estabilizar o sistema capitalista internacional. Essa fragilidade decorreria, em parte, da perda de competitividade comercial e manufatureira dos EUA, mas também do aumento da especulação contra o dólar, impulsionada, em boa medida, pela atuação das filiais das multinacionais americanas e pelas baixas taxas de juros praticadas pelo banco central, o Fed.

Para Conceição, a elevação abrupta do preço do petróleo em 1973 teria dado início à quarta etapa da hegemonia americana, caracterizada agora pelo “desmoronamento da velha ordem” (1981, p. 92). As tentativas de remendá-la ao longo dos anos 1970 tinham se mostrado infrutíferas, e o problema da falta de ordenamento financeiro tinha se exacerbado, sem que houvesse solução definitiva no horizonte.

O tema da disfuncionalidade da hegemonia americana foi rapidamente abordado por ela em texto escrito em parceria com Luiz Gonzaga Belluzzo, publicado em 1980. Nessa oportunidade, ela explicitou o papel central que o dólar desempenha no edifício da hegemonia americana, tema que retomará em 1984 em seu ensaio sobre a retomada. Naquela oportunidade, ela afirmou que:

O Estado hegemônico do sistema capitalista deixou de ter o poder de estabelecer os limites econômicos de sua soberania, sem os quais a ordenação hierarquizada do sistema capitalista nunca foi possível. (...) . Este capitalismo transnacional provoca, na verdade, a ruína da velha ordem, sobretudo de seu edifício monetário, símbolo maior do poder hegemônico. (Tavares; Belluzzo, 1980, p. 124).

O declínio da hegemonia americana nunca foi visto por Conceição como um caminho inexorável rumo ao fim da supremacia dos EUA. Em Tavares e Teixeira (1981), ela se limita a apontar que o aumento dos conflitos políticos e econômicos no mundo capitalista comprometia fortemente a capacidade dos EUA de exercer seu papel de liderança e de coordenação da economia internacional.

Essa fragilidade se manifestava fundamentalmente na incapacidade de os mecanismos de regulação cambiais e financeiros instituídos no pós-guerra ordenarem os fluxos comerciais e financeiros. O fim do padrão dólar-ouro em 1971 gerou, por muito tempo, flutuações intensas nas taxas de câmbio e, consequentemente, o questionamento político da capacidade de o dólar se manter como a moeda central do sistema financeiro internacional. Essa tendência teria se aprofundado, a partir de 1974, sem que se vislumbrasse uma solução.

Fiori (2008), coautor de Conceição em vários trabalhos, volta ao tema do declínio do poder americano, tratando-o como um fato quase “inevitável”, diante das vantagens econômicas e militares acumuladas pelos EUA em relação aos seus parceiros ao final da Segunda Guerra Mundial. Foi esse diferencial que permitiu aos países europeus e ao Japão crescerem mais rapidamente do que os EUA nas décadas seguintes e recuperarem parte do poder econômico e militar que haviam perdido. Entretanto, Fiori alerta que esse processo não deve ser visto como uma política deliberada de enfrentamento da potência hegemônica. Apesar de serem respostas nacionais, “o crescimento do poder político e econômico dos demais [países capitalistas centrais] são, ao mesmo tempo, dependentes e indispensáveis para a acumulação de poder e riqueza da própria potência que está, supostamente, em declínio” (Fiori, 2008, p. 21)

A tolerância americana em arcar com essas perdas relativas de seu poder deveu-se à necessidade de acomodar os interesses de seus parceiros em um momento marcado pela Guerra Fria. Assim, as respostas nacionais teriam produzido uma estrutura multipolar no centro, a qual, por sua vez, teria levado à crise da hegemonia americana. Esse processo estaria na raiz das dificuldades e da instabilidade dos anos 1970.

4. A RETOMADA DA HEGEMONIA AMERICANA E OS PROCESSOS DE ENQUADRAMENTO (1984-2019)

Conceição apresentou sua visão sobre a retomada da hegemonia americana em dois textos complementares, separados por mais de uma década. O primeiro, de 1984, é marcado pela originalidade de sua tese. Ela desenvolveu sua visão em meio a um debate nos meios acadêmicos e políticos, marcado pela possibilidade de a supremacia norte-americana estar caminhando para o seu fim (Fiori, 2000). Havia muita especulação sobre se o vácuo produzido por essa perda seria preenchido por outros centros de poder, como a Europa e o Japão, ou, ao contrário, geraria uma ordem multilateral (Vogel, 1986). Em entrevista ao Centro Celso Furtado, em 2019 (Tavares, 2019b), ela explicou que sua escolha do título do artigo refletiu essa realidade:

Ninguém falava da retomada da hegemonia pelos Estados Unidos. E eu tive que colocar “retomada” porque ninguém mais achava que eles fossem hegemônicos. Por causa da crise dos anos 1970, eles tinham perdido a hegemonia. Mas, até hoje, ainda mandam pra burro. (Feijó et al., 2019, p. 219).

Ademais de assumir uma posição inovadora e radicalmente diferente da visão dominante à época, Conceição introduziu no texto um novo foco em sua análise: a ideia de “enquadramento”. O poder americano havia decidido intervir no processo de perda de hegemonia, interrompendo e, posteriormente, revertendo uma crise que vinha se agravando desde então. Fazendo uso de sua posição dominante, os EUA, ao elevarem abrupta e substancialmente suas taxas de juros em 1981, obrigaram os capitais especulativos a se submeterem ao ordenamento imposto pelo banco central americano. Automaticamente, os demais países – tanto do centro quanto da periferia – foram forçados a adotar uma nova configuração de política macroeconômica em sintonia com os limites impostos pela recuperação da centralidade do dólar no sistema financeiro internacional. Como ela frisou em seu artigo de 1997:

A questão da hegemonia é muito mais complexa do que os indicadores econômicos mais evidentes são capazes de demonstrar. (...) O fulcro do problema não reside sequer no maior poder econômico e militar da potência dominante, mas sim na sua capacidade de enquadramento econômico, financeiro e político-ideológico de seus parceiros e adversários. (...). Em verdade, seus sócios ou rivais capitalistas são compelidos, não apenas a submeter-se, mas a racionalizar a visão dominante como sendo a única possível. (Tavares, 2019a, p. 214, grifo nosso).

Na prática, o Choque Volcker limitou substancialmente as opções ao alcance das demais economias e dos capitais internacionais. Os anos 1970 haviam produzido um sistema financeiro internacional novo, que integrava e subordinava todas as praças e moedas ao redor da liquidez crescente do dólar e do aumento da dívida pública americana (Torres, 2014). Com o fim das limitações à conversibilidade das contas de capital na Europa e no Japão, o aumento das taxas de juros americanas no início dos anos 1980 promoveu a atração para os EUA e o disciplinamento dos fluxos de capital que buscavam refugiar-se dos baixos rendimentos oferecidos pelos Treasuries, títulos do governo estadunidense.

O banco central americano – o Fed – tinha, nos anos 1970, mantido deliberadamente o dólar fraco, fixando suas taxas básicas de juros abaixo da inflação nos EUA. Essa política constituía um forte estímulo para os capitais privados de curto prazo continuarem a buscar valorização, especulando ativamente em diversos mercados – como câmbio, commodities, juros etc. Ao mesmo tempo, gerava um conflito político e econômico com os países comercialmente superavitários, como os grandes exportadores de petróleo, na medida em que tornava gravoso manter seus excedentes com o resto do mundo em dólares ou mesmo em títulos públicos americanos. Em certo sentido, era melhor “manter o petróleo debaixo da terra”.

A outra face do Choque Volcker foi a necessidade de os demais países capitalistas adotarem medidas que minimizassem o impacto negativo da saída maciça de capitais em direção aos EUA sobre sua dívida pública, sua taxa de câmbio e, particularmente, a solvência de seus balanços de pagamentos. Essa resposta precisava envolver uma política monetária mais restritiva e a depreciação de suas taxas de câmbio, mesmo que essas medidas lhes custassem o preço de uma recessão e de um aumento do desemprego.

Dois países centrais tentaram se opor a esse ajuste: a França e o Japão. O primeiro promoveu, em 1981, uma ampla nacionalização de suas empresas e bancos para mitigar os efeitos do choque. Entretanto, a fuga de capitais e a desvalorização do franco obrigaram as autoridades francesas, em menos de um ano, a voltarem atrás.

O caso japonês foi diferente. Os superávits comerciais bilaterais com os EUA, que se haviam generalizado com todos os seus parceiros, foram desproporcionalmente maiores com o Japão. O problema do país não residiu, portanto, na falta de dólares, como na França, mas na sua abundância. O elevado acúmulo de saldos em moeda americana fez com que o país, em pouco tempo, se tornasse o principal credor do mundo, tomando a posição tradicionalmente detida pelos EUA, que agora passavam a ser os detentores da maior dívida externa do planeta (Torres, 1992).

A elevada dimensão dos seus desequilíbrios comerciais levou os EUA a pressionar seus principais parceiros, em particular os japoneses, a atuarem em conjunto para desvalorizar o dólar. O objetivo dos Acordos de Plaza e de Louvre era promover uma “aterrissagem suave” (soft landing) da moeda norte-americana. No caso do iene, a expectativa dominante era de que a taxa de câmbio, que estava em torno de 240 ienes por dólar, viesse a se situar entre 160 e 170. Todavia, para surpresa geral, a nova taxa, após uma lenta desvalorização, estabilizou-se, a partir de 1987, pouco acima de 130 ienes por dólar (Torres, 1997).

A amplitude dessa mudança comprometeu significativamente as margens de lucro dos exportadores japoneses e o ritmo de crescimento do país. Para mitigar esse efeito, o governo inicialmente mobilizou as instituições financeiras públicas para reciclar os dólares excedentes, com o objetivo de reduzir a pressão sobre seu mercado cambial. Quando essa manobra se mostrou insuficiente, não hesitou em estimular o setor privado a liderar o processo. Para isso, reduziu propositadamente a taxa de juros doméstica a níveis mínimos entre 1987 e 1989, de forma a fomentar a compra de ativos no exterior por investidores japoneses, inclusive por meio de empréstimos em ienes.

Essa medida, apesar de ter tido impacto pouco relevante na taxa de câmbio, promoveu a retomada do consumo privado e do investimento, recuperando o crescimento da economia doméstica. No entanto, condenou o capitalismo japonês a atravessar a pior crise financeira de sua história. As baixas taxas de juros geraram um forte processo especulativo nos mercados de ativos domésticos. Em um curto espaço de tempo, o valor da terra e das ações aumentou desproporcionalmente em relação ao restante da economia e aos mercados de ativos denominados em outras moedas. No auge, em 1989, as ações negociadas em Tóquio valiam tanto quanto o somatório das demais bolsas do mundo. O mesmo aconteceu com os ativos imobiliários. O valor da terra no Japão naquele momento era suficiente para comprar todas as demais áreas emersas do planeta (Torres, 1992, 1997).

Com os juros mantidos em níveis baixos, os japoneses se dirigiram em massa a comprar ações e imóveis financiados por empréstimos obtidos junto aos bancos. À medida que o valor desses ativos aumentava, o ganho de capital resultante era reutilizado como garantia para a obtenção de mais crédito, que, por sua vez, era carreado para novos investimentos em terras e ações. Com essa contínua realimentação, o processo especulativo de valorização do capital japonês havia se tornado autossustentado.

Quando o banco central, após vários adiamentos, decidiu “estourar” a bolha em 1989, elevando as taxas de juros, o mercado financeiro desabou. A queda nos preços das ações e da terra foi tão intensa que gerou desequilíbrios patrimoniais impossíveis de sanar a curto prazo. Famílias, bancos e empresas passaram a deter patrimônios líquidos negativos. Entretanto, como ainda tinham fluxo de caixa positivo, foi interessante para os credores que continuassem em operação.

Esse arranjo, no entanto, não foi suficiente para impedir que os balanços dos bancos fossem gravemente comprometidos. Com o agravamento da situação, o governo, no intuito de evitar que a crise se aprofundasse, foi obrigado a reestruturar e resgatar o sistema bancário, adquirindo créditos podres e promovendo fusões e aquisições.

A crise financeira também comprometeu a renda das famílias e as receitas das empresas. Essas unidades econômicas extremamente fragilizadas passaram a comprometer todas as suas entradas líquidas de caixa com o pagamento de dívidas, o que resultou em uma redução estrutural da demanda efetiva doméstica. Com isso, o consumo e o investimento se retraíram, lançando a economia numa trajetória de estagnação e deflação de longa duração. Essa crise mudou radicalmente a trajetória que a economia japonesa havia seguido desde o pós-guerra. A partir de então, o país, que havia ocupado a liderança entre as nações centrais em termos de crescimento, passou a enfrentar uma crise que durou décadas. Ao mesmo tempo, o Japão, que até então era visto como candidato a competidor dos EUA pela hegemonia, perdeu totalmente sua relevância no cenário internacional. Sua máquina industrial, a despeito de ser a mais avançada e competitiva do mundo, tinha sido comprometida e não voltaria mais a ser vista como uma ameaça ao poder americano (Torres, 1997).

Tive a oportunidade de morar por alguns meses no Japão em 1989, quando estava elaborando minha tese de doutorado. Durante minha estadia, Conceição conseguiu passar duas semanas comigo em Tóquio e pudemos realizar várias visitas e entrevistas como parte da pesquisa em que estávamos trabalhando em conjunto. Era um momento em que havia muita especulação sobre o papel que os japoneses poderiam desempenhar no cenário global.

Nem Conceição nem eu, em momento algum, acreditamos na possibilidade de o Japão ser capaz de disputar a liderança internacional com os EUA. Concordávamos que faltava aos japoneses poder financeiro e militar para confrontar o hegemon. Para nós, o que estava em jogo era uma disputa bilateral travada em âmbito comercial, bancário e tecnológico. Entretanto, o domínio americano nos campos militar e monetário era inconteste.

Os superávits comerciais do Japão eram gerados em dólares, e a reciclagem desses valores dentro da economia japonesa havia criado uma fragilidade que estava sendo explorada pelos negociadores americanos. Os EUA exigiam a liberalização completa do comércio exterior e dos mercados financeiros e cambiais. O Japão não tinha como resistir ao processo de liberalização exigido pelos americanos. Os EUA eram a potência que garantia sua segurança militar, inclusive no âmbito nuclear. Havia várias bases navais americanas no país desde a derrota na Segunda Guerra Mundial, em 1945, e uma delas situava-se em Yokohama, uma área do lado oposto da baía onde se encontra a cidade de Tóquio.

Na tentativa de mitigar os efeitos negativos sobre sua economia, o Banco do Japão não hesitou em reduzir suas taxas de juros a níveis mais baixos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Reduzir o custo interno do ajustamento das empresas e pressionar o capital local a reciclar os dólares excedentes de volta ao mercado americano era mais prioritário do que evitar o risco de ter de administrar, no futuro, os custos de uma bolha especulativa em crescimento no mercado local de ativos.

A despeito de compartilharmos o mesmo diagnóstico do ajuste japonês, tínhamos opiniões diferentes quanto aos resultados que esse processo teria sobre a trajetória econômica do Japão no futuro. Conceição tinha uma visão muito mais pessimista do que a minha. Para ela, o capitalismo japonês não tinha outra saída senão dobrar-se às demandas americanas, o que comprometeria o crescimento de sua economia e sua liderança internacional.

Em uma tarde de setembro de 1989, quando caminhávamos, Conceição e eu, por um parque em Tóquio, conversando sobre o tema, ela usou uma parábola, até certo ponto visionária, para ilustrar seu ponto de vista. Naquela oportunidade, assemelhou os Estados Unidos a uma baleia e o Japão a um atum e disse:

O atum entrou na boca da baleia. Só ficou de fora o seu “rabinho”. Quando a baleia fechar a boca e o atum perceber o buraco em que se meteu, vai tentar nadar de costas, abanando a nadadeira de trás, mas será tarde demais.

Na periferia, em particular na América Latina, o impacto do Choque Volcker se fez sentir rapidamente. As principais economias da região, a exemplo do Brasil e do México, haviam tentado sustentar suas trajetórias de crescimento com base em um padrão de financiamento externo frágil, apoiado no refinanciamento contínuo de seus passivos a taxas flexíveis. Com o aumento das taxas de juros, esses países tentaram reagir, inclusive por meio de moratórias unilaterais. À medida que se tornaram ilíquidos, tiveram que enfrentar crises de balanço de pagamento e foram obrigados a aceitar condições severas de ajuste macroeconômico para refinanciar seus compromissos externos. Esse processo de ajuste, que ocorreu tanto no centro quanto na periferia do sistema capitalista, foi chamado por Conceição de enquadramento ou de “diplomacia do dólar forte”.

Para ela, o enquadramento financeiro foi um processo que solucionou a instabilidade financeira do mercado internacional. A centralidade da moeda americana foi reconquistada graças ao reempoderamento do Fed, que passou a ditar as condições da liquidez internacional por meio de sua política monetária. Essa consolidação foi, para ela, até certo ponto, imprevisível ao se analisar a situação internacional no início da década de 1970. A seu ver, não fosse o Choque Volcker, os EUA correriam o risco de, eventualmente, enfrentar pressões europeias e asiáticas por maior independência econômica (Tavares, 2019a).

No texto de 1997, ela ampliou sua visão sobre a capacidade de enquadramento americana para além da diplomacia do dólar forte. Introduziu um plano geopolítico que prevê o enquadramento por meio da “diplomacia das armas”. Seu intuito foi atualizar seu pensamento para lidar com as consequências do colapso da União Soviética e do mundo socialista, a partir da derrubada do Muro de Berlim, em 1989.

A derrota dos soviéticos havia sido resultado de uma estratégia americana de enfrentamento militar – a Guerra nas Estrelas – que os soviéticos não tiveram condições econômicas de sustentar. O fim do mundo bipolar atribuiu uma escala ainda maior ao poder da potência hegemônica. Esse resultado não foi produto de um aumento da competição e da eficiência econômica, mas decorreu do processo de retomada da hegemonia dos EUA, colocado em prática no início da década de 1980, no qual a moeda americana já havia retomado seu papel central.

Passada uma década e meia desde o Choque Volcker, Conceição não via nenhuma ameaça à posição do dólar enquanto a “única moeda de referência verdadeiramente global” (Tavares; Melin, 2019, p. 246). Os demais sistemas monetários nacionais estavam todos obrigados a acompanhar as decisões de política monetária do Fed, de modo a ajustar suas economias e seus sistemas financeiros aos movimentos expansionistas ou contracionistas da política econômica americana. O risco de arcar com uma crise de balanço de pagamentos é algo política e economicamente intolerável para os governos.

Entretanto, em seu ensaio de 1997, ela voltou, mais uma vez, o olhar para o futuro e tentou apontar problemas potenciais decorrentes dessa centralidade absoluta do poder americano. Não viu capacidade de contestação por parte de outros países relevantes, dadas as assimetrias que se consolidaram tanto no terreno militar quanto no financeiro. Mesmo assim, apontou para uma fragilidade importante que pode advir de um “avanço imperial das prerrogativas (americanas), procurando impingir uma primazia absoluta em todas as áreas da vida internacional” (Tavares; Melin, 2019, p. 256).

Exemplificou essa exacerbação com a Lei Helms-Burton, que permitiu o sancionamento de empresas e indivíduos não americanos por fazerem negócios com Cuba. Para ela, essa medida seria uma inovação no direito internacional, na medida em que introduziu “o conceito de um estado nacional (que) atribuiu unilateralmente a si próprio o direito de regular e punir ações de estrangeiros praticadas fora do seu território” (Tavares; Melin, 2019, p. 257). Foi nessa direção que os mecanismos de enquadramento dos EUA evoluíram nas décadas seguintes.

5. A ATUALIDADE DO PENSAMENTO DE CONCEIÇÃO SOBRE A HEGEMONIA AMERICANA E A CENTRALIDADE DO DÓLAR

Já se passaram quase três décadas desde a publicação do Pós-Escrito de 1997. Ao longo desse período, o mundo viveu várias crises financeiras importantes, como as da Ásia e da Rússia em 1998, a da Bolsa de Valores Americana em 2001, a disrupção internacional de 2008 e, por fim, a iliquidez dos títulos americanos durante a pandemia de 2020 (Torres; Burlamaqui, 2020).

Em todos esses momentos, mesmo quando foram o epicentro do problema, como em 2008, os EUA conseguiram manter a coordenação do sistema financeiro internacional, evitando ou mitigando disrupções e assegurando a posição central do dólar. No campo bélico, conseguiram manter uma posição de vantagem sobre as demais potências, que se mostrou efetiva nos conflitos em que tiveram participação direta ou indireta. Assim, os dois instrumentos básicos de enquadramento da hegemonia americana apontados por Conceição — o dinheiro e as armas — permaneceram sólidos.

Até seu falecimento em 2024, ela não voltou a rever ou atualizar sua tese sobre a retomada da hegemonia americana. Encontrei apenas uma breve menção ao tema em uma conferência organizada pela Cepal em 2010. Nessa oportunidade, dois anos após a crise de 2008, afirmou que não se pode “garantir que a economia dominante e mais endividada do mundo, a dos Estados Unidos, perca sua hegemonia neste momento razoavelmente perverso”.

No campo monetário-financeiro, a liderança americana, desde os anos 1990, ampliou sua base de poder introduzindo inovações institucionais e regulatórias que asseguraram a centralidade do dólar e a estabilidade do sistema financeiro internacional. O exemplo mais importante dessas atualizações foi a criação, no contexto pós-2008, do compartilhamento, pelo Fed, de seu poder inato de emitir dólares com seus congêneres dos países mais relevantes e politicamente mais alinhados (inclusive o Brasil).

Para tanto, o banco central americano firmou contratos de swaps com essas autoridades monetárias. Esses instrumentos permitiram que essas instituições estrangeiras pudessem, por vontade própria, gerar saldos em dólares em suas contas no Fed. O único requisito é realizarem, em simultâneo, o depósito de um valor equivalente, na moeda que emitem, na conta que a autoridade monetária americana mantém nesses bancos. Essa contrapartida, no entanto, é mera formalidade contábil. Assim, os principais bancos centrais do resto do mundo passaram a formar, na prática, uma classe especial de bancos que integram a Reserva Federal americana. As únicas diferenças em relação aos bancos regionais americanos, que sempre fizeram formalmente parte do sistema, são a de não terem assento na diretoria da instituição e a de poderem ter o direito de emissão de dólares cancelado unilateralmente a qualquer momento.

Outra importante iniciativa adotada pelos EUA foi a criação de um marco global que regulasse, de forma homogênea, todos os sistemas monetários e financeiros nacionais segundo princípios comuns. O chamado Acordo de Basileia é, na prática, um “acordo de cavalheiros” entre os principais bancos centrais, com base em princípios gerais que, depois, precisam ser obrigatoriamente transformados em leis e normas locais.

Esse mecanismo de coordenação, administrado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), garante um tratamento homogêneo aos capitais ao redor do mundo em todas as portas de entrada do sistema financeiro internacional. A falha de qualquer país em aderir a esses princípios pode expor seu governo a penalidades que vão de uma simples advertência até a suspensão do direito de seus bancos operarem globalmente.

As normas de segurança implementadas no sistema financeiro internacional a partir do ataque às Torres Gêmeas em 2001 também garantiram aos EUA o direito de adotar novos mecanismos de enquadramento. Foram introduzidos mecanismos que lhes permitem, ad hoc, limitar a capacidade de qualquer pessoa, empresa, banco ou país de efetuar pagamentos no exterior. Esses instrumentos são muito flexíveis e podem ser usados de forma direcionada e com diversos graus de intensidade. Tais mudanças estão totalmente alinhadas com os escritos de Conceição sobre a hegemonia americana. Ela enfatizou, em várias oportunidades, a importância dos mecanismos de enquadramento – armas e dinheiro – para a retomada e sustentação da liderança externa dos EUA.

As sanções monetárias foram mecanismos utilizados pelo governo americano desde o fim da Segunda Guerra Mundial para coagir seus inimigos. Inicialmente, estiveram associadas à Guerra Fria e visavam criar dificuldades para a liquidação de transações comerciais e financeiras entre as economias alinhadas com a União Soviética e o mundo capitalista. Foram também acionadas pontualmente para dobrar a vontade dos aliados quando estes tomavam atitudes geopolíticas indesejadas ou desautorizadas pelo poder hegemônico. A desestabilização da libra esterlina em 1956 é um exemplo clássico. O governo americano forçou Londres a retirar de imediato suas tropas do Egito, poucas semanas após a invasão e ocupação do Canal de Suez.

A partir dos anos 1990, a centralidade da moeda americana permitiu o desenvolvimento de uma nova geração de mecanismos de sanção monetária privativos do dólar. Esses instrumentos podem ser utilizados de forma flexível, em um espaço geograficamente amplo, ou ter a intensidade de seu efeito econômico ajustada a diferentes níveis de impacto, à semelhança do que se observa em conflitos militares que envolvem bombardeios tradicionais. Essas novas formas de sanção monetária em dólares são capazes de simular um bloqueio comercial, mas com a vantagem de não requerer a cooperação de outros países nem a mobilização permanente e muito custosa de uma frota naval.

Com o acionamento dessa “bomba dólar” (Torres, 2021), os Estados Unidos são capazes de assegurar, sozinhos e a baixo custo, o isolamento de um país-alvo. Pelas regras atuais do sistema financeiro internacional, as demais nações são obrigadas a segui-las automaticamente. Para tanto, precisam mobilizar apenas algumas dezenas de funcionários de seu Departamento do Tesouro em lugar de equipamentos militares e soldados. Trata-se de uma arma impossível de ser reproduzida pelos oponentes, pois não se baseia em avanços tecnológicos passíveis de serem copiados – como a bomba atômica e o Sputnik. Diferentemente dessas inovações desenvolvidas como armas pela engenharia bélica, a nova arma financeira se apoia em restrições regulatórias aplicáveis aos usuários de uma moeda específica e central nas relações internacionais. O dólar exerce um quase monopólio nas liquidações internacionais.

A origem da armamentização da moeda americana está relacionada, de um lado, à criação de um modelo regulatório único, aplicado compulsoriamente a todos os países que integram o sistema financeiro global. De outro lado, decorreu também da experiência acumulada pelas autoridades americanas, inicialmente na repressão aos sonegadores fiscais e aos traficantes de drogas. Com o tempo, essas agências perceberam o valor do acesso à informação sobre a circulação de dinheiro e de ativos denominados em dólares por criminosos ou inimigos do Estado.

Por muito tempo, o acesso dos funcionários do governo americano aos dados financeiros de pessoas e empresas no exterior encontrou entraves. Entretanto, após o ataque de 2001 às Torres Gêmeas de Nova Iorque, essas limitações foram contornadas. Com isso, o Tesouro americano também passou a atuar amplamente fora dos EUA, inclusive por meio de ações secundárias contra bancos indiretamente envolvidos em transações sob suspeição (Zarate, 2013).

Na prática, os Estados Unidos são capazes de comprometer irremediavelmente a reputação de qualquer instituição financeira. É muito grande a sensibilidade desse mercado ao risco de contágio decorrente de fazer negócios com uma instituição que, posteriormente, venha a ser considerada suspeita de conivência com qualquer atividade criminosa. Assim, uma simples suspeita, mesmo que não oficial, é motivo suficiente para desencadear uma corrida contra um banco e, por conseguinte, levá-lo à falência. O setor financeiro é, na sua essência, uma indústria de rede. A atuação do poder executivo americano nessa área foi estabelecida sem grandes limitações. Assim, o Secretário do Tesouro dos EUA pode considerar suspeita qualquer instituição financeira, americana ou não, sem ter o ônus de apresentar evidências (Torres, 2021).

O enquadramento monetário-financeiro americano na década de 1980 – a “diplomacia do dólar” – operou por meio de medidas estruturais, como o aumento da taxa de juros, e de ações bilaterais, como os Acordos de Plaza e de Louvre. O cardápio de estratégias de enquadramento dos anos 2000 em diante acrescentou dois novos elementos. A rede de contratos de swaps foi uma iniciativa que reforçou o poder americano do ponto de vista estrutural, alinhando a operação individual de um conjunto relevante de bancos centrais à centralidade do dólar. Ao mesmo tempo, a bomba-dólar tem um caráter coercitivo e unilateral.

Conceição, em seu texto de 1997, chamou a atenção para o fato de a Lei Helms-Burton introduzir um caráter extraterritorial à legislação americana, atribuindo ao governo dos EUA o direito de punir ações de estrangeiros praticadas fora de seu território. Esse conceito jurídico, desde então, adquiriu proporções maiores. Os americanos veem o uso de sua moeda como uma extensão do seu espaço jurisdicional. Assim, entendem que qualquer transação ou ativo que seja denominado ou liquidado em sua moeda está sujeito à sua lei, não importando a nacionalidade dos agentes econômicos envolvidos nem o país em que o negócio tenha sido registrado. Além do mais, usam também sanções secundárias, que podem atingir quem realiza qualquer negócio com um sancionado. Trata-se de uma generalização do precedente que Conceição alertou que estava sendo imposto a Cuba no final dos anos 1990.

6. CONCLUSÕES

Este texto apresentou uma leitura da evolução do pensamento de Maria da Conceição Tavares sobre um tema específico de sua obra: a hegemonia americana e a centralidade do dólar. Para tanto, realizamos um apanhado transversal de vários de seus escritos, desde seu ensaio sobre a dinâmica do processo de substituição de importações em países periféricos, de 1963, até seu Pós-Escrito, publicado em 1997. Foram usados como base os ensaios selecionados por ela para compor a coletânea publicada por Melo (2019). Adicionaram-se também a esta pesquisa outros trabalhos elaborados por Conceição e por autores que trabalharam com ela sobre a mesma temática.

Essa revisão indica que a linha do tempo do pensamento dela sobre a hegemonia americana pode ser dividida em duas fases, em cronologia semelhante à proposta por Bielschowsky (2010). Há um período inicial, que se estendeu até 1979, em que ela não abordou diretamente o tema, seguindo o mesmo tratamento adotado pelos pensadores da Cepal. Esses autores, apesar de reconhecerem a relevância da hierarquia presente nas relações internacionais, trataram esses determinantes como elementos implícitos da “restrição externa” ao desenvolvimento das economias latino-americanas.

Conceição abandonou definitivamente essa forma de tratamento do poder americano a partir de 1979, com a montagem do Programa de Pós-Graduação em Economia na UFRJ. A estrutura do Curso de Mestrado já tinha, no seu início, como um dos eixos centrais o estudo das respostas dos países centrais e periféricos às mudanças na hegemonia americana.

Em 1981, apresentou sua visão da evolução da hegemonia americana no pós-guerra, identificando as raízes da crise de hegemonia iniciada em 1974. Até a publicação de seu texto sobre a retomada da hegemonia americana em 1984, manteve-se distante das interpretações mais extremas, que apontavam o declínio do poder americano como uma tendência inexorável rumo a uma ruptura. Diferentemente, ela via os EUA, segundo as suas palavras, “mandando pra burro” em lugar de estar ameaçado de ser substituído por um país competidor ou mesmo por um sistema multilateral.

Em seus ensaios sobre a retomada da hegemonia americana, publicados em 1984 e 1997, Conceição inicialmente apresentou e, posteriormente, aprofundou sua visão sobre a hegemonia americana. Deixou explícito que os fatores determinantes dessa supremacia são o poder sobre o dinheiro – “a diplomacia do dólar forte” – e as armas – a “diplomacia das armas”. Introduziu, nessas duas oportunidades, a relevância dos processos de enquadramento adotados pelos EUA, por meio da mobilização desses dois instrumentos.

Esses mecanismos permitiram a retomada da hegemonia americana por meio de decisões que integraram estratégias formuladas pelas elites americanas, com o objetivo de reafirmar seu poder no cenário internacional. As contribuições de Conceição à economia política internacional e o papel do enquadramento, pelos EUA, dos demais países têm sido elementos pouco ressaltados pela literatura que se debruçou até agora sobre seu pensamento.

O artigo também buscou mostrar que, ao longo das diversas crises que se abateram sobre o sistema financeiro internacional após 1997, os americanos operaram pragmaticamente para garantir a funcionalidade do seu sistema monetário como locus central das transações e das finanças internacionais. Esse processo foi se consolidando a partir de erros e acertos que podem ser exemplificados, na crise de 2008, pela falência desnecessária do Lehman Brothers, bem como pela montagem da rede de contratos de swap de moedas entre os principais bancos centrais e o Federal Reserve. Nesse caso, o governo americano concordou em compartilhar o poder emissor de seu banco central com algumas das nações amigas mais importantes.

Nesse contexto, os EUA conseguiram, em simultâneo, ampliar os instrumentos de enquadramento financeiro à sua disposição por meio de importantes inovações regulatórias. Essas medidas permitiram que o governo americano passasse a usar sua moeda como arma de guerra: a bomba dólar. Washington pode, assim, realizar “bombardeios”, ou seja, bloquear os pagamentos internacionais de governantes isoladamente ou de toda uma nação. Esse instrumento pode ser aplicado em diferentes intensidades contra a economia de países que se recusam a se submeter a seus ditames, provocando uma crise clássica de balanço de pagamentos. Até o momento, essa “bomba dólar” já foi imposta a nações como a Coreia do Norte, o Irã e a Rússia.

Conceição provavelmente ficaria muito chocada com a atitude do segundo governo Trump ao presidir o enterro, sem honras oficiais, do mundo criado pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. As atitudes adotadas mais recentemente pelos EUA indicam que, a exemplo do que fez em várias oportunidades desde 1945, o governo americano está, mais uma vez, exercendo seu poder de enquadramento sobre parceiros e oponentes.

Entretanto, desde 1945, nunca se viu uma ação coercitiva tão intensa, ampla e permanente quanto a que vem sendo exercida desde 2025. As exigências vão desde vantagens econômicas e financeiras unilaterais até mesmo ganhos territoriais por meio de ameaças e da coerção. Essas atitudes, a despeito de estarem em contradição com os princípios da subordinação consentida inerentes ao conceito de hegemonia, iluminam a natureza estrutural do poder americano, segundo a visão de Conceição. Os EUA sempre puderam mudar unilateralmente as regras do jogo internacional. Entretanto, a ausência, como agora, de maior preocupação com princípios de legitimação capazes de justificar ou apresentar benefícios de uma nova ordem aos países-alvo aponta para um caminho novo, certamente mais doloroso e imprevisível. Na situação em curso, o hegemon se envolve em ataques e recuos em simultâneo com todos os demais membros do sistema global

Mesmo assim, suspeito que Conceição, se questionada sobre a possibilidade de a hegemonia americana estar enfrentando um grande abalo (Obstfeld, 2025), mais uma vez responderia negativamente. É verdade que os EUA continuam perdendo espaço no comércio e na renda mundiais, em grande parte devido ao rápido crescimento da economia chinesa. Entretanto, essa menor posição relativa não comprometeu seu poder financeiro nem militar.

São escassas as evidências de que os chineses estão no caminho de tomar o lugar dos EUA na liderança financeira global. Para tanto, ainda lhes faltariam condições efetivas de operar o sistema financeiro internacional, a partir de uma moeda que, como a sua, tem conversibilidade sujeita a limitações severas. Os chineses são ciosos de preservar sua autonomia na fixação simultânea de suas taxas de câmbio e de juros. Do mesmo modo, seu arsenal militar, apesar de ter se expandido rapidamente nos últimos anos, ainda não tem condições de fazer frente ao norte-americano.

Os europeus também não seriam candidatos fortes para disputar a hegemonia monetária. O euro, a despeito de ter alguma relevância nas reservas externas dos países, responde por uma fração muito pequena dos pagamentos internacionais. Ademais, é uma moeda emitida por um banco central que não está submetido a um Estado centralizado. A essa fragilidade, soma-se o fato de as forças armadas da União Europeia serem comandadas diretamente pelas nações-membro da comunidade, além de continuarem muito dependentes tecnológica e operacionalmente dos EUA.

Nesse cenário, é surpreendente que, até o final de 2025, os mercados financeiros continuem operando como se essa nova onda de enquadramento americano fosse apenas um mero aumento da volatilidade. A experiência histórica mostra que mudanças que afetam mais profundamente os mecanismos financeiros internacionais podem gerar instabilidade e desordem por um período prolongado.

Esse foi o caso das décadas de 1970 e 1980. O sistema internacional baseado em taxas de câmbio fixas e na conversibilidade do dólar em ouro, rompido em 1971, levou mais de duas décadas para ser substituído. Nesse meio-tempo, a economia internacional foi se movendo em crises sucessivas, criando mecanismos parciais de conciliação e de mitigação de riscos. Essa transição só terminou quando foi possível, a partir de meados da década de 1990, se redesenhar um novo sistema de instituições e mercados que proporcionou estabilidade ao sistema globalizado moderno, apoiado em taxas de câmbio flexíveis e em um dólar internacional fiduciário, que agora está em tela de juízo.

A duração de transições dessa natureza é, no entanto, imprevisível e o gerenciamento desse processo requer uma ação intensa interestatal. Esse cenário me remete a uma frase famosa de Antonio Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer: nesse interregno ocorrem os mais variados fenômenos mórbidos” (Gramsci, 1985, p. 286).

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    O autor agradece os comentários de Ana Marta Horta Veloso e Luiz Macahyba.
  • Financiamento:
    Não houve suporte financeiro.
  • Disponibilidade de dados:
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  • CLASSIFICAÇÃO JEL:
    F51; F52; B3; G15.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2025
  • Aceito
    26 Mar 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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