Assumi a editoria da REAd em um momento de inflexão na trajetória da Revista, tanto no que se refere à sua administração quanto à linha editorial.
Fui selecionada após ter me candidatado em edital, em Junho de 2017, tendo compartilhado um período de seis meses em coeditoria com a colega Andrea Oltramari, que estava na condição de editora. No período em que compartilhamos a responsabilidade, seguimos realizando o trabalho que Andrea havia iniciado, ao encontrar mais de 400 submissões reprimidas. Quando assumimos, em conjunto, ainda havia 83 artigos que estavam em avaliação; e 124 sem designação de avaliadores. Nesse trabalho contamos com a colaboração inicial e inestimável da bolsista da Biblioteca, Elis Nunes, que nos orientou nos caminhos administrativos e nos apoiou na organização de um mutirão para dar conta do que ainda estava reprimido.
Aquele período inicial foi de muitos desafios. Logo ficamos sem o apoio de Elis, que optou por uma bolsa de iniciação científica na Biblioteconomia. A situação era muito complicada; coisas estranhas aconteciam, evidenciando que era indispensável reorganizar a administração da Revista. Um exemplo foi a mensagem do colega do Centro de Processamento de Dados (CPD), responsável por acompanhar os periódicos da UFRGS: “Tenho recebido notificações de outras revistas que não estão conseguindo alterar o perfil dos usuários, notei que esses usuários têm em comum o vinculado como autores da revista REAd. Consultei o número de usuários inscritos como autores na REAd, e ele totaliza 43976 usuários. Gostaria de saber se você está ciente disso, e o motivo dessa ação ter sido realizada”. Registre-se que naquele momento eu estava tentando mudar o acesso e até para isso encontrava dificuldades, já que sequer se sabia quem era o usuário detentor da senha.
Trago os números que encontramos e faço essa transcrição pontual para que se tenha uma ideia da situação e das dificuldades daqueles primeiros tempos, e algumas decisões que se seguiram. Com a parceria da Andrea e com o apoio indispensável de cerca de 15 colegas da Escola de Administração (EA) que, a partir de contato com as coordenações das áreas acadêmicas, se dispuseram a participar de um mutirão de avaliações, encerramos o ano de 2017 com a revista organizada. Para tanto, utilizamos o recurso de uma edição especial sobre “Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho”, organizada por Andrea Oltramari, que incluiu 14 artigos e 2 casos de ensino, e que também marcou seu afastamento da editoria da Revista.
No mesmo mês, publicamos o número 3 de 2017, com mais 9 artigos e 2 casos de ensino. Nele, encontra-se meu primeiro editorial, no qual anunciei o período de transformações que se iniciava, chamando atenção para alterações na Linha Editorial: “Dirigimo-nos mais decididamente para sermos um periódico da área de Administração, claro que preservando sempre o princípio da interdisciplinaridade. Na prática, isto indica um afastamento de artigos com foco mais restrito à Contabilidade que, até este momento, tiveram presença significativa. Também alteramos a ênfase, enfocando em artigos teórico-empíricos e ensaios. Esperamos, com estas alterações, fortalecer nossa contribuição para a construção de conhecimento em nosso campo de estudo. Neste contexto, alguns artigos publicados nesse número representam o fim de um ciclo; enquanto outros, marcam claramente o caminho que começamos a trilhar”.
A Revista se orientou, portanto, pelo objetivo de expressar a Administração como campo amplo de conhecimento, em sua diversidade. Nesse sentido, valorizou-se a diferença com relação à maioria dos periódicos desse campo, que tendem a focar em áreas específicas. Também se orientou por valorizar a produção de reflexões de caráter teórico ensaístico, tão necessárias (Meneghetti, 2011), afastando-se da tendência que até então refletia uma tendência dominante em nosso campo, que “se concentra ou nas descrições sobre a matéria pesquisada, com reflexões em que predomina a forma imediata do objeto, ou na utilização de modelos e concepções teóricas pré-existentes, que acabam por direcionar a investigação aos conteúdos pressupostos” (Faria, 2023, p. 1).
A alteração editorial foi muito significativa e se encontra presente até este momento3, como está expresso no sítio, na aba “Foco e Escopo”: “A REAd publica ensaios e trabalhos teórico-empíricos das diversas áreas da Administração. Acolhemos trabalhos das diversas vertentes ontoepistemológicas, com alta consistência teórica e rigor metodológico (quando for o caso). Embora a REAd inclua contribuições para a prática da Administração, ela é uma revista orientada à comunidade acadêmica. Por isso, não são aceitos trabalhos que se restrinjam à aplicação de modelos e tecnologias gerenciais”.
Não era mais admissível, naquele momento e dado o amadurecimento acadêmico da nossa área, uma publicação científica que não aceitasse ensaios e que, em vez disso, estimulasse textos de revisão e estudos aplicados de caráter descritivo. Com a alteração da linha editorial, voltando-se para a comunicação da pesquisa e enfatizando a necessidade de que os trabalhos contribuíssem para o conhecimento sobre o tema, foi necessário reorganizar o corpo de avaliadores e introduzir um processo rigoroso de desk review. Diante da trajetória no período que antecedeu as mudanças, a rejeição no processo de desk review era muito elevada; e a submissão de artigos no perfil desejado, bastante pequena. Para se ter uma ideia, em 2018, até o mês de agosto, 204 manuscritos foram submetidos, com 8 aceitações e 14 em processo de avaliação após aprovação no desk review, ou seja, do total de 204, apenas 22 passaram pelo primeiro filtro. Foi, portanto, necessário um esforço de divulgação para captar artigos coerentes com a nova linha editorial.
No que se refere à administração da Revista, a própria lógica da vinculação ao SciELO, e a constatação dos problemas encontrados, levou a uma concepção de editoria que também assumisse essa tarefa. É preciso dizer que esse não é o melhor método de trabalho, mas foi e penso que continua sendo o que se aplica ao contexto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Escola de Administração (EA) até este momento.
Quando assumi, fiz contato com editores de periódicos, dos quais participava como membro de Comitê Editorial, para me aconselhar sobre as boas práticas administrativas. As respostas incluíram ter uma equipe de suporte exclusivamente dedicada à tarefa. Logo, ao apresentar ao Conselho da Unidade da EA a situação e um plano de trabalho, ficou evidente que essa possibilidade não se encontrava presente. Sendo assim, a opção foi submeter uma proposta ao edital do Programa de Apoio à Edição de Periódicos (PAEP), da UFRGS, o que permitiu aceder ao financiamento de uma bolsista para dedicar-se a atividades da REAd. No meu período, considerei que o mais adequado seria ter uma revisora de texto. Contamos, então, com uma mestranda de Letras que já havia passado por um processo seletivo para uma das revistas do Instituto de Letras.
As tarefas propriamente administrativas – gerenciar submissões; convidar e designar avaliadores; verificar avaliações e comunicar autores; tomar preços para conversão em XLM e relacionamento com o setor financeiro da EA; articulação com a empresa selecionada, para desenvolvimento do processo e envio à SciELO; etc – foram assumidas por mim, em um processo de muita aprendizagem e com base no entendimento de que há funções que competem à editoria e que não poderiam ser delegadas (definição de avaliadores e sistematização das avaliações, centralmente), mesmo se houvesse um suporte exclusivo para a Revista.
Outra alteração foi a identidade visual. A atual identidade da REAd foi elaborada também no final de 2017, por Bruno Assis, estudante do Curso de Design, da Faculdade de Arquitetura, da UFRGS, que teve seu trabalho remunerado com recursos do Grupo de Pesquisa Organização e Práxis Libertadora.
Cabe registrar que acompanhei o processo de avaliação Qualis Capes e a alteração da classificação, sendo que passamos de B1 para A3.
No período no qual fui editora (até setembro de 2019), incluí ainda duas novidades: uma seção de debates no número 1, de 2019, que não teve continuidade e que faz muita falta em revistas brasileiras desde que a seção “Documentos e Debates”, que era editada por Roberto Costa Fachin e Eloise Delagnello, da Revista de Administração Contemporânea (RAC), foi encerrada; e uma chamada de trabalhos para dossiê, publicada no número 2, de 2019, prática que tem sido continuada, ainda que de modo irregular4. Esta serviu, entre outros aspectos, para incluir autores do contexto latino-americano no dossiê organizado por Paulo Abdala, da UFRGS, e José Francisco Puello-Socarrás, da Escuela Superior de Administration Pública, da Colômbia, que teve autores do México, da Argentina e do Chile, além de autores do Brasil.
O tempo em que estive na editoria da REAd foi de bastante trabalho e dedicação de muitas horas semanais à tarefa. Foi também de enorme aprendizagem, não apenas sobre a função em sim, mas especialmente sobre a abrangência e riqueza da produção que se faz nos diversos temas abarcados pela Administração. Tenho convicção de que contribuí para que a Revista expresse essa riqueza e diversidade, em que essa tendência se aprofundou com os editores que se seguiram ao meu período.
A REAd é um patrimônio da área da Administração no Brasil, nem sempre valorizado e reconhecido pela comunidade da EA, mas sempre construído com base em esforços e dedicação individualizados em uma Universidade que, apesar da existência do PAEP, não garante o apoio imprescindível à edição de periódicos.
Nesse sentido, a iniciativa da atual editoria da Revista de registrar seu aniversário pela palavra de ex-editores é uma valorização dessa dedicação.
Parabéns aos que constroem a REAd ao longo do tempo. Longa vida à REAd!
REFERÊNCIAS
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Faria, J. H. (2023). Foi e não se sabe se volta: O sumiço progressivo da teoria original. Revista de Administração Contemporânea, 27(1), 1-9. doi:10.1590/1982-7849rac2022220065
» https://doi.org/10.1590/1982-7849rac2022220065 - Meneghetti, F. K. (2011). O que é um ensaio-teórico? RAC - Revista de Administração Contemporânea, 15(2), 320-332.
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1
Especial – 30 Anos REAd. Contribuição voluntária de ex-editore(a)s da REAd.
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3
A referência temporal aludida pela autora é até 05/02/2025. A REAd pretende manter o rigor metodológico e teórico, mas os textos das páginas informativas estão passando por alterações, por orientação do SciELO, uma vez que a revista está entrando na modalidade de publicação fluxo contínuo.
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4
A REAd reativou a publicação de dossiês em 2024, havendo três em andamento.
