Open-access Acessibilidade e inclusão digital em bibliotecas acadêmicas: o papel da inteligência artificial

RESUMO

Introdução:  A Inteligência Artificial (IA) tem emergido como um instrumento estratégico na transformação dos serviços bibliotecários, especialmente no que se refere à promoção da acessibilidade digital em bibliotecas acadêmicas. Apesar do seu potencial inclusivo, persistem desafios estruturais, éticos e formativos que comprometem a sua eficácia plena.

Objetivo:  Este artigo analisa criticamente o papel da Inteligência Artificial (IA) na promoção da acessibilidade e da inclusão digital em bibliotecas acadêmicas, a partir de uma revisão sistemática da literatura científica recente.

Metodologia:  A investigação baseou-se em uma revisão sistemática, conduzida segundo as diretrizes PRISMA. Foram selecionados 31 estudos internacionais publicados entre 2006 e 2025, que abordam a interseção entre IA, acessibilidade, ética e práticas institucionais em bibliotecas acadêmicas. Os artigos foram analisados qualitativamente e classificados em quarto categorias: (i) transformação dos serviços, (ii) acesso inclusivo e experiência do usuário, (iii) alfabetização digital e formação institucional e (iv) desafios éticos, institucionais e regulatórios.

Resultados:  Os resultados evidenciam avanços tecnológicos significativos, incluindo soluções de leitura automática, assistentes inteligentes e interfaces inclusivas. Contudo, identificam-se lacunas como a baixa alfabetização digital dos profissionais, ausência de normativos claros e exclusão de usuários com deficiência nos processos de concepção tecnológica.

Conclusão:  Conclui-se que o uso da IA em bibliotecas acadêmicas deve ir além da inovação tecnológica, exigindo uma abordagem crítica e participativa, apoiada em políticas institucionais de inclusão, formação especializada e regulação ética. Apenas com este alinhamento sera possível transformer verdadeiramente as bibliotecas em espaços acessíveis, equitativos e centrados no ser humano.

PALAVRAS-CHAVE:
Inteligência artificial; Bibliotecas acadêmicas; Acessibilidade; Inclusão digital; Revisão sistemática

ABSTRACT

Introduction:  Artificial Intelligence (AI) has emerged as a strategic tool in the transformation of library services, especially about promoting digital accessibility in academic libraries. Despite its inclusive potential, structural, ethical and training challenges remain that compromise its full effectiveness.

Objective:  This article critically analyzes the role of artificial intelligence (AI) in promoting accessibility and digital inclusion in academic libraries, based on a systematic review of recent scientific literature.

Methodology:  The research followed a systematic literature review, conducted in accordance with PRISMA guidelines. Thirty-one international studies published between 2006 and 2025 were selected, focusing on the intersection of AI, accessibility, ethics, and institutional practices in academic libraries. The studies were qualitatively analyzed and classified into four categories: (i) service transformation, (ii) inclusive access and user experience, (iii) literacy and institutional training, and (iv) ethical, institutional, and regulatory challenges.

Findings:  The results highlight significant technological advances, including automatic reading solutions, intelligent assistants, and inclusive interfaces. However, gaps remain, such as low digital literacy among professionals, lack of clear regulations, and the exclusion of users with disabilities from technological design processes.

Conclusion:  The study concludes that the use of AI in academic libraries must go beyond technological innovation, requiring a critical and participatory approach supported by institutional inclusion policies, specialized training, and ethical regulation. Only through such alignment will it be possible to transform libraries into truly accessible, equitable, and human-centered spaces.

KEYWORDS:
Artificial intelligence; Academic libraries; Accessibility; Digital inclusion; Systematic review

1 INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a emergência de tecnologias digitais tem vindo a redefinir profundamente as estruturas de acesso ao conhecimento, impondo novos desafios e possibilidades às bibliotecas acadêmicas. Neste cenário de transição, a Inteligência Artificial (IA) destaca-se não apenas como um instrumento técnico, mas como um agente de reconfiguração epistemológica e institucional. A sua capacidade para automatizar processos, personalizar experiências informacionais e ampliar a acessibilidade posiciona-a como um elemento-chave na construção de ambientes inclusivos de aprendizagem e investigação.

Contudo, o potencial inclusivo da IA nas bibliotecas não se concretiza de forma automática nem isenta de tensões. A acessibilidade, entendida como um direito universal e princípio de justiça social, continua a ser atravessada por obstáculos estruturais, desde a carência de soluções adaptativas até à ausência de políticas institucionais coerentes com os princípios da equidade informacional. Estes desafios tornam-se ainda mais complexos quando analisados à luz das desigualdades digitais e dos limites éticos associados à utilização de algoritmos em contextos de mediação do conhecimento.

Neste contexto, a presente investigação propõe analisar criticamente o papel da IA na promoção da acessibilidade digital em bibliotecas acadêmicas, com base numa revisão sistemática da literatura. Ao integrar contributos oriundos de diversas geografias e disciplinas, o estudo procura mapear as potencialidades e contradições desta tecnologia no contexto da inclusão informacional, formulando recomendações fundamentadas para a sua implementação responsável e equitativa.

Assim, mais do que discutir tendências tecnológicas, este artigo posiciona-se como um contributo para o debate académico e institucional sobre os caminhos possíveis para uma transformação digital eticamente comprometida e socialmente enraizada. Ao abordar a IA como ferramenta crítica e emancipatória, defende-se que as bibliotecas acadêmicas podem e devem assumir um papel estratégico na consolidação de um ecossistema informacional verdadeiramente acessível, inclusivo e democrático.

Figura 1
Modelo Integrado de Acessibilidade Digital com Inteligência Artificial em Bibliotecas Acadêmicas

A Figura 1 ilustra o modelo que orienta este estudo, no qual a IA é compreendida como um elemento estruturante da acessibilidade digital em bibliotecas acadêmicas. O esquema evidencia que o uso da IA não pode ser dissociado de um compromisso ético, que atua como eixo transversal no processo de mediação informacional. Esse compromisso garante que o protagonismo dos usuários, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade, seja preservado e fortalecido. Além disso, a figura destaca o papel central das estruturas institucionais, que devem assegurar recursos, políticas e regulamentações capazes de sustentar práticas inclusivas. Em síntese, a inclusão informacional resulta da articulação equilibrada entre tecnologia, ética, protagonismo dos usuários e apoio institucional, configurando um ecossistema digital mais justo e acessível.

2 REVISÃO DE LITERATURA

A evolução tecnológica do século XXI tem colocado as bibliotecas acadêmicas perante um novo paradigma de acessibilidade e inclusão. No cerne desta transformação encontra-se a IA, cuja aplicação em contextos informacionais promete, não apenas otimizar processos, mas, sobretudo, democratizar o acesso à informação. Esta revisão sistemática da literatura analisa criticamente a produção científica recente sobre a IA e a acessibilidade em bibliotecas acadêmicas, com foco na sua relevância prática, nos limites éticos e nas implicações educacionais.

O Quadro 1 sistematiza as dimensões funcionais da acessibilidade em bibliotecas acadêmicas, associando-as às principais tecnologias assistivas baseadas em IA identificadas na literatura. A classificação contempla quatro domínios centrais, visual, auditivo, motor e cognitivo, e ilustra como diferentes soluções tecnológicas podem ser aplicadas para atender às necessidades específicas de cada grupo de usuários. Entre os exemplos, destacam-se sistemas de leitura automática e curadoria acessível para limitações visuais e auditivas, assistentes virtuais para apoio motor, bem como interfaces adaptativas e classificação inteligente de conteúdos para usuários com deficiências cognitivas. Dessa forma, o quadro evidencia como a IA pode ampliar a equidade informacional, desde que acompanhada por políticas institucionais e práticas profissionais adequadas.

Quadro 1
Dimensões Funcionais da Acessibilidade e Tecnologias Assistivas com IA em Bibliotecas Acadêmicas

A acessibilidade, enquanto direito fundamental e critério de justiça social, continua a enfrentar obstáculos significativos nas bibliotecas acadêmicas, particularmente para usuários com deficiência visual, auditiva, cognitiva e motora (Getts; Stewart, 2018; Ineson; Morris, 2006; Phukubje; Ngoepe, 2016). A literatura aponta para falhas estruturais, desde barreiras arquitetónicas à inacessibilidade digital (Ara; Sik-Lanyi; Kelemen, 2024; Gartland et al., 2022; Kerkmann; Lewandowski, 2012). O impacto destas barreiras é agravado pela insuficiência de serviços adaptados e pela escassez de recursos humanos com formação especializada (May, 2025; Seale, 2013).

A introdução da IA neste contexto emerge como um vetor de transformação estrutural. Revisões sistemáticas como as de Das e Islam (2021) e Tunjungsari (2024) identificam um conjunto de aplicações tecnológicas com elevado potencial inclusivo: desde sistemas de leitura automática de texto, reconhecimento de fala, à classificação inteligente de documentos e recomendação personalizada de recursos. Estas soluções alinham-se com as necessidades dos usuários com deficiência, ao mesmo tempo que levantam desafios práticos e éticos significativos (Chemnad; Othman, 2024; Macharia; Otike; Bosire, 2020).

No plano institucional, observa-se uma crescente incorporação da IA em bibliotecas acadêmicas como demonstra o estudo elaborado por Balnaves et al. (2025) sob a égide da IFLA. Estas experiências documentam a implementação de chatbots, jogos educativos baseados em IA e interfaces adaptativas. Contudo, também salientam os riscos relacionados com a formação insuficiente dos profissionais e a ausência de normativos internos (Lo, 2024).

Neste âmbito, a alfabetização em IA surge como condição sine qua non para uma transformação sustentada. Estudos como os de Borges et al. (2021) e Matei; Jackson; Bertino (2025) apontam para a necessidade de competências técnicas e éticas específicas por parte dos profissionais da informação, a fim de promover uma integração informada e consciente da IA nos serviços.

A questão ética é amplamente discutida. A UNESCO (2024) alerta para os riscos de viés algorítmico, discriminação automatizada e erosão da privacidade. Estas preocupações são reiteradas por autores como Jury et al. (2021) e Zondi et al. (2024) que analisam o impacto social de soluções automatizadas sem salvaguardas de transparência e auditabilidade. A necessidade de regulamentação clara e inclusiva é defendida por Devi e Kumar (2023), que sublinham os conflitos entre a proteção dos direitos de autor e a liberdade de acesso de usuários com deficiência.

Por outro lado, a aplicação de robôs assistidos no contexto educativo e bibliotecário, como proposto por Encarnação et al. (2017), aponta para uma nova geração de soluções inclusivas, onde IA, robótica e design universal convergem. Estudos recentes reforçam esta direção, com propostas de sistemas baseados em trajetórias sintéticas (Liu; Hindmarch; Hess, 2023), acessibilidade web otimizada (Kurt, 2019) e serviços digitais desenhados com base na experiência dos usuários (Goldstein, 2021).

A análise crítica da literatura evidencia ainda lacunas significativas, particularmente no que diz respeito à ausência de abordagens co-construídas com os usuários com deficiência e na fraca integração dos princípios do Desenho Universal (Maurya et al., 2025; Xie; Wang; Saba, 2021). Esta constatação converge com os estudos de Brunskill e Gilbert (2023) sobre a superficialidade da representação da deficiência nas comunicações institucionais das bibliotecas.

Assim, a revisão sistemática da literatura não apenas confirma o potencial transformador da IA para a acessibilidade em bibliotecas acadêmicas, como também alerta para os riscos da sua adoção acrítica. A presença da IA nestes contextos exige um compromisso ético, epistemológico e político com a inclusão, com implicações na formação, na política institucional e na regulação internacional. Tal como defendido por Tripathi e Shukla (2014), apenas uma abordagem integrada e orientada por princípios de equidade e acessibilidade poderá assegurar que a transformação digital seja verdadeiramente inclusiva.

3 METODOLOGIA

A presente investigação recorreu a uma revisão sistemática da literatura, metodologia amplamente reconhecida pela sua robustez e aplicabilidade quando se pretende mapear, sintetizar e avaliar criticamente a produção científica existente sobre um tema emergente. Esta opção justifica-se pelo carácter fragmentado e em rápida evolução do debate sobre a aplicação da IA na promoção da acessibilidade em bibliotecas acadêmicas. Assim, procurou-se construir uma visão abrangente e, simultaneamente, crítica, capaz de identificar avanços, lacunas, desafios e boas práticas no campo.

O procedimento adotado segue as recomendações da declaração PRISMA, adaptadas ao contexto da Biblioteconomia e Ciência da Informação. Tal alinhamento assegura a transparência das etapas percorridas, a replicabilidade da pesquisa e a conformidade com padrões metodológicos internacionalmente reconhecidos.

A recolha de dados foi realizada em abril de 2025 e contemplou três bases de dados científicas de referência: Web of Science (WoS), Scopus e Dimensions.AI. A escolha destas plataformas resultou da necessidade de garantir simultaneamente profundidade histórica, amplitude interdisciplinar e cobertura internacional. A WoS foi selecionada pela sua reconhecida credibilidade e pelo rigor na indexação de publicações em Ciência da Informação. A Scopus destacou-se pela diversidade tipológica de documentos e pelo elevado fator de impacto das revistas indexadas, possibilitando identificar artigos de revisão de qualidade. Já a Dimensions.AI, apesar de mais recente, foi incluída pela sua capacidade de indexar literatura emergente e recursos ainda pouco representados em bases tradicionais.

Para estruturar a pesquisa, foi desenvolvida uma expressão que integrou termos relacionados com IA (“Artificial Intelligence”, “Intelligent systems”, “Machine Learning”), acessibilidade (“Accessibility”, “Assistivetechnology”, “Inclusive Education”), contexto institucional (“Academiclibraries”, “Highereducationlibraries”) e tipos de deficiência (“Visual impairment”, “Motor impairment”, “Cognitiveimpairment”, “Disabilities”). A lógica da combinação buscou maximizar a sensibilidade da pesquisa, evitando a exclusão indevida de estudos relevantes, mas mantendo especificidade suficiente para não gerar excesso de resultados irrelevantes.

Em cada base de dados aplicaram-se filtros distintos, ajustados às funcionalidades disponíveis. Na WoS, limitou-se a pesquisa ao período de 2020 a 2024 e à área de “Information Science Library Science”, obtendo-se 193 publicações. Na Scopus, utilizou-se o filtro “review article” como critério de refinação, resultando em 23 referências. Já na Dimensions.AI, adotou-se uma busca mais ampla, sem filtros adicionais, o que permitiu identificar 17 estudos.

Os resultados foram integrados e geridos na plataforma Rayyan, ferramenta especializada em revisões sistemáticas, que oferece funcionalidades para deteção de duplicados, triagem colaborativa e categorização de estudos. A utilização desta ferramenta contribuiu para mitigar vieses durante o processo de seleção, ao permitir a comparação estruturada entre diferentes revisores e o registo detalhado das decisões tomadas.

O processo de triagem decorreu em várias etapas. Numa primeira fase, foram eliminados os duplicados (n = 1). Em seguida, realizou-se a leitura de títulos e resumos, excluindo-se os artigos que: (i) não abordavam bibliotecas ou ensino superior, (ii) referiam acessibilidade apenas de forma tangencial, ou (iii) tratavam da IA em contextos alheios às práticas informacionais. Em casos de dúvida, recorreu-se à leitura integral do texto. Como exemplo, artigos que analisavam apenas a aplicação de IA na medicina, sem ligação à acessibilidade em bibliotecas, foram descartados; em contrapartida, estudos que exploravam tecnologias aplicadas em contextos educativos foram incluídos, mesmo que não tratassem exclusivamente de bibliotecas, por fornecerem contributos relevantes.

Para além dos artigos científicos, optou-se por integrar fontes documentais complementares, nomeadamente um relatório institucional, sete recursos provenientes da internet (como diretrizes técnicas e documentos de boas práticas) e dois livros especializados. Esta decisão foi metodologicamente fundamentada, uma vez que a temática em análise envolve tanto aspetos técnicos quanto normativos, que frequentemente não estão totalmente refletidos em artigos académicos. Assim, a inclusão destas fontes ampliou a consistência da revisão e enriqueceu a análise crítica.

Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, obteve-se uma amostra final de 31 documentos, representativos da literatura científica e institucional sobre o tema. O processo de seleção é sintetizado na Figura 2, que apresenta um fluxograma adaptado do modelo PRISMA, evidenciando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão.

A estratégia metodológica aqui descrita assegura, portanto, não apenas a qualidade da revisão, mas também a sua validade científica e utilidade prática. Ao conjugar rigor, transparência e diversidade de fontes, este estudo oferece uma base sólida para a discussão crítica sobre a aplicação da IA na promoção da acessibilidade em bibliotecas acadêmicas e para a formulação de recomendações futuras.

Além de assegurar o rigor científico e a transparência, esta estratégia metodológica foi delineada de forma a responder diretamente à questão de pesquisa que orienta o estudo: De que modo a Inteligência Artificial pode contribuir para a promoção da acessibilidade e da inclusão digital em bibliotecas acadêmicas?

Para dar resposta a esta questão, a revisão sistemática permitiu identificar, selecionar e analisar criticamente evidências científicas e documentais que abordam tanto as potencialidades quanto as limitações da IA em contextos bibliotecários. O objetivo central do artigo, analisar criticamente o papel da IA na promoção da acessibilidade digital em bibliotecas acadêmicas, é, assim, operacionalizado pela integração de resultados oriundos de 31 estudos representativos, cobrindo diferentes geografias, tipologias de utilizadores e perspetivas institucionais.

Deste modo, a metodologia não se limita a mapear a produção científica existente, mas garante uma base sólida para a formulação de interpretações críticas e recomendações fundamentadas. A ligação entre a questão de pesquisa, os objetivos e os procedimentos metodológicos assegura consistência teórico-metodológica ao estudo, conforme exigido pelas boas práticas de revisões sistemáticas, reforçando a sua legitimidade científica e a sua relevância prática.

Adicionalmente, e em nome da integridade metodológica e da clareza expositiva, foram utilizadas figuras ilustrativas geradas com recurso ao modelo linguístico ChatGPT, exclusivamente para fins de apoio visual aos conceitos e estruturas teóricas abordadas, sem qualquer interferência na seleção ou tratamento dos dados.

Figura 2
Prisma Flux Diagram

4 RESULTADOS

A revisão sistemática resultou na seleção de 31 artigos internacionais, publicados entre 2006 e 2025, que tratam da interseção entre IA, acessibilidade digital e bibliotecas acadêmicas. Esses estudos foram sistematizados no Quadro 2, o qual apresenta título, autoria, periódico, principais achados e a categoria/dimensão à qual cada trabalho se relaciona.

Quadro 2
Estudos incluídos na Revisão Sistemática da Literatura

A partir da revisão sistemática realizada, foram identificadas quatro categorias principais de resultados que evidenciam o estado atual, as práticas emergentes e os desafios da implementação da IA no contexto das bibliotecas acadêmicas: (i) transformação dos serviços, (ii) acesso inclusivo e experiência do usuário, (iii) alfabetização e formação institucional, e (iv) desafios éticos, institucionais e regulatórios.

A transformação dos serviços é evidenciada pela implementação de tecnologias como assistentes virtuais, sistemas de recomendação inteligentes e autodescrição automatizada de metadados (Das; Islam, 2021; Zondi et al., 2024). Estas ferramentas têm contribuído para a otimização do atendimento ao usuário, personalização de serviços e acessibilidade de acervos. No entanto, a integração de tais tecnologias requer um redesenho profundo dos processos organizacionais, exigindo maior investimento institucional, formação continuada e adaptação regulatória.

No que respeita ao acesso inclusivo, os resultados mostram que tecnologias baseadas em IA têm sido aplicadas com êxito em soluções como leitores automáticos de ecrã, reconhecimento de linguagem gestual e interfaces adaptadas para usuários com limitações visuais ou cognitivas (Getts; Stewart, 2018; Tunjungsari, 2024). Contudo, permanece uma lacuna entre o potencial tecnológico e a sua implementação prática (Ara; Sik-Lanyi; Kelemen, 2024; Kerkmann; Lewandowski, 2012), frequentemente comprometida pela falta de participação ativa de usuários com deficiência no desenvolvimento e avaliação destas soluções.

No âmbito da alfabetização digital, verifica-se um défice significativo na formação dos profissionais da informação, que compromete a adoção consciente e eficaz destas tecnologias (Lo, 2024; Lo; Vitale, 2024). Este cenário é agravado pela escassez de orientação institucional e de programas estruturados de formação. Além disso, observa-se a ausência de planos estratégicos que articulem a inovação tecnológica com políticas institucionais de inclusão, o que perpetua assimetrias internas e limita o alcance dos recursos digitais acessíveis.

Finalmente, destacam-se os desafios éticos e regulatórios relacionados com o viés algorítmico, a proteção de dados sensíveis e a transparência nos sistemas automatizados. Estudos demonstram que tais questões são frequentemente ignoradas ou tratadas de forma superficial (Devi; Kumar, 2023; Matei; Jackson; Bertino, 2025; UNESCO, 2024). A inexistência de diretrizes claras sobre o uso de IA em ambientes bibliotecários, aliada à fragmentação de responsabilidades institucionais, impede a consolidação de uma governança ética e participativa.

5 DISCUSSÃO

Os resultados obtidos revelam um panorama ambivalente: por um lado, observa-se um avanço tecnológico que oferece novas possibilidades para a inclusão informacional, mas por outro, persistem barreiras institucionais, culturais e técnicas que comprometem a efetividade dessas inovações.

A literatura demonstra que a IA pode ser uma aliada poderosa na promoção da acessibilidade (Goldstein, 2021; Kurt, 2019; Liu; Hindmarch; Hess, 2023). No entanto, o seu impacto é desigual e condicionado pela existência de estruturas preparadas para absorver essas tecnologias. Em muitos casos, a ausência de envolvimento ativo de pessoas com deficiência na conceção de soluções leva a produtos tecnologicamente sofisticados, mas socialmente limitados(Maurya et al., 2025; Xie; Wang; Saba, 2021).

A fragilidade da alfabetização em IA entre profissionais configura-se como um obstáculo crítico, pois condiciona tanto a seleção como o uso adequado das tecnologias(Borges et al., 2021; May, 2025). A existência de iniciativas de formação institucional ainda é pontual e carece de sistematização. Urge desenvolver programas curriculares específicos, com componentes práticas e éticas, que promovam uma compreensão crítica das tecnologias emergentes.

Do ponto de vista ético, a adoção de tecnologias sem uma avaliação crítica do seu impacto social e informacional pode reforçar desigualdades existentes, ao invés de as mitigar(Chemnad; Othman, 2024; Jury et al., 2021). Nesse contexto, os princípios de ajustes razoáveis(Ineson; Morris, 2006) e design universal (Tripathi; Shukla, 2014) devem ser considerados não apenas como orientação técnica, mas como compromissos institucionais. Isso implica também uma revisão crítica das normas de aquisição e produção de recursos digitais acessíveis, bem como da infraestrutura tecnológica das próprias bibliotecas.

A Figura 3 apresenta uma análise SWOT (Strengths, Weaknesses, OpportunitiesandThreats) da aplicação da IA em bibliotecas acadêmicas, sintetizada a partir da revisão sistemática realizada. No eixo das forças, destacam-se a automação de processos, a melhoria da experiência de uso e o apoio à inclusão digital por meio de tecnologias assistivas. Entre as fraquezas, ressaltam-se a insuficiência de competências digitais entre profissionais, a dependência de infraestrutura tecnológica robusta e a escassez de regulamentação específica. Quanto às oportunidades, a literatura aponta para o potencial de personalização de serviços, o fortalecimento da alfabetização informacional e a integração da IA em políticas institucionais de inclusão. Finalmente, as ameaças incluem riscos éticos, vieses algorítmicos, desigualdade de acesso e desafios legais. Em conjunto, a análise evidencia que a adoção da IA nas bibliotecas é promissora, mas requer estratégias de mitigação de riscos e políticas institucionais sólidas para se tornar efetivamente inclusiva e sustentável.

Figura 3
Análise Cruzada dos Desafios e Oportunidades da IA em Bibliotecas Acadêmicas

A análise comparativa das práticas relatadas nos estudos indica que soluções bem-sucedidas são aquelas que articulam tecnologia, política institucional e envolvimento direto da comunidade(Balnaves et al., 2025; Encarnação et al., 2017; Phukubje; Ngoepe, 2016). O sucesso destas práticas depende, portanto, da capacidade das bibliotecas em operar como agentes de transformação social e não apenas como centros de distribuição de tecnologia.

Para além da análise técnica e ética, torna-se necessário reforçar o papel das bibliotecas acadêmicas enquanto agentes institucionais de transformação social e política. Ao integrarem práticas baseadas em IA, estas instituições devem posicionar-se não apenas como reativas às exigências de acessibilidade, mas como entidades propositivas na definição de políticas públicas informacionais. O seu compromisso com a inclusão deve estender-se à esfera normativa e pedagógica, influenciando positivamente a regulação, o desenho universal dos serviços digitais e a formação de uma cultura informacional centrada na justiça cognitiva.

Finalmente, o futuro da acessibilidade digital em bibliotecas acadêmicas depende da capacidade destas instituições de integrar criticamente as tecnologias emergentes com uma visão humanizada e participativa da inclusão (Beyene; Mekonnen; Giannoumis, 2020; Brunskill; Gilbert, 2023; Zondi et al., 2024). Essa integração não poderá ocorrer de forma automatizada ou tecnocrática, mas sim alicerçada em processos de escuta ativa, avaliação colaborativa e regulação ética robusta.

A Figura 4 sintetiza os diferentes níveis de aplicação da IA em bibliotecas acadêmicas, organizando-os em uma escala que vai das soluções mais operacionais até os impactos estratégicos e institucionais. No nível operacional, observam-se ferramentas que apoiam atividades rotineiras, como chatbots de atendimento e sistemas de recomendação. No nível tático, destacam-se aplicações que otimizam processos de gestão e curadoria digital, incluindo classificação automática de conteúdos e indexação assistida. Finalmente, no nível estratégico, a IA é compreendida como um agente de transformação institucional, capaz de influenciar políticas de inclusão digital, projetos de acessibilidade e processos de formação de usuários e profissionais. Esta estrutura evidencia que a adoção da IA não se limita à dimensão técnica, mas implica um redesenho organizacional que articula tecnologia, políticas institucionais e práticas pedagógicas.

Figura 4
Níveis de aplicação da inteligência artificial para a acessibilidade em bibliotecas acadêmicas

6 CONCLUSÃO

A IA emerge, no contexto das bibliotecas acadêmicas, como uma força catalisadora na transformação dos serviços informacionais, com impacto direto sobre a acessibilidade e a inclusão digital. A revisão sistemática da literatura e os resultados analisados neste estudo revelam uma paisagem marcada por avanços significativos, mas também por desafios persistentes de natureza técnica, ética e institucional.

A adoção de tecnologias baseadas em IA tem demonstrado potencial para personalizar experiências, ampliar o acesso à informação e reduzir barreiras enfrentadas por usuários com deficiência. No entanto, a concretização desse potencial depende de fatores críticos como a alfabetização em IA dos profissionais da informação, a existência de políticas institucionais orientadas pela inclusão, e uma infraestrutura técnica e uma ética que suporte decisões conscientes.

Neste sentido, conclui-se que as bibliotecas acadêmicas devem assumir um papel proativo na construção de ecossistemas informacionais inclusivos, adotando uma abordagem transversal que envolva formação crítica, desenvolvimento participativo de tecnologias e regulação ética robusta. A promoção de acessibilidade através da IA não deve ser entendida como uma questão meramente tecnológica, mas como um compromisso epistemológico, social e político com a equidade no acesso ao conhecimento.

Em suma, o futuro da inclusão digital nas bibliotecas acadêmicas exige uma articulação consciente entre inovação tecnológica, responsabilidade institucional e justiça informacional. Este estudo contribui, assim, para uma compreensão aprofundada e comprometida da forma como a IA pode e deve ser mobilizada para transformar bibliotecas em espaços verdadeiramente acessíveis, participativos e democráticos.

Reconhecimentos:

Não aplicável.

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  • Financiamento:
    Não aplicável.
  • Aprovação ética:
    Não aplicável.
  • Disponibilidade de dados e material:
    Não aplicável.
  • Imagem:
    Extraída da plataforma CIENCIAVITAE.
  • JITA:
    LP. Intelligent agents | Artificial inteligence.
  • ODS:
    10. Redução das desigualdades

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Não aplicável.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Jul 2025
  • Aceito
    02 Set 2025
  • Publicado
    07 Out 2025
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