RESUMO
Introdução: A biblioterapia é compreendida como uma prática interdisciplinar que utiliza a leitura para fins terapêuticos e para a promoção do bem-estar, sendo o bibliotecário um possível mediador desse processo. No Brasil, a região Nordeste conta com dez cursos presenciais de Biblioteconomia, abrangendo todos os estados da região.
Objetivo: O trabalho investigou como a biblioterapia é abordada nos currículos dos cursos presenciais de Biblioteconomia das universidades do Nordeste do Brasil. Especificamente, buscou-se identificar os cursos que incluem a biblioterapia em suas matrizes curriculares; analisar disciplinas, conteúdos e metodologias; verificar de carga horária e abordagem teórica e/ou prática, bem como apontar os desafios e as oportunidades para o fortalecimento do ensino de biblioterapia.
Metodologia: Trata-se de uma pesquisa de natureza exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa e quantitativa, que analisou os sites e documentos de dez universidades da região.
Resultados: Os resultados indicam que apenas três cursos apresentam disciplinas com conteúdos relacionados à biblioterapia e à informação terapêutica. O estudo revela uma presença incipiente da temática na formação do bibliotecário, o que pode estar relacionado a currículos tradicionais e ao número reduzido de docentes especializados.
Conclusão: Conclui-se que é essencial a atualização regular dos currículos dos cursos de Biblioteconomia, com a inclusão de disciplinas que explorem práticas integrativas, como a biblioterapia. Salienta-se, ainda a relevância do fomento de pesquisas e ações de extensão que fortaleçam o conhecimento e a prática da biblioterapia no âmbito acadêmico e profissional, preparando os futuros bibliotecários para atuar como agentes de cuidado e transformação social.
PALAVRAS-CHAVE:
Biblioterapia; Biblioteconomia; Ensino Superior
ABSTRACT
Introduction: Bibliotherapy is understood as an interdisciplinary practice that uses reading for therapeutic purposes and to promote well-being, with the librarian acting as a possible mediator in this process. In Brazil, the Northeast region has ten on-site Library Science programs, covering all states in the region.
Objective: This study investigated how bibliotherapy is addressed in the curricula of on-site Library Science programs at universities in Northeast Brazil. Specifically, it sought to identify the programs that include bibliotherapy in their curricula; analyze subjects, content, and methodologies; verify the workload and theoretical and/or practical approach, as well as point out the challenges and opportunities for strengthening the teaching of bibliotherapy.
Methodology: This is an exploratory and descriptive study, with a qualitative and quantitative approach, which analyzed the websites and documents of ten universities in the region.
Results: The results indicate that only three programs have courses with content related to bibliotherapy and therapeutic information. The study reveals an incipient presence of the theme in librarian training, which may be related to traditional curricula and the reduced number of specialized professors.
Conclusion: It is concluded that regular updating of Library Science program curricula is essential, with the inclusion of courses that explore integrative practices, such as bibliotherapy. Furthermore, the importance of promoting research and outreach activities that strengthen the knowledge and practice of bibliotherapy in the academic and professional spheres is highlighted, preparing future librarians to act as agents of care and social transformation.
KEYWORDS:
Bibliotherapy; Library Science; Higher Education
1 INTRODUÇÃO
A Biblioterapia é uma prática que utiliza a leitura e os comentários como instrumentos de promoção de bem-estar, autoconhecimento e transformação emocional e cura. O emprego da literatura de forma intencional e orientada atua como recurso terapêutico e educativo em diferentes espaços como escolas, bibliotecas e hospitais entre outros.
Cabe mencionar que a biblioterapia não substitui tratamentos clínicos, mas contribui para o fortalecimento emocional, por meio da escuta sensível, promovendo reflexões e oferecendo alívio em situações de sofrimento.
Neste cenário, o bibliotecário emerge, especialmente em razão de sua formação, como profissional dotado de competências e habilidades para mediação desse processo. Diante dessas considerações iniciais questionou-se: como a biblioterapia é abordada nos currículos dos cursos presenciais de biblioteconomia das universidades do Nordeste do Brasil?
Assim, o objetivo geral desta pesquisa é investigar como a biblioterapia é abordada nos currículos dos cursos presenciais de biblioteconomia das universidades do Nordeste do Brasil. Para atingir esse objetivo foram definidos os seguintes objetivos específicos: a) identificar os cursos presenciais de biblioteconomia ofertados na região Nordeste que possuem biblioterapia em seus currículos; b) analisar disciplinas, conteúdos e metodologias relacionadas à biblioterapia nos cursos analisados; c) verificar carga horária e abordagem teórica e/ou prática dedicada a biblioterapia nas grades curriculares e d) Apontar os desafios e oportunidades para o fortalecimento do ensino de biblioterapia nos cursos de biblioteconomia.
Este estudo se justifica não apenas pelo incipiente crescimento da discussão teórica no campo acadêmico, mas também pela necessidade de conhecer o potencial dessas discussões na formação acadêmica do futuro bibliotecário, visto que a biblioterapia é uma prática que utiliza leitura, audiovisual, imagens e as discussões sobre as impressões geradas como instrumento para transformação emocional individual ou coletiva. Essa ação tem se mostrado útil em contextos de vulnerabilidade social, emocional e psicológica.
Nesse sentido, o bibliotecário é o profissional que se destaca com potencial para atuar como mediador; entretanto, a presença da biblioterapia na formação desse profissional ainda é incipiente e varia conforme a instituição e região do país. Na região Nordeste (NE), marcada por desigualdades sociais e rica em diversidade cultural, é importante compreender os desafios e as oportunidades para a formação do bibliotecário, bem como contribuir para o fortalecimento curricular da área e a valorização do profissional.
O presente trabalho é constituído por seis seções. A primeira apresenta contextualização da temática estudada, o problema de pesquisa, os objetivos geral e específicos, além da justificativa do estudo. A segunda e terceira seções contemplam os constructos teóricos: a segunda traz um breve histórico do ensino da biblioteconomia no Brasil, e a terceira discute alguns aplicações e conceitos relacionados à biblioterapia. A quarta seção descreve o percurso metodológico adotado, enquanto quinta dedica-se à análise e discussão dos resultados obtidos. Finaliza-se a sexta seção, que reúne as considerações finais acerca da pesquisa.
2 ENSINO DA BIBLIOTECONOMIA NO BRASIL: UM BREVE HISTÓRICO
O ensino da Biblioteconomia no Brasil está completando 110 anos, apesar do seu funcionamento ser oficializado em 1911, o primeiro curso foi iniciado apenas em 10 de abril de 1915, no Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional (BN), sendo o primeiro da América Latina e o terceiro no mundo. O curso tinha influência francesa e caráter humanista; foi criado com o intuito de aperfeiçoar dos funcionários, mas despertou o interesse e, com o passar dos anos, teve um número elevado de alunos. Em 1969, foi transferido para Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara (FEFIEG) e, atualmente, integra a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) (Pinheiro; Cataldo; Guerrero, 2015).
Já em 1929, o segundo curso de Biblioteconomia foi criado em São Paulo, no Instituto Mackenzie, seguindo o modelo americano, de cunho tecnicista. Em 1935, as atividades foram interrompidas, e um novo curso foi criado pela prefeitura de São Paulo, que, em 1940, passou a funcionar como Escola de Biblioteconomia na Escola Livre de Sociologia e Política (Pinheiro; Cataldo; Guerrero, 2015).
No Nordeste, o estado pioneiro foi a Bahia, o curso de Biblioteconomia foi instituído em 12 de março de 19421; esse foi o terceiro criado no Brasil e o primeiro fora da região Sudeste. Funcionava na Escola de Biblioteconomia da Bahia e, com a expansão universitária promovida na segunda metade do século XX, que propiciou o fortalecimento das instituições públicas de ensino superior, foi integrado, em 19542, à Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde permanece em atividade até a atualidade.
A partir de então, outros cursos surgiram na região. Em 1950, o curso de Biblioteconomia foi iniciado junto à Faculdade de Direito da Universidade do Recife e, atualmente funciona na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) (Universidade Federal de Pernambuco, 2018).
Em 19653, na cidade de Fortaleza, passou a funcionar mais um curso, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Seguido pelas Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que tiveram os cursos instituídos no ano de 19694.
As graduações foram criadas com a pretensão de atender às demandas de formação e qualificação de profissionais para atuarem em bibliotecas e demais unidades de informação, sendo fundamentais para a consolidação da área na região.
Após as criações desses cursos, houve um longo intervalo de aproximadamente 15 anos para implantação de novos cursos em instituições particulares e 30 anos para instituições públicas.
De acordo com Souza, Andrade e Souza (2019), em 1984, no estado de Sergipe, as Faculdades Integradas Tiradentes (FITS), atualmente Universidades Tiradentes, considerada a segunda universidade privada do Nordeste, obteve autorização para funcionamento do primeiro curso de biblioteconomia no estado. Devido à severa queda no número de interessados, o curso teve sua última turma ingressante em 1994. Vale ressaltar que, após um intervalo de 15 anos, o estado retornará ao cenário do ensino-aprendizagem em Biblioteconomia no Brasil.
Na esfera pública, o período de pausa foi interrompido pelo estabelecimento de mais um curso, desta vez na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que foi implementado através da Resolução 002/19965. Entretanto, consta na página do e-Mec que o curso foi iniciado no ano de 1997. Em seguida, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) instituiu o curso de Biblioteconomia, o primeiro do estado, em 19996.
Em 2003, 2006 e 20097, respectivamente, as Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Universidade Federal do Cariri (UFCA) e Universidade Federal de Sergipe (UFS) passaram a ofertar a graduação em Biblioteconomia, ampliando a cobertura de formação do profissional da informação, com presença estabelecida em todos os estados do Nordeste e tornando-se, assim, “a segunda região com maior índice de cursos ofertados em todo o território nacional” (Nascimento; Ferreira e Martins, 2017, p.12).
Diante deste breve histórico, é possível verificar que a evolução do ensino da Biblioteconomia é dividida em fases. Segundo Tanus (2018), esses ciclos foram marcados por etapas que perpassam por influências europeias e americanas; pelo deslocamento do objeto de estudo do livro para a informação; pela ampliação dos cursos de pós-graduação; pelo advento das tecnologias; pelo fim do currículo mínimo e pela aproximação com a Arquivologia e a Museologia.
3 BIBLIOTERAPIA: ALGUNS CONCEITOS E APLICAÇÕES
A palavra biblioterapia é formada por dois vocábulos: biblio (livros) e terapia (tratamento), que é definida pelo dicionário como “emprego de leituras selecionadas como adjuvantes terapêuticos no tratamento de desordens nervosas” (BIBLIOTERAPIA, 2025). A simples junção desses termos denota o significado de terapia através dos livros; no entanto, Ouaknin (1996, p. 11), reconhecido como um dos principais teóricos da temática, adverte que, embora tal conceito aparente simplicidade, envolve “questões complexas” relacionadas ao livro, à leitura, à doença, à terapia e ao processo de cura.
A biblioterapia é uma prática interdisciplinar, que compreende o uso terapêutico da leitura para promover o bem-estar. De acordo com Shrodes (1949 apud Caldin, 2001, p. 34), trata-se de “um processo dinâmico de interação entre a personalidade do leitor e a literatura imaginativa, que pode atrair as emoções do leitor e liberá-las para o uso consciente e produtivo”.
Esse caráter dinâmico da leitura terapêutica possibilita reinterpretações e revela novas perspectivas a cada interação. Ao dialogar com diferentes contextos da vida, o texto favorece a ressignificação de experiências e contribui para o fortalecimento do indivíduo em questões emocionais, existenciais e sociais. Tais aspectos evidenciam que a biblioterapia configura-se como uma prática eficaz e transformadora. Nesse sentido, Pinheiro e Ramires (2020, p. 155) afirmam que:
[...] a biblioterapia é uma atividade na qual utiliza a leitura como auxílio no tratamento de pessoas com problemas físico, mental, social, emocional, educacional, sem distinção de faixa etária. Podendo ser aplicada em escolas, creches, asilos, hospitais, presídios, orfanatos, entre outros locais. Um dos objetivos da biblioterapia é proporcionar momentos de descontração e lazer, criando um vínculo/diálogo entre leitor e ouvinte, fazendo com que estes se sintam parte da história.
Com base nos estudos de Shrodes, Caldin (2001, p. 36, 37) elaborou o conceito de biblioterapia como um processo de “leitura dirigida e discussão em grupo, que favorece a interação entre as pessoas, levando-as a expressarem seus sentimentos: os receios, as angústias e os anseios”. Para a autora, a eficácia terapêutica da biblioterapia decorre da promoção de “componentes biblioterapêuticos”, tais como a catarse, a identificação (pela projeção e introjeção), a introspecção e o humor, os quais se manifestam a partir da imaginação, reflexão e da modulação das emoções.
A leitura tem o poder de ser utilizada como um instrumento de cuidado, escuta e ressignificação de experiências. Para Ouaknin (1996, p. 21):
A leitura biblioterapêutica é uma operação que restitui a vida, o movimento e o tempo no coração mesmo das palavras; é assim que ela as constitui como as obras de arte e as subtrai aos riscos do ídolo. Aqui as palavras não são mais finalizadas pelo sentido, mas pelos sentidos. A leitura quebra a instância do sentido e todos os elementos do texto, as palavras, as sílabas, as consoantes, as vogais, respondem e se falam entre si.
As discussões acerca da biblioterapia a compreendem a partir das seguintes categorias: institucional, clínica e de desenvolvimento. Segundo Grieger e Pizarro (2023), enquanto a biblioterapia institucional geralmente é direcionada para problemas de comportamento, sendo promovida por uma instituição e mediada por profissionais da educação ou da saúde; a clínica visa o tratamento clínico para alívio de sintomas emocionais ou psicológicos, realizada por profissionais da saúde mental; já biblioterapia de desenvolvimento, que é abordada neste estudo, busca auxiliar questões de crescimento emocional, social e pessoal e pode ser aplicada por bibliotecários, pedagogos e professores. Assim, “independentemente da tipologia da prática da Biblioterapia, é possível perceber que esse procedimento proporciona diversas experiências ao leitor e ao ouvinte” (Leite, 2019, p. 49).
Paulo Freire (2001), em Pedagogia do oprimido, apresenta a educação como um processo de desenvolvimento humano e libertação social, no qual a prática do diálogo entre educador e educando possibilita a construção compartilhada do conhecimento. Esse encontro de saberes faz da educação um instrumento de humanização, capaz de estimular o questionamento crítico e, por conseguinte, a transformação da realidade.
Para Sousa (2018, p. 370), a inserção do ensino da biblioterapia nos cursos de Biblioteconomia favorece “o despertar da humanização no sentido pessoal dos futuros bibliotecários, [...] na esfera do coletivo, contribuindo para uma sociedade mais humana a partir do exercício da empatia, do afeto e da escuta”.
Nesse contexto, a implementação da disciplina biblioterapia nos cursos de graduação em Biblioteconomia constitui-se como uma estratégia formativa de cunho humanístico, ao ampliar o campo de atuação do bibliotecário e promover o desenvolvimento de competências sensíveis, como a escuta e o diálogo essenciais à prática biblioterapêutica.
4 METODOLOGIA
A metodologia apresenta o roteiro a ser trilhado na condução da pesquisa. De acordo com Carvalho (2012), ela proporciona perspectivas para a análise crítica da ciência, além de recomendar critérios que possibilitem a avaliação dos resultados científicos.
Este estudo do ponto de vista dos objetivos, caracteriza-se como uma pesquisa exploratória e descritiva, pois visa detalhar, dar ênfase e aprofundar o conhecimento sobre o tema. Gil (2010, p. 27) afirma que a intenção desse tipo de pesquisa é “[...] proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito [...] [...] e a descrição das características de determinada população”.
Por produzir ações práticas, a natureza do estudo é aplicada. Sob a perspectiva do problema a abordagem é qualitativa e quantitativa, pois trata-se de um conjunto de métodos que possibilita uma compreensão aprofundada do fenômeno estudado. De acordo com Schneider, Fujii e Corazza (2017, p. 582) enquanto o primeiro método apresenta a análise de dados subjetivos, descritivos ou simbólicos, o outro trabalha com a análise em dados numéricos. Assim, as abordagens qualitativas e quantitativas propiciam “o enriquecimento da investigação, via complementaridade na análise dos objetos de estudo”.
Para delinear a pesquisa quanto aos procedimentos técnicos, foram realizadas: a) pesquisa bibliográfica na Base de Dados em Ciência da Informação (Brapci) e na Base Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), para levantamento, leitura e fichamento de publicações que tratem dos temas abordados, a fim de fornecer embasamento teórico e compressão das práticas; e b) pesquisa documental nos sites dos cursos de Biblioteconomia.
O universo da pesquisa compreende os cursos presenciais de Biblioteconomia do Nordeste (NE) do Brasil (sites e grades curriculares).
De acordo com Marconi e Lakatos (2010, p. 151), “a importância dos dados está não em si mesmos, mas em proporcionarem respostas às investigações”. Portanto, a coleta de dados foi realizada conforme as etapas descritas a seguir: 1) consulta no site e-Mec para identificação dos cursos presenciais da região NE do Brasil; 2) consulta ao site dos cursos para levantamento das grades curriculares e ementas; 3) transferência dos dados para planilha eletrônica; 4) análise quantitativa dos dados recuperados. Os resultados decorrentes da aplicação dos procedimentos apresentados são discutidos na seção seguinte, com o intuito de gerar contribuições de caráter prático.
5 ANÁLISES E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Nesta seção, serão apresentados os resultados e as análises do levantamento realizado. Inicialmente foi realizada uma consulta das universidades no e-Mec - Sistema de Regulação do Ensino Superior8, para identificar as universidades do Nordeste do Brasil que possuíam curso presencial em Biblioteconomia em situação ativa, tendo sido encontrado dez (10) cursos, conforme demonstrado no Quadro 1.
Dando seguimento ao percurso metodológico para o mapeamento dos cursos, realizouse o levantamento das grades curriculares, ementas e Projeto Pedagógico de Curso (PPC) dos cursos, por meio de consulta ao site das referidas instituições. No entanto devido a problemas como sites indisponíveis, páginas com links desabilitados e inconsistências em dados e documentos, foi necessário buscar os documentos nos sites dos Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA) das instituições.
Dessa forma, realizou-se a busca nos documentos supracitados das disciplinas e suas respectivas descrições, considerando conteúdos que abordassem os conceitos e práticas da biblioterapia ou que tivessem relação com a temática. Por isso, foram analisadas não apenas as disciplinas que continham a nomenclatura biblioterapia explicitamente, mas também aquelas relacionadas à informação terapêutica, como: mediação da informação, mediação e leitura, contação de história, projetos de extensão e atividades extracurriculares.
Após a análise das informações, pode-se constatar que, das dez (10) graduações em Biblioteconomia no NE, apenas três (3) cursos, o equivalente a 30%, apresentaram disciplinas com conteúdo voltado para à biblioterapia ou à informação terapêutica, conforme dados apresentados na Tabela 1 e ilustrados no Gráfico 1.
O Quadro 2 apresenta o detalhamento das informações coletadas referentes às disciplinas relacionadas à biblioterapia, contendo a nomenclatura, a carga horária, o tipo que foi atribuída e a universidade da qual faz parte.
Os dados levantados neste estudo evidenciam que a biblioterapia ainda é pouco explorada no ensino superior da região NE. Essa escassez da disciplina pode estar relacionada a diversos fatores, como o desconhecimento da prática, a falta de especialização do corpo docente e a pouca produção acadêmica local. Vale salientar que a temática necessita de maior divulgação entre docentes e pesquisadores para ampliar a visibilidade do papel social da biblioteconomia.
Pode-se também observar que muitos currículos se mantêm centrados em estruturas mais tradicionais e que a abordagem humanística e interdisciplinar da biblioterapia parece ser vista como complementar. Essa constatação evidencia a presença de uma lacuna na formação do bibliotecário, especialmente no que se refere às práticas integrativas e interdisciplinares que envolvem o uso terapêutico da informação e da leitura. Além disso, corrobora os dados apresentados por Sousa (2018) ao indicar que a predominância do caráter tecnicista nos cursos de biblioteconomia contribui para a limitada inserção dessa temática em sala de aula pelos docentes.
Em contrapartida, a existência de disciplinas em algumas instituições demonstra uma renovação do campo, o que pode indicar uma movimentação para promoção de uma biblioteconomia socialmente comprometida, voltada para a mediação da informação terapêutica, contribuindo, assim, para a expansão do papel do bibliotecário enquanto agente de cuidado, escuta e transformação social. Nessa perspectiva, Sousa (2018, p. 369) salienta a relevância de considerar a diversidade humana na “educação e formação professional”, preservando o que é sensível e humanístico, em vez de priorizar apenas a técnica e as demandas do mercado.
6 CONCLUSÃO
A análise dos cursos presenciais de graduação em Biblioteconomia ofertados por universidades do NE brasileiro demonstrou uma presença incipiente da biblioterapia como componente das matrizes curriculares desses cursos.
A constatação de que apenas três (3) das dez (10) instituições pesquisadas abordam o uso terapêutico da leitura e da informação aponta para uma lacuna na formação dos futuros bibliotecários. Prováveis fatores que contribuem para tal brecha são a prevalência de currículos tradicionais, atrelada à escassez de docentes especializados.
Assim, os cursos que incorporam a temática em seus projetos pedagógicos indicam uma perspectiva de avanço, na qual a Biblioteconomia demonstra constante ampliação do seu campo de atuação e maior sensibilidade às questões sociais. Nesse sentido, a importância da inclusão da biblioterapia nos cursos decorre tanto de uma demanda social relacionada à saúde mental quanto da oportunidade de um novo campo de atuação da pessoa bibliotecária.
Dessa forma, esse estudo reforça a importância da atualização contínua dos currículos dos cursos de Biblioteconomia, com vistas à inclusão de disciplinas que explorem práticas integrativas como a biblioterapia. Ademais, ressalta-se a necessidade de fomentar pesquisas e ações de extensão que fortaleçam o conhecimento e a prática da biblioterapia no âmbito acadêmico e profissional, preparando os futuros bibliotecários para atuar como agentes de cuidado, escuta e transformação social.
Reconhecimentos:
Não aplicável.
REFERÊNCIAS
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Financiamento:
Não aplicável.
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Aprovação ética:
Não aplicável.
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Disponibilidade de dados e material:
Não aplicável.
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Imagem:
Extraída da plataforma Lattes.
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JITA:
CH. Bibliotherapy
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ODS:
3. Saúde e bem-estar
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Editado por
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Editor:
Gildenir Carolino Santos https://orcid.org/0000-0002-4375-6815
Não aplicável.




Fonte: Elaborado pelas próprias autoras. Descrição: O 
