Open-access O disclosure de escândalos socioambientais e a reputação corporativa

RESUMO

Esta pesquisa teve por objetivo investigar o uso da neutralização no disclosure de escândalos socioambientais e sua relação com a reputação corporativa. Não foram identificados estudos que fizessem a observação das estratégias e motivações do disclosure socioambiental a partir de uma lente teórica como a literatura sobre técnicas de neutralização. Este estudo buscou sua pertinência ao investigar as estratégias de divulgação e de manutenção reputacional utilizadas por empresas envolvidas em escândalos socioambientais nacionais, identificando direcionamentos distintos de neutralização informacional, guiados pela origem de cada caso e pelas motivações empresariais, além de evidenciar achados empíricos que estimulam o avanço de pesquisas sobre técnicas de neutralização nos relatórios corporativos. Almeja-se auxiliar estudantes e pesquisadores fornecendo novas evidências para os processos corporativos que envolvam estratégias de divulgação socioambiental e gerenciamento reputacional. Bem como contribuir para que os stakeholders compreendam melhor e de maneira fundamentada as informações voluntárias socioambientais, buscando a qualificação da tomada de decisão. Foram analisadas as corporações envolvidas nos principais escândalos socioambientais nacionais, entre os anos de 2014 e 2021. Trata-se de um estudo exploratório e qualiquantitativo, com análise de conteúdo e testes estatísticos para investigação dos escândalos socioambientais. Foram identificadas técnicas de neutralização nas informações de relatórios corporativos voluntários de empresas envolvidas em escândalos socioambientais. Além de verificar uma correlação positiva entre o disclosure neutralizado e a reputação dessas empresas no ano do escândalo e no posterior, verificou-se também um aumento do uso das técnicas após o evento. Espera-se contribuir com a literatura pertinente propondo a inserção de técnicas de neutralização na investigação das estratégias que envolvam a divulgação voluntária e a reputação corporativa. Com a prática, busca-se a construção de uma visão mais crítica a respeito dos relatórios voluntários e os mecanismos empresariais que possam desqualificar as informações contidas neles.

Palavras-chave:
disclosure socioambiental; reputação corporativa; técnicas de neutralização; escândalos socioambientais

ABSTRACT

This research aimed to investigate the use of neutralization of disclosure of socio-environmental scandals and its relationship with corporate reputation. No studies were found observing the strategies and motivations of socio-environmental disclosure from a theoretical lens like the literature on neutralization techniques. This study sought its relevance by investigating the disclosure and reputation maintenance strategies used by companies involved in national socio-environmental scandals, identifying various paths for information neutralization, guided by the origin of each case and business motivations, in addition to highlighting empirical findings that stimulate the advance in research on neutralization techniques in corporate reports. The aim is to assist students and researchers by providing new evidence for corporate processes that involve socio-environmental disclosure strategies and reputational management. As well as contribute to ensuring that stakeholders see voluntary socio-environmental information better and in a well-founded manner, seeking to qualify decision-making. Corporations involved in the main national socio-environmental scandals between 2014 and 2021 were analyzed. This is an exploratory and quali-quantitative study, with content analysis and statistical tests to investigate socio-environmental scandals. Neutralization techniques were identified in information from voluntary corporate reports by companies involved in socio-environmental scandals. In addition to finding a positive correlation between neutralized disclosure and the reputation of these companies in the year the scandal took place and in the year after, there was also an increased use of techniques after the event. We hope to contribute to the literature by proposing the insertion of neutralization techniques in the investigation of strategies involving voluntary disclosure and corporate reputation. With a practical approach, we seek to build a rather critical view regarding voluntary reports and business mechanisms that may disqualify the information contained in them.

Keywords:
socio-environmental disclosure; corporate reputation; neutralization techniques; socio-environmental scandals

1. INTRODUÇÃO

A atenção aos temas de cunho social e ambiental vem sendo mais frequente nas últimas décadas. Como exemplo, em 20 anos houve um aumento de 900% no número de fundos de investimento sustentáveis norte-americanos e um incremento de movimentação de 11.536 bilhões de dólares em ativos líquidos (Eccles et al., 2020). O crescimento do disclosure socioambiental é constatado pelo número de empresas que divulgam relatórios voluntários socioambientais, abrangendo em escala global mais de 15.000 organizações em 2021 (GRI, 2021).

Isso se deve à escalada da demanda por parte de investidores e demais stakeholders em entender não somente as interações empresariais com o meio econômico, mas com o social e ambiental. No Brasil, grande parte dessa divulgação ocorre por meio dos relatórios socioambientais que, além de demonstrar a visão da empresa sobre sustentabilidade, também podem ser uma ferramenta para a manutenção da imagem empresarial (Costa et al., 2018; Oliveira & Cintra, 2019). Muitos estudos na área investigam a relação entre o disclosure socioambiental voluntário e o desempenho econômico-financeiro. Essa linha de estudos é observada tanto no cenário nacional quanto no internacional (Alsaifi et al., 2020; Costa et al., 2018; Degenhart et al., 2017).

Alguns trabalhos, por sua vez, pautam-se pelo entendimento das motivações e estratégias empresariais para a realização da divulgação voluntária, sendo que a reputação corporativa e o gerenciamento de risco reputacional aparecem como motivadores (Ardiana, 2019; Hawn, 2020; Oliveira & Cintra, 2019) e as técnicas de neutralização como mecanismos estratégicos adotados pelas organizações para concretizar o objetivo da empresa apresentar uma boa reputação corporativa perante os stakeholders (Fooks et al., 2013).

Nesse sentido, as técnicas de neutralização são conceituadas como dispositivos cognitivos que buscam justificar, desculpar ou mesmo racionalizar informações negativas, decorrentes de situações que contrariam ou desrespeitam normas sociais ou legais (Fooks et al., 2013) e podem ser observadas em alguns estudos sobre divulgação voluntária. Há pesquisas que buscam observar o disclosure socioambiental como forma de resposta ou justificativa para situações negativas que possam afetar a reputação organizacional, nomeadamente: a autorregulação de setores sensíveis (Fooks et al., 2013); os impactos sobre a biodiversidade (Chassé & Boiral, 2017); e acusações de crimes contra os direitos humanos (Maher et al., 2021).

Dessa maneira, é evidenciada uma nova lente teórica entre os estudos internacionais da área de negócios, a partir da atenção às técnicas de neutralização observadas como estratégias durante o disclosure socioambiental, perspectiva até então não investigada. Com isso, o objetivo deste estudo foi investigar o uso da neutralização no disclosure de escândalos socioambientais e sua relação com a reputação corporativa.

Para alcançar tal objetivo foram analisados os relatórios de corporações envolvidas nos principais escândalos socioambientais nacionais identificados nos dez anos anteriores à pesquisa, que se debruça sobre as técnicas de neutralização a partir da Teoria da Delinquência (Sykes & Matza, 1957), justificando-se, sobretudo, pela ausência de estudos na área contábil que utilizem essa vertente e suas categorias de classificação.

Como contribuições teóricas, busca-se ir além da literatura mainstream sobre o tema disclosure socioambiental. Com tal intuito, este estudo não se pauta apenas pela relação entre divulgação e desempenho econômico (Alsaifi et al., 2020; Degenhart et al., 2017), como ocorre em muitos trabalhos que tratam de disclosure, mas contempla as motivações e estratégias empresariais adotadas para o disclosure, de modo a aprofundar o entendimento sobre o papel da divulgação voluntária na relação entre organizações e stakeholders. Busca-se compreender, sobretudo, como os modos de pensar presentes nas justificativas, desculpas e racionalizações de atos contrários às normas sociais e legais podem moldar e significar os disclosures socioambientais e a reputação corporativa. Quanto à reputação corporativa, este estudo não só observa os benefícios atrelados a ela (Szwajca, 2018), também revela mecanismos adotados no gerenciamento reputacional, pouco explorados pela literatura existente. Adicionalmente, esta pesquisa auxilia na introdução da discussão sobre técnicas de neutralização nos estudos em contabilidade no cenário nacional, assim como avança na crescente investigação sobre o tema no cenário internacional.

Outrossim, as contribuições práticas buscam dar assistência aos investidores e demais stakeholders no desenvolvimento de uma visão mais crítica a respeito do disclosure socioambiental e o gerenciamento reputacional das empresas. A identificação do gerenciamento do disclosure socioambiental por meio dos resultados de estudos anteriores, deste estudo e de futuros estudos pode proporcionar efeito nas práticas de engajamento das partes interessadas nessas informações, que passam a perceber melhor as limitações sobre a responsabilidade social e o disclosure socioambiental, sobretudo no comportamento de agentes corporativos que podem utilizar dispositivos estratégicos para deturpar as informações e reduzir os riscos litigiosos. Espera-se, ainda, alertar organizações e elaboradores de relatórios de cunho socioambiental sobre fatores que possam desqualificar as informações contidas nesses documentos como mecanismos neutralizadores.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Teoria da Divulgação e Disclosure Socioambiental

Estudos anteriores identificaram o potencial da divulgação socioambiental voluntária para as organizações, seja refletido no resultado operacional, no mercado acionário ou na geração de reputação (Degenhart et al., 2017; Luo et al., 2019). Porém, há ressalvas a essa relação positiva quando o disclosure se pauta por temas socioambientais negativos, como a emissão de gases poluentes, posto que causar danos ambientais e sociais demanda gastos e investimentos de reparação que se sobrepõem aos possíveis resultados positivos oriundos desses danos. Assim, o mercado tende a reagir negativamente, prevendo baixo retorno (Alsaifi et al., 2020).

Desse modo, o disclosure voluntário pode ser conceituado como o conjunto de informações divulgadas de modo a buscar favorecer a operação da empresa (Costa et al., 2018). No entanto, a evidenciação implica custos para a organização, sendo por conta da elaboração ou por potenciais efeitos negativos consequentes de sua divulgação. Pensando nisso, o disclosure voluntário necessita de equilíbrio com os possíveis custos associados (Cahan et al., 2016).

A teoria da divulgação explica que disclosure corporativo precisa de certo nível de simetria informacional para gerar valor ao seu usuário de destino (Verrecchia, 1983). Contudo, essa mesma teoria alerta para um aumento do “custo de propriedade” associado à divulgação voluntária de informações negativas, quando comparado com informações positivas (Verrecchia, 1983). A exemplo do que é observado na teoria da divulgação, estudos destacam como empresas internacionais com desempenho socioambiental negativo investem mais em disclosure voluntário e tem maior custo associado à divulgação (Aragón-Correa et al., 2016).

Contudo, achados como os de Martínez-Ferrero et al. (2019) demonstram como o aumento do disclosure socioambiental nem sempre está associado a informações simétricas e claras, podendo em alguns casos ocorrer a suavização de informações não favoráveis à empresa. Ademais, esses mecanismos corporativos de suavização podem ser observados nos relatórios em diversos aspectos, não somente nas informações textuais, mas na forma de apresentação de ilustrações (García-Sánchez, & Araújo-Bernardo, 2020).

A partir disso, pesquisas investigam a atenuação dos malefícios associados ao disclosure negativo a partir do gerenciamento de impressão e do risco reputacional e as técnicas de neutralização como ferramentas desse gerenciamento (Oliveira & Cintra, 2019; Talbot & Boiral, 2018). No entanto, cabe destacar que foram utilizadas nesta pesquisa técnicas de neutralização a partir da Teoria da Delinquência (Sykes & Matza, 1957), como em Fooks et al. (2013). Desse modo, compreende-se como necessária a observação das decorrências que as informações socioambientais negativas podem ter sobre a reputação corporativa e os mecanismos adotados para o gerenciamento dessa associação.

2.2 Reputação Corporativa

A reputação corporativa funciona como uma espécie de ativo intangível para as organizações. Ela pode ser desenvolvida a partir de interações favoráveis com o meio social, ambiental, econômico e político. Assim, a boa imagem reputacional está associada a diversos fatores positivos, como os relacionados ao desempenho financeiro, mas também pode auxiliar na manutenção do valor econômico das empresas em situações críticas, prevenindo possíveis perdas por casos negativos (Godfrey, 2005; Patten, 2008).

A reputação corporativa possibilita uma vantagem estratégica para a entidade ao permitir que ela se apresente favoravelmente aos diversos interessados (sejam eles internos ou externos) a partir de suas ações e resultados passados (Arora & Lodhia, 2017).

Apesar dos benefícios identificados na reputação corporativa, estudos como Muller e Kräussl (2011) destacam a complexidade de contornar históricos de más ações no processo de construção ou reparação reputacional. Além disso, apontam como empresas com baixa reputação corporativa tendem a ser mais ativas em suas interações com o meio socioambiental em períodos de crise. Desse modo, destaca-se o ativo reputacional no gerenciamento de riscos, funcionando não somente como um seguro para o valor econômico, mas também na recuperação econômica de empresas afetadas por eventos danosos (Xia et al., 2019). Salienta-se que se compreende o risco reputacional como o fato da empresa conviver com fatores (sejam eles internos ou externos) que podem trazer prejuízos à reputação da empresa (Gonçalves et al., 2013).

A mensuração da reputação empresarial e do risco reputacional é algo trabalhoso, apesar de importante para as organizações (Eckert, 2017; Oliveira & Cintra, 2019). Os estudos anteriores se pautaram pela investigação de formas de qualificar e administrar a imagem corporativa, seja por práticas de responsabilidade social que estão associadas positivamente ao aumento da reputação (Sirly & Lvina, 2019) ou pelo gerenciamento de stakeholders mediante divulgações socioambientais, com o objetivo de evitar possíveis sanções sociais, aumentar a participação de mercado e controlar possíveis ameaças atreladas à reputação (Ardiana, 2019).

A literatura aponta uma relação positiva entre o porte da empresa e a preocupação com o risco reputacional (Szwajca, 2018). Além disso, são levantadas questões sobre a subjetividade inerente à reputação de uma organização, uma vez que ela é construída a partir da percepção de seus stakeholders, podendo o número destes variar conforme o porte e o setor empresarial (Szwajca, 2018). Nesse sentido, estudos recentes verificaram a utilização de sistemas de gerenciamento de risco usuais para outros tipos de riscos operacionais e a influência do comitê de auditoria independente no processo de preservação reputacional (Cornejo et al., 2019).

Ademais, em relação às informações negativas, como aquelas relacionadas a uma crise, achados de estudos anteriores demonstram como a reputação corporativa é menos afetada ou mais bem gerenciada quando a organização se pronuncia ou busca justificar suas ações. Em contrapartida, a ausência de resposta pode criar uma percepção negativa por parte dos usuários da informação em relação à empresa (Nazione & Perrault, 2019). Além disso, as respostas empresariais podem ser mais bem aceitas quando não buscam negar de maneira hostil a responsabilidade, mas justificar por meio de explicações e desculpas racionais e com base em planos de solução (Koch et al., 2019; Theiss et al., 2022).

2.3 Técnicas de Neutralização Oriundas da Teoria da Delinquência

A literatura sobre técnicas de neutralização é derivada da Teoria da Delinquência, proposta por Sykes e Matza (1957) e ampliada por Minor (1981), que originalmente estudavam como jovens delinquentes justificam suas ações desviantes da conduta moral e legal. As técnicas levantadas pelos dois estudos são apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Técnicas de neutralização

A literatura apresenta a perspectiva do comportamento do cliente, como em Fukukawa et al. (2019), onde se destaca a divergência entre as atitudes que os atores sociais defendem. Nesse trabalho, as ações que eles de fato praticam são explicadas por uma racionalização da tomada de decisão, utilizando meios convenientes de neutralização. No cenário de ética profissional, como o de segurança da informação, as técnicas de neutralização apareceram como fator determinante para violações de políticas de segurança da informação (Vance et al., 2020). No entanto, com relação a temas que têm maior apelo coletivo, como mudanças climáticas ou consumo sustentável, estudos identificam uma redução no nível de contra-argumentação (menor uso de neutralização) por parte dos consumidores (Lasarov et al., 2019).

No campo dos estudos organizacionais, as técnicas foram aprimoradas para investigar as empresas como atores principais da ação delinquente, não mais entendendo a neutralização como possível dispositivo cognitivo, mas como estratégia corporativa (Fooks et al., 2013; Meyer & Höllerer, 2016). Assim, novas técnicas de neutralização surgiram no contexto empresarial, a partir de Fooks et al. (2013) (Tabela 2).

Tabela 2
Técnicas de neutralização para o cenário corporativo

A adoção das técnicas de neutralização ainda é limitada nos estudos da área de negócios. Os trabalhos nacionais sobre o tema são escassos, contudo, alguns artigos internacionais foram levantados (Tabela 3).

Tabela 3
Estudos anteriores sobre técnicas de neutralização

Os trabalhos correlatos expostos convergem com ideias apresentadas neste estudo, como a presença das técnicas de neutralização na interação entre corporação e stakeholder, inclusive na abordagem de temas socioambientais. Contudo, os artigos encontrados têm como norte a investigação das técnicas de neutralização sob a perspectiva da legitimidade, ou seja, identificaram a utilização da neutralização como forma de promover a legitimação de suas atividades, não tendo sido encontrados estudos que relacionassem o uso das técnicas de neutralização com a reputação corporativa, ou seja, o uso das técnicas como mecanismo estratégico do gerenciamento reputacional.

2.4 Construção das Hipóteses

Como observado por Koch et al. (2019) e por Blanc et al. (2019), as organizações buscam mecanismos para a manutenção de sua imagem quando se encontram diante de um evento crítico, podendo tais mecanismos ser utilizados como justificativas que visam a racionalizar as atitudes empresariais (Boiral, 2016; Fooks et al., 2013). Além disso, estudos anteriores identificaram como a divulgação socioambiental voluntária (ou seja, a divulgação no cenário social e no cenário ambiental sem separação por origem de escândalo) pode estar correlacionada com a imagem reputacional da empresa (Etxeberria, & Odriozola, 2018). Assim, levanta-se a hipótese estatística H1:

H1: Há uma correlação positiva entre o disclosure socioambiental neutralizado e a reputação corporativa.

As técnicas de neutralização já foram identificadas na literatura tanto no cenário social, por meio da observação de justificativas para crimes contra os Direitos Humanos (Maher et al., 2021), quanto no cenário ambiental, com uso de neutralização em relatórios climáticos (Talbot & Boiral, 2018). Desse modo, os estudos anteriores dão alicerce para uma observação da relação reputação-neutralização separada por origem de escândalo (entre social e ambiental), sendo elaboradas as hipóteses H2 e H3:

H2: Há uma associação significativa entre o disclosure neutralizado de escândalos sociais e a reputação corporativa.

H3: Há uma associação significativa entre o disclosure neutralizado de escândalos ambientais e a reputação corporativa.

Além disso, Lasarov et al. (2019) identificaram como a neutralização de assuntos ambientais que têm apelo popular pode ser menos eficiente e, assim, menos usual nas organizações, fazendo com que a utilização das técnicas seja maior no âmbito de escândalos sociais. Assim, a hipótese H4 é destacada:

H4: A proporção de neutralização do disclosure de escândalos social é maior do que a proporção de neutralização do disclosure de escândalos ambientais.

Ainda, os estudos anteriores observaram como empresas que compõem setores econômicos sensíveis, como a mineração ou gás e petróleo, podem apresentar maior frequência de uso de neutralização em seus relatórios voluntários (Fooks et al., 2013). Contudo, em uma situação negativa, como em um escândalo socioambiental, as empresas buscam meios para manter ou recuperar sua reputação (Muller & Kräussl, 2011) e, assim, o nível de neutralização pode aumentar após esse evento. Cabe salientar que as empresas podem manter o costume do uso das técnicas de neutralização ou mesmo iniciar seu uso para justificar, desculpar-se ou racionalizar o comportamento antes do escândalo acontecer (p. ex., começar a justificar a emissão de poluentes antes mesmo que esses poluentes provoquem um dano ambiental em grande escala). Desse modo, levanta-se a hipótese estatística H5.

H5: O uso de neutralização em escândalos socioambientais é maior após o evento.

Com isso, a partir do embasamento teórico levantado na seção de fundamentação teórica, confirma-se a problemática exposta neste estudo e a necessidade de investigar a possível neutralização do disclosure socioambiental negativo e sua relação com a reputação corporativa, podendo contribuir com a literatura contábil e as práticas organizacionais da área.

3. METODOLOGIA

3.1 Tipo de Pesquisa e Apresentação dos Casos

Para atingir o objetivo deste estudo, adotou-se uma abordagem dedutiva, além de pesquisa exploratória. E trata-se de uma abordagem qualiquantitativa, uma vez que tanto a análise de conteúdo interpretativa quanto os testes empíricos se mostram necessários.

A população observada consiste em corporações envolvidas nos principais escândalos socioambientais nacionais, identificados nos 10 anos anteriores à pesquisa, quais sejam: (i) na esfera social, a Operação Lava Jato, entre 2014 e 2021 (Braskem, BTG Pactual, Eletrobras, Gol Linhas Aéreas, Hypera Pharma, JBS, Oi e Petrobras); e (ii) na esfera ambiental, o incêndio no Porto de Santos, em 2015 (Ultracargo), o rompimento da barragem de Mariana, em 2015 (Samarco Mineração) e o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019 (Vale S.A.).

Cabe ressaltar que a divisão dos escândalos em sociais e ambientais foi realizada tendo em vista a origem do escândalo. No caso da Operação Lava Jato, a origem foi uma prática de corrupção, um problema que ocorre quando a riqueza privada e o poder público se sobrepõem, causando declínio no espírito público (Rose-Ackerman, 2006), logo, é encarado como um problema social, pois recursos públicos são desperdiçados com propinas e outras práticas ilícitas em vez de ser empregados em demandas legítimas. Nos casos da esfera ambiental, a origem foram acidentes ambientais, como o rompimento de barragens e incêndios. Compreende-se que ambos os casos (social e ambiental) proporcionaram perdas financeiras, mas se considerou a origem dos escândalos aos olhos dos usuários das informações, ou seja, o deflagrar da corrupção e os acidentes ambientais.

A escolha dos casos se justifica por se tratarem de escândalos corporativos de repercussão nacional e internacional e envolverem problemas relacionados a aspectos econômicos, sociais e ambientais que ferem os princípios do desenvolvimento sustentável. Além disso, os quatro casos têm como participantes empresas de capital aberto, o que demanda interação constante com seus stakeholders por meio de canais oficiais, como os relatórios anuais socioambientais.

3.2 Coleta de Dados

Os dados foram obtidos a partir de relatórios corporativos, como o Relatório Anual de Sustentabilidade, do período atual ao caso, o anterior e o posterior. Esses documentos são coletados via sítio eletrônico da B3, bem como pelo próprio sítio eletrônico oficial de cada empresa. E a adoção de uma pesquisa documental com uso das técnicas de análise de conteúdo (Bardin, 2000) se justifica pela essência textual e discricionária das informações contidas nesses relatórios, além de sua ampla utilização nos estudos organizacionais, como em Boiral (2016), Fooks et al. (2013) e Maher et al. (2021).

Para a coleta de casos de disclosure voluntário nos documentos, procedeu-se à etapa de codificação, levantando palavras-chave que se relacionam com os temas de cada escândalo, com base em análises preliminares e na literatura existente.

Após a identificação de uma palavra-chave, realizou-se o recorte do parágrafo ou da seção em que está inserida. Em seguida, a passagem textual foi transposta para uma planilha eletrônica, onde se realizou a interpretação e categorização do disclosure com base nas ideias centrais de cada passagem. Na etapa seguinte, as 13 técnicas de neutralização levantadas na literatura (Fooks et al., 2013; Minor, 1981; Sykes & Matza, 1957) foram utilizadas como categorias (listadas nas tabelas 1 e 2), cada uma com sua respectiva ideia central. Assim, os casos de disclosure neutralizado identificados foram agrupados por categoria e as passagens em que não foi observada neutralização foram descartadas.

Para observar a correlação entre a neutralização de informações socioambientais e a reputação das empresas envolvidas nos escândalos investigados foram coletados dados secundários de fontes usualmente utilizadas por estudos da área para estimar a reputação corporativa (Góis & Soares, 2019; Lopes et al., 2017; Pinto & Freire, 2020). São essas: (i) o Ranking MERCO Brazil (Pinto & Freire, 2020); (ii) o Ranking Melhores e Maiores, da revista Exame (Lopes et al., 2017; Pinto & Freire, 2020); (iii) o Troféu Transparência, da Anefac e Fipecafi (Góis & Soares, 2019); e (iv) o Índice de Sustentabilidade Empresarial, da B3 (ISE B3) (Pinto & Freire, 2020). Cabe salientar que a mensuração da reputação empresarial é tida como trabalhosa, apesar de importante, para as entidades (Eckert, 2017) e que há controvérsias acerca da proxy mais adequada diante de uma diversidade de possibilidades (Pinto & Freire, 2020). Portanto, compreende-se que possam existir limitações na definição da proxy representativa da reputação corporativa neste estudo, porém, optou-se por definir pelo uso de bases que fossem reconhecidas nacionalmente, com menor possibilidade de viés, e que já houvessem sido utilizadas em estudos anteriores acerca da temática para, assim, alinhar-se ao objetivo desta pesquisa.

3.3 Mensuração dos Dados e Testes Estatísticos

Após a observação interpretativa dos casos de disclosure, constituiu-se um indicador com base na quantificação dos achados, denominado “nível de neutralização”. Para isso, as passagens de texto onde se identificou uso de neutralização foram transformadas em frequência absoluta (total de vezes que a categoria de neutralização surge) e frequência relativa (total de vezes que a categoria de neutralização surge/total de vezes que todas as categorias surgem x 100), sendo a frequência relativa utilizada apenas para o teste de qui-quadrado e a absoluta para os demais.

Para quantificar a reputação corporativa, adotou-se a participação da empresa em cada fonte de reputação utilizada pelo estudo. Desse modo, criou-se um score para cada empresa incluída na população, em que para cada participação em uma das fontes de reputação foi somado 1 ponto, e para cada não participação foi somado 0 ponto (sendo o intervalo mínimo de 0 e máximo de 4 pontos).

Em seguida foi apresentada a sumarização dos achados a partir de estatística descritiva. Vale ressaltar que para todos os testes estatísticos, assim como para as análises dos resultados, foram considerados níveis nominais de significância de 1%, 5% e 10%. E, ainda, como período de análise, foi adotado o ano do escândalo (nomeado “Ano”), o ano anterior ao escândalo (nomeado “Ano -1”) e o posterior ao caso (nomeado “Ano +1”). Desse modo, apesar dos casos observados ocorrerem em períodos distintos, foi possível realizar a padronização do intervalo de análise.

Para observar uma possível correlação entre o disclosure socioambiental neutralizado e a reputação corporativa levantada na hipótese H1, empregou-se o teste de correlação de Spearman. Além disso, atendendo às hipóteses H2 e H3, foram investigados os casos de disclosure neutralizado por meio do teste de Mann-Whitney-Wilcoxon para duas amostras independentes, separados por origem de escândalo (social ou ambiental).

De modo suplementar, adotou-se o teste qui-quadrado com o intuito de verificar a proporção das categorias de neutralização entre os escândalos sociais e ambientais, assim testando a hipótese H4. Ademais, levanta-se a hipótese estatística H5 para verificar o uso da neutralização do disclosure voluntário antes e depois dos escândalos sociais e ambientais, por meio do teste de Wilcoxon pareado.

4. RESULTADOS

4.1 As Técnicas de Neutralização e o Disclosure Voluntário em Cenário Social

As empresas observadas em âmbito social foram aquelas envolvidas na investigação policial intitulada Operação Lava Jato. Esta teve seus desdobramentos entre os anos 2014 e 2021 e envolveu diversas empresas brasileiras de capital aberto. O foco da pesquisa foram as 8 companhias citadas na investigação até sua 37ª fase.

Os mecanismos que emergem da literatura sobre técnicas de neutralização podem ser divididos em duas linhas de interpretação. Enquanto as técnicas apresentadas por Sykes e Matza (1957) e Minor (1981) apresentam o ator delinquente buscando a negação de suas ações, ou do envolvimento na situação negativa, as técnicas introduzidas na área de negócios demonstram como as organizações tentam racionalizar suas atitudes desviantes a partir da afirmação de sua legitimidade operacional (Fooks et al., 2013). A Tabela 4 apresenta os argumentos relativos aos escândalos sociais, encontrados nos relatórios contábeis e codificados para as técnicas de neutralização.

Tabela 4
Codificação das técnicas de neutralização nos argumentos de cenário social nos relatórios das empresas

4.2 As Técnicas de Neutralização e o Disclosure Voluntário em Cenário Ambiental

No contexto ambiental, este estudo buscou o aprofundamento de três escândalos ambientais nacionais com grande repercussão por seus danos aos ecossistemas e às comunidades locais. Assim, foram observadas as empresas envolvidas no incêndio no Porto de Santos (Ultracargo), em 2015, no rompimento da barragem de Mariana (Samarco Mineração), também no ano de 2015, e no rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019 (Vale S.A.).

Diferente do que foi observado nos resultados de Boiral (2016), em que as organizações adotaram uma divulgação ambiental simbólica, com favorecimento de um discurso positivo, as empresas investigadas neste estudo, com algumas ressalvas, assumiram uma posição de responsabilidade sobre os escândalos. Nesse sentido, estudos anteriores já observaram como a neutralização da informação é menos efetiva quando relacionada a assuntos com grande repercussão popular (Lasarov et al., 2019), como os casos aqui investigados. A Tabela 5 apresenta os argumentos relacionados aos escândalos sociais, encontrados nos relatórios contábeis e codificados para as técnicas de neutralização.

Tabela 5
Codificação das técnicas de neutralização nos argumentos de cenário ambiental nos relatórios das empresas

Desse modo, entender se a neutralização é menos utilizada em escândalos ambientais em comparação com os sociais se mostra necessário, uma vez que há estudos que destacam sua menor eficiência nesse cenário (Lasarov et al., 2019).

4.3 A Relação do Disclosure Neutralizado e a Reputação Corporativa

Durante a análise interpretativa dos casos de disclosure socioambiental foram observadas as estratégias adotadas pelas empresas para neutralizar informações negativas, contidas nos relatórios corporativos. Diante disso, os estudos anteriores destacam como as organizações adotam mecanismos de gerenciamento do risco reputacional (Blanc et al., 2019; Koch et al., 2019), e como as técnicas de neutralização podem ser utilizadas como dispositivos de racionalização das atitudes danosas que podem influenciar a reputação corporativa (Boiral, 2016; Fooks et al., 2013).

Assim, para verificar uma possível correlação positiva entre a prática da neutralização das informações socioambientais e a reputação corporativa, realizou-se o teste de correlação de Spearman (para variáveis sem distribuição normal). Os resultados do teste são apresentados na Tabela 6, por ano de observação e com a indicação do coeficiente de correlação.

Tabela 6
Matriz de correlação do nível de neutralização e score de reputação

Com base nos resultados do teste, não foi identificada uma correlação entre o nível de neutralização e o score de reputação no ano anterior ao caso, assim rejeitando a hipótese H1 para esse período. Com isso, apesar das técnicas de neutralização estarem presentes entre as divulgações socioambientais antes do escândalo, elas podem não estar sendo utilizadas para gerenciamento reputacional (Fooks et al., 2013; Minor, 1981; Xia et al., 2019).

Para o ano do evento negativo e o ano posterior, a hipótese H1 foi atendida, uma vez que foi identificada uma correlação positiva moderada entre os níveis de neutralização da informação socioambiental e a reputação das empresas. Com base nisso, observa-se que quando exposta a uma situação de pressão externa, por conta de desempenhos negativos, sugere-se que as entidades tendem a adotar medidas de racionalização de suas atitudes e consequente neutralização informacional (Boiral, 2016; Maher et al., 2021; Talbot & Barbat, 2020; Talbot & Boiral, 2018). Esse movimento de neutralização tem por objetivo o gerenciamento dos stakeholders e a consequente preservação ou recuperação da reputação corporativa (Etxeberria, & Odriozola, 2018; Martínez-Ferrero et al., 2019; Muller & Kräussl, 2011; Szwajca, 2018).

Desse modo, com base nos resultados do teste de correlação, evidencia-se a relação entre as técnicas de neutralização e a reputação corporativa em períodos críticos, como depois de escândalos socioambientais. A exemplo do que foi observado por Muller e Kräussl (2011), as empresas buscam maneiras de recuperar sua imagem empresarial após um período de crise, sendo a qualificação de sua relação com os stakeholders o melhor caminho para atingir seus objetivos de manutenção da reputação (Ardiana, 2019).

Como identificado por Chassé e Boiral (2017), em que os gestores buscaram meios para justificar sua baixa preocupação com assuntos socioambientais, as empresas aqui investigadas podem estar usando a neutralização para racionalizar suas ações danosas à sociedade e ao meio ambiente, gerenciando assim o custo de propriedade atrelado às informações negativas decorrentes do escândalo (Cahan et al., 2016).

Pensando em análises adicionais, também se adotou o teste de Mann-Whitney-Wilcoxon para duas variáveis independentes, a fim de observar os níveis de neutralização no cenário social, onde são investigadas as empresas envolvidas na Operação Lava Jato. Com isso, a Tabela 7 apresenta os resultados do teste, a partir dos valores p.

Tabela 7
Teste de média do nível de neutralização e score de reputação (Cenário Social)

Os achados em cenário social demonstram uma associação estatisticamente significativa entre as variáveis “nível de neutralização” e “score de reputação” para os três anos observados. Com isso, a hipótese H2 é validada. Como apresentado pela literatura, quando confrontado por uma informação social negativa, as corporações buscam meios para a negação de suas ações, de vítimas ou da gravidade do desvio (Maher et al., 2021; Sykes & Matza, 1957).

Para o cenário ambiental, onde o estudo investigou três escândalos, quais sejam, o incêndio no Ponto de Santos, o rompimento da barragem de Mariana e o rompimento da barragem de Brumadinho, também foi observada a possível associação estatisticamente significativa entre a neutralização de informações voluntárias ambientais e a imagem reputacional. Nesse sentido, utilizou-se o teste de Mann-Whitney-Wilcoxon para duas variáveis independentes (Tabela 8).

Tabela 8
Teste de média do nível de neutralização e score de reputação (Cenário Ambiental)

Com base nos achados, a hipótese estatística H3 deve ser rejeitada parcialmente, uma vez que só foi observada associação entre as variáveis quando se adotou um nível de confiança de 90%. Diante disso, como já adiantado por estudos anteriores, o disclosure negativo ambiental carrega um custo maior que o positivo (Alsaifi et al., 2020) e a neutralização desse disclosure é menos eficaz em comparação com o social por conta do apelo popular de assuntos relativos ao meio ambiente (Lasarov et al., 2019).

Com o intuito de verificar se os escândalos socioambientais estudados podem ter uma associação estatisticamente significativa com o aumento dos níveis de neutralização, adotou-se o teste de Wilcoxon pareado para amostras dependentes (com distribuição não normal dos dados). A Tabela 9 apresenta os resultados do teste.

Tabela 9
Teste pareado do aumento da neutralização pós-escândalo

Os achados do teste pareado evidenciam uma associação estatisticamente significativa entre as variáveis, confirmando que os aumentos dos níveis de neutralização após o Ano-1 têm relação com o escândalo socioambiental em que a empresa está envolvida - validando a hipótese H5. Pensando nisso, os achados de Xia et al. (2019) confirmam como as empresas adotam mecanismos de gerenciamento de informações quando se veem diante de um evento que pode danificar a imagem reputacional. A intensificação da neutralização também pode estar relacionada à tentativa de reduzir os custos das informações negativas que compõem os escândalos socioambientais (Aragón-Correa et al., 2016). Em relação à neutralização do disclosure em cenário social e ambiental, a Figura 1 ilustra a composição das categorias de neutralização por cenário observado.

Figura 1
Proporção de neutralização entre o cenário social e ambiental por categoria Nota: Categoria 1: A negação de responsabilidade; Categoria 2: A negação da lesão; Categoria 3: A negação da vítima; Categoria 4: A condenação dos condenados; Categoria 5: O apelo à lealdade mais elevada; Categoria 6: Defesa da necessidade; Categoria 7: Deturpação/negação da evidência; Categoria 8: A defesa da legalidade; Categoria 9: Pelo bem da causa/pelo bem maior; Categoria 10: Expressão do direito; Categoria 11: Proteção dos fracos; Categoria 12: Afirmação de racionalidade; Categoria 13: O mundo seguiu em frente.

Com base na análise do gráfico, verifica-se maior concentração de técnicas com origem nos trabalhos corporativos, categorias de 1 a 6 (Fooks et al., 2013) no cenário ambiental, enquanto no âmbito social as técnicas da linha clássica são observadas nas categorias de 7 a 13 (Minor, 1981; Sykes & Matza, 1957). Esses achados confirmam os resultados da primeira etapa desta seção, onde se evidencia como os casos de disclosure neutralizado social buscam a negação das informações negativas e, por outro lado, os casos ambientais almejam a racionalização das atividades operacionais.

Para identificar a validade da hipótese estatística H4, realizou-se o teste de qui-quadrado para verificar se há uma associação significativa entre a proporção de neutralização em cenário social e ambiental (como observado na Figura 1). Com base no resultado do teste, o valor p foi 0,000002, o que significa que a associação identificada e a maior proporção de neutralização em cenário social na figura anterior são validadas estatisticamente.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo desta pesquisa foi investigar o uso da neutralização no disclosure de escândalos socioambientais e sua relação com a reputação corporativa. Com isso, entre os principais resultados do estudo, na fase interpretativa dos relatórios corporativos, temos a evidenciação das técnicas de neutralização entre os relatórios corporativos voluntários. Esse achado já era esperado, uma vez que a literatura anterior sobre divulgação socioambiental já investigava mecanismos de seletividade informacional que fossem capazes de reduzir o custo de capital da informação negativa, como exemplo da literatura sobre gerenciamento de impressão, que se trata de outra lente teórica.

Entre os resultados quantitativos, evidenciou-se a correlação entre a neutralização do disclosure socioambiental e a reputação corporativa tanto no ano do escândalo quanto no ano após o escândalo. Com base nisso, pode-se interpretar que as técnicas de neutralização realmente são utilizadas como uma ferramenta de gerenciamento de riscos reputacionais durante um evento crítico. Contudo, em momentos anteriores ao caso negativo, não se verifica correlação entre as variáveis, o que pode indicar que a neutralização está sendo utilizada para outro fim, como a redução dos custos de capital da organização.

Como contribuições, este estudo ajuda acadêmicos ao fornecer novas explicações e evidências para os processos corporativos que envolvem as estratégias de divulgação socioambiental voluntária e o gerenciamento dos riscos reputacionais. Nessa esteira, também contribui com a sociedade como um todo, com os shareholders e com os elaboradores e revisores de relatórios voluntários ao demonstrar a relação entre essa neutralização e a reputação corporativa, em cenários individuais (social e ambiental). Com base nesses achados, os stakeholders citados poderão construir um entendimento mais fundamentado em relação às informações voluntárias socioambientais, entender as possíveis limitações dos casos de disclosure socioambiental, observar como as justificativas dos comportamentos contrários às normas sociais e legais podem moldar essas informações e servir de dispositivos para reduzir riscos reputacionais e, por conseguinte, qualificar sua tomada de decisão.

Como limitação, esta pesquisa não se pautou pela verificação da percepção dos diversos stakeholders, como a sociedade como um todo, sobre informações contidas nos relatórios corporativos, uma vez que outros fatores não contidos nesses relatórios (como a repercussão dos escândalos em veículos de imprensa, ou a interação das empresas via emissão de Fatos Relevantes) podem influenciar a percepção dos stakeholders quanto à imagem corporativa. Portanto, compreende-se que há subjetividade inerente ao método utilizado, decorrente sobretudo da análise e atribuição dos argumentos contidos nos relatórios às técnicas de neutralização, não tendo sido realizada uma abordagem direta das percepções dos indivíduos.

Outras duas limitações identificadas é a quantidade de casos de escândalos utilizados e a falta de variáveis de controle na observação entre o disclosure neutralizado e a reputação corporativa. Quanto ao tamanho da amostra analisada, compreende-se que os casos selecionados foram de fato os casos de escândalos ocorridos no período investigado, além disso, não se busca generalizar os achados. Quanto às variáveis de controle, por se tratar de um estudo com caráter exploratório, a literatura anterior ainda é escassa no que se refere às variáveis de controle e, ainda, espera-se que futuros estudos consigam verificar tal relação com maior robustez a partir dos achados aqui apresentados.

Desse modo, são levantadas algumas propostas para futuros estudos. Verificar a percepção dos stakeholders em geral, por meio de entrevistas ou questionários, sobre o uso de neutralização nas informações corporativas poderia aprofundar o entendimento sobre as pressões externas exercidas sobre as organizações. Ademais, observar a percepção de usuários da informação mais interessados no desempenho econômico das entidades, como gestores ou analistas de mercado, poderia ajudar a aprimorar a elaboração de casos de disclosure neutralizado e melhorar seu entendimento por parte do mercado financeiro.

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  • 40
    Este é um texto bilíngue. Este artigo também foi traduzido para o idioma inglês, publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x20241699.en
  • 50
    Este artigo deriva de uma dissertação de mestrado defendida pelo autor William Augusto Sousa de Oliveira em 2022.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Andson Braga de Aguiar
  • Editores Associados:
    Márcia Martins Mendes De Luca e Eduardo da Silva Flores

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    25 Maio 2022
  • Revisado
    01 Ago 2022
  • Aceito
    24 Nov 2023
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