Open-access Contabilidade da pesca artesanal enquanto prática situada, oral e ancestral

O objetivo deste artigo foi compreender como as práticas contábeis são socialmente constituídas e mobilizadas no cotidiano de pescadores artesanais da Ilha do Marajó. A literatura contábil marginaliza os saberes fora dos espaços institucionalizados, especialmente aqueles vinculados à oralidade, à ancestralidade e aos territórios tradicionais. Nesse cenário, ainda são escassas as investigações sobre práticas contábeis em contextos amazônicos, o que impede o reconhecimento de racionalidades plurais e limita o avanço epistemológico da área. A pesquisa amplia o escopo epistemológico da contabilidade, valorizando saberes historicamente silenciados. Ao evidenciar que as comunidades tradicionais organizam suas atividades produtivas segundo princípios próprios de gestão, o estudo contribui para o reconhecimento de formas legítimas de prática contábil ainda pouco visibilizadas, sobretudo em contextos periféricos. O artigo oferece subsídios para repensar a contabilidade em bases plurais, propondo a inclusão de epistemologias locais na pesquisa, na formação profissional e na elaboração de currículos. Contribui, assim, para a crítica à hegemonia racional-instrumental e para o fortalecimento de práticas contábeis sensíveis aos territórios e coletividades. A metodologia utilizada foi uma abordagem qualitativa, com base na história oral como estratégia metodológica e na análise de conteúdo como técnica analítica. Os dados foram coletados por meio de entrevistas com pescadores artesanais da Ilha de Marajó, respeitando seus modos de vida, linguagens e formas de transmissão de saberes. Identificamos duas categorias analíticas: a contabilidade como saber empírico e adaptativo, e a contabilidade como saber ancestral. Os pescadores mobilizam saberes contábeis próprios, vinculados à oralidade, à experiência e à convivência comunitária que cumprem funções de controle, planejamento e organização da atividade pesqueira. Essas práticas se ajustam dinamicamente ao contexto: o ritmo das marés estrutura calendários de captura, por exemplo. Os achados sugerem uma contabilidade situada de estrutura distinta daquelas previstas pelos modelos normativos, articulando saberes empíricos e contextuais à gestão cotidiana. O estudo contribui para o debate sobre a decolonização da contabilidade, reconhecendo formas legítimas de gestão em contextos populares.

Palavras-chave:
contabilidade situada; saberes tradicionais; pesca artesanal; história oral; decolonização da contabilidade.

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