Open-access Comparando as fronteiras da pesquisa: Uma análise de aprendizado de máquina dos artigos publicados na Revista Contabilidade & Finanças e nos principais periódicos internacionais de contabilidade

RESUMO

O estudo compara os artigos publicados na Revista Contabilidade & Finanças (RC&F) com os de revistas internacionais de contabilidade de primeira linha ao longo da última década. O objetivo é oferecer uma visão abrangente dos tópicos analisados em cada contexto, destacando as principais áreas de atividade de pesquisa e os debates em andamento no campo da contabilidade nessas publicações. Ao mapear e comparar o panorama temático da RC&F com o de revistas internacionais de primeira linha, o estudo fornece uma compreensão estruturada de como a pesquisa contábil é desenvolvida em diferentes veículos de publicação. Esses resultados podem servir de base para a definição de agendas de pesquisa futuras e para a orientação da investigação acadêmica em áreas de alta relevância e impacto potencial. Nossa abordagem de mineração de texto possibilita a descoberta de padrões e tendências emergentes, frequentemente ignorados em revisões manuais. As informações obtidas por meio dessa análise podem subsidiar a estratégia acadêmica, apoiar o desenvolvimento do currículo e orientar as prioridades de financiamento, promovendo, em última instância, pesquisas mais direcionadas e impactantes dentro da disciplina de contabilidade. Nossa análise é baseada em um conjunto de dados composto por 277 artigos publicados na RC&F e 3.652 artigos publicados em revistas internacionais de contabilidade de primeira linha, classificadas como Association of Business Schools (ABS) 4* e ABS 4, no período de 2015 a 2025. Usando a linguagem de programação Python, aplicamos o algoritmo de alocação latente de Dirichlet (latent Dirichlet allocation, ou LDA) para extrair tópicos dos resumos e identificar padrões latentes e estruturas temáticas dentro do corpus de pesquisa. Para a RC&F, o modelo identifica nove tópicos distintos: sistemas de controle; questões relacionadas ao orçamento; desempenho organizacional; questões relacionadas a financiamento e crédito; questões atuariais e de seguros; tributação; gerenciamento de resultados; auditoria; e mercados financeiros e retornos de investimento. Em revistas internacionais de primeira linha, a solução LDA identifica sete tópicos: auditoria; anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas; divulgação corporativa; contabilidade e mercados de capitais; tributação; sistemas de controle gerencial; e modelagem empírica em contabilidade financeira. Apesar das diferenças de ênfase, todas as publicações compartilham dois tópicos (auditoria e tributação), indicando ao menos algumas áreas de convergência entre os estudos contábeis brasileiros e internacionais.

Palavras-chave:
pesquisa contábil; modelagem de tópicos; fronteiras de pesquisa

ABSTRACT

This study compares the studies published in the Accounting & Finance Review (A&FR) with those of top-tier international accounting journals over the past decade. It aims to offer a comprehensive overview of the topics under analysis in each of these settings, highlighting key areas of research activity and ongoing debates in the accounting field across both outlets. By mapping and comparing the thematic landscape of the A&FR with that of top-tier international journals, the study provides a structured understanding of how accounting research is developed across different publication outlets. These results could potentially serve as a foundation for setting future research agendas and guiding academic inquiry toward areas of high relevance and potential impact. Our text-mining approach enables the discovery of patterns and emerging trends that are often overlooked in manual reviews. The insights from this analysis can inform academic strategy, support curriculum development, and guide funding priorities, ultimately fostering more targeted and impactful research within the accounting discipline. Our analysis is based on a dataset of 277 articles published in the A&FR and 3,652 articles published in top-tier international accounting journals classified as Association of Business Schools (ABS) 4* and ABS 4 from 2015 to 2025. Using Python, we apply the latent Dirichlet allocation (LDA) algorithm to extract topics from the abstracts, identifying latent patterns and thematic structures within the research corpus. For the A&FR, the model identifies nine distinct topics: Control systems, Budgeting-related issues, Organizational performance, Funding and credit-related matters, Insurance and actuarial issues, Taxation, Earnings management, Auditing, and Financial markets and investment returns. In top-tier international journals, the LDA solution identifies seven topics: Auditing, Earnings announcements and analyst earnings forecasts, Corporate disclosure, Accounting and capital markets, Taxation, Management control systems, and Empirical modelling in financial accounting. Despite differences in emphasis, both outlets share two topics (Auditing and Taxation), indicating at least some areas of convergence between Brazilian and international accounting scholarship.

Keywords:
accounting research; topic modeling; research frontiers

1. INTRODUÇÃO

Analisamos a produção científica publicada na RC&F e em revistas internacionais de contabilidade de primeira linha na última década para mapeá-la e compará-la, a fim de compreender o panorama temático que evoluiu nessas publicações. Desde o final da década de 1980, a RC&F, que surgiu como continuação do Caderno de Estudos, tem sido uma das mais influentes e antigas revistas de contabilidade do Brasil, desempenhando um papel central na divulgação de pesquisas empíricas e teóricas na comunidade acadêmica brasileira. De fato, até a data desta publicação, a RC&F continua sendo a única revista brasileira de contabilidade incluída no ranking da Association of Business Schools (ABS), o que ressalta sua qualidade acadêmica reconhecida e sua adesão aos padrões internacionais de publicação. Essa distinção destaca a relevância da revista não apenas no Brasil, mas também no cenário mais amplo da pesquisa latino-americana, reforçando seu papel como ponte entre a produção acadêmica local e o discurso científico global. Dada sua relevância, comparar a produção científica publicada na RC&F com a de revistas internacionais de contabilidade de primeira linha oferece uma oportunidade única para se entender como a pesquisa contábil evoluiu em diferentes veículos de publicação. Esses resultados podem servir de base para futuras agendas de pesquisa, orientando a investigação acadêmica em direção a áreas de alta relevância e impacto potencial.

Nossa análise se baseia em um conjunto de dados que compreende 277 artigos publicados na RC&F e 3.652 artigos publicados em revistas de contabilidade ABS 4* e ABS 4 entre 2015 e 2025. Com o uso do Python, aplicamos o algoritmo de alocação latente de Dirichlet (latent Dirichlet allocation, ou LDA) ao conteúdo textual dos artigos, com o objetivo de revelar estruturas temáticas latentes e identificar padrões de pesquisa subjacentes em ambas as fontes. Para a RC&F, o modelo revela nove tópicos distintos: sistemas de controle; questões relacionadas ao orçamento; desempenho organizacional; questões relacionadas a financiamento e crédito; questões atuariais e de seguros; tributação; gerenciamento de resultados; auditoria; e mercados financeiros e retornos de investimento. Os dois últimos tópicos são os mais produtivos em termos de volume de publicações. Em termos de impacto acadêmico, os artigos mais citados da RC&F concentram-se nos tópicos "gerenciamento de resultados" e "tributação".

Para as revistas internacionais de primeira linha, o modelo LDA identifica sete tópicos: auditoria; anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas; divulgação corporativa; contabilidade e mercados de capitais; tributação; sistemas de controle gerencial; e modelagem empírica em contabilidade financeira. A auditoria é a área de pesquisa dominante em termos de produção, enquanto anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas e tributação também mostram forte influência nos padrões de citação.

Ao comparar os tópicos de pesquisa da RC&F com os de revistas internacionais de contabilidade de alto nível, percebe-se que a RC&F é uma revista mais abrangente, que publica não apenas artigos de contabilidade. Dois dos tópicos identificados na RC&F estão diretamente relacionados a questões financeiras (questões relacionadas a financiamento e crédito, e mercados financeiros e retornos de investimento), um está relacionado à gestão empresarial (desempenho organizacional) e outro, à ciência atuarial (questões atuariais e de seguros). Apenas dois tópicos são comuns à RC&F e ao grupo de revistas internacionais de contabilidade de primeira linha: auditoria e tributação. Quanto aos demais tópicos, a RC&F concentra-se em linhas de pesquisa e estudos, como evidências teóricas e empíricas sobre sistemas de controle, práticas de gerenciamento de resultados e as dimensões comportamentais e psicológicas dos processos orçamentários, que, em termos gerais, não são tão predominantes nas revistas de primeira linha analisadas.

Em contrapartida, as principais revistas internacionais de contabilidade, além de abordar os dois temas destacados na RC&F (auditoria e tributação), concentram-se em contabilidade e mercados de capitais, sistemas de controle gerencial, divulgação corporativa e anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas. É interessante notar também o surgimento de um tema nas principais revistas: modelagem empírica em contabilidade financeira. No entanto, embora auditoria e tributação sejam temas presentes tanto na RC&F quanto nas principais revistas analisadas, foram identificadas algumas diferenças nas abordagens utilizadas.

Além de identificarmos os temas abordados com destaque em cada veículo (RC&F e revistas internacionais de primeira linha), fornecemos uma visão geral dos estudos mais influentes nesses temas.

Nosso estudo é útil para acadêmicos, particularmente os do Brasil, pois indicamos os tópicos de pesquisa que receberam mais atenção dos pesquisadores que publicam na RC&F e também, talvez mais importante, os tópicos mais analisados em um contexto internacional, além de oferecer uma visão geral dos estudos mais influentes em cada um. Esses resultados também oferecem orientações para instituições e órgãos reguladores brasileiros, pois podem fornecer insights sobre as questões mais relevantes no contexto brasileiro e destacar áreas de pesquisa emergentes que poderiam ser promovidas ou apoiadas.

O restante deste artigo está organizado da seguinte forma. A Seção 2 descreve o conjunto de dados, as fontes de informação, os procedimentos de pré-processamento e a estrutura metodológica empregada na análise textual. A seção 3 apresenta e discute os principais resultados empíricos, dedicando atenção especial aos tópicos extraídos pelo modelo LDA e aos estudos mais influentes dentro de cada tópico, em ambos os casos analisados. A seção 4 conclui o estudo, resumindo os principais insights e refletindo sobre suas implicações.

2. DESENHO DA PESQUISA

2.1 Amostra

Nossas análises se baseiam em um conjunto de artigos publicados tanto na RC&F quanto em revistas internacionais de contabilidade de primeira linha, classificadas como ABS 4* e ABS 4, incluindo The Accounting Review (TAR), Accounting, Organizations and Society (AOS), Contemporary Accounting Review (CAR), Journal of Accounting Research (JAR), Journal of Accounting and Economics (JAE) e Review of Accounting Studies (RAST). Analisamos apenas artigos publicados em inglês. Criamos nosso banco de dados a partir do conjunto de dados do Scopus, coletado em outubro de 2025. Como os dados da RC&F estão disponíveis no Scopus apenas a partir de 2015, para manter a comparabilidade entre as publicações, consideramos apenas artigos publicados entre 2015 e 2025. Esse processo de seleção da amostra resultou em 277 artigos publicados na RC&F e 3.652 em revistas internacionais de primeira linha.

A Tabela 1 mostra a distribuição anual dos artigos publicados entre 2015 e 2025 na RC&F e nas seis revistas internacionais de contabilidade de primeira linha. A RC&F apresenta uma produção estável e moderada, com uma média de 20 a 30 artigos por ano (277 no total). Em contrapartida, as revistas internacionais publicam volumes substancialmente maiores, principalmente a CAR, a TAR, a RAST e a JAE, que juntas representam mais de 2.800 artigos no período (64 artigos por revista por ano, em média). Várias revistas apresentaram um crescimento notável no número de publicações após 2023, especialmente a TAR e a RAST, o que indica uma expansão na produção de pesquisas.

Tabela 1
Discriminação do número de artigos por revista

2.2 Abordagem de Mineração de Texto

Analisamos os artigos incluídos em nossa amostra por meio de uma estrutura de mineração de texto projetada para revelar temas latentes e padrões recorrentes nos resumos. Para extrair a estrutura subjacente dos dados textuais, utilizamos a LDA, uma técnica probabilística de modelagem de tópicos amplamente aplicada na análise de grandes coleções de documentos (Jelodar et al., 2019). A LDA trata cada documento como uma mistura de tópicos e identifica conjuntos de palavras que tendem a aparecer juntas em todo o corpus, revelando agrupamentos temáticos significativos. Seguindo trabalhos anteriores em contabilidade e áreas afins (por exemplo, Cao et al., 2023; García-Méndez et al., 2023; Huang & Jiang, 2024), implementamos a LDA por meio da biblioteca Gensim, em Python (Blei et al., 2003). O procedimento compreende várias etapas: preparação de dados, construção de recursos e estimativa de modelos. Descreveremos cada uma delas a seguir.

Iniciamos com o pré-processamento dos dados textuais, seguindo práticas estabelecidas em mineração de texto, a fim de garantir um corpus limpo e confiável (Cao et al., 2023; Guerreiro et al., 2016; Loureiro et al., 2019). Como nosso conjunto de dados é composto por dois grupos conceitualmente distintos (RC&F e revistas internacionais de contabilidade de primeira linha), utilizamos estratégias diferentes para a extração de texto. Para a RC&F, que inclui 277 artigos de um único veículo, utilizamos exclusivamente os títulos e as palavras-chave fornecidas pelos autores. Em contrapartida, para as revistas internacionais, que incluem 3.652 artigos em seis veículos de alto impacto, extraímos e pré-processamos os resumos. Todas as unidades de texto selecionadas foram limpas e padronizadas antes de serem introduzidas no processo de modelagem de tópicos. Para a RC&F, testes preliminares utilizando resumos geraram uma repetição substancial de termos e baixa variabilidade temática, resultando em valores atípicos de coerência e perplexidade. Essa questão é provavelmente influenciada pelos resumos mais longos, muitas vezes traduzidos do português para o inglês, que tendem a introduzir repetições e reduzir a diversidade lexical. O uso de títulos e palavras-chave fornecidas pelos autores produziu uma representação textual mais concisa e distinta, resultando em uma separação mais clara dos tópicos. Por outro lado, as revistas internacionais apresentam maior diversidade temática, fazendo com que os resumos se tornem a fonte mais adequada de informação textual para capturar estruturas latentes.

Após a extração, o texto principal de cada veículo foi normalizado para minúsculas, e a pontuação e os caracteres numéricos foram removidos para reduzir o ruído. Em seguida, as palavras-chave padrão em inglês da biblioteca Natural Language Toolkit (NLTK) foram removidas, assim como um conjunto de termos específicos do domínio que aparecem com muita frequência, mas fornecem pouco valor conceitual para a identificação de tópicos, como "paper," "research" e "study." Conforme observado em pesquisas anteriores, palavras-chave de domínio excessivamente comuns podem diluir a coerência do tópico e devem ser filtradas (Guerreiro et al., 2016).

Após a limpeza do texto, convertemos cada documento em uma representação bag-of-words (BoW), usando a função doc2bow do Python, que captura a frequência de cada unigrama. Essa representação BoW forma a base para o modelo LDA. Para aprimorar ainda mais o vocabulário e a qualidade do modelo, foram removidos termos presentes em menos de cinco documentos, bem como aqueles presentes em mais de 95% do corpus. Termos raros adicionam ruído sem contribuir significativamente para a formação estável de tópicos e termos muito comuns fornecem pouco poder discriminatório. Essa etapa de filtragem resulta em um dicionário mais compacto e informativo, aumentando a robustez da extração de tópicos.

Para determinar o número ideal de tópicos (K), estimamos vários modelos LDA e os comparamos por meio de pontuações de coerência e perplexidade. Enquanto a pontuação de coerência captura a consistência semântica das palavras dentro de cada tópico, a pontuação de perplexidade avalia o desempenho preditivo do modelo e indica quão bem os tópicos aprendidos se generalizam para dados não vistos. Os modelos foram treinados usando alfa e beta definidos como "auto", o que permite que o Gensim infira os priores de Dirichlet mais apropriados diretamente a partir dos dados. Essa especificação baseada em dados é consistente com a formulação LDA original (Blei et al., 2003 ) e está amplamente presente na literatura recente (por exemplo, Cao et al., 2023).

Após examinarmos ambas as métricas, observamos que, para a RC&F, os resultados sugerem um intervalo plausível entre oito e 11 tópicos, ao passo que, para as revistas internacionais de primeira linha, as pontuações apontam mais claramente para uma solução de sete tópicos. No entanto, embora a coerência e a perplexidade ofereçam orientações quantitativas úteis, não se tratam de critérios absolutos. De fato, "uma das questões mais difíceis no aprendizado de máquina não supervisionado é determinar o número de tópicos" (Cao et al., 2023, p. 5). Por esse motivo, complementamos esses indicadores com uma avaliação qualitativa da interpretabilidade dos tópicos. Nesta fase, os dois pesquisadores avaliaram criticamente a coerência e a uniformidade dos estudos dentro de cada agrupamento derivado do LDA. Várias discussões entre os pesquisadores foram realizadas para debater cuidadosamente as ambiguidades, aprimorar os rótulos dos tópicos e garantir que cada agrupamento representasse um tema substancialmente significativo e conceitualmente distinto. Essa inspeção adicional apoiou a seleção final de nove tópicos para a RC&F e sete para as revistas internacionais, que consideramos oferecer o melhor equilíbrio entre robustez estatística e clareza substantiva.

O modelo LDA final é treinado por 10 passagens e 1.000 iterações, de modo a permitir que o algoritmo refina suas estimativas e converja para distribuições estáveis de tópicos. Como resultado, obtemos, para cada documento, um vetor de probabilidade que indica a participação de cada tópico nele, o que nos permite identificar os temas dominantes associados a cada artigo.

2.3 Descrição dos Tópicos

Além de identificarmos os tópicos mais proeminentes abordados na RC&F e nas revistas internacionais de primeira linha, também examinamos os estudos mais influentes associados a cada tema. Para a RC&F, resumimos as principais contribuições dentro de cada tópico, concentrando-nos nos artigos que, em geral, obtêm as maiores pontuações de probabilidade de tópico no modelo LDA e apresentam um número maior de citações. Para as revistas internacionais de primeira linha, devido ao grande volume de publicações, aprimoramos nossa seleção, concentrando-nos em estudos que atendam a um critério específico: uma pontuação de probabilidade de tópico acima de 0,7. Dentre esses estudos, damos preferência àqueles com mais de 100 citações.

Além disso, sempre que relevante, tanto na RC&F quanto nas revistas internacionais, comentamos seletivamente estudos substancialmente conectados a um determinado tópico, mesmo que não tenham uma classificação alta na pontuação LDA ou nas métricas de citação, com base em uma avaliação mais qualitativa de sua relevância temática. Essa estratégia combinada garante que nossa discussão aborde não apenas os estudos mais fortemente associados a cada tópico, mas também aqueles que contribuem significativamente para o desenvolvimento intelectual de cada área temática, proporcionando uma interpretação mais abrangente e coerente do panorama de pesquisa.

3. RESULTADOS

3.1 Análise Descritiva de Agrupamentos

A Tabela 2 apresenta os nove grupos temáticos para a RC&F (Painel A) e os sete tópicos identificados nas principais revistas internacionais de contabilidade (Painel B), por meio do algoritmo de mineração de texto LDA. Para cada tópico, a tabela inclui um rótulo descritivo, as principais palavras-chave associadas e o número de artigos a ele atribuídos.

Tabela 2
Tópicos LDA

Em termos gerais, a RC&F aborda nove tópicos: contabilidade do setor público; questões relacionadas ao orçamento; desempenho organizacional; estrutura de capital e empresas familiares; questões atuariais e de seguros; tributação; gerenciamento de resultados; auditoria; e mercados financeiros e retornos de investimento. Essas áreas refletem as características institucionais, regulatórias e econômicas do ambiente brasileiro, no qual as reformas da administração pública, os processos orçamentários, a complexidade tributária, a insegurança, a necessidade de atividades de seguros e a proeminência das empresas familiares e de capital fechado desempenham papéis significativos. A distribuição dos artigos pelos tópicos da RC&F é relativamente equilibrada, indicando que a revista publica pesquisas em uma ampla gama de domínios, sem concentração excessiva em qualquer área específica.

Em contrapartida, os sete tópicos identificados nas revistas internacionais exibem uma estrutura temática mais concentrada, alinhada à pesquisa contábil dominante globalmente. As questões relacionadas à auditoria se destacam, representando mais de mil artigos, seguidas por grandes agrupamentos que incluem contabilidade e mercados de capitais, divulgação corporativa e anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas. Os agrupamentos restantes incluem tributação, sistemas de controle gerencial e modelagem empírica em contabilidade financeira. A homogeneidade temática observada nessas publicações ressalta seu foco na relevância para os investidores, assimetria de informações, mecanismos de governança e modelagem econométrica.

Além disso, apesar dessas especificações, os resultados também revelam semelhanças entre a RC&F e as principais revistas internacionais. Ambos os grupos apresentam áreas de pesquisa bem definidas, como auditoria e tributação. A presença desses temas sugere que a RC&F está envolvida ativamente em debates globalmente relevantes e contribui para linhas centrais de pesquisa na literatura contábil internacional. Apesar de abordar temas que refletem as especificidades institucionais brasileiras, a RC&F também pode manter alinhamento com agendas acadêmicas mais amplas, o que lhe permite participar de um debate mais amplo e atrair pesquisas que ressoam com as principais preocupações contábeis.

Embora cada artigo seja classificado como pertencente a apenas um tópico dominante, com base na distribuição de probabilidade para cada documento, reconhecemos que o método LDA permite a sobreposição de tópicos dentro dos documentos. Analisamos a similaridade coseno entre os tópicos para compreender os padrões de coocorrência e as correlações entre eles, conforme mostrado na Figura 1. Em geral, as matrizes de similaridade revelam correlações baixas a moderadas entre os tópicos, tanto na RC&F quanto nos outros veículos (ou seja, inferiores a 0,52), indicando que as estruturas temáticas capturadas pelo modelo LDA são razoavelmente distintas, com apenas alguns pares de tópicos compartilhando proximidade conceitual significativa.

Figura 1
Similaridade cosseno entre os tópicosRevista Contabilidade & Finanças (RC&F): Tópico 1 = Sistemas de controle, Tópico 2 = Questões relacionadas ao orçamento, Tópico 3 = Desempenho organizacional, Tópico 4 = Questões relacionadas a financiamento e crédito, Tópico 5 = Questões atuariais e de seguros, Tópico 6 = Tributação, Tópico 7 = Gerenciamento de resultados, Tópico 8 = Auditoria, Tópico 9 = Mercados financeiros e retornos de investimento; Revistas internacionais de primeira linha: Tópico 1 = Auditoria, Tópico 2 = Anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas, Tópico 3 = Divulgação corporativa, Tópico 4 = Contabilidade e mercados de capitais, Tópico 5 = Tributação, Tópico 6 = Sistemas de controle gerencial, Tópico 7 = Modelagem empírica em contabilidade financeira.

A Figura 2 mostra a distribuição anual das publicações por tema para a RC&F e para as revistas internacionais de primeira linha ao longo do período analisado. De acordo com o Painel A, na RC&F, a evolução da produção científica revela um panorama temático heterogêneo. Mais especificamente, os mercados financeiros e os retornos de investimento (T9) se destacam como uma das vertentes mais expressivas, com picos visíveis em 2020 e 2022. Auditoria (T8), tributação (T6) e questões relacionadas a financiamento e crédito (T4) também apresentam crescimento constante, particularmente após 2019. Notavelmente, o gerenciamento de resultados (T7) apresenta relevância intermitente, mas recorrente, reforçando sua posição como uma preocupação persistente entre os acadêmicos brasileiros.

Figura 2
Distribuição anual de artigos publicados por tópico Revista Contabilidade & Finanças (RC&F): Tópico (T) 1 = Sistemas de controle, T2 = Questões relacionadas ao orçamento, T3 = Desempenho organizacional, T4 = Questões relacionadas a financiamento e crédito, T5 = Questões atuariais e de seguros, T6 = Tributação, T7 = Gerenciamento de resultados, T8 = Auditoria, T9 = Mercados financeiros e retornos de investimento; Revistas internacionais de primeira linha: T1 = Auditoria, T2 = Anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas, T3 = Divulgação corporativa, T4 = Contabilidade e mercados de capitais, T5 = Tributação, T6 = Sistemas de controle gerencial, T7 = Modelagem empírica em contabilidade financeira.

Em contrapartida, as revistas internacionais de primeira linha, segundo o Painel B, apresentam, em termos gerais, uma distribuição temática mais consolidada e concentrada. A auditoria (T1) consistentemente domina o volume de publicações ao longo do período, enquanto a divulgação corporativa (T3) e a contabilidade e os mercados de capitais (T4) ganham relevância progressiva, particularmente a partir de 2021. A modelagem empírica em contabilidade financeira (T7) se expande de forma mais perceptível apenas nos últimos anos, possivelmente refletindo o aprimoramento metodológico e os avanços na acessibilidade dos dados. Em suma, enquanto a RC&F apresenta uma trajetória temática mais variável e diversificada, as revistas internacionais revelam uma especialização e uma consolidação mais claras dos temas centrais.

A Tabela 3 apresenta estatísticas descritivas sobre as citações tanto na RC&F quanto nas revistas internacionais. Em relação aos nove tópicos da RC&F no Painel A, alguns temas mostram maior influência. Em particular, o gerenciamento de resultados (T7) se destaca com a maior taxa média de citações (soma/n = 5,37), seguida por questões atuariais e de seguros (T6) (4,77) e por desempenho organizacional (T3) (4,12). Essas áreas parecem gerar maior atração acadêmica dentro do ecossistema da RC&F. Por outro lado, tópicos como questões relacionadas ao orçamento (T2) e mercados financeiros e retornos de investimento (T1) apresentam médias de citação mais baixas, refletindo um foco menor em questões financeiras na RC&F. Em termos gerais, esses resultados podem sugerir que, embora a RC&F opere em um ambiente de citação mais limitado, a variação nas médias de citação indica diferenças significativas no impacto dos tópicos dentro da revista.

Tabela 3
Estatísticas descritivas sobre citações

O Painel B apresenta estatísticas de citações para os sete tópicos identificados nas revistas de primeira linha. O total de citações (soma) mostra que alguns tópicos receberam atenção acadêmica substancial ao longo dos anos, especialmente auditoria (T1), contabilidade e mercados de capitais (T4) e divulgação corporativa (T3). Ao considerarmos a média de citações por artigo (soma/n), os resultados mostram um padrão bastante consistente entre os tópicos. Notavelmente, anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas (T2) e tributação (T5) apresentam as médias mais altas.

3.2 Análises dos Tópicos na RC&F

3.2.1 Tópico 1 - Sistemas de controle

Esse tópico reúne pesquisas que examinam temas relacionados a sistemas de controle sob diferentes perspectivas. Por exemplo, são analisadas as formas como as organizações projetam, implementam e utilizam mecanismos formais, informais e comportamentais para orientar o comportamento gerencial, alinhar objetivos estratégicos e fortalecer o desempenho organizacional. Uma característica notável desses estudos é sua forte dependência de métodos qualitativos baseados em pesquisas, como questionários, entrevistas, estudos de caso e métodos mistos, que permitem capturar as dimensões perceptivas, comportamentais e relacionais que caracterizam as práticas de sistemas de controle em ambientes organizacionais. Coletivamente, esses estudos refletem a amplitude e a riqueza da literatura sobre sistemas de controle no Brasil.

Outra linha de pesquisa concentra-se em como os controles formais, informais e comportamentais moldam as atitudes individuais, a tomada de decisões e o desempenho dentro das organizações. Cruz et al. (2022) demonstram que os controles informais exercem papel central na influência do empoderamento psicológico e da satisfação no trabalho, evidenciando a relevância dos mecanismos de controle suave na formação de percepções e comportamentos gerenciais. D'Souza et al. (2019), com uma abordagem comportamental, investigam como expressões moderadas dos traços de personalidade da tríade sombria afetam a tomada de decisões éticas e o comportamento oportunista, oferecendo insights sobre a interação entre características individuais e ambientes de controle interno. Ehlert et al. (2024) ampliam a discussão ao mostrarem que os mecanismos de controle comportamental podem mitigar os efeitos negativos da falta de civilidade no ambiente de trabalho sobre a criatividade, ajudando a sustentar resultados organizacionais positivos mesmo quando há tensões interpessoais.

Um grande grupo de estudos influentes examina como esses sistemas operam em contextos estratégicos, interorganizacionais e regulatórios. Junqueira et al. (2016) apresentam evidências de que o projeto e o uso de sistemas de controle gerencial (SCG) estão intimamente relacionados a escolhas estratégicas, e que organizações que combinam estratégias de diferenciação com práticas de controle contemporâneas apresentam desempenho superior. Pazetto e Beuren (2021) demonstram que o projeto dos SCG e a identificação interorganizacional funcionam como antecedentes da cooperação das empresas com seu parque tecnológico. Por outro lado, o efeito direto e positivo do projeto dos SCG sobre a cooperação não é moderado pelo grau de identificação dessas empresas com a relação interorganizacional estabelecida. Sob a perspectiva da governança e da conformidade, Castro et al. (2019) documentam que a adesão a programas anticorrupção por empresas brasileiras listadas em bolsa resulta na criação e no fortalecimento de controles internos, incluindo o surgimento da função de compliance officer. Frare et al. (2023) demonstram que os controles formais e informais contribuem para a resiliência organizacional proativa e reativa em fintechs, principalmente em contextos de imprevisibilidade ambiental.

3.2.2 Tópico 2 - Questões relacionadas ao orçamento

Esse agrupamento abrange estudos que abordam as dimensões comportamentais e psicológicas do orçamento, especialmente como a participação orçamentária influencia o desempenho gerencial por meio de fatores mediadores, tais como percepções de justiça, capital psicológico, criatividade e compartilhamento de informações. Baseados em teorias como a cognitiva social, a da troca social e a da justiça organizacional, esses artigos exploram como os processos cognitivos, emocionais e sociais moldam a eficácia dos SCG. Quase todos os estudos desse agrupamento sobre orçamento e desempenho comportamental são baseados em dados de pesquisas (questionários) coletados de gerentes, controladores ou profissionais responsáveis pelo orçamento em organizações brasileiras.

Nesses estudos, a participação orçamentária surge como um antecedente fundamental que influencia os resultados psicológicos e comportamentais. Moreira e Victor (2025) demonstram que a participação orçamentária aumenta o empoderamento psicológico e a criatividade, resultando em um melhor desempenho gerencial. Da mesma forma, Lunardi et al. (2019) mostram que a participação orçamentária influencia positivamente o compartilhamento vertical de informações, que também influencia positivamente o desempenho gerencial.

Outros estudos se concentram na justiça e na equidade. Santos et al. (2020) destacam que o projeto e a aplicação justos do processo orçamentário influenciam o desempenho gerencial. No entanto, as percepções individuais de justiça (julgamentos de equidade) não exerceram influência direta. Santos et al. (2022) reinterpretam a folga orçamentária como um recurso socioemocional que sustenta as percepções de equidade. Degenhart et al. (2022) e Zonatto et al. (2023), por sua vez, revelam que o capital psicológico - que inclui otimismo, resiliência e autoeficácia - medeia os efeitos do orçamento participativo e dos controles facilitadores nos resultados gerenciais. Juntos, esses trabalhos promovem uma compreensão multidimensional de como os sistemas orçamentários influenciam a motivação individual e a eficácia organizacional.

3.2.3 Tópico 3 - Desempenho organizacional

Esse agrupamento abrange estudos que exploram as múltiplas dimensões do desempenho organizacional, compreendido não apenas por meio de resultados financeiros, mas também por meio de resultados sociais, ambientais e comportamentais. Devido à abrangência inerente da área temática, esses estudos combinam modelagem quantitativa com análise comportamental e contextual, reforçando uma perspectiva multidimensional do desempenho que transcende as medidas tradicionais de contabilidade e finanças.

Grande parte dos estudos incluídos neste tópico destaca como as práticas ambientais, sociais e de governança (environmental, social, and governance, ou ESG) melhoram os resultados organizacionais. Garcia et al. (2018) demonstram um efeito moderador positivo da divulgação do desempenho social corporativo na relação entre o desempenho social das principais partes interessadas e o desempenho financeiro corporativo. Firmino e Peixoto (2025) confirmam uma associação positiva entre as pontuações ESG e o desempenho em emissões de gases de efeito estufa entre empresas latino-americanas, indicando que as práticas sustentáveis geram benefícios operacionais concretos. Adicionalmente, Soares et al. (2024) utilizam a teoria do comportamento planejado para demonstrar uma correlação positiva entre responsabilidade e comprometimento organizacional, destacando a indispensabilidade da responsabilidade para resultados organizacionais sustentáveis.

Outro grupo de artigos examina como políticas de diversidade, atributos de liderança e comportamento profissional influenciam a eficácia organizacional. Marcolino et al. (2022) demonstram que, embora as empresas que contratam "diretores executivos (CEOs) superestrelas" recebam reações favoráveis do mercado no curto prazo, não apresentam desempenho superior no longo prazo, o que ressalta a complexidade dos efeitos da liderança. Por sua vez, Secco et al. (2022) examinam o desempenho profissional em arbitragem e identificam como habilidades de comunicação, objetividade e clareza de funções moldam a eficácia percebida dos contadores especialistas. Mais recentemente, Silva et al. (2025) analisaram a gestão da diversidade LGBT+ e descobriram que, embora tais iniciativas sejam simbolicamente significativas, ainda não se traduziram em melhorias mensuráveis no desempenho no Brasil, o que sugere uma lacuna entre a sinalização e a inclusão substancial. Esses estudos ampliam a noção de desempenho, incluindo fatores culturais, éticos e interpessoais que influenciam a credibilidade, a legitimidade e o sucesso a longo prazo.

3.2.4 Tópico 4 - Questões relacionadas a financiamento e crédito

Esse tópico abrange um amplo e heterogêneo corpo de pesquisa que, em termos gerais, examina discussões teóricas e práticas sobre decisões de financiamento e crédito no mercado brasileiro, cobrindo uma diversificada gama de canais de financiamento, desde o crédito tradicional até o financiamento coletivo (crowdfunding). Estudos influentes também exploram como empresas e instituições financeiras obtêm, alocam e gerenciam recursos financeiros, bem como a avaliação do risco de crédito e da estabilidade financeira.

Um primeiro subtópico concentra-se nos mecanismos pelos quais as empresas obtêm recursos financeiros, destacando os canais de financiamento tradicionais e emergentes. Carvalho e Schiozer (2015) esclarecem o papel do crédito comercial como fonte suplementar de financiamento externo para micro, pequenas e médias empresas, demonstrando como as percepções gerenciais e a dinâmica da cadeia de suprimentos influenciam o acesso das empresas ao crédito. Felipe e Ferreira (2020) examinam o crowdfunding de capital e identificam as características que aumentam a probabilidade e a velocidade de sucesso na captação de recursos, apresentando evidências inovadoras sobre vias alternativas de financiamento utilizadas por startups brasileiras. Ao discutirem a gestão de portfólios e os fundos multimercado, Maestri e Malaquias (2018) apresentam evidências empíricas de que a composição dos portfólios (alocação de portfólios em renda variável e renda fixa) é o fator mais importante para explicar uma possível mudança no desempenho dos fundos multimercado brasileiros. Juntos, esses estudos mostram que uma combinação complexa de características das empresas, preferências dos investidores e contextos de mercado molda as decisões de financiamento.

Um segundo subtema concentra-se na avaliação do risco de crédito e em questões relacionadas ao comportamento da estrutura de capital. Albuquerque et al. (2017) demonstram que a regressão logística ponderada geograficamente melhora os modelos de pontuação de crédito ao capturar a heterogeneidade regional no risco dos mutuários. Outros estudos abordam diretamente os mecanismos de risco de crédito e as percepções de mercado. Oliveira e Pinto (2016), por exemplo, examinam as discrepâncias entre os swaps de risco de crédito e os mercados obrigacionistas utilizando o caso da Petrobras. Antônio et al. (2020) exploram, por sua vez, como o uso de derivativos afeta as classificações de crédito. No que diz respeito às discussões sobre a estrutura de capital, Pestana et al. (2021) analisam o comportamento financeiro de empresas familiares portuguesas à luz das teorias de trade-off e pecking order. Rocha e Camargos (2023), por sua vez, propõem uma estrutura empírica aprimorada para testar hierarquias financeiras entre empresas brasileiras listadas.

3.2.5 Tópico 5 - Questões atuariais e de seguros

Esse agrupamento reúne estudos dedicados à análise dos mercados de seguros, à modelagem atuarial e à gestão de risco, destacando tanto os avanços metodológicos quanto as perspectivas aplicadas no contexto brasileiro. Os trabalhos coletivamente abordam questões técnicas das ciências atuariais, tais como estimativa de provisões técnicas, modelagem de mortalidade, produtos de seguro de vida, avaliação de solvência e sustentabilidade de sistemas de pensão. Como a ciência atuarial está incluída no escopo da RC&F, a identificação de um tópico dedicado a essa área se alinha perfeitamente ao foco e à missão acadêmica da revista.

De modo geral, vários estudos se concentram em provisões técnicas, capital de solvência e gestão de risco financeiro em operações de seguros. Carvalho e Carvalho (2019), por exemplo, desenvolvem modelos estocásticos para quantificar a variabilidade das provisões técnicas para sinistros, demonstrando que as abordagens probabilísticas oferecem avaliações mais realistas da suficiência de capital em comparação com os métodos determinísticos tradicionais. Da mesma forma, Signorelli et al. (2022) propõem uma metodologia consistente com as International Financial Reporting Standards (IFRS) 17, que permite às seguradoras determinar o ajuste de risco para riscos não financeiros diretamente para cada grupo de passivos. Estudos complementares, como os de Gomes e Carvalho (2025) e Salotti et al. (2024), examinam a resiliência financeira das empresas por meio de medidas como o fluxo de caixa em risco e a dinâmica da subscrição durante crises, notadamente a da pandemia da Covid-19.

Uma segunda linha de pesquisa aborda as aplicações demográficas e de segurança social da ciência atuarial. Estudos de Beltrão e Sugahara (2017) e de Gonzaga et al. (2022) constroem e aprimoram tabelas de mortalidade para diferentes grupos populacionais, abordando a escassez histórica de dados demográficos no Brasil para fins de seguros e pensões. Gouveia et al. (2018) e Souza (2020) aplicam modelos de equidade atuarial para avaliar as taxas de contribuição no sistema de previdência social brasileiro, revelando desequilíbrios estruturais e defendendo premissas dinâmicas de mortalidade para garantir sua sustentabilidade. Bertho et al. (2024) ampliam essa linha de investigação ao documentarem as desigualdades educacionais na mortalidade entre titulares de seguros pessoais e planos de previdência privada.

Coletivamente, esse conjunto de pesquisas reflete o amadurecimento dos estudos atuariais e de seguros no Brasil, caracterizado pela integração crescente de modelagem quantitativa de risco, análise demográfica e padrões internacionais de relatórios. As contribuições vão desde avanços técnicos, como a modelagem estocástica e as simulações de Monte Carlo, até discussões orientadas para políticas sobre solvência, equidade e proteção social.

3.2.6 Tópico 6 - Tributação

Aqui, o foco é como a tributação afeta as decisões corporativas e os relatórios financeiros e como empresas e gestores respondem a incentivos e regulamentações fiscais. Os estudos aqui reunidos exploram os determinantes da evasão fiscal e as implicações mais amplas dos instrumentos de política tributária para o comportamento e a transparência das empresas. Apesar de a discussão mais recente se basear em dados brasileiros, há também estudos fundamentados em grandes conjuntos de dados transnacionais (Braga, 2017) ou mesmo no contexto português (Cruz & Soares, 2022).

O tema mais recorrente entre os estudos influentes neste tópico é a evasão fiscal, seus determinantes e consequências. Com base em uma grande amostra de empresas de 35 países, Braga (2017) mostra que a adoção das IFRS está associada a níveis mais elevados de evasão fiscal corporativa, mesmo quando o nível de conformidade contábil-tributária exigido nos países e o volume de provisões são controlados - ambos considerados determinantes potenciais dessa relação. Araújo et al. (2021) revelam que CEOs narcisistas no Brasil são mais propensos a adotar posições fiscais agressivas. Os autores discutem que executivos com esse traço de personalidade parecem ousados ou agressivos e, portanto, estão mais propensos a adotar estratégias de evasão fiscal. Martinez et al. (2022) descobriram que as estratégias fiscais destinadas a evitar a carga tributária estão relacionadas à contabilidade conservadora condicional. Os autores mencionam que a prática do conservadorismo condicional no Brasil parece estar ligada a alternativas dedutíveis para reduzir os lucros, o que explicaria a associação do planejamento tributário com o grau de conservadorismo condicional nos relatórios financeiros. Costa e Klann (2023) demonstram que a responsabilidade solidária dos diretores atenua a relação positiva entre o valor acumulado de notificações de infração fiscal e a evasão fiscal. Em suma, esses estudos indicam que a agressividade fiscal resulta de uma combinação de incentivos de governança, traços gerenciais e desenho de políticas.

Neste tópico, são examinados também instrumentos e incentivos de política tributária, muitas vezes de uma perspectiva mais prática. Pelucio-Grecco et al. (2020) discutem a ausência de orientações claras da IFRS sobre criptomoedas e sugerem que as transações com Bitcoin devem ser tratadas como moeda estrangeira, não como mercadorias. Eles também alertam para os riscos fiscais decorrentes dessa ambiguidade. Da mesma forma, Gomes (2016) investiga se os mecanismos de governança corporativa (como remuneração de executivos, independência do conselho e separação entre CEO e presidente) influenciam a gestão tributária nas empresas brasileiras. O autor mostra que as características de governança podem ser usadas estrategicamente para manter alíquotas efetivas mais baixas ao longo do tempo. Complementando essas perspectivas, Guia e Dantas (2019) examinam a relevância do valor dos ativos fiscais diferidos (AFDs) em bancos brasileiros e documentam que grandes saldos de AFDs são precificados negativamente pelo mercado. Isso sugere que as assimetrias contábeis e fiscais, bem como o acúmulo de créditos fiscais, são percebidos como sinais de menor qualidade dos lucros e maior risco.

3.2.7 Tópico 7 - Gerenciamento de resultados

Esse tópico abrange estudos que analisam coletivamente várias correntes relacionadas ao GR, discutindo como a discricionariedade gerencial, a regulamentação contábil e o contexto institucional interagem para moldar a qualidade das informações financeiras. Os estudos revelam uma forte agenda empírica, investigando os efeitos da adoção das IFRS (Black e Nakao, 2017; Boina e Macedo, 2018 ), os mecanismos específicos utilizados pelos gestores para alterar os resultados reportados (Cupertino et al., 2016; Rathke et al., 2019) e os fatores contextuais que disciplinam ou exacerbam tal comportamento (Paulo e Mota, 2019).

Uma primeira vertente de estudos influentes sobre o tema examina como a adoção das IFRS e as mudanças regulatórias subsequentes afetaram o GR e a qualidade das informações contábeis no Brasil. Boina e Macedo (2018) descobriram que as escolhas contábeis, tanto discricionárias quanto não discricionárias, produzidas após a adoção das IFRS, são preditores positivos e estatisticamente significativos dos fluxos de caixa futuros no mercado de ações brasileiro. Isso sugere que as escolhas contábeis discricionárias são motivadas por considerações informacionais. Black e Nakao (2017) demonstram que as IFRS melhoraram a qualidade dos lucros das empresas brasileiras com incentivos de mercado mais fortes, como as emissoras de American Depositary Receipts (ADRs), enquanto outras não apresentaram mudanças, ressaltando o papel da fiscalização e da motivação. Cunha e Barros (2021) revelam que o fim do regime tributário transitório e a adoção das IFRS afetam conjuntamente as diferenças contábeis-fiscais, dependendo do tamanho e da alavancagem da empresa, expondo as assimetrias na forma como elas internalizam as novas normas.

Um segundo conjunto de estudos investiga as técnicas utilizadas pelos gestores para gerenciar os resultados e as estratégias empíricas empregadas para detectá-las. Cupertino et al. (2016) demonstram que o GR real (GRR) por meio de atividades operacionais reduz o desempenho futuro, confirmando seu custo para o valor de longo prazo. Rathke et al. (2019) encontram evidências de comportamento de "big bath" por meio de ajustes de imposto de renda diferido segundo o Comitê de Pronunciamentos Contábeis 32/International Accounting Standard 12. Por sua vez, Morais e Macedo (2020) mostram que as diferenças contábeis-fiscais anormais capturam efetivamente tanto o GR baseado em escolhas contábeis quanto o operacional. Vogt et al. (2016) identificam os incentivos gerenciais e econômicos por trás das perdas por redução do valor do ágio, sugerindo um momento oportunista para a realização de baixas contábeis de ativos. Por fim, Sincerre et al. (2016) revelam GR em torno de emissões de debêntures, nas quais as empresas inflacionam os lucros nos períodos pré-emissão para influenciar a percepção dos investidores. Esses estudos, juntos, revelam que a manipulação de resultados no Brasil ocorre por meio de múltiplas alavancas contábeis e operacionais, cada uma deixando "vestígios" empíricos que permitem que pesquisadores e reguladores identifiquem e mitiguem distorções informacionais.

Um terceiro conjunto de trabalhos amplia a pesquisa sobre GR ao incorporar determinantes contextuais e relacionados à governança. Paulo e Mota (2019) descobriram que a intensidade e os métodos de GR variam ao longo dos ciclos econômicos: o GR baseado em accruals aumenta durante as contrações, enquanto a manipulação real domina nas recessões. Ribeiro et al. (2024) acrescentam que as estratégias de GR mudam de acordo com o ciclo de vida da empresa. Ou seja, empresas em fase de crescimento usam a superprodução e evitam cortes discricionários de despesas como estratégias de GRR, enquanto, na transição da fase de crescimento para a de maturidade, elas são mais propensas a cortar despesas discricionárias como estratégia de GRR. Rocha et al. (2022) identificaram que a intensidade da força de trabalho restringe o GR, indicando que a negociação trabalhista pode atuar como um mecanismo de governança interna.

3.2.8 Tópico 8 - Auditoria

Esse tópico reúne estudos que exploram diferentes dimensões da auditoria, como a qualidade da auditoria, o comportamento do auditor, as práticas de garantia e a informatividade dos relatórios de auditoria.

Uma das subcorrentes mais evidentes neste tópico é formada por estudos influentes que discutem uma variedade de questões relacionadas aos assuntos-chave de auditoria (key audit matters, ou KAMs). Ferreira e Morais (2020) constataram que o número de KAMs divulgados por empresas brasileiras aumenta com a complexidade da empresa e quando o auditor pertence a uma empresa Big 4. Por outro lado, honorários de auditoria mais altos e pareceres modificados reduzem a divulgação. Marques et al. (2021) demonstram que a adoção da Norma Brasileira de Contabilidade TA 701 no Brasil melhorou a legibilidade dos relatórios de auditoria. Eles observaram uma relação não linear, indicando que um número ideal de KAMs aumenta a clareza sem sobrecarregar os usuários. Alves e Galdi (2020) fornecem evidências de que as divulgações de KAMs agregam valor informativo para os investidores, pois as reações do mercado estão positivamente associadas à sua divulgação.

Além da discussão sobre os KAMs, outras vertentes dos temas de auditoria também são discutidas em estudos influentes. Dantas e Medeiros (2015), por exemplo, mostram que a qualidade da auditoria em bancos brasileiros está intimamente relacionada a fatores como o tempo de serviço do auditor, a importância do cliente, a presença do comitê de auditoria, o rigor regulatório e as ações punitivas contra auditores. Os autores usam provisões discricionárias para perdas com empréstimos como um indicador da qualidade da auditoria. Complementando essa visão institucional, Sousa et al. (2021) examinaram se a rotação obrigatória ou voluntária de empresas e parceiros de auditoria afeta a comparabilidade e a consistência das demonstrações financeiras. Eles concluíram que a rotação em si não prejudica a qualidade dos relatórios, enquanto relacionamentos mais curtos entre auditores e clientes (de até 3 anos) tendem a aumentar a comparabilidade. Essa é uma percepção relevante para os debates globais em andamento sobre a rotação de auditoria. Zambra et al. (2019) acrescentam uma dimensão de julgamento profissional, revelando que empresas normalmente associadas a melhores práticas de divulgação não reduzem, necessariamente, a complexidade percebida pelos auditores ao prepararem análises de sensibilidade e informações de gestão de risco. Isso sugere uma lacuna entre a qualidade da divulgação formal e o esforço de auditoria. Por fim, Rocha e Bezerra (2021) exploram o papel dos auditores em contextos de corrupção e mostram que a divulgação pública do envolvimento das empresas em investigações desse tipo está associada a um maior conservadorismo contábil. No entanto, esse efeito é mais fraco para empresas explicitamente citadas em escândalos. Os autores destacam, ainda, como os relatórios dos auditores, o escrutínio da mídia e as pressões da corrupção interagem para moldar os resultados dos relatórios financeiros. Juntos, esses estudos mostram que a eficácia da auditoria é moldada não apenas por padrões técnicos, mas também pelo desenho regulatório, pelos incentivos aos auditores, pelas características dos clientes e pelo ambiente institucional mais amplo.

3.2.9 Tópico 9 - Mercado financeiro e retornos de investimento

Esse tópico reúne um conjunto diversificado de estudos que examinam a operacionalidade dos mercados financeiros e a geração, a previsão e a interpretação de retornos em diferentes contextos. Em geral, os artigos abordam temas que vão do sentimento dos investidores às métricas de avaliação, volatilidade e comportamento do mercado, buscando compreender empiricamente os mecanismos por trás da precificação de ativos, da previsibilidade de retornos e da dinâmica do mercado.

Vários estudos concentram-se diretamente na previsibilidade dos retornos e no comportamento do mercado. Neves et al. (2016), por exemplo, analisam a relação entre o sentimento dos investidores e os retornos das ações em Portugal e constatam que o pessimismo em períodos de recessão fortalece essa relação, tornando os padrões de retorno mais previsíveis. Araújo et al. (2019) aplicam o índice de avaliação fundamental às ações brasileiras e documentam vieses comportamentais e reações exageradas que geram retornos anormais de longo prazo bem acima dos índices de referência do mercado. Por sua vez, Amorim e Camargos (2021) demonstram que os índices preço/lucro no Brasil apresentam reversão à média, podendo sinalizar períodos de supervalorização ou subvalorização do mercado.

Outros artigos destacam sinais de avaliação e negociação estratégica. Monteiro et al. (2020) demonstram que, mesmo em mercados de capitais desenvolvidos, não há um padrão claro na capacidade preditiva dos rendimentos de dividendos para os retornos de ações e o crescimento de dividendos. Em vez disso, essas relações parecem depender do tempo e ser específicas de cada país. Cavalcanti et al. (2021) examinam estratégias de negociação de pares (pairs trading) no Brasil e mostram que a formação de carteiras por meio dessa estratégia com ativos dependentes, usando o critério de níveis mais altos de volatilidade (20 períodos), apresenta desempenho superior. Castro e Yoshinaga (2018) estudam as recompras de ações brasileiras e encontram evidências claras de que os anúncios de recompra no mercado aberto sinalizam a subvalorização das ações, sendo possível obter retornos anormais com essa estratégia. Juntos, esses estudos contribuem para uma compreensão ampla dos mercados financeiros e dos retornos dos investimentos, revelando que os ciclos de sentimento, os sinais de avaliação, as estratégias de negociação e o comportamento mais amplo do mercado moldam os retornos.

3.3 Análises de Tópicos nas Revistas Internacionais de Primeira Linha

3.3.1 Tópico 1 - Auditoria

Esse tópico abrange um número significativo de estudos que analisam questões de auditoria sob diferentes perspectivas. Alguns estudos influentes investigam os fatores determinantes da qualidade da auditoria. Por exemplo, Jiang et al. (2019) constataram uma melhora na qualidade da auditoria das empresas que mudaram para os auditores Big N, mas não observaram reações significativas do mercado em relação aos anúncios dessas mudanças. Isso indica que os mercados de capitais podem não atribuir nenhum prêmio à melhoria da qualidade da auditoria associada aos auditores Big N. Bell et al. (2015) constataram que as auditorias do primeiro ano recebem avaliações mais baixas de qualidade e que a qualidade melhora logo em seguida, mas diminui à medida que o mandato se torna muito longo. Ke et al. (2015) constataram que as empresas Big 4 designam seus sócios menos experientes e são menos propensas a emitir relatórios de auditoria modificados para clientes listados apenas na China, em comparação com aqueles listados também em Hong Kong. Isso sugere que o ambiente institucional fraco na China leva as empresas Big 4 a fornecerem auditorias de menor qualidade para empresas listadas apenas na China.

Há também uma série de estudos influentes que analisam os conceitos percebidos de qualidade da auditoria. Christensen et al. (2016), por exemplo, coletaram as opiniões, definições e indicadores de qualidade da auditoria de auditores e investidores, e descobriram que as definições de qualidade da auditoria dos investidores se concentram mais nos insumos do processo de auditoria do que as dos auditores. Os investidores também veem o número de deficiências do Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB) como um indicador da qualidade geral da empresa. Os autores também constataram um consenso de que as características do auditor podem ser os determinantes mais importantes da qualidade da auditoria, e de que as reapresentações podem ser o sinal mais facilmente disponível de baixa qualidade da auditoria. Aobdia (2019) investiga o grau de concordância entre quinze medidas de qualidade da auditoria utilizadas na academia e duas medidas de qualidade do processo de auditoria, determinadas por meio de inspeções internas das empresas de auditoria ou do PCAOB em contratos individuais. Os resultados mostram que três medidas de qualidade da auditoria utilizadas pelos acadêmicos têm associações significativas com as duas medidas de deficiências do processo de auditoria utilizadas por auditores e reguladores: (i) a propensão a reapresentar demonstrações financeiras; (ii) a propensão a atingir ou superar o limite de ganhos zero; e (iii) os honorários de auditoria. Griffith et al. (2015) demonstram, por meio de um experimento, que uma intervenção deliberativa (pensamento crítico) melhora a capacidade dos auditores de identificar estimativas irracionais, aumentando sua capacidade de incorporar em suas análises informações contraditórias de diversas partes da auditoria e de pensar criticamente sobre as evidências.

Outros estudos influentes analisam a auditoria como parte de um ambiente de contratação e governança, incluindo o papel dos comitês de auditoria e das funções de auditoria interna. Ashraf et al. (2020), por exemplo, constataram uma redução na probabilidade de reapresentações e deficiências materiais relacionadas à tecnologia da informação em empresas com comitês de auditoria que têm experiência na área. Ege (2015), por sua vez, forneceu evidências de que as funções de auditoria interna estão negativamente associadas à probabilidade de má conduta da administração. Por sua vez, Abbott et al. (2016) afirmam que a presença conjunta de competência e independência é um requisito para uma função de auditoria interna eficaz e para o monitoramento de relatórios financeiros. Feng et al. (2015) constataram que empresas com deficiências materiais relacionadas ao estoque apresentam índices de giro de estoque sistematicamente mais baixos e são mais propensas a relatar perdas de valor do estoque em relação às empresas com controle interno eficaz sobre relatórios financeiros. Isso sugere que o controle interno sobre relatórios financeiros tem um efeito economicamente significativo nas operações da empresa. Por sua vez, He et al. (2017) mostram que os laços sociais entre os auditores contratados e os membros do comitê de auditoria prejudicam a qualidade da auditoria e aumentam os honorários, sugerindo que, embora esses laços possam facilitar a transferência de informações e ajudar os auditores a aliviar a pressão da administração para dispensar a correção de distorções detectadas, relações interpessoais próximas podem prejudicar o monitoramento dos auditores sobre o processo de elaboração de relatórios financeiros. Por sua vez, Chen et al. (2016) descobriram que os empréstimos emitidos no ano seguinte a um parecer de auditoria modificado estão associados a spreads de juros mais altos (17 pontos-base, em média), a menos cláusulas financeiras, a cláusulas mais gerais, a empréstimos de menor valor e a uma maior probabilidade de exigir garantias. Isso sugere que os credores incorporam as informações contidas nos pareceres modificados dos auditores nos contratos de dívida.

Há também uma série de publicações influentes sobre os efeitos das inspeções do PCAOB. Por exemplo, Lamoreaux (2016) constatou que os auditores submetidos à inspeção do PCAOB fornecem auditorias de maior qualidade, medida por meio de um maior número de pareceres de continuidade e de deficiências materiais relatadas, além de uma menor incidência de GR, em relação aos auditores não submetidos à inspeção do PCAOB. DeFond et al. (2017) descobriram que, quando os inspetores do PCAOB relatam taxas mais altas de deficiências nas auditorias de controle interno, os auditores respondem aumentando a emissão de pareceres adversos de controle interno. Eles também descobriram que taxas mais altas de deficiências de inspeção resultam em honorários de auditoria mais altos, o que está em consonância com o fato de que as inspeções do PCAOB levam os auditores a realizarem esforços onerosos de remediação.

Outros estudos se concentram no auditor individual como tomador de decisão. Por exemplo, Koch e Salterio (2017) descobriram que auditores que se identificam mais com o cliente e enfrentam pressão explícita dele sugerem ajustes menores na contabilidade agressiva. Knechel et al. (2015) mostraram que relatórios de auditoria agressivos e conservadores persistem ao longo do tempo e se estendem a outros clientes do mesmo parceiro, o que sugere que tais relatórios são um atributo sistemático do parceiro de auditoria, não sendo distribuídos aleatoriamente entre os compromissos. Li et al. (2017) descobriram que auditores que realizaram auditorias com falhas também entregam auditorias de menor qualidade em outros compromissos, e esse efeito de "contágio" se espalha ao longo do tempo e para outras auditorias realizadas por esses mesmos auditores no mesmo ano. No entanto, eles encontraram poucas evidências de que uma falha na auditoria também coloque em dúvida a qualidade das auditorias realizadas por auditores "sem falhas" que são colegas do mesmo escritório de um auditor "com falhas".

No entanto, a literatura sobre auditoria é muito extensa e inclui uma grande variedade de outros estudos sobre essa questão. Por exemplo, Gutierrez et al. (2018) descobriram que o relatório de auditoria ampliado exigido de grandes empresas de capital aberto no Reino Unido fornece poucas informações adicionais aos investidores. DeFond et al. (2016), por sua vez, descobriram que os auditores de clientes mais conservadores cobram honorários mais baixos, emitem menos pareceres de continuidade e renunciam com menos frequência, o que é consistente com clientes que impõem menos risco de compromisso aos seus auditores.

3.3.2 Tópico 2 - Anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas

Esse tópico abrange estudos que, em geral, analisam o ambiente de informação, com foco em anúncios de resultados em comunicados à imprensa e teleconferências, e o papel dos intermediários de informação, ou seja, os analistas.

Uma corrente de estudos influentes sobre o tema estuda analistas como processadores de informações do mercado de capitais. Por exemplo, Huang et al. (2017) descobriram que uma maior cobertura dos analistas está associada a uma reação significativamente maior do mercado a surpresas negativas nos lucros, o que sugere que a cobertura dos analistas aumenta a pressão sobre os gestores para que eles cumpram as previsões de lucros. Por sua vez, Cheng et al. (2016) e Han et al. (2018) descobriram que as visitas dos analistas às empresas listadas aumentam significativamente a precisão de suas previsões de lucros para essas empresas, o que sugere que as interações privadas com a administração proporcionam aos analistas uma vantagem informacional. Brown et al. (2015) demonstram que a comunicação privada com a administração contribui mais para as previsões de lucros e recomendações de ações dos analistas do que sua própria pesquisa primária. Além disso, a emissão de previsões de lucros e recomendações de ações muito inferiores ao consenso geralmente aumenta a credibilidade dos analistas junto a seus clientes investidores. O'Brien et al. (2015) descobriram que os analistas são 80% mais propensos a cobrir empresas locais do que não locais e que os analistas não subscritores próximos iniciam a cobertura de uma a três semanas antes dos distantes. No entanto, a proximidade é mais importante para empresas menores e menos visíveis, para empresas com operações menos complexas e para analistas de status inferior. Brown et al. (2016) descobriram que os relatórios 10-K ou 10-Q são mais úteis do que teleconferências trimestrais e orientações da administração sobre lucros para determinar as recomendações de ações dos analistas do lado comprador. Eles também descobriram que os analistas do lado vendedor agregam valor ao fornecer aos analistas do lado comprador um conhecimento aprofundado do setor e acesso à administração da empresa.

Outra linha de pesquisa influente analisa os anúncios de resultados. Por exemplo, Lee (2016) apresenta evidências de que a falta de espontaneidade dos gestores durante as teleconferências está negativamente associada às reações do mercado à teleconferência e aos retornos anormais no trimestre subsequente. Brochet et al. (2015) descobriram que o horizonte temporal enfatizado pelos executivos sêniores em suas comunicações em teleconferências está associado às pressões do mercado de capitais e aos incentivos monetários de curto prazo, sugerindo que o horizonte temporal das narrativas das teleconferências pode ser informativo sobre o comportamento míope dos gestores. DeHaan et al. (2017) encontraram evidências convincentes de que analistas que enfrentam condições climáticas desagradáveis respondem mais lentamente ou com menos frequência a um anúncio de resultados, em comparação com analistas que respondem ao mesmo anúncio enquanto enfrentam condições climáticas agradáveis. Por sua vez, Jung et al. (2018) descobriram que os analistas do lado comprador são mais propensos a participar de teleconferências quando a cobertura dos analistas do lado vendedor é baixa e a dispersão nas previsões de lucros do lado vendedor é alta, o que é consistente com a participação dos analistas do lado comprador quando o ambiente de informação de uma empresa é ruim.

3.3.3 Tópico 3 - Divulgação corporativa

Esse tópico abrange pesquisas sobre divulgação corporativa, ou seja, estudos que examinam as consequências econômicas da regulamentação da divulgação, os custos da divulgação para os proprietários e a divulgação voluntária como um instrumento para influenciar a atenção das partes interessadas.

Os estudos mais influentes neste tópico estão principalmente relacionados a relatórios de sustentabilidade (ou de responsabilidade social corporativa). Por exemplo, Chen, Hung e Wang (2018) descobriram que a rentabilidade das empresas sujeitas à elaboração de relatórios de RSC diminui após a obrigatoriedade, o que sugere que a divulgação obrigatória de RSC altera o comportamento empresarial e gera externalidades positivas às custas dos acionistas. Christensen et al. (2017) demonstram que a inclusão de registros de segurança nos relatórios financeiros de proprietários de minas registrados na Securities and Exchange Commission diminui o número de citações e lesões relacionadas à mineração, porém reduz a produtividade do trabalho. Christensen et al. (2021) também compilam os potenciais efeitos econômicos da divulgação obrigatória e dos padrões de relatórios sobre temas de RSC e sustentabilidade. Lys et al. (2015) documentam que os gastos com RSC não constituem uma forma de caridade corporativa nem melhoram o desempenho financeiro futuro. Em vez disso, as empresas realizam gastos com RSC no período atual quando antecipam um desempenho financeiro mais forte no futuro. Mais recentemente, Krueger et al. (2024) mostraram que as exigências de divulgação de informações sobre questões ESG têm um efeito positivo sobre a liquidez das ações das empresas, efeito esse que é mais forte quando as exigências são implementadas por instituições governamentais, não com base no princípio de "cumprir ou explicar", e são acompanhadas por uma fiscalização forte por parte de instituições informais. No entanto, Raghunandan e Rajgopal (2022) descobriram que os fundos mútuos ESG mantêm ações de empresas com pontuações médias mais altas e que são mais propensas a divulgar voluntariamente o desempenho das emissões de carbono. Porém, essas empresas apresentam emissões mais altas por unidade de receita, o que sugere que as pontuações ESG estão correlacionadas com a quantidade de divulgações voluntárias relacionadas a ESG, mas não com os registros de conformidade da empresa ou os níveis reais de emissões de carbono.

Outros estudos importantes e influentes sobre o tema são os de Leuz e Wysocki (2016), que discutem a literatura empírica sobre as consequências econômicas da divulgação e da regulamentação dos relatórios financeiros; Blankespoor et al. (2020), que revisam a literatura sobre como os custos de monitoramento, aquisição e análise da divulgação empresarial, coletivamente chamados de "custos de processamento de divulgação", afetam as escolhas de informação dos investidores, as negociações e os resultados de mercado; e Acharya e Ryan (2016), que examinam como a pesquisa sobre relatórios financeiros dos bancos pode gerar insights sobre como aumentar a estabilidade do sistema financeiro.

Estudos influentes sobre informações proprietárias incluem Glaeser (2018), que constata que empresas que começam a depender mais do sigilo comercial substituem o aumento da divulgação voluntária de informações não proprietárias pela diminuição da divulgação de informações proprietárias e que o efeito total do sigilo comercial é uma diminuição da transparência corporativa. Outro estudo relevante é o de Koh e Reeb (2015), que investigam se a ausência de despesas com pesquisa e desenvolvimento (P&D) nas demonstrações financeiras indica uma falta de atividade de inovação. Os autores concluem que empresas de P&D pseudo-blank (ausentes com atividade de patentes) são mais propensas a relatar P&D após uma mudança exógena de auditoria.

3.3.4 Tópico 4 - Contabilidade e mercados de capitais

Esse tópico abrange pesquisas sobre a relação entre contabilidade e mercados de capitais, analisada sob diferentes perspectivas.

Há uma série de estudos influentes neste tópico que fornecem evidências sobre a relação entre questões contábeis e o risco de queda do preço das ações. Kim e Zhang (2016) descobriram que o conservadorismo condicional está associado a uma menor probabilidade de queda futura do preço das ações de uma empresa, e que essa relação é mais pronunciada para empresas com maior assimetria de informação. Kim et al. (2016) descobriram que empresas cujos CEOs são excessivamente confiantes apresentam maior risco de queda no preço de suas ações, mas que essa associação é menos pronunciada entre empresas com políticas contábeis mais conservadoras. Zhu (2016) constatou que accruals elevados predizem uma probabilidade maior de queda nos preços do que accruals baixos. Isso pode ser explicado pelo uso, por parte dos gestores, de estimativas de accruals que aumentam a receita para ocultar más notícias. Quando as más notícias acumuladas ultrapassam um ponto de inflexão, elas são divulgadas de uma só vez e resultam em uma queda nos preços. Khurana et al. (2018) descobriram que a suavização dos lucros reais está positivamente associada ao risco de queda do preço específico das ações da empresa, o que sugere que ela ajuda os gestores a ocultar más notícias, manter projetos com baixo desempenho, esconder o desvio de recursos e se envolver em uma gestão de risco ineficaz. Por sua vez, Kim et al. (2019) mostraram que relatórios 10-K menos legíveis estão associados a um maior risco de queda no preço das ações, o que sugere que os gestores podem ocultar com sucesso informações adversas ao escreverem relatórios financeiros complexos. Isso leva a quedas no preço das ações quando as más notícias acumuladas atingem um ponto de inflexão. Eles também descobriram que a manipulação de accruals está positivamente relacionada ao risco de queda se for acompanhada por relatórios 10-K complexos. Por sua vez, Hong et al. (2017) descobriram que o desvio dos direitos de fluxo de caixa em relação aos direitos de voto (diferença entre propriedade e controle) influencia o risco de queda do preço das ações. Além disso, empresas opacas com uma grande diferença entre esses direitos são mais propensas a quedas do que empresas opacas com uma pequena diferença. Callen e Fang (2017) descobriram que o tempo de permanência do auditor está negativamente relacionado ao risco de queda do preço das ações em um ano, o que sugere que o monitoramento por aprendizagem - pelo qual o desenvolvimento de conhecimento específico do cliente, ao longo do relacionamento entre auditor e cliente, aumenta a capacidade dos auditores de detectar e impedir atividades de acumulação de más notícias por parte dos clientes - reduz o risco de queda futura.

Existem também alguns estudos influentes sobre esse tema, centrados no papel da divulgação de más notícias. Por exemplo, Bao et al. (2019) constataram uma relação negativa entre a divulgação de más notícias e o interesse residual em vendas a descoberto, sugerindo que os gestores, em geral, ocultam más notícias. Essa tendência é atenuada quando as empresas estão expostas a um risco de litígio mais elevado e é reforçada quando os gestores têm maiores incentivos para sustentar o preço das ações. Li e Zhang (2015) demonstram que os gestores reagem a um choque exógeno positivo reduzindo a precisão das previsões e a legibilidade dos relatórios anuais, quando há pressão de venda a descoberto e maior sensibilidade dos preços às más notícias. Isso sugere que manter o nível atual dos preços das ações é uma consideração importante nas decisões estratégicas de divulgação dos gestores.

Alguns estudos analisam o papel das ofertas de ações. Por exemplo, McNichols e Stubben (2015) descobriram que, quando as empresas-alvo têm informações contábeis de maior qualidade, os retornos dos adquirentes em torno do anúncio da aquisição são mais altos, e os retornos dos alvos, mais baixos. Isso é consistente com a ideia de que os adquirentes capturam uma parcela maior dos ganhos da aquisição, pagando menos pelas empresas-alvo. Kothari et al. (2016) mostram que o GR está mais consistentemente e de maneira previsível ligado ao desempenho inferior do mercado de ações após a oferta secundária de ações (seasoned equity offering, ou SEO), quando impulsionado pelo GRR, em particular pela redução oportunista de despesas com P&D e com atividades de vendas, gerais e administrativas. Essas descobertas são particularmente relevantes, pois os gestores tendem a adotar o GRR no momento das SEOs, mesmo que ele seja mais caro a longo prazo.

Com uma abordagem diferente, Hoitash et al. (2016) descobriram que os diretores financeiros contadores estão negativamente associados ao valor da empresa em setores de alto crescimento, mas positivamente associados ao valor da empresa em setores de baixo crescimento. Eles também mostraram que, nos setores de alto crescimento, as empresas com diretores financeiros contadores investem menos em P&D e em despesas de capital. Já nos setores de baixo crescimento, as empresas com diretores financeiros contadores apresentam maior eficiência de custos.

3.3.5 Tópico 5 - Tributação

Esse tópico abrange pesquisas sobre tributação, incluindo estudos sobre evasão fiscal de empresas e questões regulatórias fiscais, como políticas e aplicação da legislação fiscal.

Alguns estudos influentes nessa área examinam os efeitos do escrutínio interno e externo sobre o comportamento fiscal. Armstrong et al. (2015), por exemplo, encontram uma relação positiva entre a independência do conselho de administração e a evasão fiscal para baixos níveis de evasão, mas uma relação negativa para altos níveis, sugerindo que esses atributos de governança estão mais fortemente relacionados a níveis extremos de evasão, que podem ser sintomáticos de investimento excessivo ou insuficiente por parte dos gestores. Kim et al. (2016) constataram que empresas com conexões políticas são mais agressivas em termos fiscais do que empresas sem conexões, devido ao seu menor custo esperado de fiscalização tributária, ao seu acesso a melhores informações sobre mudanças na legislação e na fiscalização tributária, à menor pressão do mercado de capitais por transparência e à maior tendência a assumir riscos induzida por tais conexões. Lin et al. (2018) descobriram que o efeito dissuasivo da probabilidade de a subavaliação da receita tributável de uma empresa ser detectada e resultar em pesadas penalidades é significativamente prejudicado se o conselho de administração tiver ligações políticas. Dyreng et al. (2016) descobriram que o escrutínio público realizado por um grupo ativista sem fins lucrativos alterou os custos e os benefícios da evasão fiscal de tal forma que as despesas fiscais aumentaram para as empresas sob escrutínio. Wilde (2017) apresenta evidências de que empresas alvo de denúncias apresentam reduções significativas em relatórios financeiros incorretos e em agressividade fiscal. Kanagaretnam et al. (2018) descobriram que a confiança social está negativamente associada à evasão fiscal e que a relação entre confiança e evasão fiscal é menos pronunciada quando as instituições jurídicas de um país são mais fortes, e mais pronunciada quando a pressão do mercado de capitais é mais forte.

Outros estudos influentes analisam o efeito da incerteza tributária. Por exemplo, Hanlon et al. (2017) descobriram que, diante da incerteza tributária (devido a áreas cinzentas na legislação tributária), as empresas mantêm mais dinheiro em caixa para satisfazer possíveis demandas futuras. Dyreng et al. (2019) descobriram que os evasores fiscais suportam uma incerteza fiscal significativamente maior do que as empresas com taxas efetivas de imposto sobre o dinheiro mais elevadas. Essa relação é mais forte para empresas com registros frequentes de patentes e filiais em paraísos fiscais, que são proxies para estratégias de preços de transferência relacionadas a bens intangíveis.

3.3.6 Tópico 6 - Sistemas de controle gerencial

Esse tópico abrange pesquisas sobre SCG, ou seja, estudos sobre como os SCG são projetados e interagem com a estratégia, a cultura e a incerteza, bem como estudos sobre o papel dos atores nas práticas e nos sistemas de controle gerencial. Esses estudos são publicados principalmente na AOS.

Estudos influentes neste tópico incluem, por exemplo, o de Bedford et al. (2016), que examina combinações de controle gerencial eficazes em diferentes contextos estratégicos e revela que existem várias maneiras pelas quais as empresas podem combinar práticas de controle gerencial de maneira eficaz em um contexto estratégico específico. Outro estudo influente é o de Kornberger et al. (2017), que desenvolve o conceito de infraestrutura avaliativa. Esse conceito descreve práticas de contabilidade gerencial que permitem a organização baseada em plataforma e é ilustrado pelo exemplo do eBay. Chenhall e Moers (2015) mostram como o design dos SCG se desenvolveu em resposta à necessidade das organizações de enfrentarem os desafios de operar em ambientes incertos, adotando a inovação. Power (2015) explora as condições sob as quais novos sistemas de contabilidade gerencial começam e a dinâmica pela qual objetos de desempenho vagos se tornam operacionais. Cooper et al. (2017) exploram como o balanced scorecard, técnica de contabilidade gerencial, foi desenvolvido e comercializado como prática de gestão, oferecendo ferramentas teóricas para compreender como suas características foram traduzidas e transformadas, ou seja, moldadas e solidificadas.

Outros estudos influentes que revisam a literatura anterior sobre o tema dos SCG são os de Bedford (2020), que discute várias questões conceituais e empíricas relacionadas à compreensão das combinações de práticas de controle gerencial, e o de Cooper (2015), que revisa alguns dos principais artigos sobre controle gerencial publicados na AOS, utilizando as teorias das palestras de Foucault sobre neoliberalismo e biopolítica, proferidas em 1978/9.

3.3.7 Tópico 7 - Modelagem empírica em contabilidade financeira

Esse tópico abrange a modelagem empírica em contabilidade financeira, incluindo estudos que contribuem para o aprimoramento da pesquisa contábil empírica ao abordarem erros de modelagem, melhorarem procedimentos de estimativa e detectarem problemas de qualidade de dados, bem como estudos que desenvolvem ou refinam modelos que aprimoram a previsão de variáveis, como o valor da empresa, os fluxos de caixa e os retornos, além de estudos sobre as propriedades informacionais dos números contábeis.

O estudo mais influente sobre o tema, desenvolvido por Chen, Hribar e Melessa (2018), tem o objetivo de contribuir para a melhoria da pesquisa contábil empírica. Nele, os pesquisadores analisam um procedimento no qual os profissionais da área utilizam os mínimos quadrados ordinários para decompor uma variável dependente em seus componentes previstos e residuais, usando os resíduos como variável dependente em uma segunda regressão. Esse procedimento é utilizado, por exemplo, para examinar determinantes de accruals discricionários, gerenciamento de atividades reais, diferenças discricionárias entre valores contábeis e fiscais e investimentos anormais. Os autores mostram que a implementação típica desse procedimento gera coeficientes e erros-padrão enviesados, que podem levar a inferências incorretas, e que a magnitude do viés é uma função das correlações entre os regressores do modelo. Por fim, os autores oferecem três soluções para evitar esse viés.

Leone et al. (2019) é o segundo estudo mais influente a contribuir para o aprimoramento da pesquisa contábil empírica. Ele compara a eficácia de algumas abordagens alternativas amplamente utilizadas para lidar com observações influentes em estudos contábeis (winsorização, truncamento, diagnóstico de influência e regressão robusta) e, ao replicar três estudos contábeis publicados, mostra que a escolha da abordagem afeta as estimativas e inferências, sendo a regressão robusta a que apresenta melhores resultados.

Outro estudo importante e influente sobre o tema é o de Bao et al. (2020). Ele desenvolve um modelo de previsão de fraudes de última geração, utilizando um dos métodos de aprendizado de máquina mais poderosos (aprendizado em conjunto), em vez do método comumente utilizado de regressão logística. Os autores selecionam os dados de entrada de seu modelo com base em teorias contábeis existentes, mas também se diferenciam de pesquisas contábeis anteriores ao utilizarem números contábeis brutos em vez de índices financeiros.

Há também um conjunto influente de literatura sobre o tema que fornece evidências da capacidade dos lucros e dos fluxos de caixa atuais de prever os futuros. Ball e Nikolaev (2022) demonstram que os lucros superam os fluxos de caixa operacionais atuais na previsão de fluxos de caixa operacionais futuros. Por outro lado, Nallareddy et al. (2020) demonstram que os fluxos de caixa superam consistentemente os lucros na previsão de fluxos de caixa futuros, de accruals e de seus componentes. Os autores também afirmam que os accruals apresentam uma capacidade preditiva incremental (embora pequena) sobre os fluxos de caixa e que a capacidade dos lucros de prever fluxos de caixa futuros aumentou no período de 1989 a 2015, devido a mudanças no ambiente operacional, e não às propriedades dos accruals. Barth et al. (2016) desenvolveram um modelo adaptado de Feltham e Ohlson (1995) e Ohlson (1995), ampliando Dechow e Dichev (2002). Esse modelo caracteriza as informações sobre fluxos de caixa futuros refletidas nos accruals. O modelo revela que os investidores podem extrair dos accruals informações sobre o fator econômico do próximo período e a parte transitória de um componente do fluxo de caixa do próximo período. Na medida em que cada accrual fornece essas informações depende de se alinhar aos fluxos de caixa futuros ou passados e à economia do período atual, bem como de sua relação com o período atual ou anterior. Dessa forma, cada tipo de accrual tem um coeficiente distinto na avaliação e na previsão de fluxos de caixa ou lucros. Cada coeficiente combina um peso de informação, que reflete as informações fornecidas pelo tipo de accrual, e um múltiplo, que reflete como essas informações são usadas na avaliação e na previsão de fluxos de caixa e lucros. As evidências empíricas mostram que a divisão dos accruals com base em sua função de alinhamento do fluxo de caixa aumenta sua capacidade de prever fluxos de caixa e lucros futuros, além de explicar o valor da empresa.

3.4 Comparação geral

Ao comparar a RC&F com as principais revistas internacionais de contabilidade, em termos de tópicos de pesquisa e de revistas publicadas sobre esses tópicos, percebe-se que a RC&F é uma revista mais abrangente, pois publica não apenas artigos de contabilidade, mas também de outras áreas, como finanças, gestão empresarial e ciência atuarial. Por outro lado, as revistas internacionais de contabilidade de primeira linha apresentam uma estrutura temática mais concentrada, alinhada à pesquisa contábil dominante globalmente.

Além disso, os resultados também revelam algumas semelhanças entre a RC&F e as revistas internacionais de primeira linha. Ambas apresentam auditoria e tributação como dois agrupamentos de pesquisa bem definidos. A presença desses temas sugere que a RC&F se envolve ativamente em debates globalmente relevantes e contribui para as linhas centrais de pesquisa na literatura internacional de contabilidade. No entanto, é possível identificar algumas diferenças nas abordagens utilizadas pela RC&F e pelas revistas internacionais de primeira linha em relação a esses dois tópicos.

A literatura sobre auditoria publicada nas principais revistas é muito extensa e abrange uma grande variedade de estudos que analisam questões de auditoria a partir de diferentes perspectivas. Os estudos mais influentes abordam os fatores que determinam a qualidade da auditoria, os conceitos de qualidade percebidos, a auditoria como parte de um ambiente de contratação e governança (incluindo o papel dos comitês de auditoria e das funções de auditoria interna) e o efeito das inspeções do PCAOB. Por outro lado, os estudos sobre auditoria publicados na RC&F abordam principalmente a qualidade da auditoria, o comportamento dos auditores, as práticas de garantia e o caráter informativo dos relatórios de auditoria. As questões relacionadas aos KAMs constituem uma corrente importante da literatura sobre auditoria publicada nesta revista.

A literatura sobre tributação publicada nas principais revistas concentra-se, principalmente, na análise da evasão fiscal corporativa mundial e em questões regulatórias tributárias. Estudos influentes nessa área examinam os efeitos do escrutínio interno e externo sobre o comportamento tributário, bem como o impacto da incerteza tributária. Por sua vez, os estudos sobre tributação publicados na RC&F concentram-se em explorar os determinantes da evasão fiscal, indicando que a agressividade fiscal resulta de uma combinação de incentivos de governança, características gerenciais e desenho de políticas, bem como nas implicações mais amplas dos instrumentos de política tributária para o comportamento empresarial e a transparência.

4. CONCLUSÃO

Neste estudo, analisamos os artigos publicados na última década, tanto na RC&F quanto em revistas internacionais de contabilidade de primeira linha, classificadas como ABS 4* e ABS 4. Usando uma estrutura de mineração de texto, projetada para revelar temas latentes e padrões recorrentes, agregamos os artigos publicados na RC&F em nove tópicos: sistemas de controle; questões relacionadas ao orçamento; desempenho organizacional; questões relacionadas a financiamento e crédito; questões atuariais e de seguros; tributação; gerenciamento de resultados; auditoria; e mercados financeiros e retornos de investimento. Já os artigos publicados nas revistas de primeira linha foram agregados em sete tópicos: auditoria; anúncios de resultados e previsões de resultados de analistas; divulgação corporativa; contabilidade e mercados de capitais; tributação; sistemas de controle gerencial; e modelagem empírica em contabilidade financeira.

Apenas dois tópicos são comuns à RC&F e ao grupo de revistas internacionais de primeira linha de contabilidade: auditoria e tributação, apesar de algumas diferenças identificadas nas abordagens utilizadas em cada um desses tópicos. Nossas conclusões mostram que a RC&F é uma revista mais abrangente, que também publica artigos cujos tópicos vão além da contabilidade, como nos tópicos de finanças (questões relacionadas a financiamento e crédito, e mercados financeiros e retornos de investimento), gestão empresarial (desempenho organizacional) e ciência atuarial (questões atuariais e de seguros). Nossas conclusões também mostram que a RC&F concentra-se em evidências teóricas e empíricas sobre sistemas de controle (em termos gerais), práticas de GR e as dimensões comportamentais e psicológicas dos processos orçamentários, temas não tão comuns nas revistas de primeira linha analisadas.

Em contrapartida, as principais revistas internacionais de contabilidade, além dos dois tópicos também abordados na RC&F (auditoria e tributação), concentram-se em contabilidade e mercados de capitais, sistemas de controle gerencial, divulgação corporativa (principalmente divulgações de sustentabilidade), anúncios de lucros e previsões de lucros de analistas, e modelagem empírica em contabilidade financeira.

Além de identificarmos cada tema, fornecemos uma breve descrição dos estudos mais homogêneos e influentes sobre ele, com o objetivo de proporcionar uma melhor compreensão de sua natureza.

Nossas conclusões podem ser úteis para acadêmicos, instituições e reguladores, pois fornecem orientações sobre tópicos de pesquisa que podem ser de interesse de um público nacional e/ou internacional.

Por fim, deve-se observar que os resultados deste estudo devem ser analisados com cautela, pois estão limitados ao período analisado. Este estudo tem a vantagem de identificar os tópicos mais analisados pelos estudos publicados na RC&F e em revistas internacionais de primeira linha. No entanto, ele não apresenta uma análise abrangente e aprofundada desses estudos.

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  • Este é um texto bilíngue. Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado sob o DOI https://doi.org/10.1590/1808-057x2026100-9.en
  • Este artigo foi especialmente produzido pelo autor para compor a Edição 100 da Revista Contabilidade & Finanças, a convite do Editor-Chefe Geral.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo podem ser disponibilizados a partir de solicitação aos autores.
  • FINANCIAMENTO
    Os autores agradecem à seguinte instituição pelo apoio financeiro: FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia (Portugal), financiamento nacional através de bolsas de investigação UID/06522/2025 e UID/315/2025.

Editado por

  • Editor-Chefe Acadêmico:
    Andson Braga de Aguiar
  • Editores Convidados:
    Marcia Martins Mendes De Luca, Jose Alonso Borba, Raquel Wille Sarquis e Daniel Magalhães Mucci

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo podem ser disponibilizados a partir de solicitação aos autores.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Nov 2025
  • Revisado
    21 Nov 2025
  • Aceito
    12 Dez 2025
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