Open-access HÁBITOS DELETÉRIOS - ALTERAÇÕES DE OCLUSÃO*

DELETERIOUS HABITS - OCCLUSION DISORDERS

RESUMO

Objetivo:  este trabalho teve como objetivo, verificar se o uso de hábitos deletérios, tais como mamadeira, chupeta e dedo, aumenta a prevalência de alterações oclusais.

Métodos:  para a realização deste estudo foram selecionadas 418 crianças entre 3 a 6 anos, de creches municipais e escolas particulares. Foram aplicados questionários aos pais e/ou responsáveis para obter dados sobre os hábitos dessas crianças. Em seguida realizou-se a avaliação da oclusão para verificação de possíveis alterações.

Resultados:  a sucção digital (83,33%) foi o hábito que provocou mais alterações de oclusão.Ouso de mais de um hábito mostrou causar grande incidência de alterações oclusais (78,38%).

Conclusões:  50% das crianças sem hábitos deletérios apresentaram alterações de oclusão; 83,33% das crianças que realizavam a sucção digital apresentaram alterações oclusais e 78,38% das crianças que utilizavam mais de um hábito deletério apresentaram alterações oclusais.

Descritores:
hábitos; sucção de dedo/efeitos adversos; maloclusão/causas; pré-escolar; criança.

ABSTRACT

Purpose:  this research had as a goal, to verify if the deleterious oral habits such as nursing bottle, pacifier and finger sucking, increase malocclusion.

Methods:  in order to make this research it was selected 418 children between 3 and 6 years old from public and private schools. To obtain data about their habits it was made a questionnaire to their parents and/or responsible. The evaluation was about occlusion observing the presence or not of malocclusion.

Results:  digital sucking (83.33%) , was the habit that provokes more malocclusion. The use of more than one habit caused a bigger amount of malocclusion (78.38%).

Conclusion:  50% of the children without deleterious habits had malocclusion; 83.33% of the children which had sucking habit had malocclusion and 78.38% of the children which had more than one deleterious habit had malocclusion.

Keywords:
habits; finger sucking/adverse effects; malocclusion/etiology; child preschool; child.

INTRODUÇÃO

Acredita-se que os hábitos deletérios podem interferir no crescimento e desenvolvimento dos ossos da face. Os hábitosoraissãoclassificadoscomonormaisedeletérios.Define-secomohábitosnormaisaquelesquecontribuemparaoestabelecimentodeumaoclusãonormalefavorecemaliberaçãodopotencialdecrescimentofacialemtodasuaplenitude,sem desvios.Quandoasfunçõesoraisconstituemfatoresetiológicosempotencialnadeterioraçãodaoclusãoenaalteraçãodo padrão normal de crescimento facial, elas são consideradas hábitos orais deletérios.(1)

Oshábitosoraisquemaisfreqüentementeestãorelacionadosàetiologiademaloclusõessãoasucçãoprolongada,respiração oral e a interposição lingual. Dentre estes, a sucção prolongada de dedo ou chupeta é talvez um dos mais freqüentes.(2)

A maloclusão resultante da sucção se localiza principalmente na região anterior do arco, de canino a canino. A alteração mais comum é a mordida aberta anterior circular, que nem sempre é simétrica dependendo da posição em que o dedo ou chupeta é mantido na boca.(1)

Entretanto, a maloclusão depende essencialmente de intensidade, força e duração diária do hábito, posição do dedo na boca, número de dedos sugados e chupetas envolvidas no ato.(3)

É importante observar que para muitos profissionais da área, a sucção digital ou de chupeta se realizada até os dois anosdeidade,aproximadamente,nãoconstituipreocupaçãoclínica.(3) Paraoutros,quandoohábitoéabandonadoespontaneamente ainda na dentadura decídua, até aproximadamente os 4 anos de idade, existe uma forte tendência para autocorreção da maloclusão. Essa tendência cai abruptamente quando o mesmo ocorre na dentadura mista e principalmente permanente.(1)

Portanto, o objetivo dessa pesquisa é verificar se o uso dos hábitos deletérios, tais como mamadeira, chupeta e dedo, aumenta a prevalência de alterações de oclusão em crianças de 3 a 6 anos de idade.

MÉTODOS

O presente estudo contou com a participação de 418 crianças,sendo183dosexofemininoe235dosexomasculino,comidadeentre3a6anos,queestudamemcrechese escolas particulares nos Municípios de São Vicente, Praia Grande, Sorocaba e Itaberá.

Foi solicitada antecipadamente autorização da instituição e dos pais ou responsáveis.

Após a autorização, cada pai ou responsável respondeuaumquestionárioformuladopor11questõesfechadas e objetivas, a respeito do uso ou não de hábitos deletérios. Após a realização dos questionários as crianças foram avaliadas com luvas descartáveis, quanto à oclusão, verificando a presença ou não das possíveis alterações dentárias.

Realizou-se também revisão bibliográfica de artigos publicadosemrevistascientíficaselivros,utilizandoterminal de computação conectado à Internet para pesquisa eletrônica na BIREME e MEDLINE.

Os dados desta pesquisa foram colhidos entre os meses de setembro a novembro de 2001.

Ética: esta pesquisa foi avaliada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica (CEFAC), que considerou como necessário o Consentimento pós-informado.

RESULTADOS

A partir da análise dos dados coletados por meio de aplicação dos questionários aos pais e da observação das crianças, os resultados obtidos serão demonstrados.

Na Fig. 1, dascriançasquenãofizeramusodoshábitos deletérios 50% apresentavam alterações de oclusão e 50% não apresentavam alterações de oclusão.

Fig. 1
Crianças que não utilizaram hábitos deletérios.

Na Fig. 2, das crianças que realizavam os hábitos de sucção de chupeta, mamadeira e dedo, 70,9% apresentavam alterações dentárias.

Fig. 2
Criança com presença de hábitos alterações dentárias.

Na Fig. 3, das crianças que usavam chupeta 72,73% apresentavam alterações dentárias e 27,27% não apresentavam alterações dentárias.

Fig. 3
Hábito de chupeta.

Na Fig. 4, dascriançasqueusavamamamadeira,55,65% apresentavam alterações dentárias e 44,35% não apresentavam alterações dentárias.

Fig. 4
Hábito de mamadeira.

Na Fig. 5, das crianças que realizavam a sucção digital 83,33% apresentavam alterações dentárias e 16,67% não apresentavam alterações dentárias.

Fig. 5
Hábito de sucção digital.

Na Fig. 6, das crianças que usavam mais de um hábito deletério, 78,38% apresentavam alterações dentárias e 21,62% não apresentavam alterações dentárias.

Fig. 6
Uso de mais de um hábito de sucção.

DISCUSSÃO

Observando-se a Fig. 1, das crianças que não fizeram o uso de hábitos deletérios, 50% apresentavam alterações oclusais, verifica-se, portanto que esta incidência é maior do que a encontrada por alguns autores que foi apenas de 25,35%.(4)

De acordo com as crianças que não utilizavam mamadeira,chupetaededo,50%apresentavamalteraçõesdentárias, portanto, observamos que a presença dessas alterações não depende somente da instalação dos hábitos deletérios, mas das características próprias de cada criança.

Com relação ao uso dos hábitos deletérios na Fig. 2, apenas29,1%dascriançasquetinhamhábitosdeletériosnão apresentaram alterações dentárias, o que difere de outros estudosondeaporcentagemencontradadealteraçõesoclusais foi de (70,2%)(5) em crianças com hábitos deletérios.

Na Fig. 3, das crianças que fizeram o uso do hábito de chupeta, 72,73% apresentavam alterações de oclusão. Dadossemelhantesforamencontradosporalgunsautores,(6-7) onde cerca de 75% das crianças que utilizavam a chupeta apresentavam alterações de oclusão. Já em outro estudo(8) somente 45,2% das crianças apresentavam alterações oclusais, o que difere dos dados relatados anteriormente, talvezpeladiferençadaquantidadedecriançaspesquisadas.

A chupeta é considerada como um agente importante na alteração da olusão.(6)

Das crianças que utilizavam a mamadeira, Fig. 4, 55,65% apresentaram alterações oclusais, porcentagem significativa indicando que provavelmente esse hábito interfere na oclusão. O que difere do autor,(6) que não observou diferença significativa para o uso da mamadeira, já que 94,5% das crianças pesquisadas que utilizaram mamadeira não apresentaram maloclusão.

Quanto ao hábito de sucção digital (Fig. 5), encontramos 83,33% de crianças com alterações oclusais, portanto consideramos este hábito sendo o mais prejudicial para a oclusão quando analisado isoladamente. Este dado está indodeencontroaalgunsautores,(9) quetambémverificaram que 74,2% de crianças que apresentavam sucção digital possuíam mordida aberta anterior. Para outros,(6,7) foram encontrados valores relativamente baixos, 10,9% e 5%, embora as alterações oclusais encontradas nessas crianças também tenham sido em decorrência da sucção digital.

Das crianças que utilizavam mais de um hábito deletério, Fig. 6, encontramos 78,38% que apresentavam alterações oclusais. Verificando, portanto, que o alto índice de alterações oclusais podem ser decorrentes da associação dos hábitos. Diferente porcentagem foi relatada em um outroestudo,(10) ondedas164criançascomhábitosdeletérios associados, apenas 57,3% apresentavam alterações oclusais.

Com relação ao sexo não observamos diferenças entre os meninos e as meninas considerando o uso de hábitos deletérios em relação às alterações oclusais. Vem de encontroaosnossosachadosumtrabalhoencontradonaliteratura(10) que também não evidenciou diferença entre os sexos quanto à alteração na oclusão quando relacionada aos hábitos deletérios. No entanto, outro estudo(5) relatou diferença entre os sexos, sendo a porcentagem maior para crianças do sexo feminino.

CONCLUSÕES

  • 1. Das crianças que não fizeram o uso dos hábitos deletérios, 50% apresentavam alterações oclusais.

  • 2. Das crianças que realizavam a sucção digital, 83,33% apresentavam alterações oclusais.

  • 3. Das crianças que utilizavam mais de um hábito deletério, 78,38% apresentavam alterações oclusais.

  • *
    Trabalho realizado no CEFAC - Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica.

REFERÊNCIAS

  • 1 Silva Filho OG, Freitas SF, Cavassan AO. Hábitos de sucção: elementos passíveis de intervenção. . Estomatol Cult 1986;16:61-71.
  • 2 Teixeira S, Ribeiro CCC, Bittencourt M, Almeida ICS. Hábitos bucais deletérios: Sucção prolongada. Rev Ciênc Saúde 1994;13:152-61.
  • 3 Black B, Kövesi E, Chusid IJ, Ivy J. Hábitos bucais nocivos. Ortodontia 1990;23:40-4.
  • 4 Thomazine GDPA, Imparato JCP. Prevalência de mordida aberta anterior e mordida cruzada em escolares da rede municipal de Campinas. J Bras Odontopediatr Odontol Bebê 2003:29-37.
  • 5 Santana VC, Santos RM, Silva LAS, Novais SMA. Prevalência de mordida aberta anterior e hábitos bucais indesejáveis em crianças de 3 a 6 anos incompletos na cidade de Aracaju. J Bras Odontopediatr Odontol Bebê 2001;4:153-60.
  • 6 Marchesan IQ. Uma Visão Compreensiva das práticas fonoaudiológicas: a influência da alimentação no crescimento e desenvolvimento craniofacial e nas alterações miofuncionais. São Paulo: Pancast; 1998. p. 145-73.
  • 7 Soncini F, Dornelles S. Ocorrência de hábitos orais nocivos em crianças com 4 anos de idade de creches públicas no município de Porto Alegre (RS) Brasil. Pró-Fono 2000;12:103-8.
  • 8 Ferreira SH, Ruschel HC, De Bacco G, Ulian J. Estudo da prevalência da mordida aberta anterior em crianças de 0 a 5 anos de idade nas creches municipais de Bento Gonçalves - RS. J Bras Odontopediatr Odontol Bebê 2001;4:74-9.
  • 9 Alves AC, Castro GF, Leite ICG, Bastos EPS. Sucção Digital em Crianças Institucionalizadas - Prevalência e Relação com Maloclusão. J Bras Odontopediatr Odontol Bebê 1999;2:375-82.
  • 10 Soligo MO. Hábitos de sucção e má-oclusão: repensando esta relação. Rev Dent Press Ortodon Ortopedi Facial 1999;4:58-64.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2002

Histórico

  • Recebido
    29 Nov 2001
  • Aceito
    14 Mar 2002
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