Open-access PERFIL VOCAL DE CORALISTAS AMADORES

Amateur choir: vocal profile

RESUMO

Objetivo:  levantar informações quanto ao perfil vocal de coralistas amadores, investigando sintomas, hábitos, sentimentos e posturas frente à voz cantada e falada.

Métodos:  foram analisados os questionários de saúde vocal de 124 coralistas amadores.

Resultados:  os dados encontrados apontaram maior número de sintomas vocais múltiplos na voz cantada quando comparado ao número de sintomas na voz falada. Houve associação estatisticamente significativa entre sintomas, hábitos e sentimentos da voz falada e cantada com relação ao número de sintomas vocais encontrados na voz falada e na voz cantada.

Conclusão:  os achados quanto ao perfil vocal de coralistas amadores indicam que há associação entre aspectos da voz falada e da voz cantada, sendo que se faz necessária a investigação detalhada de ambos os padrões de produção vocal, para que se garanta uma visão global dos aspectos que possam influenciar a qualidade vocal das pessoas que praticam o canto coral amador.

DESCRITORES:
Voz; Fonação; Qualidade da Voz; Sintomas; Saúde

ABSTRACT

Purpose:  to raise information about amateur choral singers vocal profile looking for symptoms, habits, feelings and attitude regarding singing and voice.

Methods:  124 amateur choral singers questionnaires have been analyzed.

Results:  found data has shown a higher number of multiple vocal symptoms in singing than in voice. There was a significant statistic association between voice and singing symptoms, habits and feelings compared to the number of vocal and singing symptoms found.

Conclusion:  amateur choral singers vocal profile show there are voice and singing aspects association although a detailed investigation of vocal production patterns is required to guarantee a general vision of the aspects that can influence amateur choral singers voice quality.

KEYWORDS:
Voice; Phonation; Voice Quality; Symptoms; Health

INTRODUÇÃO

As diferenças no funcionamento dos órgãos fonadores definem os aspectos divergentes entre a voz falada e a voz cantada.

O canto exige alta demanda vocal, sendo que ajustes neuromusculares por todo o trato vocal são efetuados para se conquistar grande diversidade de efeitos sonoros 1-4. Por este motivo, praticar o canto, mesmo que amadoramente, necessita de cuidados vocais adequados para que não ocorram problemas vocais futuros.

Muitas publicações apontam as diferenças fisiológicas entre voz falada e cantada, e também enfocam cuidados relativos à saúde vocal 2-7.

Estudos atuais indicam que o treino da voz cantada não traz benefícios diretos à voz falada 8-10, apesar de serem evidentes os ganhos na voz cantada 11-12.

De qualquer forma, o mau uso na voz falada influencia a qualidade da voz cantada, sendo a afirmação contrária também verdadeira. Se há problemas no canto e a qualidade da voz falada está alterada, é possível que haja alguma alteração nas pregas vocais. Se a alteração é só no canto, pode indicar falta de técnica de canto 6.

O canto coral é caracterizado pela harmonização de vozes em grupo, sendo que a qualidade sonora depende do estilo musical e repertório pretendidos. As pessoas praticam o canto amador na busca apenas de prazer, fazendo desta atividade uma terapia para sua vida 13.

Em estudo realizado com cantores de coral profissional, semi-profissional e amador 14, constatouse que os cantores, principalmente os amadores, não estão bem informados quanto a conhecimentos básicos relacionados a cuidados vocais, demonstrando falta de conscientização das capacidades e limitações do mecanismo vocal.

Este desconhecimento pode levar ao uso excessivo, mau uso ou abuso vocal, que separados ou combinados a fatores biológicos e psicossomáticos, pode resultar em sintomas crônicos ou agudos de atrito vocal, que se refere à redução das capacidades vocais ou desgaste do mecanismo vocal. O relato de três ou mais sintomas vocais já é indicativo de quadro severo de atrito vocal 15-16.

Jovens coralistas (crianças e adolescentes) apresentaram altos índices de relato de dificuldade vocal, porém este achado não foi associado estatisticamente, de modo geral, a comportamentos e circunstâncias deletérias à voz. Foi constatado apenas que tais dificuldades vocais são compatíveis com sintomas de refluxo gastroesofágico (rouquidão pela manhã) e estresse emocional (insônia e fadiga) 17.

Uma pesquisa que comparou mulheres estudantes de canto a estudantes de profissões da área da comunicação constatou que os cantores apresentaram índices maiores de relato de sintomas compatíveis a atrito vocal. Os cantores relataram em maior número do que os estudantes da área de comunicação, na voz falada, sensação de garganta ressecada, desconforto ou dor na garganta e redução da extensão vocal. No entanto as razões porque isso ocorreu não ficaram claras. Pôde-se explicar este achado pelo fato de que há realmente uma soma de abuso vocal na voz falada e uso intenso da voz cantada, levando os cantores a terem um risco maior de sintomas compatíveis a atrito vocal. No entanto, também há a possibilidade deste relato de sintomas estar ligado a fatores emocionais. Muitos cantores mencionaram distúrbios de humor estando estes associados à preocupação e ao constante estresse com sua saúde vocal, o que provavelmente ocorre devido às cobranças quanto ao futuro de suas carreiras profissionais de cantor, deixando-os mais sensibilizados e atentos a mudanças vocais 18.

Apesar dos estudos citados acima, ainda são escassas as pesquisas que investigam aspectos particularizados da saúde vocal de coralistas, principalmente em nosso país.

O presente estudo objetiva levantar informações quanto ao perfil vocal de coralistas amadores, investigando sintomas, hábitos, sentimentos e posturas frente à voz cantada e falada, com o intuito de que tais dados possam contribuir para uma intervenção fonoaudiológica mais específica, direcionada a esta população.

MÉTODOS

Foram analisados os questionários sobre saúde vocal, adaptado de publicação anterior 18, aplicados em 124 coralistas amadores integrantes de 7 coros de uma instituição da cidade de São Paulo.

O questionário foi distribuído aos coralistas após explicação geral sobre os objetivos do estudo e da assinatura do termo de consentimento. Estes responderam ao questionário em suas residências ou no próprio local de ensaio, devolvendo-os preenchidos ao regente, que posteriormente os entregou ao pesquisador.

Por questões de dificuldade motora e visual, a pesquisadora ajudou dois coralistas no preenchimento de seus questionários. A pesquisadora se limitou a ler as questões e assinalar as respostas conforme indicaram os coralistas.

Os dados foram coletados no período de novembro a dezembro de 2003. Foram realizados contatos telefônicos posteriores para 10 coralistas cujos questionários encontravam-se incompletos. Nestas situações as questões foram apenas lidas e as respostas anotadas nos questionários.

Os dados da questão 12 dos questionários não foram analisados pois alguns questionários não foram preenchidos adequadamente, o que suscitou dúvidas quanto ao entendimento da questão pelos coralistas. Os demais dados foram organizados e submetidos à análise estatística, sendo que foram utilizados os testes de igualdade de duas proporções e teste de independência de qui-quadrado para verificar possíveis associações entre o número de sintomas, tanto de voz falada como de voz cantada, e os demais itens pesquisados relacionados a informações sobre a prática do canto, hábitos vocais, histórico de saúde vocal e aspectos emocionais envolvidos com a voz. O nível de significância estabelecido foi de 0,05 (5%).

O projeto desta pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica sob o no. 206/03, tendo sido considerado como sem risco, com necessidade de consentimento pós-informado.

Questionário de Saúde Vocal

Instruções: por favor responda todas as questões.

1. Data ___/___/___

2. Nome __________________________________________

3. Idade ________

4. Sexo __________________

5. Estado civil [] solteiro(a)[] casado(a) [] outro:___

6. Profissão ________________________________

7. Canta profissionalmente? [] sim[] não

8. Qual sua classificação de voz? (soprano, tenor, etc.)

________________________

9. Há quanto tempo canta em coral? ___________

10. Canta em mais de um coro?[] não[] sim.Quantos?_______

11. Pratica outro tipo de canto? Qual? ___________________

12. Usando a tabela abaixo, por favor indique o número dehoras de uso de voz (por semana) que você emprega para cada atividade listada, e para qualquer outra, mesmo que não sendo de cunho profissional, mas que tenha exigido uso significativo da voz. POR FAVOR REFIRA-SE APENAS A ATIVIDADES EM QUE VOCÊ ESTEVE ENVOLVIDO NAS ÚLTIMAS 4 SEMANAS.

Atividade Horas por semana a. Apresentações (recitais, musicais, concertos, etc.) b. Ensaios c. Aulas de técnica vocal d. Uso de voz durante atividade profissional e. Outra atividade: f. Outra atividade:

13. Você fuma? [] sim[] não

14. Você teve, nas últimas 2 semanas, alguma doença queafetou sua voz (ex.: dor de garganta, gripe, rinite alérgica, etc)?

Se sim, explique qual e descreva os sintomas da doença:

_____________________________________________

[] sim[] não

15. Responda se for do gênero feminino: você costuma vivenciarmudanças significativas em sua voz antes ou durante o período menstrual?

[] sim[] não

16. Você geralmente fala alto?

[] sim[] não

17. Você geralmente fala rápido?

[] sim[] não

18. Quando você fala, geralmente chega a “perder o fôlego”ou perder a voz ao final das frases?

[] sim[] não

19. Você geralmente se pega falando a maior parte do tempodurante uma conversa com amigo ou numa reunião social?

[] sim[] não

20. Você geralmente fala num tom de voz que é mais grave?

[] sim[] não

Nas últimas 2 semanas, você freqüentemente tem estado

21. chateado com sua voz?

[] sim[] não

22. frustrado com sua voz?

[] sim[] não

23. preocupado com sua voz?

[] sim[] não

24. deprimido com relação à sua voz?

[] sim[] não

25. angustiado com relação à sua voz?

[] sim[] não

Você tem, nos últimos 3 anos...

26. estado em médicos devido a problemas vocais?

[] sim[] não

27. usado medicamentos para problemas vocais?

[] sim[] não

28. deixado sua voz em repouso por problemas vocais?

[] sim[] não

29. feito terapia para a voz por problemas vocais?

[] sim[] não

Por favor indique qual dos problemas vocais abaixo você costuma vivenciar freqüentemente durante ou após FALAR. Não considere os períodos de problemas vocais associados a doenças e/ou período menstrual.

30. rouquidão?

[] sim[] não

31. redução da extensão vocal?

[] sim[] não

32. sensação de garganta ressecada?

[] sim[] não

33.fadiga vocal (a voz cansa facilmente quando conversa)? .

[] sim[] não

34. sensação de garganta apertada?

[] sim[] não

35. falhas, perda momentânea de voz, ou outras mudançassúbitas na voz?

[] sim[] não

36. desconforto na garganta?

[] sim[] não

37. dor na garganta?

[] sim[] não

Por favor indique qual dos problemas vocais você costuma vivenciar freqüentemente quando CANTA. Não considere os períodos de problemas vocais associados a doenças e/ou período menstrual.

38. dificuldade em alcançar ou cantar notas agudas,especialmente em pianíssimo

[] sim[] não

39. dificuldade em realizar a transição de registro suavemente?

[] sim[] não

40. perda de resistência ou flexibilidade vocal, especialmenteapós cantar mais que uma hora?

[] sim[] não

41. rouquidão ou ar na voz, especialmente em tons agudos?

[] sim[] não

42. falhas, perda momentânea de voz, ou outras mudançassúbitas na voz, especialmente após cantar mais que uma hora?

[] sim[] não

43. desconforto na garganta, especialmente após cantar maisque uma hora?

[] sim[] não

44. dor na garganta, especialmente após cantar mais que uma hora?

[] sim[] não

Por favor indique para cada uma das afirmações abaixo qual é verdadeira ou falsa com relação à sua personalidade. ATENÇÃO: estas afirmações se referem a seus sentimentos de forma geral, não necessariamente com relação a seus sentimentos sobre sua fala ou canto.

45. eu tenho tendência de me preocupar com as coisas namaior parte do tempo

[] sim[] não

46. eu tenho tendência de me deprimir ou “ficar mal” na maiorparte do tempo

[] sim[] não

47. eu tenho tendência de me angustiar e ficar tenso na maiorparte do tempo

[] sim[] não

48. eu tenho tendência de mudar de humor facilmente (“ficarmal” ou depressivo alguns dias, “ficar muito bem” em outros dias)

[] sim[] não

As questões abaixo se referem a influência do canto em suas vidas. Por favor escolha uma alternativa que descreva melhor seus sentimento.

49. [] cantar é A coisa mais importante da minha vida [] cantar é uma das três coisas mais importantes da minha vida

[] cantar é uma das cinco coisas mais importantes da minha vida

[] cantar é uma das dez coisas mais importantes da minha vida

[] cantar não é uma das dez coisas mais importantes da minha vida

POR FAVOR, LEIA NOVAMENTE O QUESTIONÁRIO E CERTIFIQUE-SE DE QUE RESPONDEU A TODAS AS QUESTÕES. OBRIGADO.

RESULTADOS

Dos 124 sujeitos, 77 (62%) eram do gênero feminino e 47 (38%) do gênero masculino. A faixa etária variou de 18 a 73 anos (média de 39,4 anos; desvio padrão de 13,7). Quanto ao tempo que pratica o canto coral, houve variação de 0,5 a 40 anos (média de 7,8 anos; desvio padrão de 7,9).

Por meio do teste de igualdade de duas proporções, verificou-se que a grande maioria dos sujeitos (68%) canta em apenas um coro enquanto que apenas 39 sujeitos (31%) cantam em 2 ou mais coros (p-valor <0,001).

Tabela 1
Comparação dois a dois entre as proporções das quantidades de sintomas na voz falada
Tabela 2
Comparação dois a dois entre as proporções das quantidades de sintomas na voz cantada

Os resultados mostraram que embora a quantidade de 49 sujeitos (39%) com ausência de sintomas na voz falada seja a maior proporção encontrada, não se pode considerar como sendo estatisticamente diferente do nível de 1 ou 2 sintomas na voz falada (39%) (Tabela 1).

Quanto ao número de sintomas na voz cantada, a maior proporção dos sujeitos (45%) têm 1 ou 2 sintomas, no entanto não se pode dizer que existe diferença proporcionalmente significativa para com a proporção de sujeitos com 3 ou mais sintomas na voz cantada (35%) (Tabela 2).

Na análise da questão relativa à influência do canto na vida dos coralistas, o nível de resposta com a maior proporção está em B “Cantar é uma das 3 coisas mais importantes” e este é significativamente diferente de todos os demais níveis (Tabela 3).

Entre os sujeitos pesquisados, 41 (49%) dos que relataram não ter o costume de falar em tom mais grave ou mais agudo que o tom que consideram adequado, indicaram ausência de sintomas vocais na voz falada, sendo que 18 (44%) dos que relataram possuir 3 ou mais sintomas na voz falada mencionaram que geralmente falam em tom de voz mais grave ou mais agudo do que deveriam (p-valor < 0,001) (Tabela 4).

Tabela 3
Comparação dois a dois entre as proporções das quantidades de sujeitos com relação à influência do canto em suas vidas
Tabela 4
Relação entre o número de sintomas na voz falada e os aspectos pesquisados referentes às informações sobre a prática de canto, hábitos abusivos na voz falada, histórico de saúde vocal, sintomas na voz cantada, sentimentos negativos quanto a voz, tendências emocionais e importância do canto
Tabela 5
Relação entre o número de sintomas na voz cantada e os aspectos pesquisados referentes às informações sobre a prática de canto, hábitos abusivos na voz falada, histórico de saúde vocal, sintomas na voz falada, sentimentos negativos quanto a voz, tendências emocionais e importância do canto
Tabela 6
Relação entre classificação vocal (naipes) e os aspectos pesquisados referentes às informações sobre a prática de canto, hábitos abusivos na voz falada, histórico de saúde vocal, sintomas na voz falada, sintomas na voz cantada, sentimentos negativos quanto a voz, tendências emocionais e importância do canto
Tabela 7
Associação entre as quantidades de sintomas na voz falada e na voz cantada

Com relação ao sentimento de frustração com a voz nas últimas 2 semanas, 48 sujeitos (42%) que relataram não estarem frustrados não possuíam sintomas vocais relativos à voz falada, tendo sido este um dado estatisticamente significativo (p - valor 0,048). Também foi possível constatar associação entre não estar preocupado com a voz e a ausência de sintomas na voz falada, sendo que 40 sujeitos (49%) se enquadraram neste perfil (p-valor 0,003) (Tabela 4).

Houve associação estatisticamente significativa (p-valor 0,001) para a resposta de 38 sujeitos (47%) que relataram ausência de sintomas na voz falada e afirmaram não possuir desconforto na garganta após cantar mais que uma hora. Também foi estatisticamente significativa (p-valor 0,014) a ausência de sintomas na voz falada para 48 sujeitos (41%), associado a não sentir dor de garganta especialmente após cantar mais que uma hora (Tabela 4).

Quanto aos aspectos emocionais, ocorreu associação estatisticamente significativa entre o número de sintomas na voz falada e o costume de ser preocupado (p-valor 0,018), e também quanto a se deprimir a maior parte do tempo (p-valor 0,020), sendo que 32 sujeitos (38%) com 1 ou 2 sintomas na voz falada relataram se preocupar demais com as coisas e 47 sujeitos (43%) com ausência de sintomas declararam não se deprimir a maior parte do tempo (Tabela 4).

Dentre os 56 sujeitos que relataram 1 ou 2 sintomas na voz cantada, 38 desses sujeitos (46%) mencionaram não ter o hábito de falar alto (p-valor 0,013) (Tabela 5).

Houve associação estatisticamente significativa quanto aos dados relativos aos sentimentos de frustração com relação à voz e ao número de sintomas na voz cantada (p-valor 0,003), sendo que 55 sujeitos (49%) que mencionaram não sentir frustração com a voz, relataram 1 ou 2 sintomas na voz cantada. Dos sujeitos que relataram 1 ou 2 sintomas na voz cantada, 35 (43%) não estavam preocupados com a voz nas últimas duas semanas (p-valor 0,007) (tabela 5).

Com relação à sensação de garganta ressecada durante a voz falada, dos 75 sujeitos que referiram não sentir tal sintoma, 38 sujeitos (51%) mencionaram 1 ou 2 sintomas na voz cantada (p-valor 0,039). É possível ressaltar também que 46 sujeitos que possuíam 1 ou 2 sintomas na voz cantada, mencionaram não sentir desconforto na garganta durante a voz falada, sendo este um dado estatisticamente significativo (p-valor 0,004) (Tabela 5).

Na análise realizada entre os naipes e os itens levantados no questionário, com relação aos sintomas na voz falada, 36 sopranos (34%) relataram não apresentar fadiga vocal, sendo este um dado estatisticamente significativo (p-valor 0,023) (Tabela 6).

Quanto aos sintomas na voz cantada, houve associação com relação à dificuldade em alcançar ou cantar notas agudas em pianíssimo (p-valor 0,013), sendo que 23 contraltos (35%) relataram possuir esta dificuldade. Também foi possível constatar que 34 sopranos (44%) não mencionaram dificuldade na realização da transição de registro (pvalor 0,019) (Tabela 6).

Os resultados estatísticos mostraram associação significativa com relação aos naipes e a quantidade de sintomas na voz cantada, sendo que 15 contraltos (34%) relataram 3 ou mais sintomas e 21 sopranos (37%) 1 ou 2 sintomas vocais na voz cantada (p-valor 0,024) (Tabela 6).

Foi possível averiguar pelos dados que não existe nenhuma dependência e/ou associação estatística entre a quantidade de sintomas na voz falada e a quantidade de sintomas na voz cantada (Tabela 7).

DISCUSSÃO

Os resultados apontam que há maior relato de sintomas vocais múltiplos (mais de três sintomas) relacionados à voz cantada, sendo que quanto à voz falada a ausência de sintomas é que se mostra significativa. Quanto ao número de sintomas, também foi possível observar independência estatística entre a quantidade de sintomas na voz falada e de sintomas na voz cantada. Ou seja, não houve tendência de que os coralistas que apresentaram grande número de sintomas na voz falada também apresentassem o mesmo número de sintomas na voz cantada.

Esses achados parecem indicar que há uma certa independência entre a produção da voz falada e da voz cantada quanto ao número de sintomas apresentados. Os coralistas mencionaram maior dificuldade quanto a voz cantada, sem apresentar indícios de alteração na voz falada, indicando a possibilidade de falta de técnica de canto 6.

A necessidade de ajustes musculares refinados no canto 1-4 também pode delatar a limitação de habilidades, refletindo numa dificuldade maior e sendo mais perceptível na forma de sintomas na voz cantada que na produção da voz falada, já que esta última exige menos do mecanismo fonatório.

A diferença no relato de número de sintomas entre voz cantada e falada, também pode ter resultado dos fatores emocionais envolvidos. A grande maioria dos sujeitos disse que cantar é uma das três coisas mais importantes de sua vida, demonstrando a grande importância do canto. Sendo assim, pode ser que esta população dispenda grande atenção à voz cantada, estando mais sensibilizada quanto a mudanças na qualidade vocal no canto do que à percepção de sintomas na voz falada.

As associações estatísticas encontradas entre os sentimentos frente à voz e à quantidade de sintomas tanto na voz falada, quanto na voz cantada, mostra que a referência a não estar frustrado ou preocupado com a voz está relacionada com a ausência ou número inexpressivo de sintomas vocais, indicando como os aspectos emocionais podem interferir na produção vocal. Se uma pessoa apresenta três ou mais sintomas na voz cantada, há grande possibilidade desta pessoa sentir-se preocupada com relação a seu canto, interferindo então em sua vida de forma significativa.

Este fato está de acordo com o achado de que os sujeitos com poucos sintomas de atrito vocal (no máximo dois), apontaram não se preocupar demais com as coisas ou terem tendência de se deprimir.

Das associações estatísticas entre o número de sintomas e os hábitos de voz falada e cada sintoma separadamente de voz falada e cantada, pode-se pensar que falar em tom adequado e não sentir dor ou desconforto após cantar mais que uma hora, é indicativo de quantidade reduzida de sintomas na voz falada (no máximo dois). Já não ter o hábito de falar alto, não sentir garganta ressecada ou desconforto na voz falada, pode indicar pequeno número de sintomas na voz cantada.

Essas associações demonstram uma correlação entre aspectos isolados da voz falada e da voz cantada, sendo que a investigação de um padrão de fonação pode sugerir a presença de sintomas compatíveis a um quadro de atrito vocal, demonstrando a importância de se investigar num coralista não apenas aspectos referentes à voz cantada, mas também estar atento aos aspectos da voz falada

Sendo assim, o treino específico da voz cantada pode não refletir no padrão de produção da voz falada, como indicam estudos recentes 8-10, mas o atrito vocal no canto pode influenciar a qualidade da voz falada, sendo a afirmação inversa também verdadeira, pois o mecanismo é o mesmo. Se ele é prejudicado durante a fala, isso refletirá em piora na produção do canto e vice-versa 6.

É interessante ressaltar que os achados apontam o naipe de sopranos com o que menos indica dificuldades vocais. Já o naipe de contraltos o que

mais relata sintomas múltiplos na voz cantada, sendo as principais dificuldades a de transição de registro e alcançar ou cantar notas agudas em pianíssimo. Esses dois sintomas de voz cantada podem refletir diretamente a técnica no canto, pois para realizá-los há necessidade de grande controle dos ajustes neuromusculares, como a independência na variação de intensidade e freqüência.

Investigações mais específicas precisariam ser realizadas para identificar o motivo das diferenças encontradas entre os quatro naipes.

CONCLUSÃO

Na busca por informações sobre o perfil vocal de coralistas amadores, constatou-se que a média de prática do canto coral da população investigada foi de 7,8 anos, sendo que a grande maioria canta em apenas um coro.

Houve maior relato de sintomas múltiplos na voz cantada quando comparado à quantidade de sintomas relatados para a voz falada.

Quanto às diferenças entre os naipes, os resultados apontaram que as sopranos relataram menor número de dificuldades vocais. Já as contraltos apresentaram maior número de sintomas múltiplos com relação à voz cantada, principalmente na transição de registro e alcançar ou cantar notas agudas em pianíssimo.

Foi encontrada associação entre sintomas, hábitos e sentimentos da voz falada e da cantada com relação ao número de sintomas nos dois padrões de produção (fala e canto), demonstrando a importância da investigação destes dois padrões, mesmo que o coralista mencione queixas em apenas um deles, para que se garanta uma visão global dos aspectos que possam influenciar a qualidade vocal das pessoas que praticam o canto coral amador.

AGRADECIMENTO

Ao CoralUsp pela participação e incentivo na realização deste trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2005

Histórico

  • Recebido
    16 Jan 2005
  • Aceito
    06 Jun 2005
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