Open-access Comunicação não violenta na Fonoaudiologia: uma proposta de humanização das relações no ambiente universitário

Prezados Editores-Chefes,

Por meio desta carta, apresentamos a Comunicação Não Violenta (CNV) como uma proposta para a humanização das relações no contexto universitário da Fonoaudiologia.

A CNV é uma abordagem comunicacional centrada na empatia, na escuta ativa e no reconhecimento das necessidades humanas e está fundamentada na ideia de que toda forma de violência, seja ela verbal, emocional ou relacional, é resultado de necessidades não reconhecidas/mal expressas. A CNV propõe uma prática de linguagem baseada em quatro componentes: observação sem julgamento, expressão de sentimentos, identificação de necessidades e formulação de pedidos claros1.

A CNV tem se mostrado uma ferramenta poderosa para a promoção de relações mais éticas, colaborativas e saudáveis. Na formação em Fonoaudiologia, essa perspectiva torna-se ainda mais relevante. O processo formativo na nossa área exige do estudante o desenvolvimento de habilidades relacionais fundamentais, que sustentem sua prática profissional. Como profissionais da comunicação humana, os fonoaudiólogos devem ser capazes de se expressar com clareza, escutar com sensibilidade e construir vínculos baseados no respeito, na ética e na empatia. Contudo, acreditamos que essas competências precisam e podem ser cultivadas intencionalmente, desde o início da graduação.

Entendemos, portanto, que a CNV na formação em Fonoaudiologia pode ser aplicada de forma estruturada e contínua em, ao menos, quatro níveis fundamentais:

  1. Nas relações entre estudantes e professores/preceptores: A comunicação nesse contexto é frequentemente marcada por silenciamentos e desentendimentos que geram sofrimento psíquico e insegurança. A CNV pode transformar essas dinâmicas, favorecendo ambientes com liberdade de expressão, acolhimento emocional e construção conjunta do conhecimento. O estudante precisa se sentir seguro para errar e pedir ajuda, enquanto o professor/preceptor deve ser reconhecido como alguém em constante formação. A escuta mútua fortalece o vínculo pedagógico e sustenta uma cultura acadêmica justa e humanizada.

  2. Nas relações entre estudantes: A vivência universitária envolve desafios como dinâmicas em grupo, práticas e avaliações. Integrar a CNV a esse cotidiano favorece uma cultura de escuta, autocuidado, respeito, cooperação e resolução pacífica de conflitos, sendo fundamental para o desenvolvimento ético e relacional.

  3. Nas relações interprofissionais e interdisciplinares: O trabalho em saúde demanda constante diálogo entre diferentes cursos e profissões. A CNV contribui para que as equipes multiprofissionais construam espaços de respeito e cooperação, reduzindo ruídos comunicacionais que frequentemente dificultam a integração. Assim, estudantes de Fonoaudiologia e demais cursos e outros profissionais podem alinhar objetivos em torno do cuidado integral, fortalecendo a prática colaborativa no Sistema Único de Saúde (SUS) e em outros cenários de atuação.

  4. Nas relações com pacientes e clientes: O exercício clínico da Fonoaudiologia envolve encontros marcados por vulnerabilidade, expectativas e emoções. O uso da CNV favorece vínculos terapêuticos mais empáticos e humanizados, sustentados pela escuta ativa, clareza na linguagem e valorização das necessidades do paciente/cliente e de sua família. Essa postura amplia a adesão ao tratamento, fortalece a confiança no profissional e contribui para a qualidade do cuidado em saúde.

Para além da teoria, é fundamental pensarmos em estratégias viáveis que favoreçam a implementação da CNV na graduação em Fonoaudiologia. Algumas das nossas propostas incluem2:

  1. Oficinas e rodas de conversa regulares entre professores/preceptores e discentes, com foco em escuta empática, expressão autêntica e gestão emocional nas relações acadêmicas;

  2. Grupos e espaços de mediação entre pares para lidar com situações de conflito de forma restaurativa e empática;

  3. CNV como conteúdo transversal em disciplinas obrigatórias;

  4. Capacitação de professores/preceptores, promovendo uma cultura institucional sensível às necessidades afetivas e comunicacionais;

  5. Práticas extensionistas que conectem a CNV ao cuidado em saúde, reforçando seu caráter humanizador;

  6. Utilização de metodologias ativas em que estudantes possam vivenciar situações de conflito e aplicar princípios da CNV em interações com colegas, equipe multiprofissional e pacientes/clientes;

  7. Estimular supervisores de estágio a valorizar a dimensão comunicacional das condutas clínicas, promovendo reflexões sistemáticas sobre a qualidade da interação com pacientes/clientes e familiares;

  8. Confecção de diários reflexivos ou portfólios formativos em que os estudantes registrem experiências que aplicaram ou perceberam a ausência da CNV em seu percurso acadêmico, promovendo autoconhecimento e avaliação crítica das relações;

  9. Promover projetos conjuntos com outros cursos da saúde para desenvolver práticas de CNV no contexto do trabalho em equipe;

  10. Avaliação institucional periódica para monitorar o impacto da CNV no ambiente acadêmico e ajustar estratégias.

Na Fonoaudiologia, essa discussão ganha ainda mais sentido. Como esperar que um profissional dedicado ao cuidado da comunicação humana consiga promover escuta, acolhimento e diálogo em sua prática clínica, se ele próprio não vivenciar esses valores durante a sua formação? Lançamos um convite à comunidade acadêmica e profissional para que o compromisso com a formação não se restrinja à excelência técnica e científica, mas se estenda, de forma intencional, à construção de ambientes educacionais mais empáticos e dialógicos. Que a CNV possa ser reconhecida como um facilitador e pilar essencial da nossa formação.

Referências bibliográficas

  • 1 Rosenberg MB. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Editora Ágora; 2021.
  • 2 Leu L. Exercícios de comunicação não violenta: um guia prático para estudo individual, em grupo ou em sala de aula. São Paulo: Editora Ágora; 2023.
  • Fonte de financiamento
    Nada a declarar

Editado por

  • Editor Chefe
    Erissandra Gomes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Out 2025
  • Revisado
    18 Out 2025
  • Aceito
    29 Out 2025
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