Open-access ANÁLISE DA EXTENSÃO E TESSITURA VOCAL DO CONTRATENOR

Vocal range and tessitura analysis of the countertenor voice

RESUMO

Objetivo:  pesquisar a extensão, a tessitura vocal e o tom habitual de fala dos contratenores para caracterizar este tipo vocal.

Métodos:  nove cantores contratenores foram avaliados por meio de gravação de amostras vocais. As amostras vocais foram analisadas acusticamente (extração de medidas de f0 e “pitch”) para obtenção dos valores referentes a tom habitual de fala e extensão vocal.

Resultados:  os sujeitos apresentaram tom habitual de fala compreendido na região normal masculina; há dois tipos de contratenores: o contratenor bassus e o contratenor altus, ou seja, grave e agudo respectivamente; os contratenores agudos analisados apresentaram extensão e tessitura vocal bem acima da média encontrada na literatura.

Conclusões:  os contratenores avaliados apresentaram f0 habitual na região prevista para falantes do gênero masculino. Em contrapartida, extensão e tessitura vocal mostraram-se ampliadas.

DESCRITORES:
Voz; Fonação; Qualidade da voz

ABSTRACT

Purpose:  to study the vocal range of countertenors, tessitura and speaking fundamental frequency.

Methods:  nine countertenors were evaluated by means of recording vocal sample. Vocal samples were analyzed acoustically (to extract fundamental frequency and “pitch”) in order to obtain values related to speaking fundamental frequency and vocal range.

Results:  the subjects were shown to have speaking fundamental frequency within the normal male vocal range; two types of countertenor were identified: countertenor bassus, and countertenor altus, respectively low and high countertenors; the countertenors alti showed a much higher vocal range and tessitura than the average found in published data.

Conclusion:  the evaluated contratenors showed habitual fundamental frequency in the region foreseen for male patients. By contrast, vocal extension and tissura are shown to be enlarged.

KEYWORDS:
Voice; Phonation; Voice quality

INTRODUÇÃO

A voz pode ser dividida, no canto, em seis subtipos a seguir: soprano, mezzo-soprano e contralto (para as vozes femininas); tenor, barítono e baixo (para as vozes masculinas) 1-7.

No canto lírico utiliza-se o registro vocal modal e o falsete. Registro vocal é uma série de tons homogêneos que se refere a regiões perceptualmente distintas da qualidade vocal, sendo independentes da freqüência do tom emitido. São divididos basicamente em fry, modal (subdividido em peito, médio e cabeça) e falsete 8-9. O termo registro apresenta muitas controvérsias. Diferentes linhas de pesquisa consideram os registros vocais de diversas formas. Antigamente, o registro era relacionado a aspectos puramente ressonantais. Numa visão mais atual, os diferentes registros estão relacionados com a contração de grupos musculares laríngeos específicos 10.

A principal característica do registro modal, ao longo de toda sua extensão, é a grande atividade de ambos os músculos tensores (tireoaritenóideo e cricotireóideo) 8.

Já o registro de falsete é caracterizado pelo relaxamento do músculo vocal e por uma hiperatividade do músculo cricotireóideo 8, 11, com conseqüente estiramento do ligamento vocal, deixando apenas as margens das pregas vocais livres para vibrar 12-14.

Os diferentes tipos de vozes de falsete que se encontram no homem são: (1) contratenor (countertenor, haute-contre, contratenor, alto, etc); (2) Falsetto (falsetista italiano, fausset, etc); (3) castrato (castrado, sopranista, cantori evirati, falsettist naturali, musici) 15.

Contratenores solistas são homens adultos com voz falada de tenor ou barítono/baixo, que geralmente usam uma técnica vocal de falsete para cantar partes de contralto (alto) ou soprano 16-17.

A voz de contratenor, historicamente surgida no século XIV e no início do século XV, sobre uma linha musical composta na mesma extensão do tenor, é derivada na Inglaterra no final da polifonia medieval e renascentista, período que antecedeu o barroco, via contratenor altus (contratenor agudo), que, usado permutavelmente, torna-se ‘contratenor’ e ‘altus’, então contralto (como na nomenclatura italiana) e ainda mais tarde, até contralto masculino 18.

A técnica de conceber primeiro a parte de tenor e depois adicionar outra linha, ou linhas, contra este, persistiu aproximadamente depois de 1450, quando o contratenor dividiu-se em duas categorias, o ‘contratenor altus’ e o ‘contratenor bassus’ 16. Em diferentes países e períodos eles se tornaram titulados, diversamente, ‘contratenor’, ‘alto’, ‘altist’, ‘falsettist’, ‘contralto’ ou ‘haute-contre’ 18.

Existem várias formas para se classificar uma voz no canto: pela extensão vocal, pela tessitura, pela cor, por laringoscopia, por constituição física, pelo tom médio da fala. A classificação pela extensão vocal é a mais antiga e tradicional 4. O termo extensão vocal refere-se ao número de notas da mais grave a mais aguda que um indivíduo consegue produzir, não importando a qualidade vocal 4, 8, 19-20. A faixa de extensão vocal normal varia de uma oitava (12 semitons) a aproximadamente 4,5 oitavas (54 semitons) 21.

A classificação pela tessitura é a ideal. Nas vozes não treinadas, a tessitura é mais limitada que a extensão e, com os treinos, os dois vão se igualando. O termo tessitura vocal corresponde ao número de notas da mais grave até a mais aguda que o indivíduo consegue produzir com qualidade vocal, onde se encontra a melhor sonoridade, a emissão mais natural e, conseqüentemente, a maior expressividade 4, 8, 19.

Tanto o termo extensão vocal como tessitura incluem a livre transição entre o registro modal e o falsete, podendo ser aplicadas a todos os tipos de vozes do canto.

Os contratenores são cantores que também podem atuar utilizando o registro modal, cantando como baixos, barítonos e tenores 9, 15-17, 22-23.

Em vários estudos sobre contratenores encontram-se relatadas as extensões vocais destes quando cantam na voz modal e no falsete 15, 17, 22-23.

A extensão da voz de contratenor e falsetista é aproximadamente de: 164 Hz (Mi2) - 698 Hz (Fá4) sem falsete; 130 Hz (Dó2) - 784 (Sol4) com falsete 15.

Num estudo sobre o comportamento laríngeo e faríngeo do canto do contratenor e barítono, as extensões vocais dos contratenores em voz de barítono e contratenor foram relatadas pelos próprios cantores. Na voz de barítono as extensões vocais eram de 98 Hz (Sol1) - 329,6 Hz (Mi3), 98 Hz (Sol1) - 293,7 Hz (Ré3), 92,5 Hz (Fá#1) - 329,6 Hz (Mi3) e 110 Hz (Lá1) - 329,6 Hz (Mi3) respectivamente. Na voz de contratenor as extensões vocais eram de 174,6 Hz (Fá2) - 784 Hz (Sol4), 174,6 Hz (Fá2) - 698,5 Hz (Fá4), 740 Hz (Fá#2) - 698,5 Hz (Fá4) e 196 Hz (Sol2) - 659,3 Hz (Mi4), respectivamente 22.

Numa pesquisa sobre a intensidade vocal em fonação de falsete, analisou-se um contratenor cuja extensão vocal era de 69 Hz (Do#1) até 392 Hz (Sol3) no registro de peito e de 147 Hz (Ré2) até 587 Hz (Ré4) no registro de falsete 23.

O contratenor não faz parte do quadro de classificação vocal utilizado atualmente, pois é uma voz que caiu em desuso no repertório lírico pós-barroco e desde então não se tem dado importância ao seu tipo vocal, exceto para execuções musicais da Idade Média e Renascença 19.

O objetivo deste estudo foi o de pesquisar a extensão, a tessitura vocal e o tom habitual de fala dos contratenores para caracterizar este tipo vocal.

MÉTODOS

Foram examinados nove contratenores de várias localidades do Brasil, com idades variando entre 18 a 45 anos, sem queixa vocal, independentemente de conhecimento prévio da existência de patologia. Todos os sujeitos tinham experiência acima de dois anos no canto. Os dados referentes a idade, experiência e naipe são referidos na Figura 1.

Figura 1
Caracterização dos Sujeitos segundo idade, experiência e naipe

Antes da coleta das amostras, perguntou-se sobre a tessitura vocal dos sujeitos, a qual foi considerada de acordo com o próprio conhecimento destes, relativo ao tom mais grave e mais agudo que conseguiam produzir, na voz de contratenor, com boa qualidade vocal (Figura 2).

Figura 2
Tessitura Vocal relatada pelos sujeitos da amostra na voz de contratenor

As emissões vocais foram registradas em gravador digital (marca Sony modelo MZ-N10), mini disc, com o microfone (marca Sony modelo ECM-MS907) posicionado a 10 cm da boca do sujeito com ângulo de captação de 45°.

Os sujeitos foram solicitados a emitir:

- A frase “eu quero suco de uva” com prolongamento da vogal [a] por 10 segundos;

- Vogal [a] em glissando do tom mais grave possível, excluindo o fry, ao tom mais agudo possível independente da utilização de mais de um registro vocal.

Essa emissão não pôde exceder o tempo de 15 segundos. A tarefa foi iniciada partindo de um tom médio aleatório, descendo até o tom mais grave por eles conseguido e, quando atingindo este, realizou-se um glissando em direção ao agudo. Essa tarefa foi treinada com os sujeitos antes da sua gravação para posterior extração. Consideraram-se as freqüências mais graves e mais agudas, os tons relativos em escrita musical e o número de semitons entre o tom mais grave e o mais agudo obtido.

A digitalização das amostras ao software Multispeech da Kay Elemetrics Corp. foi feita através da conexão do gravador digital no computador IBM Aptiva modelo E30P™, processador AMD - K6 - 2/ 500 MHz, memória de 128 mega bytes RAM, e placa de som Sound Blaster™ A freqüência de amostragem foi definida em 22050 Hz e 16 bits.

Para a análise das amostras digitalizadas, foi utilizado o software Multi-Speech da Kay Elemetrics Corp, módulos MDVP Advanced e Real-Time Pitch. Estes foram utilizados para avaliar, respectivamente, a freqüência habitual da fala e a extensão vocal.

A freqüência habitual de fala foi obtida pela análise de um trecho de 4s da vogal [a] sustentada ao final da frase solicitada.

Os resultados foram apresentados comparativamente com base na freqüência fundamental habitual de fala e da música, bem como as extensões vocais (em notas, valores em Hz de extremos inferior e superior e em intervalo de semitons) e as tessituras vocais (em notas nos extremos inferior e superior).

Todos os sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica, sob o número 029/03.

RESULTADOS

Na Figura 3 estão representadas as freqüências habituais de fala e o tom musical relativo analisados em cada sujeito.

Figura 3
Tom Habitual de Fala (em Hz e no tom correspondente) Vogal [a] sustentada Frase: “eu quero suco de uva”

Na Figura 4 estão representadas as extensões vocais na vogal [a], glissando do tom mais grave ao mais agudo.

Figura 4
Análise da Extensão Vocal (valores de freqüência mínima e máxima expressos em Hz, tons e número semitons).Glissando vogal [a] do tom mais grave ao mais agudo.

Na Figura 5 estão representados graficamente os dados dos valores extremos inferior e superior da extensão vocal e tessitura vocal e o tom habitual de fala de cada sujeito.

Figura 5
Tom Habitual de Fala, Extensão e Tessitura Vocal

As freqüências de ocorrência das notas mais graves e mais agudas na tessitura vocal relatada pelos sujeitos e na extensão vocal analisada estão apresentadas nas Tabelas 1, 2, 3 e 4.

Tabela 1
Tom mais grave da tessitura Vocal relatada pelos sujeitos na voz de contratenor
Tabela 2
Tom mais agudo da tessitura vocal relatada pelos sujeitos na voz de contratenor
Tabela 3
Tom mais grave da extensão vocal e freqüência de ocorrência
Tabela 4
Tom mais grave da extensão vocal e freqüência de ocorrência Glissando vogal [a] do tom mais grave ao mais agudo

DISCUSSÃO

O tom habitual de fala masculino na faixa etária dos 20 a 29 anos é de 120 Hz; entre 40 e 49 anos, 107 Hz 24. Para sujeitos brasileiros, a média encontrada foi de 113 Hz 25. A freqüência fundamental mais grave para os baixos é 64 Hz, o dos barítonos 110 Hz e o dos tenores, 123 Hz 4.

Considerando-se que o tom habitual esperado seja por volta da 3a e 5a nota acima da freqüência fundamental mais grave em cada naipe 26, pode-se considerar que a faixa de tom habitual para os cantores do gênero masculino é de 110 Hz a 174 Hz. Nesta pesquisa, apenas um contratenor apresentou tom habitual de fala acima desta faixa, tendo sido avaliado em 209 Hz (Sol#2). Este valor mais elevado para o tom habitual de fala pode ser devido a utilização do registro de falsete durante a fala. Por outro lado, o tom habitual de fala de quatro sujeitos encontra-se mais grave que o esperado para cada um deles, considerando-se a mesma regra acima 26.

Partindo da definição de tessitura vocal que corresponde ao número de notas, da mais grave até a mais aguda, que um cantor consegue produzir com qualidade de canto 4,8,19 e, considerando a extensão vocal como sendo semelhante à tessitura, sem se preocupar com a qualidade 4, 8,19-20, verifica-se, a partir dos resultados, a clara divisão dos contratenores em duas categorias. Conforme referido na literatura 18 encontra-se o contratenor bassus e o contratenor altus, que aqui serão chamados de contratenor grave e agudo, respectivamente.

As referências de tessitura vocal dos contratenores encontradas na literatura mostramse na média variante de: Fa2 (174,6 Hz) à Sol2 (196 Hz) para o tom mais grave, e de Mi4 (659,3 Hz) à Sol4 (784 Hz) para o tom mais agudo 15,22-23.

No presente estudo as tessituras relatadas foram na média de: Mi2 (163 Hz) - Sol2 (196 Hz) à Sol4 (784 Hz) para os contratenores graves e de Mi2 (164 Hz) - Sol2 (196 Hz) à Sib4 (955 Hz) para os contratenores agudos. Essas tessituras foram maiores para os contratenores agudos do que as encontradas na literatura.

A análise da extensão vocal considerou o tom mais grave e o mais agudo dos sujeitos partindo do registro modal em direção ao falsete na voz de contratenor.

As referências de extensão vocal dos contratenores na literatura, considerando o registro modal e falsete, mostram-se na média variante de: Fá#1 (92,5 Hz) à La1 (110 Hz) para o tom mais grave, e de Mi4 (659,3 Hz) à Sol4 (784 Hz) para o tom mais agudo 22-23.

Encontrou-se neste estudo extensão vocal, iniciando-se no registro modal em direção ao falsete, na média variante de: La1 (110 Hz) - Si1 (123 Hz) à Fa4 (711 Hz) - La4 (880 Hz) para os contratenores graves e de La1 (110 Hz) - Si1 (123 Hz) à Re5 (1191 Hz) para os contratenores agudos.

A extensão vocal dos contratenores agudos encontra-se bem acima da média da referida pela literatura 22-23. Pode-se hipotetizar que os contratenores referidos na literatura eram contratenores graves ou que estes evitavam cantar no topo de sua extensão.

Não foi possível estabelecer uma relação entre os subtipos vocais utilizados pelos sujeitos quando cantam no registro modal com a voz de contratenor no registro de falsete. Ou seja, não se pôde afirmar se contratenores graves tendem a ser baixos ou barítonos e contratenores agudos serem tenores.

A utilização do registro de falsete masculino pelo contratenor habilita-o a cantar em extensões bem próximas àquelas atingidas por vozes femininas.

CONCLUSÃO

Os sujeitos apresentaram tom habitual de fala compreendido na região normal masculina.

A análise da extensão e tessitura vocal caracterizam claramente a existência de dois tipos de contratenores: o contratenor bassus e o contratenor altus, ou seja, grave e agudo respectivamente.

Os contratenores agudos analisados apresentam extensão e tessitura vocal bem acima da média encontrada na literatura.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2004

Histórico

  • Recebido
    30 Jun 2004
  • Aceito
    20 Set 2004
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