Open-access Aspectos de saúde geral, mental e auditiva de trabalhadores da equipe de enfermagem de um hospital público acometidos pela Covid-19

RESUMO

Objetivo:  analisar possíveis impactos à saúde geral, mental e auditiva de trabalhadores da enfermagem acometidos pelo vírus da COVID-19.

Métodos:  estudo exploratório, transversal, realizado com profissionais da enfermagem de um hospital público da região Sul do Brasil, que responderam a um questionário sobre sintomas gerais e auditivos após a infecção pela COVID-19 e o Oldenburg Burnout Inventory (OLBI). A análise estatística foi realizada com a aplicação do teste do Qui-quadrado de independência, do teste ANOVA com pós-teste de Tukey e da Correlação Linear de Pearson, com p-valor em 5%.

Resultados:  participaram 52 trabalhadores (17 enfermeiros, 30 técnicos, cinco auxiliares). Os sintomas de cefaleia, perda do olfato e do paladar, cansaço e dores musculares foram referidos por mais de 75% dos trabalhadores; 80,8% ou já estão classificados com burnout (40,4%) ou já apresentam escores altos para exaustão ou para distanciamento do trabalho (40,4%), havendo correlação com os sintomas tosse (p = 0,0327) e febre (p=0,0235); 44,23% apresentaram sintomas auditivos, sendo a tontura/vertigem referida por 34,6% e zumbido por 13,5%, embora sem correlação com os níveis de burnout (p=0.4250).

Conclusão:  houve impactos na saúde geral, mental e auditiva dos trabalhadores da enfermagem que foram diagnosticados com COVID-19, principalmente tosse e febre, burnout, zumbido e tontura.

Descritores:
COVID-19; Saúde Ocupacional; Sinais e Sintomas; Audição; Zumbido; Tontura

ABSTRACT

Purpose:  to analyze possible impacts on the general, mental and hearing health of nursing workers affected by the COVID-19 virus.

Methods:  an exploratory, cross-sectional study, carried out with nursing professionals from a public hospital in Southern Brazil, who answered a questionnaire on general and auditory symptoms after COVID-19 infection, and the Oldenburg Burnout Inventory (OLBI). Statistical analysis was performed using the Chi-square test of independence, the ANOVA test with Tukey's post-test and Pearson's Linear Correlation, with a p-value of 5%.

Results:  52 workers participated (17 nurses, 30 technicians, five aides). The symptoms of headache, loss of smell and taste, fatigue and muscle pain were reported by more than 75% of workers; 80.8% either had already been classified as burnout (40.4%) or featured high scores for exhaustion or work disengagement (40.4%), with a correlation with the symptoms of cough (p=0.0327) and fever (p=0.0235); 44.23% had auditory symptoms, with dizziness/vertigo reported by 34.6% and tinnitus by 13.5%, although without correlation with burnout levels (p=0.4250).

Conclusion:  there were impacts on the general, mental and hearing health of nursing workers who were diagnosed with COVID-19, mainly cough and fever, burnout, tinnitus and dizziness.

Keywords:
COVID-19; Occupational Health; Signs and Symptoms; Hearing; Tinnitus; Dizziness

INTRODUÇÃO

Em dezembro de 2019, na província de Wuhan (China), emergiu o primeiro caso de síndrome respiratória aguda grave causada por um novo coronavírus 2 (SARS-COV-2)1. Posteriormente, a doença foi denominada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como COVID-19 (Coronavírus Disease 2019) e, no dia 11 de março de 2020, a OMS caracterizou essa doença como uma pandemia, devido ao rápido avanço e ao largo alcance de transmissão, atingindo 114 países até aquele determinado momento2.

Os pacientes com infecção por COVID-19 frequentemente apresentam sintomas neurológicos subjetivos desde as fases iniciais da doença, como disfunção do paladar, do olfato e da audição, o que pode ser justificado pelas propriedades neurotrópicas possivelmente intrínsecas da COVID-19, remetendo à necessidade de uma ampla investigação das consequências da infecção no sistema nervoso central3.

A disfunção do olfato e do paladar está presente em grande parte dos pacientes diagnosticados com a COVID-194-6. E esses sintomas podem ajudar na triagem de indivíduos infectados, podendo ser uma estratégia eficaz para interromper a transmissão no início da doença4.

O sintoma de disfunção auditiva, mesmo com menor incidência, também está relacionada ao diagnóstico de COVID-19. Em um estudo de revisão integrativa, os autores chegaram à conclusão de que o vírus da COVID-19 tem efeitos deletérios na audição e na qualidade de vida das pessoas infectadas, e sugerem que sejam realizados mais estudos para novas descobertas7.

Com o agravamento da pandemia, o sistema de saúde e os hospitais passaram a atender uma demanda extraordinária de pacientes com infecção respiratória em decorrência da gravidade dos sintomas causados pela COVID-19.

As pandemias exigem que os profissionais de saúde aguentem períodos de elevada carga de trabalho sob condições estressantes, em ambientes desconhecidos e de alto risco8, especialmente os profissionais da equipe de enfermagem, pois têm uma função importantíssima no atendimento à população, em todos os níveis de assistência, desde a pessoa ainda com a suspeita ou se já confirmada com a COVID-199.

Nesse contexto, os trabalhadores da enfermagem tornaram-se o maior grupo sujeito à contaminação pela COVID-19 devido a inúmeros fatores, como: inicialmente a falta de vacinas contra a doença, a falta de produtos para a saúde, insuficiência de equipamentos de proteção individual (EPI) e a sobrecarga de trabalho9.

Além da própria patogenicidade do vírus, os profissionais da saúde passaram por sofrimento psicológico, longas jornadas de trabalho, esgotamento profissional, fadiga e foram, até mesmo, vítimas de violência física e psicológica10.

Profissionais da enfermagem, que estão diretamente expostos aos pacientes diagnosticados com diversas doenças, e que por vezes são desconhecidas, como a COVID-19, associados à carga de trabalho excessiva, tempo insuficiente para recuperação, limitações de recurso, estruturas hospitalares inadequadas e distúrbios do sono, podem se sentir sob contínua pressão, resultando em insatisfação no trabalho e perda da qualidade do atendimento ao paciente. Além disso, a fadiga física e mental, estresse, ansiedade e esgotamento gradual podem levar à síndrome de burnout11,12.

Os profissionais acometidos por burnout podem desenvolver um distanciamento mental e emocional dos colegas de trabalho, dos pacientes e até mesmo dos seus entes queridos. Também aumenta a taxa dos erros na saúde impactando negativamente na saúde dos pacientes13.

Diante da expansão ocorrida do novo coronavírus dentro do território brasileiro, destacou-se o protagonismo dos profissionais de saúde no combate a essa pandemia contra a COVID-19. Como esses profissionais estiveram na linha de frente, lidando diretamente com o vírus, tornaram-se também potenciais vítimas.

Embora a ciência tenha avançado com a descoberta das vacinas e com as pesquisas que identificaram a ação do vírus e seus efeitos no organismo, muitas outras ainda serão necessárias até que se consigam evidências sobre possíveis sequelas provocadas pela COVID-19 e, muitas outras, ainda, até que se consiga, talvez, um tratamento adequado e efetivo.

Portanto, explorar os efeitos da COVID-19 pode colaborar para uma maior compreensão da ação desse vírus no organismo humano. Sendo assim, o presente estudo objetivou analisar possíveis impactos à saúde geral, mental e auditiva de trabalhadores da equipe de enfermagem que foram acometidos pelo vírus da COVID-19.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa exploratória, do tipo transversal, com abordagem quantitativa, aprovada pelo Comitê de Ética do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná sob o número 4.588.237 e CAAE número 41460720.7.0000.0096, e aprovada também pelo Comitê de Ética da Universidade Tuiuti do Paraná sob o número 4.650.079 e CAAE número 41460720.7.3001.8040. O estudo foi realizado com profissionais da equipe de enfermagem que trabalham em diferentes setores de um hospital público federal da instituição de origem, que foram diagnosticados com COVID-19 entre os anos de 2020 e 2021.

Para a seleção da amostra deste estudo foram adotados como critérios de inclusão: ter sido diagnosticado com a COVID-19 (pelos testes: RT-PCR positivo ou Sorologia reagente); ser enfermeiro ou técnico de enfermagem ou auxiliar de enfermagem; ter idade entre 18 e 59 anos; de qualquer sexo, com qualquer tempo de atuação no hospital, em qualquer regime de contratação e que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Como critérios de exclusão foram considerados: apresentar perda auditiva e/ou sintomas auditivos anteriores ao diagnóstico de COVID-19. Em seguida, os trabalhadores da equipe de enfermagem do hospital onde o estudo foi desenvolvido, foram convidados a participar por meio de mensagem enviada por Whatsapp com informações sobre o pesquisador, os objetivos do estudo e da metodologia a ser desenvolvida. Aos que aceitaram participar, foi enviado um questionário eletrônico estruturado na Plataforma Google (Google Forms®), contendo 39 questões fechadas (caixa de seleção ou escala Likert), sendo 26 questões para levantar dados sociodemográficos; condições gerais de saúde geral; informações sobre a saúde auditiva; e sobre os sintomas apresentados relacionados ao diagnóstico de COVID-19. As últimas 13 questões foram relacionadas ao Oldenburg Burnout Inventory (OLBI), criado e validado por Evangelia Demerouti, na Alemanha em 1999 e traduzido, adaptado e validado para o português brasileiro em 201814.

Em 2003, autores15 propuseram a mensuração do burnout em duas dimensões: Exaustão e Desligamento do Trabalho, sendo a Exaustão uma consequência da intensa e prolongada deformação física, afetiva e cognitiva à demanda de determinados trabalhos; e o Desligamento do Trabalho diz respeito ao distanciamento do trabalho e atitudes negativas para com o objeto, conteúdo ou o trabalho em geral. Composto por 13 (treze) questões, seis verificam a exaustão e sete verificam o desligamento do trabalho, sendo as respostas fornecidas em escala Likert variando de 01 (um) a 04 (quatro), sendo 01 para discordo completamente; 02 para discordo; 03 para concordo e 04 para concordo completamente. Autores14 afirmam que o OLBI é útil para mensurar a exaustão emocional e a despersonalização do trabalhador na realidade do Brasil. Quanto maior a pontuação, maior o nível de burnout.

Um estudo16 realizado em 2008 propôs que escores médios ≥2,25 na dimensão Exaustão Emocional (EE) e ≥2,1 na dimensão Distanciamento do Trabalho (DT) sejam considerados altos. Dessa maneira, os indivíduos serão classificados “com burnout” quando as dimensões exaustão e distanciamento estiverem ambos com escores altos; serão classificados “com distanciamento” quando a dimensão distanciamento estiver com escore alto e a exaustão estiver com escore baixo; serão classificados “com esgotamento” quando a dimensão exaustão estiver com escore alto e o distanciamento estiver com escore baixo; e serão classificados “sem burnout” quando ambas as dimensões estiverem com escore baixo.

Os resultados foram obtidos por meio de estatística descritiva, com aplicação dos seguintes métodos: (a) Para comparar a distribuição das variáveis qualitativas, foi aplicado o teste Qui-quadrado de independência; (b) Para avaliar a diferença entre três ou mais variáveis quantitativas foi aplicado o teste ANOVA com pós-teste de Tukey; (c) Para avaliar a correspondência linear entre variáveis quantitativas foi aplicada a Correlação Linear de Pearson. Foi previamente fixado erro alfa em 5% para rejeição da hipótese nula e o processamento estatístico foi realizado nos programas BioEstat, versão 5.3, e STATA, release 17.

RESULTADOS

Durante o período da pandemia, o hospital contou com um total de 1.891 profissionais da equipe de enfermagem, sendo 608 enfermeiros, 888 técnicos de enfermagem e 395 auxiliares de enfermagem.

Do total de 1.891 profissionais da equipe de enfermagem, 232 foram diagnosticados com COVID-19 em 2021 e, embora todos tenham sido convidados a participar da pesquisa, somente 63 profissionais aceitaram. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra do presente estudo foi composta por 52 profissionais, sendo 17 enfermeiros, 30 técnicos de enfermagem e cinco auxiliares de enfermagem.

Dentre os 52 trabalhadores, 75% são do sexo feminino (n=39) e 25% do sexo masculino (n=13). A idade variou entre 23 e 57 anos, com média de 39,62 anos, mediana de 39 anos e desvio padrão de 8,21 anos. O tempo de serviço variou entre um e 33 anos, com média de 15,33 anos, mediana de 15 anos e desvio padrão de 7,63 anos.

A seguir, na Tabela 1, são apresentados os sintomas gerais de saúde e os sintomas auditivos referidos pelos participantes durante e após a doença.

Tabela 1
Caracterização da amostra quanto à presença de sintomas gerais e auditivos durante e após a COVID-19 (n=52)

Observa-se na Tabela 1 que, durante a infecção pela COVID-19, o sintoma geral de saúde mais prevalente foi a cefaleia (80,77%) e após a doença foi o cansaço (36,54%). O sintoma auditivo de maior prevalência durante e após a COVID-19 foi a tontura/vertigem (34,61%) e (13,46%) respectivamente.

Observa-se, ainda, que alguns sintomas surgiram após a COVID-19, sendo mais prevalente a dificuldade para memorizar coisas importantes (perda de memória), relatada por 17 (32,69%) dos trabalhadores.

Dentre os 52 trabalhadores, somente sete (13,46%) não relataram qualquer sintoma após o tratamento da COVID-19. E 17 trabalhadores relataram não ter precisado fazer uso de medicamentos durante a infecção.

No tratamento da COVID-19, os medicamentos mais utilizados pelos 35 trabalhadores foram os analgésicos (n=25), seguidos dos antibióticos (n=13), sendo azitromicina o mais utilizado, e, em seguida, os corticoides (n=13). Também foi mencionada a utilização de ivermectina (n=04) e de hidroxicloroquina (n=01).

Na Tabela 2, a seguir, é apresentada a classificação dos níveis de burnout apresentados pelos trabalhadores, levantados pelo Oldenburg Burnout Inventory.

Tabela 2
Classificação dos níveis de burnout apresentados pelos trabalhadores quanto, em relação ao sexo (n=52)

É possível observar na Tabela 2 que, embora a presença de burnout seja maior entre o sexo masculino (46,2%), não houve diferença estatisticamente significativa quando comparada ao sexo feminino (p=0,8641).

Também não foi encontrada diferença estatisticamente significativa entre os níveis de burnout e idade (p=0,5854), tempo de serviço (p=0,8275) e sintomas auditivos referidos pelos trabalhadores (p=0,4250).

A seguir, na Tabela 3, são apresentadas estatísticas descritivas quanto aos níveis de burnout de acordo com os sintomas gerais.

Tabela 3
Estatísticas descritivas de burnout dos trabalhadores em relação aos sintomas gerais de saúde (n=52)

Observa-se na Tabela 3 que os sintomas tosse (escore médio = 2.42) e febre (escore médio = 2.43) apresentam os mais elevados níveis de burnout, quando comparados com os outros sintomas. Esses níveis de burnout significativamente maiores, foram encontrados após aplicação de método estatístico ANOVA com pós-teste de Tukey resultando um p-valor <0,0001.

A seguir, na Tabela 4, são apresentadas estatísticas descritivas quanto à dimensão Exaustão de acordo com os sintomas gerais.

Tabela 4
Estatísticas descritivas da dimensão exaustão emocional em relação aos sintomas gerais (n=52)

Observa-se na Tabela 4 que o único sintoma geral relacionado à dimensão Exaustão foi a Tosse (ALTA Exaustão = 2.25; p = 0,0327), quando comparado com os demais sintomas.

A seguir, na Tabela 5, são apresentadas as estatísticas descritivas quanto a dimensão Distanciamento de acordo com os sintomas gerais.

Tabela 5
Estatísticas descritivas da dimensão distanciamento do trabalho em relação aos sintomas gerais (n=52)

Observa-se na Tabela 5 que o sintoma geral com o maior escore relacionado a dimensão Distanciamento foi febre (ALTO Distanciamento = 2.67; p=0,0235), quando comparados com os outros sintomas.

DISCUSSÃO

Os sintomas mais prevalentes referidos pelos trabalhadores da equipe de enfermagem do presente estudo foram cefaleia, perda do olfato, alteração do paladar, cansaço e dor muscular (tabela 1). Diversos estudos têm trazido esses sintomas como sendo também os mais prevalentes em pessoas acometidas pela COVID-1917-26.

Caronna e Pozo27 em uma revisão narrativa realizada em 2021 sobre um ano de pesquisa da cefaleia como sintoma da COVID-19, referem que a dor de cabeça é um sintoma comum, sendo uma das principais queixas dos pacientes infectados pela COVID-19, com duração média de duas semanas, podendo chegar a seis meses. Segundo os autores, as mulheres e jovens parecem ser mais propensos a sentir dor de cabeça no contexto da COVID-19.

Algahtani et al.19 realizaram em 2022 um estudo com 808 pacientes sauditas acometidos pela COVID-19, visando enfatizar os fatores associados à persistência de anosmia e ageusia, observou que esses sintomas, de natureza quimiossensível, foram os mais relatados na fase aguda pelos participantes (com o percentual de 72% e 64,2% respectivamente). E persistiram como sendo os sintomas mais comuns na fase pós-aguda da COVID-19. Esse percentual se aproxima do que foi encontrado na presente pesquisa, sendo 78,85% e 76,92% respectivamente. Ainda sobre a pesquisa desses autores19, foi percebido que a persistência da anosmia e da ageusia estavam associadas ao sintoma de dificuldades auditivas e da cefaleia. E apontam que o fator mais significativo associado à ocorrência e persistência de anosmia e ageusia foi a variável sexo. A persistência de anosmia e ageusia no sexo feminino foi de 67% e 69,5%, respectivamente, em comparação ao sexo masculino (33%) e (30,5%), respectivamente. Outros autores22 apontam que a anosmia é um marcador precoce útil para realização de testes de COVID-19 ou autoisolamento.

Outros dois sintomas gerais com grande prevalência no presente estudo foram o cansaço e a dor muscular (Tabela 1), ambos mencionados por 76,92% dos pacientes e que estão em consonância com uma pesquisa23 aplicada em 2021 cujo objetivo foi descrever os sintomas reumáticos e musculoesqueléticos de 300 participantes após terem sido internados por COVID-19 no pós-alta hospitalar. Nesse estudo a fadiga foi relatada por 87,3% dos pacientes e a mialgia por 63,3%. E ainda relatou que o aumento do IMC foi associado a maiores chances de persistência de fadiga, mialgia e artralgia em 1 mês após a internação. Em outro estudo26, realizado em 2021, foi associado distúrbios do sono com a dor muscular quando esse sintoma for a principal queixa em paciente com COVID-19.

Dentre os sintomas auditivos, os mais prevalentes no presente estudo foram a tontura/vertigem, seguido de zumbido, da intolerância ao ruído, da perda auditiva, dificuldade em compreender a fala em conversas realizadas em ambientes com ruído competitivo (Tabela 1). Alguns estudos têm alertado para o impacto da COVID-19 sobre o sistema auditivo, dentre eles é possível citar autores28 que em 2022 realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de 12 artigos que trazem evidências relacionando a COVID-19 com a perda auditiva, zumbido e tontura. E concluem que a COVID-19 pode causar tontura, zumbido e perda auditiva, todavia alertam sobre a cautela na interpretação desses achados, recomendando a importância de que sejam realizados estudos bem desenhados, utilizando testes objetivos padrão.

Quanto aos medicamentos utilizados no tratamento da COVID-19, os três mais utilizados pelos trabalhadores foram os analgésicos, seguidos dos antibióticos (azitromicina o mais utilizado), seguido dos corticoides. É de comum conhecimento que, até o momento, não se têm disponível no mercado um medicamento específico, que combata especificamente o vírus da COVID-19. Porém em 2021, autores29 afirmam que a azitromicina é um antibiótico que, sem dúvida, têm propriedades antivirais de amplo espectro in vitro. E que a azitromicina surge consistentemente como uma medicação candidata em pesquisas contra vírus respiratórios, reforçando que já há indícios consistentes de eficácia clínica em estudos clínicos até o momento. Além de exibir adicionais propriedades anti-inflamatórias, podem ser clinicamente importantes na redução da imunopatologia em algumas doenças virais, principalmente contra osbetacoronavírus pandêmicos.

Entretanto alguns antibióticos podem apresentar natureza ototóxica, manifestando-se de forma auditiva ou vestibular. Em 2011, uma pesquisa30 disponibilizou uma lista de alguns medicamentos comumente utilizados com efeito ototóxico. E um dos medicamentos que compõem essa lista é a azitromicina, que segundo as autoras esse antibiótico pode estar envolvido na perda auditiva, na causa do zumbido e na causa da tontura ou vertigem. Diante dessa informação, tem-se a necessidade de continuar acompanhando os trabalhadores da equipe de enfermagem que participaram da pesquisa e apresentaram sintomas de dano auditivo.

Outro medicamento utilizado pelos trabalhadores encontrado nos relatos da presente pesquisa foi a utilização de corticoides. Em 2022, autores31 realizaram um estudo com 76 pessoas que foram divididas em dois grupos, o primeiro com 32 pessoas que receberam corticosteróides e o segundo grupo com 44 participantes não receberam, com o objetivo de analisar o impacto do tratamento com corticosteroides na presença de sintomas agudos da COVID-19 e qualidade de vida 1 ano após tratamento. E os resultados sugerem que o tratamento com corticosteroides em pacientes hospitalizados por COVID-19 não apenas melhora o prognóstico a curto prazo, como também atenua a presença de sintomas e melhora a qualidade de vida a longo prazo. Citam que a maioria dos sintomas foi menos frequente no grupo que recebeu corticosteroide, com diferenças estatisticamente significativas para cefaleia, disfagia, dor torácica e depressão. Entretanto sugerem necessidade de que mais estudos sejam realizados.

No presente estudo foi observado que 40% da amostra foi classificada com burnout e outros 40% dos participantes já apresentam níveis elevados em uma das duas dimensões (Exaustão ou Distanciamento) que caracterizam a síndrome de burnout (tabela 2). Tal síndrome já se encontra presente no cotidiano dos profissionais de enfermagem antes mesmo da pandemia atual. Estudos recentes têm abordado o impacto da COVID-19 sobre o desgaste no trabalho32,33.

Na pesquisa, em questão, foi observada uma predominância dos trabalhadores que apresentam uma tendência para níveis mais altos de Distanciamento e de níveis mais baixos para Exaustão, o que vai de encontro com outro estudo13, realizado em 2021, durante a pandemia de COVID-19, que visou determinar a prevalência e o grau de burnout experimentado pela equipe de emergência de dois Hospitais de Dublin (Irlanda), e encontrou um resultado com tendência para níveis mais altos de Exaustão e de níveis mais baixos para Distanciamento/Desligamento do Trabalho. Acredita-se que essa diferença está relacionada com a escolha do escore de ponto de corte, pois no estudo13 citado anteriormente foi utilizado um ponto de corte de ≥ 1,8 na dimensão exaustão. E no presente estudo foi utilizado o escore médio ≥ 2,25 na dimensão exaustão, abrangendo, portanto, um menor número de participantes.

O presente estudo observou que embora os níveis de burnout sejam maiores entre o sexo masculino (quase metade da amostra masculina), não houve diferença estatisticamente significativa quando comparado ao sexo feminino, o que significa que ambos os sexos estão expostos de forma semelhante ao nível de burnout no local de trabalho. Esse resultado vai ao encontro do que foi observado em outros estudos que avaliaram a incidência de burnout em profissionais da saúde, nesses estudos também não observaram diferenças significativas nos níveis médios de burnout entre profissionais do gênero masculino e do gênero feminino13,34.

Outro resultado do presente estudo foi que o nível de burnout (dimensão exaustão e distanciamento) não depende da idade. Também observado em outro estudo11, realizado em 2020 que tinha como objetivo avaliar o nível de burnout e seus fatores de influência em 245 enfermeiros, que foram divididos em dois grupos, comparando enfermeiros que atuam na linha de frente expostos a COVID-19, com enfermeiros não expostos a COVID-19, concluíram que o fator idade não mostrou diferença significante entre os dois grupos. Ainda em 2020, outros autores35 comentam que o fenômeno do burnout, ao que tudo indica, parece já estar fortemente instalada no mundo do trabalho e afetando todas as idades.

Os resultados encontrados no presente estudo evidenciaram que o nível de burnout não depende do tempo de profissão. O que sugere que os trabalhadores com menos tempo de experiência também podem estar suscetíveis aos fatores estressantes do trabalho. Esses autores35, supracitados, em seu estudo, pertinentemente, levantam o questionamento se o burnout afeta apenas trabalhadores com vários anos de experiência. Em outra pesquisa36 que foi realizada em 2021 é mencionado que o estresse relacionado ao trabalho, na área da enfermagem, já causa problemas, principalmente no primeiro ano de profissão, levando a uma rotatividade maior e diminuindo a permanência no serviço. Outros autores37-39 associaram recém-formados a níveis altos de burnout e que esses trabalhadores estão mais frequentemente com pensamento de deixar a enfermagem.

Como limitação do estudo, cita-se a não adesão dos 232 trabalhadores da equipe de enfermagem acometidos pela COVID-19, pois com uma amostra maior talvez fosse possível encontrar alguma correlação entre sintomas auditivos e saúde mental.

Como não foi possível encontrar literatura prévia que contemplasse estudos avaliando burnout associado a sintomas gerais secundários à pandemia vigente, sugere-se cautela na interpretação desses achados e a realização de mais estudos, inclusive longitudinais, com um maior número de participantes, buscando melhor entender os efeitos auditivos decorrentes da COVID-19 e sua relação com os sintomas mentais.

CONCLUSÃO

Os resultados do presente estudo possibilitam inferir que houve impactos na saúde geral, mental e auditiva dos trabalhadores da equipe de enfermagem que foram diagnosticados com COVID-19, sendo os principais sintomas gerais a cefaleia, anosmia, ageusia, astenia e mialgia. Quase metade dos participantes apresentou também sintomas auditivos, sendo os mais prevalentes a tontura/vertigem e o zumbido.

Foi observada uma alta porcentagem de burnout e um elevado número de profissionais já sendo classificados com escores altos para uma das duas dimensões (exaustão ou distanciamento), o que indica a necessidade de apoio emocional e de outras intervenções para a saúde mental desses trabalhadores. Porém, não houve diferença significativa entre o nível de burnout e sexo, idade e tempo de serviço, sugerindo que o nível de estresse enfrentado pelos trabalhadores é o mesmo.

Não foi encontrada correlação entre os níveis de burnout e os sintomas auditivos. Porém, para os sintomas gerais, tosse e febre, foram verificados os mais elevados níveis de Burnout.

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  • Estudo realizado na Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil.
  • Fonte de financiamento: Nada a declarar
  • Declaração de compartilhamento de dados: Os dados individuais dos participantes desidentificados poderão ser compartilhados, mediante solicitação ao autor de correspondência por correio eletrônico. No entanto, os que utilizarem os dados compartilhados devem se comprometer a citar os autores do presente estudo.

Disponibilidade de dados

Declaração de compartilhamento de dados: Os dados individuais dos participantes desidentificados poderão ser compartilhados, mediante solicitação ao autor de correspondência por correio eletrônico. No entanto, os que utilizarem os dados compartilhados devem se comprometer a citar os autores do presente estudo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Abr 2024
  • Revisado
    29 Maio 2024
  • Aceito
    24 Set 2024
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