RESUMO
Objetivo: comparar perceptivo-auditivamente a voz de idosas com a literatura e verificar se percebem o próprio envelhecimento vocal.
Métodos: 100 mulheres entre 60 e 95 anos responderam questões de auto-percepção sobre corpo, voz e rejuvenescimento vocal. A análise foi feita em duas etapas: 1) Comparou-se a resposta dos sujeitos com a das avaliadoras e quando coincidiam somava-se um, quando não, zero. 2) Considerou-se as respostas de maneira proporcional à temática das questões (corpo e voz) e criou-se quatro grupos que comparavam a percepção do envelhecimento corporal e vocal.
Resultados: idosas e fonoaudiólogas perceberam o envelhecimento físico de forma similar, não ocorrendo o mesmo com a percepção do envelhecimento vocal; a maioria das idosas desconhecia estratégias para rejuvenescer a voz.
Conclusão: os idosos pouco percebem o envelhecimento vocal e muitos desconhecem a possibilidade de rejuvenescer a voz, portanto a Fonoaudiologia deveria promover campanhas públicas de orientação à população idosa.
DESCRITORES:
Voz; Distúrbios da Voz; Idoso; Percepção; Rejuvenescimento
ABSTRACT
Purpose: to make a perceptive and hearing comparison between voice of aged people and the literature and to examine their perception about the own vocal aging.
Methods: 100 women between 60 and 95 years old answered questions on their own perception about body, voice and vocal rejuvenation. The analysis was made in two stages: 1) It compared the answers of subjects with the evaluation of speech therapists and when they coincided marked one, when were different zero. 2) The answers were considered proportionally to the thematic of the questions; four comparative groups were created regarding perception of body and vocal aging.
Results: the subjects and examiners perceived body aging in a similar way and perceived the vocal aging in a different form; where the majority of aged people didn’t know much about strategies to rejuvenate the voice.
Conclusion: public speech therapy campaigns about voice and vocal aging are needed, because aged people lack information about this theme.
KEYWORDS:
Voice; Voice Disorders; Aged; Perception; Rejuvenation
INTRODUÇÃO
A percepção da velhice ou senescência normalmente acontece de “fora para dentro” e não é reconhecida de imediato pela própria pessoa, mas parte do outro ou de uma situação do cotidiano 1.
No entanto, algumas mudanças que ocorrem na senescência são mais facilmente reconhecidas pelo indivíduo, como a cor dos cabelos que branqueiam, o surgimento de rugas na pele, diminuição da agilidade nos movimentos, flacidez muscular, déficits sensoriais e a menopausa, além da diminuição da estatura em função da compressão vertebral, estreitamento dos discos e cifose, redução da capacidade respiratória vital e volume expiratório 2.
Mas, e a voz? Será que as pessoas percebem que ela envelhece? E mais, será que as pessoas sabem que podem rejuvenescer a voz? E gostariam de fazer isso?
Na mulher, os marcadores de senilidade relacionados à laringe surgem após os 60 anos 3-4. Recebe o nome de presbilaringe o envelhecimento laríngeo inerente à idade, gerando o envelhecimento vocal que, por sua vez, é chamado de presbifonia 4.
Na presbifonia, a qualidade vocal é influenciada por muitas variáveis: condições laríngeas 3-11, auditivas4,7,12 e sociais4,7,13.
O processo de deterioração da voz difere de indivíduo para indivíduo, considerando-se os aspectos biopsicossociais e sua biografia, ou seja, a sua história desde a fecundação até o momento atual4,14.
Com tantas variáveis, tornou-se motivante descobrir o que o idoso pensa sobre si, sobre sua voz e quais são suas expectativas no que tange a sua voz.
O objetivo deste trabalho é comparar a análise da voz de mulheres idosas com as características freqüentemente descritas em literatura e verificar o quanto essas pessoas percebem a mudança ou até o grau de deterioração que ocorreu em suas vozes e em seu corpo na senescência. E, de acordo com os resultados, incentivar os fonoaudiólogos a desenvolver pesquisas em relação aos aspectos vocais que podem ser rejuvenescidos por intermédio de terapia fonoaudiológica na presbifonia, assim como motivar os profissionais e entidades de classe a realizarem campanhas de conscientização e orientação à população idosa em relação à voz.
MÉTODOS
No período de janeiro a março de 2004 foram coletadas amostras vocais de 100 mulheres, moradoras da cidade de São Paulo, com idade entre 60 e 95 anos, cujo perfil foi descrito na Figura 1.
O critério de exclusão foi histórico de distúrbios neurológicos e presença de queixa vocal.
A pesquisa foi realizada sob duas visões: na primeira, numa ótica de auto-percepção, os sujeitos responderam a um questionário na presença da avaliadora 1, mas sem intervenção da mesma, contendo 13 questões de avaliação do próprio corpo e voz, e mais duas questões de expectativas apenas sobre sua voz.
Questionário de auto-percepção e expectativas
Data: _____/ _____/ ________
Iniciais do Nome: ______________Entrevistada Nº: ______
Idade: _________
Auto-Percepção Corporal
1. Ao longo da vida:
() Não percebi envelhecimento
() Envelheci pouco
() Envelheci muito
2. O que está mais envelhecido em você?
( ) A parte sensorial (visão, audição)
( ) Corpo
( ) Voz
3. Tenho boa saúde?
( ) Sim ( ) Média ( ) Não
4. Tenho dificuldade de ouvir?
( ) Não( ) Pouca dificuldade( ) Muita dificuldade
Auto-Percepção Vocal
5. Meu fôlego para falar está:
( ) Igual ( ) Diminuído ( ) Muito diminuído
6. Quando eu falo, fico cansada?
( ) Não ( ) Às vezes ( ) Sempre
7. Minha voz está:
() Igual ou mais fina () Mais grossa
() Muito mais grossa
8. Minha voz está:
( ) Igual ou mais forte ( ) Mais fraca
( ) Muito mais fraca
9. Preciso repetir várias vezes para ser compreendida?
( ) Não ( ) Às vezes ( ) Sempre
10. Quando falo bastante, minha voz: ( ) Fica igual o tempo todo
( ) Piora com o passar do tempo
( ) Piora muito com o passar do tempo
11. Ao falar, a movimentação da minha boca está:
( ) Igual ou melhor ( ) Pior ( ) Muito pior
12. Minha voz está:
() Igual a quando era jovem () Um pouco diferente de quando era jovem, percebo tremor ou instabilidade. () Muito diferente de quando era jovem, percebo muito tremor ou instabilidade.
13. Minha voz combina comigo?
( ) Muito ( ) Um pouco ( ) Não
Expectativa
14. Você conhece algum meio de rejuvenescer a voz?
( ) não ( ) já ouvi falar ( ) sim,
qual?_________________
15. Gostaria de melhorar a minha voz?
( ) Sim( ) Nunca pensei sobre isso( ) Não
Num segundo momento, ambas as avaliadoras analisaram fonoaudiologicamente os 13 itens equivalentes às 13 primeiras questões do questionário. Optou-se por essa divisão na avaliação fonoaudiológica para que a aparência física não influenciasse no julgamento da voz do indivíduo, já que é importante ouvir sem projeções e sem interpretações pessoais 5.
Avaliação Fonoaudiológica
Data: _____/ _____/ ________
Iniciais do Nome: ___________________________________
Entrevistada Nº: ______Idade: __________
Estado civil: _____________________ Nº de filhos: _______
Profissão desempenhada ao longo da vida pelo sujeito:______ Mantém ou manteve atividade de fala no decorrer da vida?
( ) Não ( ) Sim. Qual? _____________________
Aposentada há: _____________________________________
Vida social:_________________________________________
Fez ou faz reposição hormonal: ( ) Não ( ) Sim. Há quanto tempo? _________
Observação do Corpo
1. Corpo:
( ) Aparência de adulto
( ) Aparência de idosa-jovem
( ) Aparência de idosa-idosa
2. A maior deterioração percebida foi:
( ) na área sensorial (visão, audição)
( ) no corpo
( ) na voz
3. A entrevistada aparentou ter:
( ) boa saúde
( ) um pouco doente
( ) muito doente
4. A entrevistada aparentou ter boa audição?
( ) sim
( ) média
( ) não
Avaliação da Voz
5. Respiração:
/ e / áfono: ________
( ) Semelhante ao adulto jovem
( ) Diminuído em relação ao adulto jovem ( ) Muito diminuído em relação ao adulto jovem
6. Resistência vocal:
( ) Não apresentou fadiga
( ) Apresentou fadiga
( ) Apresentou muita fadiga
7. Impressão auditiva de freqüência
() Aguda () Grave() Muito grave
8. Impressão auditiva de intensidade
( ) Adequada ao indivíduo
( ) Diminuída
( ) Muito diminuída
9. Sistema de ressonância
( ) Ressonância equilibrada
( ) Ressonância levemente alterada _______________
( ) Ressonância muito alterada ___________________
10. Sustentação da qualidade vocal: ( ) Mantém a mesma qualidade durante toda a avaliação
( ) Altera a qualidade durante a avaliação ( ) Altera muito a qualidade durante a avaliação
11. Articulação e pronúncia: ( ) Adequada, precisa
( ) Imprecisa ( ) Muito imprecisa
12. Tipo de voz:
( ) Semelhante ao adulto
( ) Um pouco deteriorada, semelhante ao idoso-jovem ( ) Muito deteriorada, voz presbifônica semelhante ao idoso-idoso
13. A voz combina com o indivíduo?
( ) Sim ( ) Um pouco( ) Não
Os critérios para avaliação perceptiva fonoaudiológica foram:
1. Corpo: Utilizou-se o termo idoso-jovem para os sujeitos que aparentavam idade entre 65 e 80 anos e idoso-idoso para aqueles com aparência de idade superior a 81 anos, pois considerar todos como, simplesmente, idosos, mascara as marcantes diferenças tanto fisiológicas como sociais, entre as pessoas 8. Os sujeitos com aparência inferior a 64 anos foram classificados como adultos. A aparência física foi avaliada com base na presença de rugas na pele, mãos envelhecidas, cifose própria da idade e também agilidade para locomoção no ambiente 2. Vale ressaltar que esta avaliação foi feita previamente ao questionamento da idade para que não houvesse influência da idade cronológica no julgamento da aparência física;
2. Área de Maior Deterioração: Avaliou-se em qual das três áreas: sensorial (visão e audição), física ou vocal o sujeito apresentava maior deterioração;
3. Saúde: Foi avaliada baseando-se no conceito de saúde adequado para o idoso, ou seja, a capacidade de manter as habilidades físicas e mentais necessárias para uma vida independente e autônoma 15. Portanto, nesta pesquisa observaram-se atitudes como: a agilidade e independência do sujeito em locomover-se no ambiente, facilidade para sentar-se e levantar-se, além de respostas concisas às perguntas;
4. Audição: Durante a entrevista, a avaliadora cobriu a boca com a folha do questionário, de modo que o sujeito tinha apenas a pista auditiva para entender o que era questionado, sendo assim, atentou-se para expressões faciais que denotavam a incompreensão do que era dito e o pedido direto para a repetição da frase;
5. Tempo Máximo de Fonação (TMF): Emissão do [e] áfono para verificar o controle expiratório por meio de suporte respiratório. Sendo que, 14 e 16 segundos é o TMF do adulto 16; e para diferenciar medidas inferiores, as avaliadoras optaram por classificar em diminuído em relação adulto entre 13 e 7, e abaixo de 6 segundos como muito diminuída em relação ao adulto. A medida foi obtida com o cronômetro marca TAKSUN, modelo TS*613A;
6. Resistência Vocal: Por meio da contagem dos números de 100 para 1 investigou-se a habilidade do sujeito em usar a voz intensamente, por um determinado período, sem mostrar sinais de fadiga vocal 5;
7. Impressão auditiva de freqüência (Pitch) informou se a voz da entrevistada era aguda ou grave para a idade 17;
8. Impressão auditiva de intensidade vocal(Loudness), parâmetro físico que se correlaciona com a pressão subglótica, a quantidade do fluxo aéreo e a resistência glótica, foi classificada em adequada, forte ou fraca 17;
9. Na ressonância observou-se o aproveitamento das caixas ressonantais para uma boa projeção vocal. E classificou-se quanto ao foco de ressonância vertical: equilibrada, baixa, oral ou alta 17;
10. Sustentação da qualidade vocal verificou se o sujeito manteve a mesma qualidade na voz durante toda a entrevista, sem apresentar variações de intensidade ou freqüência, quebras de sonoridade 5, bem como tremor ou crepitação 3;
11. Articulação e pronúncia identificou-se o quanto os movimentos articulatórios estavam adequados e precisos, permitindo uma efetiva comunicação 6;
12. Impressão transmitida pelo tipo de voz identificou o padrão básico de emissão do sujeito 5. Nesta pesquisa, julgou-se a voz como presbifônica ou não e, em caso positivo, o grau dessa deterioração;
13. Psicodinâmica vocal: foi verificado se as características vocais do indivíduo combinavam com sua aparência física 5.
As impressões auditivas tanto de freqüência quanto de intensidade vocal, ressonância, sustentação de qualidade vocal, articulação e pronúncia e tipo de voz foram analisadas durante a conversa espontânea dirigida, gravadas no Mini-Disk SONY NET MD, Modelo MZ-N505.
A análise dos dados ocorreu de duas formas:
Análise 1: Comparou-se as respostas de cada item do questionário de auto-avaliação dos sujeitos com a avaliação perceptiva da fonoaudióloga. A partir daí, trabalhou-se com uma distribuição do tipo binomial, com a ocorrência de (1) para o sucesso quando a entrevistada respondeu de acordo com o observado pelas fonoaudiólogas na avaliação clínica e (0), ou seja, fracasso quando não houve coincidência nas respostas. Com base na freqüência do sucesso, chamou-se de “p” à proporção em que ele foi observado nas respostas.
Análise 2: Comparou-se, item por item, e de maneira proporcional à temática das questões (aparência física e voz), as respostas fornecidas pelos sujeitos e os dados da avaliação perceptiva fonoaudiológica. A partir daí, criou-se quatro grupos para categorização dos sujeitos:
Grupo 1: Indivíduos com maior percepção do envelhecimento corporal, em relação ao envelhecimento vocal;
Grupo2: Indivíduos com menor percepção do envelhecimento corporal e maior percepção do envelhecimento vocal;
Grupo 3: Indivíduos com boa percepção tanto do envelhecimento corporal quanto vocal;
Grupo 4: Indivíduos com percepção ruim tanto do envelhecimento corporal quanto vocal.
Em ambas as análises, as questões 14 e 15, de expectativa em relação ao rejuvenescimento vocal, foram computadas separadamente, pois foram respondidas apenas pelas entrevistadas.
De posse da freqüência relativa amostral nas perguntas e respostas das questões de 1 a 13, foi feita a aproximação para a distribuição do tipo normal, dado que a amostra é suficientemente grande e obedece às condições de aproximação.
Optou-se por utilizar o valor de 95,0% como Intervalo de Confiança.
Assim, a interpretação dos dados se dará da seguinte forma, a título de exemplo, sendo os demais resultados obtidos de forma semelhante:
Na questão 1 sobre aparência física: 70% das entrevistadas forneceram respostas semelhante à das avaliadoras, enquanto 30 % não. Pode-se afirmar com 95,0% de acerto, que as entrevistadas que concordaram com a avaliação das fonoaudiólogas na questão de aparência física estão dentro do intervalo 0,7 - 0,0898 = 0,6102 e 0,7 + 0,0898 = 0,7898. Portanto, ao invés de afirmar simplesmente que houve 70,0% de concordância entre as avaliações, abriuse um intervalo significativamente mais confiável do ponto de vista estatístico, ou seja, entre 61,02% e 78,98% das entrevistadas concordaram com a avaliação perceptiva fonoaudiológica.
Para a análise estatística dos dados foi realizada a Estimativa por Intervalo de Confiança de 95% para proporção populacional. Nas Tabelas 1, 2 e 3 os dados estatisticamente significativos foram representados por (*).
A presente pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica sob o nº 232/ 03, sendo considerada sem risco com necessidade do termo de consentimento livre e esclarecido.
Comparação entre a auto-percepção corporal e vocal dos sujeitos e avaliação perceptiva fonoaudiológica
RESULTADOS
A representação da Análise 1 foi ilustrada na Tabela 1.
Os aspectos relevantes da Tabela 1 foram:
-
Aparência física: Houve significativa concor-dância entre as avaliações quando a aparência era de Idoso jovem, 53%;
-
Deterioração: Houve significativa concordân-cia entre as avaliações quando o aspecto mais deteriorado era o sensorial, 37%;
-
Saúde: Houve significativa concordância en-tre as avaliações quando a saúde foi apontada como sendo boa, 61%;
-
Audição: Houve significativa concordância en-tre as avaliações quando a audição foi apontada como boa sendo, 64%;
-
Respiração: Muito reduzida - mostrou uma sig-nificativa discordância entre as avaliações (22%), já que os sujeitos não perceberam a grande diminuição da capacidade respiratória;
-
Resistência vocal: As respostas foram equi-valentes, portanto nenhum aspecto que se mostrou estatisticamente significativo;
-
Pitch: Muito grave - a significância ficou por conta da falta de percepção das entrevistadas em relação à freqüência vocal quando esta se mostrava bastante agravada (10%);
-
Loudness: Houve significativa concordância entre as avaliações quando a Loudness era adequada ao indivíduo (54%);
-
Ressonância: Houve significativa concordân-cia entre as avaliações quando a ressonância estava equilibrada (56%);
-
Sustentação da Qualidade Vocal: Muito alte-rada - a significância ficou por conta da falta de percepção das entrevistadas em relação à instabilidade vocal (11%);
-
Articulação da Fala: Houve significativa con-cordância entre as avaliações quando a articulação da fala estava precisa (66%);
-
Impressão Auditiva do Tipo de Voz: Houve sig-nificativa concordância entre as avaliações quando a impressão auditiva do tipo de voz era de Idoso jovem (28%);
-
Psicodinâmica Vocal: Houve significativa con-cordância entre as avaliações quando a psicodinâmica vocal estava adequada (60%);
A representação da Análise 2 foi ilustrada na Tabela 2.
O grupo dos indivíduos com maior percepção do envelhecimento corporal, em relação ao envelhecimento vocal, grupo 1, obteve uma diferença estatisticamente representativa em relação aos demais grupos.
As expectativas dos sujeitos, em relação à própria voz estão representadas na Tabela 3.
É significativo o desconhecimento do rejuvenescimento vocal pelas entrevistadas. Já a curva do intervalo de confiança sobre o interesse em rejuvenescer a voz parece de forma sobreposta, portanto não é significativa.
Na questão 14, item a, quando se questionou quais eram os meios que as entrevistadas conheciam para rejuvenescer própria voz, 2% delas recomendaram receitas caseiras e 7% indicaram fonoterapia.
DISCUSSÃO
A maioria dos sujeitos reconheceu o envelhecimento da própria aparência física, sendo confirmado em avaliação perceptiva fonoaudiológica, o que justifica a hipótese de que as mudanças físicas são as primeiras notadas por alguns indivíduos 2. No entanto, quando se questionou qual aspecto estava mais deteriorado: sensorial, corporal ou vocal, a grande maioria dos sujeitos afirmou que o sensorial era o mais deteriorado, justificando que perceberam isso nas ocasiões em que faziam trabalhos artesanais, liam, entre outros, ou seja, associaram essa deterioração com alguma situação do cotidiano 1.
Tanto a avaliação perceptiva fonoaudiológica quanto a auto-percepção dos sujeitos apontaram primeiramente a deterioração sensorial, seguida da corporal e vocal. Essa falta de percepção do envelhecimento vocal por parte dos sujeitos pode-se relacionar ao perfil da amostra, ou seja, eram pessoas que não fizeram uso profissional da voz e tinham vida social inativa; desta forma usavam pouco suas vozes, com isso faltam-lhes experiências auditivas para discriminar quando a voz apresenta ou não alterações mais significativas que, neste caso, compunham um quadro de presbifonia. Vale ressaltar também que no caso dos “ex-profissionais da voz” haveria maior habilidade para lidar com o envelhecimento laríngeo 18, porque seriam auxiliados pela Neuroplasticidade que é a capacidade do sistema nervoso em organizar ou reorganizar as conexões nervosas, levando a uma adaptação da função que, no caso do idoso foi deteriorada pela idade 4,14, adaptação que pode ser imediata ou quase imediata 19. Esses indivíduos poderiam superar, por exemplo, a diminuição da capacidade vital com alguma técnica de projeção da voz ou mesmo aumentando a pressão infraglótica para elevar a intensidade vocal.
Embora a saúde siga uma variação individual quanto ao declínio orgânico e funcional com o avanço da idade 20, nesta pesquisa a maioria dos sujeitos apresentou bom estado de saúde físico e mental, sendo reconhecido pelos mesmos. Não somente apresentaram boa saúde, como também demonstraram bastante independência no desempenho das atividades diárias, pois muitas entrevistadas eram viúvas e moravam sozinhas. Esse conceito de saúde e a capacidade de autonomia do indivíduo são tão valorizados que foram apontados nas diretrizes da Política Nacional do Idoso 21.
A presbiacusia, dificuldade auditiva própria da idade avançada, que é citada com freqüência em literatura 6,12, não se mostrou evidente nesta pesquisa, pois a maioria dos sujeitos referiu ter boa acuidade auditiva, sendo confirmado pela avaliação perceptiva fonoaudiológica.
O aspecto respiratório demonstrou bastante divergência entre as avaliações, pois, pela auto-percepção dos sujeitos, a respiração estava satisfatória, entretanto na avaliação perceptiva fonoaudiológica observou-se que o TMF estava diminuído ou muito diminuído, conseqüência da diminuição do ar expiratório 2, causado pela redução geral na elasticidade dos pulmões 8.
A fadiga vocal é citada como marcante no idoso 4,7, entretanto, neste estudo, os sujeitos apresentaram resistência vocal entre boa e média, sendo poucos os que demonstraram maior fadiga após uso prolongado da voz. Comparando-se as avaliações perceptiva fonoaudiológica e auto-percepção dos sujeitos, pôde-se verificar que a concordância entre elas diminuiu juntamente com a piora da resistência vocal dos avaliados, isto é, aqueles que apresentaram maior fadiga não perceberam essa baixa resistência em suas vozes. O principal sinal que caracterizou essa baixa resistência foi a tosse que pode-se associar à incoordenação pneumofonoarticulatória encontrada no idoso 8-9, já que o uso intensivo da voz, associado às constantes retomadas do ar, muitas vezes, pela boca, pode ocasionar o ressecamento da laringofaringe, aumentando o atrito, desencadeando a tosse por irritação das mucosas. Alguns autores associam a fadiga vocal à questões hormonais, ou seja, o aumento dos níveis dos androgênios provoca atrofia da mucosa das pregas vocais, além de redução nas glândulas laríngeas, ocasionando redução da hidratação da borda livre, cujo ressecamento leva à fadiga rápida e à disfonia 22.
O pitch gerou divergência entre as avaliações, porque proporcionalmente, quanto mais agravada se apresentava a voz do sujeito, menor era o grau de concordância entre elas. Pela avaliação perceptiva fonoaudiológica confirmou-se o que é relatado pela maioria dos autores 23, ou seja, a mulher idosa apresenta voz com pitch mais agravado, especialmente no caso das fumantes 7, o que não foi percebido pela maioria das entrevistadas. Apesar disso, em algumas mulheres o pitch se mantém preservado na senescência 24.
A loudness, tanto na avaliação das fonoaudiólogas quanto na auto-percepção dos sujeitos, foi percebida como adequada para o indivíduo, estando de acordo com outro estudo 25 que mostrou média de intensidade adequada tanto para fonação sustentada quanto para fala encadeada. Entretanto, outras pesquisas indicaram redução da loudness na população idosa 12,23, que pode ser justificada pela redução da pressão infraglótica, devido à perda do controle fino das pregas vocais 4,6,26, ou também relaciona-se com o estado geral de saúde debilitado e/ou de condições emocionais adversas como depressão, baixa auto-estima, tristeza, entre outras.
A maioria dos sujeitos apresentou voz com ressonância equilibrada, seguida de uma minoria com ressonância baixa e alguns sujeitos com ressonância alta, sendo que esta parcela que apresentou alteração ressonantal comentou que o companheiro não entendia o que elas falavam e afirmaram que isso acontecia, porque ele não ouvia bem, mas não cogitaram a hipótese de que elas próprias tinham dificuldade em projetar a voz. Embora nesta pesquisa a alteração ressonantal não tenha sido muito presente, outros estudos descreveram que mudanças anatômicas e fisiológicas alteram a ressonância deixando-a baixa 4,25. Outros autores apontaram um aumento no grau de nasalidade 27, decorrente do fechamento velofaríngeo com menor tensão 10.
Muitas entrevistadas relataram que a voz se alterava durante uma conversa mais prolongada. No entanto, nos casos em que a alteração vocal era muito freqüente, passou desapercebido pelas entrevistadas, acredita-se que por falta de experiência auditiva para caracterizar o grau de alteração da voz. Desta forma, na avaliação perceptiva fonoaudiológica confirmou-se a falta de sustentação da qualidade vocal que foi caracterizada em sua maioria por crepitação na voz, apontada por alguns autores 5 como típica da presbifonia, pois nesse caso a voz é produzida em tom grave com fraca intensidade, podendo ou não ocorrer vibração das pregas vestibulares. Alterações como: quebras de sonoridade e variações de intensidade ou freqüência, associadas ou não à bitonalidade foram observadas neste estudo e descritas anteriormente em outros estudos 5,7. O tremor vocal relatado como freqüente na população idosa 28 projeta a imagem de uma voz estereotipada e foi observado apenas em uma minoria da amostra. É importante ressaltar que na presbifonia, a instabilidade vocal pode estar mais ou menos alterada de acordo com o sistema respiratório e controle neuromuscular.
Tanto na avaliação perceptiva fonoaudiológica quanto no relato de auto-percepção dos sujeitos foi encontrado articulação de fala precisa, concordando com outro estudo no qual houve prevalência de um padrão articulatório satisfatório em mulheres idosas 25. Entretanto, uma minoria dos sujeitos alegou piora na articulação da fala e afirmou que era decorrente da perda precoce dos dentes, sendo confirmada pela avaliação fonoaudiológica. Essa imprecisão articulatória na senescência foi apontada por outros autores 11 e, além da ausência dos dentes, também pode ocorrer pelo uso de uma prótese dentária mal adaptada, ou ainda surge devido à diminuição da tonicidade dos músculos orofaciais 7.
O período de máxima eficiência vocal ocorre, geralmente, entre 25 e 40 anos de idade e a deterioração mais significativa da voz na mulher, ou seja, o início da presbifonia, surge após os 60 anos 3-4,10.
Nesta pesquisa ocorreram divergências entre as avaliações em relação à impressão transmitida pelo tipo de voz e sua deterioração, pois grande parte dos sujeitos que tinha a voz um pouco ou muito envelhecida não percebeu essa deterioração. No final da gravação a maioria quis ouvir a própria voz e ao se ouvirem, várias se surpreenderam dizendo que aquela voz era feia e parecia de uma pessoa muito idosa. Esse comentário ocorreu porque há uma tendência das pessoas responderem que os idosos têm a voz menos agradável, em relação ao jovem, sendo mais evidente quando os falantes são mulheres 29. Poder-se-ia relacionar a falta de percepção do envelhecimento da própria voz pela amostra ser composta por não profissionais da voz e possuir vida social inativa, o que lhes confere menos experiências vocais. Justificando ainda que o desuso da voz pode provocar perdas nas fibras musculares 13, acentuando as alterações na camada superficial da lâmina própria 27, o que provoca mudanças significativas na voz, caracterizando um quadro de presbifonia mais acentuado. A auto-percepção vocal foi objeto de estudo de outra pesquisa, na qual de 107 mulheres, com idade entre 37 e 71 anos, que passaram por avaliação fonoaudiológica e otorrinolaringológica, 54% não perceberam mudança em suas vozes, mas àquelas que perceberam associaram à menopausa 30.
A psicodinâmica vocal, conjunto de características sobre a voz do indivíduo 5, descreve também o impacto psicológico produzido por essa voz. Desta forma, julgou-se o grau de semelhança entre a aparência física do sujeito e suas características vocais, levando-se em consideração os padrões sociais, culturais e o sistema de valores desse indivíduo, pois não é aconselhável fazer a leitura vocal considerando um dado isolado. De maneira geral, as vozes combinavam com os sujeitos, entretanto a discordância entre a avaliação perceptiva fonoaudiológica e a auto-percepção dos sujeitos, foi mais evidente nos casos cujas vozes não condiziam em nada com os seus donos.
Na segunda análise, Tabela 2, notou-se grande concentração de sujeitos com maior percepção do envelhecimento corporal, em relação ao envelhecimento vocal. Acredita-se que a falta de experiência auditiva e/ou vocal decorrente da amostra ser composta por não-profissionais da voz pesa no sentido de que elas não percebem a própria voz e muito menos o envelhecimento vocal. Fato que ocorre com menor incidência em relação à percepção do envelhecimento corporal, pois a mídia se encarrega de divulgar que a imagem corporal é extremamente importante, apresentando tratamentos de beleza, cirúrgicos ou não, para manter a aparência física sempre preservada.
A pesquisa mostrou que os idosos desconhecem os trabalhos desenvolvidos para rejuvenescimento vocal e o poder da plasticidade vocal que pode agir de maneira imediata ou quase imediata 19, adaptando padrões envelhecidos. Sendo assim, eliminando as pessoas que não gostariam de melhorar suas vozes, observou-se que a maioria da amostra se fosse bem informada sobre o assunto, formaria um quórum significativo para o desenvolvimento de um trabalho fonoaudiológico em serviços públicos e privados, por meio de campanhas e palestras de conscientização sobre o envelhecimento vocal, bem como terapia vocal na tentativa de retardar ou melhorar a deterioração sobre suas vozes.
Conclui-se, portanto, que a Fonoaudiologia, como ciência que trata da voz, para reabilitá-la e/ou aperfeiçoá-la, deveria promover campanhas de orientação para a Terceira Idade.
CONCLUSÃO
1. Os sujeitos perceberam o envelhecimento da aparência física de forma muito próxima à verificada em avaliação perceptiva fonoaudiológica;
2. Houve uma menor incidência da percepçãodo envelhecimento vocal pelos sujeitos;
3. Os aspectos vocais que apresentaram maiorsemelhança entre as avaliações foram: Loudness, Ressonância Vocal, Articulação da fala e Psicodinâmica vocal;
4. Os aspectos vocais que indicaram semelhança entre as avaliações, mas que denotaram diferença quando a alteração se mostrava mais presente no sujeito foram: Resistência Vocal, Pitch e Impressão do tipo de voz;
5. Os aspectos vocais mais divergentes entreas avaliações: Respiração e Sustentação da Qualidade Vocal;
6. Parte significativa dos sujeitos da amostra nãoconhecia maneiras para rejuvenescer a voz e, dos indivíduos que afirmaram conhecer métodos para restabelecer os padrões vocais durante a senescência, poucos indicaram a fonoterapia.
REFERÊNCIAS
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