Open-access As funções parentais, a criança e suas implicações na gagueira

RESUMO

Objetivo:  explorar a dinâmica entre as funções parentais e as crianças que gaguejam no intuito de entender a significação da gagueira.

Métodos:  trata-se de uma pesquisa exploratória de abordagem qualitativa a partir da Análise de Conteúdo. Participaram da pesquisa três crianças diagnosticadas com gagueira e seus pais. Na coleta dos dados utilizaram-se filmagens da interação da criança com seus pais que foram organizados e generalizados em categorias temáticas. A análise de conteúdo teve o aporte conceitual da teoria psicanalítica e ocorreu em três momentos: a pré-análise, a exploração do material, o tratamento dos resultados obtidos e interpretação destes.

Resultados:  os resultados apontaram a existência de uma articulação entre a gagueira da criança e o discurso parental, sendo a fala sintomática uma forma de preservar a posição subjetiva da criança, a qual precisa se separar da mãe e assumir seu próprio desejo.

Conclusão:  conclui-se que a partir da psicanálise a gagueira é um sintoma da dinâmica familiar, estando articulada ao campo do Outro e à função parental.

Descritores:
Psicanálise; Gagueira; Criança

ABSTRACT

Purpose:  to explore the dynamics between parental functions and children who stutter, in order to understand the meaning of stuttering.

Methods:  an exploratory research with a qualitative approach based on Content Analysis. Three children diagnosed with stuttering, of both sexes, and their parents, participated in the research. In the data collection, footage of the interaction of the children with their parents was used, which were analyzed and generalized into thematic categories. Content analysis had the conceptual support of psychoanalytic theory and occurred in three moments: pre-analysis; the exploration of the material and the treatment of the results obtained and their interpretation.

Results:  the results showed the existence of an articulation between the stuttering of the children and their parental speech, with symptomatic speech being a way of preserving the subjective position of the children, since they need to be separated from their mothers and assume their own desire.

Conclusion:  it was concluded that, from psychoanalysis point of view, stuttering is a symptom of family dynamics, being linked to the field of the Other and the parental function.

Keywords:
Psychoanalysis; Stuttering; Child

INTRODUÇÃO

Pensar a linguagem nos preceitos da Psicanálise Lacaniana implica um percurso que é singular, pois cada indivíduo tem uma experiência única com a linguagem, e ao mesmo tempo universal, pois há estruturas que governam como todos os sujeitos se relacionam com a linguagem e o desenvolvimento subjetivo. Na Psicanálise Lacaniana, isso está ligado ao Outro (a cultura, a sociedade e seus códigos linguísticos) que "fala" o sujeito, marcando-o com desejos, valores e significados próprios de sua cultura e de sua família. Este processo inicia mesmo antes do bebê nascer, pois este já nasce inserido em uma rede simbólica feita de palavras, significados e expectativas que o constituem de forma inconsciente. Além disso, envolve um processo relacionado às operações psíquicas de alienação e separação que darão possibilidade de instauração do simbólico, colocando a criança no campo da linguagem e surgindo a possibilidade da construção de um lugar no discurso parental1.

Visto por esse ângulo, as funções parentais e a linguagem tomam um lugar primordial na constituição psíquica da criança e na formação de seus sintomas2,3. Ao nascer, a criança não está pronta ou acabada. Ela nasce prematura, tanto do ponto de vista físico quanto psíquico, o que a coloca em uma posição de dependência de outro semelhante que possa assegurar-lhe os cuidados, tanto físicos quanto psíquicos. Essa posição é assumida, primeiramente, pelo grande Outro - função materna - que atribui significações às manifestações do bebê (gritos, choros, etc.), inserindo-o no campo da linguagem. Mas para que a criança se torne um ser falante, ou seja, alguém capaz de usar a linguagem para expressar seus desejos, pensamentos e identidade, é preciso que ela se insira nesse campo da linguagem em que foi inserida (absorver e integrar os significados, regras e símbolos da linguagem que já existem ao seu redor). Portanto, o caminho que faz a criança adentrar no reino das palavras é, segundo a Psicanálise, o processo de constituição do sujeito1.

O processo de constituição subjetiva dará possibilidade ao sujeito de inserção no campo da linguagem. Isso acontece a partir de duas operações psíquicas, a alienação e a separação, ambas construídas a partir da relação do sujeito com o Outro4.

No primeiro momento - da alienação - a criança se toma pela falta da mãe, se alojando nas suposições de sentido que a mãe atribui às manifestações da criança. Assim, ela ocupa temporariamente o lugar de objeto de desejo materno, participando do campo da linguagem e, portanto, imersa nela1.

A segunda operação constitutiva do sujeito - a separação - é aquela que vai permitir que a criança se separe do Outro materno. É o tempo da entrada em cena da função paterna, da constituição do terceiro separador, que institui a Lei e permite à criança iniciar seus ensaios rumo a uma vida autônoma1,5. Tal função interdita a mãe de manter a criança como seu objeto de desejo e interdita à criança permanecer justamente neste lugar.

Dessa maneira, as operações de alienação e separação definem a constituição subjetiva como um processo psíquico sutil e precoce que possibilitará o advento de um sujeito desejante, isto é, de um ser falante. É neste processo que o sujeito tem acesso à fala. Para a Psicanálise, a fala não é um ato de fonação, mas sim um ato de sujeito, pois falar significa suportar o vazio e se distanciar psiquicamente do Outro6. Falar significa não estar mais em simbiose, em completude com o Outro, e então, submeter-se à Lei da função paterna, dar-se conta de que está em falta e assumir o seu próprio desejo.

Assim, falar implica não apenas emitir sons, mas sim assumir uma posição diante do Outro, rompendo com a ideia de simbiose. É no processo de separação que a fala se configura como um ato subjetivo, ou seja, do próprio sujeito. O que ocorre é que em algumas crianças, algo se problematiza no percurso da passagem da alienação à separação, de tal forma que o Outro mantém uma atribuição de saber que dificulta que a criança seja protagonista de sua própria vida, sendo difícil se posicionar diante desse Outro e sustentar o seu próprio desejo. Nesse sentido, a função materna insiste em manter a criança em uma dependência em relação a ela, fragilizando o discurso paterno e também a autonomia psíquica da criança. Assim, a relação mãe-criança fica comprometida, uma vez que há uma dificuldade da criança em sair dessa posição dualista.

Para que não fique presa nas armadilhas do desejo materno, a criança precisa encontrar saídas, podendo “construir” um sintoma, evidenciando-se um modo particular de se organizar na linguagem. Este, por sua vez, é compreendido como uma resposta de defesa à alienação, preservando a condição subjetiva da criança e um apelo de convocação da função paterna. Aqui encontram-se as falas sintomáticas, como por exemplo, a gagueira, que pode ser entendida como uma resposta da criança à posição que ela ocupa no discurso e na dinâmica parental. Lacan se refere ao sintoma como um "fato de língua", sendo este uma manifestação no campo da linguagem que revela as particularidades do processo subjetivo. É, portanto, por meio dos sintomas na fala que o inconsciente se manifesta, mostrando as tensões, faltas e desejos que marcam o sujeito em sua relação com o Outro.

É a partir de como a dinâmica familiar se estabelece em suas diversas nuances e acontecimentos, que farão efeito na criança, sobretudo em seu processo de constituição e na formação de seus sintomas. Dessa forma, é por meio do trabalho de escuta desta dinâmica que será possível entender a posição que cada um ocupa e como cada um se posiciona frente ao outro. É por meio desta escuta, que se significará o sintoma da criança uma vez que este emerge como algo que precisa ser decifrado.

Se o sintoma é uma defesa do sujeito e um enigma a ser decifrado, e se este faz uso da palavra como seu veículo por excelência, não haveria algo peculiar a ser escutado na gagueira, especialmente na relação entre a tríade - mãe, pai e criança? É então, a partir dessa perspectiva, que se delineia o objetivo do estudo: explorar a dinâmica entre as funções parentais e as crianças que gaguejam para que seja possível entender a significação da gagueira.

MÉTODOS

Considerações éticas

Ao longo do desenvolvimento desta pesquisa, alguns preceitos éticos foram considerados. Primeiramente, em relação à realização da pesquisa, ela somente foi realizada após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, Brasil (aprovação em 19 de abril de 2016, sob CAEE número 54654116.4.0000.5346 e parecer número 1.506.763).

Após leitura e esclarecimento de eventuais dúvidas, os pais das crianças assinaram o TCLE consentindo com a sua participação e com a participação da criança na pesquisa. Além disso, consentiram com a publicação científica dos resultados, conforme Resolução n. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde7 Também houve o consentimento oral por parte das crianças.

A pesquisa incluiu também os princípios éticos do Conselho Federal de Psicologia8 (CFP) apontados na resolução n. 016/2000 que dispõe questões sobre a proteção dos direitos, dignidade e bem-estar dos sujeitos envolvidos em pesquisas. Como garantia do caráter sigiloso da identidade dos participantes, as falas foram identificadas pelas letras P (Pai) e M (Mãe) que correspondem aos interlocutores da criança e S (Sujeito/Criança) seguidos de um número que representa a ordem da realização das filmagens das interações entre a criança e seus interlocutores.

Delineamento do estudo

O estudo possui um caráter exploratório e uma abordagem qualitativa. Tal delineamento justifica-se na medida em que o estudo trabalhou com questões psíquicas que não poderiam ser quantificadas. A pesquisa qualitativa, por sua vez, é a forma mais adequada de se trabalhar com fatos da realidade que não podem ou não deveriam ser quantificados, como por exemplo, as motivações, as aspirações, as crenças, os valores e atitudes9.

Participantes

Foram participantes do estudo 3 crianças diagnosticadas com gagueira, uma menina (identificada como S1) e dois meninos (identificados como S2 e S3) com idades entre 2 e 8 anos - período de ocorrência da referida patologia da fala8 e os pais dessas crianças.

Quanto às crianças, S1, com idade de 7 anos e 11 meses, estava no terceiro ano do ensino fundamental, não tinha irmãos, estava em atendimento fonoaudiológico por aproximadamente dois anos e nunca havia realizado atendimento psicológico. S2 tinha 8 anos e 11 meses, estava no terceiro ano do ensino fundamental, tinha três irmãos (um deles gêmeo e outra irmã mais velha cuja idade não foi informada), estava em atendimento fonoaudiológico por aproximadamente dois anos e nunca havia realizado atendimento psicológico. S3, com idade de 4 anos e 10 meses, estava no pré B, não tinha irmãos, no momento não estava em atendimento fonoaudiológico, mas esteve em atendimento por aproximadamente um ano em momento anterior a sua participação na pesquisa e nunca havia realizado atendimento psicológico.

Quanto aos pais (pai e mãe), todos eles conviviam com os filhos. As mães tinham em média 37 anos e os pais 36 anos e todos trabalhavam. O pai de S1 operador de máquina e a mãe vendedora. O pai e a mãe de S2 eram professores. O pai de S3 era instrutor de trânsito e a mãe fonoaudióloga.

Procedimentos de seleção dos sujeitos

A seleção dos participantes do estudo - crianças e seus pais - foi realizada por meio da Lista de Espera por Atendimento e da Pasta de Registros do paciente em atendimento em um Serviço de Atendimento Fonoaudiológico de uma instituição de ensino superior pública de uma cidade no interior do Rio Grande do Sul. As crianças gagas foram selecionadas por meio de avaliações fonoaudiológicas específicas10.

Tanto na Lista de Espera quanto na Pasta de Registros do paciente, encontram-se informações gerais sobre a identificação do paciente, informações a respeito da queixa inicial, questões sobre o desenvolvimento geral e de linguagem da criança, além de outros aspectos. Especificamente sobre a Lista de Espera, que é proveniente do Acolhimento do referido Serviço, realiza-se uma triagem conduzida por discentes do 7º semestre do curso de Fonoaudiologia supervisionados por um professor. Esta entrevista contempla as questões já citadas e, além disso, o resultado das avaliações realizadas pertinentes ao caso e encaminhamentos necessários (terapia e orientações). Na Pasta de Registros do paciente, além das questões anteriormente citadas, encontram-se informações sobre as avaliações e a terapia em andamento com a criança, bem como encaminhamentos realizados, além de outros aspectos.

No campo da fonoaudiologia uma criança é considerada gaga quando apresenta ao menos 3% de disfluências típicas da gagueira (chamadas de disfluências gagas) na avaliação específica da fala espontânea, podendo ou não apresentar concomitantes físicos (como evitar contato ocular, movimentos faciais, da cabeça ou dos membros e sons dispersivos) e 10% de disfluências comuns (conhecidas como disfluências presentes durante a fala de um falante fluente)11-14. Além de serem crianças gagas de ambos os sexos, para serem incluídas na pesquisa, não poderiam apresentar perda auditiva, outras alterações de comunicação associada (como atraso/distúrbio de linguagem, desvio fonológico), quadro sindrômico ou outros distúrbios neurológicos associados.

Durante o período de coleta (primeiro semestre do ano de 2016 até o primeiro semestre do ano de 2018) foram feitos contatos com os pais de cinco crianças, além dos três que fazem parte da amostra. Uma das crianças não apresentava mais a gagueira. Dentre as outras quatro, em três casos as mães não apresentaram interesse em participar da pesquisa. Os pais destas crianças também foram contatados, mas verbalizaram que a participação dependeria da mãe da criança. E uma remarcou várias vezes o horário e não compareceu à entrevista.

Após a seleção dos casos, os seus pais foram contatados por telefone pela pesquisadora a partir dos dados dispostos na Lista de Espera por Atendimento e na Pasta de Registros deste Serviço e convidados a participarem do estudo para que pudessem ser realizadas as filmagens entre a criança e seus pais.

Instrumentos e procedimentos de coleta de dados

Os dados foram coletados observando-se uma cena de interação da criança com seus pais, com a produção de uma brincadeira livre tendo como instrumento o brinquedo da casinha. No brinquedo da casinha havia a mobília pertencente a uma casa, bonecos (pai, mãe, filho, filha, bebê, avó e avô) e alguns utensílios domésticos (panelas, pratos, copos, vassoura, etc.).

As cenas ocorreram da seguinte maneira: (1) dez minutos de brincadeira livre com brinquedo da casinha entre a criança e a mãe; (2) dez minutos de brincadeira livre com brinquedo da casinha entre a criança e o pai e (3) dez minutos de brincadeira livre com brinquedo da casinha entre a criança, a mãe e o pai. Em alguns momentos, a interação da criança com cada um dos pais foi realizada em separado, tendo esta situação fundamentada com o objetivo de que não houvesse interferência entre discurso materno e paterno.

As cenas ocorreram nas salas da instituição de ensino superior em questão, sem a presença da pesquisadora durante a filmagem em encontros únicos e individuais (díades e tríades). As mesmas foram filmadas com uma câmera digital para, posteriormente, serem transcritas ortograficamente e analisadas.

Análise dos dados

Para a análise dos dados obtidos, utilizou-se a análise temática de conteúdo7 e o aporte conceitual da teoria psicanalítica. Tal análise acontece em três momentos: a pré-análise; a exploração do material e o tratamento e interpretação dos resultados obtidos. Logo, procedeu-se da seguinte forma: a escuta e a transcrição ortográfica das cenas filmadas (interação entre a criança e seus interlocutores) para que fosse possível a análise desse material. A partir dessa análise, os dados foram comparados, o que resultou em duas categorias, possibilitando a interpretação de acordo com o embasamento teórico do estudo - a teoria psicanalítica.

Na análise das questões provenientes dessas interações, três pontos foram observados pela pesquisadora em cada uma das cenas: (1) a interação entre o interlocutor e a criança, (2) o comportamento do interlocutor em relação à fala da criança (permissão, inibição, angústia, entre outros), e (3) o comportamento entre a tríade (este observado apenas na cena de interação da tríade). A partir destas observações, formou-se uma categoria - A influência das funções parentais na construção da fala sintomática (gagueira) na criança.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa três crianças e três casais de pais. As Tabelas 1 e 2 auxiliam na visualização dos dados dos participantes da pesquisa.

Tabela 1
Dados das crianças e frequência de atendimento fonoaudiológico e psicológico
Tabela 2
Idade e profissão dos pais das cranças participantes da pesquisa

A partir da coleta e análise dos dados provenientes das filmagens da interação entre a criança com gagueira e seus pais, notou-se que as situações que revelaram a gagueira nos casos estudados foram aquelas em que, diante de seu interlocutor, a criança precisou se posicionar enquanto sujeito, se expressar em nome próprio e, portanto, sustentar seu desejo. Ao ser convocada pela demanda do interlocutor a assumir seu desejo, observou-se que a gagueira foi desencadeada e/ou acentuada.

Os dados obtidos parecem evidenciar uma problemática em relação à travessia da alienação à separação (observadas especificamente nas interações em que a mãe se fez presente) e à entrada do pai, o pai privador, que marca o segundo tempo do Édipo, fazendo com que a criança avance para o terceiro tempo muito fragilizada (observadas nas interações em que o pai se fez presente), o que será discutido mais adiante. Assim, entende-se que a gagueira seria uma manifestação sintomática que surgiria justamente no ponto em que a função paterna se problematizou. A fala sintomática seria uma forma de preservar a posição subjetiva da criança, uma vez que esta precisa se separar da mãe e assumir seu próprio desejo.

Os dados das diferentes interações foram agrupados em uma categoria: a influência das funções parentais na construção da fala sintomática (gagueira) na criança, a qual será discutida no próximo parágrafo.

DISCUSSÃO

A influência das funções parentais na construção da fala sintomática (gagueira) na criança:

A maneira como a criança se posiciona enquanto sujeito e manifesta seus sintomas decorre da posição simbólica que ela ocupa no desejo e no discurso parental, pois responderá da posição desse lugar2. Nesse sentido, a partir dos preceitos lacanianos, sabe-se que essa posição da criança em relação ao discurso do Outro é construída a partir das operações de “causação de sujeito” - a alienação e a separação4. As duas operações, ao mesmo tempo em que cifram a impossibilidade da criança de se manter no lugar de objeto de desejo materno, precipitam a operação de cissura e separação em relação ao Outro materno 2.

É a operação de separação que possibilitará o surgimento do sujeito, permitindo que ele saia da alienação ao Outro materno, que se separe, e que se depare com seu próprio desejo1. Quando esse processo de separação encontra alguma dificuldade de se instaurar, surge um sintoma que pode ser compreendido como uma forma de defesa frente a uma posição subjetiva, contra permanecer na alienação. Isso parece justificar um dos motivos pelos quais, em comparação com as outras interações, a gagueira se apresentou mais frequentemente na interação com a mãe, intensificando-se nas situações em que a criança precisava, de alguma maneira, se expressar em nome próprio e sustentar o seu desejo. Sempre que a criança era convocada a assumir seu desejo, fosse por meio de uma indagação materna ou pela colocação de um desejo da criança, a fala sintomática era disparada intensamente.

Nesse sentido, alguns recortes das interações permitem demonstrar o que foi apontado anteriormente. O primeiro recorte se refere a uma cena entre a mãe e a criança S1. A criança está implicada em uma brincadeira onde prepara uma comida, e então, questiona a mãe: - Mã, mã, mãe, eu po po po posso ficar com mais um, mais um pratinho pra daí, tipo assim, se eu quise colocar as coisas? A mãe responde que sim e ambas seguem na brincadeira. Então, a mãe questiona: - Tu vai lavá a loça? - Vo! Responde a criança. E segue: - Deu! Amanhã, depois, a a amanhã é tu tá?

O segundo recorte se refere à interação entre a mãe e a criança S2. Logo no início da brincadeira a mãe questiona a criança: - Tá...e me diz uma coisa meu amor...do que que...do que que tu acha...do que que nós podemos brincar? Uhum? Dá uma sugestão pra mamãe, pra nós brinca! E a criança responde: - Uhum... ó mais, mais, mais ó, mais mais mais a gente pode rastelá, né mãe! A mãe responde que sim e a brincadeira segue. A criança resolve então, organizar os móveis na casinha: - Um um guarda ropa né? E onde onde coloca o guarda ropa? A mãe olha para a casinha e responde: - Pois é, também não sei. Será que cabe esse guarda ropa aí? (apontando para um cômodo da casa). A criança responde: - Dexa eu vê se ca cabe! Ó dexa eu vê ó...mas ó ó o sofá. Dando continuidade a brincadeira a mãe decide propor a criança uma brincadeira de piquenique com a família de bonecos: - Que que tu acha de nós faze um piquenique com essa família toda reunida aqui? Uhum? Ao responder a criança gagueja muito: - Ma ma ma ma mas em em casa não né? - Não...piquenique é sempre fora de casa! Responde a mãe.

É da interação entre a mãe e a criança S3 que é proveniente o último recorte. A criança pega um móvel da casinha e questiona: - Ma manhê, e e esse aqui o que é? A mãe responde que um fogão. - Manhê, manhê, a a aqui bo botei o fogão! Os dois seguem organizando a casinha e a mãe coloca a cama de casal no quarto. A criança então fala: - Já sei! Que nem a nossa cama! Agora dexa um espacinho aqui (empurra a cama de casal para o lado) que e e e eu vo bota o bebê do lado. - Tá! Respondeu a mãe. - De deu! Fala a criança.

Notou-se que ali onde a fala sintomática surgiu, houve uma tentativa de separação que a criança lançou, buscando desvencilhar-se do desejo do Outro, observando-se assim, a emergência de um sujeito2. Logo, o sintoma da criança surge como uma tentativa ou necessidade de separar-se desse Outro, e deixar o lugar de objeto de desejo materno. Assim, a formação do sintoma ocorreu como uma maneira de proteção e de resistência em relação a alienação materna1.

Neste percurso também se faz importante uma situação trazida pela criança S3 em interação com sua mãe, que articula os impasses alojados na operação de separação. Mãe e criança estão organizando os móveis na casinha e identificando os bonequinhos. A mãe pega o bonequinho bebê e pergunta à criança: - Olha! É tu? A criança responde que não e pega uma bonequinha e diz: - Essa daqui é minha irmãzinha que eu vo tê! Olha para mãe e diz: - E nem vem com essa história de que eu não vo te irmãzinha! Além disso, em outros momentos, o bebê vira a segunda irmãzinha da criança. Nesse sentido, parece que desejar uma irmãzinha é colaborar para dificultar uma possível relação fusional e de assujeitamento com a mãe, uma vez que ela asseguraria uma diferenciação15.

Outros momentos referentes às tentativas de separação foram construídos por meio de representações e brincadeiras de alternância. Tais brincadeiras possuem uma função de constituição, uma vez que dão a possibilidade à criança de sair da posição de objeto de desejo materno e assumir a posição de sujeito (confrontando-se com o seu próprio desejo). A maior parte da brincadeira nas interações entre a criança S3 na interação com a mãe e o pai, foi desenvolvida com os bonequinhos pai, mãe e filho em um jogo de esconde-esconde. Pai e mãe encontravam o filho, o filho encontrava o pai mas a mãe se mantinha escondida e nunca era encontrada (inclusive, a finalização da brincadeira na interação com a tríade termina com a mãe ficando escondida).

A brincadeira de “fazer comida” também foi representante desse jogo de alternância. A mãe no seu dia a dia precisa renunciar a sua ilusão de completude e se deparar com sua falta, para que o filho se descubra diferente dela16. O ato de alimentar é a possibilidade de preencher essa falta por parte da mãe, mas também a possibilidade do lugar de desejo da criança na recusa do alimento.

Nesse sentido, nota-se por parte das crianças S2 e S3, uma marcante busca pela diferenciação caracterizada justamente pelo “não”, pela recusa em fazer o alimento para a mãe (caso da criança S2) e pela recusa em aceitar o alimento ofertado pela mãe (caso da criança S3) nas brincadeiras de “fazer comida”. S2 se depara com os pedidos incessantes da mãe para que ele a alimentasse: - Eu queria um papá, um papá que o Mateus (nome fictício) fizesse pra mamãe! Heim Mateus? Fizesse uma comida pra mãe come no… no fogão. Heim? A criança não responde e finge não escutar. Segue brincando e diante de mais um pedido da mãe, a criança faz uma sopa de lama, que não agrada ao “paladar” da mãe e depois uma sopa de cenoura que muito a agrada. Quanto a criança S3, enquanto a mãe brinca de cozinhar ela diz para a criança: - Sabe o que a mãe fez pra ti... (faz uma pausa longa) e pro pai? Strogonoff! A criança responde: - Eca! Mentira, mentira, adorei! Nesse sentido, as situações parecem demonstrar o esforço destas crianças em se separar do desejo materno e se manter enquanto sujeito, pois não recusar aquilo que a mãe oferece, poderia retê-las na alienação.

A alternância em presenças e ausências, esconde e aparece, não satisfaz e satisfaz coloca a mãe em uma posição faltante, e a criança em uma posição daquela que não mais retém a mãe. Age nessa operação também a função paterna que, ao introduzir a alteridade, baliza o laço mãe-criança. Juntamente com essa função há a introdução da interdição, implicando a renúncia por parte da criança de algumas satisfações e, assim, o reconhecimento da diferença e a constituição de um sujeito separado da mãe16.

A respeito da função paterna nos sujeitos desse estudo, parece que a problemática está situada na questão da metáfora paterna e no papel do pai real, e portanto, na passagem do segundo ao terceiro tempo do Édipo. Entretanto, é preciso antes de tudo situar os desdobramentos propostos por Lacan em relação aos tempos do complexo de Édipo nos quais intervém a função paterna.

O Édipo se dá em três tempos17. O primeiro tempo caracteriza-se como uma relação dual entre mãe e criança, onde a problemática que se coloca para a criança é de poder vir a ocupar o lugar de objeto de desejo da mãe. O segundo tem como característica a inserção do pai na relação e o advento do simbólico (momento este em que a criança começa a falar). O pai intervém como agente privador, interditor da mãe. É por meio da palavra, enquanto diz não, que ele dá suporte à Lei. No entanto, isso precisa ser mediado pela mãe que se faz portadora da palavra do pai18. O terceiro tempo, de acordo com Lacan, é marcado pela identificação da criança com o pai, pois ele é um portador “potente” que pode satisfazer a mãe. É então, no terceiro tempo que há a introdução do pai real, aquele que se faz “potente” e que satisfaz a mãe.

Nas interações familiares verificou-se um importante ponto de impasse em relação à função paterna. Este, diante da tirania do desejo materno, não intervém eficazmente como promoção da Lei. Para que a função paterna se efetive, torna-se necessário que a mãe reconheça a palavra do pai e conceba lugar para que este possa exercer sua função e se promova enquanto Lei6. Entretanto, o que se verificou em algumas cenas, foi que a palavra do pai não foi sustentada pela mãe, mas para além disso, observou-se também uma passividade proveniente da função paterna diante das demandas maternas. Isso conduz a pensar em certa carência do pai real.

Nesse sentido, remete-se a uma cena de interação entre a criança S1 e seus pais. A criança coloca todos os personagens sentados para escutar uma estória que ela mesma contaria. Pai e mãe param de brincar para escutar a estória. A criança olha para o pai e ordena: - Vai! Faz a janta! O pai responde: - Tô fazendo! (e retoma a brincadeira de fazer o jantar). - Então vai! Disse a criança. A mãe sorri. Logo em seguida a criança começa a contar a história: - A Branca de Neve. A Branca de Neve, ela viu a vovozinha bem triste (nesse momento ela ri) daí, depois, a vovozinha, ela teve uns dentão que era o lobo mau (neste momento pai e filha se olham e sorriem). - É o pai? Pergunta a criança para o pai. Ele responde rindo: - Não é não! E volta a “cozinhar”. A criança continua contanto a estória olhando para o pai - Daí, daí no no o lobo mau na na era bem gordão (pai e filha se olham e sorriem), daí daí ele teve uns dentes, daí... Nesse momento a criança interrompe a contação da estória e diz: - Paie, pai, tu tu tá no fogão errado! (a mãe começa a rir). Muito irritada a criança toma o fogão do pai e diz: - Tá virado tchê! (a mãe ri muito). É assim o fogão! (a criança arruma o posicionamento do fogão). Entendendo tudo errado! Diante dessa situação o pai escuta a criança e apenas diz: Tá bom assim, tá bom! Deu! Tá termina a história! A criança continua “reprendendo” o pai. Olhando para as panelas no fogão ela diz: - Dois junto ó! Pra que dois junto? O pai tira uma das panelas no fogão, a criança se irrita, olha para a mãe como forma de aprovação da sua atitude para com o pai, ao que a mãe responde com um olhar de reprovação para a o marido. A criança continua contando a sua história. O pai diz: - Tá pronto já! A criança ignora a fala do pai e continua: - Daí daí é o fim da história. A mãe diz: - Então vamos jantar que tá pronta a janta. A criança diz: - Tá, entendi, é o fim da história, e foram felizes para... O pai oferece uma panela de comida para a criança comer e a criança olha irritada para o pai e diz: - Arruma a mesa cara! (encarando o pai que desvia o olhar da criança).

Aqui vale uma observação em relação à convocação do lobo na estória da criança. O lobo aparece aqui como um disfarce do pai, como uma substituição da devoração materna que é sem saída e inegociável pela “mordida” do pai, que pode ser negociável. Nesse sentido, parece que é quanto ao perigo de ser engolido e tomado pelo desejo da mãe que a estória com o lobo vem trazer uma possibilidade de substituição metafórica.

Em outro recorte de uma cena entre a tríade - pai, mãe e criança S2 - a mãe insistindo que quer uma comida feita pela criança afirma que a criança não sabe onde está o fogão. Nesse momento o pai ri e diz: - Eu também não! A mãe então diz: - É, mas vocês não sabem olha! Não sabem nem o que que é geladeira vocês dois! (o pai apenas ri). A brincadeira segue. O pai aponta para um móvel e pergunta se é um guarda-roupas. A mãe pega o móvel, olha e diz: - O pai... olha Mateus, o pai não olha direito! Tu viu! Diz pro pai o que que é isso aqui. (O pai se mantém passivo e apenas ri). A criança responde: - ahunm um um guarda-ropa. A mãe faz uma cara de desprezo e a criança diz: - não não não sei! A mãe então fala: - Hunm? Que será isso aqui? Não parece um guarda-ropa! Que que tu acha que é? Não troxe os óculos né! A criança responde: - É um arma ó mais é o mais é um armário. A mãe responde que não é um armário e pergunta novamente o que é. A criança responde que é um guarda-roupas. A mãe diz que não é nem um armário e nem um guarda-roupas.

Em uma cena de interação entre a criança S3 e seus pais, a criança pega o bonequinho que representa o filho e diz que está com sono e que quer dormir. Então pega o bonequinho o coloca na cama. A mãe, com o boneco que representa a mãe, diz que também tá com sono e que vai dormir junto com ele. A criança responde que não dá porque não tem mais espaço na cama. Mesmo assim, a mãe coloca o boneco mãe a dormir na cama com o filho. Nesse momento o pai interfere e chama a criança para jogar bola. A mãe diz que logo depois do almoço não dá para jogar bola. Então, a criança pega o bonequinho filho e “se joga da casa” convidando o pai para ir brincar de se esconder. Eles começam a brincar de se esconder e a mãe diz que vai brincar junto.

Tais recortes deixam claro a passividade paterna e a “potência” materna. Tais mães tornaram-se potencialmente capazes de criar obstáculos à resolução do processo alienação-separação. Elas atribuem aos filhos significantes que dizem respeito a elas próprias, aos seus próprios desejos, e, em muitas situações desconsideraram o desejo dos filhos e da função paterna. Os filhos, por sua vez, parecem se identificar com os significantes das mães e se organizar psiquicamente de acordo com o desejo delas. Além disso, embora em algumas situações a função paterna tentasse, de alguma maneira interditar e fazer obstáculo à relação dual entre mãe e filho, sua palavra não foi suficiente para estabelecer autoridade e evitar a sua passividade e conivência com a onipotência do desejo materno. Então, a questão que fica para esse momento é: será que esse pai, suporte da Lei, esse pai interditor pode bastar, se sustentar, mediado apenas pelo discurso da mãe? Será que para operar como função paterna e sustentar esse interdito, não há a necessidade de veicular alguma coisa do desejo desse que o suporta?

De acordo com as ideias de Lacan, a função materna aporta a condição necessária, mas não suficiente para que a função paterna se faça interdito e, “[...] no melhor dos casos, a mãe se faz de bom grado a porta-voz de tal interdito”19. Porém, se isso não é suficiente para introduzir o sujeito na dimensão do Nome-do-Pai, se poderia crer que é porque convém acrescentar a esta dimensão da interdição justamente este terceiro tempo, o tempo da instauração do pai “potente” que pode satisfazer a mãe, o pai real. Nesse sentido, para satisfazer a mãe, é preciso que a real interdição pela função paterna seja efetuada, acima de tudo, à mãe. O pai seria então o responsável por fazer operar a função que estabelece uma barreira às intrusões maternas em direção à criança. É somente a partir desta barreira que a experiência de vazio, de falta poderia ser vivenciada pela criança, possibilitando-lhe a constituição como um sujeito diferenciado da mãe e, portanto, desejante. Contudo, como um pai que “só presta pra dormi” (P1) e que “só fica olhando” que “não qué fazê nada” e que “sobe em cima da geladeira” (P1) se colocaria enquanto interdição? Como ele sendo “artero” e “engraçado” (P1) poderia privar a mãe de manter a criança como objeto de desejo e fisgar o desejo dela?

É justamente essa a questão que se coloca como impasse nas crianças com gagueira. A função paterna nas crianças que participaram do estudo se encontra fragilizada, e, portanto, com dificuldades de deter o desejo da mãe. Tal fragilidade resultaria então, na invasão da mãe, colocando obstáculos na operação de separação. De forma muito ilustrativa, remete-se a uma cena da brincadeira de jogar futebol entre o pai e a criança S3 onde a mãe se faz empecilho. O pai pega o boneco que representa o pai e começa a chutar um objeto que na brincadeira era uma bola. No meio do “campo de futebol” estavam os bonecos mãe, vó, vô e menina (que representava a maninha que S3 queria ter). O boneco pai chuta a bola e ela esbarra no boneco que representava a mãe. Então, a criança diz: - Vo tira isso daqui que atrabalha (retira todos os bonecos, mãe, vó, vô e a menina fica). O pai responde: - Mas eles são obstáculos, deixa aí! A criança concorda e coloca os bonecos mãe, vó e vô de volta.

Assim, ao que parece é que essas crianças são elas mesmas as responsáveis pela instauração da falta, do vazio, quando trazem à tona uma fala sintomática. É no sintoma que abrem um vácuo para que possam se inserir como sujeito naquilo que lhes possibilita desejar e, por conseguinte, que a possibilita ser. Há uma escolha do sujeito que precisa ser feita, e que parece ter sido feita por estas crianças.

A interdisciplinaridade entre Fonoaudiologia e Psicanálise no Brasil teve início na década de 1990. Um estudo de revisão integrativa da literatura buscou verificar os estudos publicados entre 2010 e 2020 sobre essa interdisciplinaridade, tanto na literatura nacional quanto na internacional, O objetivo desta foi encontrar trabalhos que abordassem questões relacionadas ao campo da fala e da linguagem, integrando as duas áreas. Após a seleção e revisão dos estudos, foram identificados 10 artigos relevantes. Os resultados indicaram uma prevalência de publicações em periódicos da área de linguagem em interface com a Psicanálise, ressaltando a importância da Psicanálise na escuta dos sintomas e alterações fonoaudiológicas. Essas alterações não se manifestam isoladamente, sendo influenciadas diretamente ou causadas por questões psíquicas do sujeito. No que se refere à atuação da Fonoaudiologia em interface com a Psicanálise, os estudos destacaram que a escuta e as formulações psicanalíticas servem como subsídio para a prática fonoaudiológica. Os anos de 2012 e 2019 se destacaram pelo aumento no número de publicações nesse campo20.

É importante destacar a escassez de estudos científicos atuais que abordam a influência do discurso parental nos sintomas de fala infantil a partir de uma perspectiva psicanalítica. A psicanálise oferece uma compreensão profunda das dinâmicas familiares e das interações parentais e traz o impacto significativo no desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, incluindo a fala. Assim, acredita-se necessário a produção de pesquisas na área a fim de fornecer uma base mais sólida para intervenções mais eficazes e promover um desenvolvimento infantil mais saudável e holístico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora a criança seja tomada como ativa no seu processo de constituição e na formação de seus sintomas, é a dinâmica familiar que se constitui como elemento decisivo na construção dos seus sintomas, de forma que, muitas vezes, ela se faz depositária e porta-voz dos sintomas familiares. Nesse sentido, pensar a gagueira a partir dos preceitos psicanalíticos é entendê-la como um sintoma que precisa ser articulado ao campo do Outro e da função paterna e por isso não é algo que deve ser eliminado para o bem do sujeito, mas um funcionamento que precisa ser escutado.

Considerando tal perspectiva para esta pesquisa, por meio da escuta do sintoma das crianças e do lugar que elas ocupavam no desejo parental, abriram-se caminhos para compreender as implicações na fala sintomática das crianças, advindas tanto do desejo materno como do discurso paterno. Foi possível perceber nos casos estudados, a repetição de certo “funcionamento” das funções parentais: o vínculo estabelecido entre a dupla mãe e criança foi marcado por uma mútua dependência e uma dificuldade que causou impasses na separação; além disso, a função paterna tão necessária para a separação também se encontrou problematizada (embora não ausente). Percebeu-se que diante deste funcionamento familiar as crianças fizeram um sintoma de linguagem - a gagueira - como a maneira encontrada para buscar uma separação da demanda materna.

Nesse sentido, a Psicanálise torna-se colaborativa com a Fonoaudiologia na medida em que se evidencia a importância da escuta do discurso parental pelo fonoaudiólogo e a mudança de um posicionamento enquanto terapeuta da linguagem, no sentido de centrar-se em uma escuta da criança que gagueja (sujeito) e não da gagueira (sintoma). Outro ponto importante referente ao trabalho interdisciplinar é a possibilidade de fortalecer o tratamento e trazer benefícios ao paciente. Contudo, há limitações nesta pesquisa, o número reduzido de sujeitos, o que pode afetar a generalização de resultados, assim como, a necessidade de mais estudos no assunto, gagueira e psicanálise, pois houve dificuldade de se encontrar pesquisas atuais para confrontar com esse trabalho.

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  • Estudo realizado na Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.
  • Fonte de financiamento: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
  • Declaração de compartilhamento de dados
    Os dados individuais de participantes que foram coletados durante as entrevistas para a pesquisa e que constam no pressente artigo poderão ser compartilhados com qualquer pessoa que queira ter acesso e para qualquer propósito. No artigo publicado não há nenhum outro documento exposto além do próprio texto. No que se refere aos termos de consentimento dos participantes, estes serão preservados por cinco anos após a realização da pesquisa. Os dados compartilhados serão todos referente as entrevistas com os pais e as crianças no momento da coleta, no entanto, não há identificação dos participantes no artigo. Estes dados estarão disponíveis a partir da publicação do artigo e não há data limite para acesso.

Editado por

  • Editora Chefe
    Renata Furlan

Disponibilidade de dados

Os dados individuais de participantes que foram coletados durante as entrevistas para a pesquisa e que constam no pressente artigo poderão ser compartilhados com qualquer pessoa que queira ter acesso e para qualquer propósito. No artigo publicado não há nenhum outro documento exposto além do próprio texto. No que se refere aos termos de consentimento dos participantes, estes serão preservados por cinco anos após a realização da pesquisa. Os dados compartilhados serão todos referente as entrevistas com os pais e as crianças no momento da coleta, no entanto, não há identificação dos participantes no artigo. Estes dados estarão disponíveis a partir da publicação do artigo e não há data limite para acesso.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Set 2024
  • Revisado
    04 Out 2024
  • Aceito
    18 Dez 2024
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