RESUMO
Objetivo: sistematizar os fatores estressores relacionados às mudanças no trabalho durante a pandemia e as implicações para a saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde no período pós-pandêmico.
Métodos Trata-se de uma revisão integrativa da literatura nas bases de dados BVS, CAPES Journals, PubMed, SciELO, ScienceDirect e Web of Science, com uma pontuação igual ou superior a 80%, de acordo com a lista de verificação do Critical Appraisal Skills Programme.
Revisão da Literatura: foram incluídos 17 estudos, os quais indicam que, durante a pandemia, os trabalhadores enfrentaram estressores como aumento das jornadas e do absenteísmo, adaptação a novas tecnologias, escassez de recursos, altos níveis de ansiedade, depressão e estresse, além de implicações sociais negativas, como discriminação e estigmatização, que contribuíram para níveis elevados de Burnout e outros problemas de saúde mental. No período pós-pandêmico, observa-se a persistência de altas prevalências dos agravos à saúde mental, indicando a natureza duradoura dos impactos.
Conclusão: os achados demonstram que os estressores organizacionais e psicossociais durante a pandemia continuam a repercutir negativamente na saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS) evidenciando a necessidade de políticas de apoio e intervenções contínuas voltadas para o bem-estar desses profissionais.
Descritores:
Estresse Ocupacional; Atenção Primária à Saúde; COVID-19; Saúde Ocupacional
ABSTRACT
Purpose: to systematize stress factors related to work changes during the pandemic and the implications for the mental health of Primary Healthcare workers in the post-pandemic period.
Methods: an integrative literature review of the BVS, CAPES Journals, PubMed, SciELO, ScienceDirect, and Web of Science databases, with a score of 80% or higher, according to the Critical Appraisal Skills Programme checklist. Data processing and analysis considered personal, organizational, and social aspects in the study design.
Literature Review: a total of 17 studies were included, which indicated that, during the pandemic, workers faced significant stressors, such as increased working hours and absenteeism, adaptation to new technologies, resource shortages, high levels of anxiety, depression, and stress, as well as negative social implications, such as discrimination and stigmatization, which contributed to high levels of burnout and other mental health problems. In the post-pandemic period, high prevalences of mental health problems persisted, indicating the lasting nature of impacts.
Conclusion: the findings show that the organizational and psychosocial stressors, during the pandemic, continue to have a negative impact on the mental health of Primary Healthcare (PHC) workers, highlighting the need for support policies and ongoing interventions focused on the well-being of these professionals.
Keywords:
Occupational Stress; Primary Healthcare; COVID-19; Occupational Health
INTRODUÇÃO
A pandemia de COVID-19, sem precedentes em sua magnitude e impacto global, impôs uma série de estressores ocupacionais que afetaram de maneira singular a saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS)1. A sobrecarga de trabalho, a insegurança em relação à infecção e a pressão emocional resultante da gestão de crises sanitárias foram determinantes para o agravamento de condições de saúde mental entre esses profissionais1. O contexto da pandemia não apenas acentuou as vulnerabilidades preexistentes, mas também introduziu novos desafios que exigem uma análise aprofundada e contextualizada.
Os profissionais atuaram na linha de frente nas unidades de saúde e nos territórios para a redução da transmissibilidade do vírus, assim como, na pré-triagem, encaminhamentos a serviços de maior complexidade, atendimento e monitoramento clínico, conscientização sanitária sobre riscos, sinais e sintomas e para garantir que os serviços permanecessem disponíveis para atender outras demandas cotidianas2. O cenário pandêmico desvelou pressões significativas para o trabalho dos profissionais de saúde, mediante a ampliação de atribuições, da jornada e carga horária de trabalho, sem intervalos e sob altas demandas, urgentes e com maior risco de contaminação3. Dentre os desafios vivenciados pode-se destacar, a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), sobrecarga de trabalho ou realocações para outros setores e serviços, treinamento inadequado ou mesmo ausente, protocolos para tratamento inexistentes ou em elaboração ou até mesmo imprecisos dificultando a execução de atividades3,4.
Estudos recentes indicam que a prevalência de transtornos de ansiedade e depressão entre trabalhadores da APS aumentou exponencialmente durante a pandemia, com taxas que superaram 45%3. Um estudo realizado com profissionais do serviço nacional de saúde da Espanha, utilizando dados do UK Biobank4, investigou as diferenças nas manifestações graves da COVID-19 entre vários grupos de trabalhadores em situações de risco e de insegurança, com repercussões clínicas e a necessidade de monitoramento da saúde física e mental5-7. Identificou-se similarmente, a necessidade de averiguar a persistência de sintomas psicológicos, incluindo ansiedade, depressão, sintomas somáticos e esgotamento durante o surto pandêmico, e as implicações para a saúde mental7 no contexto pós-pandêmico. Esses dados ressaltam a urgência de compreender os fatores que contribuem para o sofrimento psíquico desses profissionais e a necessidade premente de intervenções eficazes.
A relação entre estressores ocupacionais e a saúde mental é amplamente reconhecida na literatura, especialmente em sistemas de saúde que operam sob o modelo da Atenção Primária. A Atenção Primária, sendo a porta de entrada para o sistema de saúde, torna-se um campo particularmente vulnerável, pois os profissionais lidam com a complexidade das necessidades de saúde da população, especialmente em momentos de crise, como pandemias ou desastres naturais8. Contudo, as pesquisas9,10 relacionadas ao período pós-pandêmico sobre estresse no trabalho e adaptação psicológica em profissionais de saúde são escassas. Essa ausência de dados pode comprometer a formulação de políticas de saúde ocupacional adequadas, que são cruciais para a promoção de um ambiente de trabalho saudável e sustentável.
Outro aspecto que merece destaque é a transição de pandemia para endemia, em que são necessárias abordagens abrangentes e contínuas, para garantir o bem-estar dos profissionais de saúde, incluindo a necessidade de adaptação às mudanças nas demandas de trabalho e a recuperação emocional dos profissionais9. A adaptação a um novo normal, requer a reavaliação dos estressores ocupacionais e suas repercussões sobre a saúde mental, evidenciando a necessidade de abordagens integradas que considerem o bem-estar dos trabalhadores como uma prioridade. Nesse sentido, a identificação e a análise dos fatores estressores específicos enfrentados por esses profissionais são essenciais para o desenvolvimento de estratégias de mitigação eficazes10.
A escolha pelo estudo no âmbito da APS justifica-se em função de especificidades do trabalho, diferente de outros níveis de atenção. Os profissionais da APS atuam como a primeira linha de defesa no sistema de saúde, lidando com uma variedade de problemas de saúde e questões sociais que afetam a comunidade. Atuando diretamente no território onde vivem as pessoas, são expostos a uma carga emocional significativa, pois frequentemente enfrentam situações de vulnerabilidade e sofrimento dos pacientes, além da pressão para oferecer atendimento de qualidade com recursos limitados. Essa complexidade aumenta a demanda sobre os trabalhadores, que precisam não apenas diagnosticar e tratar doenças, mas também abordar questões sociais e econômicas que impactam a saúde dos pacientes.
Sendo assim, este artigo objetiva sistematizar fatores estressores relacionados às mudanças no trabalho durante a pandemia e as implicações para a saúde mental dos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde no período pós-pandêmico.
MÉTODOS
Trata-se de uma revisão integrativa, utilizada para avaliar e sintetizar dados de diversas fontes, a fim de responder a questões de pesquisa e fornecer uma visão abrangente do conhecimento atual sobre um tema de interesse, executada em seis etapas: 1) identificação do tema e seleção da hipótese ou questão de pesquisa; 2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão e busca na literatura; 3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; 4) avaliação dos estudos incluídos; 5) interpretação dos resultados; e 6) síntese do conhecimento11.
O planejamento, a condução e a divulgação deste estudo basearam-se nas recomendações das pesquisas relacionadas a COVID-19 Cochrane Collaboration12.
A questão que norteou a realização do estudo foi estruturada por meio da estratégia PCC (População, Conceito, Contexto). Assim, a elaboração se deu da seguinte forma: P - Profissionais da saúde, C- Saúde mental e estressores ocupacionais e C - contexto pós- pandemia da COVID-19. Isso resultou na questão de pesquisa: Quais são os fatores estressores relacionados a mudanças no trabalho na APS no curso da pandemia da COVID-19, que podem repercutir, em longo prazo, na saúde mental dos profissionais no período pós-pandêmico?
Para fins deste estudo, definiu-se o 'período pós-pandêmico' como o intervalo ≥ 36 meses após a declaração da pandemia pela OMS (março de 2020), coincidindo com a fase de endemicidade e o fim da emergência de saúde pública em maio de 2023. 13
Para responder à pergunta norteadora foram realizadas buscas no mês de março de 2025 por dois pesquisadores, de forma independente e cega, nas seguintes bases de dados cientificas e bibliotecas: Biblioteca Nacional em Saúde (BVS), Periódicos Capes, PubMed, SciELO, Science direct e Web of Science. Utilizou-se descritores selecionados no DECS: "covid-19"; "post-covid"; "health workforce"; " primary health care"; "mental health" associados a operadores booleanos AND e OR para combinação da estratégia adaptada, conforme base consultada: (“covid-19”) AND (“health workforce“ or “profissionais da saúde”) AND (“primary care” OR “Primary Health care” OR “ Atenção Primária”) AND (“Infecções por Coronavirus” OR “COVID-19” OR “POST-COVID) AND” AND “Saúde Mental” OR “Mental Health OR “stress factors”) AND (year cluster:[2020 TO 2023]), nos idiomas português e inglês.
Foram incluídos estudos primários qualitativos publicados entre março de 2020 a maio de 2023, desenvolvidos no cenário da APS, que abordassem os fatores estressores no trabalho durante a pandemia e suas consequências ou persistência no período pós-pandêmico. A exclusão de estudos quantitativos se deve à ênfase desta revisão na compreensão das experiências subjetivas e percepções dos trabalhadores da APS, que são mais bem capturadas por meio de abordagens qualitativas. Essa escolha metodológica visa proporcionar uma visão mais rica e contextualizada dos desafios enfrentados, permitindo identificar nuances e aspectos que os dados quantitativos podem não revelar.
Para elegibilidade, foram incluídos estudos publicados entre março de 2020 e março de 2023 desenvolvidos no cenário da APS, garantindo que os resultados fossem aplicáveis ao ambiente específico de atuação dos profissionais de saúde, abrangendo o período da pandemia e suas consequências no contexto pós-pandêmico. Apenas foram considerados estudos que abordassem fatores estressores no trabalho da APS durante a pandemia e suas consequências ou a persistência desses efeitos no período pós-pandêmico.
Foram excluídos os estudos que não apresentassem dados ou informações suficientes sobre as repercussões para a saúde mental dos trabalhadores no período pós-pandêmico, uma vez que tais lacunas inviabilizariam uma análise robusta. Também foram excluídas opiniões, comentários ou análises desprovidas de pesquisa original, bem como os estudos focados em surtos anteriores (SARS, MERS, H1N1, H5N1, Zika, Ebola e Febre do Nilo Ocidental), pois o objetivo era compreender os impactos específicos da pandemia de COVID-19 e suas consequências. Por fim, excluíram-se quaisquer estudos com duplicação de dados ou resultados, garantindo a originalidade das evidências incluídas. Esses critérios foram estabelecidos para assegurar que a revisão se concentrasse em evidências pertinentes e de alta qualidade, capazes de refletir as vivências e os desafios específicos enfrentados pelos trabalhadores da APS durante e após a pandemia.
A seleção dos artigos foi realizada, inicialmente, por dois pesquisadores, por meio do software Rayyan - Intelligent Systematic Review14 que auxiliou na identificação dos estudos duplicados e na aplicação dos critérios de inclusão e exclusão de artigos durante a leitura dos títulos e resumos. Nos casos de discordância um terceiro pesquisador realizou a avaliação e procedeu com o desempate.
Na primeira busca foram identificadas 900 publicações. Na sequência foram excluídas 350 duplicatas, ficando 550 artigos para a leitura dos títulos e dos resumos. Destes, 466 foram descartados por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Os 84 artigos restantes foram lidos na íntegra, e excluídos 67, conforme critérios estabelecidos, restando 17 artigos selecionados para análise.
Em seguida foi utilizado o Critical Appraisal Skills Programme (CASP)15 para avaliar a qualidade metodológica dos artigos, que apresenta dez questões relacionadas ao rigor, credibilidade e relevância do estudo. Foram classificados para leitura na integra os estudos que preencheram ao menos oito destes dez itens, ou seja, 80% da pontuação, sendo excluídos dois artigos. O Quadro 1 apresenta a aplicação dos critérios do CASP visando selecionar o rigor, credibilidade e relevância do estudo15. Para tanto, os estudos foram classificados em duas categorias: A, alto rigor metodológico, pelo menos 9 dos 10 itens; B moderado rigor metodológico, quando pelo menos 5 dos 10 itens foram atendidos.
O corpus final da revisão foi composto por 17 publicações. Por fim, o processo de busca e seleção dos estudos foi simplificada, mediante fluxograma preconizado pelo Prisma - Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses16 (Figura 1).
REVISÃO DA LITERATURA
Na presente revisão foram encontrados 17 artigos (Quadro 1) abrangendo artigos de revisão, artigos teóricos, análises temporais e estudos longitudinais com dados secundários. A distribuição geográfica correspondeu a cinco estudos realizados na América do Norte (Canadá e EUA), três na América do Sul (Brasil), dois na Ásia (China e Malásia), cinco na Europa (Bélgica, Espanha e Reino Unido) e dois na Oceania (Austrália e Nova Zelândia).
Quanto às mudanças no trabalho na pandemia de COVID-19, conforme Quadro 2, os estudos analisados demarcaram consensualmente que, no início e ao longo da pandemia da COVID-19, os profissionais de saúde vivenciaram mudanças significativas nas condições de trabalho, resultantes da ampliação da jornada e dos turnos (10/17), da incorporação de tecnologias de informação em saúde (5/17), de alterações constantes nos protocolos assistenciais (3/17), da redução da força de trabalho devido a afastamentos durante a pandemia (2/17) e da insuficiência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) (3/17).
Os efeitos combinados de morbidade e mortalidade, a presença de profissionais médicos e de enfermagem jovens, a escassez de pessoal e o aumento da carga de trabalho, além de políticas e procedimentos em constante mudança, caracterizaram os estressores organizacionais, sociais e pessoais enfrentados pelos profissionais de saúde durante a pandemia, muitos dos quais persistiram no período pós-pandêmico, conforme Quadro 3.
Durante os momentos mais críticos da pandemia, os aspectos organizacionais foram marcados pela ausência de planos de emergência e pela atuação em ambientes estressantes e desfavoráveis, caracterizados pela falta de diretrizes claras sobre o gerenciamento da COVID-19, estratégias de comunicação de risco ineficazes, acesso inadequado a EPIs e treinamento insuficiente para situações emergenciais. Estressores adicionais incluíram a indefinição de estratégias de tratamento validadas, o risco constante de contaminação devido à alta exposição, o atendimento de pacientes sem a presença de familiares e as mudanças frequentes em protocolos assistenciais (Quadro 3).
As implicações relacionadas à sobrecarga de trabalho, à falta de apoio, à ambiguidade de funções, à incorporação de novas tecnologias de informação e à percepção de ameaça da doença estão todas correlacionadas ao Burnout e aos sentimentos de esgotamento emocional e físico, além de sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. Esses fatores também se manifestam em condições cognitivas e afetivas, com intensos sintomas de desconcentração e tristeza17.
O Burnout levou ao aumento de afastamentos ou licenças médicas, sendo associado ao estresse no local de trabalho durante a pandemia, decorrente da ampliação de turnos ou da carga horária, que podem culminar em privação do sono e exaustão emocional, sendo estes componentes fundamentais da saúde mental adversa e do esgotamento, comprometendo a capacidade dos profissionais de saúde de perceberem com precisão as demandas laborais18-21.
No que tange aos aspectos pessoais, destacou-se o risco de transmissão da COVID-19 para familiares, que poderia resultar em morte, e o receio do trabalhador de seguir orientações que conflitam com seus padrões profissionais ou valores fundamentais22-24. Evidências indicam um duplo movimento entre os trabalhadores durante a pandemia: por um lado, eles recorreram a suas habilidades e recursos pessoais como estratégias de enfrentamento; por outro, registraram-se ampliações nos quadros de ansiedade, depressão, comprometimento da qualidade do sono, hipervigilância, aumento do consumo de álcool e outras substâncias ilícitas, bem como sintomas psicossomáticos e ideação suicida 25-29).
Em relação aos estressores sociais, os estudos relataram o sofrimento e os danos morais enfrentados pelos trabalhadores da APS em decorrência de atitudes negativas da comunidade, como discriminação associada à natureza de seu trabalho e ao risco de exposição à COVID-19. O foco da mídia nos profissionais de saúde como "heróis" potencializa o fardo que enfermeiros, médicos e outros profissionais carregaram durante emergências de saúde30 Outras publicações relacionam a resistência pública à figura dos profissionais de saúde com a disseminação de pânico irracional e desinformação (fake news), resultando em episódios de violência, estigmatização e sentimentos antiasiáticos31,32.
Os trabalhadores ainda estão processando o trauma testemunhado e o esgotamento físico, que geram impacto severo na saúde mental e na capacidade laboral, especialmente em ambientes de cuidados de saúde primários, onde os recursos são frequentemente limitados, resultando na persistência da escassez de pessoal e na exigência de longas horas de trabalho durante a era pós-pandêmica33 Tanto no contexto pandêmico quanto no pós-pandêmico, compreender a realidade vivenciada pelos trabalhadores da APS é essencial para a definição das necessidades de ajustes que propiciem melhores condições de trabalho e garantam o funcionamento eficaz dos sistemas universais de saúde ao redor do mundo34.
No período pós-pandêmico, observou-se a ampliação do absenteísmo, com significativa diminuição do quadro de profissionais devido a afastamentos ou licenças médicas35. Persistiram fatores como a alta carga de trabalho, que indica a urgência de construir cronogramas de trabalho equilibrados e criar um ambiente de apoio para os profissionais de saúde, visando reduzir o esgotamento e garantir a qualidade da saúde e a segurança ocupacional.
Embora os sintomas mentais tenham apresentado alguma melhora após a pandemia, as taxas de prevalência de depressão, ansiedade e estresse permanecem elevadas por um período na pós pandemia (Quadro 3). Os sintomas psicológicos relatados ou associados à era pós-pandemia incluem medo, ansiedade, estresse, sintomas depressivos, incerteza e frustração, os quais podem levar a erros médicos, falta de empatia no tratamento de pacientes, menor produtividade e maiores taxas de rotatividade.
A produção científica relacionada à COVID-19 experimentou crescimento exponencial nos últimos anos, especialmente após o término das fases mais críticas da pandemia36. De acordo com uma Revisão Sistemática com metanálise recente37 a maioria das pesquisas focou nas áreas de infectologia e virologia, com contribuições significativas de países como China, Estados Unidos, Itália e Reino Unido. No entanto, são incipientes investigações, especialmente no que diz respeito, aos impactos psicossociais inerentes ao contexto da pandemia38, e a necessidade de monitoramento contínuo da saúde mental dos trabalhadores da APS.
Evidências36-38 demonstram que os fatores estressores decorrentes das mudanças no trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS) durante a pandemia podem ter repercussões de longo prazo na saúde mental dos profissionais de saúde. Os resultados analisados indicam a predominância de alterações nas atribuições e modos de trabalho, que geraram estressores organizacionais, como a intensificação das funções e a precarização das condições de trabalho, exacerbando problemas de saúde mental já reconhecidos na literatura39 Essas mudanças ocorreram em um contexto social e econômico fragilizado, onde a demanda por cuidados de saúde se intensificou, tornando necessário um conjunto articulado de ações para mitigar os efeitos adversos da pandemia.
Os estressores identificados, tanto organizacionais quanto pessoais, denotam a necessidade urgente de atenção à saúde mental dos trabalhadores da APS, que enfrentam riscos constantes, incluindo a exposição a doenças transmissíveis devido a intermitência na disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) 39. A garantia de condições adequadas de trabalho e a implementação de políticas de proteção são fundamentais para prevenir o adoecimento desses profissionais39. Pesquisas40 corroboram essa necessidade, apontando os riscos que pandemias de doenças infecciosas representam para a saúde mental dos trabalhadores de saúde e a importância de intervenções políticas efetivas durante e após crises sanitárias
O cenário pandêmico observado na APS reflete situações semelhantes encontradas em ambientes hospitalares, caracterizados por alta carga de trabalho, jornadas exaustivas e o medo constante de contágio, tanto para os profissionais quanto para suas famílias. Esses fatores têm contribuído para o aumento de condições como burnout, transtorno pós-traumático, ansiedade e depressão40.
Entretanto, a literatura revela uma fragilidade significativa no suporte emocional oferecido a esses profissionais. O exemplo da Austrália, que implementou um Plano de Resposta de Emergência focado na APS durante a pandemia, ilustra a eficácia de estratégias que priorizam a proteção dos trabalhadores de saúde e a continuidade do cuidado40. A implementação de medidas que garantam a saúde física e mental dos trabalhadores, associadas à proteção do emprego, são elementos cruciais, que devem estar integrados ao cotidiano da prática profissional, e a um sistema de feedback que permita aos profissionais expressar suas preocupações e necessidades, promovendo a saúde mental de forma contínua.
Dessa forma, o desenvolvimento de intervenções para o gerenciamento do estresse e serviços de apoio psicossocial devem ser considerados prioridade na era pós-pandêmica. A identificação de estressores e desafios específicos enfrentados por trabalhadores da saúde pode subsidiar a construção de políticas e programas de apoio adequados e sustentáveis ao longo do tempo.
Limitações do estudo: a presente revisão está sujeita a restrições temporais que podem ter afetado a profundidade e a abrangência das evidências analisadas. Estudos futuros podem elucidar de forma mais detalhada os desafios enfrentados pela força de trabalho na era pós-pandemia. Além disso, essas investigações devem servir como base para a formulação de políticas e estratégias de prevenção que visem mitigar os impactos na saúde mental dos trabalhadores, garantindo, assim, um suporte mais eficaz e contextualizado.
CONCLUSÃO
Os principais fatores estressores relacionados às mudanças no trabalho durante a pandemia foram a intensificação da carga e jornada de trabalho, a escassez de EPIs, as alterações frequentes dos protocolos, a incorporação acelerada de novas tecnologias e a redução da força de trabalho por afastamentos. Tais fatores organizacionais, somados ao medo do trabalhador de se contaminar e da contaminação de seus familiares, resultaram em danos à saúde mental evidenciadas pelo esgotamento, ansiedade, depressão, sintomas de estresse pós-traumático e ideação suicida, que se mantiveram no período pós-pandêmico, como estressores residuais.
Embora o período pós-pandêmico seja caracterizado pela redução da transmissão comunitária e pelo fim da emergência sanitária declarado pela OMS em maio de 2023 (1), os profissionais de saúde da atenção primária continuam a apresentar medo significativo de contaminação por SARS-CoV-2. Este fenômeno pode ser explicado por três mecanismos: primeiro, a vivência traumática do período agudo gerou memórias aversivas condicionadas associadas à escassez de EPI e à perda de colegas, que não são extintas automaticamente com a redução do risco objetivo (2); segundo, a COVID longa emergiu como uma consequência temida e incapacitante, mantendo elevada a percepção de ameaça mesmo diante de infecções leves (3); terceiro, a incerteza em torno de novas variantes e reinfecções perpetua um estado de hipervigilância entre trabalhadores da linha de frente (4). Dessa forma, o medo de contaminação no período pós-pandêmico não representa uma fobia irracional, mas sim uma resposta adaptativa persistente a riscos reais, ainda que atenuados, e constitui um fator mantenedor dos quadros de ansiedade, depressão e esgotamento observados na amostra.
Os achados demonstram que os estressores organizacionais e psicossociais experimentados durante a pandemia continuam a repercutir negativamente na saúde mental dos trabalhadores da APS, indicando a necessidade de políticas de apoio e intervenções contínuas voltadas para o bem-estar desses profissionais.
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Estudo realizado na Universidade Federal da Bahia, Instituto Multidisciplinar em Saúde, Campus Anísio Teixeira, Vitória da Conquista, BA, Brasil.
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Declaração de compartilhamento de dados
Os dados coletados durante esta pesquisa serão compartilhados de forma a promover a transparência e permitir que outros pesquisadores verifiquem e construam sobre nossos achados. Estes dados estarão disponíveis após a publicação e permanecerão acessíveis por tempo indeterminado. O acesso aos dados será concedido a pesquisadores que solicitarem, mediante a apresentação de uma proposta de pesquisa que justifique o uso dos dados. Serão considerados critérios como a relevância da pesquisa proposta, a conformidade com as regulamentações éticas e a garantia de que os dados serão utilizados de maneira responsável e para fins científicos. Além disso, os pesquisadores terão que assinar um termo de compromisso em que se responsabilizam por manter a confidencialidade e a integridade dos dados compartilhados.
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Declaração de uso de ferramentas de Inteligência Artificial
Durante a preparação deste estudo, os autores utilizaram a ferramenta CHATGPT-4 da OpenAI (2024) para corrigir a gramática e a fluência do texto. Após a utilização dessa ferramenta, os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário. Além disso, assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
Os dados coletados durante esta pesquisa serão compartilhados de forma a promover a transparência e permitir que outros pesquisadores verifiquem e construam sobre nossos achados. Estes dados estarão disponíveis após a publicação e permanecerão acessíveis por tempo indeterminado. O acesso aos dados será concedido a pesquisadores que solicitarem, mediante a apresentação de uma proposta de pesquisa que justifique o uso dos dados. Serão considerados critérios como a relevância da pesquisa proposta, a conformidade com as regulamentações éticas e a garantia de que os dados serão utilizados de maneira responsável e para fins científicos. Além disso, os pesquisadores terão que assinar um termo de compromisso em que se responsabilizam por manter a confidencialidade e a integridade dos dados compartilhados.


Fonte: Elaborado pelos autores (2024)*Consider, if feasible to do so, reporting the number of records identified from each database or register searched (rather than the total number across all databases/registers).**If automation tools were used, indicate how many records were excluded by a human and how many were excluded by automation tools. Source: Page M.J. et al. BMJ. 2021;372(71). Disponível em:.doi: 10.1136/bmj.n71.Este trabalho esta licenciado sob CC BY 4.0. Para visualizar uma cópia desta licença, visite https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/