RESUMO
São debatidos os argumentos expostos na Carta ao Editor “Reflexões sobre a Inserção de Médicos Assistenciais como Educadores em Hospitais Comunitários”, explorando as competências docentes necessárias para preceptores comunitários no contexto da educação médica, destacando a crescente responsabilidade desses profissionais na formação de futuros médicos em regiões carentes de saúde. A partir de uma revisão narrativa, são analisados programas de desenvolvimento do corpo docente (Faculty Development - FD), enfatizando sua importância para aprimorar habilidades de ensino, criar redes de apoio e fornecer conteúdos personalizados para desafios específicos. Entre os domínios de competência identificados estão habilidades de ensino, critérios de avaliação, profissionalismo, comunicação e liderança/gestão. Além disso, são sugeridas atividades práticas profissionais (EPA) como ferramentas para avaliar e desenvolver essas competências. Os programas de FD, quando bem estruturados, beneficiam preceptores, alunos e comunidades, melhorando a qualidade do ensino e dos desfechos assistenciais.
Palavras-chave:
Educação Médica; Preceptoria; Necessidades e Demandas de Serviços de Saúde; Aprendizagem
ABSTRACT
We discuss the arguments exposed in the Letter to the Editor “Reflections on the Inclusion of Direct-Care Physicians as Educators in Community Hospitals”, exploring the teaching competencies necessary for community preceptors in the context of medical education, highlighting the growing responsibility of these professionals in the training of future physicians in health-deprived regions. From a narrative review, we analyze faculty development (FD) programs, emphasizing their importance in improving teaching skills, creating support networks, and providing personalized content for specific challenges. Among the competence domains identified are teaching skills, evaluation criteria, professionalism, communication, and leadership/management. In addition, we suggest Entrustable Professional Activities (EPA) as tools to assess and develop these competencies. FD programs, when well structured, benefit preceptors, students, and communities, improving the quality of teaching and care outcomes.
Keywords:
Medical Education; Preceptorship; Health Services Needs and Demands; Learning
INTRODUÇÃO
Não há sombra de dúvidas de que, tanto no cenário nacional quanto internacional, médicos comunitários têm paulatinamente assumido a responsabilidade de preceptoria na assistência primária, sobretudo em regiões com a carência de profissionais de saúde. A situação se acelerou a partir de 2010, com a formulação de políticas públicas governamentais que buscaram estimular a formação desbalanceada de preceptores médicos sem a respectiva proporcionalidade de expansão de programas para desenvolvimento de corpo docente. Tais políticas coincidem com a proliferação de escolas médicas que utilizam profissionais de saúde de assistência direta sem competências docentes e pedagógicas para cumprir funções de ensino, como preceptores. Para tanto deve-se questionar quais seriam as competências necessárias para desempenhar estas funções e quais os eventuais resultados de tais experiências no modelo de aprendizagem.
Uma revisão narrativa foi elaborada para analisar programas de desenvolvimento do corpo docente (Faculty Development) projetados especificamente para preceptores comunitários e cujo objetivo foi identificar como tais programas podem dar suporte às escolas médicas para melhorar o treinamento e a eficácia dos preceptores1. A revisão destaca a importância dos preceptores comunitários na educação médica, pois desempenham papel crucial no treinamento de futuros profissionais de saúde.
São analisados vários programas de FD que foram implementados e seus benefícios potenciais para preceptores e estudantes de medicina. Os autores enfatizam a necessidade de programas de desenvolvimento personalizados que abordem os desafios únicos enfrentados pelos preceptores comunitários.
Quais seriam as eventuais implicações para as escolas médicas? Ao investir no desenvolvimento do corpo docente para preceptores comunitários, as escolas médicas podem melhorar a qualidade da educação fornecida aos alunos e aprimorar a experiência geral de treinamento.
Alguns pontos fortes dos programas de FD que merecem destaque são:
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1) Aprimoramento da Habilidades de ensino: os programas de FD podem melhorar significativamente as habilidades de ensino dos preceptores comunitários, levando a melhores experiências educacionais para os estudantes de medicina.
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2) Rede de apoio: esses programas geralmente criam uma comunidade entre os preceptores, promovendo a colaboração e o compartilhamento de melhores práticas.
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3) Conteúdo personalizado: os programas de FD eficazes são projetados para abordar os desafios específicos enfrentados pelos preceptores comunitários, tornando o treinamento mais relevante e aplicável.
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4) Maior engajamento: os preceptores que participam de programas de FD geralmente relatam níveis mais altos de engajamento e satisfação em suas funções de ensino.
Em contrapartida, também podem existir pontos de fragilidade nestes programas, entre os quais cabe destacar:
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1) Limitações de recursos: muitos preceptores comunitários podem não ter acesso a recursos adequados ou tempo para participar totalmente dos programas de FD, o que pode limitar sua eficácia.
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2) Variabilidade na Implementação: A qualidade e a estrutura dos programas de FD podem variar amplamente, levando a experiências inconsistentes para os preceptores.
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3) Resistência à Mudança: Alguns preceptores podem ser resistentes à adoção de novos métodos ou práticas de ensino introduzidos em programas de FD, o que pode prejudicar seu sucesso.
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4) Avaliação Limitada: Muitas vezes, há uma falta de mecanismos de avaliação robustos para avaliar o impacto de longo prazo dos programas de FD em preceptores e alunos.
Esses insights destacam a importância de projetar e implementar cuidadosamente os programas de FD para maximizar seus benefícios ao mesmo tempo em que abordam os desafios potenciais.
Ainda nesse mesmo sentido, quais seriam as competências necessárias para desenvolvimento em tais programas de FD?
Um artigo intitulado “Competências de ensino para preceptores comunitários” publicado na Family Medicine descreve competências essenciais para preceptores comunitários envolvidos na educação médica2. Neste artigo, é apresentada uma estrutura que consiste em cinco domínios de competência com 21 subcompetências associadas, projetadas para avaliar as necessidades dos preceptores, apoiar seu desenvolvimento e avaliar sua eficácia em funções de ensino. Entre os principais domínios de competência são mencionados os seguintes:
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1) Habilidades de ensino: este domínio se concentra na capacidade de transmitir efetivamente conhecimento e habilidades aos alunos, garantindo que os métodos de ensino sejam envolventes e apropriados para o público.
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2) Critérios de avaliação: os preceptores devem ser qualificados para avaliar o desempenho dos alunos e fornecer feedback construtivo para facilitar seu crescimento.
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3) Profissionalismo: isso inclui demonstrar comportamento ético, manter a confidencialidade e servir como um modelo para os alunos.
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4) Comunicação: habilidades de comunicação eficazes são essenciais para interagir com alunos, colegas e pacientes, promovendo um ambiente de aprendizagem positivo.
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5) Liderança e Gestão: Os preceptores devem exibir qualidades de liderança e ser capazes de gerenciar atividades educacionais, incluindo organizar experiências de aprendizagem e orientar alunos.
A partir da definição de tais competências poder-se-ia estruturar a elaboração de atividades práticas profissionais (EPA- entrustable professional activities) para formular o desenvolvimento e demonstração de tais competências3. A partir das competências acima mencionadas poderíamos elaborar uma EPA correspondente a cada domínio específico, por exemplo:
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- Habilidades de ensino - Conduzir uma sessão de ensino em pequenos grupos.
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- Avaliação - Fornecer feedback sobre o desempenho clínico de um aluno.
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- Profissionalismo - Demonstrar tomada de decisão ética em cenários de atendimento ao paciente.
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- Comunicação - Comunicar-se efetivamente com pacientes e alunos durante encontros clínicos.
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- Liderança e gestão - Organizar e liderar uma sessão de ensino clínico.
Na seqüência seriam necessários definir métodos e critérios de avaliação, criar modelos para capacitação e desenvolvimento e implementar as respectivas EPAs no programa de treinamento com avaliação continua de sua eficácia.
CONCLUSÕES
Médicos de assistência direta investidos no papel de educadores oferecem vários benefícios, particularmente, na melhoria da satisfação do paciente, na melhoria da educação médica e na promoção de um ambiente de aprendizagem favorável para futuros profissionais de saúde.
Tais médicos podem se tornar professores eficientes, especialmente quando estão confiantes em suas habilidades de ensino e participem ativamente de programas de desenvolvimento de corpo docente bem elaborados. Esses programas devem ter como objetivo ajudar a melhorar suas respectivas habilidades de ensino e de influenciar positivamente suas atitudes em relação ao ensino, beneficiando, em última análise, tanto os próprios médicos quanto seus alunos, aportando melhoria dos desfechos assistenciais para a comunidade correspondente.
Referências bibliográficas
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1 Alexandraki I, Baker R, Kern A, Beck Dallaghan GL, Seegmiller J. Faculty Development for Community Preceptors: a Narrative Review of the Literature. J Gen Intern Med. 2023; 38:1501-1515. doi: 10.1007/s11606-023-08026-5.
» https://doi.org/10.1007/s11606-023-08026-5 -
2 Brink D, Simpson D, Crouse B, Morzinski J, Bower D, Westra R. Teaching Competencies for Community Preceptors. Fam Med. 2018; 50:359-363. doi: 10.22454/FamMed.2018.578747.
» https://doi.org/10.22454/FamMed.2018.578747 -
3 https://www.sbmfc.org.br/epas/#:~:text=O%20que%20s%C3%A3o%20as%20EPAs,no%20ensino%20baseado%20por%20compet%C3%AAncias, acessado em 24/11/2024
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