Resumo
Paraty, situada na Costa Verde do Rio de Janeiro, é conhecida por seus atrativos turísticos únicos, que incluem recursos naturais e um rico patrimônio histórico-cultural. Essa riqueza fez da cidade um Patrimônio da Humanidade, reconhecido pela UNESCO como um sítio misto de cultura e biodiversidade. Paraty integra também a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, como Cidade Criativa da Gastronomia, graças ao valor e diversidade da culinária local. No entanto, a atratividade de Paraty contrasta com altos índices de violência. A partir dessa problemática, este trabalho exploratório e descritivo visa analisar a percepção de moradores e visitantes acerca de potenciais fatores restritivos ao turismo na referida localidade, além de averiguar os dados referentes às ocorrências criminais no município de Paraty, com ênfase nas situações de letalidade violenta. Para isso, foi aplicado um formulário a 404 pessoas, incluindo turistas e residentes, durante a baixa e a alta temporadas de 2023. Os resultados revelaram diferenças nas percepções de segurança, com turistas geralmente mais otimistas em relação à segurança do que os moradores. Acreditamos que este estudo tenha contribuído para o entendimento dos desafios do turismo em Paraty e pode servir como base para pesquisas futuras sobre os fatores restritivos do setor.
Palavras-chave
Turismo; Insegurança; Fatores Restritivos; Percepção; Paraty-RJ
Abstract
Paraty, located in Costa Verde in Rio de Janeiro, is known for its unique tourist attractions, which include natural resources and a rich historical-cultural heritage. The city is a UNESCO World Heritage Site, recognized as a mixed site of culture and biodiversity. Paraty is also part of the UNESCO Creative Cities Network as a Creative City of Gastronomy, due to the value and diversity of its local cuisine. However, Paraty's attractiveness contrasts with high levels of violence. Addressing this issue, this exploratory and descriptive study aims to analyze the perception of locals and visitors regarding potential factors that may restrict tourism in the area, as well as examine data on criminal incidents in Paraty, with an emphasis on violent fatality situations. A survey was conducted with 404 people, including tourists and residents, during both low and high seasons of 2023. The results revealed differences in safety perceptions, with tourists generally more optimistic about safety than locals. We believe this study has contributed to understanding the challenges of tourism in Paraty and may serve as a basis for future research on the restrictive factors in the sector.
Keywords
Tourism; Insecurity; Restrictive factors; Perception; Paraty-RJ
Resumen
Paraty, ubicada en la Costa Verde de Río de Janeiro, es conocida por sus atractivos turísticos únicos, que incluyen recursos naturales y un rico patrimonio histórico-cultural. Esta riqueza ha convertido a la ciudad en un Patrimonio de la Humanidad, reconocido por la UNESCO como un sitio mixto de cultura y biodiversidad. Paraty también forma parte de la Red de Ciudades Creativas de la UNESCO como Ciudad Creativa de la Gastronomía, gracias al valor y la diversidad de su cocina local. Sin embargo, la atractividad de Paraty contrasta con altos índices de violencia. Abordando este problema, este estudio exploratorio y descriptivo tiene como objetivo analizar la percepción de los residentes y los visitantes sobre los posibles factores que pueden restringir el turismo en la localidad, así como examinar los datos sobre incidentes criminales en Paraty, con énfasis en las situaciones de letalidad violenta. Para ello, se aplicó una encuesta a 404 personas, incluidos turistas y residentes, durante las temporadas baja y alta de 2023. Los resultados revelaron diferencias en las percepciones de seguridad, siendo los turistas generalmente más optimistas respecto a la seguridad que los residentes. Creemos que este estudio ha contribuido a la comprensión de los desafíos del turismo en Paraty y puede servir como base para futuras investigaciones sobre los factores restrictivos del sector.
Palavbras clave
Turismo; Inseguridad; Factores restrictivos; Percepción; Paraty-RJ
1 INTRODUÇÃO
A atividade turística tem sido uma constante cada vez mais presente nas diversas sociedades ao longo da história. Existem localidades que recebem um número reduzido de visitantes, enquanto outras enfrentam um fluxo de turistas superior à sua capacidade de acolhimento, o que pode gerar desconforto tanto para os residentes quanto para os próprios turistas. O interesse demonstrado por cidades, estados, regiões ou países em desenvolver o turismo exerce uma influência significativa sobre o fluxo turístico, uma vez que são necessárias ações locais específicas, além de estratégias de divulgação, para que os turistas se sintam motivados a visitar esses destinos. É imperativo que existam condições mínimas de acesso, segurança, opções de alimentação e de hospedagem. Dessa forma, pode-se concluir que as cidades que aspiram a integrar-se de maneira ativa no mercado turístico, especialmente no que tange ao turismo receptivo, devem implementar medidas que ampliem sua atratividade e a qualidade dos serviços oferecidos, visando proporcionar uma experiência turística satisfatória em seu território.
Tradicionalmente, as produções técnicas e acadêmicas classificam os atrativos turísticos em duas categorias principais: naturais e culturais (Goeldner & Ritchie, 2011). Conforme o Ministério do Turismo (2007, p. 27), os atrativos culturais são definidos como elementos, sejam eles materiais ou imateriais, que compõem as tradições locais e, quando utilizados para fins turísticos, têm o potencial de atrair fluxos de visitantes. Por sua vez, os atrativos naturais são considerados elementos da natureza que, ao serem explorados para fins turísticos, também atraem turistas.
A cidade de Paraty, situada na Região Turística Costa Verde do Estado do Rio de Janeiro, possui o duplo reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Patrimônio Histórico e Patrimônio Ambiental da Humanidade, o que atesta sua significativa capacidade de atrair turistas, tanto por seus atrativos culturais quanto naturais. É importante ressaltar que Paraty, em conjunto com a Ilha Grande, localizada em Angra dos Reis, é o único Patrimônio Misto da UNESCO no Brasil, dentre os 40 reconhecidos mundialmente (IPHAN, 2023; UNESCO, 2024). Em 2017, Paraty foi novamente reconhecida pela UNESCO, agora como Cidade Criativa pela Gastronomia. A Rede de Cidades Criativas da UNESCO (UCCN) tem como objetivo promover o compartilhamento de boas práticas para o desenvolvimento sustentável em aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais entre as cidades que fazem parte da rede. Essas práticas, que devem estar presentes em planos e políticas públicas, devem ser criativas, sustentáveis e voltadas à promoção do patrimônio cultural.
Dessa forma, além da atratividade natural e cultural que caracteriza Paraty, o município também se destaca como um relevante polo gastronômico. Essas particularidades conferem a Paraty a condição de um importante destino turístico fluminense, posicionando-a entre as cidades mais visitadas do estado (Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises [IFEC-RJ], 2023). O território turístico de Paraty abrange uma diversidade de atrativos, englobando segmentos como turismo de sol e praia, ecoturismo, turismo histórico-cultural e turismo gastronômico. Contudo, a análise das ocorrências criminais locais (Instituto de Segurança Pública [ISP], 2024) revela que a insegurança no município é consideravelmente elevada, o que pode configurar a violência como um desafio significativo tanto para os residentes quanto para os visitantes.
Considerando que a violência e a criminalidade constituem fatores significativos que restringem o desenvolvimento do turismo, propõe-se a seguinte indagação: quais elementos podem ser considerados limitantes ao turismo em Paraty, especialmente no que tange ao risco à vida e à integridade física e emocional dos visitantes? Com o intuito de esclarecer essa questão, esta pesquisa tem como objetivo analisar a percepção de moradores e visitantes acerca de potenciais fatores restritivos ao turismo no município de Paraty, relacionados à violência urbana, à presença de conflitos armados, aos riscos de atentados, às questões de saúde pública, bem como aos riscos de desastres ambientais e de ataques de natureza preconceituosa, além de averiguar os dados referentes às ocorrências criminais no município de Paraty, com ênfase nas situações de letalidade violenta. Apesar dos numerosos aspectos positivos e atrativos que Paraty oferece como destino turístico, alguns fatores podem ser identificados como restritivos ao turismo na região, implicando, em particular, em riscos à vida e à integridade física e emocional dos visitantes.
A relevância deste estudo reside na escassez de produção teórica sobre os fatores restritivos ao turismo (Catai & Rejowski, 2005; Costa & Herrera, 2019; Tomé, Valduga & Amorim, 2022), além da importância de Paraty como um destino turístico no contexto nacional (Conti & Irving, 2014; Padilha, 2016).
Este artigo é estruturado da seguinte forma: inicia-se com a introdução apresentada, seguida pela discussão teórica sobre os fatores restritivos ao turismo. Em seguida, serão expostas informações históricas e de interesse turístico da cidade de Paraty. O próximo tópico abordará a explicação da metodologia empregada, e, por fim, serão apresentados os resultados e a análise dos dados coletados, culminando nas considerações finais sobre o estudo.
2 FATORES RESTRITIVOS AO TURISMO
Conforme indicado na Introdução deste trabalho, diversos autores (Catai & Rejowski, 2005; Costa & Herrera, 2019; Tomé et al., 2022) indicam que há pouca produção teórica sobre os fatores restritivos ao turismo. No entanto, há importantes estudos que tratam do tema, que serão aqui apresentados.
Tomé et al. (2022) indicam que os fatores restritivos do turismo são elementos e eventos, sejam eles efetivos ou potenciais, que influenciam negativamente na decisão de viajar para um destino específico, afirmando ainda que os fatores restritivos podem ser de nível pessoal ou local. Os fatores de nível pessoal são aqueles que limitam ou impossibilitam as oportunidades de viagem para um determinado indivíduo, como condições financeiras, estado de saúde ou falta de tempo disponível. Por outro lado, os fatores restritivos de nível local referem-se às condições específicas presentes em um local e que tendem a influenciar negativamente a escolha desse destino para viagens turísticas, especialmente quando envolvem riscos à integridade física, emocional e à vida do visitante. Conforme afirmam Finucane et al. (2000) a percepção de risco tende a variar de acordo com o gênero, a situação socioeconômica, etnia, local de moradia e a própria história e acontecimentos vividos de forma individual ou coletiva. Estas características influenciam a percepção de risco em conjunto com visões de mundo distintas, em papéis sociais envolvendo situações e eventos supostamente perigosos (Kahan et al, 2007), como epidemias, desastres naturais, conflitos armados, ataques terroristas, violência e criminalidade, dentre outros possíveis fatores.
O estudo de Costa e Herrera, de 2019, que analisou periódicos brasileiros de 2004 a 2018, concluiu que, apesar da constante presença de notícias sobre crimes na mídia do país, tal questão não é muito discutida na academia como um fator restritivo aos turistas. Os autores tiveram como foco estudos que abordavam a violência relativa a crimes contra os turistas (homicídio) e contra os seus patrimônios (furtos e roubos).
Em estudo sobre os fatores de consumo de hospedagem compartilhada, tendo como objetos de análise usuários de duas importantes plataformas online de intermediação, quais sejam a CouchSurfing e a Airbnb, Vera e Gosling (2018) visavam compreender a motivação para a escolha das hospedagens e acabaram por identificar também os fatores de restrição a tais opções. Além do receio de inconveniência com o anfitrião e da falta de privacidade, os entrevistados indicaram ter receio de falta de higiene e de sofrerem algum tipo de violência ou assédio.
Ao estudarem a percepção da hospitalidade por parte de turistas internacionais nas cidades do Rio de Janeiro, no Brasil, e Porto, em Portugal, Valduga, Costa e Breda (2022) identificaram a segurança como uma questão importante. Tal categoria é considerada um atributo à ausência de hostilidade por Cinotti (2011).
Para os 99 turistas entrevistados na cidade do Rio de Janeiro, como parte da categoria ‘características da cidade’, a violência emergiu nas falas tanto de forma positiva quanto negativa: “a cidade não é tão insegura quanto dizem” ou ainda “tudo bem apesar dos conselhos negativos sobre a segurança” foram algumas das respostas consideradas positivas” Valduga et al. (2022, p. 355). Já sobre a falta de segurança, os autores destacaram as repostas “insegurança”, “a cidade não é segura” ou “há perigo à noite” como exemplos. Já a cidade do Porto, importante e premiado destino turístico de Portugal, país seguidamente entre os 10 países mais seguros do mundo, não teve menções quanto à segurança, nem mesmo de forma positiva (Valduga at al., 2022).
Tal evidência pode levar a reflexão de que a segurança em si, em um destino turístico, não se destaque como uma percepção dos turistas, porém, o mesmo não valeria para o contrário: quando há informações sobre a insegurança, o tema torna-se importante na avaliação dos turistas.
Tomé et. al. (2022) apontam que as guerras são definidas como conflitos armados entre dois ou mais grupos distintos, podendo envolver nações ou grupos rivais dentro de uma mesma nação, resultando em confrontos bélicos motivados por diversos motivos. Destacam também que o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os países membros da ONU, participando efetivamente de uma guerra pela última vez durante a Segunda Guerra Mundial.
Dentre as inúmeras consequências das guerras em seus territórios, ocorre a paralisação da demanda turística. Culiuc (2014) assevera que os turistas evitam países onde ocorrem conflitos armados, enquanto Gidebo (2021) acrescenta que, além da queda do fluxo turístico, a imagem desses destinos turísticos é afetada. As mesmas conclusões são tomadas pelos autores quanto aos atentados terroristas.
Já Goldman e Neubauer-Shani (2017) chamam a atenção para o fato de que destinos turísticos com alto fluxo internacional tendem a ser alvos de ataques terroristas, justificando o receio dos turistas. Como evidência de tal afirmação, temos como exemplo os atentados terroristas às Torres Gêmeas, ocorrido em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001, o atendado em Bali, na Indonésia, em 12 de outubro de 2002, o atentado na Estação Atocha, em Madri, capital da Espanha, em 11 de março de 2004, os atendados em diversos pontos de Paris, entre eles um ataque à casa de show Bataclan, em novembro de 2015 e o atentado por atropelamento na famosa rua de Barcelona, La Rambla, em 17 de agosto de 2017, e, na madrugada do dia seguinte, en Cambrils, ambas localidades situadas na Catalunha, também na Espanha, dentre outros atentados em destinos de grande fluxo de turistas (Coelho & Lopes, 2017; Korstanje, 2020; Oliveira & Freitas, 2018; Reinares & Garcia-Calvo, 2018).
Ainda ao que tange o tema dos atentados terroristas, Korstanje (2020, p. 4) assevera que “qualquer evento que envolva violência contra um turista implica uma mensagem totalmente negativa para a imagem orgânica do local”. O autor discorre ainda sobre a fragilidade política de países subdesenvolvidos e suas consequentes crises e tensões territoriais, que acabam por expor ainda mais os turistas a situações de riscos. Além disso, o conflito entre o “eu” e o “outro”, iniciado no ataque que resultou na morte de 58 turistas ocidentais e 4 policiais em Luxor, no Egito, em 1997, e altamente acirrado após os já mencionados ataques às Torres Gêmeas, influenciam demais ataques de cunho preconceituoso.
No entanto, para além da luta entre ocidente e oriente, conflitos étnicos e religiosos, que agravam os preconceitos, há outras tantas possibilidades de tal constrangimento, como o racismo, o machismo ou sexismo, o preconceito contra homossexuais e diferentes identidades de gênero (LGBTQIAP+ fobia), a xenofobia, o preconceito religioso, a gordofobia e o capacitismo, por exemplo. (Lima, 2020; Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, 2024)
Quanto aos riscos sanitários, embora no Brasil não houvesse grande discussão sobre turismo e saúde pública antes da Pandemia da Covid-19, o tema já era discutido no cenário internacional. De La Torre (2017), por exemplo, examinou o tratamento da segurança e do risco em geral em notícias relacionadas ao turismo e aos Jogos Olímpicos, com foco no Brasil. O estudo analisou como os agentes autônomos influenciam a imagem de um destino turístico, considerando a capacidade da mídia de reforçar ou mitigar estereótipos associados ao país. Na metodologia empregada pelo autor, que considerou o risco sanitário como a possibilidade de contrair certas doenças, houve grande destaque para tal categoria, à frente inclusive da violência, sobretudo por conta do crescente número de casos do zika vírus que precedeu os Jogos Olímpicos.
À similaridade das crises oriundas de diversos fatores, Gidebo (2021) pontua o efeito das catástrofes naturais em destinos turísticos. Tais locais podem experimentar declínio nas chegadas de turistas e criar uma imagem negativa para o visitante. Já para Culiuc (2014), o clima por si só deve ser considerado de antemão uma variante natural na escolha de destinos turísticos.
Além dos eventos climáticos pontuais, o próprio planejamento desordenado do turismo pode ser um catalisador de desastres. Nesse sentido, o zoneamento turístico visa fornecer alguns critérios de sustentabilidade nas áreas mais frágeis e, desta forma, poder determinar quais áreas da cidade são adequadas para o desenvolvimento do turismo e quais atividades alternativas podem ser desenvolvidas em outras (Mendoza & Alcívar, 2020).
A seguir, será contextualizada a relevância de Paraty, no Rio de Janeiro, como recorte espacial do presente estudo.
3 PARATY E O TURISMO NA CIDADE
O município de Paraty está situado ao longo do litoral sul do estado do Rio de Janeiro, especificamente na região turística conhecida como Costa Verde. Sua área territorial abrange 924,296 km², e possui 45.243 habitantes, conforme dados do IBGE (2024), fazendo fronteira ao Norte com Angra dos Reis (RJ), ao Sul com Ubatuba (SP), a Leste com o Oceano Atlântico e a Oeste com Cunha (SP). Estrategicamente posicionada entre as duas maiores cidades do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, Paraty é servida apenas por duas rodovias: a Estrada Paraty-Cunha e a Rodovia Mário Covas (BR-101), também conhecida como Estrada Rio-Santos. No entanto, ambas as rodovias enfrentam desafios em termos de condições de tráfego, o que dificulta o acesso ao município (Tomé et. al. 2023).
Geograficamente, Paraty possui uma estreita planície litorânea, com a maior parte de seu território situado nas terras altas do Planalto da Bocaina, que integra a Serra do Mar. Suas montanhas são cobertas por uma vegetação muito preservada, sobretudo de mata atlântica, em parte devido a questões históricas ligadas à antiga trilha do ouro. Além disso, a fisiografia local, com seu relevo íngreme, também dificultava a ocupação, o cultivo e a criação de animais. As florestas tropicais preservadas em Paraty fazem parte da Mata Atlântica. A preservação dessas áreas é fundamental não apenas pela sua beleza cênica, mas também pela preservação de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, levando à criação de diversas unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra da Bocaina e a Área de Proteção Ambiental de Cairuçu. Aproximadamente 80% do território de Paraty é composto por unidades de conservação e áreas rurais, onde predomina a cobertura florestal, restando apenas uma pequena porção para a área urbana do município (Tomé et. al. 2023).
Quanto ao processo sócio-histórico, não existe uma data exata para o início da ocupação do território que hoje corresponde a Paraty. Sabe-se apenas que colonos de São Vicente foram os responsáveis pela fundação do povoado de Paraty, que inicialmente fazia parte da freguesia de Angra dos Reis. Em 1646, foi construída a Matriz da Nossa Senhora dos Remédios, marcando o surgimento do que viria a se tornar o centro histórico da cidade. Em 1660, o povoado conquistou autonomia política ao se separar de Angra dos Reis, e em 1667 foi elevado à categoria de Vila, com o nome de Nossa Senhora dos Remédios de Paratii (Paes, 2015; Tomé et. al. 2023).
Reconhecem-se quatro ciclos distintos que marcaram a história de Paraty, conforme ressaltado por Mattoso (2009): os ciclos do Ouro, da Cana de açúcar, do Café e do Turismo. O Ciclo do Ouro, iniciado em 1702, insere-se na matriz econômica e cultural do país, integrando-se à rota de ocupação e exploração territorial. Com a descoberta das minas de ouro em Minas Gerais, Paraty assumiu um papel crucial. Os produtos destinados às minas ou provenientes do porto do Rio de Janeiro necessariamente atravessavam uma trilha indígena, conectando os Guaianás de Paraty às tribos do Vale do Paraíba, como mencionado por Mattoso (2009). A ascensão do cultivo de cana de açúcar no Brasil marcou o início de um novo ciclo para Paraty. No século XVII, a cidade tornou-se uma importante produtora de cachaça, com mais de 250 engenhos de cana-de-açúcar, como destacado por Mattoso (2009).
O café dominava as exportações brasileiras na década de 1830, e Paraty abrigava um dos principais portos, aproveitando a posição estratégica do Vale do Paraíba como principal região produtora, conforme observado por Padilha (2016).
O reconhecimento turístico de Paraty ganhou destaque a partir de 1958, com o tombamento pelo IPHAN como conjunto histórico, como relata Padilha (2016). O impulso ao turismo foi ainda mais fortalecido com a construção da estrada Rio-Santos e a reabertura da estrada Paraty-Cunha, em 1973, transformando o acesso à cidade, ainda de acordo com Padilha (2016).
Eventos como o estabelecimento do Parque Nacional da Serra da Bocaina e das Estações Ecológicas de Tamoios e Joatinga da Serra impulsionaram o turismo na década de 1980, conforme observado por Padilha (2016).
De acordo com a entrevista concedida pela Secretária Adjunta de Turismo da Secretaria de Turismo da Prefeitura de Paraty, Sra. Sandra Barros, o movimento da Festa Literária de Paraty [FLIP] também contribuiu significativamente para esse crescimento. A entrevista destaca ainda que, em 5 de julho de 2019, Paraty foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, tornando-se o único sítio misto do Brasil, impulsionando ainda mais o turismo na região.
Outro ponto relevante ao turismo atual decorre do Ciclo da Cana de açúcar. Atualmente a cachaça desempenha um papel importante no cenário turístico de Paraty, sendo reconhecida com o selo de Indicação de Procedência desde 2007. O antigo Festival da Pinga evoluiu para o Festival da Cachaça, Cultura e Sabores em 1983, tornando-se um evento anual, que ocorre sempre em agosto (Valduga & Tomé, 2024).
Atualmente, a localidade conta com 208 meios de hospedagem oficialmente cadastrados junto ao Ministério do Turismo (Cadastur, 2024), localizados majoritariamente no centro da cidade, e recebe, em média, 3,5 milhões de turistas por ano, de acordo com o prefeito de Paraty, Sr. Luciano Vidal (2023). Foi a décima cidade do país mais visitada por turistas estrangeiros que vieram ao Brasil com a motivação principal sendo o lazer (Ministério do Turismo, 2020).
4 METODOLOGIA
Os estudos sobre os fatores restritivos ao turismo, conforme mencionado anteriormente, não são comumente encontrados em publicações científicas, porém, há alguns estudos sobre a temática. O presente trabalho segue o arcabouço metodológico desenvolvido por Tomé et al. (2022), em publicação feita sobre o medo social gerado por meio das informações sobre a violência como um fator restritivo, ou gerador de mal-estar, aos turistas, tendo a cidade do Rio de Janeiro/RJ como objeto de estudos.
A investigação dos autores contou com uma primeira etapa qualitativa, com perguntas abertas a 15 turistas, de onde resultaram doze categorias de análise. Destas categorias, foram identificadas seis com maior recorrência, posteriormente empregadas em formulário quantitativo aplicado a quase 400 turistas, resultando em 384 formulários de pesquisa válidos. As seis categorias de análise, apresentadas ao longo deste artigo, são: violência urbana, presença de conflitos armados, riscos de atentados, questões de saúde pública, riscos de desastres ambientaise ataques de cunho preconceituoso.
A elaboração do formulário para a investigação em Paraty foi um desafio, afinal, mensurar dados qualitativos é tarefa complexa, mas é essencial para pesquisas que visam compreender as opiniões e percepções dos participantes. Este processo envolve a catalogação de dados subjetivos, como desejos, anseios, percepções, expectativas, atitudes e valores. A aplicação de medições subjetivas é particularmente relevante em estudos que abordam distintas variáveis (Costa Júnior et al., 2024).
Nesse contexto, optou-se pelo uso da escala Likert, de cinco pontos, pois a mesma se destaca como um método amplamente utilizado por cientistas sociais, permitindo a coleta e a análise da percepção dos indivíduos em um determinado contexto, e contribuindo para a geração de conhecimento a partir de avaliações qualitativas. O formulário aplicado em Paraty, direcionado a turistas e moradores, contou com dez perguntas fechadas e foi aplicado em duas diferentes ocasiões. No mês de maio de 2022 foram coletadas 129 respostas, enquanto no mês de dezembro do mesmo ano foram coletadas 275 respostas. A escolha por tais períodos se deu para abarcar a baixa e a alta temporada turística na cidade, respectivamente. A amostra foi composta por 404 respondentes.
As características metodológicas aqui apresentadas permitem que o presente estudo seja caracterizado como exploratório, pois tem por objetivo conhecer a variável de estudo tal como se apresenta, seu significado e o contexto em que se insere (Marques e Monteiro, 2015). É também descritivo, pois apresenta os resultados dos questionários aplicados, à luz da estatística descritiva.
Além dos dados primários coletados para o presente estudo, a investigação contou com entrevista da Sra. Sandra Barros (Barros, 2022) e o levantamento de dados secundários para apoio à análise, sobretudo os dados obtidos junto ao Instituto de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro (ISP, 2024, 2025), referentes aos delitos que compõem o indicador de Letalidade Violenta, que abarca homicídio doloso, morte por intervenção de agente do Estado, roubo seguido de morte e lesão corporal seguida de morte. Notícias de jornais online de circulação regional e estadual também foram utilizadas complementarmente. A seguir, serão apresentados os principais resultados encontrados.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A amostra, constituída por 404 pessoas, conta com a maioria de respondentes não residentes em Paraty ou municípios vizinhos (68%) e 62,28% destes se hospedaram no Centro Histórico e seu entorno.
Foram analisadas as respostas referentes aos temas abordados no questionário sobre fatores restritivos ao turismo em Paraty-RJ, direcionados a sensação de segurança, desastres ambientais, problemas de saúde pública, atentados terroristas, conflitos armados, violência e criminalidade urbana e preconceito, que serão apresentados a seguir.
5.1 Segurança
Quando questionados sobre a percepção em relação a segurança, conforme demonstra a tabela 1, 66% dos entrevistados optaram pelas opções 4 e 3, alta e média, respectivamente. Observa-se que a maioria dos respondentes (59,16%) consideraram a sensação de segurança alta ou altíssima, demonstrando bastante confiança nesse quesito em Paraty. Entretanto, ao analisarmos os dados dos moradores e dos turistas separadamente, encontramos diferenças significativas. Enquanto a percepção da sensação de segurança é altamente positiva para os turistas, a grande maioria (65%) dos moradores a indica como baixa e média.
Os dados levam a pensar sobre a existência de um enclave de segurança, formado justamente nos locais de circulação dos turistas, principalmente no centro histórico. Assim, os turistas realmente circulam em um território com pouco ou nenhum crime, o que justifica a avaliação positiva sobre a sensação de segurança em Paraty. Já os moradores, que ocupam sobretudo os locais com pouca oferta turística, estão mais sujeitos a presenciarem ou tomarem conhecimento de situações inseguras, justificando a resposta dos residentes.
5.2 Desastres Ambientais
Quanto à percepção de risco em relação a desastres ambientais, a tabela 2 evidencia que os entrevistados responderam, em sua maior parte (34,07%), a opção 3, o que indica um nível moderado de preocupação. Mesmo com a incidência de desmoronamentos causados pelas chuvas, a própria população local considerou o risco médio (36,43%), porém, como segunda opção (31%), indicou-o como alto. Já os turistas indicaram, como segunda principal escolha (30,54%), o risco baixo. Indicamos que a primeira opção dos turistas também foi o risco médio (33%).
Efetivamente as chuvas e suas consequências destrutivas e muitas vezes fatais, ocorrem frequentemente em Paraty. Um exemplo foram as fortes chuvas que atingiram a região da Costa Verde em 2022. No município de Paraty, no dia 1 de abril de 2022, foram registrados 162 mm de chuva em poucas horas, o equivalente a 2/3 das chuvas previstas em todo o mês de abril, que era de aproximadamente 248 mm (Band Rio, 2022). Estradas e ruas foram fechadas e a cidade permaneceu praticamente isolada. Na altura do km 578 da Rodovia Rio-Santos, uma viatura da Polícia Rodoviária Federal e um automóvel particular foram atingidos por desmoronamentos de terra provocados pelas fortes chuvas, interditando a rodovianos dois sentidos. O Festival Bossa Paraty, importante evento musical que atrai muitos turistas para a cidade e que aconteceria naquele fim de semana, foi suspenso, pois a Prefeitura Municipal de Paraty decretou estado de emergência na cidade, que registrou sete óbitos causados pelas chuvas naquele período (Portal G1, 2022).
5.3 Saúde Pública
Ao serem questionados sobre a percepção de risco em relação à saúde pública, os entrevistados responderam majoritariamente as opções 3, médio, e 2, baixo (35,73% e 32,75% respectivamente). Ao compararmos os dados dos moradores e dos turistas, há mudança na ordem das respostas. Os turistas consideraram, como primeira opção (37%), risco baixo em relação a problemas de saúde, conforme a tabela 6 a seguir demonstra.
Vale destacar que Paraty apresentou, em 2023, uma das maiores taxas de incidência de dengue entre os municípios do estado do Rio de Janeiro, totalizando entre janeiro e outubro de 2023 o registro de 2.417 casos de dengue por grupo de 100 mil habitantes. Como comparação, a cidade do Rio de Janeiro teve, no mesmo período, 267 casos de dengue por grupo de 100 mil habitantes (Agência Brasil, 2023).
5.4 Atentados Terroristas
A grande maioria dos entrevistados (85,15%) escolheu a opção 1, baixíssimo e apenas um entrevistado escolheu a opção 5, altíssimo, quando perguntados sobre a percepção de riscos em relação a atentados terroristas em Paraty. Não observamos, como demonstra a tabela 4, diferenças a serem destacadas entre as respostas dos moradores e as dos turistas.
Por mais que a nova ordem global, imponha aos destinos turísticos um risco maior de atentados, motivados pela repercussão ampliada das ações terroristas, este não parece ser o caso de Paraty. A cidade não possui registros de atentados terroristas, sofrendo apenas ações isoladas de vandalismo ao patrimônio público, como ocorreu em 2023, quando uma mulher foi presa ao depredar obras de arte que integravam uma exposição no Centro Histórico de Paraty (Portal G1, 2023).
No ano seguinte, em outubro de 2024, o alvo de vandalismo foi um espaço que seria usado como Base Avançada de Segurança Pública de Paraty foi alvo de atos de vandalismo, resultando na sua destruição física, incluindo danos provocados por incêndio criminoso. (Portal G1, 2024).
Há registros de pequenos danos propositais a edificações históricas, assim como depredação a embarcações pesqueiras e turísticas, noticiados pelas mídias locais, mas nenhuma ação que se constitua como atentado terrorista, confluindo com a percepção de turistas e moradores que responderam a pesquisa.
5.5 Conflitos Armados
Quando questionados em relação a conflitos com uso de armamento, os entrevistados responderam em maioria as opções 1, baixíssimo, e 2, baixo, (50,75% e 24,38% respectivamente). Observamos, conforme evidencia a tabela 5, que os moradores tiveram uma distribuição uniforme nas suas opções, indicando grande variação de percepção quando o este risco.
No que tange o tema de conflitos armados, há em Paraty disputas entre diferentes facções criminosas, como o exemplo noticiado pelo jornal eletrônico da rede Record. De acordo com o Balanço Geral (2024), a disputa entre facções rivais motivou um ataque que resultou na morte de um PM e um traficante. No ataque, ocorrido durante a madrugada de um sábado, homens armados e com coletes balísticos entraram em um bar e dispararam mais de 30 tiros. Um policial da área foi baleado e morreu, assim como o traficante. Outro policial e um turista argentino também foram atingidos, e, ainda de acordo com a notícia, o caso apresenta indícios de um ajuste de contas entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando.
Por mais que existam confrontos em Paraty, como este narrado, motivados pelo domínio de facções criminosas, tais conflitos foram percebidos, provavelmente, como violência urbana e criminalidade, já que os respondentes avaliaram o risco de conflitos armados como baixíssimo.
5.6 Violência Urbana
Os dados da tabela 6 mostram que a maior parte dos entrevistados (42,89%) indicou baixa percepção de risco em relação a violência urbana, contra a minoria de 2,74% que a indicou como altíssima. Quando observamos em separado, notamos que para os moradores a principal resposta é a de médio risco (38,58%), enquanto a opção de baixo risco fica em segundo lugar (25,1%). Já os turistas concentram 71,43% das respostas nas opções de baixíssimo e baixo risco.
Mesmo com os índices de violência elevados em Paraty, apresentando altas taxas de homicídios, como é possível perceber na tabela 7, a avaliação dos entrevistados foi baixa, para os turistas, e média, para os residentes.
Vale destacar que as diferentes expressões de homicídios intencionais se configuram, a partir da base de dados do ISP, por meio do indicador de letalidade violenta, que envolve quatro tipos de delito, conforme destacado anteriormente: homicídio doloso, morte por intervenção de agente de segurança do Estado, roubo seguido de morte e lesão corporal seguida de morte. Os agentes de segurança do Estado mortos em serviço, não integram o indicador de letalidade violenta.
Como comparação, a cidade do Rio de Janeiro apresentou, no mesmo período, taxas de homicídio por 100 mil habitantes inferiores às taxas de Paraty. Em 2020 Paraty teve aproximadamente o triplo da taxa de homicídios da cidade do Rio de Janeiro, que registrou 22,9 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto Paraty registrou 68,5 homicídios por 100 mil habitantes. No entanto, ao analisarmos os microdados disponibilizados pelo ISP, percebemos que a maioria dos homicídios em Paraty ocorre fora do Centro Histórico e das praias mais frequentadas pelos turistas, justificando o entendimento do resultado desta seção do questionário aplicado, pois os homicídios ocorrem prioritariamente fora do território turístico de Paraty, expressando o já mencionado enclave turístico e de segurança.
Quando perguntados se vivenciaram alguma situação de violência, a grande maioria dos entrevistados respondeu que não (78,96%). No entanto, ao analisarmos as respostas dos moradores, como demonstra a tabela 8, observamos que, apesar da opção ‘Não’ prevalecer, a diferença diminui drasticamente: 51,98% indicam não terem vivido uma situação de violência enquanto 48,02% indicam já terem vivido uma situação de violência na cidade de Paraty. Tal resultado não chega a surpreender, pois os moradores do local permanecem por muito mais tempo do que os turistas na cidade, estando mais expostos a alguma situação de violência.
Outro ponto que pode ser analisado é que os turistas se hospedam e circulam, em sua grande maioria, no Centro Histórico, que confirma a ideia de pode ser considerado um enclave turístico de segurança (Tomé at al., 2022), com maior controle sobre possíveis atos de crime e violência contra os visitantes, e mesmo os moradores que por ali circulam.
5.7 Preconceito
A maioria dos entrevistados escolheu as opções 1, baixíssimo, e 2, baixo, (37,62 e 34,9% respectivamente), conforme a tabela 9, quando questionados sobre a percepção de risco em relação a preconceito. Não observamos diferenças a serem destacadas entre as respostas dos moradores e as dos turistas.
Os dados do ISP (2025) corroboram a percepção dos entrevistados, a partir dos dados que disponibilizam em um painel desenvolvido para apresentar dados estatísticos relativos à discriminação contra indivíduos ou grupos em razão de sua etnia, raça, cor, sexualidade ou por intolerância religiosa, ocorridos no estado do Rio de Janeiro. A tabela 10 demonstra os crimes registrados em Paraty, no período de 2018 a 2024, que é o interstício disponível pelo Instituto.
Dentre as diferentes categorias listadas pelo ISP, algumas não tiveram nenhuma incidência registrada, que foram: discriminação dos portadores do vírus HIV, intolerância e/ou injúria por procedência nacional, intolerância por identidade ou expressão de gênero, intolerância por orientação sexual, praticar, induzir ou incitar discriminação da pessoa em razão da sua deficiência e preconceito de raça ou de cor.
5.8 Locais de Circulação
Quanto aos locais de circulação, em consonância com a análise da tabela 11, tem-se a comprovação do grande fluxo dos entrevistados no centro histórico. O local apresentou a maior concentração de respostas (89,33%) tanto para residentes (85,15%) quanto para visitantes (91%). As praias mais afastadas do centro, como as praias do Sono, Saco do Mamanguá, da Lula, Paraty-Mirim, Cachadaço etc., foram o segundo local mais frequentado pelos entrevistados (50,8%), seguido das praias localizadas próximas ao Centro Histórico (44%). Um dos grandes atrativos turísticos do local, o Turismo Náutico, foi visitado por 27,5% dos entrevistados. Os bairros urbanos fora do Centro Histórico, como Jabaquara, Pantanal, Caboré, Mangueira etc. foram mencionados por apenas 10% dos entrevistados.
Observamos apenas uma diferença na ordem dos locais indicados entre residentes e não residentes, nas duas últimas posições: os residentes indicaram maior circulação nos bairros fora do centro do que nas atividades de turismo náutico, enquanto os não-residentes indicaram o inverso.
Salienta-se que a questão era cumulativa, ou seja, os entrevistados deveriam marcar todas as opções de locais pelos quais haviam circulado. Além disso, a equipe de pesquisa esteve em outros bairros do Município para a abordagem não ocorrer unicamente no centro histórico, porém, com menor adesão de pessoas abordadas em responder ao formulário.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve como objetivo avaliar a percepção dos visitantes e residentes de Paraty, cidade histórica localizada no estado do Rio de Janeiro, acerca de fatores considerados restritivos ao turismo. Comumente, os estudos sobre a preferência na escolha dos destinos turísticos ocorrem desde o ponto de vista daquilo que atrai os turistas ao destino, bem como estudos sobre a imagem dos destinos turísticos. No entanto, já há alguma curiosidade, e consequente publicações, sobre os fatores que fazem com que os turistas, ou potenciais turistas, tenham certo receio por determinados locais.
O local escolhido para a aplicação do nosso estudo é um reconhecido destino turístico do Estado do Rio de Janeiro e mesmo do Brasil. Paraty é a única cidade nomeada como sítio misto pela ONU, que conta com grande patrimônio natural e cultural como fatores atrativos ao turismo. Além dos atrativos, o local aposta em intenso e reconhecido calendário de eventos, incluindo a realização anual da Festa Literária Internacional de Paraty, conhecida pela sua sigla: FLIP, lançada no ano de 2003.
Entretanto, sabe-se que nem tudo são flores: Paraty apresenta altos índices de criminalidade e foi recentemente cenário de desastre natural proveniente de chuvas fatais. Tal cenário levou a considerarmos que seria um bom local para analisar a percepção dos turistas, e também de residentes, a título de comparação, quanto aos fatores identificados como restritivos ao turismo, que são a violência urbana, a presença de conflitos armados, a riscos de atentados, as questões de saúde pública, os riscos de desastres naturais e de ataques de cunho preconceituoso.
Os resultados apontaram algumas diferenças de percepção entre moradores e turistas em relação à violência urbana e à saúde pública. Os turistas apresentaram avaliações mais positivas, enquanto os moradores foram menos positivos. Destacamos que a sensação de segurança foi maior entre os turistas, que também relataram menos experiências de violência. A presença de conflitos armados, atentados e ataques preconceituosos foi considerada de risco muito baixo, enquanto o risco de desastres naturais foi classificado como médio.
Cabe destacar que a presente pesquisa faz parte de um projeto maior, com a aplicação da mesma em outros países com realidades particulares, o que justifica a presença das categorias relacionadas ao terrorismo, crime que não tem intercorrência típica no Brasil. No entanto, para fins de comparação com outras cidades estrangeiras, mantivemos as mesmas categorias.
Entre as limitações da pesquisa, indicamos as dificuldades relativas à recursos, seja em relação à aquisição de equipamentos, logística, equipe de pesquisa, aquisição de softwares para a coleta e para a análise dos dados, dentre outros. Quanto à amostra, percebemos que a mesma poderia ser mais representativa, tanto em relação ao perfil mais detalhado dos turistas quanto dos moradores. No entanto, tal questão esbarra tanto nos aspectos de dificuldades financeiras apontadas quanto em relação à abordagem dos entrevistados, que teriam que cumprir determinados critérios e ter maior disponibilidade de tempo para responder ao formulário. Além disso, pela experiência dos pesquisadores envolvidos, questões de perfil socioeconômico podem constranger possíveis entrevistados, que acabam não completando o formulário.
Quanto a estudos futuros, considera-se importante a verificação da opinião de outros atores sociais locais, como os gestores públicos, os empresários e trabalhadores do setor do turismo, tanto em relação aos fatores restritivos ao turismo como em relação a ações futuras preventivas quanto aos temas indicados no estudo. Outros olhares que podem ser lançados à luz de possíveis restrições ao turismo estão relacionados às questões de saturação e rejeição de destinos turísticos que acompanham os fenômenos de overtourism e turismofobia, como aponta Beni (2021).
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Como Citar: Valguga, M. C., Tomé, M. B., & Mundet i Cerdan L. (2025). Percepções sobre fatores restritivos ao turismo: o caso de Paraty, RJ. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, São Paulo, 19, e-3058, 2025. https://doi.org/10.7784/rbtur.v19.3058
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Glauber Eduardo de Oliveira Santos.
