Resumo
Introdução Transtornos mentais (TM) e distúrbios musculoesqueléticos (DME) são causas de afastamentos do trabalho longos e repetidos.
Objetivo Explorar evidências sobre trajetórias de absenteísmo por TM e DME e as modificações na história laboral do indivíduo com repetidos afastamentos.
Métodos Foram incluídos artigos publicados de 2013 a 2025 em inglês, português e espanhol, que relatassem estudos quantitativos, qualitativos ou mistos, com enfoque nas trajetórias de absenteísmo por TM e DME, que abordassem o processo de adoecimento e seu agravamento, a experiência do presenteísmo e mudanças na qualidade de vida. Resultados: Foram incluídos 11 estudos. Os estudos investigaram trajetórias de afastamento sob a perspectiva dos fatores relacionados ao trabalho que levam à licença, presenteísmo, experiências social e profissional durante a licença, assim como a relação da duração da licença com o sucesso do retorno ao trabalho.
Conclusão Trabalhos com alta exigência física e dor em vários locais do corpo relacionaram-se a afastamentos prolongados e de caráter incapacitante, mais suscetíveis à readaptação. O presenteísmo mostrou-se frequente nos adoecimentos mentais, e para este adoecimento os afastamentos se mostraram mais longos, com necessidade de readaptação e aposentadorias precoces.
Palavras-chave:
Absenteísmo; Transtornos Traumáticos Cumulativos; Saúde Mental; Revisão de Escopo; Saúde do Trabalhador
Abstract
Introduction Mental disorders (MD) and musculoskeletal disorders (MSD) are causes of long and repeated absences from work.
Objective To explore evidence on absenteeism trajectories due to MD and MSD and changes in the work history of individuals with repeated absences.
Methods Articles published from 2013 to 2025 in English, Portuguese, and Spanish were included, reporting quantitative, qualitative, or mixed-methods studies focusing on absenteeism trajectories due to MD and MSD, addressing the illness process and its progression, the experience of presenteeism, and changes in quality of life.
Results Eleven studies were included. The studies investigated absence trajectories from the perspective of work-related factors leading to leave, presenteeism, social and professional experiences during leave, as well as the relationship between the duration of leave and the success of the return to work.
Conclusions Jobs with high physical demands and pain in various parts of the body were associated with prolonged and disabling absences, and more likely to result in job reassignment. Presenteeism was frequent in cases of mental illness, and for this condition, absences were longer, requiring job reassignment and early retirement.
Keywords:
Absenteeism; Cumulative Trauma Disorders; Mental Health; Scoping Review; Occupational Health
Introdução
O absenteísmo gera impactos econômicos, sociais e desafios para as instituições, para a sociedade, para os indivíduos em adoecimento e seus familiares, com repercussões em âmbito nacional e mundial. Transtornos mentais (TM) e distúrbios musculoesqueléticos (DME) são importantes causas de afastamentos do trabalho na atualidade1. Doze bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade2. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 2022, registrou 202.124 pessoas afastadas do trabalho por TM, dentre os quais se destacam a depressão e os distúrbios emocionais2. Os DME são as doenças mais comuns, exigindo, em grande parte dos casos, afastamento do trabalho. Os DME e TM são, respectivamente, a segunda e a terceira principais causas de afastamentos do trabalho no Brasil e, nos casos mais graves, levam a incapacidades e aposentadorias precoces3,4.
As trajetórias de absenteísmo associadas a estes agravos refletem processos complexos e multifatoriais, com períodos que transicionam entre presenteísmo, afastamentos e readaptação por retorno ao trabalho5-7. Os TM podem se relacionar às condições de trabalho, como a alta carga de trabalho, falta de controle na execução das tarefas, cobranças excessivas e baixo apoio; além de problemas financeiros e sociais5-7. Os DME são causados tanto pelas demandas físicas no trabalho como também pelas demandas psicossociais e a insatisfação no trabalho.
Estes grupos de transtornos e doenças são responsáveis por afastamentos longos e repetidos8,9, gerando impactos na vida social, na carreira, com necessidade, por vezes, de mudanças e readaptações no trabalho, além de implicar custo com tratamento e perdas financeiras com o afastamento1,10.
Ainda não estão claros os impactos que os afastamentos repetidos por estas causas, de forma isolada ou combinada, têm para o trabalhador e para as organizações. Escolheu-se analisar a trajetória desses afastamentos para superar abordagens que se baseiam nesses afastamentos de forma isolada. Desta forma, a partir de uma revisão de escopo, buscou-se explorar como os estudos têm investigado as trajetórias de absenteísmo por DME e TM, além de conhecer como o adoecimento por estas causas modifica a história laboral do indivíduo com repetidos afastamentos, as repercussões sociais e nas relações de trabalho.
Métodos
Protocolo e registro
Trata-se de uma revisão de escopo da literatura científica, que busca responder à pergunta: quais evidências a literatura científica apresenta sobre as trajetórias de absenteísmo associadas a afastamentos do trabalho por doenças musculoesqueléticas e TM, e de que forma esses afastamentos recorrentes influenciam a história laboral e os percursos de trabalho dos indivíduos?
Usa-se aqui o termo trajetórias para explorar como os repetidos afastamentos por DME e TM ao longo da história ocupacional levam a experiências desafiadoras impostas pelo agravamento das condições de saúde, pelas modificações nos aspectos relacionados à vida em sociedade e aos anseios impostos pela necessidade de readaptação e aposentadorias precoces.
O estudo está registrado na Open Science Framework (OSF) https://doi.org/10.17605/OSF.IO/YSAKP e foi elaborado com base nas diretrizes metodológicas do Joanna Briggs Institute (JBI) e no guia internacional Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) para Revisões de Escopo (PRISMA-ScR)11,12. A revisão de escopo tem se mostrado adequada para contextualizar o conhecimento em situações em que a literatura se mostra com evidências emergentes ou escassas13.
Critérios de elegibilidade
Inicialmente, foi realizada busca no ano 2023, no período de maio a dezembro, e realizou-se atualização da revisão em setembro de 2025. O intervalo foi considerado pela evolução conceitual, metodológica e empírica do absenteísmo, que passou a ser observado como um fenômeno dinâmico com trajetórias individuais ao longo do tempo1,2, além do crescente aumento do absenteísmo por TM e DME no trabalho no período2,3.
Foram incluídos estudos com enfoque nas trajetórias de absenteísmo por DME e ou TM, com desenho quantitativo, qualitativo ou misto, assim como estudos de revisão, e estudos com dados empíricos de trabalhadores em atividade ou afastados por DME ou TM, nos idiomas inglês, português e espanhol.
Os artigos considerados elegíveis foram estudos realizados com trabalhadores que apresentassem relatos sobre as trajetórias de absenteísmo por DME e ou TM de forma isolada ou combinada, com dados como a duração do afastamento, recidiva, quantidade de afastamentos e experiência dos afastamentos.
Foram excluídos os estudos que não tinham relação com os percursos de afastamentos por DME e/ou TM, ou seja, estudos exclusivamente descritivos que calculavam frequência de absenteísmo e os que versavam sobre os fatores de risco relacionados a estas patologias, ou sobre intervenções, readaptação ao trabalho, sem mencionar as trajetórias e experiências dos trabalhadores em afastamento, além daqueles que versavam sobre as trajetórias por outras patologias e estudos com população de não trabalhadores, como estudantes e desempregados.
Fontes de informação
Foram examinados os indexadores PubMed, Portal Capes, Embase, Scopus, Portal BVS, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e Google Scholar.
Busca
A estratégia de busca foi construída a partir do acrônimo PEO (Population, Exposure, Outcome). A população de estudo P (Population/População) foi de trabalhadores ativos ou previamente inseridos no mercado de trabalho que apresentaram afastamentos laborais; a exposição E (Exposure/Exposição) foi afastamentos do trabalho por DME e TM, incluindo episódios repetidos de absenteísmo; e o O (Outcome/Desfecho), trajetórias de absenteísmo e modificações na história laboral, tais como recorrência de afastamentos, readaptação no retorno ao trabalho.
As estratégias de busca foram elaboradas pela equipe envolvida no estudo, revisadas e validadas por um bibliotecário de uma universidade federal com referência nacional e internacional em pesquisa.
Para as buscas nas bases selecionadas, foram utilizados os seguintes conjuntos de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) localizados em todos os campos: absenteeism, sick leave, disabiliy leave, cumulative trauma disorders, muskuloskeletal pain, mental disorders, mental health, clinical pathways, critical pathways, combinadas por meio dos operadores booleanos AND e OR.
Optou-se também por realizar as buscas na literatura cinzenta no BDTD e no Google Scholar. Para a base BDTD, utilizou-se apenas o primeiro termo correspondente, sem a utilização do operador OR. As estratégias com os operadores booleanos e o quantitativo de capturas por base de dados estão dispostos no Quadro 1. Pelas particularidades da base de dados Google Scholar, optou-se por utilizar as palavras-chave que tinham o propósito de especificar a busca, entre parênteses, com o operador booleano OR e o termo geral absenteísmo e seu correlato, entre aspas, com o operador booleano AND. As estratégias utilizadas no Google Scholar estão dispostas no Quadro 2.
Seleção das fontes de evidência
Os revisores usaram os mesmos critérios ao analisar os resumos e títulos. Desta forma, os artigos incluídos, versavam em seus resultados e discussão sobre o seguimento de grupos de trabalhadores em afastamentos repetidos ao longo do tempo, suas repercussões e experiências. Foram realizados encontros semanais entre revisores para que fossem discutidas as dificuldades e discordâncias quanto à qualidade e à relevância dos artigos e resolvidas por meio de consenso.
Uma revisora e duas pesquisadoras no campo discutiram as dimensões relevantes para extrair das publicações. As dimensões foram: autores, ano de publicação, título, objetivos, categoria profissional da população de estudo, abordagem metodológica e achados relevantes, como: número de dias de ausência, agravamento das patologias ao longo do tempo, associação entre DME e TM, necessidade de readaptação ou aposentadoria, experiências, fatores psicossociais relacionados ao afastamento.
Utilizou-se a plataforma Rayyan® para excluir as duplicatas e realizar a triagem inicial dos resumos e títulos por três avaliadores.
Organização dos dados
Nesta primeira abordagem exploratória sobre o tema, foi seguido um roteiro avaliativo dos artigos, entre pares de revisores, para extrair os dados de relevância de acordo com o objetivo do estudo. Foi realizada uma análise criteriosa dos estudos incluídos, consideraram-se somente estudos com trabalhadores em vínculo empregatício em empresas públicas ou privadas em gozo de licença por adoecimento por DME e TM, que abordassem como se deu o adoecimento, a experiência do presenteísmo, desenvolvimento da licença quanto ao agravamento ou melhora da dor e sintomas relacionados aos DME e TM, mudanças na qualidade de vida e no adoecimento ao longo do afastamento, repercussão na capacidade para o trabalho e no processo de retorno ao trabalho.
Síntese dos resultados
Os materiais identificados, analisados e incluídos estão dispostos no fluxograma. Os artigos incluídos foram dispostos com seus dados mais relevantes no quadro síntese. Foi construída uma nuvem de palavras para explicitar os termos mais recorrentes nos materiais identificados.
Resultados
Materiais identificados, analisados e incluídos
Ao todo, foram rastreados 9.888 artigos, sendo excluídas 6.331 duplicatas, restando 3.557 artigos. Após triagem dos títulos e resumos foram excluídos 3.507 artigos por tratarem de outros assuntos diversos ao tema, incluírem populações compostas por não trabalhadores, como escolares, por exemplo, por tratarem de fatores predisponentes aos DME e TM, ou de intervenções no ambiente de trabalho, sem mencionar as trajetórias de absenteísmo.
Foram avaliados 50 artigos na íntegra por atenderem aos critérios de elegibilidade. Destes, foram excluídos 39 por versarem sobre licenças não relacionadas ao adoecimento no trabalho, por não versarem sobre trajetória, mas somente sobre o risco de afastamento ou preditores de ausência e ainda sobre validação de instrumentos. Como resultado desta revisão, 11 artigos foram incluídos, sendo um destes proveniente do período da atualização. O fluxograma do estudo está disponível na Figura 1.
Fluxograma da busca, seleção e inclusão dos estudos que versavam sobre as trajetórias de absenteísmo por distúrbios musculoesqueléticos e transtornos mentais e suas associações
A publicação mais recente sobre a temática foi produzida na Noruega14, além desta, mais cinco publicações foram provenientes dos países Nórdicos, com produção em 201315,16, 201917,18e 202119. No Brasil, houve uma publicação sobre a temática em 202320. Em 2021, no Japão21 e uma dos Estados Unidos da América em 201922. Duas publicações foram do Reino Unido, em 201423 e 201524. A síntese das publicações está disposta no Quadro 3.
Síntese - Trajetórias de Absenteísmo por distúrbios musculoesqueléticos (DME) e transtronos mentais (TM) (2013–2025)
De forma geral, o objetivo principal dos estudos incluídos versava sobre fatores no ambiente de trabalho que precipitaram e/ou agravaram as doenças levando aos afastamentos repetidos e sobre o efeito destes afastamentos na saúde do trabalhador e nas relações de trabalho. Apresentando relação estreita com a pergunta de investigação deste estudo e objetivo no que tange às trajetórias de afastamento e modificações na história laboral dos trabalhadores que experienciam estes afastamentos de forma repetida.
Quanto às categorias profissionais investigadas, os estudos apresentaram ocupações diversas, como funcionários públicos, trabalhadores de indústrias farmacêuticas, trabalhadores do transporte e manufatura, setores administrativos e hospitalares. O setor de manufatura foi o mais frequente entre os estudos incluídos e somente um estudo foi realizado com trabalhadores com estabilidade, servidores de uma universidade.
Com relação ao tipo de estudo, três foram do tipo qualitativo19,23,24e oito coorte14-18,29,21,22. As coortes, de forma geral, seguiram os trabalhadores, a fim de conhecer as trajetórias de afastamento do trabalho, demandas físicas no trabalho e a relação entre a exposição a demandas físicas e psicossociais no trabalho e agravamento da condição de saúde. A maior parte das coortes incluídas15-18,22optou por analisar agrupamentos de trabalhadores por duração de afastamento, para melhor compreender a relação entre a duração do afastamento, os fatores ambientais laborais e atividades desenvolvidas.
Guardadas as especificidades entre períodos de dias e nomenclaturas utilizadas por cada estudo durante o seguimento, de forma geral, os agrupamentos foram organizados em: grupo em atividade laboral regular com afastamentos pontuais ao longo do acompanhamento ou sem nenhum afastamento; grupo com afastamentos de comportamento disruptivo, ou seja, com períodos de afastamento prolongado, durante semanas, porém com possibilidades de retorno ao trabalho sem necessidade de readaptação15,17,18 ou até em afastamento parcial com jornada dividida entre trabalho e horas em disponibilidade para tratamento14 e grupo com afastamentos longos e incapacidade permanente, no qual estavam alocados os indivíduos com afastamentos de longa duração, por meses, com desafios ao retorno ao trabalho impostos por sua incapacidade e que, de forma geral, necessitavam de readaptação ou seguiam para os afastamentos longos com incapacidades permanentes16,20-22.
Em estudo com trabalhadores da manufatura, foi possível observar que os indivíduos com diagnóstico de depressão, ao longo das trajetórias de afastamento, migravam do grupo com afastamento disruptivo para o grupo com afastamentos longos com necessidade de readaptação ou afastamento permanente. Os indivíduos com DME estavam mais alocados em grupo com licenças de comportamento disruptivo. Observou-se ainda que os trabalhos manuais eram desempenhados, em sua maioria, por mulheres e tendiam a apresentar trajetória de comportamento disruptivo22.
Um estudo com trabalhadores noruegueses também comparou diferentes grupos de afastamento: os que não tinham TM e/ou dor em cervical e lombar; os que tinham as patologias e usufruíam de uma presença assistida por meio do afastamento parcial, ou seja, tinham liberação de metade da jornada para realizar tratamento; e aqueles com afastamento integral do trabalho. Observou-se que o grupo em licença integral se mostrava mais incapaz para o trabalho antes da licença, mas tanto o grupo do afastamento parcial, como do integral tiveram melhora significativa após o tratamento14.
Em estudo finlandês com participantes do registro nacional de trabalhadores, em licença por DME, foram analisadas as demandas a que estavam expostos em suas atividades laborais e a relação do tempo de exposição a estas demandas ao longo da vida ativa para o trabalho com a duração das licenças17. Os indivíduos que desenvolviam trabalho com repetição, postura anômala, com vibração, e caminhando por longos períodos, pertenciam a trajetórias disruptivas com evolução para trajetória com afastamentos longos de caráter incapacitante, diferente dos indivíduos que realizavam trabalho sentado e digitando e que tinham autonomia sobre a realização de suas tarefas. Esses, quando afastados, estavam alocados no agrupamento de licenças pontuais, mesmo quando já trabalhavam na mesma função por mais de 15 anos17.
Também foi verificada a relação entre duração da licença, demandas físicas no trabalho e dor múltipla. Em estudo desenvolvido com operadores de transporte e manufatura, foi observado que aqueles que estavam sujeitos a demandas de empurrar, puxar, carregar e levantar objetos tinham maior tendência a trajetórias de licença de caráter disruptivo com progressão dos dias em licença ao longo de um ano, passando de períodos de menos de cinco dias a períodos de licença de mais de vinte e cinco dias4.
Já os indivíduos envolvidos em tarefas manuais, com baixo controle, aqueles que desenvolviam DME com maior gravidade, dor em mais de quatro locais do corpo, interferência na vida social e na prática de atividade física pertenciam ao grupo de licenças longas de caráter incapacitante18.
A dor em múltiplos locais também foi investigada em um estudo finlandês. Os indivíduos com dor em quatro ou mais locais do corpo apresentaram risco maior de pertencer a trajetórias de afastamento prolongado de caráter incapacitante, assim como os indivíduos com TM, como depressão, e DME associado. Os DME, de forma isolada, produziram trajetórias de licença de caráter disruptivo. Em indivíduos com dor em quatro ou mais locais, o risco de licenças incapacitantes aumentou em quatro vezes em comparação com os indivíduos que não tinham dor15.
Em estudo realizado na Suécia, os indivíduos com TM e os indivíduos que relatavam capacidade baixa para o trabalho, as trajetórias de afastamento iniciavam com características disruptivas e progrediam para as licenças com trajetória de caráter incapacitante, acima de noventa dias, com necessidade de readaptação quando havia possibilidade de retorno ao trabalho16.
Outro estudo analisou, por meio de questionário autoaplicado, o nível de dedicação, engajamento, investimento de energia e entusiasmo na atividade laboral e o adoecimento mental incapacitante. Baixo engajamento para o trabalho, mensurado a partir de escala validada, se mostrou associado a afastamentos longos com característica incapacitante, com duração maior que 30 dias; estes indivíduos tinham diagnóstico de TM, de humor e de comportamento21.
Estudo realizado com servidores estatutários de uma universidade brasileira, afastados por TM, observou que as características do afastamento estavam relacionadas ao agrupamento com afastamentos prolongados e com incapacidade. Foi notada relação entre a licença prolongada e a necessidade de readaptação em suas atividades quando retornaram ao trabalho. A chance de readaptação foi duas vezes maior para as pessoas com TM em comparação com aquelas com outras patologias, inclusive quando comparados aos DME20.
Quanto aos estudos qualitativos analisados19,23,24, estes utilizaram observação, entrevistas em profundidade e com roteiros semiestruturados para conhecer a experiência de afastamento dos trabalhadores, bem como a compreensão dos problemas no trabalho que precipitavam os afastamentos e os impactos das licenças na vida dos trabalhadores.
Em estudo realizado com mulheres afastadas por DME e depressão, foram verbalizados sentimentos de serem vistas como um objeto, subordinadas aos cuidados de outros, impotentes, com medo da possibilidade de ter que se readaptar a novas rotinas de trabalho e dar conta de novas habilidades sem treinamento adequado no retorno da licença19.
Adicionalmente, em estudo realizado no Reino Unido, foram relatadas percepções de fatores do trabalho que levam ao agravamento das condições de saúde e sobre os fatores que impactam o curso das licenças para tratamento de saúde. O medo de estigmatização por parte dos colegas, falta de identificação com o trabalho, fatores relacionados ao trabalho, como as críticas excessivas, alta carga de trabalho, gerenciamento inadequado no ambiente de trabalho e dificuldades financeiras, foram relacionados ao agravamento das patologias, já que são fatores que levam o trabalhador ao presenteísmo e, ao postergar o afastamento para cuidar da saúde, agrava-se o adoecimento e prolonga-se o período de licença24.
A falta de controle, o relacionamento difícil entre colegas e com a chefia, a falta de oportunidade em implementar novas habilidades, a invisibilidade da depressão e a demora em procurar serviços médicos contribuíram para o prolongamento das licenças e o agravamento das incapacidades23.
Para verificar os termos mais recorrentes nos artigos incluídos neste estudo, foi elaborada uma nuvem de palavras (Figura 2) para a literatura capturada sobre as trajetórias de absenteísmo por DME e TM. Os termos mais recorrentes foram ausência, adoecimento, experiência, dor em múltiplos locais, ausência prolongada, retorno ao trabalho. É importante ressaltar que estes termos foram enfocados nas ponderações e análises trazidas neste estudo e são o cerne das trajetórias de adoecimento por TM e DME.
Discussão
A presente revisão de escopo explorou evidências sobre trajetórias de absenteísmo por DME e TM e as modificações na história laboral do indivíduo com repetidos afastamentos a partir da compreensão de que os períodos de licença e os processos de retorno ao trabalho estavam relacionados à natureza e à gravidade dos TM e DME, e além disso, as demandas físicas e psicossociais do trabalho contribuíram para o afastamento de forma repetida e por longos períodos e consequentemente com necessidade de readaptação no retorno ao trabalho. Também foi possível apreender sobre as experiências dos trabalhadores durante os processos de afastamentos repetidos, a relação existente entre o engajamento nas atividades laborais e a duração do afastamento, bem como as consequências do presenteísmo no agravamento de patologias, culminando em incapacidades permanentes.
As características ambientais com postos de trabalho inadequadamente adaptados levam a posturas desconfortáveis, estresse biomecânico e lesões musculoesqueléticas e nestas patologias, a dor múltipla mostrou relação com a duração do afastamento, observando-se uma relação diretamente proporcional entre o número de dias e os locais de dor no corpo. A trajetória também se revelou proporcionalmente ascendente quando houve aumento no número de sítios da dor25,26.
As tarefas com alta exigência física, sem controle temporal, mostraram relação com licenças longas de característica incapacitante por dores em múltiplos locais do corpo18. Trabalhos com alta exigência física têm sido referidos como preditores de dor múltipla e, por conseguinte, as licenças têm se mostrado mais longas em consequência do grau de incapacidade que estas dores impõem25.
Desta forma, a natureza da atividade executada é um fator que potencializa afastamentos por DME, e as atividades com demandas físicas excessivas levam a dor em múltiplos locais, associando-se a afastamentos longos. Os DME quando ocorrem concomitantemente com os TM, como a depressão, levam a licenças ainda mais prolongadas e à incapacidade permanente22,27.
A mudança do fluxo de trajetória de absenteísmo, de disruptiva para licenças longas de caráter incapacitante, também foi identificada na literatura em indivíduos com sintomas de dor distribuídos em múltiplos locais do corpo15. Entretanto, nos postos de trabalho em que há autonomia na mudança de postura e não há controle temporal do trabalho, os achados mostram uma relação de proteção para trajetória de incapacidade do trabalhador. Pois mesmo após 15 anos em atividades nestes postos, as licenças observadas ocorreram de forma pontual sem repercussão na vida laboral e na incapacidade do trabalhador17.
Parece existir uma relação entre a incapacidade provocada pela dor e os afastamentos repetidos por DME com mudanças na relação com colegas, chefia e falta de apoio28. Além das incapacidades impostas pelos DME, os fatores psicossociais presentes no ambiente de trabalho também levam a consequências nas relações de trabalho, pois são importantes preditores de afastamentos29.
Assim, atividades com alta demanda emocional, sobrecarga cognitiva, poucas possibilidades de usar novas habilidades no ambiente laboral, relações de trabalho conflituosas, altas demandas psicológicas de trabalho, exigência de tomada de decisão para gestão de conflitos, trabalho solitário e de baixo apoio social, alta carga de responsabilidade relacionaram-se a intensas sobrecargas emocionais e foram preditores de TM com licenças prolongadas8,29. Não somente fatores relacionados ao trabalho como pressão excessiva, carga de trabalho elevada, críticas de desempenho, gerenciamento inadequado, mas também os fatores pessoais como o luto, relacionamento pessoal, problemas de saúde física apresentaram-se como contribuintes para o processo de adoecimento mental. Ademais, o estigma da doença e a demora em buscar ajuda médica culminaram com o presenteísmo no curso do processo de adoecimento mental5,24.
Muitos trabalhadores têm uma relação de trabalho com cobranças e planos de progressão na carreira com critérios cheios de pessoalidade e exigências que levam ao estresse e à ansiedade pelo medo de perder os ganhos salariais auferidos. O medo de perder o emprego, o cargo e o status financeiro é um fator que faz os trabalhadores adotarem o presenteísmo, condição em que o trabalhador mesmo adoecido permanece no ambiente de trabalho, com sofrimento mental adicional por não conseguir ter o mesmo engajamento e a mesma produtividade, levando a um maior sofrimento30.
A condição precária de trabalho, muitas vezes resultante do receio de perdas econômicas ou dos estigmas e desafios que a experiência da licença impõe, leva a contextos de adoecimento de maior gravidade, com risco de incapacidade permanente e necessidade de saída precoce do mercado de trabalho31. O presenteísmo foi relatado com mais frequência nos estudos que investigaram o curso de adoecimento por TM, em consequência da demora no diagnóstico da doença, do receio de sofrer processos de estigmatização e da falta de apoio tanto dos colegas de trabalho, quanto na vida familiar e social23,24,30.
Em estudos com trabalhadores do judiciário foi observado que as licenças por TM acarretam afastamentos mais prolongados, 51,9% dos trabalhadores desta população tiveram afastamentos superiores a 15 dias8,29, enquanto que 59,9% dos trabalhadores da mesma população que se afastou por DME tiveram afastamentos abaixo de 15 dias9. O adoecimento mental, com trajetórias de licença mais longas, resulta em menor possibilidade de sucesso na adaptação às funções que os trabalhadores exerciam antes de se afastarem, quando retornam da licença, necessitando de readaptação para retorno sustentado ao trabalho ou até aposentadorias precoces16,21,23,24,30.
Alguns estudos mostram que o apoio de colegas e chefias, além de reduzir a necessidade de presenteísmo, levam ao entusiasmo e bem-estar com o processo de trabalho que podem prevenir, por conseguinte, o afastamento30. Este aspecto demonstra o quanto as relações sociais estabelecidas dentro e fora do trabalho, assim como a forma como é estabelecida a comunicação, as progressões na carreira e as relações hierárquicas nas instituições, são importantes fatores que podem atuar como protetores para o adoecimento mental21.
As relações harmônicas no ambiente de trabalho entre o trabalhador, chefia e colegas, associadas a uma rotina que estabeleça atenção à fatores subjetivos, asseguram avanços na qualidade de vida e no desempenho das atividades30. Desta forma, defende-se que, quando se estabelece licença gradual, com espaço protegido aos tratamentos de saúde, há um ganho ao restabelecimento da saúde e qualidade de vida do trabalhador e não ocorrem os impactos que advêm de períodos prolongados de afastamento, na capacidade de retorno pleno ao trabalho e nas interações ambientais e sociais14.
O impacto do apoio no ambiente de trabalho também se mostrou importante para melhoria da experiência dos trabalhadores que necessitam se readaptar. As mudanças na atividade laboral são frequentes em trabalhadores afastados por TM20. A readaptação, além de impor desafios à gestão do trabalho, com a necessidade de criação de postos de trabalho compatíveis com a nova condição do trabalhador, também impõe desafios aos trabalhadores que precisam desenvolver outros saberes para compor funções diferentes das que estavam habituados. Isto pode trazer receio de não desenvolverem as atividades de forma satisfatória, não serem apoiados pelos colegas e pelos gestores no processo de desenvolvimento e treinamento de novas habilidades32.
Além disso, no curso da licença, a experiência do trabalhador sobre sua capacidade física e mental gera influências no retorno ao trabalho. Quanto pior a percepção do trabalhador sobre estas capacidades, menor a probabilidade de retorno sustentado ao trabalho33. A experiência de afastamento e as incapacidades impostas pela doença também geram preocupação quanto ao retorno ao trabalho, o medo da demissão, o receio de não desempenhar suas funções de forma satisfatória, de não passar por treinamento na empresa para assumir novas habilidades, o que acaba gerando um sofrimento ainda maior19.
São muitos os desafios no curso das licenças para o tratamento da saúde, tanto econômicos quanto sociais, relacionados às crenças e estigmas que podem deslegitimar o momento de licença das atividades laborais, fazendo o indivíduo se sentir sem apoio, menosprezado em suas dores, traduzindo-se em maior distanciamento das atividades sociais23,24. Tudo isso terá impacto sobre duração e frequência de afastamentos do trabalho e determinação de diferentes trajetórias.
Os estudos trouxeram relevantes aspectos na duração e tipo de afastamentos, sobre a relação entre a dor incapacitante e os aspectos psicossociais, e fatores relacionados à transição entre os afastamentos por TM e aqueles por DME e vice-versa, além da relação entre duração da licença e possibilidade de retorno ao trabalho. Porém, ainda são necessários estudos que consolidem evidências sobre as trajetórias de absenteísmo por TM e DME, e associações entre tempo e padrões de absenteísmo por essas patologias.
Cabe, por fim, trazer algumas limitações da revisão, como a restrição aos idiomas inglês, espanhol e português, o que pode ter excluído eventuais contribuições escritas em outros idiomas. Além disto, os 11 estudos incluídos tratam de trajetórias de absenteísmo de trabalhadores com realidades distintas quanto à estabilidade no emprego e ocupação e também por não haver homogeneidade quanto às demandas físicas e psicossociais e tempo de seguimento nos estudos. Apesar dessas limitações, esta revisão capturou estudos com metodologias quantitativas e qualitativas, o que propiciou discussões mais aprofundadas sobre o tema, além de investigar, de forma inédita, como os estudos avaliam o fluxo de afastamento entre dois dos principais grupos de doenças responsáveis por incapacidade precoce e afastamento do trabalho.
Conclusão
Pôde-se inferir, a partir desta revisão, que os trabalhos com alta exigência física e dor em vários locais do corpo levam a afastamentos prolongados e de trajetória de caráter incapacitante e que os trabalhadores em licenças longas são os mais suscetíveis à readaptação. Pôde-se ainda compreender, a partir das experiências referidas pelos trabalhadores, que o presenteísmo é bastante frequente, principalmente no adoecimento mental, pelo medo que o trabalhador tem das perdas econômicas e do receio de sofrer impactos na carreira. Ademais, pelo estigma e invisibilidade do adoecimento mental, há uma demora na procura por cuidado em saúde, o que acaba gerando longos afastamentos com incapacidades graves e a necessidade de readaptação ou até de aposentadorias precoces.
Referências
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Informações sobre trabalho acadêmico:
Artigo derivado da tese de doutorado intitulada “Trajetórias de absenteísmo: Análise dos processos de adoecimento musculoesquelético e mental em trabalhadores do sistema judiciário”. O doutorado está em andamento, com defesa prevista para maio de 2026, pelo Programa de Doutorado Interinstitucional (Dinter), parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGSC), e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), pelo Programa de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho (PPGSAT).
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Disponibilidade dos dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/YSAKP.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
As autoras declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para a elaboração do artigo.
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Apresentação do estudo em evento científico:
As autoras informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
As autoras declaram que o estudo não foi subvencionado.
Editado por
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Editora responsável:
Leila Posenato Garcia.https://orcid.org/0000-0003-1146-2641. Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/YSAKP.



Fonte: elaboração própria.
Legenda ordenada das palavras mais citadas para as menos citadas: work (trabalho); mental (mental); sick (doente); sickness (doença); absence (ausência); pain (dor); trajectories (trajetórias); health (saúde); physical (física); capacity (capacidade); disorders (distúrbios); high (alto); illness (doença); group (grupo); experience (experiência); factors (fatores); associated (associada); rtw (retorno ao trabalho); participants (participantes); women (mulheres).