Open-access Desafios vivenciados por mães acadêmicas da área da saúde após a licença-maternidade

Resumo

Objetivo  Conhecer os desafios vivenciados por mães acadêmicas da área da saúde no retorno ao trabalho após a licença-maternidade.

Métodos  Estudo exploratório, descritivo de abordagem qualitativa. Participaram oito mães acadêmicas do curso de enfermagem, de uma universidade pública do Sul do Brasil. Os dados foram coletados de fevereiro a junho de 2024, por meio de um formulário eletrônico semiestruturado e analisados à luz da análise temática de conteúdo, proposta por Bardin.

Resultados  Emergiram duas categorias temáticas: sobreposição de atividades do trabalho formal e do cuidado não remunerado e repercussões na carreira docente, e rede de apoio e dificuldades de cuidados com os filhos. A maternidade repercutiu na produtividade acadêmica e científica das participantes. Elas enfrentaram a sobreposição de atividades, impactando na produção científica, sobrecarga de trabalho e cansaço. Apesar das mães acadêmicas possuírem direitos garantidos por lei, descrevem experiências de perseguição, assédio e discriminações ao retornarem às suas atividades laborais. A universidade não foi reconhecida como componente de rede de apoio pelas voluntárias.

Conclusão  É fundamental repensar a dinâmica de trabalho no cenário acadêmico, para proporcionar um ambiente mais acolhedor, flexível e que englobe a perspectiva de parentalidade saudável, evitando a vitimização das trabalhadoras por exercer a maternagem.

Palavras-chave
Corpo Docente de Enfermagem; Licença Parental; Estresse Ocupacional; Saúde do Trabalhador

Abstract

Objective  To understand the challenges experienced by mothers who are professors in the health field when returning to work after maternity leave.

Methods  Exploratory, descriptive study with a qualitative approach. Eight mothers who are nursing professors at a public university in southern Brazil participated. Data were collected between February and June 2024, using a semi-structured electronic form and analyzed using thematic content analysis, proposed by Bardin.

Results  Two thematic categories emerged: overlapping formal work activities and unpaid care activities and their repercussions on teaching careers; and support network and difficulties in caring for children. Motherhood had an impact on the academic and scientific productivity of the participants. They faced overlapping activities, which impacted their scientific production, work overload and fatigue. Although academic mothers have rights guaranteed by law, they describe experiences of persecution, harassment and discrimination when they return to their work activities. The university was not recognized as a component of the support network by the volunteers.

Conclusion  It is essential to rethink the work dynamics in academia, to provide a more welcoming, flexible environment that encompasses the perspective of healthy parenting, avoiding the victimization of workers for exercising motherhood.

Keywords
Faculty, Nursing; Parental Leave; Occupational Stress; Occupational Health

Introdução

O ingresso de mulheres da classe média no mercado de trabalho aconteceu de forma massiva a partir da I Guerra Mundial, pela necessidade de mão de obra decorrente da alta mortalidade de homens durante os conflitos armados. Já para mulheres de classes populares, esta inserção perdura há séculos, em contextos de trabalho doméstico, atividades de cuidado e outras atividades locais1.

De forma crescente, as mulheres passaram a conquistar outros espaços, tendo a possibilidade de almejar e construir carreiras profissionais. Contudo, o trabalho não remunerado e as atividades de cuidado seguem centralizados nas mulheres, com sobreposição de atividades domésticas, laborais e relativas à maternidade1.

Para as mulheres, a presença de filhos pequenos é fator determinante da inserção no mercado de trabalho. No Brasil, em 2019, o nível de ocupação era menor entre mulheres que viviam com crianças de até três anos no domicílio (54,6%), em comparação com aquelas sem crianças (67,2%)2. O nível de ocupação dos homens era superior ao das mulheres, em ambas as condições. A análise destes dados é fundamental para que o mercado de trabalho nacional esteja atento e sensível à realidade da força de trabalho composta por mães trabalhadoras.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) dispõe de legislação que protege e ampara gestantes, puérperas, lactantes e a família, incluindo: estabilidade à gestante no emprego, licença-maternidade e paternidade, pausa para amamentação e reembolso-creche3. A CLT garante a licença-maternidade de 120 dias, podendo ser ampliada para 180 dias se a empresa aderir ao Programa Empresa Cidadã. Para mulheres servidoras públicas federais sob o Regime Jurídico Único (RJU)4, são assegurados direitos semelhantes. A licença-maternidade é de 120 dias por padrão, podendo ser prorrogada por mais 60 dias, mediante solicitação realizada até um mês após o parto5.

As disparidades no mercado de trabalho exigem que outras estratégias e políticas públicas sejam elaboradas e adotadas para atender plenamente a essa pauta. A construção cultural de cuidado aos filhos, centrado nas mulheres, frequentemente acarreta um distanciamento entre a carreira profissional e a maternidade6,7.

No ambiente acadêmico, o impacto da maternidade na carreira das mulheres também impõe grandes desafios e uma realidade marcada por pressão, discriminação e, por vezes, assédio8. Estas mulheres são frequentemente excluídas de oportunidades diversas dentro da universidade, o que reflete em exaustão física e emocional. É fundamental a presença de uma rede de apoio institucional para o bem-estar de mães docentes no ambiente de trabalho9.

Em relação às mães docentes da área da saúde, esses desafios aumentam, uma vez que há necessidade de cuidados redobrados com a mulher gestante e lactante em serviços de saúde, por estarem sujeitas a riscos ocupacionais que podem impactar a saúde da gestante e do bebê5. Além disso, há riscos no que tange à saúde mental materna, devido às cobranças, exigências e sobrecarga de funções10.

Na área da enfermagem, a exposição a todos esses riscos ocupacionais mencionados está presente, tendo em vista que é uma profissão que atua diretamente no cuidado às pessoas com múltiplas demandas de saúde, proporcionando risco à saúde das mães docentes em instituições como hospitais e Unidades Básicas de Saúde (UBS)11.

Grande parte dos sentimentos e das consequências negativas relacionadas à conciliação da maternidade e da vida profissional estão diretamente relacionados à precariedade de ações que ofereçam suporte e assistência às mães, considerando que esse panorama não se restringe ao período de licença-maternidade, mas se estende pelos primeiros anos de vida da criança12.

A motivação para realizar esse estudo advém das experiências das autoras no retorno ao trabalho após a licença-maternidade e das convivências com mães no ambiente acadêmico da área da saúde. Observa-se sofrimento no retorno ao trabalho, face às exigências de produtividade, especialmente na pós-graduação, e às novas rotinas dessas mães. Então, questiona-se: “Qual a percepção dos desafios enfrentados por mães acadêmicas, no contexto da área da saúde, no retorno ao trabalho após a licença-maternidade?”.

Esta pesquisa objetivou conhecer os desafios enfrentados por mães acadêmicas da área da saúde de uma universidade pública no retorno ao trabalho após o período de licença-maternidade. Acredita-se que a presente pesquisa poderá problematizar os desafios enfrentados por estas mulheres e apresentar possíveis estratégias para a promoção do bem-estar no ambiente de trabalho.

Métodos

Estudo exploratório, descritivo e de abordagem qualitativa, que seguiu as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)13.

O estudo foi realizado no curso de enfermagem de uma universidade pública do estado do Rio Grande do Sul. O grupo de participantes foi definido por conveniência e de forma intencional14, incluindo docentes da graduação que se tornaram mães a partir do ano de 2019 e que não estavam em período de afastamento da instituição. Optou-se por investigar os últimos cinco anos pela proximidade da vivência da maternidade e as possíveis políticas organizacionais que podem ter impactado no retorno ao trabalho após a licença-maternidade.

Para a seleção da amostra, foi realizado o levantamento do corpo docente no website institucional. Posteriormente, foi realizado o convite às mães acadêmicas por meio de e-mail, com conteúdo textual que explicava o interesse em reconhecer a perspectiva da possível participante sobre o tema pesquisado; e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de acordo com a Carta Circular nº 1 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep)15.

Todas as professoras que tiveram seus bebês entre 2019 e 2024 foram convidadas a participar do estudo e aceitaram. O fechamento do grupo pesquisado ocorreu por saturação de dados, quando foi identificada a repetição dos achados nas falas das entrevistadas16.

A coleta dos dados ocorreu entre os meses de fevereiro e junho de 2024, com aplicação de entrevistas guiadas por um roteiro semiestruturado, via Google Forms®, com tempo médio de 20 minutos para ser respondido. O instrumento foi constituído por duas partes: 1) dados para a caracterização das participantes; e 2) perguntas relacionadas ao objeto da pesquisa. Optou-se pela coleta remota para facilitar o acesso às entrevistadas. Ao responderem de forma individual e on-line, as participantes puderam ter mais privacidade e conforto para relatar o que desejassem, respeitando também o sigilo.

Os dados foram analisados à luz da análise temática de conteúdo, proposta por Bardin17, em três etapas: a) Pré-análise – na qual foram definidas as unidades de significado presentes no conteúdo dos discursos, considerando a questão norteadora e objetivo da pesquisa; b) Exploração do material – foi realizada a codificação dos dados, o agrupamento das unidades de significado emergentes e a operação classificatória, que visou alcançar o núcleo de compreensão do conteúdo, por diferenciação e agregação dos elementos constitutivos de um conjunto por similaridades, quando o texto é reduzido a expressões e palavras significativas à pesquisa; e c) Tratamento e interpretação dos dados – ocorreu a análise dos resultados brutos, a busca de tendências e outras características da análise, destacando as informações obtidas mais relevantes para a formação dos temas, os quais oportunizaram obter a interpretação com base no referencial teórico deste estudo.

Esta pesquisa respeitou os preceitos éticos da Resolução nº 510 de 2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)18 e da Resolução nº 466 de 2012 do CNS19. Foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade, sob o registro CAAE: 75441623.4.0000.5347 em 1º de fevereiro de 2024.

Os dados coletados foram protegidos com base na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD)20. Foram consideradas as orientações para pesquisa em ambiente virtual15. Para preservar o anonimato das participantes, foram utilizados códigos (C1 a C8).

Resultados e discussão

Oito mães acadêmicas participaram da pesquisa. A faixa-etária foi de 35 a 44 anos, com idade média de 39 anos. Uma docente se autodeclarou preta e as demais se autodeclaram brancas. Todas responderam estar em um relacionamento conjugal.

No que diz respeito ao ano de nascimento dos filhos, três tiveram seus filhos em 2019, duas em 2020, duas em 2021, três em 2022 e uma em 2023. Duas docentes vivenciaram mais de uma experiência de maternidade durante o período de 2019 a 2024.

As participantes tiveram a possibilidade de permanecer afastadas do trabalho por um período médio de sete meses, somando o tempo de licença-maternidade (quatro meses), o período de prorrogação para aleitamento materno (dois meses) e de férias (um mês).

Sobreposição de atividades do trabalho formal e do cuidado não remunerado e repercussões na carreira docente

Entre os desafios enfrentados pelas mães acadêmicas, identificou-se a necessidade de conciliar as atividades profissionais com o trabalho de cuidado não remunerado, em meio aos novos papéis que a maternidade impõe às mulheres.

O retorno foi positivo, mas também desafiador, diante do excesso de trabalho e das atividades domésticas referentes à maternidade (C1).

Conseguir conciliar as demandas de docente e mãe foi desafiador (C2).

O retorno foi difícil. No sentido de querer estar retornando ao trabalho, mas ao mesmo tempo querer ficar em casa para dar o mamá, fazer dormir, dar colo. Conseguir conciliar as demandas de docente e mãe foi desafiador (C3).

Foi caótico! Demorou muito tempo até eu conseguir dar conta das minhas atividades. O difícil foi ser produtiva... Cuidar da casa, do bebê (...), e ainda ter que dar conta do trabalho foi muito difícil (C4).

Sempre é um desafio conciliar a alta demanda de trabalho na universidade com o trabalho de cuidado (C8).

A maternidade e a carreira acadêmica impõem grandes demandas, levando as mulheres a se verem diante da difícil escolha entre cuidar dos filhos e das responsabilidades domésticas ou manter o seu desempenho acadêmico. Esse contexto naturaliza a sobrecarga de mães trabalhadoras e suas múltiplas responsabilidades, com sobreposição de tarefas e a necessidade de priorizar determinadas atividades em detrimento de outras21.

A maternidade pode ser uma experiência marcada por diversos sentimentos. Algumas mulheres podem sentir o desejo em diminuir sua jornada de trabalho em prol do cuidado com os filhos, enquanto outras podem desejar a manutenção das mesmas atividades que exerciam antes da chegada dos filhos. A construção social da maternidade e a temática acerca do “instinto maternal” vêm sendo questionadas e desconstruídas. Esta é uma experiência plural, multifatorial e diversa, uma vez que a maternidade e o amor materno são construídos de formas diversas em que não há certo ou errado. A literatura descreve as diferentes formas de construção do amor materno, que podem envolver aspectos subjetivos e culturais, as quais permeiam as expectativas de cada mulher com o maternar e com a construção de suas carreiras22.

Nesta pesquisa, todas as participantes manifestaram o desejo de ajustes na jornada de trabalho objetivando maior tempo disponível para o cuidado com os filhos. Elas também verbalizaram diversas dificuldades e enfrentamentos para cumprir suas atividades docentes e a maternidade.

Retorno às atividades práticas no campo de estágio que iniciam às 7 da manhã, preciso sair muito cedo de casa. Ter que dizer vários ‘não posso’, ‘não consigo’ para atividades (de trabalho) que considero ótimas, mas que nesse momento da vida não dou conta de assumir (C3).

Eu e meu marido nos revezávamos para trabalhar e cuidar do meu filho. Sem contar que as madrugadas ainda eram longas, o que dificultava o foco e concentração no trabalho (C4).

Agendamento de reuniões no final da tarde, quase noite, impossível para quem tem bebê pequeno. A vida mudou para nós mulheres, mas o mundo seguiu sendo ‘duro’ e nos cobrando como antes (C6).

As demandas acadêmicas não comportam uma mulher que tem um vínculo de maternagem com um bebê (C7).

As atividades docentes nas universidades não incluem apenas o ensino, mas também a pesquisa, extensão e a gestão. As responsabilidades de uma professora-cientista contemplam: ministrar aulas, realizar acompanhamento e supervisão em campos de práticas e estágio, participar de ou coordenar projetos e/ou programas de extensão, orientar estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, participar em bancas de defesa de dissertações e teses, elaborar e revisar artigos científicos, entre outras atividades de administração dentro da universidade1,21.

Com a chegada de um filho, a mãe acadêmica enfrenta uma nova realidade que requer adaptação, ao mesmo tempo em que o ambiente acadêmico se faz competitivo e exige cada vez mais dedicação e flexibilização para atender às demandas do trabalho acadêmico-científico que, frequentemente, excede o horário regular1,21. Tal realidade impacta na relação familiar e também na construção de uma parentalidade saudável. A relação entre maternidade e carreira acadêmica frequentemente resulta em sentimentos negativos, como culpa, angústia, preocupação, ansiedade e insegurança, além de impactos negativos para evolução das suas carreiras8.

Conciliar todas essas modificações com o retorno ao trabalho pode ser desgastante, exaustivo e gerador de sentimentos negativos, como ansiedade, preocupação, culpa em não cumprir com êxito todas as demandas e consequentemente, a sensação de nunca fazer o suficiente8.

Além da recuperação física e as adaptações psíquicas necessárias no pós-parto, também há as repercussões advindas da dificuldade em se ajustar à nova rotina, uma vez que essa docente-mãe está sujeita à privação de sono, aos desafios na amamentação e também a mudanças hormonais que podem resultar em questões de saúde mental, como a depressão pós-parto. As mulheres também enfrentam a solidão, pois o nascimento do bebê altera as dinâmicas de seus relacionamentos conjugais, familiares e sociais.

Dificuldades são as aulas noturnas e os momentos que meu filho ficou doente e não consegui me afastar do trabalho (C1).

No retorno do segundo foi mais difícil. Coincidiu também com a entrada do primeiro na escolinha, depois o segundo. Muitas viroses, doenças, idas a médicos e algumas internações. Eu digo que minha carreira é o meu primeiro filho e, por isso, fico sempre achando que estou devendo, quando na verdade não estou. E também penso que não podem nos deixar achar isso. Mas é muito mais difícil de dar conta da vida (...) A gente tenta dar conta de tudo na vida profissional e pessoal, acabamos dormindo pouco, cansadas e sobrecarregadas. Acho que essa é a principal questão. Eu sempre quero dar conta de mais, mas comecei a perceber que trabalhamos muito e que precisamos ter tempo qualificado para os filhos, esposo, família, amigos e o trabalho (C2).

Desencadeou um sentimento de estar sempre devendo, devendo no trabalho, devendo para o cuidado com os filhos, devendo na relação com o companheiro, devendo no autocuidado (...) Sentimento de frustração por não dar conta de tantas demandas (C5).

No primeiro filho as adaptações no retorno ao trabalho foram mais intensas, rede de apoio limitada para suporte nas questões de adoecimento do filho. (...) O adoecimento dos filhos é algo que me mobiliza muito e me leva à exaustão (C5).

Foi difícil principalmente no primeiro filho, mas sofri com o retorno com todos os filhos. Muitas inseguranças, medo do desconhecido, medo do cuidado que estava sendo ofertado e da minha ausência (C6).

Foi muito difícil, não tinha rede de apoio e o bebê ficou muito doente na entrada na escolinha (C7).

Um estudo sobre as vivências e as decisões das mulheres em equilibrar múltiplos papéis, desenvolvido com cerca de mil mulheres, constatou que 56% percebiam que a sua carreira era mais difícil com os filhos23. Esse cenário gera um sentimento de inadequação por não conseguir atender às exigências acadêmicas como antes da maternidade e tem como resultado o cansaço, o estresse e impactos negativos na saúde física e mental1,21.

A sobreposição de atividades resulta em diminuição no tempo disponível para se dedicar às demandas da universidade, o que consequentemente leva a um impacto na produtividade e redução no número de publicações científicas, o que se mostra presente nos seguintes relatos:

No primeiro, fiquei com uma carga horária muito baixa e bastante receosa se iria conseguir a promoção para professora associada. Uma questão bem importante e que impacta na carga horária é que com a amamentação temos o direito de não estar em prática, mas ficamos com carga horária baixa e essa é uma questão importante. Há um ajuste nas progressões/promoções para licença, mas foi complicado (...) Muitos ajustes foram necessários e os dois primeiros anos acabaram impactando na produtividade, especialmente na produção de artigos (C2).

Não dar conta das pesquisas em andamento. Ter que utilizar as férias para colocar as demandas das pesquisas em dia (C3).

Fiquei com um “espaço vazio” de produções no meu lattes nesses períodos de licença e em mais seis meses de retorno, difícil escrever/publicar tendo dois bebês em casa (C6).

Pesquisa conduzida pelo grupo Parent in Science revelou que, após o nascimento dos filhos, houve uma redução imediata na produtividade científica das mães, refletida na diminuição do número de publicações24. Dos 2.136 cientistas entrevistados, 78% das mulheres eram mães. A grande maioria das entrevistadas (81%) relatou que a maternidade teve um impacto negativo em suas carreiras científicas24. A literatura descreve o quanto as questões de gênero permeiam a cobrança pela produtividade de mães acadêmicas, as políticas públicas existentes não são suficientes para amparar as necessidades destas mulheres12.

O impacto na carreira docente pela maternidade não se limita apenas ao período de licença, pode persistir nos primeiros anos de vida da criança e estender-se por pelo menos quatro anos após o nascimento do primeiro filho, prejudicando a evolução de suas carreiras21.

É essencial questionar a realidade do ambiente acadêmico, que frequentemente impõe a necessidade de dedicação exclusiva, alta produtividade científica e longas jornadas de trabalho, ignorando as disparidades de gênero impostas socialmente. No ambiente acadêmico, ao retornarem da licença-maternidade, as docentes enfrentam pressão para manter a produtividade e sofrem preconceitos e discriminação, sendo vistas como menos comprometidas ou disponíveis para suas funções profissionais. Elas também podem ser excluídas de oportunidades como bolsas de extensão, bolsas de iniciação científica, supervisão de alunos em campos de estágio e competições por financiamentos de pesquisas.

Há incompreensões de alguns colegas sobre esse momento, de não compreender que não voltamos a mesma profissional (C5).

Colegas nunca entenderam que eu tinha outras demandas com meu bebê em casa, mas seguiam cobrando como antes, mas a vida já tinha outro sentido e outra rotina (...) Falta de entendimento e empatia sobre esse retorno ao trabalho por parte dos colegas (C6).

A hostilidade por alguns pares pelo fato da servidora lactante exercer o seu direito de afastamento das atividades insalubres ou por ter estado afastada durante 6 meses em licença-maternidade, garantida por Lei Federal (...) A pressão por alguns pares para ocupar funções ou realizar atividades para além daquelas já exercidas, em um momento de adaptação, sem considerar as particularidades da servidora lactante (C8).

As falas elucidam situações que podem ser descritas como formas de assédio institucional, por se sentirem discriminadas e negligenciadas. Há necessidade de políticas de equidade e inclusão para garantir que estas mães possam desenvolver suas atividades após o retorno da licença-maternidade25.

As mulheres não deveriam ser penalizadas em razão da maternidade, muito menos em um ambiente em que se produz conhecimento e ciência. Os desafios identificados nos discursos das participantes geram preocupação, principalmente na graduação em enfermagem, curso predominado por mulheres e que tem como principal objeto o cuidado.

Para mitigar as consequências dessa penalização, as mães acadêmicas se desdobram para atender a todas as demandas da universidade, utilizando suas férias ou passando noites acordadas para trabalhar. A pressão constante para atender a todas as expectativas impostas, resulta em desgaste físico e emocional, afetando diretamente a saúde mental das mães.

O ambiente institucional, especialmente na universidade, muitas vezes não reconhece nem acolhe as necessidades específicas das mulheres que são mães. As exigências do mercado de trabalho e/ou do campo acadêmico frequentemente contribuem para perpetuar desigualdades e negligenciar o contexto individual das mulheres, pois os critérios de excelência acadêmica frequentemente são baseados na rotina de um acadêmico sem filhos12,26.

Rede de apoio e dificuldades de cuidados com os filhos

O retorno da licença-maternidade traz consigo uma nova realidade envolta por medos e desafios que provêm da necessidade de sair para trabalhar e deixar o bebê em casa, fazendo com que seja fundamental uma rede de apoio sólida para que as docentes possam retornar à universidade de uma forma segura.

Considero que não temos rede de apoio, a maternidade não tem espaço na Universidade (C7).

A legislação federal é a nossa única âncora. A maternidade precisa ser ressignificada dentro da universidade (C8).

Rede de apoio na universidade? Isso não existe, infelizmente (C4).

Rede de apoio familiar, mas na universidade não! (C6).

A rede de apoio, por sua vez, desempenha um papel crucial para que as mães possam retornar às suas atividades cotidianas. Ter um suporte eficaz para dividir o trabalho doméstico e os cuidados com as crianças permite que as cientistas-mães consigam cumprir as exigências do trabalho e deem continuidade às suas responsabilidades acadêmicas26.

No que tange à estrutura que as mães acadêmicas identificam como rede de apoio, está a família. A universidade não foi citada por nenhuma delas como apoio, portanto, parece não ser vista como uma estrutura que dê suporte às mães docentes. As participantes identificam suporte e acolhimento no núcleo familiar, creches e escolas e, em poucos colegas de profissão, que entendem a nova realidade e a necessidade de readaptação ao ambiente acadêmico.

Algumas colegas foram solidárias, conversavam para trocar experiência – este apoio foi fundamental (C7).

Preciso salientar, em primeiro lugar, que tenho uma boa rede pessoal, a babá, meus sogros e a escolinha. São fundamentais para que eu realmente consiga trabalhar com mais tranquilidade e dar conta. Os colegas da minha área são muito parceiros, também temos o grupo da parentalidade que precisa ser mais fomentado na escola, temos colegas e amigas muito parceiras. Tenho a felicidade de dizer que dentre colegas tenho amigas e amigos. É uma felicidade e uma importante rede de apoio em vários momentos (C2).

Rede de apoio considero as colegas de disciplina que são mães e compartilham das mesmas demandas, que dividem a carga de trabalho de forma equitativa, que permitem um clima de trabalho agradável (C3).

Algumas colegas que são mais colaborativas e entendem o momento (C5).

As colegas de trabalho que são mães parecem demonstrar maior empatia e compreensão com o novo momento de vida das participantes, representando um suporte social dentro da universidade.

O período pandêmico marcou uma nova cultura de trabalho, com reuniões remotas e atividades que se estendem além do horário comercial. Essa realidade acentuou desigualdades sociais e de gênero, demonstrando o impacto da maternidade na carreira das mães docentes26,27, especialmente quando creches, serviços de acolhimento infantil e escolas enfrentaram longos períodos de fechamento12,26,27.

De acordo com os dados de uma pesquisa envolvendo cerca de sete mil mulheres, aproximadamente 40,5% das participantes identificaram como uma das principais questões durante o período de isolamento social, a dificuldade de conciliar as demandas do trabalho remoto com as responsabilidades domésticas e o cuidado com as crianças. Um estudo que investigou as experiências e reflexões de cientistas-mães, com 89 docentes entrevistadas, aproximadamente 80% mencionaram que o isolamento social impactou suas atividades profissionais de diversas maneiras, incluindo problemas de concentração26.

Discussões sobre maternidade e carreira têm ganhado destaque no Brasil, principalmente a partir das ações do grupo Parent in Science, iniciado em 2015 e coordenado por uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul junto a outras cientistas. Este grupo visa provocar mudanças no ambiente acadêmico e científico para reduzir as desigualdades e torná-lo mais receptivo às mulheres que são ou desejam ser mães24. Este grupo propõe a adoção de critérios que considerem a maternidade em todos os processos de avaliação de currículo, como processos seletivos, credenciamento em programas de pós-graduação, progressão funcional, financiamento e bolsas. Além de garantir oportunidades para a progressão das mães na carreira, incentivando sua inclusão em comitês de tomada de decisão e liderança acadêmica28.

Em 2021, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) implementou um campo no currículo lattes para informar o período de licença-maternidade. Essa medida é importante, pois o Currículo Lattes é o espaço em que as cientistas divulgam sua produção acadêmica, sendo essencial para a participação em editais de financiamento e concursos públicos. Antes disso, não era possível identificar uma lacuna nos currículos devida à maternidade.

Outras ações propostas que vão ao encontro das falas das participantes, são a promoção de uma cultura de trabalho mais flexível e inclusiva, que valorize o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, como reconhecer o tempo de licença-maternidade como tempo de trabalho, para evitar impactos negativos na carreira e promover discussões sobre as dificuldades enfrentadas por elas28.

É essencial a construção de um ambiente inclusivo e acolhedor para as mães na academia, uma vez que a falta de um espaço privado para amamentação e/ou extração do leite materno continua sendo uma barreira importante para a continuidade da amamentação para as mães docentes28,29. O cenário da presente pesquisa, por exemplo, tem um grande número de servidoras e alunas e, mesmo assim, não possui um espaço para amamentação, extração do leite humano e local adequado para trocar bebês ou crianças. Para além das dinâmicas de trabalho, é preciso pensar em infraestrutura que atenda e respeite as mães acadêmicas.

Implementar salas de apoio à amamentação, disponibilizar tempo para a extração do leite materno e oferecer horários de trabalho flexíveis são medidas cruciais para facilitar a conciliação das responsabilidades profissionais com demandas com os filhos e proporcionar suporte necessário às docentes28,29.

Conclusão

Este estudo objetivou conhecer os desafios enfrentados por mães acadêmicas da área da saúde no retorno ao trabalho após a licença-maternidade. Foram identificadas duas categorias temáticas: 1) Sobreposição de atividades do trabalho formal e do cuidado não remunerado e repercussões na carreira docente; e 2) Rede de apoio e dificuldades de cuidados com os filhos. A sobreposição de atividades do trabalho formal e do cuidado não remunerado aparece como o principal desafio para as mães acadêmicas, gerando repercussões negativas na carreira.

A rede de apoio social mostra-se como um importante pilar de suporte para as mães acadêmicas. Elas encontraram esse auxílio no ambiente familiar, nas escolas, creches e, sutilmente, em algumas colegas de trabalho que também são mães e compartilharam das mesmas demandas e experiências. Por outro lado, houve relatos sobre pressões por parte de pares, evidenciando que esse suporte não é universal.

Torna-se crucial que sejam incorporadas medidas para reduzir as disparidades de gênero no contexto acadêmico. Isso inclui pesquisas sobre o assunto para elencar questões como a sobreposição de papéis, a sobrecarga materna, o assédio e os impactos no bem-estar das mães acadêmicas.

Um fator limitante deste estudo foi a ausência de entrevistas presenciais com as participantes, o que pode ter dificultado o esclarecimento de algumas respostas e impedido o aprofundamento de certas questões, uma vez que as entrevistas presenciais permitem que os voluntários se expressem de maneira mais natural, fornecendo um maior volume de informações sobre o assunto em questão.

Este estudo contribui para o debate sobre a maternidade e o retorno ao trabalho de mães acadêmicas dentro da universidade pública. Ao identificar as dificuldades e fragilidades enfrentadas no dia a dia dessas docentes, ele pode fomentar a discussão no ambiente acadêmico e no cenário do estudo, e colaborar no desenvolvimento de ações que ofereçam suporte e apoio às mães acadêmicas, que além de produtoras de ciência na universidade, também contribuem para os avanços sociais por meio do seu trabalho formal e do cuidado não remunerado.

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  • Informações sobre trabalho acadêmico:
    Artigo baseado no trabalho de conclusão do curso de enfermagem, intitulado “Dificuldades enfrentadas por mulheres docentes no contexto acadêmico após retorno da licença maternidade”, apresentado pela autora Kethruyn Guedes Ferreira sob orientação da Profa. Dra. Jéssica Teles Schlemmer, em 2024, na Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  • Disponibilidade dos dados:
    O Comitê de Ética em Pesquisa que aprovou o estudo não autorizou o compartilhamento público do banco de dados, permitindo apenas sua utilização para os fins previstos no protocolo aprovado.
  • Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
    As autoras declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para a elaboração do artigo.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    As autoras informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
  • Financiamento:
    As autoras declaram que o estudo não foi subvencionado.

Editado por

  • Editoras responsáveis:
    Juliana Andrade Oliveira
    Leila Posenato Garcia

Disponibilidade de dados

O Comitê de Ética em Pesquisa que aprovou o estudo não autorizou o compartilhamento público do banco de dados, permitindo apenas sua utilização para os fins previstos no protocolo aprovado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Abr 2025
  • Revisado
    24 Jun 2025
  • Aceito
    29 Ago 2025
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