Open-access Sobrecarga, estresse e saúde mental da equipe de enfermagem em centro cirúrgico: estudo qualitativo em um hospital público de referência em Belém, Pará, Brasil

Resumo

Objetivo  Investigar a relação entre o sofrimento mental e o processo de trabalho da equipe de enfermagem atuante no centro cirúrgico de um hospital público de referência.

Métodos  Pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida em Belém, Pará, de julho a agosto de 2024, com 24 profissionais de enfermagem selecionados mediante critérios de inclusão previamente definidos. Os dados foram coletados por meio de questionário sociodemográfico e entrevistas semiestruturadas. O material obtido foi submetido à análise temática.

Resultados  A análise levou a duas categorias centrais: demandas e intercorrências que afetam a rotina; alterações sociocognitivas comportamentais da equipe. Os achados evidenciaram a expressão das percepções e vivências dos participantes. Indicaram sobrecarga física e psicológica decorrente da complexidade das atividades assistenciais, da pressão por resultados imediatos, de fragilidades na comunicação interpessoal. Esses fatores contribuíram de forma relevante para o estresse ocupacional e o desgaste mental dos profissionais.

Conclusão  O trabalho em centro cirúrgico apresenta elevado potencial de desencadeamento de sofrimento psíquico. Faz-se necessária a implementação de estratégias institucionais de apoio, fortalecimento da comunicação entre equipes e valorização da saúde mental dos trabalhadores, assegurando qualidade da assistência e bem-estar da equipe de enfermagem.

Palavras-chave:
Saúde Mental; Equipe de Enfermagem; Centro Cirúrgico; Saúde do Trabalhador

Abstract

Objective  To investigate the relationship between mental distress and the work process of the nursing team working in a surgical center of a public referral hospital.

Methods  This was a study with a qualitative approach, conducted in Belém, Pará, Brazil, from July to August 2024, involving 24 nursing professionals selected according to previously defined inclusion criteria. Data were collected through a sociodemographic questionnaire and semi-structured interviews. The data obtained was subjected to thematic analysis.

Results  The analysis yielded two central categories: demands and incidents affecting routine; and sociocognitive and behavioral changes within the team. The findings highlighted the participants’ perceptions and lived experiences. They indicated physical and psychological overload resulting from the complexity of care activities, pressure for immediate results, and weaknesses in interpersonal communication. These factors contributed substantially to occupational stress and mental strain among the professionals.

Conclusion  Working in a surgical center presents a high potential for triggering psychological distress. The implementation of institutional support strategies, strengthening communication among teams, and prioritizing workers’ mental health are necessary to ensure quality of care and the well-being of the nursing staff.

Keywords:
Mental Health; Nursing Team; Surgical Center; Occupational Health

Introdução

O Centro Cirúrgico (CC) configura-se como um ambiente crítico, dotado de estrutura padronizada, no qual são realizados procedimentos anestésicos de alta complexidade, frequentemente associados a complicações cirúrgicas e pós-operatórias relevantes. Por sua natureza, trata-se de um espaço que impõe múltiplas adversidades ao trabalho da equipe de saúde. Destacam-se, entre elas, a limitação de recursos humanos, o cansaço extremo, o esgotamento físico e mental, além de falhas no processo comunicativo. Tais fatores podem repercutir diretamente no adoecimento psíquico dos trabalhadores e favorecer o surgimento de condições estressoras1.

Profissionais inseridos nesse cenário enfrentam desafios adicionais em razão das características próprias do setor. O CC é um ambiente fechado, delimitado por barreiras físicas, com a presença de equipamentos de alta tecnologia e múltiplos profissionais em interação contínua. Nele, a comunicação precisa ocorrer de maneira eficaz e constante, sob pena de aumentar a probabilidade de erros humanos2.

Conforme orienta o Conselho Internacional de Enfermeiros, o cuidado com a saúde mental dos trabalhadores da enfermagem deve ser objeto de atenção permanente. A profissão é considerada de elevado estresse por lidar cotidianamente com situações de sofrimento humano. Essa realidade pode desencadear sentimentos de angústia, ansiedade e quadros de depressão3.

Nesse contexto, os sofrimentos psíquicos estão intrinsecamente presentes no cotidiano da equipe de enfermagem. A prática profissional no CC é marcada por um ambiente de pressão constante. A complexidade da assistência nesse setor torna cada procedimento crítico, uma vez que um erro pode resultar em desfechos graves, como invalidez ou até mesmo morte4.

A relevância deste estudo justifica-se pelo fato de que o CC representa um dos ambientes hospitalares mais suscetíveis ao desgaste físico e psíquico dos profissionais de enfermagem, em virtude da elevada complexidade dos procedimentos, da necessidade de atenção contínua e das constantes demandas interpessoais e técnicas. Essas condições favorecem o surgimento de estresse ocupacional, ansiedade e outros transtornos mentais, que comprometem a segurança do paciente assistido5. Nesse sentido, compreender a relação entre sofrimento mental e processo de trabalho no CC é essencial para subsidiar estratégias de prevenção, promoção da saúde ocupacional e fortalecimento da assistência humanizada.

Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo investigar a relação entre o sofrimento mental e o processo de trabalho da equipe de enfermagem atuante no CC de um hospital de referência.

Métodos

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, fundamentado no referencial teórico-metodológico da Análise de Conteúdo6, conduzido no período de julho a agosto de 2024, em um hospital público localizado em Belém, Pará, Brasil.

Cenário do estudo

A pesquisa foi realizada em uma instituição pública reconhecida como referência nas áreas de nefrologia, cardiologia e psiquiatria. O hospital concentra elevado fluxo de procedimentos cirúrgicos, o que acarreta demanda assistencial contínua e intensificada para a equipe de enfermagem, configurando um contexto relevante para a análise das condições de trabalho e seus impactos na saúde mental.

A instituição possui um CC estruturado com sete salas operatórias. Em seu quadro funcional, atuam nove enfermeiros e trinta técnicos de enfermagem, responsáveis pela assistência direta aos pacientes nos diferentes turnos de trabalho.

Participantes do estudo

Os critérios de inclusão abrangeram profissionais de nível médio (técnicos de enfermagem) e de nível superior (enfermeiros) que atuassem diretamente no CC, pertencentes ao quadro funcional da instituição, maiores de 18 anos e com experiência mínima de um ano no setor. Todos os profissionais elegíveis foram convidados a participar da pesquisa, sendo incluídos aqueles que manifestaram interesse e atenderam aos critérios estabelecidos.

Foram excluídos os trabalhadores que não integravam a equipe de enfermagem do setor, não possuíam vínculo funcional com a instituição, apresentavam diagnóstico de transtorno mental anterior à atuação no CC ou se encontravam em período de férias ou licença durante a coleta de dados.

Ressalta-se que a amostra não contemplou todos os profissionais elegíveis do setor, visto que a coleta foi interrompida quando se alcançou a saturação dos dados, momento em que novas entrevistas já não acrescentavam elementos relevantes à compreensão do fenômeno investigado7.

Coleta de dados

A realização da pesquisa foi autorizada pela instituição, e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes do início da coleta.

Utilizou-se um questionário elaborado especificamente para esta pesquisa pelos autores, não derivado de instrumento previamente validado. O instrumento foi estruturado em duas partes: a primeira composta por questões fechadas destinadas à caracterização sociodemográfica e profissional dos participantes, incluindo categoria profissional (enfermeiro ou técnico de enfermagem), idade, sexo, tempo de atuação, vínculos empregatícios e jornada de trabalho na instituição; e a segunda formada por seis questões abertas, norteadoras, voltadas à identificação da percepção dos profissionais acerca do trabalho no CC e dos fatores que impactam sua saúde mental.

A coleta de dados foi realizada presencialmente por três integrantes do estudo, do gênero feminino (BLRC, RSR e SPB), graduandas em Enfermagem no momento da coleta de dados. As entrevistadoras foram previamente alinhadas quanto aos objetivos e à condução das entrevistas, a fim de garantir padronização na abordagem. As entrevistas foram individuais, realizadas em sala reservada nas dependências da instituição, em horário indicado pelos próprios participantes como o mais conveniente durante seus respectivos turnos de trabalho, assegurando privacidade e minimizando interferências externas, com duração média de aproximadamente 20 minutos.

As entrevistas foram gravadas em áudio para posterior transcrição literal, garantindo maior fidedignidade às falas. A fim de preservar o anonimato, cada participante foi identificado pela letra P, seguida da numeração sequencial de 1 a 24, conforme a ordem de realização das entrevistas (P1, P2, P3 etc.).

Análise dos dados

A análise dos dados coletados neste estudo foi realizada utilizando a técnica de Análise de Conteúdo, conforme proposta por Bardin6. Esse método possibilita a organização, interpretação e sistematização das informações provenientes das entrevistas semiestruturadas, permitindo a identificação de categorias temáticas e padrões recorrentes no discurso dos participantes. A aplicação dessa abordagem garantiu rigor metodológico ao estudo, favorecendo a compreensão aprofundada das experiências, percepções e desafios enfrentados pela equipe de enfermagem no CC, bem como a relação entre as demandas laborais e o impacto na saúde mental dos profissionais.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Fundação Pública Estadual Hospital das Clínicas Gaspar Vianna, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 80761424.5.0000.0016 e Parecer nº 6.933.328, emitido em 5 de julho de 2024. A participação dos sujeitos foi condicionada à assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Resultados e discussão

Perfil dos participantes

A caracterização sociodemográfica e profissional dos participantes é apresentada na Tabela 1.

Tabela 1
Perfil dos profissionais de enfermagem atuantes em centro cirúrgico de um hospital público, Belém, Pará, 2024

Participaram do estudo 24 profissionais de enfermagem, distribuídos entre os turnos matutino, vespertino e noturno. Dos 24 participantes, oito eram enfermeiros e 16 técnicos de enfermagem. A maioria encontrava-se na faixa etária de 41 a 51 anos (13), era do sexo feminino (20) e possuía jornada de trabalho de mais de 6 horas diárias (15). Quanto ao tempo de atuação profissional, observou-se que 13 exerciam a função há bastante tempo (entre 11 e 40 anos). Em relação ao número de vínculos empregatícios, verificou-se equilíbrio entre aqueles que possuíam apenas um vínculo (12) e os que acumulavam mais de um (12). (Tabela 1)

Esse perfil evidencia uma equipe majoritariamente feminina, experiente e submetida a jornadas prolongadas, além de, em parte, múltiplos vínculos empregatícios. Tais características podem intensificar as exigências físicas e emocionais do ambiente cirúrgico, contribuindo para o desgaste ocupacional e para o sofrimento psíquico identificado nas categorias analíticas do estudo.

A análise qualitativa das falas possibilitou a construção de duas categorias temáticas: (1) Demandas e intercorrências que afetam a rotina da assistência de enfermagem no centro cirúrgico e (2) Alterações sociocognitivas e comportamentais da equipe de enfermagem no centro cirúrgico.

Categoria 1: Demandas e Intercorrências que afetam a rotina na assistência de enfermagem no Centro Cirúrgico

Conforme descrito por Holanda e Sousa8, o CC constitui um ambiente de alta complexidade, no qual os profissionais de enfermagem devem atuar com elevada exigência e cautela, devido à dinâmica do setor que demanda atenção constante e rigor técnico. A equipe de enfermagem assume grande responsabilidade no cuidado ao paciente, o que a torna particularmente suscetível ao estresse ocupacional. Diversas demandas presentes nesse contexto podem contribuir para o adoecimento mental ou impactar negativamente a vida profissional dos colaboradores.

A prestação de assistência aos pacientes, tanto direta quanto indireta, requer cuidados minuciosos, exigindo que os profissionais possuam capacitação adequada para minimizar a ocorrência de erros. Entretanto, dada a complexidade inerente ao ambiente do CC, a ocorrência de intercorrências é quase inevitável. A necessidade de agilidade e eficiência imposta pelo setor gera demandas elevadas e cobranças constantes, que envolvem atenção redobrada, coordenação de equipes, cuidados contínuos ao paciente e rapidez na execução dos procedimentos, conforme enfatizado por Goras et al.9.

P12: Já passamos por diversas intercorrências relacionadas ao paciente, relacionadas ao comportamento e intercorrências relacionadas aos equipamentos. As demandas são complexas e delicadas.

P3: Já passamos por diversas intercorrências... Temos que manter a calma, essas situações no cotidiano ajudam a sobrecarregar a equipe, devido a ficarem frequentemente em alerta para assim ajudar o paciente na melhor forma possível.

As intercorrências recorrentes no cotidiano do CC exigem que os profissionais permaneçam em estado constante de alerta, preparados para atuar de maneira rápida e segura. Segundo Gulen e Yildiz10, situações que envolvem elevado grau de preocupação e a necessidade de preparação para eventos críticos intensificam a sobrecarga do profissional. Consequentemente, a vigilância contínua gera um estado persistente de estresse, aumentando a probabilidade de fadiga ocupacional e de ocorrência de erros durante a prática assistencial.

P18: [...] Mas é a pressão mesmo da equipe médica, se a gente não se controlar, não tiver conhecimento, precisa ter conhecimento, isso realmente abala […].

P15: As sobrecargas dos médicos por exigências, isso acaba exigindo um pouco mais mentalmente da gente, porque não deve ter erros durante a cirurgia, instrumentação. Preocupação, porque a gente tem que ficar muito atento e isso exige bastante da gente [...].

Apesar das demandas de alta eficiência enfrentadas pela equipe de enfermagem durante suas atividades laborais, surgem imprevistos relacionados ao setor ou aos próprios colaboradores. Torna-se necessário gerenciar diferentes posturas e atitudes frente aos procedimentos, como a preparação da sala cirúrgica e do paciente, de modo a assegurar a qualidade da assistência prestada, tanto ao paciente quanto à equipe, considerando o papel essencial da enfermagem na organização do CC11.

Durante a execução dessas múltiplas demandas, a equipe de enfermagem enfrenta situações que podem exercer impacto negativo sobre sua saúde mental, manifestando-se por meio de estresse, ansiedade, fadiga e desgaste emocional. Os dados coletados nesta pesquisa evidenciam que tais situações são frequentes e resultam de fatores como pressões por resultados imediatos, complexidade das rotinas assistenciais, intercorrências imprevisíveis e desafios na comunicação interpessoal. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias institucionais que promovam o suporte psicológico, a valorização do bem-estar dos profissionais e a mitigação de fatores estressores no ambiente de trabalho.

Além das demandas laborais no CC, a presença de múltiplos vínculos empregatícios e a dupla jornada de trabalho emergem como fatores significativos de sobrecarga, especialmente entre as profissionais do sexo feminino. Muitas destas profissionais também assumem responsabilidades domésticas e familiares, acumulando tarefas que contribuem para a exaustão física e emocional, aumentando os níveis de estresse e fadiga crônica. Estudos indicam que a sobreposição de jornadas profissionais e familiares eleva a vulnerabilidade a transtornos psicossociais, comprometendo a saúde mental e a qualidade da assistência prestada12,13.

P5: [...] Cobranças desnecessárias e excessivas [...] Indiferença, em todos os sentidos, indiferença com paciente, indiferença entre os colegas de equipe e a falta de comunicação.

P14: […] Falta de compromisso pode gerar uma sobrecarga emocional, física [...].

Nesse contexto, observa-se que os profissionais de enfermagem evidenciam sinais claros de desgaste, resultantes não apenas das sobrecargas laborais, mas também das interações interpessoais presentes na equipe. As divergências geradas por discordâncias, demandas concorrentes e exigências do ambiente de trabalho contribuem significativamente para a intensificação do estresse ocupacional, o que pode comprometer a qualidade da assistência prestada aos pacientes e afetar o bem-estar dos profissionais14.

Esses achados podem ser relacionados às diretrizes da NR-1, que prevê a identificação e mitigação de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo sobrecarga, pressão por resultados, exigência de alta atenção e conflitos interpessoais. A exposição contínua a essas condições no CC caracteriza um cenário de risco à saúde mental, sendo necessário que instituições promovam estratégias de prevenção, suporte psicológico e organização do trabalho que atendam às recomendações da norma15,16.

P8: Os constantes desgastes com as situações que são sinalizadas no serviço: rotina, para as quais não são dadas as devidas importâncias, quando estamos em cirurgias sozinhos, que é de grande porte, e precisamos de ajuda, quando todo mundo está querendo colocar o paciente na sala, e é só um dos técnicos nas salas para atender todos […]. Isso são situações desgastantes e que deixam a gente extremamente estressados […].

No CC, determinados procedimentos exigem execução imediata devido aos riscos potenciais à vida do paciente. Entretanto, podem ocorrer obstáculos que comprometem a realização dessas atividades no tempo adequado, tais como insuficiência de colaboradores, atrasos nas cirurgias, falhas na comunicação e falta de organização quanto às demandas provenientes de outros setores. Nesse contexto, torna-se essencial a integração entre os diferentes setores e o gerenciamento eficiente das rotinas de assistência pela equipe de enfermagem, a fim de minimizar o desgaste físico e mental dos profissionais17.

P9: Quando não flui o serviço: ausência de funcionários, atrasos de cirurgia e discordância da equipe [...] Às vezes, há a concordância, mas alguém sempre chega com uma discordância.

P16: […] Demanda dos outros setores em relação à gente [...] se lá atrasa, aqui também, isso, às vezes, me estressa.

A enfermagem desempenha papel central no funcionamento e na organização do CC, assumindo responsabilidades cruciais para a coordenação das atividades, a segurança do paciente e a continuidade da assistência. No entanto, essa posição estratégica expõe os profissionais a condições que favorecem o desgaste físico e mental, resultante das dinâmicas intensas do serviço, das exigências constantes e das rotinas extenuantes características desse ambiente de trabalho. Esse contexto exige atenção permanente, rapidez na tomada de decisões e capacidade de adaptação diante de intercorrências, fatores que, cumulativamente, potencializam o risco de estresse ocupacional, fadiga crônica e comprometimento do bem-estar psicológico18.

Categoria 2: Alterações sociocognitivas comportamentais da equipe de enfermagem no centro cirúrgico

No ambiente do CC, a ocorrência de situações críticas é frequente, exigindo dos profissionais de enfermagem intensa atenção psicológica e física. Tais demandas podem estar associadas ao surgimento de sintomas que provocam alterações sociocognitivas e comportamentais, impactando diretamente o desempenho e o bem-estar da equipe19.

Os dados coletados nesta pesquisa indicam que essas alterações são frequentemente desencadeadas pelas exigências contínuas e pela complexidade das atividades diárias do setor, evidenciando a necessidade de estratégias institucionais voltadas à mitigação do estresse ocupacional e à preservação da saúde mental dos profissionais.

Entre as alterações observadas, destaca-se a má qualidade do sono, especialmente entre os profissionais que atuam em turnos noturnos no CC. A privação de repouso adequado resulta em sobrecarga cognitiva, comprometendo a capacidade de atenção, concentração e tomada de decisão, fatores essenciais para a segurança do paciente e eficiência das atividades. Essa deficiência de sono contribui significativamente para o desgaste da saúde mental dos profissionais, aumentando níveis de estresse, fadiga e vulnerabilidade a erros.

Estudos indicam que a sonolência e a redução do estado de alerta elevam em aproximadamente duas vezes a probabilidade de ocorrência de falhas durante a prática assistencial, reforçando a necessidade de estratégias institucionais que promovam melhores condições de descanso e adaptação do trabalho em turnos20.

P13: O sono prejudica a saúde mental devido a não termos um espaço adequado... Não dá para descansar, então isso afeta a saúde mental, sabemos que o sono prejudica.

Observa-se que a comunicação eficiente dos profissionais de enfermagem no CC é um elemento essencial para garantir a condução segura dos procedimentos e reduzir divergências durante a prática assistencial. A clareza na transmissão de informações, a coordenação entre os membros da equipe e o alinhamento de tarefas contribuem diretamente para a segurança do paciente e para a eficiência do trabalho.

No entanto, a pesquisa evidencia a existência de lacunas nas relações interpessoais, que podem se manifestar como falhas na comunicação, conflitos ou desentendimentos entre os profissionais. Tais déficits comunicativos têm potencial para gerar eventos adversos, comprometer a qualidade da assistência e sobrecarregar os profissionais, interferindo negativamente na saúde mental. Assim, a ausência de processos comunicativos adequados torna-se um fator relevante de estresse ocupacional, contribuindo para o adoecimento mental da equipe de enfermagem e ressaltando a necessidade de estratégias institucionais voltadas à melhoria da comunicação e ao fortalecimento do trabalho em equipe21.

P2: A falta de comunicação, porque, às vezes, tem um procedimento cirúrgico a ser realizado e é suspenso, a cirurgia, e colocam outra. Já está com o material preparado para aquela cirurgia, aí já pedem outro material pra fazer outro procedimento. Isso acaba dificultando a nossa situação, mas tudo acaba sendo resolvido.

O impacto psicológico observado entre os profissionais de enfermagem decorre de um processo de adoecimento que frequentemente é sutil e pouco perceptível a curto prazo, dificultando a sua identificação. Comportamentos como estresse persistente, irritabilidade frequente e falhas na comunicação refletem a sobrecarga contínua e contribuem para o desenvolvimento de adoecimento mental. Tal quadro decorre da exposição constante a fatores estressantes próprios do setor, caracterizando um desgaste psicológico acumulativo que afeta não apenas o bem-estar dos profissionais, mas também a qualidade da assistência prestada aos pacientes5.

P3: […] Quando me estresso, falam... às vezes, a rotina, às vezes, a gente tá muito atarefada e acaba se estressando.

O estudo de Madrid, Kotekewis e Glanzner22evidencia que os riscos psicossociais no ambiente de trabalho vêm se intensificando, refletindo no aumento do estresse ocupacional e do desgaste emocional entre os profissionais de enfermagem. Os participantes demonstraram reconhecer a relevância da saúde mental, adotando estratégias de autorregulação emocional para lidar com as pressões psicológicas inerentes às demandas laborais.

P12: Mesmo com os problemas, a gente tem que ter postura, não passar para a equipe que está estressado. Lógico que tem momentos que a gente desaba, mas a gente desaba assim, só tu, ou em algum lugar com um colega, mas, assim, entre a equipe, tem que manter a postura como profissional calmo, senão acaba que tu vais passar pra eles, aí os processos, o serviço não vão andar. [...] No momento é a questão estrutural, porque estamos passando por várias reformas, acaba que não nos concentramos. Barulho causa estresse, com mais o estresse do trabalho.

Destaca-se que os relatos dos profissionais de enfermagem do CC evidenciam alterações comportamentais importantes, associadas a estressores psicossociais e físicos presentes no ambiente de trabalho. Esses fatores incluem pressão constante por resultados imediatos, alta complexidade das rotinas assistenciais, demandas simultâneas, intercorrências frequentes e fragilidades na comunicação interpessoal. Tais condições podem resultar não apenas em afastamento temporário ou prolongado das atividades laborais, mas também em dificuldades na interação e na cooperação entre os membros da equipe, comprometendo a eficiência do trabalho coletivo.

Além disso, a exposição contínua a essas situações estressantes favorece o desenvolvimento de sofrimento mental, podendo se manifestar por meio de ansiedade, irritabilidade, fadiga crônica, desmotivação e outros sinais de desgaste psicológico, evidenciando a necessidade de estratégias institucionais que promovam a saúde mental e o bem-estar dos profissionais23.

Considerações finais

Os achados deste estudo evidenciam que o trabalho desenvolvido pela equipe de enfermagem no CC é caracterizado por elevada carga de estresse e exaustão, decorrente da constante busca pela segurança do paciente e pela humanização da assistência. As adversidades de natureza interpessoal, aliadas à complexidade das rotinas assistenciais e à pressão por resultados imediatos, potencializam o adoecimento mental, manifestando-se por meio de estresse crônico, sobrecarga de atividades, demandas simultâneas e intercorrências frequentes, comprometendo tanto o bem-estar físico e psicológico dos profissionais quanto a qualidade do cuidado prestado.

Além disso, observa-se que a fragilidade na comunicação entre equipes, a necessidade de coordenação de múltiplos processos e a exposição contínua a situações críticas configuram um cenário de risco para a saúde mental. Esse contexto evidencia que estratégias institucionais direcionadas à promoção da saúde ocupacional e ao suporte emocional são imprescindíveis, incluindo programas de prevenção ao estresse, capacitação em gerenciamento de conflitos e ações de valorização profissional que reconheçam a complexidade do trabalho realizado.

Ademais, a reflexão sobre o impacto do ambiente laboral no bem-estar dos profissionais aponta para a importância de um olhar holístico, que considere não apenas os aspectos técnicos da assistência, mas também as dimensões psicossociais e organizacionais do serviço. Dentro do CC, práticas de enfermagem seguras são primordiais. Portanto, a implementação de políticas de suporte ao trabalhador e a criação de ambientes de trabalho humanizados são imprescindíveis. Por fim, os achados desta pesquisa reforçam a necessidade de maior conscientização sobre a relevância da saúde mental na rotina do CC, incentivando gestores, profissionais e instituições a adotarem medidas efetivas que preservem o bem-estar da equipe e fortaleçam a qualidade da assistência prestada.

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  • Informação sobre trabalho acadêmico:
    Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso das autoras Brenda Lanai Reis do Carmo, Rafaela dos Santos Rosa e Suziani Pinheiro Barroso, intitulado “Saúde Mental da Equipe de Enfermagem no Centro Cirúrgico: Fatores Estressores”, apresentado em 2024 ao Curso de Enfermagem da Universidade da Amazônia.
  • Disponibilidade de dados:
    O conjunto de dados que dá suporte a este estudo não está disponível publicamente por conter informações que comprometem a privacidade dos participantes da pesquisa.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
  • Declaração sobre o uso de inteligência artificial:
    Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial.
  • Financiamento:
    Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Set 2025
  • Revisado
    06 Nov 2025
  • Aceito
    14 Nov 2025
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