Resumo
Objetivo Descrever a prevalência de estressores do trabalho doméstico não remunerado (TDNR) e da sobrecarga doméstica, com ênfase nas diferenças de gênero.
Métodos Estudo transversal de base domiciliar, com moradores ≥ 15 anos de idade, de Feira de Santana, Bahia. Os estressores do TDNR, avaliados pelo modelo desequilíbrio esforço-recompensa no trabalho doméstico e familiar (DER-doméstico), e a sobrecarga doméstica foram estratificados por gênero.
Resultados Participaram 3.622 indivíduos, sendo 70,2% mulheres. A prevalência de alta sobrecarga doméstica foi 34,4% e de alto DER-doméstico, 34,0%, ambas maiores entre mulheres. A alta sobrecarga doméstica, em ambos os gêneros, associou-se a: baixa renda, cuidar de crianças, fazer pequenos consertos, compras, planejar a organização da casa, comprometimento excessivo com o TDNR e não ser chefe de família. Apenas entre as mulheres, foram associados à alta sobrecarga doméstica: menor idade, ter parceiro, ter filhos, tempo dedicado às atividades domésticas e não compartilhar tarefas. Em homens, ter parceira, ter filhos e baixa escolaridade reduziu o desequilíbrio. Em mulheres, o alto DER-doméstico associou-se à menor idade e renda, trabalho remunerado, maior carga horária semanal, fazer pequenos consertos, cuidar de crianças e idosos.
Conclusões O TDNR incide desproporcionalmente sobre as mulheres jovens e de baixa renda.
Palavras-chave:
Estresse Ocupacional; Trabalho Doméstico; Ambiente Domiciliar; Gênero; Saúde do Trabalhador
Abstract
Objective To describe the prevalence of stressors from unpaid domestic work (UNDW) and domestic overload, with an emphasis on gender differences.
Methods This was a cross-sectional, household-based study of residents aged ≥ 15 years in Feira de Santana, Bahia. UNDW stressors, assessed by the effort-reward imbalance model in domestic and family work (ERI-domestic), and domestic overload were stratified by gender.
Results 3,622 individuals participated, of whom 70.2% were women. The prevalence of high domestic overload was 34.4% and of high ERI-domestic was 34.0%, higher among women. In both genders, high domestic owerload was significantly associated with: low income, caring for children, doing small repairs, shopping, planning the organization of the home, excessive commitment to UNDW, and not being head of the household. Among women only, the following factors were associated with high domestic overload: younger age, having a partner, having children, more time dedicated to domestic activities, and not sharing tasks. For men, having a partner, children, and low schooling reduced the imbalance. In women, high ERI-domestic was associated with lower age and income, paid work, weekly workload, doing small repairs, caring for children and the elderly.
Conclusions UNDW disproportionately affects young and low-income women.
Keywords:
Occupational Stress; Domestic Work; Home Environment; Gender; Occupational Health
Introdução
Apesar dos avanços na inserção e participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres ainda enfrentam desigualdades salariais, ocupam postos laborais mais precários e subalternos, e lidam cotidianamente com os desafios de conciliar trabalho e família. Essa conciliação exige constante negociação entre as esferas produtiva e reprodutiva, uma vez que o ambiente doméstico permanece fortemente marcado por desigualdades de gênero.
O trabalho doméstico não remunerado (TDNR), histórica e culturalmente continua sendo atribuído às mulheres1. Essa responsabilização decorre de relações díspares de gênero sustentadas numa divisão sexual do trabalho2,3, com distribuição desigual das atividades, culminando em maior sobrecarga doméstica e maior dedicação aos trabalhos de cuidados às mulheres. São elas que assumem, majoritariamente, o trabalho de cuidado, as atribuições da casa, da criação e cuidado dos filhos, alimentação e afazeres domésticos, num modo de vida privado, invisibilizado e marginalizado, que contribui para manutenção de estruturas patriarcais, impactando negativamente a sua saúde física e mental1,4,5.
A invisibilidade do trabalho reprodutivo tem sido uma estratégia fundamental do sistema capitalista6 para garantir a reprodução da força de trabalho sem remunerá-lo ou reconhecê-lo como trabalho propriamente dito. Desta forma, o TDNR, ainda que indispensável à manutenção da vida e da sociedade, permanece fora das estatísticas econômicas formais6,7. Essa omissão revela uma visão limitada do sistema produtivo, que desconsidera o papel essencial dos cuidados como componentes centrais da dinâmica econômica, e contribui para a perpetuação da ideia dessas atividades com valor meramente “afetivo”, intrínsecas às mulheres, decorrente de sua identidade de gênero, e menos valioso do que o trabalho produtivo formalmente reconhecido, em geral, executado pelos homens.
Nesse contexto, a recente aprovação da Política Nacional de Cuidados8 no Brasil, representa um avanço significativo, pois, ao reconhecer institucionalmente a centralidade do cuidado para a sociedade e para a economia, sinaliza uma mudança no olhar do Estado, abrindo caminho para o reconhecimento, a redistribuição e a valorização do trabalho desempenhado pelas mulheres, especialmente no âmbito doméstico e familiar. Associado à aprovação desta política, tivemos o recrudescimento da crise de cuidados no capitalismo atual, tendo como elementos centrais: inserção das mulheres no mercado de trabalho, acompanhada da elevação de seus níveis educacionais; mudanças no padrão familiar com diminuição no número de filhos, mulheres assumindo a chefia do lar, envelhecimento populacional7,9e também a pandemia da covid-19 que visibilizou o papel do TDNR, evidenciando sua indispensabilidade na sustentação da vida cotidiana e na manutenção da força de trabalho10,11.
Durante a pandemia, as medidas de isolamento reordenaram a organização social e familiar. Atividades que antes podiam ser parcialmente externalizadas, passaram a ser realizadas integralmente no espaço doméstico11,12. A sobrecarga gerada recaiu predominantemente sobre as mulheres, intensificando as demandas do cuidado, impactando negativamente a saúde mental feminina e potencializou conflitos entre trabalho-família, uma vez que o trabalho remunerado foi redirecionado para os domicílios e a conciliação do home-office com as atividades do lar foi severamente intensificada10.
Todos esses elementos reacenderam o debate sobre o trabalho doméstico1,8,13, ao evidenciar demandas rotineiras e repetitivas, as responsabilidades envolvidas no cuidado dos outros e suas potenciais fontes estressoras ao demandarem tempo, carga física, psíquica e emocional, graus de responsabilidades e esforço.
Para avaliar as fontes estressoras no TDNR, Sperlich et al.14 desenvolveram um instrumento de mensuração, utilizando como referencial o modelo de desequilíbrio esforço-recompensa proposto por Siegrist15, que avalia os estressores decorrentes da desproporção entre esforços empreendidos para realizar o trabalho e as recompensas recebidas.
De modo semelhante ao modelo DER, os estressores no trabalho doméstico e familiar estão presentes a depender das relações estabelecidas entre o esforço e a recompensa. Situações de desequilíbrio (o esforço não encontra correspondência nas recompensas recebidas) desencadeiam estresse e adoecimento, o chamado de Desequilíbrio Esforço-Recompensa no trabalho doméstico e familiar (DER-doméstico)1,5.
A sobrecarga doméstica avalia outra dimensão relacionada ao TDNR, envolvendo avaliação de atividades realizadas e o grau de responsabilidade envolvido na sua execução. As atividades incluem tarefas de cozinhar, lavar, limpar e passar, avaliando o grau de responsabilidade envolvido, ponderado pelo número de pessoas na casa.
Considerando que a divisão sexual do trabalho impõe sobrecarga desproporcional às mulheres, ao mesmo tempo que exime os homens da participação mais equitativa, resultando em exposição diferenciada às fontes de tensão e pressão, o objetivo deste estudo é descrever a prevalência de estressores do TDNR e da sobrecarga doméstica, com ênfase nas diferenças de gênero.
Métodos
Desenho do estudo e contexto
Trata-se de estudo transversal, realizado entre maio de 2022 e julho de 2023, vinculado ao projeto de pesquisa “Vigilância em Saúde Mental e Trabalho: uma coorte da população de Feira de Santana-BA” - município do estudo situado a 108 quilômetros da capital da Bahia, Salvador. A cidade é a segunda mais populosa do estado, com uma população estimada, em 2022, de 616.272 pessoas16, com intenso crescimento populacional, potencializado pela sua posição geográfica, de entroncamento rodoviário e importante eixo rodoviário do país, responsável por intenso processo migratório. A proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 22,8%16, denotando parcela importante da população desempregada e/ou com empregos informais.
Tamanho do estudo
O tamanho amostral foi calculado no software OpenEpi (https://www.openepi.com). Considerou-se a população urbana de Feira de Santana, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)16, estimada em 620.000 habitantes, prevalência de DER-doméstico de 33,7%1, erro amostral de 3%, intervalo de confiança de 95%, obtendo-se uma amostra de 952 indivíduos. Admitindo-se recusas e perdas em torno de 20%, definiu-se o tamanho da amostra mínima de 1.143 indivíduos e cálculo de pesos amostrais. Como procedimento de amostragem complexa, foi aplicado um efeito de desenho (deff) igual a 2 para compensar a perda de precisão decorrente da estrutura do plano amostral. Assim, o tamanho amostral mínimo estimado foi de 2.286 participantes. Ao final, a amostra foi composta por 3.872 indivíduos. Destes, foram excluídos os participantes autodeclarados indígenas e amarelos, em razão da baixa representatividade desses grupos na amostra (n = 250). Assim, a análise concentrou-se em um total de 3.622 indivíduos.
Participantes
A amostragem foi aleatória, por conglomerados, estratificada com base em área geográfica do município, conforme dados do IBGE16, definida em três estágios sucessivos: subdistrito, setores censitários e ruas considerando: a) determinação do percentual representativo da população por subdistrito; b) definição do percentual de indivíduos por subdistrito; c) listagem e seleção aleatória dos setores censitários pertencentes a cada subdistrito; d) seleção aleatória das ruas a serem incluídas/setor censitário selecionado; e) inclusão de todos os domicílios nas ruas sorteadas; f) indivíduos com 15 anos ou mais de idade, residentes nos domicílios sorteados foram elegíveis para a amostra.
Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada em entrevista face a face nos domicílios, por entrevistadores previamente selecionados e treinados.
Foram utilizados dois instrumentos: questionário domiciliar com dados gerais sobre o domicílio e seus residentes; e questionário individual - aplicado a cada morador elegível – de caráter multidimensional, do qual foram extraídos, para este estudo, os dados relativos a: características sociodemográficas, do TDNR e do trabalho remunerado.
Variáveis
Os estressores do TDNR foram avaliados pela escala do DER-doméstico14que foi traduzido, adaptado e validado no contexto brasileiro5. Tal escala inclui 23 itens, que avaliam três dimensões: esforço (oito itens), recompensa (11 itens) e comprometimento excessivo com o trabalho doméstico (quatro itens). As respostas são mensuradas em escala tipo Likert (varia de 1-discordo fortemente a 4-concordo fortemente). Os escores de desequilíbrio foram estimados pela equação: (Esforço)/(Recompensa x fator de correção). O fator de correção é aplicado em função da diferença de itens das dimensões envolvidas. O DER-doméstico foi classificado em baixo (< 3º tercil) e alto (≥ 3º tercil).
A sobrecarga doméstica é um indicador originalmente proposto por Tierney, Romito e Messing17 e adaptado ao contexto brasileiro por Aquino18. O seu cálculo se baseia no somatório de quatro tarefas domésticas básicas (lavar, passar, limpar, cozinhar), multiplicado pelo número de moradores do domicílio (M), excluindo o(a) próprio(a) entrevistado(a)4,18.
Cada tarefa é avaliada por uma escala do tipo likert, com variação de 0 (não faz) a 4 (faz inteiramente). O escore total de sobrecarga doméstica é obtido pela fórmula: SD=(lavar+passar+limpar+cozinhar) x (M-1)4. Os escores posteriormente foram dicotomizados em dois níveis de sobrecarga doméstica: baixa (< 3º tercil) e alta (≥ 3º tercil).
A caracterização sociodemográfica e econômica incluiu: gênero (homens, mulheres), faixa etária (< 40 anos, ≥ 40 anos), situação conjugal (sem parceiro(a), com parceiro(a)), raça/cor (branca, parda, parda), escolaridade (alta - ensino médio ou mais, baixa - até ensino fundamental completo), renda per capita (< 1, ≥ 1 salário mínimo), condição na família (não chefe, chefe) e filhos (sim, não). Também foram consideradas características do trabalho remunerado: emprego (sim, não), número de dias trabalhados por semana (≤5, >5) e carga horária semanal (≤40, >40) e do TDNR: cuidado com crianças com até 10 anos (sim, não), cuidado de idosos ou pessoas com deficiência (sim, não), realização de pequenas tarefas (sim, não), compras (sim, não), planejamento doméstico (sim, não) e horas semanais dedicadas (≤ 20, >20). Além disso, avaliou-se o recebimento de ajuda (sim, não) e o comprometimento excessivo com atividades domésticas (dimensão componente da escala DER-doméstico (sim, não).
Controle de vieses
Para garantir a padronização das técnicas de coleta e reduzir vieses de informação, os entrevistadores foram treinados e houve uso de instrumentos padronizados, adaptados e validados para o contexto brasileiro. Com o intuito de diminuir possíveis perdas, e minimizar viés de seleção, cada domicílio foi visitado até três vezes. A análise dos dados considerou o desenho amostral complexo.
Análise dos dados
As análises dos dados foram conduzidas com apoio do Software for Statistics and Data Science (Stata®), versão 15.0, com aplicação do módulo survey para o processamento de ponderação para amostragens complexas.
Inicialmente, foi realizada análise descritiva para caracterização da amostra, com o cálculo de frequências absolutas, relativas e seus intervalos de confiança (IC) de 95%. O perfil de distribuição dos estressores ocupacionais e da sobrecarga doméstica foi feito considerando as características sociodemográficas, TDNR e trabalho remunerado. Foram estimadas as frequências do DER-doméstico e da sobrecarga doméstica em cada grupo de interesse, com respectivos IC95%. Teste qui-quadrado de Pearson com correção de Rao-Scott, com significância estatística de 5% foram aplicados.
Considerações éticas
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana (CEP-UEFS), CAAE nº 74792617.4.0000.0053, em 6 de junho de 2020. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE), se menores de 18 anos.
Resultados
Na amostra (n = 3.622), predominaram mulheres (70,2%), maiores de 40 anos de idade (70,1%), sem parceiro(a) (57,5%), pardos (52,1%), baixa escolaridade (74,3%) e renda até um salário mínimo (80,1%). Mais da metade das pessoas informaram ser chefes de família (54,1%) e a maioria tinha filhos (76,9%). Pouco mais de um terço (38,3%) referiu ter trabalho remunerado, dentre os quais 51,6% trabalhavam seis ou sete dias por semana e 34,0% trabalhavam mais de 40 horas semanais (dados não apresentados em tabelas).
As atividades domésticas mais frequentes foram: fazer feira/compra de supermercado (78,7%), planejar/organizar as tarefas de casa (74,5%), fazer pequenos consertos (44,3%) e cuidar de crianças até 10 anos de idade (26,5%). Dedicação de 20 horas semanais ou mais às atividades domésticas foi relatada por 41,4%. Mais da metade referiu não receber ajuda no trabalho doméstico (60,8%) e o comprometimento excessivo com o trabalho doméstico foi observado em 36,3% (dados não apresentados em tabelas).
A prevalência de alta sobrecarga doméstica foi 34,4%, maior entre as mulheres (44,9% contra 8,8% para os homens; p < 0,001). A análise bruta estratificada por gênero evidenciou maiores frequências de alta sobrecarga doméstica entre as mulheres, em todos os estratos analisados (Tabelas 1 e 2).
Entre os homens, a alta sobrecarga doméstica apresentou maiores frequências entre aqueles com menor renda (13,7%, p < 0,001), não chefes de família (12,3%, p = 0,016), que cuidavam de crianças até 10 anos (18,7%, p < 0,001), faziam pequenos consertos (11,3%, p = 0,031), faziam feira/compras de supermercado (12,1%, p < 0,001), planejavam e organizavam as tarefas da casa (15,8%, p < 0,001) e apresentavam comprometimento excessivo com o trabalho doméstico (22,1%, p = 0,023) (Tabelas 1 e 2).
Entre as mulheres, maiores frequências de sobrecarga doméstica foram observadas entre as mais jovens (57,8%; p < 0,001), com parceiros (59,1%, p < 0,001), renda de até um salário-mínimo (51,7%, p < 0,001), não eram chefe de família (55,3%, p < 0,001) e tinham filhos (48,9%, p < 0,001) (Tabela 1).
Com relação às atividades domésticas, cuidar de crianças até 10 anos (74,0%, p < 0,001), fazer pequenos consertos (51,5%, p = 0,002), fazer feira/compra de supermercado (48,1%, p < 0,001), planejar e organizar as tarefas da casa (48,4%, p < 0,001), dedicar mais que 20 horas semanais às atividades domésticas (52,3%, p = 0,006), não receber ajuda (49,4%, p = 0,011) e comprometimento excessivo com o trabalho doméstico (57,6%, p < 0,001) foram significativamente associados à alta sobrecarga doméstica (Tabela 2).
O alto DER-doméstico esteve presente em 34,0% da população, com maior prevalência (p < 0,001) entre as mulheres (41,5%) em relação aos homens (14,2%). Entre as mulheres, observaram-se maiores prevalências de alto DER-doméstico em todos segundo todas as categorias das variáveis analisadas (Tabelas 3 e 4).
Ao avaliar a distribuição de alto DER-Doméstico entre os homens, a ocorrência de desequilíbrio foi significativamente maior entre aqueles sem parceira (20,8%, p = 0,001), com alta escolaridade (25,3%, p < 0,001), sem filhos (22,1%, p = 0,003), que planejavam e organizavam tarefas da casa (17,9%, p = 0,014) e relataram comprometimento excessivo com o trabalho doméstico (42,2%, p < 0,001) (Tabelas 3 e 4).
Entre as mulheres, o DER-doméstico foi mais prevalente entre jovens, com idade inferior a 40 anos (47,0%, p = 0,017), renda até um salário mínimo (44,5%, p = 0,005), com trabalho remunerado (52,4%, p < 0,001) e jornadas acima de 40 horas semanais (63,0%, p<0,001). Houve predomínio de alto DER-doméstico entre aquelas que cuidavam de crianças até 10 anos (51,7%, p < 0,001), de pessoas idosas, doentes ou com necessidades especiais (62,7%, p < 0,001), faziam pequenos consertos (45,9%, p = 0,042), planejavam e organizavam tarefas da casa (42,9%, p < 0,001) e apresentavam comprometimento excessivo com o trabalho doméstico (66,0%, p < 0,001) (Tabelas 3 e 4).
A análise estratificada por gênero revelou diferenças na frequência da alta sobrecarga doméstica entre homens e mulheres, refletindo persistências nas desigualdades na divisão do trabalho não remunerado. Para ambos, a frequência de alta sobrecarga doméstica foi significativamente maior entre as pessoas com renda inferior a um salário-mínimo, que não eram chefes da família, cuidavam de crianças e realizavam pequenos consertos e atividades como fazer feira/compra de supermercado. Entre as mulheres, observaram-se maiores frequências de sobrecarga doméstica entre as mais jovens, com filhos, com parceiros, que não recebiam ajuda nas demandas domésticas e que dedicavam mais tempo às atividades domésticas (Quadro 1).
Síntese de análise comparativa das variáveis associadas estatisticamente à alta sobrecarga doméstica (SD) e ao alto desequilíbrio esforço/recompensa no trabalho doméstico e familiar (DER), estratificada por gênero. Feira de Santana, Bahia, Brasil, 2023
Quanto ao alto DER-doméstico, os dados analisados revelam diferenças de gênero marcantes. Para os homens, a frequência de alto DER-doméstico foi maior naqueles sem parceira, sem filhos e com alta escolaridade. Para as mulheres, foi maior naquelas mais jovens, com menor renda per capita, jornada de trabalho remunerado e carga horária semanal no trabalho produtivo, responsabilidade por cuidar de crianças e por cuidar de idosos/pessoas doentes ou com necessidades especiais e realização de pequenos consertos (Quadro 1).
Discussão
Alta sobrecarga doméstica e alto DER-Doméstico foram mais elevados entre as mulheres, mais jovens e de baixa renda, reiterando uma divisão sociossexual do trabalho, na qual sexo/gênero e condições sociais estruturam as relações de trabalho. Disso decorrem padrões de desigualdades, perpetuando um modelo de organização patriarcal das famílias, com um sistema social que vincula estereótipos de gênero a uma distribuição desigual de trabalho doméstico, conforme já descrito na literatura1,4,19,20.
Para sintetizar, algumas questões merecem destaque entre os achados do estudo:
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Na população estudada, observaram-se diferenças na frequência de alta sobrecarga doméstica e alto DER-doméstico segundo características sociodemográficas, do trabalho remunerado, bem como dos afazeres domésticos e/ou cuidados envolvendo a família.
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Entre os homens, a frequência da alta sobrecarga doméstica e do alto DER foi maior em dois grupos: os que relataram planejar e organizar as tarefas da casa e exibir comprometimento excessivo com as demandas domésticas.
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Entre as mulheres, contudo, os fatores foram tanto de ordem sociodemográfica (ser jovem e de baixa renda) quanto do TDNR (fazer pequenos consertos, cuidar de crianças, planejar e organizar as tarefas da casa e ter um alto comprometimento excessivo com essas tarefas).
Indivíduos com menor renda apresentaram maiores frequências de alta sobrecarga doméstica e alto DER-doméstico, achado consistente com outros estudos que relacionam baixa renda com impossibilidade de terceirização das tarefas domésticas4,13,21. Essa restrição intensifica os estressores do trabalho reprodutivo: maior carga de trabalho, maiores jornadas, menor valorização e menor reconhecimento, aumento dos estressores ocupacionais, especialmente entre as mulheres13,22,23.
Observou-se maior prevalência de sobrecarga doméstica nas pessoas que não eram chefes de família, em ambos os gêneros. Esse achado pode ser explicado, em parte, pelo fato de que indivíduos que não exercem chefia familiar tendem a ter menor inserção no mercado de trabalho formal ou ter ocupações mais precárias, aumentando sua disponibilidade de tempo para demandas domésticas. Ou seja, a posição de chefia familiar está associada ao papel de provedor(a) e tomador(a) de decisões no contexto doméstico, o que frequentemente amplia a legitimidade social para a não realização das tarefas domésticas4,17,18,21. Ainda que essa dinâmica varie conforme gênero, classe e a organização familiar, ela apresenta padrão recorrente: o status de provedor(a) funciona como justificativa simbólica e prática para a divisão desigual do trabalho doméstico. Tal configuração reforça a hipótese de que a sobrecarga doméstica reflete desigualdades de gênero e assimetrias de poder nas relações familiares2,24.
Evidências empíricas4,13,21 corroboram esse padrão, indicando que não ser chefe de família está associado a maior envolvimento nas atividades domésticas, em função de menor poder de negociação e de maior vulnerabilidade econômica. No contexto brasileiro, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 202413mostram que a média semanal de horas dedicadas a tarefas domésticas e de cuidado é significativamente maior entre pessoas desempregadas ou fora do mercado de trabalho – 10 horas a mais de diferença para as mulheres - quando comparadas àquelas ocupadas (17,8 h para mulheres e 11h para os homens)13.
Homens com maior escolaridade apresentaram maior DER-doméstico, reforçando estudos que indicam o quanto a educação influencia positivamente a atitude masculina frente às tarefas domésticas20,25. Para os homens, quanto menor a escolaridade, menor a participação nas atividades domésticas e entre as mulheres ocorre o inverso: menor participação no trabalho doméstico à medida que aumenta a escolaridade9,21,25. Estudo realizado na Alemanha28 aponta que a escolaridade das mulheres apresenta associação mediada pelo estresse relacionado à baixa recompensa.
Nessa perspectiva, a Pnad de 202413 revelou que mulheres com maior escolaridade dedicavam em média 22,6 horas semanais aos afazeres domésticos, valor inferior à média de 27,8 horas observada entre mulheres com menor escolaridade, sugerindo a escolaridade como um fator de mitigação da sobrecarga doméstica.
Essa tendência pode refletir várias dinâmicas interligadas: mulheres com maior escolaridade tendem a ter melhores oportunidades de emprego remunerado, reduzindo o tempo de trabalho doméstico e/ou possibilitando a contratação de ajuda externa13,21,23; além disso, podem dispor de maior poder de negociação no arranjo doméstico, viabilizando divisão mais equitativa ou delegação de tarefas. Ressalta-se, portanto, que essa redução do tempo doméstico não necessariamente reflete maior equidade de gênero no âmbito familiar, mas pode indicar que mulheres com maior renda e escolaridade terceirizam parte do trabalho doméstico, transferindo sobrecarga para mulheres de menor escolaridade ou renda.
Em relação à idade, observou-se maior sobrecarga doméstica e DER-doméstico apenas entre as mulheres mais jovens (<40 anos), especialmente entre 25 e 39 anos, devido a múltiplas demandas simultâneas dessa fase da vida: carreira, filhos pequenos e vida conjugal representando, portanto, a fase do pico do acúmulo de papéis sociais13,21,29.
Nessa fase, é comum a internalização de expectativas culturais (“boa mãe”, “mulher ideal”), particularmente afetadas por uma sobreposição de exigências: consolidação da vida profissional, formação de família, maternidade e manutenção do lar; levando muitas mulheres jovens a reproduzirem padrões tradicionais de dedicação total, levando a maior comprometimento com o cuidado familiar e risco de sofrimento psíquico1,14,26,30.
A presença de filhos contribuiu expressivamente para a alta sobrecarga doméstica entre as mulheres, enquanto para os homens houve redução do DER-doméstico pela percepção de reconhecimento dos filhos (merecimento, afeto) e/ou divisão dos afazeres domésticos com eles4,21,26. Casais com filhos têm cargas de trabalho mais altas e menos igualitárias em termos de gênero, assinalando disparidade de sobrecarga e tempo dedicados pelas mães31. Alguns estudos sinalizam, inclusive, a reprodução da divisão sexual do TDNR desde cedo, com meninas de 10 a 14 anos8,13,25.
Cuidar de crianças aumenta o volume das tarefas avaliadas no indicador de sobrecarga doméstica e confirma relação consistente para alta sobrecarga doméstica em ambos os gêneros e alto DER-doméstico entre as mulheres1,4,12,18. Sabe-se que a presença de filhos amplia o tempo gasto no trabalho doméstico, sendo que o impacto nas jornadas reprodutivas das mulheres é o dobro do encontrado para os homens13,21; consoante com os estudos12,22,25,26,31 que evidenciam que a presença de filhos, além de ampliar as desigualdades de gênero, reduz a participação feminina no mercado de trabalho25,29.
O cuidado de idosos, doentes ou pessoas com necessidades especiais também ampliou a alta sobrecarga doméstica entre as mulheres, relacionado à disponibilidade de tempo e maior demanda por trabalho reprodutivo. A ausência ou precariedade de serviços públicos de cuidado faz com que a responsabilidade recaia sobre mulheres – frequentemente negras – ou até crianças e adolescentes, perpetuando a desigualdade de gênero8.
A presença de parceiros revelou uma diferença: a presença de alta sobrecarga doméstica é maior entre mulheres com companheiros, enquanto homens com parceiras apresentam menor DER-doméstico – refletindo padrões de desigualdades persistentes na divisão do trabalho doméstico, como observado em outros estudos8,13,21,23que sinalizam essa relação, especialmente em contextos heteronormativos27,32.
O casamento tende a atuar como um potencializador de sobrecarga e estressores ocupacionais para mulheres; enquanto que, para os homens, tem efeito protetor21,23,26. A realização das tarefas domésticas pelos homens só se equipara à observada entre as mulheres quando o homem vive sozinho21,25.
Apesar das transformações nos modelos familiares e da crescente valorização da paternidade ativa, a participação masculina ainda é limitada, e a ausência de divisão equitativa das tarefas domésticas desponta como um fator determinante para a alta sobrecarga doméstica enfrentada pelas mulheres, de modo que não compartilhar essas responsabilidades esteve associado à alta sobrecarga doméstica. Dados na literatura4,23 apontam que mulheres com empregadas domésticas apresentaram redução de sobrecarga, chegando até 45,5%4.
Essa falta de distribuição equitativa do trabalho doméstico e o tempo (em termos de carga horária de trabalho) dedicado ao TDNR evidenciou desgaste apenas entre as mulheres. Diversos estudos13,33 apontam essa disparidade, confirmando a desigualdade de gênero na distribuição do trabalho reprodutivo, a exemplo dos dados da última Pnad (2024) na qual as mulheres dedicaram quase o dobro de tempo aos afazeres domésticos em relação aos homens (21,3 horas contra 11,7 horas)13, diferença que também persiste mesmo entre casais em que ambos trabalham em tempo integral.
Os resultados convergem para o entendimento de que a maior sobrecarga entre as mulheres, fruto da organização e da dinâmica familiar, somada aos desafios contemporâneos, resultam na difícil conciliação trabalho-família, com maior exposição aos estressores ocupacionais1,5,14,30. Atividades cotidianas, como fazer feira/compra de supermercado e pequenos consertos, foram evidenciadas, corroborando com pesquisas similares que associam essas demandas indispensáveis ao funcionamento do lar com consequentes sobrecargas18,31,34.
A literatura aponta a participação masculina mais focalizada nas atividades relacionadas ao papel de provedor/organizador de serviços. Conforme revelou a Pnad de 202413, os homens só superam as mulheres nos pequenos reparos ou na manutenção do domicílio13. Os resultados do presente estudo evidenciaram uma diferença expressiva entre os gêneros, confirmando o abismo na divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres.
O planejamento e a organização das tarefas domésticas, presentes em 74,5% da população estudada, associaram-se positivamente com alta sobrecarga doméstica e alto DER-doméstico, em ambos os sexos. Esses achados, alinhados a pesquisas anteriores4,35, indicam que essas atividades, por envolverem responsabilidade, decisões e gestão do tempo, intensificam o conflito entre trabalho e família e contribuem para a sobreposição de jornadas e aumento dos estressores ocupacionais.
Outra variável que apresentou incremento nas prevalências de alta sobrecarga doméstica e de alto DER-doméstico, em homens e mulheres, foi o comprometimento excessivo com o trabalho doméstico. Esse achado sugere que o envolvimento intensificado com essas demandas está relacionado a níveis mais elevados de sobrecarga, corroborando com estudos que vinculam não apenas à sobrecarga doméstica ou DER-doméstico, mas também ao adoecimento mental1,14,30,36,37. Deve-se considerar que, mesmo nos casos em que há uma divisão de tarefas mais igualitária, as mulheres frequentemente permanecem responsáveis pelo planejamento e gestão das tarefas domésticas, enquanto os homens assumem majoritariamente a execução. Essa carga mental adicional contribui significativamente para a sobrecarga e impacta na saúde e bem-estar das mulheres.
Esse componente constitui uma das dimensões avaliadas no DER-doméstico, mensurada a partir de itens que refletem o nível de envolvimento e comprometimento com as tarefas domésticas e familiares (esforço intrínseco), avaliando o quanto as pessoas percebem a dificuldade em se desligar de suas obrigações. Essa dimensão sustenta a hipótese de que pessoas com maior comprometimento tendem a vivenciar desequilíbrios mais intensos entre esforço e recompensa, contribuindo para o adoecimento1,5,14,36,37, com maior destaque entre as mulheres, que apresentam elevado grau de envolvimento afetivo e senso de obrigação com as tarefas domésticas, culminando em maiores níveis de sobrecarga emocional, exaustão, sofrimento psíquico e transtornos mentais somáticos1,4,14,30,35.
O envolvimento excessivo no trabalho doméstico, abrangendo tarefas físicas, mentais e cognitivas, constitui uma sobrecarga importante para muitas mulheres, refletindo-se em desfechos negativos sobre a saúde mental1,4,38. Estudo recente38aponta que, além da maior carga horária estar relacionada a sintomas e diagnósticos de depressão entre mulheres (31,2% e 10,5%, respectivamente), o estresse decorrente do trabalho doméstico mostra-se como principal fator de adoecimento mental.
Ou seja, o “labor mental” de planejar, antecipar, organizar tarefas, delegar responsabilidades e garantir o funcionamento da casa evidencia uma disparidade de gênero, sobrecarregando emocionalmente as mulheres e reforçando o impacto invisível, mas persistente, sobre o seu bem-estar, aumentando o risco de adoecimento mental.
Duas outras variáveis - executar trabalho remunerado e carga horária semanal de trabalho (> 40 horas) – associaram-se positivamente ao alto DER-doméstico apenas entre as mulheres, evidenciando de forma contundente o impacto da dupla jornada de trabalho para elas25,37,39,40.
Além de ser uma das principais expressões da desigualdade de gênero no mundo do trabalho, a dupla jornada de trabalho caracteriza-se por um acúmulo que tem sido associado a altos níveis de sobrecarga física, emocional e mental – aumento de sintomas depressivos, ansiedade, sensação de exaustão crônica e adoecimento psíquico entre as mulheres; repercussões estas que, inclusive, têm demandado interesses por estudos e validação de instrumentos de aferição que levem em conta as cargas laborais totais que se impõem sobre as populações femininas1,14,30,37,39.
Esse fato, inclusive, desponta como uma limitação para os estudos sobre TDNR, pois ainda enfrentam restrições metodológicas e analíticas para uma compreensão mais ampla e aprofundada do fenômeno. Uma das principais dificuldades reside na mensuração das atividades domésticas e de cuidado; a utilização do DER-doméstico ainda é incipiente; ademais, a ausência de instrumentos padronizados e sensíveis para captar dimensões como a carga mental e a simultaneidade de tarefas limita a apreensão da complexidade do TDNR.
Nas pesquisas transversais, são captados dados de momentos no tempo ou intervalos temporais. Há falta de análises longitudinais para acompanhar os efeitos do TDNR ao longo do tempo. Embora avanços importantes tenham sido alcançados no campo acadêmico, ainda persiste um descompasso entre a evidência científica e sua efetiva incorporação em políticas públicas voltadas à redistribuição equitativa do trabalho doméstico e reprodutivo.
Conclusão
O estudo evidenciou que mulheres, especialmente as mais jovens e com menor renda, enfrentam maiores níveis de sobrecarga doméstica e de desequilíbrio esforço-recompensa no TDNR, refletindo a persistência de desigualdades de gênero e um modelo estrutural de desvalorização do cuidado, atravessado pelas interseções entre gênero, classe e idade.
O trabalho remunerado (profissional) e o trabalho não pago (contexto doméstico e de cuidado) ainda espelham o modo mais assimétrico de desvalorização social, com claro viés de gênero e jornadas reprodutivas que geram efeitos muito mais expressivos para mulheres do que para homens.
O cenário revelado por este estudo exige uma análise crítica do lugar que o trabalho doméstico e de cuidado ocupa nas estruturas sociais contemporâneas. A persistente desigualdade na divisão dessas tarefas denuncia a naturalização histórica do cuidado como responsabilidade feminina e não é apenas um reflexo de uma cultura patriarcal resistente, mas um problema estrutural que compromete a saúde, a autonomia e a cidadania das mulheres.
Ademais, ao tratar equidade de gênero na esfera doméstica, busca-se não apenas pautar redistribuição de responsabilidades e uma dinâmica familiar mais equilibrada, mas, sobretudo, ressaltar que a Política Nacional de Cuidados8 representa um avanço no enfrentamento das desigualdades de gênero, reconhecendo institucionalmente o trabalho de cuidado. Propõe-se redistribuição clara e equilibrada das responsabilidades entre Estado, famílias e setor privado, com fortalecimento e ampliação de serviços públicos para aliviar a sobrecarga que recai sobre as mulheres. É urgente promover equidade na divisão sexual do trabalho por meio de políticas intersetoriais robustas, financiamento e campanhas que combatam estigmas de gênero.
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Informação sobre trabalho acadêmico:
Trabalho baseado na tese de doutorado de Ariane Cedraz Morais, intitulada “Estressores no trabalho doméstico não remunerado e transtorno mental: uma abordagem na perspectiva de gênero”, apresentada em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana.
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Disponibilidade de dados:
Todo conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial para a elaboração do artigo.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) (edital 02/2020/PPSUS/BA – FAPESB/SESAB/ CNPq/MS edital).
Editado por
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Editoras responsáveis:
Leila Posenato GarciaLúcia Rotenberg
Todo conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente.
