Resumo
Objetivos Analisar a percepção de empatia de profissionais de saúde de uma equipe de Estratégia de Saúde da Família e compreender suas experiências, visando proporcionar um espaço de escuta e acolhimento no cuidado em saúde.
Métodos Trata-se de estudo com abordagem qualitativa e exploratória. A coleta de dados envolveu a aplicação de um questionário sociodemográfico e a realização de entrevistas semiestruturadas. A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de Análise de Conteúdo. Foram entrevistados profissionais de diferentes áreas, incluindo agentes comunitários de saúde, auxiliares administrativos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, médicos, farmacêuticos, biomédicos, fisioterapeutas, nutricionistas e dentistas.
Resultados Participaram dez profissionais (um homem e nove mulheres). Emergiram três categorias analíticas: I) Empatia, cuidado e vínculo nas relações profissionais e de saúde; II) Empatia diante de contextos de desastres e emergências; III) Empatia e saúde mental na prática profissional: cultivando vínculos humanizados na área da saúde.
Conclusão Os resultados destacam a importância de compreender e apoiar as necessidades emocionais e sociais dos profissionais de saúde, para promover um ambiente de trabalho mais saudável e resiliente.
Palavras-chave:
Empatia; Pessoal de Saúde; Ambiente de Trabalho; Saúde do Trabalhador
Abstract
Introduction This is a qualitative and exploratory study conducted at a Family Health Strategy center.
Objectives The aim of this research was to present the perception of empathy among health professionals at this center and to understand their experiences, seeking to provide a space for listening and welcoming within healthcare.
Methods Data collection involved the application of a sociodemographic questionnaire and the conduction of semi-structured interviews. Data analysis was carried out using the Content Analysis technique. Ten professionals from different fields were interviewed, including community health agents, administrative assistants, nurses, nursing technicians, psychologists, physicians, pharmacists, biomedical professionals, physiotherapists, nutritionists, and dentists.
Results The results were organized into three categories: I) Empathy, care, and bonding in professional and healthcare relationships; II) Empathy in the context of disasters and emergencies; III) Empathy and mental health in professional practice: cultivating humanized bonds in healthcare.
Conclusion The findings highlight the importance of understanding and supporting the emotional and social needs of healthcare professionals in order to promote a healthier and more resilient work environment.
Keywords:
Empathy; Health Personnel; Working Conditions; Occupational Health
Introdução
Empatia é um conceito amplo, sem uma definição única e consensual, embora existam diferentes compreensões construídas a partir de campos como a psicologia, a filosofia, a enfermagem e as neurociências. Estudos apontam que esse fenômeno envolve componentes como sentir, compartilhar, compreender e manter a diferenciação entre o eu e o outro1. Sua etimologia remonta ao grego empatheia, significando “em emoção” ou “em sentimento”, referindo-se à capacidade de compreender o outro. Em alemão, o termo Einfühlung está relacionado à ideia de sentir por dentro, um processo de imitação interna2.
O conceito foi introduzido na língua inglesa por Titchener, que o descreveu como a capacidade de uma pessoa se colocar no lugar de outra e se relacionar com ela de forma análoga2. Posteriormente, a abordagem humanista da psicologia, especialmente por meio das contribuições de Carl Rogers, expandiu o conceito, tratando a empatia como uma das condições essenciais no processo terapêutico. A criação de um ambiente terapêutico empático, seguro e livre de julgamentos favorece a expressão autêntica de sentimentos e experiências, o que contribui para o fortalecimento do vínculo entre terapeuta e cliente2.
A capacidade empática envolve três etapas principais: prestar atenção de forma ativa ao interlocutor; escutar com sensibilidade, buscando compreender seus sentimentos sem julgá-los; e verbalizar essa compreensão de forma respeitosa e clara. Trata-se de um processo que envolve pensamento e comportamento integrados, considerando dimensões cognitivas, emocionais e motivacionais3,4,5. O componente cognitivo diz respeito à habilidade de entender o ponto de vista do outro; o emocional, à capacidade de se conectar afetivamente com o sofrimento alheio; e o motivacional, à disposição de agir em prol do bem-estar do outro.
A empatia é considerada uma competência inata, mas que se desenvolve ao longo da vida por meio das interações sociais e culturais6,7. Relações familiares, escolares e profissionais, assim como os modelos sociais e afetivos, influenciam diretamente essa habilidade6. A perspectiva do outro é construída por meio de um equilíbrio entre a autoconsciência e a consciência sobre o outro, exigindo constante autorreflexão e abertura relacional7.
O campo da psicologia, ao dialogar com a filosofia e a ciência, tem enfatizado a relevância terapêutica e relacional da empatia, especialmente no contexto da atenção à saúde. Isso se relaciona ao avanço das políticas públicas voltadas à humanização do atendimento, que envolvem práticas como o acolhimento e a comunicação sensível8.
A perspectiva humanista também oferece uma base teórica importante, considerando a empatia como uma atitude que exige a suspensão de julgamentos e a escuta ativa do mundo subjetivo do outro. Autores dessa abordagem ressaltam que, para que haja compreensão autêntica do sofrimento psíquico, é necessário adotar uma postura de aceitação incondicional e compreensão empática3.
No contexto da saúde, a criação de um ambiente empático entre profissionais e usuários tem sido apontada como fator relevante para a melhora da qualidade de vida de ambas as partes, contribuindo para o fortalecimento da confiança, o estabelecimento de vínculos e um cuidado mais humanizado3. A capacidade de reconhecer e compreender emoções e perspectivas do outro tem sido associada à promoção da validação emocional e da sensação de acolhimento, reduzindo conflitos interpessoais e favorecendo o equilíbrio psíquico⁴ Sua ausência, por outro lado, pode estar ligada a distorções cognitivas, dificuldades na regulação emocional e maior propensão a comportamentos disfuncionais, como agressividade ou retraimento social, sendo um elemento relevante em transtornos de personalidade e ansiedade4.
A Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), instituída pelo Ministério da Saúde em 2006, define a Atenção Básica (AB) como um conjunto de ações integradas de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação em saúde, realizadas por equipes multiprofissionais e voltadas às necessidades da população local. Nesse cenário, a empatia é reconhecida como uma competência essencial para a prática das ações de atenção à saúde e para o fortalecimento do vínculo entre profissionais e usuários10.
Apesar do reconhecimento da importância da empatia nas práticas de cuidado em saúde, observa-se uma escassez dos estudos que abordam esse fenômeno no contexto da AB, especialmente entre profissionais das equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF). A literatura existente concentra-se majoritariamente em contextos hospitalares e psicoterapêuticos, havendo limitada produção científica que explore as experiências e percepções empáticas de profissionais na atenção primária11,12. Essa lacuna evidencia a necessidade de investigações que aprofundem a compreensão sobre como a empatia é vivenciada nas relações cotidianas entre profissionais e usuários, bem como os fatores que a favorecem ou dificultam.
Diante disso, o objetivo desta pesquisa foi analisar a percepção de empatia entre profissionais de saúde de uma equipe da ESF, visando proporcionar um espaço de escuta e acolhimento no cuidado em saúde.
Métodos
A pesquisa adotou uma abordagem exploratória de natureza qualitativa, voltada à compreensão da singularidade do indivíduo e do cuidado em saúde. Esse tipo de estudo busca essencialmente compreender os fenômenos a partir das experiências e significados atribuídos pelos participantes, valorizando a empatia, a subjetividade e a contextualização cultural das vivências humanas13.
A empatia é compreendida, neste estudo, como um fenômeno multidimensional, envolvendo componentes afetivos, cognitivos e comportamentais, os quais facilitam a compreensão e a resposta sensível ao outro14.
Iniciado em agosto de 2023, o estudo enfrentou desafios devido a uma enchente no Vale do Taquari-RS, no mês de setembro do mesmo ano, o que resultou no adiamento das entrevistas para o final de setembro e início de outubro. Esse adiamento destacou a empatia não apenas como objeto de estudo, mas também como princípio a ser vivenciado diante da adversidade.
O estudo contou com a participação de 10 profissionais de saúde (um homem e nove mulheres), com idades entre 21 e 63 anos, atuantes há mais de seis meses na Estratégia de Saúde da Família I, em um município do interior do Rio Grande do Sul. Participaram, de forma voluntária, enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, médicos, auxiliares administrativos e agentes comunitários de saúde, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra foi considerada adequada por atingir a saturação teórica dos dados13.
A coleta de dados foi realizada em dois momentos, compreendendo a aplicação de um questionário sociodemográfico e a condução de entrevistas semiestruturadas, baseadas em constructos do Inventário de Empatia, elaborado para identificar dimensões como a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreender emoções alheias e reagir de forma sensível às experiências do outro3. Foram formuladas perguntas que incentivavam os profissionais a relatarem situações em que demonstraram empatia, descrever como percebiam os sentimentos dos outros e como reagiam emocionalmente diante do sofrimento alheio.
As entrevistas foram gravadas com o consentimento dos participantes e tiveram duração média de 30 minutos cada. Todas foram transcritas na íntegra, sem uso de softwares. Esse formato de entrevista favorece o aprofundamento das respostas ao mesmo tempo em que permite flexibilidade para adaptar o roteiro à dinâmica da interação entre entrevistador e entrevistado15. Para garantir o anonimato, os participantes foram identificados como S1 a S10.
A análise de conteúdo, proposta por Bardin16, foi adotada para examinar significados, descrições e interpretações, utilizando a teoria da Abordagem Centrada na Pessoa de Rogers9 como referência. As categorias foram definidas a posteriori, a partir dos significados atribuídos às palavras utilizadas pelos participantes, seguindo os passos de categorização (codificação), inferência, descrição e interpretação (tratamento das informações)16.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Taquari - Univates, sob o n º 728828/5310, em 2 de agosto de 2023. O estudo resguardou os princípios do sigilo e da voluntariedade17,18.
Resultados e discussão
Nesta seção, analisam-se os dados da pesquisa sobre a percepção dos profissionais de saúde em relação à empatia no ambiente de trabalho. As respostas foram organizadas em três categorias analíticas: I) Empatia, cuidado e vínculo nas relações profissionais e de saúde; II) Empatia diante de contextos de desastres e emergências; III) Empatia e saúde mental na prática profissional: cultivando vínculos humanizados na área da saúde.
Essas categorias buscam compreender como a empatia se manifesta no cotidiano profissional, ressaltando sua importância na promoção de relações saudáveis, no enfrentamento de adversidades e no cuidado com a saúde mental dos trabalhadores. No Quadro 1, sintetizam-se as percepções dos profissionais de saúde sobre a empatia nas relações de trabalho, com ênfase em seus efeitos no cuidado, na humanização do atendimento e no fortalecimento de vínculos interpessoais e institucionais.
Os dados do Quadro 1 indicam que a empatia atua como mediadora nas relações interpessoais da equipe e no cuidado à população, sustentando a colaboração, o suporte mútuo e o fortalecimento da identidade coletiva, além de contribuir para a redução de tensões e sobrecargas. Ao aprofundar a análise na categoria “Empatia, cuidado e vínculo nas relações profissionais e de saúde”, expandimos a compreensão da importância da empatia no contexto profissional de uma ESF.
O Ministério da Saúde10 destaca que a ESF contribui para a reorientação do modelo de assistência, focando na AB conforme os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso implica uma atuação dinâmica nas Unidades Básicas de Saúde, com definição de responsabilidades entre os serviços e a população. Para atingir o objetivo, a equipe precisa entender a realidade da população, considerando contextos familiares e comunitários, e seguir um planejamento acordado nas etapas de programação, execução e avaliação.
A composição recomendada inclui médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Esses profissionais devem residir no município de atuação em regime de dedicação integral, no qual se busca conhecer as famílias sob sua responsabilidade, identificar problemas de saúde, elaborar planos locais, programar atividades, executar procedimentos de vigilância à saúde e epidemiológica, atuar no controle de doenças transmissíveis e crônicas, valorizar o relacionamento com os usuários, resolver problemas de saúde, promover a assistência integral e envolver processos educativos10.
Ao buscar uma inserção no mercado de trabalho, geralmente a escolha se dá a partir dos próprios interesses profissionais, no entanto, as relações interpessoais estabelecidas no ambiente laboral são, em grande parte, determinadas pelo contexto. Compreender o outro envolve lidar com os desafios da convivência humana, exigindo habilidades de comunicação, interação e respeito às singularidades. O trabalho em equipe, por sua vez, demanda constante adaptação, compartilhamento de espaços e reconhecimento das dimensões emocionais dos colegas19.
As interações sociais e a qualidade de vida no trabalho estão correlacionadas com a empatia, influenciando diretamente a qualidade de vida no ambiente profissional. A aceitação no contexto organizacional proporciona segurança, fortalece relacionamentos e promove um ambiente propício para o desenvolvimento profissional. Ao praticar a empatia, os profissionais compartilham responsabilidades, evitam sobrecargas individuais e constroem uma identidade coletiva, resultando em um ambiente mais acolhedor e propício ao crescimento mútuo20. A importância da empatia é destacada pela participante S5, que percebe que: “Quando nos colocamos no lugar do colega, a empatia alivia o ambiente, permitindo compartilhar responsabilidades e evitar sobrecargas individuais …”. Em grupos de trabalho, a empatia contribui para construir uma marca coletiva, promovendo a renúncia do individualismo e favorecendo a construção conjunta com a equipe. Essa dinâmica também pode ser percebida na fala da participante S8:
[...] acho que se não houvesse a empatia, seria muito mais difícil o ambiente de trabalho, né? Porque todos nós aqui, a gente trabalha muito com pessoas e com muito problema, né? E às vezes a gente precisa dividir esses problemas, que muitas vezes não são nossos, assim, mas que nos sobrecarrega.
Nesse contexto, as tecnologias relacionais ganham relevância, pois incluem escuta, diálogo e acolhimento como estratégias para o cuidado. Autores da área de saúde coletiva destacam que o processo de trabalho em saúde vai além do uso de tecnologias duras (equipamentos e normas), incorporando também tecnologias leve-duras (saber técnico-científico) e leves, como as relações humanas21. A empatia, como parte dessas tecnologias leves, permite considerar as subjetividades e necessidades individuais, integrando cuidado técnico e afetivo na prática21. A participante S9 traz sua percepção: “[...] a gente é uma recíproca. Se a gente tem uma empatia, a gente também recebe essa empatia”. A empatia não apenas alivia o ambiente de trabalho, mas também estabelece relações interpessoais saudáveis.
A Atenção Primária à Saúde (APS), também chamada de Atenção Básica no âmbito do SUS – política pública brasileira que organiza e regulamenta o acesso universal e gratuito aos serviços de saúde –, constitui a principal porta de entrada do sistema, oferecendo cuidados acessíveis, contínuos e regionalizados, especialmente voltados às populações em situação de vulnerabilidade10. Com base na Reforma Sanitária, busca garantir a universalidade, a equidade e a integralidade da atenção por meio de ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação em nível de baixa complexidade10,22. A ESF amplia essa cobertura, embora persistam desafios no acesso aos demais níveis de atenção e na organização do cuidado. Nesse cenário, profissionais de nível médio e básico desempenham papel essencial na efetivação dos princípios do SUS10.
Na ESF, a empatia se manifesta não apenas nas palavras, mas também em pequenos gestos, como mencionado pela participante S9: “[...] desde uma comida a um abraço, né?”. Oferecer alimento como gesto de gratidão ou um abraço para consolar alguém são maneiras de demonstrar empatia e afeto, mostrando interesse pelo bem-estar do outro. Na crônica intitulada “História de um olhar”, a escritora Eliane Brum23 faz referência ao seguinte trecho:
O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui. Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva (Brum, 2016, p. 20-25).
No âmbito da APS, ressalta-se a constante abordagem acerca da importância da integralidade, regionalização e participação social na gestão da saúde. Esses princípios mostram o engajamento dos profissionais com o bem-estar da população, manifestando-se por meio de atos altruístas que vão além do mero atendimento clínico. Assim, esses profissionais não se limitam a diagnosticar e tratar, mas também se engajam ativamente na promoção de melhores condições de vida para a comunidade atendida, estabelecendo uma abordagem humanizada na APS22.
A empatia difere de outras habilidades sociais por conseguir manter um laço de confiança e compreender adequadamente a situação oposta, e não necessariamente expressar sentimentos, pensamentos e crenças de forma assertiva, mas sim pela capacidade de demonstrar comportamentos3.
Além disso, a inteligência emocional envolve a compreensão das próprias emoções e das relações humanas, ligada ao funcionamento do hemisfério direito do cérebro. Áreas como o córtex somatossensorial direito ajudam na autoconsciência e empatia, enquanto o córtex insular facilita a percepção das sensações corporais, ampliando a compreensão emocional. A empatia manifesta-se de três formas: cognitiva (entender a perspectiva do outro), emocional (compartilhar sentimentos) e preocupação empática (motivar ações compassivas), cada uma associada a circuitos cerebrais específicos. Autores da área destacam cinco domínios principais: autoconsciência, autorregulação emocional, motivação, empatia e habilidades sociais, afirmando que essas capacidades são moldadas por fatores ambientais, educacionais e neurológicos, como o sistema límbico14.
Casos de déficit empático, como observado em profissionais com dificuldade de reconhecer e processar emoções (como no caso de alexitimia), revelam os desafios que a ausência dessa competência pode gerar nas relações interpessoais e no cuidado em saúde14. Por outro lado, profissionais com inteligência emocional desenvolvida reconhecem melhor seus sentimentos e os dos outros, promovendo relações mais positivas, mesmo sob estresse24. A inteligência emocional está positivamente associada à satisfação no trabalho e ao desempenho dos trabalhadores25.
No campo das relações interpessoais, estudos apontam que a empatia contribui para a construção da individualidade, pois permite que o sujeito reconheça e compreenda vivências de outras pessoas mesmo sem tê-las experienciado diretamente26. Esse processo envolve um deslocamento da atenção voltada para si em direção a uma abertura ao corpo e à realidade do outro, o que favorece uma compreensão mais ampla das relações sociais e afetivas26. Assim, a empatia é compreendida como um recurso importante para o desenvolvimento da subjetividade e para a ampliação da percepção sobre o mundo externo26. Em outras palavras, a empatia auxilia na formação de nossa identidade pessoal e em nossas interações com os outros. Apesar de conseguirmos compreender a perspectiva alheia, é importante reconhecer que nunca poderemos verdadeiramente vivenciar a vida de outra pessoa.
A segunda categoria, “Empatia diante de contextos de desastres e emergências”, trata de situações em que eventos críticos exigem respostas afetivas intensificadas no ambiente profissional. Durante a coleta de dados, as enchentes no Vale do Taquari afetaram diretamente os trabalhadores da saúde, que relataram o fortalecimento dos vínculos e do apoio entre colegas. Tais eventos envolveram não apenas perdas materiais, mas também impactos emocionais, exigindo atenção à saúde física e psicológica diante das múltiplas demandas geradas27.
O Quadro 2 resume a percepção dos participantes quanto ao papel da empatia em cenários de crise, mostrando-nos a importância do suporte emocional, da cooperação e da resiliência coletiva.
Em cenários de desastres e emergências, a empatia expressa-se por meio de atitudes de apoio emocional, fortalecimento dos laços interpessoais e incentivo à resiliência coletiva. Esses aspectos favoreceram o enfrentamento compartilhado das dificuldades vivenciadas pelas equipes de saúde. Essa dinâmica é ilustrada no relato da participante S4, que descreve uma situação em que uma colega, diretamente afetada pelas enchentes, buscou acolhimento no ambiente de trabalho:
[...] o importante é se mostrar aberto. Então, eles veem que tem liberdade para chegar e me perguntar algo, ou se estão mal. Um exemplo é a colega que os pais perderam a casa na enchente, ela veio até mim pra pedir um atestado, pra poder ajudar os pais e não perder horas. Eu acolhi, conversamos, dei medicação e um atestado prolongado.
Essa atitude também foi refletida na fala de S8: “[...] Eu não pude ajudar ela com trabalho físico, porque eu tava em outro trabalho, mas foi aquela força do abraço mesmo, do afeto”. Comportamentos que demonstram união, compaixão e cuidado mútuo entre os membros da equipe, enfatizando a importância do ambiente e das relações interpessoais para o crescimento e a realização pessoal. Com base nisso, a participante S9 compartilha:
Na casa dos meus pais nunca veio água. Foi a primeira vez. [...] Meus pais moram em uma casa de dois pisos e fugiram pelo telhado. Bem sincera, eu não sabia o que era tirar um lodo de uma casa. Não foi só limpar a sujeira. Quando a gente limpava a sujeira, a gente ia pra área da frente da casa, tu olhava pra parte de baixo da rua e não tinha mais uma casa. Sabe assim, não é só o fato de eu tô fazendo uma faxina aqui, vou limpar aqui, tem todo o externo, né?
A participante narra a situação da enchente e os efeitos que essa experiência teve em sua vida pessoal, bem como na de seus pais. Ela relata, de forma triste, a destruição que ocorreu na cidade, a angustiante fuga de seus pais pelo telhado e os desafios enfrentados para lidar com a situação, abrangendo desde a tarefa de limpar os destroços até o impacto emocional de testemunhar a destruição das casas.
A falta de preocupação com as futuras gerações, que serão encarregadas de lidar com as consequências das crises climáticas e outros desafios como violência política, intolerância religiosa, pobreza, fome, desrespeito aos direitos humanos e aquecimento global, destaca a urgente necessidade de empregar a empatia, na tentativa de superar essas crises e unir as divisões sociais. A empatia não deve ser vista apenas como uma relação interpessoal, mas como uma força coletiva capaz de transformar a paisagem social e política. Isso envolve amparar o outro, questionar nossos preconceitos e prioridades de vida28.
A terceira categoria, denominada “Empatia e saúde mental na prática profissional”, enfatiza os desafios emocionais enfrentados pelos profissionais de saúde, especialmente no contexto de desastres, ressaltando a empatia tanto como cuidado direcionado ao outro quanto como estratégia de autocuidado. O Quadro 3 apresenta a síntese da percepção dos trabalhadores sobre aspectos relacionados ao estresse ocupacional, exaustão (burnout) e a importância do cuidado empático para a manutenção da saúde mental e da qualidade do atendimento.
Empatia e saúde mental na prática profissional: cultivando vínculos humanizados na área da saúde
Destaca-se a sobrecarga física e emocional intensificada por condições adversas de trabalho, prolongado estresse e acúmulo de responsabilidades. Nesse contexto, a empatia emerge como recurso fundamental não apenas na relação com os usuários, mas também entre os próprios colegas.
Pesquisas em neurociência identificaram, na década de 1990, o papel dos neurônios-espelho na base biológica da empatia. Esses neurônios, localizados em regiões específicas do cérebro, são ativados ao observar ações ou emoções de outras pessoas, permitindo a simulação interna dessas experiências e contribuindo para a identificação e compreensão do estado emocional do outro29. Esse sistema tem sido relacionado à expressão facial, à linguagem corporal e à capacidade de imitar emoções, favorecendo o reconhecimento e a conexão afetiva.
Assim, priorizar a empatia às demandas psicológicas dos profissionais mostra-se fundamental para prevenir o esgotamento e promover um ambiente laboral saudável e produtivo. Tal abordagem capacita os trabalhadores a gerenciar o estresse cotidiano, manter a produtividade e atuar de forma eficaz em equipe30. Além disso, a preservação do bem-estar mental e físico desses profissionais impacta positivamente na qualidade e segurança do atendimento, contribuindo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde31.
Contudo, apesar dos avanços da Política Nacional de Humanização (PNH) e da importância das competências emocionais, o Brasil ainda não dedica atenção suficiente à empatia dos profissionais de saúde. Ambientes sobrecarregados, hierarquização, estímulos emocionais e demandas específicas geram problemas emocionais, físicos e mentais, como o estresse e o esgotamento profissional (burnout), impactando a qualidade de vida no trabalho32. O termo burnout é descrito conforme um jargão em inglês, como algo que deixou de funcionar devido à completa falta de energia. Refere-se a algo ou alguém que atingiu seu limite, resultando em significativas deteriorações no desempenho físico ou mental. A síndrome de burnout é um processo desencadeado por níveis excessivos e prolongados de estresse (tensão) no ambiente de trabalho33. A pandemia da covid-19 intensificou os desafios emocionais, aumentando a demanda psicológica. Os profissionais enfrentam a necessidade de lidar saudavelmente com sentimentos negativos. A exposição ao sofrimento pode desencadear mecanismos de defesa psíquica para autopreservação34.
A promoção de ações multidisciplinares na APS, como os Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (Nasf-AB), destaca desafios, como a integração de equipes e a rotatividade de profissionais. Isso destaca a importância de aprimorar processos para fortalecer o trabalho em equipe, a promoção do cuidado e a autonomia dos usuários na APS35. Reconhecer e abordar os desafios emocionais dos profissionais contribuem para um ambiente de cuidado mútuo, promovendo qualidade no atendimento, mas também a saúde e o bem-estar daqueles que dedicam suas vidas a cuidar dos outros.
O trabalho dos profissionais de saúde exige uma rotina pesada e de grande complexidade, que pode acarretar riscos ocupacionais e afetar a capacidade de trabalho e empatia, impedindo um relacionamento mais humanizado, demonstrando exaustão ao lidar com o sentimento do outro33. Como é possível perceber na fala do participante S4:
[...] cansaço talvez, né? Pode comprometer a empatia, por exemplo. A gente acaba vendo pessoas que ficam acordadas até de madrugada, por exemplo, e plantões fora também geram um estresse. Eu, por exemplo, faço plantão fora, né? E nos dias em que eu não consigo dormir muito bem, acaba influenciando no meu humor.
Quando os profissionais não conseguem lidar de maneira saudável com os sentimentos negativos decorrentes do sofrimento dos usuários, isso pode resultar em respostas físicas e/ou emocionais defensivas em relação ao seu trabalho4. Conforme expresso por S8: “[...] isso gera uma sensação de: e agora? Uma sensação estranha. Não sei como te explicar. Dá uma certa ansiedade”. Na percepção de S3:
[...] percebo os profissionais exaustos, assim, sabe, depois do covid-19, a gente teve meio que matar no peito algumas coisas, e vamos lá. E a gente não olhou muito para isso, sabe? Isso percebo nos profissionais, de estarem cansados. A demanda psicológica das pessoas tá muito grande, e não sei se a gente sabe lidar exatamente com isso, sabe.
Ao priorizar a saúde mental no trabalho, a organização promove um ambiente propício para os trabalhadores compartilharem suas inseguranças, estimulando conversas abertas e uma escuta ativa, mesmo à distância. Essa abordagem, permeada pela empatia e humanidade em todos os níveis hierárquicos, contribui para a satisfação, resultando em maior engajamento, produtividade e lealdade, e consequentemente, na redução do esgotamento3⁶. O cuidado empático na área da saúde, ressignificado com a PNH, propõe a humanização nas relações entre profissionais e usuários, resultando em benefícios clínicos, ambiente de trabalho mais saudável e melhor relacionamento interpessoal.
A participante S9 traz sua percepção dizendo: “[ ] acho que a gente, na área da saúde, precisa ser humano, porque tu tem que muitas vezes só ouvir”. E acrescenta:
[…] eu to cansada, emocionalmente, além de fisicamente, braçalmente, pô, era trabalhar mesmo. Nesse último mês, era só, eu nunca vi tanta sujeira na vida. Agora o retorno, né? Tu trabalha um ano todo, quando tu vai tirar férias, parece que aqueles últimos dias tu vai desgastando ainda mais. Parece que tu nunca chega nas férias. Dias intermináveis....
A participante, que enfrentou a enchente devido às intensas chuvas, expressa seu esgotamento físico e emocional diante de responsabilidades familiares e profissionais perante sua superiora. Destaca a exaustão após um mês de trabalho árduo, ressaltando como essa fadiga persiste, apesar de as férias se aproximarem. Em tais situações, os profissionais que testemunham o sofrimento do outro podem ter recursos limitados para oferecer ajuda, desviando o foco do sofrimento alheio para si próprio. Assim, busca-se promover e cultivar a capacidade empática e o altruísmo, visando à sua manutenção e desenvolvimento, para assegurar a proteção e a regulação dos sentimentos, contar com apoio no ambiente de trabalho, estabelecer boas relações em equipe, promover o bem-estar psicológico e adotar estratégias para aprimorar a qualidade de vida dos profissionais32.
Considerações finais
A pesquisa evidenciou a importância da empatia no ambiente de trabalho dos profissionais de saúde da ESF, destacando seu papel nas relações interpessoais, na saúde mental, na coesão da equipe e na gestão de situações adversas, decorrentes do desastre socioambiental. O estresse empático pode comprometer a expressão da empatia e, consequentemente, a qualidade do atendimento, o que reforça a necessidade de estratégias voltadas à promoção do bem-estar desses profissionais. Considerando que a coleta dos dados ocorreu em um contexto excepcional, os resultados revelaram uma categoria analítica específica, referente à empatia na situação do desastre, ressaltando a importância de estudos futuros que comparem os níveis de empatia em diferentes contextos. Diante disso, permanece o desafio: como assegurar a manutenção da empatia e do bem-estar dos profissionais de saúde tanto em situações cotidianas quanto em contextos de crise?
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Informações sobre trabalho acadêmico:
Artigo baseado no trabalho de conclusão de curso intitulado “Percepção dos trabalhadores da saúde em relação à empatia no ambiente de trabalho”, apresentado no curso de psicologia da Universidade do Vale do Taquari, em 21 de novembro de 2023.
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Disponibilidade dos dados:
Os dados que sustentam os resultados deste estudo – como transcrições das entrevistas e registros de campo – não estão disponíveis publicamente para preservar a confidencialidade e o anonimato dos participantes, que poderiam ser identificados por integrarem uma equipe pequena de um município de médio porte.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
As autoras declaram que utilizaram ChatGPT (OpenAI), versão GPT-5.2 (2025), com o objetivo de revisão de linguagem, organização textual, apoio na clareza e coerência da redação científica.
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Apresentação do estudo em evento científico:
As autoras informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
As autoras declaram que o estudo não foi subvencionado.
Editado por
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Editoras responsáveis:
Maria Helena Palucci Marziale Leila Posenato Garcia
Os dados que sustentam os resultados deste estudo – como transcrições das entrevistas e registros de campo – não estão disponíveis publicamente para preservar a confidencialidade e o anonimato dos participantes, que poderiam ser identificados por integrarem uma equipe pequena de um município de médio porte.
