Os distúrbios hipertensivos da gestação permanecem entre as principais causas de morbidade e mortalidade materna no mundo, com impacto desproporcional em países de baixa e média renda. Nas últimas décadas, a suplementação de cálcio foi amplamente promovida como intervenção simples e potencialmente eficaz para prevenir a pré-eclâmpsia, sustentada por ensaios clínicos pequenos, revisões sistemáticas da Cochrane e recomendações da Organização Mundial da Saúde, o que favoreceu sua incorporação em diretrizes clínicas e políticas públicas. Entretanto, a atualização da revisão Cochrane publicada em 2025 redefiniu esse entendimento. Ao restringir a análise a ensaios considerados confiáveis, exigir registro prospectivo e explorar o impacto de estudos pequenos, a nova revisão conclui que, na análise global, a suplementação de cálcio pode resultar em pouca ou nenhuma diferença na incidência de pré-eclâmpsia (certeza baixa), e que, quando a análise é restrita a ensaios de grande porte e maior robustez metodológica, há evidência de alta certeza de pouca ou nenhuma diferença na incidência de pré-eclâmpsia e de parto pré-termo. Também não se demonstraram reduções consistentes na mortalidade materna, na morbidade materna grave ou nos principais desfechos perinatais adversos. Este artigo revisa criticamente a trajetória do cálcio como estratégia preventiva, discute as implicações da revisão Cochrane de 2025 para diretrizes e práticas clínicas e contrasta seu papel com o da aspirina em baixa dose, sustentada por evidência mais robusta.
Palavras-chave
Pré-eclâmpsia; Hipertensão gestacional; Cálcio; Aspirina; Medicina baseada em evidências