Open-access Percepção de autoinstilação de gotas oculares em idosos com ou sem dispositivo de apoio facial

RESUMO

Objetivo:  Determinar o grau de dificuldade para instilação tópica ocular em idosos, com ou sem o auxílio de dispositivo de apoio facial, por meio de questionário. Observar qual método foi tecnicamente melhor para aplicação tópica ocular de gotas.

Métodos:  O estudo foi um ensaio clínico, controlado, randomizado e pareado, realizado em 50 pacientes idosos de setembro de 2015 a junho de 2016 na Policlínica Ronaldo Gazolla, Lapa-Rio de Janeiro. Um frasco de colírio Optive® foi acoplado ao dispositivo de apoio facial denominado Eyedrop®. Cada participante instilou o colírio com ou sem o auxílio do dispositivo em cada um dos olhos, sendo que a seleção ocular foi feita aleatoriamente. Foi perguntado ao paciente questões pré-formuladas sobre a dificuldade de ambos os métodos e a técnica de administração tópica ocular foi avaliada.

Resultados:  A instilação de gotas foi considerada difícil ou muito difícil por 10% dos idosos com o auxílio do dispositivo e por 36% sem o auxílio (p = 0,0047). Houve toque da ponta do colírio com os tecidos oculares em 64% dos pacientes que não usaram o Eyedrop® e em 4% dos que o utilizaram (p=0,000001). A maior dificuldade descrita na instilação tradicional foi acertar o olho com a gota (32%) e com o dispositivo de apoio foi entender seu uso(4%).

Conclusão:  A maioria dos idosos instila colírios erroneamente, tocando a ponta do frasco em tecidos oculares, o que favorece sua contaminação. O dispositivo de apoio facial tornou mais segura e fácil a instilação.

Descritores:
Administração tópica; Soluções oftálmicas/administração & dosagem; Lubrificantes; Olho/efeitos de drogas

ABSTRACT

Objective:  To determine the degree of difficulty for topical ocular instillation in the elderly, through a questionnaire, with or without the aid of facial support device. Observe which method was technically better to topical ocular application of drops.

Methods:  The study was a clinical trial, controlled, randomized and paired, which was conducted in 50 elderly patients from September 2015 to June 2016 at the Polyclinic Ronaldo Gazolla, Lapa, Rio de Janeiro. A Optive® eyedrop bottle was attached to a facial support device called Eyedrop®. Each participant instilled an eye drop with or without the device help in each of both eyes, wherein the eye selection was made randomly. He was asked to answer pre-formulated questions about the difficulty of both methods and the topical ocular administration technique was evaluated.

Results:  Eye drop instillation was difficult or very difficult for 10% of the elderly with the device aid and for 36% without it (p = 0.0047). There were bottle tip touch onto the ocular tissues in 64% of patients who did not use Eyedrop® and 4% who used it (p = 0.000001). The greatest difficulty described in traditional instillation was to head properly the eye drop (32%) and when the support device was used, it was to understand how to use it (4%).

Conclusion:  Most elderly instills eye drops mistakenly, touching the tip of the bottle onto ocular tissues, which favors contamination. The facial support device increased security and facility in instillation.

Keywords:
Administration, topical; Ophthalmic solutions/administration & dosage; Lubricants; Eye/drug effects

INTRODUÇÃO

A instilação de gotas é a principal via de administração ocular utilizada para o tratamento de doenças do segmento anterior. O sítio de ação desta via atinge frequentemente diferentes camadas da córnea, conjuntiva, esclera, íris e corpo ciliar(1).

O uso correto de colírios necessita da prática adequada de movimentos de coordenação motora fina e boa visão. Muitos pacientes, principalmente os idosos, têm dificuldades devido à redução da coordenação motora e visão ruim para perto sem óculos(2).

Estudos recentes demonstraram que muitos pacientes usam colírios de forma incorreta. Alguns tocam a ponta do frasco em tecidos oculares, outros pingam número excessivo de gotas ou erram o olho e gastam o colírio desnecessariamente. Tais ações podem favorecer respectivamente: a contaminação do frasco, toxicidade e aumento de custo no tratamento(3-5).

Para melhorar as técnicas de uso de colírios, vários dispositivos com apoio facial foram criados. Entre eles podemos citar: Opticare®, Eyeot®, Xal-Ease®, Autodrop®, Autosqueeze®, Eyedrop® etc(6-8)

Dispositivos de apoio facial podem melhorar a aplicação de colírios ao promover: suporte manual para a administração, melhor posicionamento do frasco em relação ao olho e maior facilidade para apertar o frasco ou manter as pálpebras abertas(9).

Após extensa pesquisa de referências em bases de dados digitais como: LILACS, PubMed e Scielo, não encontramos trabalhos sobre a percepção e adequação técnica da autoinstilação de colírios apenas em idosos.

Este trabalho visa estudar a percepção e a adequação técnica do idoso em relação a autoinstilação de colírios com e sem o dispositivo de apoio facial Eyedrop®.

MÉTODOS

O estudo foi um ensaio clínico controlado, randomizado e pareado realizado em 100 olhos de 50 pacientes idosos no período de setembro a novembro de 2015 e de março a junho de 2016 no ambulatório de oftalmologia da Policlínica Ronaldo Gazola. A policlínica está situada no bairro da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro, e é uma unidade de saúde da faculdade de medicina da Universidade Estácio de Sá - RJ.

Foram incluídos no estudo apenas pacientes com mais de 65 anos e que disseram saber instilar colírios nos olhos. Foram excluídos pacientes monoculares, com qualquer dificuldade cognitiva que impedisse a resposta às perguntas do questionário, que apresentassem doença ocular externa ou estivessem sob o efeito de qualquer medicação que alterasse a sensibilidade ocular.

Além de frascos de solução ocular lubrificante (Optive®), um dispositivo de apoio facial denominado de Eyedrop® foi utilizado na pesquisa. O dispositivo possui cerca de 5 cm de altura e comprimento por 2,5 cm de largura e é formado de acrílico transparente em forma de "v" (Figura 1). Ele também possui um orifício central que adapta-se ao frasco de colírio permitindo que a instilação da gota ocorra na direção do olho com apoio facial (Figura 2).

Figura 1
Dispositivos de apoio facial Eyedrop®

Figura 2
Aplicação de gota com o dispositivo de apoio facial

Todos os pacientes aptos que compareciam em determinado turno (manhã ou tarde) para exames ou consulta eram convidados a participar do estudo. Os turnos foram escolhidos conforme conveniência dos autores. 50% dos pacientes foram atendidos em 2015, 54% dos pacientes foram referidos do CENTRO DE SAÚDE ESCOLA LAPA - RJ, que é uma Unidade da Saúde da Família do Rio de Janeiro. Os outros pacientes eram particulares ou de planos de saúde.

Antes da administração tópica ocular, um dos autores explicava o uso do dispositivo de apoio facial, conforme o guia geral de uso do produto.

Foi fornecido para cada participante um frasco de colírio lubrificante (Optive®), e foi solicitado que ele efetuasse a autoinstilação em um dos olhos. O olho foi selecionado previamente através do uso de uma tabela de números pseudoaleatórios do programa Excel®. No outro olho, foi solicitado que o participante aplicasse a solução de outro frasco de colírio Optive® acoplado ao aplicador facial Eyedrop®.Todo o processo foi observado por um dos autores.

Um questionário foi aplicado após as instilações (Anexo) sobre as dificuldades e adequação técnica de ambos os métodos. Depois da coleta dos dados, eles foram inseridos em banco de dados no programa Epi Info 7®, onde foram realizadas as estatísticas descritivas. Os testes estatísticos inferenciais foram realizados com calculadoras disponíveis em: "http://vassarstats.net". O teste de "Wilcoxon paired rank" foi aplicado para as dados obtidos das perguntas 4 e 5, o teste " t de Student" pareado para o resultado das questões 11 e 15 e o teste de McNemar foi aplicado para as respostas das perguntas 8 e 12,9 e13,10 e14. A significância estatística foi estabelecida em p(bicaudado) < 0,05.

Esta pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá (CAAE: 46034115.1.0000.5284). Todos os participantes que participaram assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

RESULTADOS

A média de idade dos participantes foi de 74,98 anos com desvio padrão de 6,79 anos. Setenta por cento (70%) eram do sexo feminino.

Quarenta e oito por cento (48%) consideraram a instilação de gotas fácil ou muito fácil, enquanto setenta por cento (70%) classificaram do mesmo modo a instilação de gotas com auxilio do dispositivo de apoio facial. Por outro lado, 36% caracterizaram como difícil ou muito difícil a instilação de gotas sem o dispositivo de apoio facial e 10% com o dispositivo de apoio facial (Tabela 1). O resultado foi estatisticamente significativo para detectar diferença nos grupos estudados (p = 0,0047).

Tabela 1
Grau de dificuldade para instilação de gotas de colírios

Cinquenta por cento (50%) dos indivíduos afirmaram ter alguma dificuldade para instilar gotas, sendo a mais comum (48%) a de acertar o olho. Dezoito por cento disseram ter alguma dificuldade para instilar gotas de colírio com o Eyedrop®, sendo a mais comum (30%), a de posicionar o dispositivo (Tabela 2).

Tabela 2
Dificuldades descritas pelos entrevistados

A primeira gota atingiu o globo ocular em 76% dos pacientes que instilaram o colírio sem o dispositivo de apoio facial e em 80% dos indivíduos que o fizeram com o dispositivo (p = 0,58). A repetição da instilação ocorreu em 34% os indivíduos que usaram o colírio e em 36% daqueles que usaram o dispositivo (p = 1,0). Não houve diferença estatisticamente significativa em relação ao número de vezes que a primeira gota instilada acertou o olho ou para a necessidade de repetição de instilação.

A média do número de gotas aplicadas nos olhos que utilizaram apoio facial foi de 1,51 e para os olhos que usaram o colírio foi de 1,37. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p= 0,2899).

Em 64% dos indivíduos observados, a ponta do colírio sem o dispositivo tocou as pálpebras ou os cílios dos pacientes, isto ocorreu também em 4% dos indivíduos que usaram o dispositivo. Houve diferença estatisticamente significativa quanto ao toque da ponta do frasco nos tecidos oculares (p < 0,000001).

Nenhum efeito adverso foi observado.

DISCUSSÃO

Portes et al.(4) publicaram trabalho sobre a percepção da aplicação tópica ocular de gotas usando dispositivo de apoio facial diferente do Eyedrop® em 2011. Os autores observaram que havia menor toque da ponta do frasco em tecidos oculares ao se usar o dispositivo, porém não havia maior facilidade relatada pelos indivíduos em relação ao uso do dispositivo. No trabalho atual a maior facilidade com o uso do dispositivo ocorreu entre os grupos estudados (Tabelas 1 e 2). Uma das principais explicações para a diferença de resultados é que em 2011 foram estudadas predominantemente pessoas adultas e no trabalho atual a população foi de idosos. Sabe-se que idosos apresentam ao longo do tempo uma coordenação motora fina pior e portanto, são um grupo que pode se beneficiar mais dos dispositivos de apoio facial(10).

Sakiyalak et al.(11) realizaram um estudo prospectivo, cruzado e randomizado, compararando a proporção de autoinstilação bem sucedida de colírios em pacientes com glaucoma que usavam ou não um dispositivo de apoio facial. O dispositivo era denominado "Thai Eye Drop Guide" (patente 6555, Universidade de Mahidol, 2/09/2011). Os autores não encontraram diferença significativa no percentual de sucesso quando os pacientes eram bem instruidos na técnica tradicional de instilação e na técnica de uso do dispositivo. O uso do Eyedrop® no estudo atual também não ocasionou melhora da acurácia da instilação, considerando o número de gotas liberadas ou se a primeira gota atingiu a superficie ocular. Portanto, a maior sensação de facilidade se traduziu no conforto do apoio e no direcionamento do frasco, distante dos cílios ou tecidos oculares.

Junqueira et al.(7) estudaram em 32 indivíduos adultos com glaucoma ou saudáveis, a eficácia e segurança do dispositivo Eyedrop®. A facilidade para instilação foi considerada maior nos olhos em que o dispositivo foi utilizado, principalmente quando não havia experiência prévia na instilação de colírios. O uso do dispositivo não resultou em efeito hipotensor diferente do da instilação tradicional.Apesar da maior facilidade relatada para instilar gotas com o uso do Eyedrop®, os autores ponderaram que os resultados deviam ser interpretados com limitações. A amostra foi pequena, apesar de ter poder suficiente para resultar em significância estatística nos resultados e a introdução de um novo dispositivo pode causar viés a favor do instrumento, pois um novo equipamento pode produzir maior comprometimento ou expectativa do indivíduo que o testa. Limitações explicitadas por Junqueira et al. podem ser consideradas para o trabalho atual.

Nordmann et al.(12) em 2009, publicaram um estudo multicêntrico, prospectivo, randomizado e cruzado, em 211 indivíduos na França, para avaliar o impacto do dispositivo Xal-Ease® em relação ao tratamento do glaucoma primário de ângulo aberto com latanoprost ou latanoprost e timolol,. Os auto-res observaram que o uso do dispositivo reduzia a necessidade de alguém ajudar o paciente na instilação e diminuía o problema de tocar a ponta do frasco de colírio nos olhos (p < 0,001). Gomes et al.(8) em 2016, publicaram estudo observando que o uso de colírios com o auxílio do Xal-Ease® diminuia o toque da ponta de frasco nos olhos de pacientes sem experiência na administração tópica ocular de gotas, porém havia aumento no número de gotas instiladas quando os indivíduos usavam o dispositivo. Em nosso estudo, observamos que o uso do Eyedrop® também reduziu o toque da ponta do frasco de colírio nos tecidos oculares e houve autopercepção de maior facilidade para aplicação tópica ocular, além de relatos de menor dificuldade nos indivíduos que usaram o dispositivo.

Dispositivos de apoio facial mantém o frasco de colírio afastado dos olhos a uma distância pré-determinada que dificulta o toque da ponta do frasco nos tecidos oculares e perioculares.(4) Uma grande parcela dos indivíduos com e sem experiência em pingar colírios instila as gotas erradamente, tocando com o frasco as pálpebras ou os olhos, o que favorece a contaminação.(5) Os dispositivos podem ajudar a reduzir este erro técnico.

Não houve diferença nesta pesquisa entre o número de gotas instiladas entre os olhos que usaram ou não o Eyedrop®, como no trabalho de Gomes et al.(8) Provavelmente isto se deve a que todos os pacientes avaliados tinham experiência em pin-gar colírios e esta habilidade ajuda a utilizar dispositivos de apoio facial de forma correta inicialmente.

Foi constatado que para o dispositivo Eyedrop® ser usado adequadamente, é necessário que haja extensão do pescoço maior do que quando se instila uma gota. Tal extensão pode não ser possível para indivíduos com doenças da coluna cervical.

CONCLUSÃO

A autoinstilação de gotas de colírios em idosos foi facilitada e ficou mais segura com o uso do dispositivo de apoio facial Eyedrop®. Novos estudos são necessários para verificar se a facilidade observada se justifica pela pior coordenação motora fina da terceira idade.

REFERÊNCIAS

  • 1 Gaudana R, Ananthula HK, Parenky A, Mitra AK. Ocular drug delivery. AAPS J. 2010;12(3):348-60.
  • 2 Dietlein TS, Jordan JF, Lüke C, Schild A, Dinslage S, Krieglstein GK. Self-application of single-use eyedrop containers in an elderly population: comparisons with standard eyedrop bottle and with younger patients. Acta Ophthalmol. 2008;86(8):856-9.
  • 3 Gupta R, Patil B, Shah BM, Bali SJ, Mishra SK, Dada T. Evaluating eye drop instillation technique in glaucoma patients. J Glaucoma. 2012;21(3):189-92.
  • 4 Portes AJ, Silva MG, Viana M, Paredes AF, Rocha J. Percepção da administração tópica ocular de drogas: aplicador facial x gotas. Rev Bras Oftalmol. 2011;70(4):224-9.
  • 5 Vaidergorn PG, Malta RF, Borges AS, Menezes MD, Trindade ES, Santiago JB. [Eye drop instillation technique in chronic glaucoma patients]. Arq Bras Oftalmol. 2003; 66(6):865-9. Portuguese.
  • 6 Strungaru MH, Peck J, Compeau EC, Trope GE, Buys YM. Mirror-hat device as adrop delivery aid: a pilot study. Can J Ophthalmol. 2014;49(4):333-8.
  • 7 Junqueira DM, Lopes FS, de Souza FC, Dorairaj S, Prata TS. Evaluation of the efficacy and safety of a new device for eye drops instillation in patients with glaucoma. Clin Ophthalmol. 2015;9:367-71.
  • 8 Gomes BF,Lordello M, Celli LF, Santhiago MR, Moraes HV. Comparison of eyedrop instillation technique with and without a delivery device in inexperienced patients. Eur J Ophthalmol. 2016;27:0. doi: 10.5301/ejo.5000797.
    » https://doi.org/10.5301/ejo.5000797
  • 9 International Glaucoma Association. Eye drops & dispensing aids: a guide. Ashford: Kent; 2013.
  • 10 Hoogendam YY, van der Lijn F, Vernooij MW, Hofman A, Niessen WJ, van der Lugt A, et al. Older age relates to worsening of fine motor skills: a population-based study of middle-aged and elderly persons. Front Aging Neurosci. 2014;6:259. doi: 10.3389/fnagi.2014.00259.
    » https://doi.org/10.3389/fnagi.2014.00259
  • 11 Sakiyalak D, Maneephagaphun K, Metheetrairat A, Ruangvaravate N, Kitnarong N. The effect of the Thai "Eye Drop Guide" on success rate of eye drop self-instillation by glaucoma patients. Asian Biomed. 2014; 8 (2): 221-7.
  • 12 Nordmann, JP, Bron A, Denis P, Rouland JF, Sellem ER, Renard JP. Xal-Ease: impact of an ocular hypotensive delivery device on ease of eyedrop administration, patient compliance, and satisfaction. Eur J Ophthalmol. 2009; 19(6): 949-56

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Nov-Dec 2016

Histórico

  • Recebido
    23 Set 2016
  • Aceito
    02 Out 2016
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