RESUMO:
Este artigo é uma análise literária da primeira obra da escritora irlandesa, Maeve Brennan: a novela The Visitor, possivelmente escrita na década de 1940 e publicada postumamente, em 1998. Reflete também sobre o diálogo da novela com os contos da autora, e sobre possíveis relações de intertextualidade, como com o romance The Uninvited (1941), de Dorothy Macardle, e com os contos de Dubliners (1914), de James Joyce.
PALAVRAS-CHAVE:
Intertextualidade; Literatura irlandesa; Maeve Brennan; Personagens femininas
ABSTRACT:
This article is a literary analysis of the first work by the Irish writer, Maeve Brennan: the novella The Visitor, possibly written in the 1940s and published posthumously in 1998. The article reflects on the novel's dialogue with the author's short stories. Lastly, the article considers possible relationships of intertextuality, such as with the novel The Uninvited (1941), by Dorothy Macardle, and with the short stories of Dubliners (1914), by James Joyce.
KEYWORDS:
Intertextuality; Irish Literature; Maeve Brennan; Feminine characters
Introdução
Este artigo analisa a novela The Visitor (2000), de Maeve Brennan, em relação com os contos da autora e com duas outras obras da literatura irlandesa: The Uninvited (1941), de Dorothy Macardle (1889-1958), e Dubliners (1916), de James Joyce (1882-1941). Analisa também possíveis relações de intertextualidade da obra de Brennan com textos clássicos.
Maeve Brennan nasceu em Dublin, Irlanda, em 1917, período ainda sob o domínio britânico. Ou seja, antes da divisão política do país em República da Irlanda e Irlanda do Norte. A família dela esteve diretamente vinculada à promulgação da República. Seus pais, Una e Robert Brennan, atuaram nas lutas políticas que antecederam a independência da Irlanda, em 1922. A referida autora terminou os estudos nos EUA, onde fez carreira como jornalista. Entre 1954 e 1981, escreveu “The Talk of the Town”, uma coluna sobre a rotina em Manhattan. Algumas dessas crônicas foram reunidas no livro The Long-Windede Lady. A autora compilou nos volumes In and Out of Never-Never Land (1969) e Christmas Eve (1974) contos inicialmente publicados nas revistas em que atuava como jornalista e colunista de moda e tendências, The Harper’s Bazar e The New Yorker. Brennan faleceu em 1993, aos 76 anos, em Nova York, onde morou a maior parte da vida.
Postumamente, às histórias dos dois livros de Brennan foram adicionados outros de seus contos, publicados com os títulos The Springs of Affection (2023) e The Rose Garden (2001). A data de finalização da novela The Visitor e a razão de não a ter publicado são desconhecidas, mas estudiosos de sua obra acreditam que tenha sido escrita durante a década de 1940. Foi, portanto, seu primeiro texto literário.
The Visitor narra o retorno de Anastasia King para à casa da avó paterna, em Dublin, depois de seis anos morando em Paris com a mãe. A narrativa é em terceira pessoa, mas privilegia o ponto de vista da protagonista. Ela é recebida friamente pela avó, que deixa claro não a aceitar como moradora da casa novamente e espera que a visita seja breve. Além dessas personagens, compõem o universo feminino da novela a governanta da Sra. King, Katharine, a amiga Norah Kilbride e as memórias de Anastasia sobre a fragilidade da mãe.
Se o contexto histórico do nascimento e da infância de Brennan remetem à luta pela independência da Irlanda, o contexto de produção de sua obra literária é o dos Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960, principalmente. Nesse momento, o país norte-americano vivia um período de crescimento econômico e consolidava-se como potência em decorrência do desempenho na Segunda Guerra Mundial, terminada em 1945, cuja entrada dos americanos no conflito determinou a vitória para o grupo dos Aliados. Logo em seguida, a partir de 1947, o país ingressou no período conhecido como Guerra Fria, em que os EUA se opuseram à União Soviética e que durou até 1991. Esses movimentos refletiram mudanças na sociedade estadunidense, inclusive na configuração de cidades americanas. Alguns contos de Maeve Brennan, como “I see you, Bianca” e “The Snowy Night on West Forty-ninth Street”, revelam as mudanças pelas quais Nova York passava no que se refere à reforma urbana e à especulação imobiliária do período. Essas narrativas mostram destruição de casas antigas e prédios pequenos para dar lugar a arranha-céus. Vale lembrar que Nova York está situada no extremo leste dos EUA, de forma que é uma das cidades cartão de visita para refletir o poderio americano à Europa e à então rival URSS. Assim, a cidade vivenciou reforma urbana intensa nessa fase, com objetivo de mostrar os Estados Unidos (e por consequência o capitalismo) como moderno e abastado. Brennan sentiu essas transformações de forma direta porque morou em hotéis pequenos, nas redondezas da Broadway. Alguns desses prédios foram demolidos junto com quarteirões inteiros de construções que eram comércio e residências familiares.
Em relação à estética literária ou período literário, Maeve Brennan está situada entre a Modernidade tardia e o Pós-Modernismo, considerando que tenha começado a escrever literatura na década de 1940 com a novela e tenha continuado escrevendo contos até os anos 1970. Sua obra apresenta características desses períodos, tais como finais abertos e enredos em que nem tudo é plenamente esclarecido pelos narradores, de tal forma que os leitores são chamados a serem ativos no processo de leitura. Leitores de obras da modernidade precisam atuar como partícipes no preenchimento de lacunas de sentido. Como estética literária do pós-guerras mundiais, o Pós-Modernismo caracteriza-se por enredos nem sempre lineares, narrativas que podem apresentar lacunas, personagens contraditórias, cujos comportamentos parecem evasivos e que podem surpreender os leitores, como é Anastasia King, de The Visitor.
Como primeira obra, a novela antecipa temas que viriam a ser desenvolvidos por Brennan em seus mais de 40 contos. Principalmente em relação às personagens femininas, é em The Visitor que Brennan expõe dois grandes grupos em que viria a situar as suas protagonistas: as austeras amargas e as inadaptadas outsiders. Outros temas que seriam recorrentes em sua obra e estão presentes na novela são a dificuldade de comunicação e a solidão das protagonistas. Além do tema da ausência de um lar e da importância do espaço de moradia, a ponto de a casa ser uma extensão das personagens Rose Derdon e Delia Bagot, de The Springs of Affection, compilado de histórias de Dublin em que todas as narrativas acontecem dentro do mesmo endereço.
Sem boas-vindas
Os anos que seguiram a Independência da Irlanda podem ter sido frustrantes para as mulheres que ajudaram na luta e não viram a realidade social progredir em relação a direitos femininos. Durante os conflitos para libertar politicamente a Irlanda do Reino Unido, as mulheres tinham participação ativa, de acordo com Abigail Palko (2010). Por isso, muitas acreditaram que a nova República poderia ser uma nação de mais igualdade de gênero e avanço nos direitos femininos. O desejo de mudanças por parte das irlandesas do início do século XX justifica-se pela sobrecarga de moralismo em que a Irlanda vivia, especialmente em relação à condição feminina. Sobre a organização social irlandesa pesavam a herança inglesa vitoriana do padrão de comportamento austero e o dogmatismo católico, que também ditava um comportamento ideal e restritivo para mulheres no país.
The Visitor antecipa assuntos que Maeve Brennan desenvolveu nos seus mais de 40 contos, principalmente em relação à solidão de mulheres comuns. De acordo com a pesquisadora Abigail Palko, no ensaio From The Uninvited to The Visitor: The Post-Independence Dilemma Faced by Irish Women Writers (2010), Maeve Brennan pode ter escrito The Visitor inspirada no romance The Uninvited (1941), de Dorothy Macardle, e as duas obras seriam metáforas para o ambiente pouco amigável ao feminino na República da Irlanda, apesar de toda participação das mulheres nas lutas pela independência.
Dorothy Macardle (2016) foi uma revolucionária, jornalista e escritora influente nos anos de luta política contra o Reino Unido. Ela escreveu sobre a história da Irlanda e tecia críticas sobre o papel relegado às mulheres na constituição da República Irlandesa, de 1937. Depois de haver mudado para a Inglaterra, publicou The Uninvited como uma crítica ao pouco espaço deixado às conterrâneas na sonhada República, apesar da dedicação delas pela conquista da nova condição da Irlanda. O romance explora as consequências das leis irlandesas logo após a independência e ecoa a voz das compatriotas de Macardle, que reivindicavam o direito feminino a acessar educação, mercado de trabalho e direitos políticos, mas sentiram seu acesso a essas esferas ainda reduzidas.
The Uninvited é a história de dois irmãos irlandeses, Pamela e Roddy. Eles se estabelecem em uma casa na Inglaterra, mas são surpreendidos pela presença do fantasma da mãe da locatária. Inserido na estética da literatura gótica, uma leitura alegórica do romance de Marcadle com foco na história irlandesa permite interpretar como “não convidados” todos que governaram a Irlanda às custas da liberdade do povo, segundo Abigail Palko (2010). Assim, os não convidados poderiam ser a Inglaterra, a Igreja Católica e mesmo irlandeses que conspiraram contra seu próprio povo. Os elementos góticos remetem ao estranhamento do clima político irlandês logo após 1922 e durante o período do Estado Livre Irlandês, quando havia um acordo de desocupação inglesa parcial da Irlanda, entre 1922 e 1937. O assombro e o interdito da estética gótica correspondem à atmosfera de estranhamento da república incipiente que, no que tange às liberdades e direitos femininos, não mudou efetivamente.
Brennan e Macardle conheceram-se pessoalmente, já que Dorothy era amiga pessoal da mãe de Maeve, Una Brennan, tendo sido aliadas políticas na época dos movimentos pela libertação da Irlanda. Maeve e Dorothy mantiveram a amizade mesmo depois de Macardle mudar-se para a Inglaterra e da família Brennan estar nos EUA, de acordo com Palko (2010). Elas teriam trocado cartas em que conversavam sobre a Irlanda e sobre suas produções literárias. As correspondências perduraram enquanto Macardle publicou The Uninvited e provavelmente quando Brennan estava escrevendo The Visitor. A pesquisadora Palko acredita que a amiga tenha recebido de Brennan um exemplar da novela e que tenha sido sua primeira leitora.
O título alternativo para a obra de Macardle seria Uneasy Freehold, numa referência a uma propriedade não confortável, como a da independência irlandesa para as mulheres. Considerando textos antigos, que transcrevem histórias da tradição oral, e produções do período de revolução pela independência, a Irlanda é costumeiramente retratada como uma mulher. No romance de Marcadle, além do protagonismo feminino de Pamela, existe a problemática da maternidade, que gera a permanência do fantasma na casa alugada pelos irmãos. De forma que é possível ler o desconforto dessa mãe separada da filha como metáfora da Irlanda separada de suas filhas revolucionárias, que, como Marcadle, partiram para viver com mais liberdade de expressão em outro país por não ter direitos assegurados na recém implantada República.
Tanto o romance de Marcadle quanto a novela de Brennan abordam temas relacionados a lar, emigração, pertencimento e maternidade. Em relação a este último assunto, Palko entende que “respondendo aos medos latentes que guiam The Uninvited, a Irlanda que Brennan retrata na sua novela não é acolhedora àqueles que ousaram se alinhar com a mãe” (Palko, 2010, p. 22, tradução nossa),1 considerando a perseguição do fantasma da mãe adotiva quando a garota investiga a história de seu nascimento, no romance de Macardle, e o rancor da Sra. King pela neta porque Anastasia escolheu emigrar para ajudar a mãe. Em sua primeira composição literária, Brennan mostra o aspecto tóxico da maternidade entre a avó e o pai da protagonista, entre Anastasia e sua mãe e entre as mulheres da família Kilbride.
Aos 16 anos, a protagonista de The Visitor sai da Irlanda para ficar com a mãe, numa decisão que pode ser vista como rompimento com o patriarcado, com o sobrenome do pai e que representa o poder masculino, King. Isso acontece justamente quando ela está ingressando na idade adulta, o que confere mais peso à decisão. A faixa etária de transição da adolescência para a idade adulta é a escolhida pelas duas escritoras para as protagonistas e pode ter ressonância com o período político vivido então pela Irlanda, que estava abandonando a infância guiada pela “mãe” inglesa, terminando uma adolescência de lutas para afirmar sua identidade enquanto nação e, finalmente, ficando livre para se mostrar ao mundo como adulta independente. As protagonistas das duas obras, respectivamente Pamela e Anastasia, adentram a idade adulta como órfãs, num indicativo da solidão e dos desafios que essa nova fase pode apresentar.
O romance de Dorothy Macardle deu origem ao roteiro do filme homônimo, The Uninvited, uma produção estadunidense de 1944.2 A história dos irmãos assombrados pelo fantasma de uma falecida que morou no casarão, que por sua vez fica localizado em uma colina remota da Inglaterra, remete ao clássico da literatura inglesa Wuthering Heights, de Emily Brontë, lançado em 1847 e também característico da estética do gótico.
A necessidade das irlandesas de reivindicar visibilidade pós-Independência não era novidade para mulheres revolucionárias: em 1791, Mary Olympe Gouges, ativista da Revolução Francesa, apresentou à Assembléia Nacional Francesa a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã3. Tal atitude significou a necessidade de lembrar a seus parceiros na luta por liberdade e igualdade que o conceito de “Homem” se referia a seres humanos e que, portanto, mulheres mereciam condições de igualdade de direito em relação aos homens. Pela rebeldia de chamar atenção para esse “inconveniente”, Gouges foi guilhotinada em 1793.
Uma das queixas de Macardle, que serve como inspiração para o seu romance, repousa sobre a Constituição Irlandesa de 1937, que faz referências ao casamento e ao papel das mulheres na sociedade irlandesa. A Constituição contém uma cláusula estabelecendo que “por sua vida dentro do lar, a mulher dá ao Estado um apoio sem o qual o bem comum não pode ser alcançado”. O que poderia soar elogioso, na verdade restringe a participação social das mulheres a donas de casa. O Artigo 41 do documento fala, ainda, do casamento como base da família (sem considerar outras formas de união conjugal) e limita o papel da mulher à esposa e à dona de casa. O texto passou por alterações recentes, em 2019, mas as irlandesas esperam mudanças mais significativas. Um referendo, em 8 de março de 2024, Dia Internacional da Mulher, votou pela remoção de duas referências obsoletas do referido artigo, mas teve resposta negativa quanto à alteração do texto. Uma das emendas votadas buscava ampliar a definição de família, incluindo as relações de longo prazo estabelecidas fora do casamento. A segunda proposta era de alteração quanto ao papel das mulheres no lar, que a carta de 1937 designava como cuidadoras das pessoas que vivessem sob o mesmo teto. A proposta era mudar o texto, direcionando a responsabilidade do cuidado da família entre todos os membros. Ambas propostas foram rejeitadas.
The Visitor dialoga com os temas do romance de Marcadle por abordar o papel da mulher moderna na sociedade dublinense pós-Independência. Anastasia contraria as orientações para seu futuro dispostas pela avó, personagem que representa o patriarcado e que é metáfora para a Irlanda governada pelo Império Britânico, tanto pelos valores defendidos como pelo sobrenome, King. Ainda que não seja munida de certezas, a protagonista da novela de Brennan não é facilmente convencida ou tutelada como eram suas ancestrais, indicando que os rumos para o feminino na modernidade podem não terem sido definidos, mas que não é do interesse das irlandesas viver de acordo com velhas regras. Um indicativo dessa linha de pensamento é o rompimento de Anastasia com o sacramento do matrimônio tal qual a sociedade irlandesa o entendia, representado na ação de atirar o anel de noivado de Norah em um precipício.
O “K” é presente na cultura irlandesa e no idioma Gaélico como a primeira letra em nomes de pessoas e lugares. Várias cidades têm o nome começando com K, como Killarney, Kilkenny, Kildare, Kinsale, Kilcoole, Kells. Esta última localidade fica no condado de Meath e é referida em um dos livros principais do cristianismo irlandês, o Livro de Kells. Também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, o Livro de Kells é um manuscrito iluminado com motivos ornamentais, feito por monges celtas por volta de 800 a. C. A presença marcante da letra nos nomes na novela de Brennan pode ser lida como referência à cultura irlandesa antiga, como um traço estético nessa narrativa escrita quando a escritora já estava na condição de imigrante. Assim como também escreveram Macardle e Joyce, que, morando fora da Irlanda, produziram narrativas dramatizadas em Dublin e que referenciam a cultura irlandesa.
Em relação à cultura, um dos traços pelos quais o povo irlandês distingue-se é a hospitalidade. Essa característica foi tomada como epíteto da Irlanda moderna, receptora de imigrantes de outros países europeus desde que despontou como “Tigre Celta”, com a industrialização e entrada de capital internacional a partir do ingresso do país na Zona do Euro, na década de 1990. Tanto o romance de Macardle quanto o comportamento da avó na novela de Brennan subvertem a noção da hospitalidade irlandesa e convidam à reflexão de quem afinal é bem-vindo na Irlanda pós-Independência.4
Arautos de uma Irlanda estagnada
É possível inferir inspiração para escolhas temáticas de Maeve Brennan na obra do conterrâneo James Joyce, assim como coincidência de abordagens entre esses autores. Os dois compartilharam a condição de serem imigrantes irlandeses que dedicaram seu fazer literário ao modus vivendi dublinense, sendo, no caso de Joyce, praticamente toda a obra, e, no caso de Brennan, boa parte dela. A seguir, veremos alguns pontos de contato entre narrativas dos autores.
Em artigo sobre a influência de Joyce no trabalho literário de Brennan, McWilliams entende que a autora de The Visitor mantém um comprometimento joyceano (2014, p. 98) em “escrever a cidade”. Assim como fez Joyce, tanto nos contos de Dubliners (1914) como no romance Ulisses (1922), Brennan mapeia Dublin em algumas de suas narrativas, conduzindo o leitor por ruas e lugares com referência no extraliterário ou real. Mas enquanto Joyce dedicou a obra a Dublin, Brennan se dividiu entre essa cidade e Nova York. McWilliams entende que, na imaginação da escritora irlandesa, Nova York rivalizaria com Dublin, seria a resposta à estagnação dublinense apontada por Joyce.
Há diferença no que se refere à interpretação do exílio para Brennan e Joyce. Enquanto para ele o autoexílio foi uma necessidade para conseguir que sua obra florescesse livre da paralisia denunciada em Dubliners, McWilliams (2018) entende que Brennan via a conexão entre a identidade de escritores irlandeses e o exílio como um fetiche démodé e, assim, algo a ser criticado: “No conto ‘The Joker’ (1952), Brennan critica o mito do artista Irlandês como exilado: um poeta Irlandês tira partido do modelo joyceano de exílio, transformando isso em um traço egoísta para compensar seu fracasso como escritor” (McWilliams, 2018, p. 97, tradução minha).5 Nesse conto, um escritor irlandês fracassado insiste em relembrar o que ele acredita terem sido seus dias de glória em Nova York enquanto estraga a ceia de Natal da família anfitriã.
A estagnação da capital irlandesa criticada por James Joyce nos contos volta a aparecer na obra de Brennan. Quando recusa voltar com o pai para Dublin, a protagonista de The Visitor fica paralisada e a mãe a olha “com um vislumbre de reconhecimento passivo” (Brennan, 2000, p. 9). Tanto a paralisação de Anastasia quanto o olhar passivo da mãe lembram o comportamento de Eveline, personagem de Joyce, no porto, prestes a zarpar com o namorado para uma vida nova em outro continente. Porém, Anastasia e a mãe partiram da Irlanda, romperam com a estagnação irlandesa. Diferentemente de Eveline, o que as paralisa é a menção do retorno à Irlanda.
Quando a protagonista de The Visitor rememora a cena da separação dos pais, lembra deles como em um sonho, com o cenário e as pessoas miniaturizadas, e o pai animalizado, como uma tartaruga. Esse animal pode corresponder concomitantemente à velhice, pelas rugas, e à infância, pela fragilidade do corpo visível fora do casco. Tendo falhado na tentativa de convencer esposa e filha a voltar à Irlanda, ele as abandona e volta para junto da mãe idosa. Anastasia associa o pai a uma tartaruga, o que permite a seguinte interpretação: obedecer a Senhora King e deixar a família que ele construiu pode significar tanto como a derrota de um homem muito mais velho que a esposa e que não tolera a aventura de começar vida nova em país estrangeiro, como a infantilização do homem incapaz de assumir deveres de adulto e que ainda age de acordo com as ordens da matriarca. A miniaturização dos adultos na memória de Anastasia pode revelar o distanciamento dela da condição de adolescente submissa, tal como era na época da despedida do pai, para um estado de maior controle sobre sua vida de jovem adulta.
A presença de mortos cujas lembranças permanecem significativas na vida dos vivos também é ponto de identificação entre The Visitor e Dubliners. Nos contos de Joyce, mortos que exercem influência na vida das personagens perpassam muitas histórias. Um padre morto é figura central na narrativa de abertura do conto “As Irmãs”. “Os mortos” é o último conto, como se esse título arrematasse todos os demais mortos mencionados ao longo das outras histórias. Nessa última, a epifania do protagonista Gabriel é desencadeada pela constatação de não ter sido o primeiro amor da esposa, que foi na verdade um homem já falecido. O conto termina com a ideia de comunhão entre todos os seres que já pisaram em solo irlandês, simbolizada pelo branco da neve que remete à paz universal e recobre tanto as moradas dos vivos, quanto as lápides dos mortos.
Além disso, “Os mortos” termina com duas alusões à mitologia grega, bem ao gosto de Joyce. Gabriel observa que “estava na hora de começar a jornada rumo ao Ocidente” (Joyce, 2012, p. 216), sendo que, na referida mitologia, o Hades ou espaço dos mortos fica no Oeste. Então, o protagonista “sentiu a alma desfalecer aos poucos enquanto ouvia a neve que caia” (Joyce, 2012, p. 216), em que “desfalecer” pode ser interpretado tanto como adormecer quanto falecer, o que lembra a história dos irmãos Hypnos, o Sono, e Thanatos, a Morte, gerados pela Noite, que os concebeu sozinha. Considerando a crítica à estagnação irlandesa da primeira metade do século XX, promovida pelo autor em seus contos, à menção a mortos também funciona como metáfora para os dublinenses paralisados, como mortos em vida pela pressão exercida por duas forças nocivas à sociedade irlandesa: a herança de pobreza e baixa autoestima na identidade irlandesa deixada pelos séculos de exploração britânica; e a influência do catolicismo deturpado, não condizente com a função de guia espiritual acolhedor. Dentre os fatores que permitem classificar o catolicismo irlandês de antigamente como exacerbado está o incentivo à natalidade sem levar em conta as condições financeiras das famílias católicas, aumentando a pobreza enquanto disseminava fanatismo e divisão social. Além dos dois contos mencionados, “As irmãs” e “Os mortos”, merece destaque a influência de uma morta no já citado “Eveline”, em que a protagonista reavalia sua decisão de fugir do país e fica fisicamente estagnada depois de lembrar da promessa feita à mãe em seu leito de morte.
Em The Visitor, as personagens falecidas, a mãe e o pai de Anastasia, o namorado e a mãe de Norah, e depois a própria Norah desempenham tanta ação dentro da narrativa quanto as personagens vivas. Na verdade, a ação das personagens mortas induz a ação das vivas, de forma semelhante ao que acontece em Dubliners, em que as personagens reagem aos mortos muito mais do que desempenham ações autônomas. É porque a mãe morreu que Anastasia retorna a Dublin. É por ter seguido a mãe, agora morta, a Paris, que Anastasia cai em desgraça com a avó. A morte do pai de Anastasia determina o comportamento da avó para com ela. A impossibilidade de despedida do namorado e o luto mal elaborado colaboram para o adoecimento e o comportamento melancólico de Norah. A presença da mãe de Norah dentro de casa ainda é sentida por ela como quando estava viva, apesar de passados trinta anos do falecimento.
A narrativa do conto “A Snowy Night on West Forty-ninth Street”, escrito por Brennan em 1967, encerra em diálogo com o final do último conto de Joyce. As duas histórias terminam com os protagonistas olhando o cair da neve à noite, da janela de seus quartos, depois de terem participado de jantares com diferentes tipos humanos. Subvertendo a ideia amistosa em “Os mortos”, que reforça o epíteto da Irlanda como terra da hospitalidade, tomando a casa das tias de Gabriel como metáfora para o país e os diálogos estabelecidos como representações de interesse genuíno e mostras de sensibilidade entre os convidados, esse conto de Brennan mostra um jantar em um restaurante nova-iorquino, em uma noite de nevasca, em que os clientes não têm conexões entre si, não estabelecem relações de amizade e escutam uns aos outros com enfado e tédio. Como trata-se de um restaurante, essas pessoas não foram convidadas e não compartilham o jantar, em oposição à refeição farta na mesa longa do jantar tradicional de fim de ano das tias de Gabriel.
O restaurante tem nome francês, Étoile de France (Estrela da França). Parece haver um acordo entre os funcionários de falar em francês e aqueles que não seguem essa regra incomodam um senhor francês no bar. O nome do estabelecimento e a primazia pela língua francesa conferem superioridade ao que é estrangeiro dentro do restaurante, à França em detrimento da cultura norte-americana. Diferentemente, o estrangeiro é visto com suspeita no jantar dublinense do conto de Joyce. Gabriel comenta o desejo de passar férias no continente ao invés de no oeste da Irlanda, local onde a cultura irlandesa foi mais preservada, e esse comentário perturba a senhorita Ivors a ponto de ela deixar a festa antes do jantar. Em “Os mortos”, o alinhamento com o exterior em detrimento da Irlanda é visto como traição à cultura nacional, em uma época em que a ilha reivindicava sua independência em relação ao Reino Unido. A velhice também ganha outras cores no conto de Brennan. Se em “Os mortos” a terceira idade representada nas tias é acolhida com respeito e amorosidade por parte dos convidados, em “The Snowy Night” ela é caricata. A senhora Dolan busca reviver a juventude com maquiagem excessiva e alegria exagerada ao aceitar uma bebida, proporcionando uma leitura de velhice decadente e triste.
Ainda em ressonância com Dubliners está o perambular em The Visitor. Algumas personagens dos contos de Joyce, como os protagonistas de “Um encontro”, “Dois Galanteadores”, “Uma pequena nuvem” e “Um caso doloroso” caminham pelas ruas de Dublin como forma de romper a situação estática imposta pelo espaço e de conquistar esse espaço à medida que tomam posse e o integram a cada passo. Assim, Chandler, de “Uma pequena nuvem”, caminha enquanto elabora seus anseios e discursos, e a integração de sua atividade mental com a dinâmica do explorar a cidade ao caminhar é tamanha que ele passa do pub em que deveria chegar para encontrar o amigo. E em “Dois Galanteadores”, o entrosamento de Lenehan com o espaço é tamanho que ele tem a memória interligada e acionada pela configuração espacial da cidade, que ele acessa a partir do caminhar. Por exemplo, quando se encanta com a música de um harpista, a melodia passa a controlar seus passos, que não param. E quando considera uma comida boa, toma anotações mentais da localização do restaurante, ao invés de gravar o nome do estabelecimento. Para o filósofo Michel de Certeau, as caminhadas dos pedestres, passo a passo, moldam espaços e tecem lugares enquanto competem para a elaboração discursiva:
as motricidades dos pedestres formam um desses “sistemas reais cuja existência faz efetivamente a cidade. [...] O ato de caminhar parece, portanto, encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação. [...] A caminhada, que sucessivamente persegue e se faz perseguir, cria uma organicidade móvel do ambiente. [...] A caminhada afirma, lança suspeita, arrisca, transgride, respeita etc. as trajetórias que “fala”. (Certeau, 2013, p. 163-166).
Em literatura, a elaboração discursiva é o que confere corpo e mente às personagens. Portanto, tais identidades em Dubliners existem, em certa medida, a partir de suas perambulações. Em The Visitor, ocorre algo semelhante na composição identitária da protagonista, que perambula por Dublin e, ao perambular, emoldura sua identidade como uma personagem transtornada e sem rumo. As saídas de casa para caminhar fazem com que Anastasia se sinta bem, como acontece em uma das caminhadas de cerca de meia hora para a casa de Norah: “Após os primeiros minutos, seu ânimo melhorou e ela voou pelas ruas. Sua mente voou facilmente para longe em algum tipo de sonho, e ela se esqueceu até que finalmente chegou ao portão da casa” (Brennan, 1997, p. 34).6 A mãe da moça também tinha o hábito de perambular, mas ficava circunscrita ao jardim, pois era ainda menos livre que a filha, que já se configura como personagem da modernidade. Tanto nos contos de Joyce quanto na novela de Brennan, o caminhar por Dublin está associado a duas características: primeiro, as personagens estão perdidas, desiludidas e melancólicas; segundo, elas tem anseio pelo ar livre como uma forma de libertação da opressão do espaço interior ou da falta de perspectiva.
Outra característica que une os dois escritores é a aproximação com o tema “política” sem falar explicitamente desse assunto (Joyce somente tratou do assunto mais diretamente no conto “Dia de hera na sala do comitê”). A forma com que abordaram o tema foi a partir de questões sociais, considerando o fazer crítica social uma forma de discutir sobre política enquanto organização do nosso viver em sociedade. Joyce agiu assim ao criticar como os dublinenses viviam estagnados por forças externas à cultura irlandesa (opressão britânica e fé católica), e Brennan ao mostrar uma Dublin que não se abriu ao novo, não acolheu o diferente e não foi receptiva a mulheres que não respondiam aos padrões de comportamento esperados pelo patriarcado. Isso mesmo depois de toda luta pela independência, da qual as mulheres participaram em pé de igualdade com seus conterrâneos.
Joyce e Brennan foram substancialmente modernos ao priorizar o feminino em suas narrativas. Muitas das personagens mais sagazes dos contos do autor são mulheres. Ele as mostrou como fortes, sobreviventes em uma cultura que privilegia os homens. Por exemplo, o conto de abertura tem como personagens principais o garoto e o padre falecido, mas o título aponta para as mulheres: “As irmãs”. A irmã de Mangan, garota por quem o protagonista de “Arábia” se apaixona, é quem toma a iniciativa do diálogo e determina a ação que ele deve executar: trazer a ela um presente do bazar. Enquanto o garoto não reúne coragem suficiente para conversar, ela é suficientemente segura e emancipada para estabelecer o diálogo e requerer uma ação/presente. Eveline, apesar de ter paralisado no final, teve a iniciativa de planejar uma fuga para apostar em uma vida melhor. Em “Dois Galanteadores”, a garota é convencida a dar uma moeda a Corley, mas afinal é ela quem tem um emprego, enquanto os dois malandros vivem a incerteza dos empréstimos e das apostas em cavalos.
O conto “A casa de pensão” tem duas das personagens femininas mais fortes de Joyce: A Sra. Mooney e sua filha, Polly, que pode ser lida como um ensaio para a composição identitária de Molly Bloom, personagem cuja voz encerra Ulisses e que é uma concepção de mulher moderna, ciente e orgulhosa de seu desejo, mimada pelo marido de uma forma que até então somente homens eram, dentro e fora da ficção. No conto, a Sra. Mooney e Polly dão as cartas e determinam o destino dos homens que as cercam, como Molly no clássico do autor.
Também são exemplos de personagens femininas fortes em Joyce a tenaz Maria, do conto “Terra”, e a sensível Sra. Sinico, que contrasta com a frieza e incapacidade de demonstrar sentimentos do protagonista de “Um caso doloroso”. Entram nesse rol o pragmatismo da esposa de Chandler, em “Uma pequena nuvem”, e da Sra. Kearney, em “Uma mãe”, que é quem precisa se impor para exigir o pagamento da filha, porque os homens organizadores do concerto pretendiam lográ-la, além do inegável protagonismo das mulheres em “Os mortos”, no qual se destacam a serviçal, Lily, e a esposa, Greta, e as tias.
Brennan priorizou construir protagonistas mulheres. Contrariando um padrão literário que vigorava até meados de 1950, quando a autora começa a publicar contos, as protagonistas de Brennan são representantes do povo, mulheres comuns, exaustas, feias e tortas, imigrantes, pobres, à margem da sociedade. Na novela The Visitor toda a trama apoia-se nas personagens mulheres. A governanta Katharine conta de um acidente nos trilhos do trem durante uma visita de Norah a Sra. King. A notícia lembra o que aconteceu a Emily Sinico, do conto “Um caso doloroso”, de Joyce. Assim como a personagem de Joyce, a mulher da história narrada por Katharine andava a esmo durante a noite, perto dos trilhos. Mas, diferentemente da senhora Sinico, não foi o choque com o trem que a matou, como a notícia poderia fazer supor. A personagem de Brennan vive ainda por um dia após o acidente e Katharine supõe que ela pode ter morrido pelo susto da proximidade com a morte violenta. No conto de Joyce, a notícia do acidente causa uma inflexão na conduta do Sr. Duffy, de forma que ele repensa toda sua vida. Para as mulheres de The Visitor que escutam sobre o acidente, no entanto, a notícia de uma vida feminina abruptamente interrompida não parece causar grande abalo.
Mas por que a governanta fala sobre isso na presença da visita? Considerando a escolha de Katharine em dividir a história com a família King, justamente quando recebem essa visita, que é a única pessoa que permanece frequentando a casa depois da ausência da mãe de Anastasia, é possível ponderar sobre a importância de Norah na narrativa, dos significados que essa personagem evoca. Como uma mulher que dedica a vida a cuidar da mãe e ainda obedece a seus preceitos de moralidade anos após a Sra. Kilbride ter falecido, Norah representa solidão, estagnação e esterilidade. Diferentemente das mulheres abatidas pelos trens, que vagavam à noite, Norah não desafiou regras socialmente estabelecidas, não ousou deixar sua casa e viver com o noivo. Além de situar-se entre as gerações da neta e da avó, Norah simboliza um elo com a mãe da moça, porque era sua amiga. E é ela a personagem central da ação mais disruptiva de Anastasia, que é a quebra da promessa sobre o anel. Assim, a “visitante” do título da novela pode referir-se tanto à Anastasia, cuja permanência na casa é tolhida pela avó e assim ela permanece como uma visita, quanto aos significados evocados pela amiga Norah na narrativa.
Se Brennan evoca o mesmo tipo de acidente do conto joyceano, ainda que en passant, qual será a mensagem sublinhada? As duas histórias têm no trem o catalisador da morte das mulheres, a de Joyce pela colisão com o veículo e a de Brennan pelo susto da quase colisão. Considerando o trem como uma expressão da modernidade e remetendo-nos à crítica de Dorothy Macardle, de que a ascensão da República não tornou a Irlanda um lugar mais justo para as mulheres, o arrebatamento das personagens pela máquina moderna pode representar a permanência da vulnerabilidade das irlandesas, que não diferiu tanto do tempo em que Joyce escreveu “Um caso doloroso”, no início do século XX, ou de 1941, quando Marcadle refletiu sobre a situação feminina na Irlanda, no romance The Uninvited. O fato de a personagem inominada de Brennan ainda ter vivido por um dia após o incidente e aparecer na narrativa por citação indireta, causando não mais que meros comentários pelas mulheres representantes de uma classe social mais abastada, também pode apontar para a desunião entre as irlandesas de diferentes extratos sociais.
O protagonismo feminino de The Visitor segue nos contos de Brennan, tanto nos compilados em The Rose Garden, em que os únicos dois protagonistas homens, Charles Runyon e Nicholas, são dotados de sensibilidade e senso estético, quanto em The Springs of Affection. Nesse livro, os 21 contos podem ser divididos em três grupos: os de inspiração autobiográfica, em que o ponto de vista é o da menina alter ego de Brennan, o grupo das histórias do casal Derdon e o conjunto das histórias do casal Bagot, nos quais as esposas são o mote das narrativas. Por exemplo, quando o ponto de vista é o de Hubert Derdon, como em “The Drowned Man”, toda ação narrativa acontece em relação à esposa. No conjunto de contos cujas narrativas acontecem no Herbert’s Retreat, o ponto de vista é das imigrantes irlandesas empregadas nos EUA como criadas, ou de um narrador que julga as moradoras do condomínio pelo mesmo código de moralidade de Bridget, a mais velha e líder das empregadas.
Outras intertextualidades possíveis
Outras duas leituras intertextuais possíveis de The Visitor são em relação ao texto Gênesis, da Bíblia, e a Antígona, peça de Sófocles que compõe a Trilogia Tebana com Édipo Rei e Édipo em Colono.
Considerando a ressonância do texto bíblico na novela, ao escolher apoiar a mãe, Anastasia faz algo comparado a comer da árvore do fruto proibido do Éden, atitude de Eva que teria provocado a expulsão do primeiro casal criado por Deus do paraíso. Uma vez expulsos do paraíso, Adão e Eva teriam de trabalhar pelo seu sustento. Na novela de Brennan, a atitude considerada disruptiva para a Irlanda foi deixar o território irlandês e fixar residência em outro país para cuidar da mãe. Na época da independência do Reino Unido, a Irlanda foi vista como machista por não valorizar a luta das mulheres pela independência ao lado de seus compatriotas, o que ficou exposto na delimitação do espaço feminino ao interior doméstico, na primeira carta republicana irlandesa. Assim como o casal bíblico, Anastasia é expulsa da casa da avó. Esse espaço era sua moradia original, seu porto seguro, sua versão primitiva de paraíso. Desde a chegada, fica claro por parte da avó que a protagonista não é bem-vinda e não deveria ter retornado. Não por acaso, durante sua estada, a protagonista não acessa o jardim dos fundos, que pode ser tomado pelo Éden do paraíso que é a casa da infância, considerando o Éden como a melhor parte do paraíso.
The Visitor permite, ainda, uma leitura que subverte valores propagados em Antígona, como a obediência ao pai e o respeito aos ritos fúnebres. Na peça de Sófocles, Antígona é uma das filhas do casamento incestuoso entre Édipo e sua mãe, Jocasta. Ela é a única a acompanhar Édipo quando ele descobre ter desposado a mãe, furado os olhos e saído em exílio. Anastasia também deixa o país, mas emigra para ser companhia da mãe, que acompanha até a morte. Assim como a personagem grega, que retorna a Tebas somente depois da morte do pai, Anastasia volta para Dublin somente quando aquela a quem ela escolheu acompanhar estava morta. A protagonista de Brennan subverte a obediência ao pai quando segue a mãe. Ela deixa o espaço da casa dos King, desobedecendo também o que consta na Constituição Irlandesa de 1937, pela qual a mulher deveria prestar serviços à nação ao cuidar da família e da casa. Se, ao emigrar, Anastasia se aproxima da personagem Antígona, ao priorizar as demandas do feminino e escolher a mãe, ela subverte o respeito e a obediência paterna a qualquer custo, como sugerido em Antígona. A observação parte de Heather Ingman (Palko, 2010) ao se referir à leitura de mitos clássicos realizada por Luce Irigaray, para quem “filhas como Antígona têm uma escolha entre identificar-se com as leis do patriarcado, obliterando a mãe, ou identificar-se com a mãe com o custo da exclusão e da autodestruição ” (Palko, 2010, p. 22).7 Ingman considera que a construção identitária de Anastasia repete a trajetória dessas filhas na mitologia grega observadas por Irigaray.
Outro ponto de intertextualidade como leitura subversiva entre a novela de Brennan e a peça grega está no trato aos ritos fúnebres, considerados sagrados tanto na sociedade da Grécia antiga, quanto na Irlanda católica do século XX. Antígona retorna a Tebas quando os irmãos dela e de Ismênia, Etéocles e Polinices, morreram lutando contra o exército de Argos, que tentava invadir a cidade. Polinices lutava por Argos e contra seu povo, e entrou em combate com o irmão que defendia Tebas, Etéocles. O rei Creonte concede destinos diferentes aos corpos dos sobrinhos. “Para Etéocles, que morreu nobremente pela pátria e pelo direito, Creonte ordenou pompas de herói, respeito total e detalhado a todos os ritos e costumes. Mas o corpo do desgraçado Polinices, o traidor, não terá sepultura” (Sófocles, 1996, p. 2). Antígona se opõe à proibição do tio e, não recebendo ajuda, cava o chão com as próprias mãos para garantir ao irmão um sepultamento minimamente digno. Ela é respeitosa aos ritos fúnebres a ponto de colocar em risco sua permanência em Tebas, por ter contrariado a ordem real e enterrado o irmão. Anastasia, em contrapartida, não cumpre a promessa de colocar o anel em Norah durante o seu funeral e descarta a joia em um abismo que supostamente não tem fim, o que impede que ela pudesse voltar atrás, arrepender-se e honrar a promessa.
Considerações finais
Considerando que um escritor deva escolher entre dois caminhos para compor suas narrativas, ou um macro, em que abordará grandes questões que se referem ao coletivo, ou um micro, em que focará em um detalhe ou drama individual, é possível afirmar que Maeve Brennan tem na segunda opção o seu estilo de escrita literária. Assim é, por exemplo, como ela aborda questões políticas concernentes à Irlanda pós-Independência. As referências à política nacional, que ocuparam tanto seus pais, são sutis em suas narrativas. Conforme sublinha Palko (2010, p. 25), em The Visitor Brennan opta pelo micro nível do pessoal, iluminando possíveis efeitos da política em vidas individuais.
Na novela, a autora constrói na casa da avó a metáfora à Irlanda nada acolhedora para jovens mulheres que, como ela, emigraram e fizeram escolhas que contrariam a tradição. No caso de Anastasia, a contrariedade foi seguir a mãe em detrimento de permanecer ao lado do pai, na Irlanda. Considerando a possibilidade de The Visitor ter sido escrita como uma resposta a The Uninvited, Brennan reforça a opinião de Dorothy Macardle de que a Irlanda não mudou realmente depois da revolução. Na nova configuração política, algumas mulheres seguiram perpetuando valores do passado, como a ressentida avó King. E outras não encontraram no país a brisa das mudanças sociais do pós-Primeira Guerra que soprou em outras nações, fazendo da Irlanda um lar pouco provável.
Entendendo The Visitor em concordância com a opinião política de Macardle, de que a Irlanda pós-Independência não se tornou um lugar acolhedor para a liberdade feminina, e lendo Anastasia como uma representação da nação entrando na vida adulta, podemos inferir que Maeve Brennan também nos diz com a novela de um não saber como agir da República da Irlanda depois de séculos de opressão e apagamento identitário.
Referências
- BRENNAN, Maeve. The Visitor Washington: Counterpoint, 2000.
- BRENNAN, Maeve. The Rose Garden: short stories. Washington: Counterpoint, 2001.
- BRENNAN, Maeve. The Springs of Affection Londres: Peninsula Press, 2023.
- CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer . 20. ed. Tradução de Ephraim Ferreira Alves, Petropólis: Vozes, 2013.
- JOYCE, James. Dublinenses Tradução de Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre: L&PM, 2012.
- JOYCE, James. Ulisses Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
- MACARDLE, Dorothy. The Uninvited Dublin: Tramp Press, 2016.
- MCWILLIAMS, Ellen. Maeve Brennan and James Joyce. Irish Studies Review, v. 26, n. 1, p. 111-123, 2018.
- PALKO, Abigail L. From The Uninvited to The Visitor: The Post-Independence Dilemma Faced by Irish Women Writers. Frontiers: A Journal of Women Studies, v. 31, n. 2, p. 1-34, 2010.
- PERROT, Michelle. História da vida privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. v.1.
- SÓFOCLES -. Antígona Tradução de Millôr Fernandes. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996.
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1
“Responding to the latente fears driving The Uninvited, the Ireland that Brennan depicts in her novela is unwelcoming to those who dare to align themselves with the mother” (Palko, 2010, p. 22).
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2
Filme dirigido por Lewis Allen, roteiro de Dodie Smith. No Brasil, recebeu o título O solar das almas perdidas.
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3
Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne (1791) (Perrot, 1991).
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4
Questão à qual podemos acrescentar as discussões atuais sobre o tratamento aos refugiados em território irlandês.
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5
“In the short story ‘The Joker’ (1952) Brennan critiques the myth of the male Irish artist as exile: an Irish poet exploits the Joycean model of exile, transforming it into a self-serving truism to compensate for his own failure as a writer” (McWilliams, 2018, p. 97)..
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6
“After the first few minutes her spirits rose and she fairly flew along the streets. Her mind soared easily away in a dream of some kind, and she forgot herself till at last she reached the gate of the house.” (Brennan, 1997, p. 34).
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7
“daughters such as Antigone have a choice between identifying with the patriarchy’s laws and obliterating the mother, or identifying with the mother at the cost of exclusion and self-destruction.” (Palko, 2010, p. 22).
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
