Resumo
Este artigo trata de aspectos histórico-educacionais de uma instituição católica criada pela Ordem dos Premonstratenses em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, que existiu de 1901 a 1914. O objetivo é compreender aspectos da cultura escolar e regional, a partir da obra ‘Três anos no Brasil’, escrita entre 1901 e 1904, constituída de relatos de viagens e imagens de autoria do Padre Schoenaers. Como referencial teórico-metodológico, adotou-se a abordagem da História Cultural, com pesquisa bibliográfica em fontes escritas e iconográficas. Como resultado, apresentamos a singularidade das fotografias e dos relatos estudados, que buscam dar visibilidade a uma escola católica, bem como a possibilidade de, a partir deles, fazer emergir aspectos de sua história.
Palavras-chave:
instituição educacional católica; Ordem dos Premonstratenses; fotografia; relatos de viagem
Abstract
This article addresses the historical-educational aspects of a Catholic institution established by the Premonstratensian Order in Jaguarão, Rio Grande do Sul, which existed from 1901 to 1914. The aim is to understand aspects of school and regional culture, drawing on the work Three Years in Brazil, written between 1901 and 1904, consisting of travel accounts and images produced by Father Schoenaers. As a theoretical and methodological framework, the Cultural History approach was adopted, with bibliographic research based on written and iconographic sources. As a result, we present the singularity of the photographs and accounts analyzed, which seek to give visibility to a Catholic school, as well as the possibility of eliciting aspects of its history from them.
Keywords:
Catholic educational institution; Premonstratensian Order; photography; travel accounts
Resumen
Este artículo trata de aspectos histórico-educativos de una institución católica creada por la Orden de los Premonstratenses en Jaguarão, en Rio Grande do Sul, que existió de 1901 a 1914. El objetivo es comprender aspectos de la cultura escolar y regional, a partir de la obra Tres años en Brasil, escrita entre 1901 y 1904, constituida por relatos de viaje e imágenes de autoría del Padre Schoenaers. Como marco teórico-metodológico, se adoptó el enfoque de la Historia Cultural, con investigación bibliográfica basada en fuentes escritas e iconográficas. Como resultado, presentamos la singularidad de las fotografías y relatos analizados, que buscan dar visibilidad a una escuela católica, así como la posibilidad de hacer emerger aspectos de su historia a partir de ellos.
Palabras clave:
institución educativa católica; Orden de los Premonstratenses; fotografía; relatos de viaje
Introdução
O presente artigo destaca possibilidades de análises e compreensão histórica dos primeiros anos de uma instituição educacional católica, pontuando aspectos de sua cultura escolar1 e da região onde ela está inserida, utilizando imagens2 (fotográficas e um desenho) e relatos escritos por um membro de uma congregação religiosa ainda pouco estudada no campo da história da educação brasileira, a ordem dos Premonstratenses, que fundou uma escola. Buscamos problematizar aspectos que envolveram a constituição e manutenção de uma instituição educacional católica de nível secundário quando de sua instalação, pontuando expectativas, práticas, público a que se destinava e aspectos culturais de seu entorno.
Este texto alinha-se a uma pesquisa maior que analisa a história do Gymnasio Espírito Santo3, criado pelos padres Premonstratenses da Abadia de Averbode na Bélgica, na cidade de Jaguarão, localizada no sul do Rio Grande do Sul (RS), na fronteira do Brasil com o Uruguai. Essa instituição era a única de ensino secundário na cidade, mas também atendia ao ensino primário, funcionou entre os anos de 1901 e 1914, e não se teve acesso à escrita ordinária da escola (Vidal & Abdala, 2005), aos documentos escritos internos, burocráticos e profissionais que pudessem sinalizar práticas e relações que ali eram estabelecidas.4
Sobre a prática escritural escolar realizada na instituição, em um período posterior ao aqui apresentado, foram analisados em outros estudos dez exemplares do jornal estudantil O Gymnasial, que circulou no ano de 1908 (Amaral & Machado, 2025). Também foram acessados resultados de atividades escolares (notas dos alunos, currículos e práticas escolares, disciplinas, nomes de docentes e discentes, dentre outros) divulgados em periódicos locais e regionais (Machado, 2024).
Sendo assim, diante da escassez de documentos escolares, uma fonte potencial dessa pesquisa foi o livro “Três anos no Brasil”, escrito pelo Padre Premonstratense Thomas Aquinas Schoenaers (2003), que lecionou no Gymnasio Espírito Santo desde sua criação. Esse livro, constituído por relatos documentados por fotografias, resultou de 59 cartas e 47 fotografias enviadas por ele à Abadia de Averbode, tendo sido publicado em idioma flamengo, em dois tomos, em 1904, pela tipografia dessa Abadia. Sua tradução para o português, no Brasil, ocorreu apenas em 2003. A edição brasileira, que será aqui analisada, possui um total de 463 páginas, incorporando o prefácio e as notas do organizador, Eduardo Alvarez de Souza Soares.
Dentre outros assuntos, em sua obra Schoenaers escreve sobre o cotidiano no Gymnasio Espírito Santo, o espaço, os sujeitos e as atividades que a ele se agregavam. Nas análises, temos presente que a sua percepção fotográfica e seus relatos se coadunavam às expectativas de um discurso que destacava a importância desta obra católica no município de Jaguarão. Isso em um período de expansão do projeto ultramontano da Igreja Católica na emergente república brasileira em que a educação era utilizada como ferramenta estratégica de evangelização e afirmação cultural e numa espacialidade que abrangia a metade sul do RS e região da campanha. Nesta região despontavam espaços urbanos de feições mais modernas e republicanas, carentes de instituições de ensino secundário que melhor preparassem lideranças econômicas e políticas. Este foi um espaço disputado e colonizado desde o século XVIII por portugueses e espanhóis, diferentemente da metade norte do estado, de ocupação mais tardia, onde se estabeleceram, principalmente, imigrantes alemães e italianos. Por esta razão, o sul e a campanha possuíam, neste período, maior número de pessoas de influência na vida pública do estado e do país. Este fato foi trazido pelo reitor do Colégio Gonzaga, de Pelotas, importante cidade da região sul do estado, em uma carta dirigida à congregação Jesuíta que mantinha esta escola de ensino secundário:
O Rio Grande do sul é o 3º ou o 4º em influência entre os estados do Brasil, muito revolucionário. O sul fornece muitos ministros, generais, etc., e para o Rio Grande do Sul, funcionários públicos graduados, médicos, advogados, engenheiros. Há muitos latifundiários. Nas colônias alemãs é tudo minifúndio e de lá não surgem pessoas de influência na vida pública (Parmagnani & Ruedel, 1995, p. 61).
Quanto ao ensino secundário no RS5, é interessante destacar que até a implantação da república, ele estava nas mãos da iniciativa privada, com indivíduos sendo proprietários de estabelecimentos escolares voltados a alunos que arcassem com o pagamento das aulas, configurando um ensino voltado para a elite. As iniciativas de instrução pública secundária limitaram-se à capital, Porto Alegre, com a criação do Liceu D. Afonso e do Atheneu Rio-Grandense, que não lograram êxito e deixaram de funcionar tão logo foram criados. Assim, o governo do estado passou a subvencionar a atuação das municipalidades e dos particulares no campo educacional. Tal fato permitia que “por mérito” raras exceções de alunos sem condições financeiras frequentassem instituições particulares de ensino com o auxílio do investimento público na educação privada. Este contexto em que o estado gaúcho se imiscuiu da atuação direta na criação de instituições educacionais oportunizou à Igreja Católica constituir uma ampla rede de ensino por todo o RS, com a forte atuação das ordens religiosas na expansão do ensino privado.
A vinda dos Premonstratenses para Jaguarão, um município de uma região onde a Igreja Católica não estava inserida e o ideário maçônico predominava junto à elite local, se justifica pelo incentivo da diocese de Porto Alegre, pelos desafios da Igreja e da Ordem Premonstratense em disseminar o catolicismo e pelo interesse das elites locais em possuir uma escola de qualidade para seus filhos. Ao que tudo indica, a elite acolheu estes padres e, por um tempo, relevou a disputa vigente entre católicos e maçons.
Neste contexto, é importante ter presente que a publicação do livro de Schoenaers não trouxe repercussão para o espaço nacional e regional onde se instalaram, uma vez que foi escrita em flamengo. Ele se constituiu em um artefato de poder e representação, ao dar visibilidade ao empreendimento dos Premonstratenses para a Ordem na Europa e para além dos muros da Abadia de Averbode. Chegou ao público católico leigo e de outras congregações religiosas que poderiam se engajar financeiramente à causa da disseminação do catolicismo pelo mundo. Temos que ter presente que a atuação transnacional das congregações católicas foi incentivada e respaldada pela encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII, em 1891 (Machado, 2024).
Essas afirmativas e outras percepções apresentadas a seguir surgem de indagações realizadas a esse documento/monumento6 que se constitui como uma fonte histórica: como ele se apresenta; sobre o que aborda; por quem, em que circunstâncias e para quem foi produzido. São questionamentos, constatações e encaminhamentos que criam uma narrativa inerente à operação historiográfica em que ligamos as ideias aos lugares (Certeau, 2000), fazendo do documento um objeto de reflexão, procedimento fundamental nas análises. Torna-se necessário articular o seu lugar de produção: “É em função deste lugar que se instauram os métodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questões, que lhes são propostas, se organizam” (Certeau, 2000, p. 67).
As fotografias apresentadas nesta obra retratam a fase inaugural do Gymnasio Espírito Santo, que ocorreu entre 1901 e 1904.7 Com o tempo, a escola se firmou como uma das principais instituições de ensino do interior do Rio Grande do Sul, especialmente entre 1905 e 1911. No entanto, a partir da reforma advinda da “Lei Rivadavia Corrêa” que vigorou de 1911 a 19158, o Gymnasio começou a enfrentar dificuldades financeiras as quais, junto a outros fatores, resultaram no seu fechamento no final de 1914. Neste ano, os Premonstratenses dirigiram-se para a cidade de Jaú no estado de São Paulo, onde assumiram o Colégio Jorge Tibiriçá (Atheneu Jauense).
A perspectiva epistemológica, bem como o referencial teórico-metodológico utilizado neste estudo, é a História Cultural (Certeau, 2000; Chartier, 2002, 2006; Burke, 2005), que fundamenta o estudo de Instituições Educativas (Magalhães, 2004, 2007) e o uso de fotografia (Kossoy, 1989; Ciavatta, 2009; Mauad, 2010; Oliveira, 2012) e relatos de viagem (Franco, 2001; Constantino, 2012) como fonte histórica. Em relação à cultura escolar e ao ambiente onde a escola está inserida, é importante trazer Faria Filho (2007), que enfatiza a relevância de levar em conta diferentes culturas institucionais que podem estar em acordo e/ou em desacordo com a escola e perceber como a escola se forma e é influenciada pelo ambiente urbano, pois “os sujeitos que a constroem guardam, eles também, diversos pertencimentos e identidades pelos quais as culturas escolares estarão continuamente informadas” (Faria Filho, 2007, p. 198).
Na análise aqui desenvolvida, as referências históricas locais, regionais e internacionais (Franco, 2001, 2007; Pesavento, 2014; Hobsbawm, 1998) e a legislação educacional (Tambara, 1996; Amaral, 2023) deste período foram fundamentais para a escrita.
Assim, a partir dos documentos iconográficos e dos relatos de Thomas Schoenaers, buscaremos identificar práticas e relações (Chartier, 2002, 2006) que sinalizem aspectos da história do Gymnasio Espírito Santo e da região onde ele se encontrava. Reiteramos que os questionamentos às fontes são fundamentais na pesquisa, afinal elas não se apresentam prontas e acabadas para serem lidas pelo historiador. Devem ser inquiridas sempre! Entendemos com isso a importância da procura de significados e significantes, pois é terreno comum dos historiadores culturais “a preocupação com o simbólico e suas interpretações” (Burke, 2005, p. 10).
Os premonstratenses de Averbode no Brasil e a obra “Três anos no Brasil”
Buscando ligar ideias a lugares, abordaremos brevemente os Premonstratenses de Averbode e sua intencionalidade de criar escolas no Brasil, especificamente em Jaguarão, assim como sobre a potencialidade da utilização do livro do Pe. Thomas Schoenaers como fonte de uma pesquisa histórico-educacional. Buscaremos, assim, referenciar os olhares das narrativas fotográficas e escritas do autor, que nos sinalizem para aspectos peculiares da cultura local e do Gymnasio Espírito Santo.
Os Premonstratenses são membros de uma ordem de cônegos regulares que recebeu esse nome devido à sua primeira abadia, estabelecida em 1120 na Diocese de Soissons, na França, no vale chamado de Prémontré. Eles também são denominados Norbertinos, em homenagem ao seu fundador, São Norberto9. Chegaram ao Brasil em 1894, com as possibilidades abertas pelas políticas adotadas pelo Estado brasileiro na recém-proclamada República, e também devido ao interesse ultramontano da Igreja Católica Romana de expansão do catolicismo via educação institucionalizada.
O Pe. Thomas Schoenaers era vinculado aos Premonstratenses da Abadia de Averbode, situada em Scherpenheuvel-Zichem, na arquidiocese de Malines-Bruxelas, na Bélgica. No Brasil, em 1897, o grupo de Averbode fundou o Colégio São Norberto em Pirapora do Bom Jesus/SP e, em Jaguarão/RS, o Gymnasio Espírito Santo em 1901. Também assumiram o Colégio São Vicente de Paulo em Petrópolis/RJ, em 1909, e o Atheneu Jauense em Jaú/SP, em 1915. Esta Ordem, em geral, acostumada com o processo pedagógico em seminários, veio para o Brasil com uma dupla responsabilidade: cuidar de igrejas (paróquias e seminários), mas, também, criar escolas para um público não seminarista. Esta última estava diretamente ligada à intenção de defender a predominância católica no Brasil, aproveitando a via educacional.10
Na Abadia de Averbode, Schoenaers dirigia a gráfica e um jornal informativo das atividades missionárias. Como dito anteriormente, desde sua saída da Bélgica, escreveu cartas que foram inicialmente publicadas nesse jornal e posteriormente agrupadas, as quais constituíram a obra “Três anos de Brasil”. Do prefácio deste livro, trazemos a seguir um excerto em que o autor justifica a publicação de sua “pequena obra”:
Querem eles que publique uma coleção das minhas cartas. Mas, afinal, quem são eles? Eles são, em primeiro lugar, amigos que querem manter amizade comigo e alimentá-la com a leitura do que aconteceu no Rio Grande do Sul. Em segundo lugar, os amantes da literatura que pretendem haver descoberto, nas minhas cartas, algum valor literário. Em terceiro lugar, minhas amadas e queridas Missões Brasileiras, às quais, espero, poderão extrair algo de útil desta pequena obra.
É interessante constatar que ele menciona, no prefácio, que irá apresentar o relato “do que aconteceu no Rio Grande do Sul”. Na realidade, será somente a partir da sétima carta que ele passará a escrever sobre o estado.
Nas primeiras cartas, ele relata sua viagem de Averbode até o Brasil, trazendo informações sobre os locais por onde passou e situações vividas durante a viagem. Especificamente sobre o percurso que levava à Jaguarão, ele evidencia a via marítima, lacustre e fluvial que facilitava o acesso a este importante município do estado e de destacada posição fronteiriça com o Uruguai, mas que carecia de estabelecimentos católicos de educação e da presença da Igreja Católica junto aos fiéis. É importante dizer que o potencial que representa a facilidade do transporte descrito por Schoenaers, é atualmente desconsiderado por políticas regionais e nacionais, o que resulta na perda de um possível protagonismo econômico e político de Jaguarão e de toda a região sul do estado.
Na virada do século XIX para o XX, há que se considerar que na região da campanha gaúcha, que faz fronteira ao sul com o Uruguai, havia fortes conexões entre ideais liberais, laicos, maçônicos e anticatólicos que se consolidavam na República Uruguaia. Este é um tempo em um espaço brasileiro em que os limites e fronteiras estabelecidos pelos estados-nação ainda se constituíam em suas identidades culturais. E, até os dias atuais, esta proximidade geográfica traz singularidades culturais à região sul do RS. Como será abordado a seguir, de acordo com os relatos de Schoenaers, o Gymnasio Espírito Santo recebia alunos uruguaios, aos quais era possibilitado o acesso à fé católica. Portanto, sua localização correspondia à expansão do ideário católico, cujas conexões vêm ao encontro de uma perspectiva transnacional de educação.11 Assim, a escolha dos Premonstratenses por Jaguarão para sediar uma escola de ensino secundário se justifica, também, pelo fato de existirem alunos com condições financeiras - advindas de atividades ligadas à pecuária - e carentes de uma formação que os alavancassem ao ensino superior ou a profissões condizentes com as expectativas de seu nível socioeconômico abastado.
Em suas cartas, as viagens são narradas por Thomas Schoenaers com a sutileza de um cronista encantado com as experiências vivenciadas desde sua saída da Europa, com as novas paisagens e relações humanas (inter-raciais, destacadamente) estabelecidas nas terras além-mar. Sua obra realmente possui o valor literário destacado em seu prefácio, pois há uma preocupação com a leveza estética da escrita na narrativa dos fatos, dos eventos, das ideias e dos sentimentos, causando em muitas passagens curiosidade, conhecimento e emoção nos seus leitores. Nesse sentido, devemos ter claro que objetivamos aqui apresentar e dialogar com o autor dos textos, com sua narrativa, talvez utilitária e idealizada, com sua “topografia de interesses” (Certeau, 2000) para compreender a realidade que ele vivencia e deseja apresentar para seus leitores. Em sua obra, está muito presente um relato de convencimento da importância do trabalho missionário realizado.
Loner e Gill (2012) são historiadoras que realizaram um estudo inicial sobre o que é apresentado na obra de Schoenaers12, destacando a importância de seu uso pelos historiadores. Segundo as autoras,
pode-se dizer que padre Thomas nos traz a visão de um outro Rio Grande do Sul, aquele das fronteiras, do cotidiano, muito mais concreto e real, cheio de pequenos detalhes importantes para os historiadores. Seu livro é muito interessante e fácil de ler, além de trazer um certo arejamento em visões muito científicas e arrogantes, de outros europeus, que não tiveram olhos para ver, como este, o povo em sua simplicidade e alegria. (Loner & Gill, 2012, pp. 267-268)
Segundo Adriaansen (2007)13, o Padre Thomas Schoenaers ministrava aulas de Matemática e de Esgrima. Possuía formação militar e era muito ligado às atividades literárias e artísticas, exercendo liderança no grupo de missionários que atuavam em Jaguarão junto à comunidade e ao Gymnasio Espírito Santo. Ele dominava uma tecnologia importante na virada do século XIX para o XX, a fotografia. Com sua máquina fotográfica, captou imagens que ilustraram seus relatos desde sua saída da Bélgica para o Brasil. No entanto, a capa de sua obra “Três anos no Brasil”, editada em 1904, apresentava uma imagem desenhada sobre o qual realizaremos inquirições e constatações que, de imediato, causam alguns estranhamentos a quem a observa.
É muito provável que esta representação visual tenha sido criada pelo próprio Schoenaers, que possuía certo talento para o desenho. Mas cabe questionar sobre a imagem de um gaúcho na capa de um livro cujo título é “Três anos no Brasil”. Contudo, mais abaixo, é identificado o nome do autor como ligado à Missão Premonstratense no Rio Grande do Sul.
Ao lermos as cartas de Schoenaers, especialmente a datada de 4 de novembro de 1901 (18ª carta), é possível entender sua perspectiva sobre o gaúcho. Nela, ele descreve sobre suas origens, maneira de viver, hospitalidade, religião e aspectos da região em que reside, o que facilita a interpretação da imagem que ilustra a capa do seu livro.
A imagem central mostra um gaúcho com traços que sugerem sua herança indígena, cabelos longos e um bigode característico da cultura europeia. Ele é a figura típica da região platina que passa a ser delimitada desde o século XVIII entre portugueses e espanhóis e, posteriormente, no século XIX, constitui os estados-nação (Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai).
No período aqui estudado, o gaúcho representa um cavaleiro habilidoso, cujas atividades e características extrapolam as fronteiras nacionais. Ele aparece na imagem com um lenço amarrado no pescoço e diversos instrumentos essenciais para suas atividades como campeiro que lida com o gado - como laço, cordas, facas e uma espingarda nas costas. Como vestimenta, usa camisa e bombacha, roupas largas que facilitam a dinâmica de seu trabalho. A cena retrata-o encostado em seu cavalo, parceiro imprescindível em suas atividades. O campo ao fundo evoca a região da campanha, a vasta pampa gaúcha, complementado por uma casa que combina a simplicidade de um galpão com o conforto e a sombra proporcionados pelas árvores nas proximidades. Vale ressaltar também nesta imagem a presença de uma palmeira (possivelmente um butiá), típica da área, que se estende pelas planícies do Uruguai. As folhas dessa palmeira formam um contorno ao redor da figura apresentada. Este desenho nos dias atuais pode soar comum, mas não o era no período em que foi produzido. A riqueza de detalhes apresentados diz muito sobre a realidade deste típico habitante da região.
Quanto às análises fotográficas, é importante esclarecer que, em relação à atuação dos Premonstratenses em Jaguarão e à obra “Três anos no Brasil”, que nos sinaliza aspectos da história do Gymnasio Espírito Santo, o Pe. Thomas Schoenaers é considerado como um “sujeito fotógrafo”. Nas palavras de Mauad (2010).
o sujeito fotógrafo é uma categoria histórica complexa que envolve a constituição de um agente histórico que possui competências variadas associadas às trajetórias e aos diferentes projetos elaborados na prática social de cada um. O registro fotográfico agenciado por esses sujeitos elabora uma interpretação variada e ampla do mundo visível, ao enquadrar outros sujeitos em situações variadas com propósitos dos mais distintos, molda em imagens a memória contemporânea - múltiplas memórias. Algumas delas elaboradas como evidências de fatos e acontecimentos, outras como retalhos de experiências cotidianas, ou ainda, como resíduos de reminiscências. (Mauad, 2010, p. 147)
O trabalho de Schoenaers foi definido pelo engajamento a uma causa (Mauad, 2010) específica: o projeto dos Premonstratenses de estabelecer instituições educacionais no Brasil, e, no caso aqui estudado, no município de Jaguarão. É com estas lentes que o fotógrafo realiza seu trabalho de “agente histórico”. É um padre e professor da escola que está sendo criada que apresenta fatos, acontecimentos e recortes de um cotidiano institucional. Sua intencionalidade é moldada nos relatos e fotos que deixam transparecer seu entusiasmo pela obra católica a ser realizada em Jaguarão. Seu total engajamento à causa e ao projeto no qual ele se insere potencializa sua função de “sujeito fotógrafo” que relata uma dada condição histórica que lhe traz muitos encantamentos.
É necessário ter claro que, na presente análise, ao lidarmos com os relatos escritos do próprio fotógrafo, somos desafiados a ir além da intencionalidade proposta pelo autor das imagens. Devemos levantar questionamentos e estranhamentos que podem preencher lacunas sobre a história do Gymnasio Espírito Santo.
Nesse sentido, deve estar presente o fato de que esta obra, que resulta de uma compilação de cartas e fotografias, pode-se enquadrar como um livro de relato de viagens que apresenta novos espaços a serem desbravados e novas possibilidades de expansão da fé católica, mormente via instituições educacionais. Constantino (2012, p. 8) nos lembra que “o uso de relato de viajantes como fontes à História é antigo e de indiscutível importância”. Entretanto, segundo a autora, hoje torna-se necessário estranhar, referenciando Ginzburg quando propõe o estranhamento daquilo que está posto no texto como verdade, suscitando novos entendimentos que trazem novas compreensões sobre o documento textual que será utilizado como fonte.
A obra do Pe. Schoenaers nos dá pistas para buscar outras informações importantes a fim de compreender a estruturação e as relações do Gymnasio Espírito Santo com a comunidade. Antes da chegada dos Premonstratenses, não havia um padre que estivesse a uma distância de menos de 20 horas de viagem. Como nos lembra Magalhães (2004, 2007), na escrita da história de uma instituição educativa, é necessário que a memória coletiva organizada pelo historiador emerja dos arquivos e das crônicas, dos textos que relatem fatos do cotidiano de forma livre e pessoal.
De maneira minuciosa, muitas vezes ao estilo de crônica, as quadras e casas da cidade, as festas populares e as festividades organizadas pelo Gymnasio, alguns estereótipos e a conduta utilizada pelos alunos, dentre outros, são enriquecidos com fotografias e relatos como, por exemplo, o escrito a seguir sobre a vestimenta e origem social dos alunos, quando ainda não estava instituído o uso do uniforme: “Diariamente os alunos vem à escola ricamente vestidos [...] são oriundos das famílias mais ricas de Jaguarão e, aqui quem pode, pode mesmo” (Schoenaers, 2003, p. 148).
A escrita das cartas nos permite identificar os conflitos de ideias com a maçonaria, assim como a importância da presença dos Premonstratenses para a região:
Quando meus confrades, em fevereiro passado abriram o colégio, não havia um estudante que conhecesse as orações comuns que um cristão conhece [...] Agora, todos estão ao par das orações, alguns pela primeira vez, se aproximaram dos santos sacramentos e oito deles, mensalmente se confessam e comungam. Por certo não é muito, mas devemos trabalhar com cautela e devagar, visto o poder de que goza, na cidade a maçonaria (Schoenaers, 2003, p. 149)
Nesse sentido, destaca o árduo trabalho a ser desenvolvido pelos padres, identificando o quão desafiador é o processo de conversão de indivíduos cultos, “mas atolados no pecado e sem consciência de sua própria natureza pervertida” (Schoenaers, 2003, p. 150).
Fotografias sobre Jaguarão e o Gymnasio Espírito Santo
A seguir serão apresentadas seis fotografias do livro “Três anos no Brasil”, escolhidas por representarem aspectos dos sujeitos e dos cotidianos culturais vivenciados em Jaguarão e no Gymnasio Espírito Santo. Advertimos que as fotografias foram digitalizadas do livro, o que limita a sua qualidade, mas ainda assim nos permitem observações a partir do olhar de Thomas Schoenaers.
O uso da fotografia como fonte de estudos históricos requer balizamentos que fundamentem essa prática. A fotografia começa a ganhar destaque a partir dos anos 1960, durante a chamada “revolução documental” (Kossoy, 1989). Esse autor sugere que se leve em consideração as diversas dimensões da fotografia, como memória e representação. Ele afirma que “toda fotografia representa o testemunho de uma criação. Por outro lado, ela representará sempre a criação de um testemunho” (Kossoy, 1989, p. 33). A imagem fotográfica é frequentemente entendida como representação do real, mas não o real em si. Oliveira (2012) destaca que a fotografia é reprodução e representação: “Reprodução, pois a fotografia capta uma cena que é reproduzida; representação, porque tal cena é uma escolha e, dessa forma, relaciona-se a uma série de escolhas que levam ao seu resultado final” (Oliveira, 2012, p. 37)
É pertinente a observação de Ciavatta (2009) em relação aos tempos que representam e constituem uma imagem fotográfica. A autora afirma que “há uma multiplicidade de tempos condensados na contemplação de uma fotografia: o tempo presente de quem contempla, o tempo das coisas fotografadas, o tempo do fotógrafo” (Ciavatta, 2009, p. 68).
Na análise das fotografias aqui apresentadas, precisamos lidar com esta complexidade, buscando ter presente suas múltiplas relações sociais, econômicas e culturais imbricadas. Nesse sentido, como afirmam Vidal & Abdala (2005, p. 178), é que reside a importância do uso da fotografia como fonte para a História e para a História da Educação, qual seja, na habilidade de retratar o “ontem e o outro em seus contornos de verdade”.
É importante dizer que, no começo do século XX, surgiu uma crescente popularidade das fotografias escolares, que passaram a ser vinculadas a outros gêneros, como fotos de família e imagens de paisagens urbanas, entre outros. Algumas análises sobre o assunto, como em Souza (2001), sugerem que as fotografias escolares estabelecem conexões significativas entre a memória familiar, como nos álbuns familiares, e a memória institucional. Nestas fotografias, é muito comum identificarmos fachadas de escolas, grupos de professores, salas de aula, em geral, todas buscando momentos especiais da vida escolar, que podem servir tanto para retratar a história da instituição quanto para recordações individuais. No entanto, como será observado aqui, há singularidades nas fotografias de Schoenaers, que servem mais para fundamentar seus relatos de uma instituição que está sendo criada e que necessita de investimentos, assim como peculiaridades cotidianas que o encantam e que servem para os historiadores da cultura refletirem.
A seguir, as fotos, capturadas ao ar livre, demonstram a preocupação do fotógrafo com o enquadramento e a composição das imagens para que todos aparecessem. A representação das imagens dos alunos (Figuras 2 e 3) demonstra certa espontaneidade e singularidade, talvez oriundas de serem estas as primeiras fotos realizadas com eles nos primeiros meses da escola. Era uma novidade com a qual eles estavam pouco familiarizados, cujo resultado final congelaria suas poses em um pedaço de papel. Não havia nem a vestimenta que os uniformizaria. Provavelmente, com o tempo, por conta dos uniformes e da efetiva incorporação da cultura militar na instituição educacional, comuns neste período, as fotografias escolares passaram a ser representadas de outra forma.
A imagem a seguir apresenta um grupo de alunos do internato em frente à escola, localizada no edifício que hoje abriga o Círculo Operário de Jaguarão, o que sugere ter sido capturada entre os meses de maio e agosto de 1902, período em que o Gymnasio funcionava naquele local.
Retomando Oliveira (2012), que afirma que fotografia é reprodução e representação, nesta fotografia, podemos perceber o fato de o fotógrafo ter priorizado que ficassem à frente os alunos uniformizados e mais atrás aqueles que estavam sem uniformes. Como consta no relato escrito, eles ainda estavam sendo confeccionados no alfaiate (Schoenaers, 2003, p. 259). Para resolver questões de enquadramento fotográfico, realizam a pose em um terreno que não é plano, para ajustar as diferentes alturas dos alunos. É possível utilizar um olhar “arqueológico” (Benito, 2017) sobre esta imagem que apresenta o uso de uma materialidade - a vestimenta dos alunos - seu uso institucional e social que os identificam e que compõem aspectos da cultura escolar e de uma dada camada social.
Todos estão com suas cabeças adornadas com chapéus ou quepes do uniforme, que talvez também cumpram com a função de proteção ou status de serem alunos internos e pertencentes à elite local, conforme afirmado pelo autor do livro. O chapéu, neste período, é uma distinção de elegância e status de responsabilidade do mundo adulto. Como são poucos os fotografados, diferentemente da foto a seguir (Figura 2), foi-lhes permitido que usassem seus chapéus. Nesta foto, é visível um certo ar de descontração dos alunos que não fazem uma pose uniforme e igual para serem fotografados, mesmo os que estão uniformizados à frente, embora se postem de forma ordenada. Esta imagem, assim como outras apresentadas nesta obra, veio enriquecida de informações que aparecem ao final da carta de 14 de julho de 1902:
Quatro deles vestem uniforme do colégio, de vez que o dos outros ainda segue nas mãos do alfaiate. [...]. Dos quatro que estão de uniforme, o major é uruguaio e, os outros três, primos e filhos de Santa Vitória do Palmar situada no extremo sul do Brasil, do outro lado da Lagoa Mirim. A segunda fila [...]: o da esquerda, de tez morena e fisionomia colérica, também é uruguaio, muito explosivo, porém capaz de estudar até os tijolos do muro. Ao seu lado, um aluno de casaco branco, filho de um capitão, que pereceu na última revolução e é uma figura tipicamente brasileira. O rapaz de preto representa a cidade de Arroio Grande, a quinze horas de distância em direção ao norte. Finalmente, à direita, o filho de um coronel da cidade, que esteve em Gent, na Bélgica, e muitas vezes vem comigo conversar sobre sua passagem pelo nosso país. Os três pequenos são muito inteligentes e provavelmente irão obter, nas competições com prêmios, as melhores posições. [...]. No colégio, tudo vai bem e a notícia de que em breve, receberemos forte ajuda, nos animou. Todas as semanas vêm novos alunos internos e o número total deve alcançar mais ou menos de oitenta e cinco a noventa. Foi-nos dito que ainda chegarão dois novos internos, de Santa Vitória do Palmar. Se é certo, não sei, mas apenas tenho ciência que não dispomos, de modo decente, de mais de duas vagas para hospedagem. (Schoenaers, 2003, p.259)
Essa narrativa nos oferece diversas informações, passíveis de questionamentos, além daquilo que é possível observar na imagem em preto e branco. Nela conseguimos deduzir as intenções do fotógrafo/relator ao identificar a origem do grupo de alunos, sua inserção na comunidade, suas potencialidades, e a necessidade do contínuo apoio dos Premonstratenses ao trabalho junto ao Gymnasio. Conforme apontamos, essa instituição educacional, gradativamente, foi recebendo alunos do Uruguai, país de orientação laica desde sua criação, e onde a Igreja Católica tinha dificuldades de atuar. O aluno uruguaio identificado por Schoenaers como de “tez morena e fisionomia colérica” seria um afrodescendente? Provavelmente sim. Talvez “filho de criação” de algum indivíduo mais abastado que podia arcar com seus estudos. Mas como que para compensar sua presença no grupo, o autor sinaliza para sua excepcional capacidade de estudo. A respeito de seu contato com o coronel, pai de um aluno, que esteve em Gent, percebe-se a intensão de comunicar sobre o contato da elite jaguarense com o “mundo civilizado europeu”.
É interessante observar que no Brasil a estrutura militar - uniformes, insígnias - era comum nos colégios desde a monarquia e se manteve no período republicano. Com o Decreto-Lei Federal nº 6.947, de 08/05/1908, que instituiu legalmente a instrução militar obrigatória nos Institutos de Ensino Superior e Secundário, o Gymnasio Espírito Santo designou um militar, indicado pelo governo, para oferecer instrução aos alunos com idade acima de 16 anos.
Ainda, a partir desta imagem associada à descrição de Schoenaers, percebe-se que há estudantes de localidades vizinhas, como Santa Vitória do Palmar14 e Arroio Grande (localizada entre os municípios de Jaguarão e Pelotas). Observamos a presença de um estudante que era descendente de um capitão que lutou na Revolução Federalista15, assim como outro que era filho de um coronel do Exército. É importante mencionar que Jaguarão surgiu de um acampamento militar e, nesse tempo, abrigava três contingentes das Forças Armadas. Essa região de fronteira com os países platinos até os dias atuais caracteriza-se por forte aparato militarizado, representado pela existência de muitos quartéis.
Schoenaers, ao salientar a crescente demanda pelo Gymnasio entre famílias das cidades circunvizinhas, tanto brasileiras quanto uruguaias, levanta um alerta quanto à escassez de vagas no internato para novos estudantes. Em várias de suas cartas, ele traz elementos sobre o crescimento do Gymnasio e a importância estratégica de sua localização na fronteira com o Uruguai. Assim, ele buscava sensibilizar os confrades na Bélgica para ajudarem financeiramente na implantação do colégio, com a compra de um casarão no final de 1902 e a futura construção de um prédio específico para funcionar uma instituição educacional, além de outras obras ligadas à Igreja, como a construção de sete capelas no interior do município. Pode-se inferir de seus relatos aspectos da cultura escolar ligados à classe social dos alunos e ao fato de que eles vinham de outros municípios e até mesmo do Uruguai. Neste trabalho inicial no Gymnasio, foi fundamental a articulação com membros da elite local e de além-fronteiras.
Dando sequência às análises, apresentamos outra foto, com um número maior de alunos, no pátio do Gymnasio, no mês de julho de 1901.
Essa imagem, de acordo com Schoenaers (2003, p. 148), não reúne a totalidade dos alunos, mas o grupo retratado representa de forma significativa o início do primeiro semestre de 1901, marcando assim os primórdios das atividades do Gymnasio. A câmera fotográfica não possibilitava a realização de fotos no interior do prédio da escola. A fotografia foi capturada no pátio do prédio, cuja precariedade do terreno poderia servir de estímulo para a captação de recursos. Dessa forma, uma fotografia com muitos alunos teria um peso maior, respaldava visualmente seus relatos. Eles foram possivelmente organizados por nível de escolaridade e idade, com os mais moços, do curso elementar, à frente.
Os estudantes estavam alinhados para a foto, mas não vestiam uniformes e exibiam uma atitude mais relaxada e descontraída. O importante era aparecer na foto e participar deste registro, um momento ainda novo para eles. Mesmo diante da qualidade precária desta fotografia, é possível perceber que faziam o que consideravam sua melhor pose diante do fotógrafo: seus braços estão ao longo do corpo, cruzados ou com o braço esquerdo junto ao peito, demonstrando certa elegância na postura. Vale ressaltar que o Pe. Schoenaers, ao que tudo indica, registrava locais, situações e pessoas sem a expectativa de um congelamento de uma situação que poderia ser fictícia.
Na Figura 4, veremos um grupo de alunos do curso elementar em uma aula de ginástica, em pose de esgrima.
O local desta imagem continua sendo o pátio do prédio alugado pelos Premonstratenses. A datação é próxima à da foto anterior, ainda no primeiro semestre de 1901, portanto os alunos ainda não possuem seus uniformes. Vemos que os alunos, no entorno dos que exercitavam a esgrima, se colocavam de forma bastante observadora, com os braços cruzados. Tal posição foi provavelmente reforçada pelo fotógrafo, em busca de uma postura que remetesse à ideia de um militar atento. Os dois esgrimistas que estavam com os “paus” ao invés de espadas se encontravam com quepes, o que também os destacava na prática do exercício.
O professor de esgrima era Thomas Schoenaers, que em seus relatos transparece ser um entusiasta de práticas militares no processo educacional. Comenta que os alunos “trabalham com um pau (fazendo às vezes de espada) e, com mais tempo e exercícios, em breve irão fazer a barba (melhor, o bigode, porque não usam barba)” (Schoenaers, 2003, p. 151). Segundo ele, os alunos aspiravam ser agraciados com a insígnia de “tenente”, prometida ao final dessa atividade. Essa era uma forma, conforme Schoenaers, de eles se dedicarem a um treinamento mais competitivo para conquistarem a insígnia que adornaria a manga do uniforme. Essa abordagem reflete a emulação, a premiação, a meritocracia que vinha ao encontro da disciplina, do esforço individual, da obediência a regras, de atividades ao ar livre, fora do espaço convencional da sala de aula. Essas práticas eram inspiradas na ratio studiorum jesuítica16, que ainda influenciava metodologias e práticas educacionais neste período e que muito influenciou na cultura escolar de instituições católicas. Estes são aspectos da cultura escolar do Gymnasio Espírito Santo desde seu primeiro ano de existência. Apresentamos, aqui, fragmentos de ações, discursos, sujeitos e objetos que remetem à experiência (Benito, 2017) do trabalho nesta escola. Na observação desta fotografia, associada aos registros de cavalgadas com os alunos e caçadas realizadas nas férias de verão, é demonstrado o caráter disciplinar do grupo e de dinâmicas ao ar livre.
A próxima fotografia leva-nos a pensar sobre as atividades propostas no Gymnasio desde seus primórdios, que envolviam, naquele momento, o teatro, mas também banda marcial, como é relatado por Schoenaers (2003). Aos poucos foi surgindo uma agremiação estudantil (União Gymnasial), criada, provavelmente, em 1907, que organizou vários saraus literários e a edição de pelo menos 10 exemplares de um periódico estudantil, “O Gymnasial”, no ano de 1908. Essas são práticas que faziam parte da cultura escolar de colégios católicos de ensino secundário mais qualificados do país, e objetivavam também atender à legislação vigente para se equipararem ao Colégio Pedro II. Isso, tendo em vista uma educação católica voltada para a formação da elite dirigente, que prezasse acima de tudo os valores cristãos católicos.
Na fotografia a seguir, estão estudantes que participaram da peça teatral apresentada no dia 22 de dezembro de 1901, no Centro Republicano. De acordo com a 21ª carta, de 30 de dezembro de 1901, esta fotografia estampa os alunos que atuaram no drama, sendo que não havia nenhum com mais de 17 anos.
Três dos alunos, como podemos observar e pelo relato do Pe. Schoenaers, carregam suas medalhas presas ao peito. Com braços estendidos junto ao corpo, a posição ereta e seu olhar para a câmera demonstram indisfarçável orgulho da premiação recebida. Eles são os principais atores. Junto a eles estão o vigário da vila de Artigas, no Uruguai (atual Río Branco), o vigário de Jaguarão, o Padre Josué, o Prior, os Cônegos Raphael Goris e Tomas Schoenaers e o professor de piano, senhor David (Schoenaers, 2003, p. 195-196). A fotografia não foi tirada por Schoenaers, que talvez tenha auxiliado o fotógrafo para enquadrar todos da melhor maneira.
A seguir, finalizamos com uma fotografia que registra a apresentação do Bumba Meu Boi, em um desfile da população de negros em Jaguarão. Esta festa popular, comum nas regiões norte e nordeste do Brasil e praticamente inexistente no sul, combina música, dança e brincadeiras. Foi trazida pelos portugueses no século XVIII em comemoração ao Dia de Reis, e apropriada pelas populações afro-brasileiras como uma expressão cultural de resistência.
Como já apontado, Schoenaers tinha um olhar atento sobre as relações inter-raciais e culturais presentes nas terras brasileiras que aguçavam sua curiosidade e fascínio. Esta fotografia e o seu relato demonstram seu interesse em contextualizar diferenças culturais vivenciadas em distintos espaços da cidade.
As apresentações do Bumba Meu Boi eram realizadas pelos negros à noite, na periferia urbana, porém esta foto foi feita às 17h, em ensaio para apresentação noturna (Schoenaers, 2003, p. 322). Esta população era numerosa, representando importante mão de obra na construção da cidade e nas lides campeiras. Segundo ele, os componentes estavam muito honrados e orgulhosos de terem sido fotografados. O Cônego ainda comenta que “o grupo aparenta ser agradável e curioso, e a dança que executam tem raízes tão africanas e selvagens, se bem que com certa cadência e é acompanhada de delicada coreografia que nada tem em comum com as tolas polcas e valsas europeias” (Schoenaers, 2003, p. 321). Não foram poucas as vezes em que o autor comparava as manifestações locais com as realizadas pelos compatriotas na Bélgica. Sua forma elogiosa, destoava da visão de estrangeiros que visitaram o Brasil neste período, que destacavam os costumes locais de forma negativa e depreciativa e que, conforme Loner e Gill (2012, p. 261), “viam no negro pouco mais do que um animal de carga, imerso em malefícios ou superstições”. Ao que tudo indica, este foi um tempo em que a religiosidade e as festividades dos negros, havia pouco libertos oficialmente da escravidão, não representavam perigo à implantação e expansão do catolicismo. Eles eram, talvez, uma importante mão de obra para empreitada missionária dos Premonstratenses. Os “elementos perigosos” eram os maçons e protestantes, considerados inimigos da Igreja Católica.
Como afirma Schoenaers (2003, p.165)
Pudéssemos, por exemplo, abrir uma escola dominical ou um patronato para rapazes negros, que, embora marginalizados, compareceriam em massa, ávidos que estão em aprender ao mais alto nível. Que boa oportunidade para o ensino e que exemplo para reforçar os sentimentos religiosos em seus corações. [...] Os padres de Jaguarão talvez pudessem não apenas adequadamente equipar seu colégio, mas também instituir uma bela fundação para os negros jovens e, assim, salvar muitas almas dos abismos que as engolem para sempre.
Ao observar esta fotografia e os relatos de Schoenaers, continuamos a perceber seu intuito de indicar aos europeus que os negros, ex-escravizados, constituem traços de civilidade em sua cultura e nas relações inter-raciais. Percebe-se sua intenção de convencimento do investimento da obra educacional dos Premonstratenses em Jaguarão para além do Gymnasio, um lugar tranquilo em que não haveria o que ser temido em relação à inserção dos negros na comunidade. Essa é uma história (outra história?) sobre a qual há muito o que se dizer, mas que registramos aqui como uma característica da cultura local, assim como a singularidade da possível atuação dos missionários Premonstratenses de Jaguarão junto às populações mais vulneráveis, que não chegou a ser concretizada.
Considerações finais
Reiteramos a importância deste artigo sobre a obra dos Premonstratenses junto à educação brasileira, uma vez que os estudos sobre esta ordem religiosa, no campo da História da Educação, ainda são escassos. Outrossim, reiteramos que este artigo é um recorte de um estudo maior que trata da história do Gymnasio Espirito Santo no período de 1901 a 1914.
Constatamos aqui que a realização de uma pesquisa histórica de uma dada instituição educacional, sobre a qual há poucos indícios de documentos internos e burocráticos, pode nos levar a interessantes caminhos a serem trilhados. Inclusive, trabalhamos aqui com documentos/monumentos dos quais historiadores se apropriam há muito tempo, como é o caso dos relatos de viagens, assim como outros que se constituem como ‘novidade’ desde meados do século XX, como as fotografias.
Fundamentados numa revisão bibliográfica sobre as temáticas abordadas e nas fotografias e relatos feitos pelo Padre Thomas Schoenaers, apresentamos relações entre o documento fotográfico e o complexo de informações de um mundo visível que nele se acham inscritas e circunscritas, como nos propõe Kossoy (1989). Isso, baseados na intencionalidade e objetivo do trabalho do sujeito-fotógrafo, autor do documento/monumento que foi o livro aqui analisado, e que era um membro da congregação que criou e mantinha o Gymnasio Espírito Santo em Jaguarão.
As fotografias analisadas apresentam singularidades que sinalizam a sua intencionalidade e que talvez difiram de fotografias escolares de outras instituições deste período. Com o intuito de demonstrar o início das obras em Jaguarão e a importância de investimentos dos Premonstratenses, o fotógrafo destaca o espaço e os grupos que ainda estão se constituindo. É notória a precariedade das instalações, a falta de uniformes dos alunos, as improvisações nas atividades, a busca de uniformidade dos alunos que se juntam descontraidamente para a fotografia. Alguns ainda desconfiados com esta nova tecnologia que ‘congela’ uma realidade. Percebe-se que o sujeito-fotógrafo consegue ‘congelar’ bem a realidade a ser demonstrada também pelos relatos: a necessidade de organização de um grupo com potencialidades, mas que ainda não incorporou a necessária organização e ordenamento advindo do ambiente escolarizado a ser construído.
É importante ressaltar que muitas fotografias escolares ao longo do século XX objetivavam retratar e enaltecer uma instituição já estabelecida, dando visibilidade a expectativas educacionais vigentes sobre o ensino laico ou confessional, público ou privado, primário ou secundário, técnico ou regular. Destacam a ordem estabelecida, o grupo de professores e alunos, o currículo, as práticas escolares, as atividades complementares, a espacialidade da instituição que a singulariza como o prédio, as salas de aula, os setores administrativos, capelas, pátio, dentre outras. Enfim, são fotografias de instituições que pretendem dar visibilidade ao que a instituição tem de melhor. Geralmente, essas são fotografias que acessamos em acervos pessoais e institucionais. Mas é preciso esclarecer que tanto no caso das fotografias do Gymnasio Espírito Santo quanto no dessas fotografias mais enaltecedoras, está presente a intencionalidade do documento fotográfico construído, representando muitas possibilidades de análises e reflexões aos historiadores da cultura escolar.
A obra do Pe. Schoenaers nos traz vestígios materiais do Gymnasio Espirito Santo como “objetos informadores” (Benito, 2017) que desvelam silêncios de um passado sobre o qual se tem pouco acesso e intercalam imagens, personagens e experiências. Os relatos e fotografias analisados, mesmo direcionados à intencionalidade da sua produção e circulação, nos contam sobre a instituição educacional, as práticas executadas pelos docentes e alunos, aspectos da cultura regional, assim como as expectativas de consolidação do catolicismo junto à comunidade.
Importa dizer que, mesmo que tenhamos apresentado aqui um recorte pequeno de uma obra de mais de 400 páginas, com muitas fotografias e 59 cartas, conseguimos contemplar os questionamentos inicialmente propostos sobre aspectos do Gymnasio Espírito Santo e seu entorno. E, ao que tudo indica, o trabalho oriundo dos relatos e fotografias com descrições do cotidiano escolar e urbano de Jaguarão enviadas por Schoenaers sensibilizou e convenceu os Premonstratenses a investir em seu projeto educacional além-mar.
Com o aumento dos auxílios, o Gymnasio, já a partir de 1905, se transforma numa das principais instituições educativas do RS, recebendo a equiparação legal com o Colégio Pedro II. Para abrigá-lo, foi construído em 1910 um edifício de três pavimentos em estilo de palacete, o qual foi tombado, em 2011, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A partir da Reforma Rivadávia Correa, em 1911, conforme apontamos, a escola passa a ter problemas, que, associados a outros fatores, como o início da Primeira Guerra Mundial, levaram ao fechamento no final de 1914. Dessa forma, a equipe do Gymnasio se dirige para Jaú/SP, onde assume o Colégio Jorge Tibiriçá (Atheneu Jauense).
Com o passar do tempo, no prédio construído pelos Premonstratenses em Jaguarão, surgiram pelo menos três escolas que existem até hoje, das quais duas estão em prédios novos e uma encontra-se instalada na própria edificação.
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Rodadas de avaliação:
R1: dois convites; nenhum parecer recebido.R2: dois convites; um parecer recebido.R3: dois convites; um parecer recebido.R4: dois convites; um parecer recebido.
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Como citar este artigo:
Amaral, G. L. do, & Machado, C. J. A. “Três anos no Brasil”: imagens e relatos de um Premonstratense sobre o Gymnasio Espírito Santo em Jaguarão, RS (1901-1904). Revista Brasileira de História da Educação, 26, e410. DOI: https://doi.org/10.4025/rbhe.v26.2026.e410
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Financiamento:
A RBHE conta com apoio da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) e do Programa Editorial (Chamada Nº 30/2023) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
Cultura escolar entendida como conjunto de práticas que permitem a transmissão de conhecimentos que implicará em comportamentos e produções num espaço e tempo determinados (Viñao Frago, 1995; Benito, 2017).
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2
Apresentamos a expressão imagens uma vez que fotografias e desenho são representações que resultam de distintos suportes e procedimentos.
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3
Será utilizada a grafia original “gymnasio”.
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4
É provável que com o fechamento da escola sua documentação tenha sido enviada para a Abadia de Averbode ou para a Casa dos Premonstratenses, em Roma. Porém, até o momento não nos foi possível acessá-los.
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5
Sobre o assunto, ver, dentre outros, Tambara, Arriada e Amaral (2021).
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6
Para Le Goff (2013), o documento, entendido como “prova”, é monumento - tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação.
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7
Em 1903, os Premonstratenses adquiriram um prédio onde hoje é a Casa de Cultura de Jaguarão. Em 1908, o gymnasio foi equiparado ao Colégio D. Pedro II (conforme legislação federal à época). Em 1910, construíram um edifício de três andares para funcionar a instituição educacional, sendo um prédio de grande relevância, tombado em 2011, junto com o centro histórico, pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
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8
Rivadávia Correa, natural de Santana do Livramento, município da campanha gaúcha, fronteiriço ao Uruguai, foi ministro do governo de Hermes da Fonseca. A Lei nº 8.659, de 05 de abril de 1911, ficou conhecida como “Lei Rivadávia Correa” e, inspirada nos pressupostos positivistas, propunha reformar a educação no Brasil, estabelecendo o ensino livre e retirando do Estado o poder de intervir no setor educacional. O ensino passou a ser de frequência não obrigatória, os diplomas foram abolidos e houve a criação de exames de admissão às faculdades, o que resultou no fechamento de várias instituições de ensino de nível secundário no país e no RS. Sobre o assunto, ver Tambara (1996) e Amaral (2023).
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9
Convertido em 1115, São Norberto foi cônego regular em Xanten, na diocese de Colônia, na Alemanha. Adotou a regra de Santo Agostinho como inspiração básica da vida em comum dos religiosos. Em 1126, foi nomeado Arcebispo de Magdeburgo, na Alemanha. A nova Ordem foi aprovada neste mesmo ano pelo Papa Honório II.
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10
Sobre a vinda de ordens religiosas para o Brasil para dedicar-se à educação, ver Azzi (1994) e Gonçalves Neto (2013).
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11
Sobre este assunto, ver Amaral (2024).
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12
Em seu texto, enfocam questões relativas à “cultura da fronteira, como a religiosidade, a música, cuidados com a saúde e higiene, além da análise sobre as relações entre negros e brancos” (Loner e Gill, 2012, p. 254 e 255).
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13
Cônego averbodiense, que atuou e viveu quase 50 anos no Brasil, e conviveu com os primeiros padres aqui estabelecidos. Em 1954, de volta a Averbode, redigiu um relatório a pedido da revista "Pikkelpoort", que publicava atividades dos averbodienses, de dentro e de fora da Abadia. O texto foi traduzido para o português pelo Cônego Godofredo Chantrain e publicado em 2007.
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Situada do outro lado da Lagoa Mirim, ao sul de Jaguarão, Santa Vitória do Palmar também faz fronteira com o Uruguai. Naquela época, o deslocamento entre essas áreas era feito através de barcos a vapor que percorriam a lagoa, o que as qualificava como cidades vizinhas. Atualmente, a rota é realizada por estrada, sendo que o caminho mais curto é pelo Uruguai.
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Conflito ocorrido na Região Sul do Brasil, entre os anos de 1893 e 1895, caracterizado pela crueldade de ambos os lados e que deixou milhares de vítimas no Estado. A disputa pelo poder político era travada entre duas forças políticas - os republicanos castilhistas (ligados ao governador Júlio de Castilhos) e, de outro lado, os federalistas ligados ao líder Silveira Martins.
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A ordem dos jesuítas ou Companhia de Jesus surgiu no movimento da Contrarreforma Católica no século XVI. A denominação “Companhia” e a organização hierárquica dos “soldados de Cristo”, como eram conhecidos, remetem à influência militar em sua atuação junto à educação.
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.







Nota. De Três anos no Brasil: Thomas Aquinas
Nota. De Três anos no Brasil: Thomas Aquinas
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