Open-access Moral, educação e República no contexto dos anos de 1920 e 1930 no Brasil

Nogueira, J. V. J. O.. 2023. Educação moral. Análise das matrizes católicas e liberais para uma formação moral republicana nos centros de poder do Brasil dos anos de 1920 e 1930. Fi

Introdução

O livro é fruto de uma dissertação de mestrado do historiador João Victor de Jesus Oliveira Nogueira, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, sob a orientação da professora Cynthia Greive Veiga. O trabalho tem como objeto o confronto entre intelectuais e educadores brasileiros liberais e católicos nas décadas de 1920 e 1930, um período de significativas mudanças socioculturais e inovações tecnológicas. Tal confronto girava em torno de uma questão: qual a necessidade da educação moral para a educação brasileira? Em um contexto de tantas controvérsias sobre o que ensinar acerca da moralidade nas escolas, a obra em questão joga luzes sobre as raízes desse debate.

O autor destaca a criação da Associação Brasileira de Educadores (ABE) no ano de 1924, a fundação do Ministério da Educação e Saúde em 1931 e o lançamento do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova em 1932 como momentos tanto fundamentais quanto contraditórios em suas formulações. Para os liberais como para os católicos, a dimensão do trabalho era um elemento unificador. Ambos os grupos defendiam uma visão moral sobre o trabalho, calcada nos princípios de regeneração e, de certa forma, alinhada a uma perspectiva cristã.

Os nomes de referência para o grupo católico são Alceu Amoroso Lima, Jonathas Serrano e Álvaro Negromonte. Dentre os autores liberais, citam-se Sampaio Dória, Lourenço Filho e Fernando de Azevedo, também ligados ao escolanovismo.

Estrutura da obra

A obra contêm quatro capítulos, 322 páginas, incluindo uma apresentação realizada pelo professor emérito da UFMG Carlos Roberto Jamil Cury (Cury, 1988), que foi presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O professor Cury destaca que o livro em questão, embora tenha por objeto autores da região Sudeste, alcança um painel significativo de como a sociedade brasileira da época tratou a pauta dos costumes, com desdobramentos até os dias de hoje. Já o prefácio escrito pela orientadora Cynthia Greive Veiga (Veiga, 2007) destaca como o autor identifica uma visão dual sobre educação na República: a escola ou era “portadora do bem” (para os liberais), ou era doutrinadora e do “mal” (para os católicos).

Logo depois da Introdução, o capítulo “Matrizes da educação moral católica” mostra como os católicos, na defesa de uma educação cristã, privilegiavam um ponto de vista disciplinar. Tratava-se de uma “filosofia de vida”, que asseguraria a moralização da sociedade. O autor analisa os escritores mencionados se perguntando de qual moral eles falavam.

O capítulo “Matrizes da educação moral liberal” discute como o liberalismo trocava uma perspectiva individualista pela ideia de bem comunitário. Essa reformulação moral criaria uma sociedade mais próspera e feliz, em que a cooperação seria uma ação social. A moral de cada um dos escritores liberais é dimensionada em suas convergências e diferenças.

considerações finais

As premissas defendidas pelos católicos, sobretudo nas ideias de Alceu Amoroso Lima, Jonathas Serrano e Álvaro Negromonte, permitem vislumbrar uma perspectiva moderna permeável à ideia de salvação. Propunha-se uma pedagogia moral dirigida às crianças de forma padronizada, que trocasse a paixão pela conversão ao cristianismo e pela contenção dos corpos e desejos para o objetivo moralizador do trabalho.

Já na perspectiva liberal, o projeto civilizatório previa uma sociedade voltada para o trabalho e o progresso capitalista. Segundo o autor, assim como os católicos, os liberais encaravam os indivíduos sob o prisma da predestinação, determinada pela realidade social dos grupos. Em suma, enquanto a predestinação dos católicos era espiritual, no liberalismo ela era social, visto que a realidade de classes e as desigualdades não eram questionadas.

Os católicos buscavam recatolicizar o mundo, em nome do bem que fora ameaçado por um mal, ou seja, as forças laicas. Já o liberalismo, que se pautava na ideia de laicidade, buscava pela educação a transformação por meio do trabalho, sem pôr em xeque as estruturas de força e de desigualdade do capitalismo. Nesse contexto, os debates sobre democracia ficavam cerceados:

O que fica, para a nossa análise, no entanto, é a compreensão que tanto liberais quanto católicos, em seus anseios de cercear intelectuais do mesmo grupo ideológico ou do grupo de ideologia oposta, contribuíram para dificultar a possibilidade de se imaginar uma sociedade instituída por um imaginário moral construído na teia de relações efetivamente autônomas e democráticas (Nogueira, 2023, p. 306).

A perspectiva de moralidade instituída não abrangia a lógica dos direitos individuais no âmbito da educação e do trabalho. Mesmo com dissonâncias de “método”, as visões dos escritores analisados estavam bem próximas: a moralidade servia como eixo conformador da sociedade, dentro da qual a educação tinha um papel estrutural, o de fazer o indivíduo se adaptar a sua situação de mundo e contribuir para uma sociedade já previamente bem dividida.

No Brasil republicano, a política de restauração católica e a favor de uma educação moral católica e o movimento dos renovadores, que propunham uma educação moral liberal, convergiam numa pauta ideológica conservadora, dentro de um país colonizado e de raízes escravocratas, em que a educação era privilégio de uma parcela reduzida da população. A República impunha a questão de como as camadas populares se enxergariam dentro da sociedade brasileira e com qual senso de moralidade. Naquele momento, como ainda hoje, estava em disputa o controle da educação e dos indivíduos (Carvalho, 2003). Recomenda-se a leitura dessa obra.

Referências

  • Carvalho, J. M. de. (2003). Os três povos da República. Revista USP, (59), 96-115.
  • Cury, C. R. J. (1988). Ideologia e educação brasileira: Católicos e liberais (4ª ed.). Cortez.
  • Nogueira, J. V. J. O. (2023). Educação moral: Análise das matrizes católicas e liberais para uma formação republicana nos centros de poder do Brasil dos anos de 1920 a 1930. Fi.
  • Veiga, C. G. (2007). História da educação. Ática.
  • Como citar esta resenha:
    Vaz, A. C. (2025). Moral, educação e República no contexto dos anos de 1920 e 1930 no Brasil. Revista Brasileira de História da Educação, 25. DOI: http://doi.org/10.4025/rbhe.v25.2025.e398
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Jan 2025
  • Aceito
    26 Mar 2025
  • Publicado
    06 Jan 2026
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