RESUMO
Este artigo analisa a relação entre o ideário político de João Pinheiro da Silva, destacado estadista mineiro do início do século XX, e a atuação de Israel Pinheiro da Silva e Dermeval José Pimenta na condução de projetos vinculados à Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Busca-se compreender em que medida o legado intelectual de João Pinheiro, marcado pela defesa da industrialização, da valorização do interior e da infraestrutura como eixo de integração nacional, reverberou nas práticas de seus sucessores. O estudo fundamenta-se em análise documental e bibliográfica, com especial atenção à trajetória da CVRD como instrumento estratégico do nacional-desenvolvimentismo. A investigação evidencia tanto continuidades quanto rupturas. Em síntese, o trabalho contribui para uma compreensão mais crítica da formação do pensamento desenvolvimentista brasileiro e do papel da elite técnica mineira na articulação entre memória política e transformação econômica.
Palavras-chave:
João Pinheiro da Silva; Israel Pinheiro; Dermeval Pimenta; Vale do Rio Doce; Desenvolvimento econômico
ABSTRACT
This article analyzes the relationship between the political ideology of João Pinheiro da Silva, a prominent statesman from Minas Gerais in the early 20th century, and the actions of Israel Pinheiro da Silva and Dermeval José Pimenta in conducting projects linked to Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). It seeks to understand the extent to which João Pinheiro’s intellectual legacy, marked by his defense of industrialization, the valorization of the interior, and infrastructure as the axis of national integration, reverberated in the practices of his successors. The study is based on documentary and bibliographic analysis, with special attention to CVRD’s trajectory as a strategic instrument of national developmentalism. The research highlights both continuities and ruptures. In summary, the work contributes to a more critical understanding of the formation of Brazilian developmentalist thinking and the role of the technical elite of Minas Gerais in the articulation between political memory and economic transformation.
Keywords:
João Pinheiro da Silva; Israel Pinheiro; Dermeval Pimenta; Vale do Rio Doce; Economic Development
INTRODUÇÃO
O alvorecer da República no Brasil foi marcado por intensos debates sobre os rumos do país, em um contexto de profundas transformações sociais, políticas e econômicas. Nesse cenário, nasceu João Pinheiro da Silva, na cidade do Serro, localizada na região nordeste de Minas Gerais, próxima a Diamantina, em 16 de dezembro de 1860, filho de Giuseppe Pignataro e Carolina Augusta de Morais. Conforme Pereira (2016), seu pai, imigrante italiano e caldeireiro, chegou ao Brasil em 1848, abrasileirando o nome para José Pinheiro da Silva. Sua mãe, natural de Caeté, era filha de um professor primário. João Pinheiro foi o terceiro dos três filhos do casal; seus irmãos eram José, nascido em 1856, que se tornou padre, e João, nascido em 1859, que faleceu ainda bebê.
João Pinheiro estudou no Seminário de Mariana gratuitamente até concluir o ensino secundário e, em 1881, ingressou na Escola de Engenharia de Minas, em Ouro Preto, criada em 1875, uma das primeiras escolas de engenharia do país. Apesar de não possuir grandes recursos financeiros, conseguiu se inserir em uma instituição de prestígio e referência na época (Carvalho, 2002). Segundo Gomes (2005), em consonância com Barbosa (1966), João Pinheiro, não se identificando com a engenharia, mudou-se para São Paulo em 1883, para cursar a Faculdade de Direito, instituição de grande prestígio que formava parte significativa da elite nacional e oferecia oportunidades em carreiras jurídicas e administrativas (Oliveira, 2009).
Conforme esse breve repertório, os dados biográficos sobre João Pinheiro da Silva (1860-1908) ajudam a compreender a formação intelectual e prática que influenciaria seus descendentes na defesa do desenvolvimento econômico e da industrialização de Minas Gerais. Desde cedo, teve contato com atividades ligadas ao trabalho fabril, uma vez que seu pai exercia a profissão de caldeireiro, ofício que exigia conhecimentos técnicos aplicados à manufatura de equipamentos. Posteriormente, fundou em Caeté - cidade natal de sua esposa - uma pequena indústria de cerâmica dedicada à produção de louças finas e porcelanas, experiência que revela seu interesse pelo setor industrial, ainda que de forma incipiente (Barbosa, 1966). Essa vivência o credenciou, em 1903, a ser convidado pelo então presidente de Minas Gerais, Francisco Sales (1902-1906), para presidir o I Congresso Agrícola, Comercial e Industrial do Estado, evento pioneiro em Minas e no Brasil, voltado ao debate dos problemas econômicos e à busca de alternativas para a diversificação produtiva regional (Coelho, 1999). A comissão do congresso, liderada por João Pinheiro, organizou estudos sobre a formação de Minas Gerais e coordenou atividades relacionadas a agricultura, pecuária, indústria e educação no campo, com vistas à reconstrução econômica da região (Barbosa, 1966).
Para João Pinheiro, o fortalecimento da agricultura, aliado a medidas protecionistas para produtos considerados básicos, como café, algodão, fumo, carne e derivados do leite, não beneficiaria apenas Minas Gerais, mas toda a economia nacional (Barbosa, 1966). Seu pensamento emergiu como uma voz influente, moldada pelo positivismo, que buscava compreender a organização social e econômica do Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX. Sua vida, interrompida, prematuramente, aos 47 anos, impediu a concretização de muitos projetos que concebeu.
Para fins de análise da continuidade ou (des)continuidade do ideário político familiar a partir de Minas Gerais, este estudo concentra-se nas atuações de seu filho, Israel Pinheiro da Silva (1896-1973), e de seu genro, Dermeval José Pimenta (1890-1991), buscando compreender as possíveis conexões entre suas ações e o pensamento pioneiro de João Pinheiro. A investigação analisa o contexto do desenvolvimento econômico e industrial do Brasil, destacando a industrialização do interior e o papel desempenhado pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).
A questão central desta pesquisa é entender se - e como - as ideias de João Pinheiro foram apropriadas pelas gerações posteriores da família e se manifestaram em projetos de desenvolvimento nacional. Para isso, foram utilizados inventários analíticos dos fundos “João Pinheiro da Silva”, “Dermeval José Pimenta” e “Israel Pinheiro da Silva”, disponíveis no Arquivo Público Mineiro, além de jornais, documentos e obras secundárias, como o livro organizado por Ângela de Castro Gomes (2005) e pesquisas acadêmicas sobre o período.
A relevância do estudo reside na compreensão de Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta como possíveis continuadores das ideias e práticas de João Pinheiro. Busca-se responder a perguntas como: até que ponto foram influenciados pelo pensamento político e econômico de João Pinheiro? Existiria um estilo familiar de atuação política? A família contribuiu para um projeto político-econômico desenvolvimentista com raízes em Minas Gerais?
O texto está estruturado em três partes. A primeira aborda o pensamento político de João Pinheiro da Silva. A segunda estabelece o diálogo entre seu legado e as ações de Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta no contexto da industrialização e da CVRD. A terceira parte explora continuidades e descontinuidades nas apropriações de suas ideias, finalizando com as considerações da pesquisa.
1. A ASCENSÃO DA TECNICIDADE E O PENSAMENTO DE JOÃO PINHEIRO
A preocupação em elaborar e implementar novos projetos para o desenvolvimento de Minas Gerais, no início do século XX, esteve diretamente relacionada à necessidade de superar a histórica desigualdade de investimentos em relação a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Esse descompasso já era denunciado desde o período imperial, como no discurso do deputado Bello, proferido em 12 de agosto de 1870, na Assembleia Provincial de Minas, ao afirmar que “Minas é em verdade uma filha deserdada em benefício de irmãs mais felizes” (1ª Sessão Ordinária da 4ª legislatura, 1870). Na ocasião, propôs-se a construção de estradas como primeiros passos para a constituição de uma rede de comunicações capaz de integrar a província ao cenário econômico nacional.
Esse exemplo ilustra como os formuladores das políticas mineiras do início do século XX se apoiaram em princípios previamente estabelecidos, que se perpetuaram ao longo do tempo e foram reconfigurados no período republicano. Em outras palavras, as políticas desenvolvimentistas não surgiram de forma abrupta, mas foram construídas a partir de ideias de longa duração, que continuaram a influenciar a agenda política mesmo diante da nova ordem instaurada pela República.
Nesse contexto, a ascensão da tecnicidade ganha relevo. A Escola de Minas de Ouro Preto destacou-se como um dos principais polos formadores de engenheiros no Brasil, responsável por consolidar um corpo técnico que viria a ocupar posições estratégicas ao longo do século XX. Os engenheiros formados pela instituição não apenas assumiram funções de direção em empresas estatais e privadas, como também participaram ativamente da formulação de uma política mineral nacional e da fundação de novas escolas de engenharia no estado. A centralidade da Escola de Minas pode ser entendida como um elo entre a tradição política mineira e a modernização técnico-industrial do país.
Para Gonçalves (1990), a Proclamação da República representou um marco institucional de uma nova ordem, redefinindo a articulação entre política e economia. Sérgio Buarque de Holanda (1997) acrescenta que tal transformação exigiu a formação de novos quadros políticos capazes de responder às mudanças da composição social, integrando o país por meio de uma base institucional renovada. Essa reconfiguração favoreceu a entrada gradual de técnicos na administração pública, num movimento que se intensificaria a partir da década de 1930.
De acordo com Bielschowsky (2000), a transição de uma economia agrária para uma economia de base industrial exigiu a formulação de um projeto desenvolvimentista orientado pela participação ativa do Estado. Draibe (1985) complementa essa perspectiva ao destacar a emergência de um Estado capitalista interventor, dotado de órgãos regulatórios e institutos de planejamento capazes de sustentar o avanço da acumulação industrial.
Em Minas Gerais, a reorganização administrativa da década de 1930 - exemplificada pela separação entre a Secretaria de Viação e Obras Públicas e a Secretaria de Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho - abriu espaço para a atuação dos engenheiros formados na Escola de Minas no setor público. Nesse cenário, destacam-se nomes como Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta, cujas trajetórias simbolizam o protagonismo da elite técnica mineira na formulação de políticas desenvolvimentistas.
Lanari (2016) e Barbosa (2012) convergem ao afirmar que a inserção crescente de engenheiros e técnicos no espaço público, a partir de 1930, não apenas configurou uma mudança na estrutura administrativa, mas também inaugurou uma nova dinâmica nas redes de sociabilidade política. Essa elite técnica, marcada por espírito empreendedor e sólida formação científica, passou a combinar competências técnicas e capacidade de articulação política, imprimindo um novo ritmo ao processo de modernização nacional.
Embora João Pinheiro da Silva não fosse engenheiro, sua trajetória é fundamental para compreender a gênese desse processo. Reconhecido como um dos precursores do desenvolvimento econômico-industrial do Brasil, ele lançou as bases de um projeto de modernização.
Em nossa interpretação, dada a influência de toda a sua trajetória de vida, João Pinheiro sabia que o Brasil do seu tempo tinha uma etapa a vencer ainda não superada: A formação do capitalismo brasileiro. Desse modo, não era à toa que ele observava outros países e os comparava com o Brasil, tal como provavelmente se interrogava: como construir um caminho que impulsione a economia de nosso país? Acredita-se que foi por meio da liderança do Congresso Agrícola Mineiro de 1903 que as ideias de João Pinheiro da Silva ganharam força de sentido mobilizador, talvez numa tentativa da formação do capitalismo brasileiro, cujas propostas ultrapassariam a dimensão regional. Essas propostas podem ser mais esclarecidas se observarmos a análise da Carta ao Eleitorado Mineiro de 1906, a qual reforça a necessidade da diversificação produtiva brasileira, principalmente por meio do café, da cultura de cereais, da criação de gados, das indústrias, dos transportes e da instrução primária.
Defende-se que Pinheiro observava a importância de se desenvolver a particularidade de cada região, porém era necessário articular as diversas regiões de Minas dentro do estado. Dever-se-iam criar condições que possibilitassem um interesse comum para fortalecer o estado. Porque, conforme Diniz (1981, p. 19), a um mercado disperso correspondiam atividades econômicas dispersas. E a falta de um centro polarizador e de uma atividade capitalista dominante dificultavam a acumulação e a apropriação de excedentes de forma concentrada, com base para o investimento industrial.
Assim, a análise desse percurso revela que a modernização de Minas Gerais e, por extensão, do Brasil, resultou da interação entre uma tradição política enraizada e a ascensão de uma elite técnica que consolidou o ideário desenvolvimentista no século XX, o qual seria retomado e aprofundado por gerações posteriores, notadamente por seu filho Israel Pinheiro e seu genro Dermeval Pimenta.
2. ISRAEL PINHEIRO E DERMEVAL JOSÉ PIMENTA: O CONTEXTO DA INDUSTRIALIZAÇÃO E A COMPANHIA VALE DO RIO DOCE (CVRD)
A trajetória de Israel Pinheiro da Silva (1896-1973) e Dermeval José Pimenta (1893-1991) não pode ser compreendida sem considerar a herança intelectual e prática de João Pinheiro da Silva. Esse legado acadêmico e empreendedor ajuda a explicar a continuidade observada em seus descendentes. A Escola de Minas de Ouro Preto, em particular, desempenhou papel estratégico, formando quadros técnicos que atuaram em postos decisivos da economia nacional ao longo do século XX (Carvalho, 2002; Oliveira, 2009). Foi nessa instituição que se graduaram tanto Israel Pinheiro quanto Dermeval Pimenta, fato que reforça não apenas a tradição familiar, mas também a importância do capital técnico na consolidação de projetos de desenvolvimento ligados à mineração, à siderurgia e à infraestrutura.
A partir dessa base comum, Israel e Dermeval destacaram-se entre as décadas de 1930 e 1960 como protagonistas do processo de industrialização mineira. Suas carreiras, marcadas pela inserção em órgãos públicos e empresas estatais, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), e pela atuação em iniciativas de grande impacto econômico, exemplificam a continuidade de um ideário familiar que combinava formação técnica, redes de sociabilidade e compromisso com o progresso regional e nacional
Nesse contexto, Dermeval José Pimenta (1893-1991) e Israel Pinheiro da Silva (1896-1973) emergem como herdeiros de um projeto político-econômico vinculado à industrialização de Minas Gerais e, por extensão, do Brasil. Ambos se destacaram entre as décadas de 1930 e 1960 como protagonistas de iniciativas decisivas para o desenvolvimento regional, munidos de formações acadêmicas tecnicistas que lhes forneceram conhecimentos estratégicos e ferramentas práticas para a condução de grandes empreendimentos. A expertise adquirida permitiu que liderassem projetos inovadores, especialmente no âmbito da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e de outras iniciativas ligadas à infraestrutura, marcando sua inserção em um momento crucial da história econômica nacional.
Dermeval José Pimenta nasceu em São João Evangelista, Minas Gerais, e, entre 1912 e 1918, cursou Engenharia de Minas e Engenharia Civil na Escola de Minas de Ouro Preto, reconhecida como uma das mais importantes instituições brasileiras de ensino superior da época (Pereira, 2021). Sua formação contemplava disciplinas técnicas e de economia política, com forte ênfase na infraestrutura e no desenvolvimento econômico. Destacou-se como presidente da Companhia Vale do Rio Doce (1946-1951), foi um dos fundadores da Usiminas e exerceu cargos relevantes na administração pública mineira, como a Secretaria de Viação e Obras Públicas (1943-1945). Seu pensamento teórico e sua prática administrativa evidenciam o compromisso com o progresso mineiro, registrado em obras como Caminhos de Minas Gerais e A Vale do Rio Doce e sua história (Pereira, 2021, p. 22).
Além de sua trajetória profissional, Dermeval consolidou laços familiares com o legado pinheirista ao contrair matrimônio, em 1927, com Lúcia Pinheiro Pimenta, filha do ex-presidente do Estado de Minas Gerais, João Pinheiro da Silva. Dessa forma, tornou-se cunhado de Israel Pinheiro da Silva, com quem partilhava não apenas vínculos pessoais, mas também formação técnica comum e visão política semelhante. O próprio Dermeval registra em suas memórias: “[...] casei com Lúcia Pinheiro Pimenta, filha do Dr. João Pinheiro da Silva, grande político de Minas Gerais, e irmã de meu amigo formado pela Escola de Minas, Israel Pinheiro [...], tivemos dez filhos” (Pimenta, 1966, apud Pereira, 2021, pp. 33-34). Tal união familiar reforçou sua proximidade com a política mineira e ampliou sua inserção em redes de poder que combinavam vida pública, sociabilidade e alianças institucionais.
Israel Pinheiro da Silva, por sua vez, nasceu em Caeté, Minas Gerais, sendo o quinto dos doze filhos de João Pinheiro da Silva e Helena de Barros. Formou-se em Engenharia de Minas e Civil pela Escola de Minas de Ouro Preto, em 1919, tendo sido premiado como o melhor aluno de sua turma com uma viagem de estudos à Europa. Em 1924, casou-se em Belo Horizonte com Coracy Uchôa, oriunda do interior paulista. Ocupou o cargo de Secretário de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais no início da década de 1940, durante o governo de Benedito Valadares e, em seguida, tornou-se diretor da Companhia Vale do Rio Doce. Posteriormente, desempenhou mandatos como deputado federal e governador de Minas Gerais (1966-1971).
Sua sólida formação técnica e trajetória política o credenciaram para participar da execução de grandes projetos de infraestrutura, dentre os quais se destaca a construção de Brasília. Na qualidade de presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), criada em 1956 por Juscelino Kubitschek, Israel Pinheiro desempenhou papel central na transferência da capital para o Planalto Central, tornando-se uma das figuras mais emblemáticas do processo de modernização do país (Pereira, 2021).
2.1 A MOVIMENTAÇÃO DE ISRAEL PINHEIRO E DERMEVAL PIMENTA NO CONTEXTO DA CVRD
A partir da década de 1930, o Brasil passou por um período de intensa industrialização sob o governo de Getúlio Vargas. Nesse cenário, a criação da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), em 1942, representou um marco tanto na exploração dos recursos minerais do país quanto no desenvolvimento da região de Minas Gerais. Importa destacar que a mineradora negociada nos Acordos de Washington e que deu origem à CVRD foi a Itabira Iron Ore Company, fundada em 1911 por ingleses e posteriormente controlada pelo capital americano, então representado por Percival Farquhar. Essa era a situação em que se encontrava a empresa no momento das negociações internacionais, quando o Brasil, ao ingressar na Segunda Guerra Mundial, assumiu compromissos estratégicos com os Aliados.
Israel Pinheiro da Silva desempenhou papel central nesse processo, atuando como presidente da CVRD desde sua fundação até fevereiro de 1946, quando renunciou ao cargo para assumir uma cadeira de deputado federal. Seu sucessor na presidência da companhia, Dermeval José Pimenta, também teve atuação relevante, consolidando a continuidade da presença da família Pinheiro nesse espaço estratégico para a economia nacional.
Conforme explica Mascarenhas Vaz (1996, p. 167), Israel Pinheiro foi responsável pela implantação da mineradora, cumprindo os termos estabelecidos nos Acordos de Washington, assinados durante o período em que o Brasil esteve em guerra com a Alemanha e a Itália. O acordo previa, como contrapartida à entrada do Brasil no conflito, que a Inglaterra cederia ao país o controle das minas de ferro, os Estados Unidos se tornariam os principais compradores do minério e o governo brasileiro assumiria a responsabilidade pela manutenção da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), encarregada do transporte da produção destinada à exportação.
Para além da extração mineral, a criação da CVRD tinha como objetivo promover o desenvolvimento da região da Bacia do Rio Doce, do litoral às nascentes. O excedente dos lucros, após as deduções legais e o pagamento de dividendos aos acionistas, seria destinado à criação de um fundo de desenvolvimento regional, aplicado, por sua vez, em projetos elaborados por técnicos da própria Vale do Rio Doce, em articulação com os Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, os quais seriam submetidos à aprovação presidencial (Pereira, 2016).
A criação desse fundo possuía, para Israel Pinheiro, a mesma importância da própria existência da CVRD. Em suas memórias, enfatizava que, além da exploração mineral, havia um projeto de desenvolvimento integrado para a região do Rio Doce, o qual incluía a implantação de uma grande indústria siderúrgica. Mascarenhas Vaz (1996) menciona relato de Pery da Rocha França segundo o qual, durante visita do presidente Vargas às obras da Companhia Vale do Rio Doce, Israel Pinheiro simulou um problema técnico na locomotiva em que viajavam, forçando uma parada em Governador Valadares-MG. O objetivo da estratégia era apresentar a região ao presidente e convencê-lo de que aquele seria o local ideal para a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), parte do conjunto de contrapartidas oferecidas pelos Estados Unidos no Acordo de Washington.
A intenção de transformar a região do Vale do Rio Doce no “Vale do Ruhr” brasileiro foi um dos principais projetos de Israel Pinheiro. A proposta incluía a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em Governador Valadares-MG, o que, no entanto, não se concretizou devido à influência política de Amaral Peixoto (1904-1989), genro do presidente Vargas, que pressionou para que a siderúrgica fosse instalada em Volta Redonda-RJ, estado onde atuava como interventor na década de 1950.
Após sua gestão na CVRD, Israel Pinheiro ingressou na vida parlamentar, tornando-se deputado federal por Minas Gerais em 1946. Sua atuação refletiu sua concepção de desenvolvimento econômico, marcada por discursos na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1956, em que defendia a necessidade de planejamento econômico flexível, capaz de reconhecer as especificidades regionais. Argumentava ainda que o desenvolvimento brasileiro exigia grandes investimentos privados, inclusive com a participação de capitais estrangeiros, associados à importação de tecnologia e mão de obra qualificada, cabendo ao Estado papel disciplinador e interventor em setores estratégicos.
Ainda no discurso proferido em 26 de maio de 1946, Israel Pinheiro explicava que a extensão do território brasileiro, em sua maior parte inexplorado, evidenciava que a agricultura era, e por muito tempo ainda deveria ser, a principal atividade econômica do país e a principal fonte de enriquecimento nacional. Além disso, afirmava que a industrialização não deveria ocorrer por meio da transferência de capital do setor agrícola, como vinha acontecendo até então. Defendia-se que o lucro gerado pelo setor agrícola fosse reinvestido na própria atividade da agricultura, tornando-a moderna e eficiente e possibilitando a formação de um mercado consumidor próprio, capaz de absorver produtos industrializados.
Outro ponto relevante, segundo a análise do historiador Alisson Vaz (1996, pp. 144-145), era a questão da mudança da capital do país. Israel Pinheiro advogava pela transferência da capital do Rio de Janeiro para Minas Gerais ou Goiás, pois acreditava que o principal fator responsável pelo desequilíbrio econômico existente no país advinha do fato de a capital permanecer no Rio de Janeiro, atraindo recursos e investimentos para aquela região litorânea e perpetuando o contraste entre litoral e interior, o que seria a origem dos problemas brasileiros. Nos discursos proferidos sobre esse tema, destacava-se a afirmação de que a consequência imediata da transferência seria a modificação da mentalidade que perpetuava uma visão distorcida da realidade brasileira, uma vez que as decisões do Congresso Nacional ignoravam o Brasil do interior e se concentravam no país litorâneo.
Quanto ao pensamento de Israel Pinheiro sobre a educação brasileira, observa-se que ele defendia veementemente a necessidade de o Estado multiplicar as escolas profissionais, sobretudo as agrícolas, consideradas fundamentais para o desenvolvimento da principal atividade econômica nacional, a agricultura (Pereira, 2021).
Dessa forma, essa atividade poderia modernizar-se e tornar-se mais eficiente. A implementação dessa medida contribuiria para reduzir a tendência de privilégio ao ensino superior, sem, contudo, deixar de investir na instrução pública, que, segundo ele, seria a base de todo o benefício social. Ao assumir a Secretaria da Agricultura, intensificou a criação de escolas profissionais agrícolas para dar sustentação técnica à economia rural.
A esse respeito, é pertinente mencionar um trecho do discurso de posse de Dermeval José Pimenta na Companhia Vale do Rio Doce, conforme registrado no livro A Vale do Rio Doce e sua história: “Ao assumir o cargo de presidente da companhia Vale do Rio Doce, a que me levou a honrosa confiança do Sr. Presidente Gaspar Dutra, faço-o com o firme propósito de, no desempenho desta incumbência, empregar todos os meus esforços e energias. Vaga com a renúncia do Dr. Israel Pinheiro da Silva, que havia sido eleito deputado federal pelo estado de Minas Gerais. A tarefa não é das mais fáceis, bem sei. Mas, vou elevar minha capacidade de trabalho ao máximo para prosseguir a gigantesca obra que vós, Sr. Israel Pinheiro, com lúcida inteligência e dinamismo administrava. Embora assoberbado por dificuldades quase intransponíveis, oriundas da guerra, da qual participou nosso país, conseguistes deixar quase concluídos os planos de exploração das minas, em Itabira, a construção de novos trechos da estrada de ferro Vitória a Minas, melhoria de suas linhas, em tráfego e a renovação do seu material rodante e de tração. A Companhia Vale do Rio Doce é uma das grandes realizações do governo da República e dos brasileiros. Ao ser organizada a Companhia Vale do Rio Doce, o governo brasileiro não teve em mira, tão somente, a exploração das minas de ferro de Itabira, visando à exploração do minério, mas também a de sanear e promover o desenvolvimento da Zona do Rio Doce, desde o litoral até suas nascentes” (Pimenta, 1981, p. 121).
Dermeval Pimenta esclarece, assim, que sua nomeação para o cargo de presidente da Companhia Vale do Rio Doce ocorreu por meio de indicação política do presidente Dutra, em razão da saída de Israel Pinheiro, em 1946, para ocupar o cargo de deputado federal por Minas Gerais. Além disso, demonstra que, em sua atuação como presidente da Vale, sua preocupação não se limitava à administração das minas de ferro, mas também se estendia ao desenvolvimento das regiões por onde passava a companhia na área do Vale do Rio Doce. Nesse contexto, a história da Vale interligava-se com os ideais de Pimenta para o desenvolvimento econômico.
Antes de aprofundar essa questão, destaca-se a reação de parte da mídia à saída de Israel Pinheiro e à posse de seu cunhado, Dermeval Pimenta, com a apresentação do discurso de despedida de Pinheiro. O jornal Correio da Manhã, em sua edição de 24 de outubro de 1945, ressaltava as “Razões do insucesso” da administração de Israel Pinheiro:
O Dr. Pinheiro passava a maior parte do seu tempo no Rio de Janeiro. Eram raras suas visitas à mina. A presidência agia como uma entidade separada. Ocorreram atrasos que os engenheiros não políticos consideraram além de qualquer explicação. Havia atrasos na entrega de equipamentos por mais de um ano. O Dr. Pinheiro estava preocupado com sua candidatura política e não com a administração da Cia.
Esse trecho evidencia que a reportagem do jornal apontava problemas relacionados à falta de proximidade do presidente da Companhia Vale do Rio Doce com a administração da empresa, destacando que ele não acompanhava de perto esse grande empreendimento. A matéria revela que os engenheiros que atuavam na empresa demonstravam insatisfação com a demora na entrega de materiais, entre outras deficiências. Além disso, chama-se a atenção para o fato de que o afastamento de Israel Pinheiro se devia à priorização de sua carreira política, mais especificamente à candidatura ao cargo de deputado federal.
Pode-se aventar a hipótese da existência de alguma rixa entre esse periódico e Israel Pinheiro. Talvez o próprio jornal estivesse fazendo “política”. No entanto, o mesmo jornal, alguns meses depois, em fevereiro de 1946, reproduziu o discurso de Israel Pinheiro sobre sua decisão de deixar a presidência da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) endereçada ao seu sucessor, Dermeval Pimenta:
Sr. Dr. Dermeval Pimenta, é com pesar que deixo a presidência da Companhia Vale do Rio Doce, em face dos imperativos de um mandato que me foi confiado pelo eleitorado do meu Estado. Na Câmara Federal ou em qualquer posição que vier a ocupar na vida pública, continuarei, no entanto, a propugnar e a trabalhar por essa grande obra a que estive ligado por quase quatro anos, no período de sua organização e construção. Ao transmitir a V. S. a presidência dessa companhia, faço-o, no entanto, com grande satisfação pela certeza que tenho de que essa obra encontrará garantia de segurança e desenvolvimento no espírito clarividente e nas mãos experimentadas de um engenheiro que apresenta, na sua longa carreira de serviços, as condições essenciais para tal empreendimento de conhecimento técnico e espírito público. Engenheiro em várias estradas de ferro, até o alto posto de diretor da Rede Mineira de Viação, teve V. S., na Secretaria de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais, consolidados conhecimentos da alta administração pública. É certo que fará um honroso trabalho (Discurso de Israel Pinheiro..., 1946, p. 3).
Ao analisar esse discurso, é necessário considerar a estreita ligação entre Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta, de modo que se supõe que os elogios de ambas as partes fossem uma praxe. No entanto, o discurso demonstra que a saída de Pinheiro ocorreu diretamente por um objetivo político, ou seja, assumir o cargo de deputado federal no Rio de Janeiro, antiga capital do país. Não há fontes que demonstrem que Israel Pinheiro tenha auxiliado, mesmo indiretamente, na indicação de Dermeval Pimenta para substituí-lo na presidência da CVRD. Contudo, há evidências de que se tratou de um convite feito pelo então presidente do Brasil, Eurico Gaspar Dutra, entre os anos de 1946 a 1951.
Sobre o termo “desenvolvimento econômico”, o argumento de Dermeval Pimenta era de que ele estava relacionado à ideia de progresso, à superação do atraso no Brasil e à consolidação da indústria nacional. Pimenta defendia a ação estatal na economia e buscava contribuir para sua concretização. Como exemplo, destaca-se sua luta pela permanência da nacionalização da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores empresas de mineração do mundo (Pereira, 2021).
A abordagem de Pimenta era predominantemente técnica, com enfoque econômico. Dedicava-se à análise da urbanização, da formação industrial do Brasil e das principais articulações econômicas nesse processo. Seu campo de interesse estava fortemente ligado à mineração, e ele atuava e escrevia sobre o assunto com grande competência, visualizando como a CVRD expandiria os trilhos pelo Vale do Rio Doce, região de sua localidade de origem, São João Evangelista. Lutou pelo fortalecimento econômico desse vale, podendo ser considerado um nacionalista e um regionalista. Nos moldes descritos por Arruda (1987), possuía a tipificação do “espírito mineiro”, caracterizado pela capacidade de observar uma situação política e agir prontamente no momento oportuno.
Dermeval José Pimenta viveu em um Brasil no qual o debate nacional-desenvolvimentista ganhava força. Em seus textos das décadas de 1940 e 1950, tinha-se a recorrência do termo “desenvolvimento econômico”.
De acordo com Bielschowsky (2000, p. 47), o Brasil vivia, naquela época, a efervescência de “novas concepções de desenvolvimento, provocando reações diversas, de luta pelo progresso, conforme os interesses em jogo”. Pimenta participou desse cenário, foi um “homem do seu tempo” e escreveu “para esse tempo”, deixando reflexões úteis para o futuro. Defendia a importância de compreender a história em construção e de escrever a história a partir da própria experiência. Para ele, era essencial construir um diálogo entre a política e a economia, a fim de evitar a repetição dos “erros do passado” no planejamento do desenvolvimento econômico, cujos efeitos seriam sentidos no futuro. Em suas palavras, no ato de criação do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, expressou essa visão:
É importante a criação do Conselho Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de MG, porque a região precisa ter sua identidade histórica lembrada. Só nos desenvolveremos se entendermos nosso passado e nossa formação histórica. Por isso gosto de escrever livros iniciando pela história local [...] nossa história é nosso maior patrimônio histórico e nossas imagens nosso maior patrimônio artístico, que possamos cuidar bem de nossa história (Pereira; Oliveira, 2020).
Dermeval Pimenta demonstrava grande apreço pela história de Minas Gerais, seja devido às suas experiências práticas, seja pela necessidade de compor a escritura de seus livros, seja por sua formação escolar e suas vivências como escritor. Ademais, ele reconhecia a educação como uma ferramenta fundamental para o progresso e o desenvolvimento. Valorizava tanto a formação técnica quanto a reflexão crítica sobre a realidade socioeconômica. Em sua obra Caminhos de Minas Gerais (1971), argumentava que a educação deveria atender às necessidades regionais, formando profissionais capazes de contribuir para o desenvolvimento local e nacional.
3. CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES NO PENSAMENTO DE JOÃO PINHEIRO
Nessa parte da pesquisa, busca-se analisar as ideias de João Pinheiro, Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta, no sentido de identificar convergências (continuidades) e divergências (descontinuidades) em seus pensamentos e práticas, especialmente no que diz respeito às concepções de desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Observa-se que Israel Pinheiro representa uma continuidade direta do projeto político e econômico de seu pai, João Pinheiro, retomando princípios fundamentais que orientaram sua atuação na esfera pública (Souza, 2017). O engajamento de Israel em posições estratégicas, como sua direção na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e sua presidência na Novacap durante a construção de Brasília, possibilitou a concretização de grandes projetos de infraestrutura. Essas iniciativas reforçaram o papel de Minas Gerais como centro irradiador de ideias desenvolvimentistas, evidenciando a forma pela qual Israel operacionalizou conceitos de trabalho, transporte e ocupação territorial em políticas públicas efetivas.
A trajetória de João Pinheiro, por sua vez, ajuda a compreender a gênese desse ideário. Filho de um imigrante italiano, caldeireiro de profissão, teve contato precoce com atividades ligadas ao trabalho fabril. Posteriormente, fundou uma pequena indústria de cerâmica em Caeté, cidade natal de sua esposa, dedicando-se à produção de louças finas e porcelanas. Tal experiência, ainda que incipiente, revela o interesse do político pela atividade industrial e explica o convite feito pelo então presidente de Minas Gerais, Francisco Sales, para presidir o I Congresso Agrícola, Comercial e Industrial do Estado, em 1903 (Barbosa, 1966). Ademais, sua formação na Escola de Minas de Ouro Preto, antes de concluir o curso de Direito em São Paulo, foi determinante para a incorporação de uma racionalidade técnica à sua prática política. Essa mesma escola viria a formar Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta, consolidando não apenas uma herança familiar, mas também um capital técnico compartilhado, conforme ressaltam Carvalho (2002) e Oliveira (2009).
Lanari (2016) destaca a relevância da elite técnica mineira na formulação de políticas que priorizassem a industrialização e a racionalidade técnica como elementos estruturantes do desenvolvimento econômico. Nesse contexto, Dermeval Pimenta desempenhou papel central como presidente da CVRD e cofundador da Usiminas, reforçando o protagonismo mineiro no cenário econômico nacional. Vale mencionar que a própria origem da CVRD, a partir da negociação da Itabira Iron Ore Company - fundada por ingleses em 1911 e posteriormente controlada pelo capital americano de Percival Farquhar - nos Acordos de Washington, evidencia como a presença do capital estrangeiro esteve no cerne das disputas em torno do desenvolvimento brasileiro, questão sobre a qual João e Israel Pinheiro divergiram de maneira significativa.
Enquanto João Pinheiro posicionava-se de forma crítica à entrada de capitais externos, defendendo o protecionismo como estratégia para o fortalecimento da indústria nacional, Israel defendia a necessidade de recorrer a investimentos estrangeiros, especialmente diante da escassez de capital privado no país. Essa divergência ilustra como as diferentes conjunturas históricas moldaram suas concepções: João Pinheiro atuava ainda no início da República, em um contexto de transição econômica, enquanto Israel e Pimenta estavam inseridos na fase do nacional-desenvolvimentismo, marcado pela industrialização e pela presença crescente de capitais externos.
Outra dimensão de convergência entre os três personagens foi à ênfase na educação como vetor de desenvolvimento. João Pinheiro defendia reformas voltadas à ampliação do ensino primário e da educação agrícola; Israel buscou expandir o ensino técnico-profissional como estratégia de modernização; e Pimenta reconhecia a formação de mão de obra qualificada como condição para a consolidação do projeto industrial. Ainda assim, observa-se que, embora compartilhassem a valorização da educação, cada qual a instrumentalizou de acordo com as demandas de seu tempo.
A análise também evidencia como as redes de sociabilidade foram fundamentais para a legitimação de suas trajetórias. Gomes (2005) observa que a elite política mineira transmitia tradições, redes e um legado político-familiar entre gerações, moldando a percepção do papel de Minas no cenário nacional. Nesse sentido, Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta articularam suas ações a partir de vínculos estabelecidos na Escola de Minas, na CVRD e em espaços de decisão política em Brasília, reafirmando a continuidade de um projeto que unia técnica e política.
Assim, embora a pesquisa identifique um ideário comum pautado pela centralidade de Minas Gerais, pela valorização da infraestrutura e pela educação como instrumentos de progresso, as divergências quanto à presença do capital estrangeiro e ao grau de intervenção estatal revelam os limites e reconfigurações do projeto pinheirista ao longo do tempo. A reflexão crítica sobre tais continuidades e rupturas permite compreender a inserção de João Pinheiro, Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta na tradição do nacional-desenvolvimentismo, não apenas como herdeiros de uma memória familiar, mas como atores que adaptaram e reformularam esse ideário em consonância com os desafios de suas épocas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As trajetórias de Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta, articuladas ao processo de industrialização brasileira e à criação da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), evidenciam um entrelaçamento de continuidades e rupturas em relação ao legado político e intelectual de João Pinheiro. Ainda que não se possa afirmar uma sucessão linear de ideias, observa-se a presença de convergências significativas, notadamente na valorização do desenvolvimento do interior, na crença na industrialização como motor do progresso e na percepção da infraestrutura como eixo estratégico para o crescimento nacional.
Entretanto, é necessário sublinhar as diferenças contextuais que marcaram suas atuações. O Brasil da primeira metade do século XX, impulsionado pela ascensão do Estado desenvolvimentista e pela busca de maior autonomia econômica, apresentava desafios distintos dos enfrentados por João Pinheiro em sua época. Ademais, a própria dinâmica da industrialização, com seus impactos sociais e ambientais, exigiu adaptações e respostas inovadoras, revelando tanto limites quanto potencialidades no projeto de modernização nacional.
A análise dessas dinâmicas contribui para uma compreensão mais abrangente do desenvolvimento econômico do Brasil, ressaltando o papel decisivo da CVRD na inserção do país como potência global no setor mineral. Simultaneamente, evidencia a relevância de lideranças políticas e técnicas de Minas Gerais que, ao imprimir suas visões e estratégias, desempenharam papel fundamental na construção de um projeto nacional de desenvolvimento.
Nesse sentido, a interação entre memória política e transformação social, a partir do contexto mineiro, revela o dinamismo das redes de sociabilidade na definição dos rumos da economia e da política brasileira. A CVRD, enquanto espaço de confluência de ideias e práticas, demonstra como a herança intelectual de João Pinheiro pôde ser reinterpretada e atualizada diante de novos cenários históricos, contribuindo para moldar a trajetória de modernização do país.
Em síntese, este estudo permite compreender a relação entre o legado de João Pinheiro e a atuação de Israel Pinheiro e Dermeval Pimenta na CVRD, reforçando a importância de uma leitura histórica e contextualizada do desenvolvimento econômico brasileiro. Ao fazê-lo, lança luz sobre os desafios, contradições e oportunidades que marcaram a construção de um projeto nacional voltado ao país
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
REFERÊNCIAS
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