Open-access Preditores clínicos e funcionais de mortalidade em octogenários: limitações do fenótipo de Fried para estratificação de risco

Resumo

Objetivo  Avaliar a fragilidade como preditora de óbito em octogenários.

Métodos  Estudo de coorte retrospectiva realizado com indivíduos com 80 anos de idade ou mais, acompanhados do período de 2016–2018 até 2024–2025. Foram analisadas variáveis sociodemográficas, clínicas e funcionais, incluindo a presença de fragilidade, tendo o óbito por todas as causas como desfecho. A análise dos dados incluiu estatística descritiva e regressão de Cox multivariada para estimar os fatores associados ao óbito.

Resultados  Osteoporose, incontinência urinária e depressão grave foram identificadas como fatores preditores de óbito. O fenótipo de fragilidade de Fried não apresentou boa acurácia para predição de mortalidade na amostra analisada.

Conclusão  A fragilidade, quando avaliada por meio de condições clínicas e funcionais específicas, mostrou-se relevante para a predição de óbito em pessoas idosas longevas, enquanto o fenótipo de Fried apresentou limitações nesse grupo etário, reforçando a necessidade de instrumentos mais sensíveis para avaliação prognóstica em octogenários.

Palavras-chave
Octogenários; Mortalidade; Estudos Retrospectivos; Incontinência Urinária; Depressão; Fragilidade.

Abstract

Objective  To evaluate frailty as a predictor of mortality in octogenarians.

Methods  This retrospective cohort study included individuals aged 80 years or older who were followed from 2016–2018 through 2024–2025. Sociodemographic, clinical, and functional variables, including the presence of frailty, were analyzed, with all-cause mortality as the outcome. Data analysis included descriptive statistics and multivariable Cox regression to estimate the factors associated with mortality.

Results  Osteoporosis, urinary incontinence, and severe depressive symptoms were identified as predictors of mortality. The Fried frailty phenotype did not demonstrate significant predictive value for mortality in the sample analyzed.

Conclusion  Frailty, when assessed on the basis of specific clinical and functional conditions, was relevant for predicting mortality among the oldest-old, whereas the Fried frailty phenotype showed limitations in this age group. These findings reinforce the need for more sensitive instruments for prognostic assessment in individuals aged 80 years or older.

Keywords
Aged, 80 and over; Mortality; Retrospective Studies; Urinary Incontinence; Depression; Frailty.

INTRODUÇÃO

O Brasil vivencia acelerado envelhecimento populacional, com crescimento anual superior a 4% entre 2012 e 2022, e projeção de que, em 2030, pessoas idosas representem cerca de 30% da população, superando crianças e adolescentes. Persistem, contudo, desigualdades socioeconômicas que afetam suas condições de vida. Destaca-se a expansão do grupo com 80 anos ou mais, majoritariamente feminino e com alta prevalência de limitações funcionais, com aumento estimado de 77% dos longevos com incapacidade nos últimos 15 anos1,2.

O risco de desenvolvimento da fragilidade aumenta de forma significativa com o avanço da idade e é influenciado por comorbidades, sedentarismo, hábitos alimentares inadequados e condições socioeconômicas desfavoráveis. Trata-se de um estado de vulnerabilidade fisiológica associado ao envelhecimento, caracterizado pela redução da reserva e capacidade de resposta a eventos adversos, relacionada a maior risco de quedas, perda de autonomia e mortalidade, não se confundindo com incapacidade, vulnerabilidades sociais ou multimorbidade3.

Constitui, portanto, importante valor prognóstico, permitindo o rastreio de pessoas idosas com maior risco de eventos adversos4 e subsidiando intervenções terapêuticas direcionadas. Evidências demonstram que fragilidade, limitações funcionais e isolamento social aumentam o risco de óbito independentemente de doenças crônicas e fatores sociodemográficos5,6. Esses achados podem orientar protocolos assistenciais na Atenção Primária à Saúde, especialmente no cuidado de pessoas com 80 anos ou mais, considerando a heterogeneidade da população idosa e suas distintas necessidades de acompanhamento7.

A análise das tendências de gastos em saúde e das causas de mortalidade em pessoas idosas longevas é fundamental para superar a visão reducionista de que o envelhecimento, isoladamente, determina maior consumo de recursos em saúde. A elevação dos custos está mais fortemente relacionada ao perfil clínico, à presença de incapacidade, à multimorbidade e à proximidade do óbito do que à idade cronológica. Embora a mortalidade em longevos venha sendo cada vez mais investigada, ainda persiste o foco na idade cronológica e em diagnósticos específicos como principais preditores de óbito, abordagem que pode apresentar limitações nesse grupo etário em quais fatores tradicionais de risco tendem a apresentar menor capacidade discriminatória8,9.

Assim, a presente pesquisa parte da hipótese de que a presença de fragilidade constitui preditor independente de óbito em pessoas idosas com 80 anos ou mais. Dessa forma, o estudo teve como objetivo avaliar a presença da fragilidade como preditora de óbito em pessoas idosas longevas, contribuindo para o aprimoramento da estratificação de risco e para o direcionamento do cuidado com foco na funcionalidade.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo analítico, comparativo e de coorte retrospectiva, desenvolvido a partir de duas fases de coleta de dados. A primeira ocorreu entre 2016 e 2018, com projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (parecer nº 8.423.250 e CAAE 50075215.2.0000.0029). Foram elegíveis indivíduos com 80 anos ou mais, recrutados de forma voluntária no ambulatório de geriatria da Universidade Católica de Brasília (UCB). Após assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, foram excluídos aqueles com demência moderada ou grave, definida a partir da avaliação cognitiva pelo Mini-Mental State Examination, considerando pontos de corte ajustados para escolaridade.

Na ocasião, foram coletadas informações sociodemográficas, presença de doenças crônicas previamente diagnosticadas, incontinência urinária, rastreio de fragilidade, depressão (GDS), cognição (MEEM) e risco de sarcopenia de 222 pessoas. A amostra foi constituída por conveniência, a partir de participantes elegíveis recrutados no ambulatório, estratégia frequentemente adotada em estudos com pessoas idosas longevas devido à dificuldade de acesso a essa população. As avaliações ocorreram em dias e horários previamente agendados com os participantes, nas dependências da UCB. Detalhes dos procedimentos de recrutamento, coleta sanguínea e avaliações físicas encontram-se descritos em estudos anteriores10-13.

Na segunda fase de coleta, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (parecer nº8.423.250 e CAAE 75167923.6.0000.0029) e realizada entre 2024 e 2025, os participantes sobreviventes que consentiram em participar voluntariamente foram reavaliados para rastreio de fragilidade, seguindo os mesmos procedimentos utilizados na primeira fase. Nos casos em que os participantes foram a óbito, as informações foram obtidas por meio de familiares ou cuidadores, mediante apresentação de cópia da declaração de óbito, entrevistas e consulta ao Cadastro Nacional de Falecidos.

O recrutamento foi conduzido a partir dos telefones e endereços fornecidos na primeira fase, com identificação do cuidador ou familiar responsável. As entrevistas foram realizadas por telefone, presencialmente nas dependências da UCB ou no domicílio do participante, conforme preferência do respondente.

A Figura 1 apresenta o número de indivíduos avaliados na linha de base, acompanhados no seguimento e analisados.

Figura 1
Fluxograma do processo de recrutamento e seguimento da coorte (n = 129). Brasília, DF, 2026.

​O tamanho da amostra não foi previamente calculado, uma vez que o estudo utilizou uma coorte aberta previamente estabelecida, composta por amostra de conveniência. Dessa forma, foram incluídos todos os indivíduos elegíveis avaliados na linha de base que atenderam aos critérios de inclusão e possuíam informações completas para as variáveis de interesse. Assim, o tamanho final da amostra (n=129) foi determinado pela disponibilidade de participantes acompanhados e pelo número de óbitos observados durante o período de seguimento.

A pesquisa atendeu aos preceitos éticos e científicos estabelecidos pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) nº 466, de 12 de dezembro de 2012, e pela Resolução CNS nº 510, de 7 de abril de 2016, que dispõe sobre as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais envolvendo dados obtidos diretamente dos participantes. Também foram observados os princípios e diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018 – LGPD), assegurando a confidencialidade, o sigilo e a proteção das informações coletadas.

Todas as respostas foram registradas na plataforma digital REDCap (Research Electronic Data Capture), com acesso restrito aos pesquisadores autorizados. Na segunda fase do estudo (2024–2025), realizada por meio de entrevistas telefônicas e aplicação dos instrumentos Escala de Depressão Geriátrica (GDS) e Mini Exame do Estado Mental (MEEM), foram adotadas medidas adicionais para garantir a privacidade dos participantes, a obtenção do consentimento livre e esclarecido e a segurança dos dados durante todas as etapas da pesquisa.

A análise dos dados foi conduzida em três etapas sequenciais. Inicialmente, realizou-se análise descritiva compreensiva das variáveis do estudo. Para variáveis contínuas, calcularam-se medidas de tendência central e dispersão, incluindo média, desvio padrão, percentis, mediana, valores mínimos e máximos. Variáveis categóricas foram sumarizadas por meio de frequências absolutas e proporções. A aderência à normalidade das distribuições foi avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk, seguindo recomendações estabelecidas na literatura de estatística não paramétrica14.

A análise de sobrevida foi realizada pelo estimador de Kaplan-Meier15. O tempo foi calculado entre a data da avaliação na primeira onda até o óbito (último contato com o paciente vivo).

A análise de fatores preditores de óbito neste estudo foi feita pelo modelo de riscos proporcionais de Cox. O pressuposto de proporcionalidade dos riscos foi verificado.

Uso de Inteligência Artificial

Os autores declaram que foram utilizados apenas recursos de apoio acadêmico e editorial permitidos pelas diretrizes da RBGG, restritos à revisão ortográfica, gramatical, redação, adequação estilística e organização textual do manuscrito. Nenhum recurso foi utilizado para gerar dados, formular hipóteses, interpretar resultados ou substituir o julgamento científico dos autores. Todo o conteúdo final foi revisado criticamente e aprovado pelos autores, que assumem integral responsabilidade pelo manuscrito.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

RESULTADOS

Os participantes do estudo foram acompanhados ao longo de 9 anos e ao final desse período, apenas 14,1% sobreviventes (IC 95%). A Tabela 1 descreveu as características sociodemográficas e antropométricas da amostra de acordo com o status de óbito. Entre os indivíduos sobreviventes a maioria eram do sexo feminino (64,86%), a mediana de idade da amostra no momento da primeira fase de coleta é de 91 anos. Entre os indivíduos falecidos, a mediana de idade foi de 85 anos.

Tabela 1
Características sociodemográficas da amostra na linha de base, segundo status de óbito no seguimento. Brasília, DF, 2025.

A Tabela 2 apresenta as características clínicas e funcionais na linha de base, incluindo cognição (MEEM), humor (GDS), número de doenças crônicas, autoavaliação de saúde e rastreio para sarcopenia e fragilidade, de acordo com o status de óbito.

Tabela 2
Cognição (MEEM), humor (GDS), presença de doenças crônicas, autoavaliação de saúde e rastreio para sarcopenia (SARC-F) e fragilidade (fenótipo de Fried) na linha de base, segundo o status de óbito durante o seguimento. Brasília, DF, 2025.

Na avaliação realizada na linha de base (primeira etapa da coleta), observou-se que os participantes que permaneceram vivos ao final do seguimento apresentaram melhor desempenho cognitivo em comparação aos que evoluíram a óbito, embora a frequência de comprometimento cognitivo tenha sido elevada e semelhante em ambos os grupos. Em relação ao humor, os sobreviventes exibiram menores escores na GDS e maior proporção de classificação normal. Por outro lado, entre os participantes que evoluíram a óbito até a segunda coleta, observou-se mediana mais elevada dos escores na GDS e distribuição mais equilibrada entre as categorias de normalidade, sintomas depressivos e depressão grave.

Na avaliação realizada na linha de base, a hipertensão arterial foi a condição crônica mais prevalente tanto entre os participantes que permaneceram vivos quanto entre aqueles que evoluíram a óbito durante o seguimento, seguida por diabetes, doença cardíaca e câncer, com proporções semelhantes entre os grupos. Algumas doenças foram mais frequentes, na linha de base, entre os participantes que posteriormente faleceram, como artrite/reumatismo, doença pulmonar, depressão, osteoporose e incontinência urinária. Em ambos os grupos, predominou o relato de uma a três doenças crônicas. Quanto à autoavaliação de saúde na linha de base, os sobreviventes concentraram-se entre regular e muito boa, enquanto aqueles que evoluíram a óbito apresentaram maior frequência de avaliações regular ou boa.

A proporção de indivíduos com risco de sarcopenia foi semelhante entre sobreviventes e falecidos. Em relação à fragilidade, ambos os grupos apresentaram predomínio da condição de pré-fragilidade; contudo, a proporção de frágeis foi maior entre os falecidos do que entre os sobreviventes, ao passo que a condição de não frágil foi mais frequente no grupo de vivos sobreviventes.

A Tabela 3 apresenta a comparação da classificação de fragilidade entre a primeira e a segunda fases de coleta de dados entre os participantes vivos. As classificações da primeira fase encontram-se nas linhas e as da segunda fase nas colunas. Observou-se que cinco indivíduos inicialmente classificados como não frágeis migraram para a condição de frágeis. Entre os 26 participantes classificados como pré-frágeis na primeira fase, 11 mantiveram a condição, 14 evoluíram para frágeis e um retornou à condição de não frágil. Apenas um participante foi classificado como frágil na primeira fase e manteve essa condição na segunda.

Tabela 3
Classificação de fragilidade (Fenótipo de Fried) na linha de base e no seguimento (2ª avaliação). Brasília, DF, 2025.

Foram ajustados os modelos de regressão de Cox univariados em relação ao desfecho (óbito). Apenas as variáveis que atenderam ao pressuposto de riscos proporcionais (PH - Proportional Hazards) foram consideradas nesses modelos, garantindo a validade estatística dos resultados.

As variáveis idade, escore no MEEM, depressão na linha de base e a categoria “fragilidade frágil” apresentaram evidências de violação do pressuposto de proporcionalidade (p<0,05), sendo, portanto, excluídas da análise principal de sobrevivência. As demais variáveis atenderam ao pressuposto e permaneceram elegíveis para os modelos de Cox.

A Tabela 4 (painel A) apresenta os resultados dos modelos univariados para os preditores que atenderam à suposição de riscos proporcionais.

Tabela 4
Modelos de regressão de Cox para mortalidade. A: análises univariadas das variáveis que atenderam à suposição de riscos proporcionais (PH). B: Modelo multivariado final. Brasília, DF, 2025.

O estado civil casado associou-se a menor risco de mortalidade (HR=0,46; IC95%: 0,22–0,95; p=0,037). Entre as condições clínicas, osteoporose (HR=2,24; IC95%: 1,33–3,79; p=0,003), incontinência urinária (HR=1,79; IC95%: 1,07–2,99; p=0,026) e risco de sarcopenia (HR=2,23; IC95%: 1,37–3,61; p=0,001) associaram-se a maior risco de óbito.

Na dimensão emocional, avaliada pela Escala de Depressão Geriátrica (GDS), a presença de sintomas depressivos associou-se a aumento do risco de mortalidade (HR=2,18; IC95%: 1,17–4,03; p=0,013), sendo esse efeito ainda mais pronunciado na categoria de depressão grave (HR=4,16; IC95%: 2,23–7,76; p<0,001), em comparação à categoria de referência (“normal”).

O modelo multivariado de fatores preditores de óbito foi realizado por meio da regressão de Cox. As cinco variáveis candidatas, que apresentaram associação estatisticamente significativa na etapa univariada, foram: estado civil, osteoporose, incontinência urinária, depressão e risco de sarcopenia.

A Tabela 4 (painel B) apresenta o modelo final após seleção pelo método backward stepwise (likelihood ratio). Nesse modelo, foram incluídos 67 casos, com 47 eventos de óbito. Observa-se que estado civil e depressão grave permaneceram como preditores de mortalidade nas pessoas idosas longevas. Estado civil casado foi protetor (HR=0,315; IC 95% [0,120; 0,827]; p=0,019), em relação ao solteiro, e depressão grave associou-se a maior risco de óbito (HR=4,154; IC 95% [2,018; 8,548]; p<0,001), em relação à categoria ‘normal’ na GDS.

É importante lembrar que, devido ao limitado tamanho amostral, as estimativas de HR apresentaram certa imprecisão, como denotado pelo amplo IC 95%, e novos estudos com tamanho amostral maior devem ser realizados para a contribuição contínua com a Ciência.

DISCUSSÃO

Neste trabalho, cujo objetivo principal foi avaliar a capacidade preditiva da fragilidade, por meio de fenótipo de fragilidade, para o óbito em octogenários, investigou-se também a preditividade de fatores sociodemográficos, presença e número de doenças crônicas, sarcopenia, sintomas depressivos e incontinência urinária, tendo em vista o impacto dessas questões já reconhecido na literatura.

A análise multivariada por regressão de Cox demonstrou que o estado civil e a presença de sintomas depressivos permaneceram associadas à mortalidade mesmo após ajuste simultâneo das variáveis incluídas no modelo.

Observou-se efeito protetor do estado civil casado para o óbito, o que corrobora com estudos recentes. Em uma coorte com 82.091 participantes norte-americanos com idade igual ou superior a 60 anos, também observaram associação entre casamento e redução da mortalidade16, assim como estudo sueco17 desenvolvido com participação de 5.572.011 pessoas. Potente, Palumbo e Jalovaara18 ressaltam, ainda nesse contexto, o impacto positivo da escolaridade sobre a longevidade de indivíduos casados ou em união estável, reconhecendo que esse benefício tende a ser maior para os homens do que para as mulheres, achado também observado por Requena e Reher19.

Em relação aos sintomas depressivos, avaliados pela GDS, verificou-se aumento progressivo do risco de mortalidade conforme a gravidade dos sintomas. Participantes classificados com sintomas depressivos apresentaram risco aproximadamente duas vezes maior de óbito, embora a associação tenha apresentado significância limítrofe (p=0,056), indicando tendência de aumento do risco de mortalidade nessa população.

Por outro lado, indivíduos com depressão grave apresentam associação robusta e estatisticamente significativa com a mortalidade, demonstrando risco superior a quatro vezes em relação aos participantes sem sintomas depressivos. O resultado reforça a importância da depressão como fator prognóstico independente em pessoas idosas. Essa relação foi descrita em metanálise de Felipe et al.20, que identificaram aumento de 44% no risco relativo de morte em pessoas idosas com sintomas depressivos. Estima-se prevalência de sintomatologia depressiva de 21% entre pessoas idosas brasileiras21, condição também associada a maior incidência de doenças cardiovasculares e mortalidade por todas as causas, progressivamente pior conforme a gravidade dos sintomas22.

Interessante observar que as condições crônicas mais prevalentes na amostra (hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença cardiovascular e câncer) não se mostraram estatisticamente relevantes como preditoras de óbito, tampouco a classificação de fragilidade proposta por Fried, foco principal desta pesquisa. Por outro lado, a presença de osteoporose, incontinência urinária e a classificação de depressão grave pelo questionário GDS mostraram-se preditoras de mortalidade na amostra.

Esses achados sugerem que, nesse grupo, tais condições podem atuar como marcadores de fragilidade, especialmente em modelos baseados em acúmulo de déficits, como o Frailty Index, ou em abordagens multifatoriais. O Fenótipo de Fried, utilizado neste estudo, prioriza predominantemente componentes físicos (perda de peso, fadiga, baixa força, lentidão da marcha e baixo nível de atividade física)23. Tal interpretação é compatível com a metanálise de Tan et al.24, que, embora tenha demonstrado associação consistente entre fragilidade e risco de mortalidade em pessoas idosas de até 90 anos, não observou associação estatisticamente significativa entre indivíduos com idade superior a 90 anos.

Além dos achados observados na análise multivariada, é importante destacar a relevância clínica das variáveis incontinência urinária, osteoporose e risco de sarcopenia, que apresentaram associação com a mortalidade na análise univariada.

A incontinência urinária esteve associada a maior risco de mortalidade. Trata-se de uma síndrome geriátrica comum, reconhecida por seus impactos negativos à saúde e às condições socioeconômicas, além de associar-se ao aumento de risco de mortalidade por todas as causas em pessoas idosas. Nessa população, pode estar fortemente relacionada ao declínio cognitivo, à inatividade, à imobilidade, à sarcopenia e ao comprometimento das atividades da vida diária, fatores que, em conjunto, contribuem para maior comportamento sedentário25. Ademais, frequentemente reflete condições subjacentes, como fragilidade, quedas, infecções e outras comorbidades, que também elevam o risco de mortalidade26.

A incontinência urinária constitui sinal de vulnerabilidade sistêmica e importante marcador clínico de fragilidade, especialmente em pessoas idosas longevas. Embora não integre os critérios originais propostos pelo fenótipo de fragilidade de Fried, está fortemente associada a baixo nível de atividade física, fraqueza, lentidão e exaustão. No modelo de acúmulo de déficits proposto por Rockwood, é frequentemente incluída como um dos déficits que contribui para um índice mais elevado, particularmente entre os mais longevos24,27.

A presença de osteoporose representou mais que o dobro do risco de óbito na amostra analisada (HR=2,24) corroborando resultados de estudo asiático28 onde observou-se associação significativa entre o risco de osteoporose, avaliado através da Ferramenta de Autoavaliação da Osteoporose para Asiáticos (OSTA)29 e mortalidade por todas as causas em pessoas idosas. A relação entre osteoporose e fragilidade também foi demonstrada por Que et al.30 de forma causal bidirecional, e em metanálise envolvendo 9.664 pacientes realizada por Hu et al.31. Além disso, Shamsalinia et al.5 apontaram forte influência da síndrome da fragilidade na gravidade da osteoporose, cuja associação pode ser explicada por mecanismos multissistêmicos compartilhados30.

O impacto da sarcopenia sobre a mortalidade também foi observado por Zhang e Zeng32, em estudo que identificou correlação significativa entre sarcopenia e mortalidade por todas as causas. Resultados semelhantes foram descritos em revisão sistemática e metanálise33 envolvendo adultos de diferentes contextos e nacionalidades, utilizando distintas metodologias de rastreio da sarcopenia e da fragilidade, reforçando a consistência dessa associação em diferentes populações e cenários clínicos. Os resultados deste estudo, embora não tenham evidenciado predição positiva entre a identificação da fragilidade pelo fenótipo de Fried e o óbito em pessoas idosas longevas, indicam que o diagnóstico de osteoporose, incontinência urinária e depressão constituem importantes marcadores de fragilidade, frequentemente inter-relacionados nesse contexto23,27,34.

O fenótipo de fragilidade de Fried, desenvolvido a partir do Cardiovascular Health Study, foi constituído com base em uma população majoritariamente composta por indivíduos entre 65 e 75 anos, relativamente saudáveis23. Tanto nos resultados aqui apresentados quanto em pesquisas anteriores, demonstrou limitações importantes quando aplicado a pessoas idosas longevas24,35.

Nesse contexto, algumas hipóteses devem ser consideradas. Indivíduos com 80 anos ou mais provavelmente foram submetidos a um intenso processo de seleção biológica, no qual os mais frágeis faleceram antes de alcançar essa idade. Assim, certos componentes tradicionalmente relacionados à fragilidade nessa faixa etária podem refletir adaptações do envelhecimento avançado, e não necessariamente estados patológicos. Redução de força muscular e lentidão da marcha, por exemplo, tendem a apresentar elevada frequência e menor capacidade discriminatória. Ademais, em idades muito avançadas, o risco basal de mortalidade é elevado independentemente do estado de fragilidade, o que pode atenuar a capacidade preditiva da classificação.

Algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos achados. Primeiramente, trata-se de uma coorte observacional, o que não permite estabelecer relações de causalidade entre as variáveis investigadas e o óbito. Além disso, embora tenham sido realizados ajustes para potenciais fatores de confusão, não se pode descartar a influência de confundimento residual por variáveis não mensuradas.

Embora a proporção de dados faltantes tenha sido baixa e não tenha modificado a direção das associações observadas, não é possível excluir completamente a ocorrência de viés de informação. Ademais, deve-se considerar a possibilidade de vieses relacionados ao lapso temporal entre a coleta das variáveis clínicas e o acompanhamento dos desfechos, uma vez que condições de saúde, estado funcional e características psicossociais podem sofrer modificações ao longo do tempo, influenciando a magnitude das associações identificadas.

Também é importante considerar a possibilidade de mudanças nas condições clínicas e terapêuticas dos participantes durante o período de seguimento, incluindo alterações no tratamento, surgimento de novas comorbidades ou agravamento funcional, fatores que não foram integralmente capturados nas análises. Apesar dessas limitações, os resultados apresentados contribuem para a compreensão dos fatores associados à mortalidade em pessoas idosas e reforçam a importância da avaliação multidimensional dessa população.

CONCLUSÃO

A partir dos achados deste estudo, conclui-se que a identificação da fragilidade pelo fenótipo de Fried não apresentou capacidade preditiva significativa para mortalidade em pessoas idosas longevas. Em contrapartida, estado civil, sintomas depressivos, osteoporose, incontinência urinária e risco de sarcopenia demonstraram importante associação com o óbito, destacando-se especialmente a depressão grave como preditor independente de mortalidade.

Esses achados reforçam a importância de uma abordagem ampliada da fragilidade, incorporando marcadores de vulnerabilidade biológica e funcional no contexto da longevidade avançada. Do ponto de vista clínico, os resultados sugerem que a identificação e o manejo precoce dessas condições podem auxiliar na estratificação de risco e no planejamento de cuidados mais individualizados para octogenários e demais longevos.

Esses achados dialogam com os conceitos de fragilidade fenotípica e fragilidade biológica no contexto da longevidade avançada, sugerindo que determinadas condições clínicas e funcionais refletem maior vulnerabilidade sistêmica e podem apresentar maior capacidade preditiva do que o fenótipo clássico de fragilidade em pessoas idosas longevas.

Vale destacar o efeito protetor observado entre participantes casados, que reforça a importância dos determinantes sociais e do suporte interpessoal sobre a sobrevivência em idades mais avançadas. Da mesma forma, a forte associação entre sintomas depressivos e mortalidade evidencia a necessidade de maior atenção à saúde mental na assistência à população idosa longeva.

Embora limitado pelo delineamento observacional e pelas possíveis mudanças clínicas ocorridas durante o seguimento, este estudo contribui para ampliar a compreensão dos fatores associados à mortalidade em octogenários e nonagenários. Os achados reforçam a necessidade de estratégias de avaliação geriátrica ampla, que ultrapassem exclusivamente os componentes físicos de fragilidade, favorecendo a identificação precoce de condições potencialmente modificáveis e subsidiando intervenções mais abrangentes voltadas à promoção da longevidade com melhor qualidade de vida.

Para pesquisas futuras, recomenda-se o desenvolvimento de estudos longitudinais com medidas repetidas de biomarcadores inflamatórios e avaliações funcionais, bem como a construção de modelos integrativos que combinem condições clínicas, funcionalidade e indicadores biológicos, a fim de aprimorar a predição de mortalidade e compreender os mecanismos envolvidos no envelhecimento avançado.

Financiamento

Financiamento da pesquisa: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Chamada nº 21/2023, Faixa B, Estudos Transdisciplinares Nº do processo: 382649/2026-5. Bolsa de longa duração, modalidade: Desenvolvimento Tecnológico Industrial (DTI – B).

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Correspondência

Correspondência Ingridy Fátima Alves Rodriguesdra.ingridyfatima@gmail.com

Conflito de interesse

Os autores declaram não haver conflito na concepção deste trabalho.

Editado por

Camila Alves dos Santos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Fev 2026
  • Aceito
    07 Jul 2026
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