Resumo
Objetivo Verificar se a solidão e as características da rede de apoio social apresentam associação com a depressão em idosos aposentados.
Método Estudo observacional, transversal e analítico. A amostra foi constituída por 144 pessoas idosas. O critério de inclusão foi ser pessoa idosa com capacidade de comunicação e cognição preservada. Pessoas idosas aposentadas com capacidade de comunicação e cognição preservadas, avaliadas a partir do Questionário de Avaliação Mental de Kahn e excluídas aquelas que não contemplaram os itens deste instrumento. Utilizou-se a Escala de Solidão (UCLA-BR), Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15), Escala de Apoio Social do <italic>Medical Outcomes Study</italic> (MOS) e as variáveis sociodemográficas incluídas foram: idade, sexo, religião, escolaridade, renda mensal, estado civil, quedas no último mês, polifarmácia, comorbidade, tempo de aposentadoria e percepção de saúde.
Resultados Evidenciou-se que níveis leves e moderados de solidão (p<0,001), baixo apoio emocional (p<0,003), baixo apoio afetivo (p<0,002), baixa interação social positiva (p<0,001), bem como os preditores presença de comorbidades (p<0,021), percepção regular e ruim de saúde (p<0,001), renda mensal inferior a um salário-mínimo (p<0,022), ser solteiro (p<0,041) apresentaram associação significativa com sintomas depressivos.
Conclusão O estudo revelou que solidão, baixo apoio emocional, afetivo e de interação social positiva, assim como a presença de comorbidades, percepção ruim de saúde, baixa renda e ser solteiro aumentam a vulnerabilidade à depressão em pessoas idosas aposentadas.
Palavras-chave
Idoso; Solidão; Depressão; Apoio Social.
Abstract
Objective To determine whether loneliness and social support network characteristics are associated with depression among retired older adults.
Method An observational, cross-sectional, analytical study was conducted. The sample comprised 144 older adults. The inclusion criterion was being an older adult with preserved communication ability and cognition, assessed using the Kahn Mental Status Questionnaire. Participants not meeting the criteria established by this instrument were excluded. The instruments used were the UCLA Loneliness Scale (UCLA-BR), the Geriatric Depression Scale (GDS-15), and the Medical Outcomes Study Social Support Scale (MOS-SSS). Sociodemographic variables included age, sex, religion, education, monthly income, marital status, falls in past month, polypharmacy, comorbidities, length of retirement, and self-rated health.
Results Mild-to-moderate levels of loneliness (p<0.001), low emotional support (p<0.003), low affective support (p<0.002), and low positive social interaction (p<0.001), as well as the predictors presence of comorbidities (p<0.021), fair or poor perceived health (p<0.001), monthly income below the minimum wage (p<0.022), and being single (p<0.041), were significantly associated with depressive symptoms.
Conclusion The study revealed that loneliness, low emotional, affective and positive social interaction support, as well as comorbidities, poor perceived health, low income, and being single, increased vulnerability to depression among the retired older adults.
Keywords
Older Adults; Loneliness; Depression; Social Support.
INTRODUÇÃO
O crescimento mais acentuado na população brasileira ocorreu entre pessoas idosas - com um aumento superior a 4% ao ano no período de 2012 a 2022. A população com 60 anos de idade ou mais, que era de 14,2 milhões em 2000, tem projeções para alcançar 73,5 milhões em 2060. Nos próximos 10 anos, estima-se um acréscimo anual de mais de 1 milhão de pessoas idosas1.
A mudança demográfica que vivemos hoje exerce um impacto significativo sobre nossa sociedade, gerando preocupações quanto à sustentabilidade dos sistemas de saúde e de assistência social, além de trazer novos desafios para a elaboração de políticas públicas2. Nesse cenário, compreender os determinantes que influenciam a velocidade do declínio cognitivo e as maneiras de preservar o desempenho cognitivo durante a velhice se torna cada vez mais relevante3.
A teoria "use ou perca" sugere que o desempenho cognitivo tende a se degradar quando não somos mentalmente desafiados ou estimulados. Assim, a aposentadoria pode aumentar o risco de um declínio cognitivo mais rápido, devido à redução de atividades cognitivamente exigentes após deixar o trabalho. No entanto, esse efeito negativo da aposentadoria pode variar entre diferentes grupos profissionais. Espera-se que pessoas em profissões com altas exigências intelectuais tenham um menor declínio relacionado à idade enquanto ainda estão trabalhando, em comparação àquelas em ocupações com menores demandas mentais3,4.
A aposentadoria faz com que geralmente as pessoas percam o acesso a contatos sociais, estilos de vida e rotinas diárias, bem como estímulos, atividades e propósitos potenciais, que cursam em sintomas depressivos como solidão e desesperança5. Além desses aspectos, dado o valor que o trabalho possui na sociedade atual, como forma de conquistar reconhecimento e status social6, o período pós-aposentadoria impacta diretamente a valorização social da pessoa idosa, assim como sua autoestima, o que também pode contribuir para o desenvolvimento de depressão.
O ócio, nesse contexto, torna-se um fator relevante a ser considerado. Embora possa representar uma oportunidade de descanso e lazer, o ócio excessivo e sem atividades significativas pode intensificar os sentimentos de solidão e isolamento já presentes no período pós-aposentadoria. A perda de rotina e de contatos sociais, associada à falta de engajamento em atividades que promovam interação e propósito, pode transformar o tempo livre em uma experiência negativa, aumentando o risco de sofrimento psicológico/depressão. Por isso, é crucial que o ócio seja equilibrado com atividades sociais e recreativas que promovam o pertencimento, auxiliando na preservação da saúde mental da pessoa idosa7.
Considerando que a solidão, o enfraquecimento da rede de apoio social e a depressão são condições frequentemente observadas em pessoas idosas, este estudo justifica-se por abordar uma problemática prevalente que compromete significativamente a qualidade de vida, além de aumentar o risco de comorbidades e mortalidade. Nesse contexto, tornam-se fundamentais as estratégias que promovam o engajamento social, o estímulo cognitivo e a manutenção de um propósito de vida após a aposentadoria, como formas de atenuar os efeitos negativos do declínio cognitivo e dos transtornos depressivos nessa população. A compreensão desses fatores é essencial para subsidiar a formulação de políticas públicas e o desenvolvimento de intervenções eficazes voltadas ao envelhecimento saudável e à melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas.
Diante desse panorama, este estudo tem como objetivo verificar se a solidão e as características da rede de apoio social apresentam associação com a depressão em pessoas idosas aposentadas
MÉTODO
Este estudo caracteriza-se como observacional, transversal e analítico, conduzido com pessoas idosas residentes em um município do interior de Minas Gerais. O cálculo amostral considerou uma prevalência estimada de 6% de depressão em pessoas idosas, erro alfa de 5%, teste unicaudal, distribuição normal e poder estatístico mínimo de 80%, resultando em uma amostra composta por 144 participantes. A prevalência de referência adotada para o cálculo baseou-se em dados da Organização Mundial da Saúde, que estima que a depressão acomete 4,8% da população mundial e 5,8% da população brasileira.
A avaliação do estado mental foi utilizada como critério de inclusão. Assim, foram incluídas pessoas idosas aposentadas com capacidade de comunicação e cognição preservadas, condição verificada por meio do Questionário de Avaliação Mental de Kahn, instrumento validado e adaptado para o contexto brasileiro. Foram excluídos os indivíduos com desempenho inferior ao ponto de corte, o que operacionaliza a presença de indícios de comprometimento cognitivo, bem como aqueles que não sabiam ler, requisito necessário para a compreensão dos instrumentos de pesquisa.
Por se tratar de um estudo transversal, seguiremos as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)8.
A coleta de dados ocorreu entre março e abril de 2025 e foi realizada por uma equipe previamente treinada, com o objetivo de assegurar padronização dos procedimentos e uniformidade na aplicação dos instrumentos. O treinamento consistiu em atividades de alinhamento teórico e simulações de entrevistas, de modo a minimizar divergências entre os avaliadores. As entrevistas foram individuais e conduzidas em locais comunitários e de plena circulação, como praças, parques, pontos de ônibus. Ressalta-se que a avaliação cognitiva não envolveu exames clínicos ou avaliação médica especializada, baseando-se exclusivamente no instrumento validado, aspecto que será considerado nas limitações do estudo.
Sendo o primeiro procedimento da pesquisa, a avaliação cognitiva empregou o Questionário de Avaliação Mental de Kahn, originalmente desenvolvido por Kahn e colaboradores em 1960 em “Brief Objective Measures for the Determination of Status in the Aged” e foi adaptado e validado para a cultura brasileira9. É um questionário abreviado que contém 10 perguntas que analisam a orientação temporo-espacial e a memória para os fatos tardios. O participante da pesquisa deveria acertar no mínimo 7 perguntas para atender aos critérios básicos de orientação temporo-espacial e fazer parte do estudo10.
Após, as informações sociodemográficas e clínicas foram obtidas por meio de um questionário estruturado elaborado pelos autores para esta pesquisa, composto por itens fechados referentes a sexo, idade, religião, escolaridade, renda mensal, estado civil, histórico de quedas no último mês, uso de múltiplos medicamentos, comorbidades autorreferidas, tempo de aposentadoria e percepção de saúde.
Para avaliar a depressão entre as pessoas idosas aposentadas, utilizou-se a Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15)11. É amplamente utilizada e validada como instrumento diagnóstico de depressão em pessoas idosas12. Essa escala apresenta 15 perguntas negativas e afirmativas, valendo 1 ou 0 pontos. Caso a soma das pontuações esteja entre 0 e 5, considera-se normal; de 6 a 10, indica depressão leve a moderada; e de 11 a 15, depressão severa.
A avaliação da solidão será por meio da Escala de Solidão UCLA-BR13. Essa escala foi adaptada e validada para o cenário, originalmente denominada Escala da Solidão da Universidade da Califórnia de Los Angeles (UCLA). A UCLA-BR é constituída por 20 questões, referentes ao convívio social (como a pessoa se relaciona) e ao isolamento (afastamento do convívio social); e as respostas são pontuadas de zero a três para cada item. Quanto aos escores: de 0 a 22 pontos indicam a solidão mínima; de 23 a 35, solidão leve; de 36 a 47, solidão moderada e de 48 a 60, solidão intensa14.
Para avaliar a rede de apoio social, utilizou-se a Escala de Apoio Social do Medical Outcomes Study (MOS)15, traduzida para o português e validada no Brasil9. O questionário inclui 19 itens que abrangem as seguintes dimensões funcionais do apoio social: material, afetivo, interação social positiva e emocional/informativo. Os participantes devem indicar a frequência com que percebem cada tipo de apoio disponível: nunca, raramente, às vezes, quase sempre ou sempre9.
Para cada item, o participante deve indicar com que frequência considera disponível cada tipo de apoio: nunca, raramente, às vezes, quase sempre ou sempre, e os escores interpretativos são9: Apoio Material: ≤6: Baixa percepção; 7 a 13: Média percepção. ≥14: Alta percepção. Apoio afetivo: ≤4: Baixa percepção 05 a 10: Média percepção ≤11: Alta percepção. Apoio emocional/informacional: ≤12: Baixa percepção 13 a 28: Média percepção ≥29: Alta percepção. Interação social positiva: ≤6: Baixa percepção 7 a 13: Média percepção ≥14: Alta percepção.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Medicina de Itajubá - FMIT, sob o parecer Nº 7.416.538 e cumpriu todas as recomendações da resolução nº 466/2012 16 e da resolução nº 510/2016 17, que dispõem sobre as diretrizes éticas aplicáveis às pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil.
Para as análises dos dados, utilizou a estatística descritiva, sendo a frequência e percentagem destinadas às variáveis categóricas. Para associações recorreu aos procedimentos estatísticos: qui-quadrado, V de Cramer e teste de Wald. Adotou-se 5% como medida de erro (0,05) nas significâncias estatísticas, com intervalo de confiança de com 95%.
A análise inferencial foi conduzida através de um modelo de regressão logística multivariada. A estimativa dos parâmetros do modelo baseou-se no método de Máxima Verossimilhança (MLE), utilizando o algoritmo de otimização de Newton-Raphson para maximizar a função de log-verossimilhança e ajustar a função de ligação logit aos dados. Para a seleção de variáveis independentes, adotou-se uma metodologia stepwise automatizada (híbrida). O critério de decisão para a inclusão e exclusão iterativa de preditores foi fundamentado na estatística do teste de Wald. Desta forma, o modelo final reteve apenas as variáveis que apresentaram coeficientes estatisticamente significativos, garantindo a parcimônia e a qualidade do ajuste multivariado.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Figshare.com e pode ser acessado em https://doi.org/10.6084/m9.figshare.30924161.
RESULTADOS
A Tabela 1 apresenta o perfil sociodemográfico e de saúde das pessoas idosas avaliadas, bem como a relação dessas variáveis com a presença de sintomas depressivos. Os resultados permitem identificar quais características demonstraram maior associação com a depressão no grupo estudado, destacando diferenças importantes entre as categorias analisadas.
Características sociodemográficas e de saúde e associação com depressão (N=144). Itajubá, MG, 2025.
A Tabela 2 sintetiza a distribuição dos níveis de solidão entre os participantes e sua associação com sintomas depressivos. Observa-se como o aumento da solidão se relaciona à maior prevalência de depressão, evidenciando a relevância dessa variável no contexto analisado.
A Tabela 3 descreve como os diferentes domínios da rede de apoio social se associam à presença de sintomas depressivos. O conjunto dos dados evidencia quais dimensões do apoio social exerceram maior influência sobre a saúde mental das pessoas idosas aposentadas.
Análise regressão domínios da rede de apoio social versus depressão (N=144). Itajubá, MG, 2025.
A Tabela 4 mostra as razões de chances (Odds Ratio) dos preditores que demonstraram significância estatística, permitindo estimar a magnitude do risco associado a cada categoria analisada em relação aos sintomas depressivos.
Análise de Odds Ratio, preditores significativos para a depressão (N=144). Itajubá, MG, 2025.
A Tabela 5 apresenta o modelo multivariado com os preditores que permaneceram significativos após ajuste. O objetivo é demonstrar a força de associação entre cada variável e os sintomas depressivos, identificando fatores independentes de maior impacto.
Análise regressão multivariada, preditores significativos versus depressão (N=144). Itajubá, MG, 2025.
DISCUSSÃO
Este estudo buscou analisar se a solidão e as características da rede de apoio social estão associadas à presença de sintomas depressivos em pessoas idosas aposentadas. Os resultados obtidos confirmam a hipótese inicial, indicando que níveis leves e moderados de solidão, baixo apoio emocional, afetivo e de interação social positiva, assim como a presença de comorbidades, percepção negativa de saúde e renda inferior a um salário-mínimo, apresentaram associação significativa com sintomas depressivos. Esses achados reforçam a relevância de compreender o envelhecimento não apenas como um processo biológico, mas também como fenômeno social e relacional, profundamente marcado pela qualidade dos vínculos e pelas condições de vida.
A relação entre solidão e depressão observada neste estudo dialoga com evidências robustas da literatura, que apontam que pessoas idosas que vivenciam solidão crônica tendem a apresentar maior probabilidade de desenvolver transtornos mentais e condições físicas como hipertensão e doenças cardiovasculares18. A solidão impacta negativamente a saúde emocional, reduz a resiliência psicológica e interfere na manutenção da atividade cerebral, pois a ausência de apoio emocional e a diminuição das interações sociais privam o indivíduo de estímulos relacionais essenciais. Esse cenário torna as pessoas idosas mais vulneráveis ao estresse e a desfechos psicológicos adversos, entre eles a depressão18. Em pesquisas com amostras semelhantes, observou-se que quanto maior for o nível de solidão, maior a presença de sintomas depressivos e menor a percepção de apoio social13. Esses resultados convergem com os achados da presente investigação e demonstram que a solidão é variável central na compreensão do sofrimento emocional em pessoas idosas aposentadas.
Ao analisar as evidências científicas mais amplas sobre o tema, verifica-se uma associação consistente entre solidão, retraimento social e sintomas depressivos em pessoas idosas19. Quanto mais intensos são os sentimentos de isolamento e mais reduzida é a rede de apoio afetivo, maior tende a ser a incidência de quadros depressivos. Essa relação se sustenta em diferentes contextos socioculturais, indicando que a interação humana, o afeto e o pertencimento são necessidades universais, cuja privação contribui para o adoecimento psíquico.
No cenário nacional, um estudo realizado no Ambulatório de Especialidades do Idoso em São Paulo evidenciou que pessoas idosas com alta percepção de apoio emocional e de interação social positiva apresentaram maiores níveis de bem-estar psicológico, enquanto aquelas que relatavam baixo apoio exibiram maior frequência de sintomas depressivos20. Esse dado converge diretamente com os resultados deste estudo, reforçando o papel protetor do apoio social no envelhecimento.
De maneira complementar, durante a pandemia da covid-19, o estudo americano “All of Us Research Program”, conduzido com mais de 69 mil adultos, tornou evidente que altos níveis de apoio emocional e interação social positiva estavam associados a menores níveis de sintomas depressivos21. A consistência metodológica dessas pesquisas reforça que, mesmo diante de contextos adversos, o apoio social exerce função atenuadora sobre o sofrimento psíquico.
Em estudos realizados em outros países, como na Jordânia (Oriente Médio), verificou-se correlação negativa entre apoio afetivo e depressão entre pessoas idosas institucionalizadas, demonstrando que a ausência de demonstrações afetivas agrava o sofrimento emocional22. Resultados semelhantes apontam que o suporte emocional possui efeito protetor robusto contra a depressão21 e que intervenções psicossociais focadas no fortalecimento das redes de apoio são capazes de reduzir significativamente os sintomas depressivos em pessoas idosas23.
Além disso, estudos longitudinais demonstram que um maior número de confidentes e a disponibilidade de ajuda prática estão associados à redução de sintomas depressivos, relação mediada pela diminuição da solidão24. Tais evidências sustentam o modelo teórico “buffering”, segundo o qual as redes de apoio social funcionam como um amortecedor psicológico que reduz o impacto do estresse por meio da proteção emocional, do suporte instrumental e do fortalecimento dos vínculos interpessoais25.
A perspectiva humanista da psiquiatra Nise da Silveira oferece um aporte conceitual importante para compreender os achados desta pesquisa. Contrária às práticas coercitivas e excludentes da psiquiatria tradicional, Nise defendeu a centralidade do afeto, da criatividade e do vínculo humano como elementos terapêuticos fundamentais26. Em suas experiências no Hospital Pedro II e no Museu de Imagens do Inconsciente27, mostrou que a convivência afetiva, a expressão simbólica e o engajamento em atividades criativas favorecem a reintegração social e o equilíbrio emocional de pessoas acometidas pelo sofrimento psíquico27,28. Assim, sua visão converge com os resultados deste estudo ao evidenciar que o afeto, o contato humano e o sentimento de pertencimento são elementos essenciais na preservação da saúde mental27, especialmente em períodos marcados por mudanças identitárias e reorganização da vida cotidiana, como ocorre com a aposentadoria.
Além da solidão e da rede de apoio, este estudo identificou outros fatores significativamente associados à depressão, como a presença de comorbidades. Em uma pesquisa com 22.728 pessoas idosas brasileiras, constatou-se que 11,8% apresentavam sintomas depressivos e 8,46% tinham múltiplas doenças crônicas, sendo que aquelas com multimorbidades possuíam até o dobro de chance de desenvolver depressão29. Os autores também observaram que pessoas idosas com redes de apoio mais restritas e menor envolvimento em atividades comunitárias exibiam maior prevalência de depressão. Esses resultados reafirmam que a saúde física e a saúde mental são dimensões interdependentes, especialmente no envelhecimento.
Outro aspecto relevante diz respeito à percepção de saúde. Estudos apontam que pessoas idosas que avaliam sua saúde como ruim ou muito ruim apresentam risco significativamente maior de desenvolver sintomas depressivos30. Em pesquisa com 185 pessoas idosas, verificou-se que aquelas com percepção negativa de saúde tinham até dez vezes mais chances de apresentar sintomas depressivos em comparação às com percepção positiva30. Assim, o presente estudo confirma essa associação, demonstrando que a forma como a pessoa idosa percebe sua própria saúde desempenha papel determinante na experiência subjetiva de bem-estar emocional.
A condição socioeconômica também se destacou como fator associado à depressão. Pessoas idosas com renda inferior a um salário-mínimo apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos, o que está amplamente documentado na literatura. Em estudo com 133 pessoas idosas, 32,4% viviam com renda insuficiente, associada a maior frequência de sintomas depressivos20. Resultados semelhantes foram identificados no Estudo SABE, que mostrou que pessoas idosas cuja renda era insuficiente para atender às necessidades diárias apresentavam maior prevalência de depressão20. Além disso, o estado civil solteiro se mostrou um fator associado à depressão: entre pessoas idosas do sexo feminino residentes em zona rural de Mato Grosso do Sul, 23,29% apresentaram sintomas depressivos, especialmente entre aquelas solteiras e com percepção negativa de saúde31.
Esses achados se alinham às diretrizes do DSM-5, que caracteriza a depressão como um transtorno multifatorial, envolvendo aspectos psicológicos, biológicos, genéticos e ambientais24. Na população de pessoas idosas, trata-se de condição de grande impacto, associada a maior risco de incapacidade, agravamento de doenças crônicas, suicídio e mortalidade. O ócio decorrente da aposentadoria pode interferir na estrutura social e emocional das pessoas idosas, reduzindo interações significativas e enfraquecendo as redes de apoio. Nesse sentido, a rede de apoio social se configura como espaço central de sustentação emocional, representando a interface entre o indivíduo e a sociedade32. Ela influencia diretamente como a pessoa idosa percebe seu mundo, enfrenta adversidades e estabelece relações, sendo potencializada por vínculos familiares, comunitários e afetivos. Esses vínculos, quando fortalecidos, funcionam como elementos de proteção diante das vulnerabilidades inerentes ao processo de envelhecimento.
Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. O delineamento transversal impede a inferência de causalidade entre as variáveis analisadas e limita-se a identificar associações. O uso de instrumentos autorreferidos pode introduzir vieses relacionados à percepção individual, e a amostra, composta por pessoas idosas aposentadas de um contexto geográfico específico, restringe a generalização dos resultados. Recomenda-se que futuras pesquisas adotem delineamentos longitudinais e amostras mais diversificadas, de modo a aprofundar a compreensão sobre o papel da solidão, das redes de apoio e da percepção de saúde na manifestação de sintomas depressivos entre pessoas idosas aposentadas. Estudos futuros também devem explorar intervenções comunitárias, programas de convivência e estratégias psicológicas que promovam integração social, fortalecimento afetivo e percepção positiva de saúde.
CONCLUSÃO
A presente pesquisa evidencia de forma consistente que os principais fatores associados à depressão em pessoas idosas aposentadas são a solidão leve e moderada, o baixo apoio emocional, afetivo e de interação social positiva. Ademais, verificou-se que a presença de comorbidades, a percepção negativa de saúde, a renda mensal inferior a um salário-mínimo e o estado civil solteiro intensificam a vulnerabilidade aos sintomas depressivos. Trata-se de um estudo de caráter inovador, ao integrar dimensões psicossociais e socioeconômicas na compreensão do adoecimento emocional durante a aposentadoria, período marcado por mudanças identitárias e de vínculos sociais. Os resultados reforçam a relevância de estratégias interdisciplinares voltadas à promoção da saúde mental, especialmente por meio do fortalecimento das redes de apoio e das relações afetivas, elementos fundamentais para a prevenção da depressão e a melhoria da qualidade de vida na velhice.
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Camila Alves dos Santos
