Resumo
Objetivo Investigar os padrões de participação social de pessoas idosas e suas diferenças de acordo com o sexo.
Método Estudo transversal e analítico, que avaliou 1.266 pessoas idosas, participantes do Estudo Saúde e Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), no ano de 2010, no município de São Paulo/SP. Mensurou-se a participação social por meio de 14 questões, que foram classificadas a partir da taxonomia de Levasseur et al. em: atividades orientadas à socialização (AOS), tarefas (AOT) e engajamento social (ES). A análise de classes latentes foi utilizada para a identificação de padrões.
Resultados Identificaram-se quatro grupos latentes: classe 1 - apresentou variabilidade das atividades, especialmente o ES; classe 2 - teve variabilidade nas AOS e AOT; classe 3 - apresentou somente AOS; e classe 4 - baixa variabilidade em todas as atividades. Em relação aos homens, houve o endosso de atividades competitivas enquanto evitam atividades relacionadas ao universo feminino, o oposto ocorre com mulheres. As mulheres apresentam maior variabilidade nas atividades de socialização, possível reflexo de liberdade após eventos transicionais que findam os papéis de gênero. Menor participação social entre os homens reflete dependência das interações relacionadas ao trabalho e à família.
Conclusão Há diferentes padrões de participação social associados às expectativas relacionadas ao sexo, que influenciam a definição das atividades sociais das pessoas idosas. A compreensão desses padrões possibilita que profissionais e gestores adequem programas e ações sociais, considerando as diferentes preferências em função do sexo.
Palavras-chave
Envelhecimento; Participação Social; Idoso.
Abstract
Objective To investigate the social participation patterns of older adults and their differences according to sex.
Method A cross-sectional, analytical study of 1,266 older adults participating in the 2010 Wellbeing and Aging Study (SABE) in the city of São Paulo, São Paulo state, was conducted. Social participation was measured using 14 questions, classified based on the taxonomy of Levasseur et al.: socially oriented activities (SOAs), task-oriented activities (TOAs), and social engagement (SE). Latent class analysis was used to identify patterns.
Results Four latent groups were identified: class 1 - variability in activities, especially SE; class 2 - variability in both SOAs and TOAs; class 3 - SOAs only; and class 4 - low variability in all activities. Men endorsed competitive activities, avoiding activities associated with the female domain, while the opposite occurred for women. Women exhibit greater variability in socialization activities, possibly reflecting freedom after transitional events that diminish gender roles. Lower social participation among men reflects dependence on work- and family-related interactions.
Conclusion There are different patterns of social participation associated with sex-related expectations, which influence the definition of social activities among older adults. Understanding these patterns enables professionals and policymakers to tailor programs and social actions by considering differing preferences according to sex.
Keywords
Aging; Social Participation; Older Adult.
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de estratégias para a promoção de um envelhecimento ativo e saudável é preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS)1. A participação social (PS) é um dos pilares frente a esse objetivo1,2. Maior PS está associada à adoção de comportamentos saudáveis, presença de suporte social, e melhoria do funcionamento físico e mental3,4. A PS promove o aumento da confiança das pessoas em sua comunidade e facilita o acesso ao suporte emocional4.
Na população idosa, o tema se destaca por ser um período marcado por declínio na PS, em parte decorrente das mudanças de papéis e arranjos sociais típicos dessa fase (e.g., aposentadoria, perda de entes queridos), bem como alterações na saúde física5. Revisão sistemática demonstrou que a trajetória mais comum da PS é descendente, com poucos estudos relatando estabilidade, sendo ainda mais raro aqueles que demonstraram o aumento da participação social em idades avançadas5. Outro estudo observou longitudinalmente que dois terços da amostra apresentaram declínio nas atividades em que participavam, enquanto apenas um terço manteve os níveis6. Fatores como migração, morbidade e aspectos psicossociais subjazem a essa alteração ao longo dos anos6.
Diversos estudos procuram compreender os antecedentes e desfechos da PS, considerada um fator modificável no envelhecimento7. Evidências demonstram que a PS influencia na saúde mental e na funcionalidade da pessoa idosa7-9, e associa-se a melhores níveis na cognição10, a menor risco de incidência de incapacidade e mortalidade11. Adicionalmente, pessoas idosas com maior participação social apresentam menor risco de apresentar sintomas depressivos7, enquanto baixos níveis de PS elevam o risco12.
Ainda existem diferenças da PS em relação ao sexo13, evidenciadas de forma positiva e com mais benefícios para as mulheres do que para os homens8. Para o universo feminino, criar e manter relações sociais é mais central na promoção de comportamentos promotores de saúde14. Por outro lado, homens engajam-se mais em atividades relacionadas ao trabalho, enquanto mulheres apresentam maior diversidade nas atividades13.
No Brasil, o nível de PS é o mais baixo (8,53%) entre os três pilares do envelhecimento ativo (i.e., saúde, participação e segurança)2. Observa-se que, quanto mais avançada a idade, mais baixa tende a ser a PS15. Pessoas idosas brasileiras que participam de atividades sociais — em clubes, grupos religiosos, comunitários ou centros seniores — relataram melhor autopercepção de saúde16. No país, a prevalência de participação social também apresenta grande amplitude (17,4% - 89%) em função da forma de mensuração, região do país e acesso a serviços da comunidade16.
Apesar de ser central para o envelhecimento ativo e saudável, a PS foi tratada de maneira inconsistente na literatura17 devido às variações de conceitos que determinam sua mensuração e seus achados. Por exemplo, a inclusão de trabalho remunerado na definição e mensuração da participação social da população idosa pode refletir em menor prevalência, enquanto a não inclusão pode mostrar o inverso5.
Diante disso, Levasseur et al.17 sistematizaram as definições encontradas na literatura e propuseram a definição de que participação social é o envolvimento de uma pessoa em atividades que proporcionam interação com outras pessoas na sociedade ou na comunidade. Nesse constructo, os autores mencionaram que as atividades podem ser orientadas à socialização (AOS), tarefas (AOT) e engajamento social (ES).
Ainda que essa sistematização tenha contribuído para a literatura, a maioria dos estudos utiliza como medida o somatório de participação em diferentes atividades, limitando a compreensão desse fenômeno. Essa abordagem desconsidera os efeitos dos diferentes tipos de atividades nos indicadores de saúde18 e impede a compreensão dos diferentes padrões de atividades adotados pelas pessoas idosas19.
A PS pode se apresentar em conjuntos de diferentes atividades ou atividades exclusivas. A hipótese de acumulação indica que quanto mais uma pessoa participa de uma tarefa, maior a chance de participar em outras20. Já a hipótese de competição apresenta que algumas tarefas impossibilitam a participação em outras (e.g. participação em tarefas de cuidado do cônjuge ou netos pode impedir a participação em atividades recreativas)20. Essas informações não são refletidas quando apenas o somatório das atividades é considerado.
A análise de classes latentes (ACL) permite a identificação de diferentes padrões de comportamento a partir de indicadores observáveis21. No contexto da PS tal análise permite a identificação de padrões entre pessoas, unindo-as em grupos segundo suas semelhanças nas atividades sociais que participam. Na literatura, diferentes grupos latentes de participação social em pessoas idosas foram encontrados22-24. Porém, é visto nesses estudos uma grande variabilidade nos grupos latentes identificados.
O presente estudo tem como objetivo identificar os padrões/perfis de participação social em pessoas idosas residentes na comunidade de acordo com o sexo. Revelar os diferentes padrões de participação social adotados pelas pessoas idosas permitirá um novo olhar sobre esse fenômeno, considerando-o em sua dinamicidade. A padronização da conceituação desses perfis usando referencial teórico consolidado possibilitará comparações com futuros estudos que visem esclarecer como os diferentes arranjos de atividades adotados pelas pessoas idosas atuam de maneira similar ou diferente nos desfechos de saúde.
MÉTODO
Trata-se de um estudo com delineamento transversal realizado a partir de dados do Estudo Saúde, Bem-estar e Envelhecimento (SABE). O estudo SABE iniciou em 2000, sob a coordenação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e com o intuito de investigar as condições de saúde na população idosa em sete centros urbanos da América Latina. No Brasil, o estudo foi conduzido na cidade de São Paulo com uma amostra probabilística composta por 2.143 participantes. A partir de 2006, somente nesse município, o estudo tornou-se longitudinal de múltiplas coortes. Foram realizadas novas coletas nos anos de 2006, 2010 e 2015, e avaliados 2.143, 1.413 e 1.345 participantes, respectivamente25. A onda do ano de 2010 foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Parecer COEP n.º 23/10). Os dados foram fornecidos pela coordenação do Estudo SABE, que também aprovou a elaboração deste trabalho.
Para este estudo, utilizaram-se os dados do ano de 2010. Da amostra total, foram excluídos os participantes que não apresentaram resposta em pelo menos uma das variáveis de participação social. Assim, a amostra final foi constituída por 1.266 participantes.
A participação social englobou 14 variáveis (Quadro 1) para a avaliação do envolvimento da pessoa em atividades sociais, considerando o referencial teórico de Levasseur et al.17 Cada atividade foi categorizada de forma dicotômica (sim; não).
Índices de Ajuste dos Modelos de Grupos Latentes a partir de variáveis de participação social em pessoas idosas. Estudo SABE, São Paulo, SP, 2010.
Descrição das variáveis de participação social de acordo com a Taxonomia de Levasseur et al.17. Estudo SABE, São Paulo, SP, 2010.
A taxonomia proposta por Levasseur et al.17 estabelece que cada nível se diferencia pelo grau de envolvimento com outras pessoas e pelos objetivos das atividades realizadas. Nessa estrutura, os conceitos de participação, participação social e engajamento social são distribuídos ao longo dos diferentes níveis. O conceito mais amplo, participação, abrange todos os seis níveis; participação social corresponde aos níveis de 3 a 6; e engajamento social está presente nos níveis 5 e 6. A seguir, são apresentados os objetivos associados a cada nível, juntamente com os respectivos conceitos atribuídos.
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Nível 1: Orientada a necessidades básicas, sem a presença de outras pessoas (i.e.), atividades que preparam para a conexão com outras pessoas (Participação);
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Nível 2: Orientada a necessidades básicas, em meio a pessoas, mas sem interação (Participação);
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Nível 3: Orientada à socialização (i.e., em interação, mas sem a realização de outra atividade) (Participação Social);
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Nível 4: Orientada à tarefa (i.e., realizando atividades em conjunto) (Participação Social);
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Nível 5: Orientada a ajudar os outros (Participação Social e Engajamento Social);
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Nível 6: Orientada à sociedade (Participação Social e Engajamento Social).
Todos os níveis, à exceção do nível 1, foram representados por ao menos um indicador (i.e., uma variável de participação social). Não foram incluídos indicadores do nível 1, dado que nesse nível há ausência de qualquer interação social. Embora o nível 2 também não contenha interação social, foi utilizado um único indicador que reflete maior inserção em atividades fora de casa e que ensejam situações de maior exposição social (i.e., viajar para fora de casa). Os indicadores foram classificados segundo a taxonomia que permitiu distinguir e nomear os grupos latentes identificados (Quadro 1).
A ACL foi utilizada para averiguar os padrões de participação social. A ACL tem como objetivo identificar padrões de resposta em indicadores observáveis, partindo do pressuposto teórico de que uma variável latente — não diretamente mensurável — explica esses padrões entre grupos de indivíduos. Assim, a ACL estima a probabilidade de cada pessoa pertencer a um determinado grupo, com base na semelhança dos padrões de endosso aos itens26. Diferentemente das abordagens centradas em variáveis, a ACL adota uma perspectiva centrada nas pessoas, buscando agrupá-las de acordo com características latentes comuns. Neste estudo, a análise foi inicialmente aplicada à amostra total e, em seguida, realizada separadamente por sexo, com o intuito de explorar possíveis diferenças nos padrões de participação social.
Para avaliar o modelo com melhor ajuste, foram utilizados Akaike Information Criterion (AIC), Bayesian Information Criterion (BIC), Sample-size-adjusted BIC (aBIC), considerando-se que valores menores indicam melhor adequação do modelo aos dados. A identificação do número ideal de classes latentes foi realizada por meio do teste Adjusted Lo-Mendell-Rubin Likelihood Ratio Test, que compara um modelo com k classes ao modelo anterior k-1, indicando se a adição de uma nova classe resulta em melhora significativa do ajuste. Um valor de p<0,05 sugere que o modelo com mais classes apresenta melhor desempenho. Também foi analisado o valor de entropia, que expressa o grau de separação entre as classes latentes, sendo considerado satisfatório quando >0,80. As análises foram conduzidas no software R, por meio do pacote poLCA26. O teste do qui-quadrado com correção Rao-Scott foi empregado para a análise das diferenças entre as classes e o sexo.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
RESULTADOS
A amostra foi composta por pessoas com idade entre 60 e 103 anos, tendo em média 70 anos, e mais da metade sendo do sexo feminino (59,9%). A maior parte dos participantes morava em arranjos multipessoais (84,5%) e relatou ter companheiro(a) conjugal (54,6%). A média de anos de escolaridade foi de 5,5 anos, variando entre 0 e 21 anos (DP = 4,4). Em relação à renda mensal, 42,4% dos participantes relataram insuficiência da renda para atender suas demandas.
Para a amostra geral, foram estimados modelos de 1 a 6 classes, sendo o modelo com 7 classes excluído por problemas de convergência, definidos pela presença de classes com menos de 5% da amostra. Nas análises estratificadas por sexo, foram estimados modelos de até 7 classes. O modelo com 8 classes entre as mulheres e o modelo com 7 classes entre os homens não foram considerados, dado que apresentaram classes com menos de 5% da amostra.
Os índices de ajuste (AIC, BIC, aBIC), os valores de p referentes à comparação entre modelos consecutivos e os valores de entropia estão apresentados na Tabela 1. Para a amostra total, considerando o valor de entropia abaixo do critério estabelecido (>0,8) o modelo de 6 classes não foi considerado em relação aos demais modelos. O modelo 4 apresentou melhores valores de ajustes (BIC e aBIC) e foi selecionado como o mais adequado em função de sua melhor interpretabilidade de acordo com a teoria norteadora de participação social. Para os homens, o modelo com 4 classes apresentou menor valor BIC e com valor de entropia >0,8, sendo também o modelo de melhor interpretabilidade. O modelo de 4 classes também foi selecionado para as mulheres em função de sua interpretabilidade em detrimento do modelo 5, e os demais modelos com 6 e 7 classes continham grupos com pouca representatividade (menos de 10% da amostra).
Na Figura 1, apresenta-se a probabilidade de endosso em cada indicador da participação social segundo o grupo latente e sexo. Os grupos latentes identificados foram conceituados de acordo com a quantidade de itens endossados em cada nível da taxonomia de participação social. Os itens onde a probabilidade de endosso foi >0,5 foram considerados mais fortemente endossados pelas pessoas daquele grupo.
Probabilidade de endosso em cada indicador da participação social segundo o grupo latente identificado na análise de classes latentes. Estudo SABE, São Paulo, SP, 2010.
Foram identificadas diferenças estatísticas significativas entre sexo e padrões de participação social (valor de p=0,006). Diante disso, realizou-se ACL separadamente, visando a melhor identificação e caracterização dos grupos. No Quadro 2, descreve-se os grupos caracterizados segundo os conceitos de participação, participação social e engajamento social, bem como a orientação das atividades em que participam (socialização, tarefa, ajudar os outros, ajudar a sociedade).
Caracterização dos grupos latentes de participação social e sexo. Estudo SABE, São Paulo, SP, 2010.
Em ambos os sexos, a classe 1 se destaca pela alta variabilidade de atividades de socialização, orientadas às tarefas, e engajamento social. O perfil geral da classe 2 também se assemelha nos diferentes sexos, onde há variabilidade na participação em atividades sociais orientadas à tarefa e variabilidade nos meios de socialização, exceto pelo meio digital. Nessa classe, houve diferenças específicas nas tarefas não engajadas em cada sexo. Mulheres apresentaram endosso para todas as tarefas, exceto as de jogos de mesa, enquanto homens não apresentaram endosso para programa de exercícios e trabalhos manuais (Quadro 2).
O terceiro grupo latente identificado em cada sexo também se assemelhou no aspecto geral, sendo marcado por predominância de atividades voltadas à socialização per se, com exceção de socializações por meio digital. Especificamente para os homens, houve pouca probabilidade de endosso para socializações em locais públicos (e.g. restaurantes ou cinema). Os homens dessa classe não apresentaram altas probabilidades de endosso para atividades orientadas à tarefa, enquanto as mulheres apresentaram exclusivamente para trabalhos manuais. Por fim, a quarta classe é semelhante para ambos os sexos, constituída por participantes com baixa participação e ausência de engajamento social (Quadro 2).
DISCUSSÃO
O presente trabalho teve como objetivo identificar tipos de participação social em uma amostra de pessoas idosas brasileiras residentes da comunidade. Utilizando a técnica de análise de classes latentes, foi possível identificar quatro classes, baseadas na taxonomia proposta por Levasseur et al.17 A Classe 1 incluiu participantes com alta variabilidade nas atividades e engajamento social. A classe 2 apresentou grande variabilidade nas atividades, porém, menos que a Classe 1, e ausência de engajamento social. A terceira classe reuniu pessoas que participavam exclusivamente de atividades voltadas para a socialização, não participando de atividades orientadas a tarefas nem com propósito de mudança na sociedade (engajamento social). A quarta classe foi caracterizada por pessoas de baixa participação social e ausência de engajamento social.
O modelo com quatro classes também se revelou o de melhor ajuste aos dados em outros estudos19,23,27. Entretanto, a nomeação das classes divergiu entre os estudos. O estudo de Lestari et al.23 investigou as relações sociais de forma ampla, incluindo a frequência, o suporte social, e utilizou apenas indicadores de atividades orientadas a tarefas. No estudo de Van Hees et al.27 as atividades orientadas a tarefas foram agrupadas em um único indicador, não refletindo a diversidade de participação.
A utilização da taxonomia permitiu distinguir qualitativamente a natureza de cada padrão, superando os modelos de três classes geralmente definidos pela frequência e intensidade da participação22,24. Em nosso estudo, a taxonomia contribuiu para distinguir as classes intermediárias, ou seja, aquelas não categorizadas pela ampla ou baixa variedade de participação. Os grupos intermediários se destacam pela ausência de engajamento social e diferem quanto à variabilidade das atividades: um orientado para atividades de socialização e outro que, além destas, inclui atividades orientadas à tarefa. O uso da taxonomia e a seleção de diversos indicadores permitiram investigar a pluralidade da PS das pessoas fora das extremidades, facilitando a divisão em duas classes qualitativamente distintas.
O surgimento comum de uma classe com alta participação social corrobora a hipótese de acumulação, ou seja, pessoas que se engajam em uma atividade social tendem a se engajar também em outras20. Embora o estudo não tenha utilizado indicadores de atividades de cuidado, a formação frequente de uma classe com baixa participação pode refletir a hipótese de competição (i.e., a participação em atividades, geralmente de cuidados, priva a participação em outras).
Após a identificação de associação entre a pertença às classes e ao sexo, foram investigados os padrões de participação social separados por sexo. Em ambos os sexos, a Classe 1 foi caracterizada por grande variabilidade na PS e com a presença de engajamento social, e a classe 4 por baixa participação social e ausência de engajamento social. As classes intermediárias se organizaram de maneira distinta nos homens e nas mulheres, revelando preferências específicas no que concerne às atividades sociais direcionadas às tarefas. Logo, formam perfis distintos de PS no que diz respeito às tarefas e socializações. No segundo grupo de maior variabilidade nas atividades sociais, as mulheres endossaram todas as atividades orientadas às tarefas, com exceção de jogos de mesa, e os homens endossaram todas as atividades, com exceção a trabalhos manuais e exercícios.
As divergências em função do sexo revelam a manutenção, nas práticas de lazer, de um sistema de expectativa de gêneros que determina o que é esperado do masculino e feminino. Essa estrutura resulta de um processo historicamente construído para delimitar papéis, fomentando um sistema de poder que privilegiaria a dominação dos homens28. Apesar de contestado, esse pensamento ainda está presente nas práticas de lazer28. Do masculino, espera-se maior endosso a práticas competitivas; do feminino, práticas relacionadas à maternidade, cuidado e passividade28. Assim, o menor endosso das mulheres aos jogos de mesa pode refletir essa delimitação, enquanto os homens tendem a associar práticas de caráter estético e expressivo ao universo feminino, justificando o menor endosso à prática de trabalhos manuais.
A coorte deste estudo vivenciou movimentos legais no Brasil, que proibiam a prática de atividades de lazer incompatíveis às mulheres (Lei nº 3.199/1941), o que pode ter impactado na percepção desse grupo frente a essas práticas. Desde a infância, a diferenciação dada aos sexos estimula os homens a atividades de maior exigência física. como futebol e lutas, enquanto às mulheres práticas mais leves, como ballet, dança e caminhada28.
Homens e mulheres divergiram em relação à adoção de exercícios físicos regulares. Essa atividade foi endossada pelas mulheres em mais de uma classe, enquanto para os homens esteve restrita à Classe 1. O efeito das participações sociais de exercícios físicos em desfechos de saúde pode ser mais forte para as mulheres9. Essa maior sensibilidade ao fator protetor enseja processo de retroalimentação, onde os efeitos positivos da participação social em atividades físicas aumentam a adoção dessas práticas. Desta forma, a maior difusão da prática de exercícios para as mulheres pode refletir a adoção dessa atividade em função dos maiores benefícios vivenciados por elas.
Tanto para homens quanto para mulheres, houve a formação de uma classe que participava quase exclusivamente de atividades voltadas para a socialização. Entretanto, nesse grupo, os homens endossaram menos que as mulheres as atividades em locais públicos. É comum que os homens dependam mais das mulheres para manter seus níveis de PS e priorizem interações familiares, enquanto as mulheres apresentam maior variação nos contatos sociais (i.e., domínio comunitário e de amizade) e atividades de lazer13.
O grupo de mulheres ainda apresentou a participação em atividades de trabalhos manuais. Essa diversidade pode ser reflexo das diferenças vivenciadas após eventos externos característicos da idade. Os homens tendem a participar mais de atividades sociais relacionadas ao trabalho, estando mais suscetíveis às mudanças advindas com a aposentadoria29, e no caso das mulheres há desde antes maior diversidade nas atividades, estando mais resistentes a esse fenômeno13.
A aposentadoria e viuvez são eventos de transição característicos das idades mais avançadas que trazem consequências distintas para homens e mulheres no que concerne à participação social8. Enquanto para as mulheres a viuvez é uma fase de transição que as liberta das obrigações associadas aos papéis de gênero, permitindo assim que sejam mais inovadoras nas atividades que participam, para os homens há uma diminuição nas atividades após a aposentadoria por terem suas práticas fortemente influenciadas pelo papel de provedor13.
Há ainda maior oferta de atividades consideradas pertencentes ao universo feminino pelos centros de convivência de pessoas idosas30, repercutindo na adesão de homens idosos devido ao menor interesse nessas atividades13.
Os achados apontam a necessidade de estudos futuros abordarem a variável gênero para uma compreensão mais aprofundada da construção social da participação social na velhice. A variável sexo, utilizada no presente estudo, refere-se exclusivamente a aspectos biológicos (homem e mulher), podendo ser um fator limitante para a compreensão das expectativas associadas ao gênero. Outra limitação relevante refere-se à ausência de indicadores de atividades de cuidado. Essas atividades podem determinar, ainda que parcialmente, a disponibilidade para o engajamento em outras formas de participação social; desse modo, sugere-se a inclusão desses indicadores em futuras investigações sobre o perfil de participação social.
O uso de dados secundários restringiu a possibilidade do uso de maior número de indicadores e sua distribuição igual entre os níveis da taxonomia adequada. Além disso, o recorte temporal da amostra pode não refletir alguns avanços nos meios de interação social, como a maior difusão das redes sociais. Apesar dessas limitações, o estudo se destaca pelo agrupamento dos indicadores de participação social em função da homogeneidade das respostas, o que contribuiu para melhor compreensão do perfil da população idosa, ao esclarecer as relações desse fenômeno de acordo com o sexo.
CONCLUSÃO
Há diferentes padrões de participação social e as expectativas de gênero determinam as atividades sociais das pessoas idosas. Para a amostra geral e para a amostra estratificada por sexo, o modelo de quatro classes foi o de melhor ajuste e interpretabilidade. Homens e mulheres se agrupam em diferentes perfis de participação social. Houve diferença nas classes intermediárias dadas as preferências nas atividades adotadas, fato influenciado pelas expectativas de gênero.
Homens endossam mais atividades de caráter competitivo enquanto evitam atividades características do universo feminino, o oposto é válido para as mulheres. Mulheres das classes intermediárias apresentam maior variabilidade de atividades de socialização que homens, refletindo a libertação dos papéis de gênero após mudanças transicionais vividas na velhice (i.e., viuvez) e, ao mesmo tempo, a dependência dos homens de socializações vinculadas ao trabalho e contatos familiares.
A compreensão de diferentes perfis de participação social contribui para melhor caracterização das preferências das pessoas idosas, contribuindo para a criação de programas de promoção à participação, aumentando a adesão. A utilização da taxonomia na definição dos indicadores e dos padrões de participação social identificados se faz necessária em estudos futuros para melhor comparação. Além disso, é fundamental a investigação dos diferentes arranjos de participação social em relação aos desfechos de saúde, visando esclarecer se padrões específicos são mais ou menos benéficos à saúde.
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Andressa Coelho Gomes


