Open-access Dinâmicas temporais e espaciais da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil, 2008–2022

Resumo

Objetivo:  analisar o perfil epidemiológico e a dinâmica temporal e espacial da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil.

Método:

estudo ecológico, de tendência temporal e análise espacial. Os dados foram coletados no Sistema de Informações de Mortalidade do Departamento de Informática do SUS, no período de 2008 a 2022. Utilizada a doença cerebrovascular como causa básica de óbito. Para a análise da tendência temporal, adotaram-se as regiões brasileiras como unidades de análise. Na análise espacial, consideraram-se os municípios brasileiros como unidades geográficas. Resultados: registrados 1.233.337 óbitos por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas, entre 2008 e 2022, correspondendo a uma taxa de mortalidade de 328,386 por 100 mil habitantes. Houve predominância entre indivíduos com 80 anos ou mais (45,12%), raça/ cor branca (52,45%) e baixa escolaridade, concentrando-se entre aqueles com nenhum (24,39%) ou entre um e três anos de estudo (25,84%). Identificou-se tendência temporal de redução da mortalidade em todas as regiões do país, embora os valores permaneçam elevados. A análise espacial evidenciou distribuição heterogênea da mortalidade, com predominância de aglomerados de alta mortalidade nas regiões Nordeste e Sul, além de aglomerados mais pontuais na Região Norte.

Conclusão:

tendência temporal decrescente da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil, apesar da persistência de taxas elevadas. A presença de aglomerados espaciais de alta mortalidade, especialmente nas regiões Nordeste e Sul, reflete as desigualdades estruturais, regionais e socioeconômicas que caracterizam o país, reforçando a necessidade de políticas públicas sensíveis às especificidades territoriais e às iniquidades em saúde.

Palavras-chave
Doenças Cerebrovasculares; Acidente Vascular Cerebral; Mortalidade; Análise Espacial; Idoso.

Abstract

Objective:  To analyze the epidemiological profile and the temporal and spatial dynamics of mortality from cerebrovascular diseases in older adults in Brazil.

Method:  Ecological study with temporal trend and spatial analysis. Data were obtained from the Mortality Information System of the Department of Informatics of the Brazilian Unified Health System (SIM/DATASUS), covering the period from 2008 to 2022. Cerebrovascular disease was used as the underlying cause of death. For the temporal trend analysis, Brazilian regions were adopted as the units of analysis. For the spatial analysis, Brazilian municipalities were considered as the geographic units. Results: A total of 1,233,337 deaths from cerebrovascular diseases in older adults were recorded between 2008 and 2022, corresponding to a mortality rate of 328.386 per 100,000 inhabitants. There was a predominance among individuals aged 80 years or older (45.12%), those identified as White (52.45%), and individuals with low educational attainment, concentrated among those with no formal education (24.39%) or between one and three years of schooling (25.84%). A decreasing temporal trend in mortality was identified across all regions of the country, although the values remain high. Spatial analysis revealed a heterogeneous distribution of mortality, with a predominance of high-mortality clusters in the Northeast and South regions, as well as more localized clusters in the North region.

Conclusion:  There is a decreasing temporal trend in mortality from cerebrovascular diseases among older adults in Brazil, despite the persistence of high rates. The presence of spatial clusters of high mortality, particularly in the Northeast and South regions, reflects the structural, regional, and socioeconomic inequalities that characterize the country, reinforcing the need for public policies that are sensitive to territorial specificities and health inequities

Keywords
Cerebrovascular Diseases; Stroke; Mortality; Spatial Analysis; Aged

INTRODUÇÃO

O envelhecimento da população é um fenômeno mundial e irreversível. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial está envelhecendo rapidamente e, espera-se que, no ano de 2050, o número de pessoas com idade igual ou superior a 65 anos alcance 1,6 bilhões, o que representa mais de 16% da população global¹.

De acordo com os resultados obtidos no censo brasileiro, enquanto no ano de 2010, o quantitativo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos correspondia a 10,8% da população, em 2022, correspondia a 15,8%2. Somada à questão da mudança no padrão demográfico brasileiro, encontra-se a transição epidemiológica, a qual caracteriza-se por modificações no padrão da morbidade e da mortalidade, sendo as doenças infecciosas gradualmente substituídas pelas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)3.

Considerando a população geral, sem estratificação por faixa etária, aproximadamente 75% dos óbitos são atribuídos às DCNT4. Dentro desse grupo, as doenças cerebrovasculares ocupam posição de destaque, sendo a segunda causa principal de morte no mundo. Entre os países da América Latina, o Brasil tem uma das maiores taxas de mortalidade, apesar da sua redução nos últimos anos4.

As doenças crônicas podem ter como consequências o uso contínuo de medicamentos; aumento da dependência de familiares, cuidadores e serviços de saúde; maior custo das famílias e do Estado5. Prova do tamanho do transtorno que as doenças crônicas podem ocasionar para a população é que indicadores como a expectativa de vida livre de incapacidade podem ser empregados para estimar os ganhos esperados com a redução ou eliminação dessas doenças6.

Embora as taxas mundiais de incidência, de prevalência e de incapacidade por doenças cerebrovasculares apresentem uma tendência de redução nos últimos anos, a análise dos números absolutos demonstra o aumento no número de casos, de incapacidades e de mortes7.

As doenças cerebrovasculares constituem um conjunto de agravos relacionados à circulação cerebral, classificados no capítulo IX da CID-10 (I60–I69), que englobam diferentes condições clínicas, incluindo o acidente vascular cerebral (AVC)8, principal evento agudo associado a elevada mortalidade e incapacidade.

Diante do cenário estabelecido e da complexidade imposta pelas dimensões continentais do Brasil, os estudos ecológicos, com uso de metodologias diversificadas, são utilizados como uma ferramenta interessante de análise dos dados, pois permitem o estudo de uma população de interesse, mas também fornecem elementos para subsidiar a proposição de políticas públicas com potencial para produzir impactos para a saúde da população9,10.

Apesar da relevância das doenças cerebrovasculares no contexto da saúde pública e do envelhecimento populacional, ainda são escassos os estudos que analisem, de forma integrada, a tendência temporal e a distribuição espacial da mortalidade durante períodos prolongados, em nível municipal e regional. Nesse sentido, o presente estudo busca ampliar a compreensão do comportamento da mortalidade por essas doenças no Brasil, adotando como recorte a população idosa, por se tratar do grupo etário mais acometido, com maior risco de mortalidade e de desfechos adversos.

Os achados têm potencial relevante para a área da Geriatria e Gerontologia, fornecendo subsídios para pesquisadores, gestores e profissionais de saúde no planejamento de ações estratégicas voltadas ao envelhecimento populacional. Por isso, este artigo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico e a dinâmica temporal e espacial da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo ecológico com análise temporal e espacial realizado por meio de dados secundários coletados no Sistema de Informações de Mortalidade do Sistema Único de Saúde (SIM/SUS) disponibilizados no banco eletrônico do Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Foi analisada a mortalidade por doenças cerebrovasculares como causa básica de óbito em pessoas idosas residentes no Brasil, tendo como referência as regiões brasileiras para a análise da tendência temporal e os municípios brasileiros para a análise espacial, nos últimos 15 anos.

A identificação das doenças cerebrovasculares registradas como causa básica de morte foi realizada através dos grupos de diagnósticos, conforme o capítulo IX da CID-10 (Doenças relacionadas ao aparelho circulatório) nas categorias I60 a I69.

As variáveis epidemiológicas (sexo, faixa etária, estado civil, cor/raça e escolaridade) foram incluídas exclusivamente com o objetivo de caracterizar o perfil dos óbitos por doenças cerebrovasculares na população idosa, sendo utilizadas apenas para análise descritiva, sem estratificação temporal ou análise inferencial. Foram considerados todos os óbitos na faixa etária de 60 anos ou mais para a população residente no Brasil e conforme o ano de processamento dos dados.

A análise descritiva foi realizada por meio de frequência absoluta e porcentagens, tanto para as variáveis sociodemográficas quanto para as principais categorias das doenças cerebrovasculares. Foi calculada a taxa média de mortalidade dividindo-se o número de óbitos de pessoas idosas por doenças cerebrovasculares pela população de pessoas idosas residentes no mesmo ano e local, multiplicado por 100 mil habitantes.

Para descrever a tendência dos óbitos no Brasil, foram utilizados dados das cinco regiões brasileiras, nos anos de 2008 até 2022, sendo considerados os dados referentes à população residente no Brasil nos seus respectivos anos. Os dados populacionais consideraram os censos demográficos de 2010 e de 2022 e as estimativas intercensitárias elencadas no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por cada ano analisado.

A análise da tendência temporal foi realizada utilizando o modelo de regressão por pontos de inflexão, conhecido como Joinpoint Regression Model. Esse modelo de regressão possibilitou calcular a variação percentual anual (APC, do inglês annual percentage change) e a variação média do período (AAPC, do inglês average annual percent change). Dessa forma, a tendência é classificada em estacionária, crescente ou decrescente, conforme a inclinação da reta de regressão. As tendências são expressas como APC e AAPC, e considerada como estacionária a tendência cujo coeficiente de regressão não é diferente de zero (p>0,05).

Para a análise espacial, as unidades de análise foram os 5.568 municípios brasileiros, além do Distrito Federal, registrados pelo censo demográfico em 2022 e os dados de mortalidade das pessoas idosas, nos anos analisados e registrados nos sistemas de informação do DATASUS. Foram considerados os dados referentes à população residente em todos os municípios brasileiros, entre os anos de 2008 e 2022.

Foi calculada a taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas durante o período. Foi considerada no numerador a média da quantidade de óbitos por doenças cerebrovasculares nas pessoas acima dos 60 anos no período e, no denominador, a população residente de pessoas idosas nos municípios brasileiros, no ano de 2015, multiplicados por 100 mil habitantes. A escolha pelo ano de 2015 ocorreu por ser o ano intermediário ao período analisado e, portanto, tido como média da população do período. Desta forma, a distribuição espacial foi realizada através da análise exploratória dos dados, gerando um mapa coroplético da taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas nos municípios brasileiros. O mapa é apresentado em quartis, ilustrando que, quanto mais escura a coloração, maior a taxa de mortalidade naquela localidade.

A identificação da autocorrelação espacial foi obtida por meio do Índice de Moran Global (I) para os coeficientes dos óbitos em pessoas idosas. Os valores positivos (entre 0 e +1) indicaram que há uma autocorrelação direta e os negativos (entre 0 e –1) uma autocorrelação inversa. O Índice de Associação Espacial Local (LISA) foi utilizado para gerar mapas indicando as regiões que apresentavam autocorrelação local significativamente diferente de outras regiões, identificando aglomerados e outliers.

O diagrama de espalhamento de Moran foi utilizado para avaliar a autocorrelação espacial das taxas de mortalidade por doenças cerebrovasculares, comparando o valor observado em cada município com a média dos valores dos municípios vizinhos. O gráfico é dividido em quatro quadrantes que expressam diferentes padrões de associação espacial. O quadrante Alto–Alto (Q1) indica municípios com altas taxas cercados por municípios com taxas igualmente elevadas, enquanto o quadrante Baixo–Baixo (Q2) representa áreas com baixas taxas entre vizinhos com valores semelhantes, caracterizando associação espacial positiva. Já os quadrantes Alto–Baixo (Q3) e Baixo–Alto (Q4) indicam associação espacial negativa, identificando municípios com valores discrepantes em relação ao seu entorno, caracterizados como outliers espaciais. Foram consideradas estatisticamente significativas as associações com p<0,05.

A malha digital do Brasil foi adquirida em formato shapefile no Sistema Geodésico de Referência SIRGAS 2000 (Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas - 2000), atualizado no ano de 2022.

Não foi necessária a autorização do Comitê de Ética e Pesquisa, pois foram utilizados dados secundários oriundos do site do Ministério da Saúde, sendo, portanto, de domínio público, sem possibilidade de identificação dos indivíduos, conforme estabelece a Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 510/2016.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no figshare.come pode ser acessado em https://doi.org/10.6084/m9.figshare.31175437

RESULTADOS

No período analisado, foram registrados 1.233.337 óbitos por doenças cerebrovasculares nas pessoas com idade igual ou superior a 60 anos de idade no Brasil, com uma taxa de mortalidade de 328,386 por 100 mil habitantes. A Tabela 1 ilustra o perfil epidemiológico das pessoas que foram a óbito, no período de 2008-2022.

Tabela 1
Características epidemiológicas da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil, 2008-2022.

Dentre os óbitos por doenças cerebrovasculares, classificados de acordo com o código do CID 10, foram registrados mortes por condições relacionadas a oito categorias – não houve óbitos nas categorias I65 (Oclusão e estenose de artérias pré-cerebrais que não resultam em infarto cerebral) e I68 (Transtornos cerebrovasculares em doenças classificadas em outra parte) (Tabela 2).

Tabela 2
Óbitos por doenças cerebrovasculares, por categoria da CID-10, em pessoas idosas, Brasil, 2008-2022.

Na Tabela 3, visualiza-se a tendência temporal dos óbitos por doenças cerebrovasculares por regiões do Brasil. Observou-se tendências decrescentes em todas as cinco regiões e também quando analisado para o Brasil. As regiões Nordeste e Centro-Oeste apresentaram tendências de redução para todo o período analisado. As regiões Sudeste e Sul demonstraram redução apenas no período de 2008-2020, embora com resultados maiores quanto ao decréscimo, comportamento similar ao contexto brasileiro. Já a região Norte demonstrou comportamento diverso, pois apresentou tendências de redução entre 2008-2010 e 2015-2022, mas tendência de crescimento (embora pequena) entre 2010-2015. Quando avaliado a tendência média (AAPC) observou-se tendência de decréscimo em todas as regiões brasileiras, tendo as regiões Sudeste e Sul do país as maiores reduções.

Tabela 3
Tendência dos óbitos por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas por Região do Brasil, 2008-2022.

Na Figura 1 identifica-se a análise espacial da mortalidade por doenças cerebrovasculares nos municípios brasileiros, no período de 2008 a 2022. Desta forma, a Figura 1A demonstra, através do mapa coroplético, que quanto mais escura a coloração maior a taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares. Altas taxas foram apresentadas em municípios de todos os estados brasileiros, destacando-se municípios do litoral nordestino e de todo o estado do Maranhão e do Piauí, como também municípios da região Sul, mais especificamente nos estados do Rio Grande do Sul e do Paraná.

Figura 1
A: Distribuição espacial das taxas brutas de mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas, por municípios, Brasil, 2008-2022. B: Autocorrelação espacial da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas, por municípios, Brasil, 2008-2022.

Na análise da autocorrelação (Figura 1B) foi possível observar áreas que apresentaram dependência espacial, evidenciada pela presença de aglomerados classificados no quadrante Q1 (Alto-Alto), os quais representam aglomerados de municípios com altas taxas de mortalidade por doenças cerebrovasculares, circundados por municípios vizinhos que também apresentam altas taxas. Esses aglomerados foram identificados em municípios de estados da Região Nordeste, como Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, em praticamente todos os municípios do estado do Piauí e nas áreas Norte e Sul do Maranhão. Na Região Norte, destacaram-se aglomerados nos estados do Amazonas e do Pará e, na Região Sul, nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

DISCUSSÃO

Durante os anos estudados, observou-se que os municípios brasileiros apresentaram variações espaciais e temporais na mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas com 60 anos ou mais. Isso evidencia a complexidade epidemiológica de um país de dimensões continentais e com grande diversidade socioeconômica e demográfica.

Apesar da tendência de redução na taxa de mortalidade em todo o país, ainda foram observados elevados valores no número de óbitos. A análise espacial evidenciou aglomerados de alta mortalidade na região Nordeste e também na região Sul, indicando áreas de maior vulnerabilidade. É possível que fatores espaciais, bem como socioeconômicos e de acesso aos serviços de saúde, tenham influência na distribuição da mortalidade por doenças cerebrovasculares e pode refletir desigualdade regional e necessidade de estratégias direcionadas.

Dentre as doenças cerebrovasculares, o AVC constitui a principal expressão clínica desse conjunto de agravos e responde por elevada carga de mortalidade. No Brasil, o AVC está entre as principais causas de morte há mais de três décadas e, apesar da redução das taxas de mortalidade nesse período, ainda ocasiona mais de 100 mil óbitos anuais em todas as faixas etárias11. A tendência de queda segue a tendência mundial e tem sido atribuída, principalmente, aos avanços na prevenção primária, diagnóstico precoce e tratamento agudo. As taxas elevadas são visualizadas igualmente em países de baixa e média renda, onde o atendimento ao AVC é frequentemente irregular, fragmentado e associado a desfechos clínicos precários7,11.

A elevada proporção de óbitos classificados na categoria I64 (Acidente vascular cerebral não especificado como hemorrágico ou isquêmico), assim como a expressiva participação da categoria I69 (Sequelas de doenças cerebrovasculares), merece atenção. O uso frequente do código I64 pode refletir limitações no processo diagnóstico, especialmente em contextos nos quais não há acesso oportuno a exames de imagem ou a serviços especializados capazes de diferenciar os subtipos de acidente vascular cerebral. De modo semelhante, a expressividade das sequelas de doenças cerebrovasculares (I69) pode indicar tanto a carga acumulada desses agravos ao longo do tempo quanto fragilidades na continuidade do cuidado e no acompanhamento longitudinal das pessoas acometidas. Diante disto, sugere-se estudos que compreendam a relação entre esses achados e as desigualdades regionais na organização da rede de urgência e emergência, a capacidade diagnóstica dos serviços de saúde e a qualidade do registro da causa básica de morte.

A redução das taxas de mortalidade por doenças cerebrovasculares ao longo dos anos no Brasil pode ter relação com os avanços na saúde brasileira. Dentre eles, podem ser destacados a implantação da Atenção Primária à Saúde (APS) em 1994; o desenvolvimento de unidades de referência em AVC, a partir de 2012; e a criação do Plano de Ações Estratégicas para o enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, em 2011 4.

De acordo com Souza et al., foram definidos objetivos estratégicos nesse Plano de Ações Estratégicas, como a redução da mortalidade prematura, da prevalência de tabagismo e do consumo abusivo de álcool, além da ampliação da prática de atividade física, do consumo de frutas e da estabilização do crescimento da obesidade. Todas essas iniciativas são importantes ferramentas de prevenção e intervenção precoce e, portanto, de grande valia para a redução das mortes por doenças cerebrovasculares no país8. Nesse contexto, torna-se imprescindível que o atendimento seja ágil e eficaz em qualquer desses pontos, o que depende não apenas da estrutura da rede, mas também do preparo dos profissionais e do nível de instrução da população, fatores que precisam estar articulados para garantir um encaminhamento adequado do paciente12.

Estudos locais evidenciaram que investimentos insuficientes em saúde pública podem impedir a redução de indicadores de mortalidade, reforçando que as condições locais e o financiamento da saúde são determinantes para desfechos mais favoráveis7. A educação em saúde desempenha papel central nas estratégias de prevenção e, sobretudo, no reconhecimento precoce dos sinais e sintomas de doenças cerebrovasculares como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), favorecendo a busca imediata por tratamento e, assim, reduzindo riscos de mortalidade. A criação de Linhas de Cuidado deve ser acompanhada de processos de educação permanente, capacitando as equipes para uma assistência resolutiva e qualificada9,13.

Um estudo desenvolvido4, cujo objetivo foi observar a tendência de mortalidade por doenças cerebrovasculares no Brasil e sua associação com Desenvolvimento Humano e Vulnerabilidade Social, identificou que as regiões Sudeste e Sul apresentaram maiores taxas absolutas, mas com tendência de redução significativa, enquanto Norte e Nordeste, apesar de inicialmente apresentarem menores taxas, exibiram crescimento em alguns períodos. Segundo os autores, esse padrão heterogêneo reflete diferenças sociais, econômicas, demográficas e epidemiológicas entre as regiões, incluindo escolaridade, renda, acesso aos serviços de saúde e cobertura de unidades especializadas4.

Esse cenário reflete a profunda desigualdade socioeconômica existente no país, que se expressa em marcantes diferenças na expectativa de vida entre as regiões brasileiras e influencia diretamente o padrão de mortalidade observado. Essas desigualdades também se expressam nas diferenças regionais de expectativa de vida, mais elevadas em estados do Sul e menores na região Nordeste2. Possivelmente, o que pode explicar os maiores aglomerados de óbitos em estados da região Sul pode estar associado à elevada EV nessas localidades. Considerando que o risco de óbito por doenças cerebrovasculares aumenta de forma expressiva com o avanço da idade, especialmente a partir dos 80 anos, o maior contingente de pessoas idosas em faixas etárias avançadas contribui para o incremento da mortalidade registrada.

A concentração da mortalidade em faixas etárias mais avançadas reforça o papel do envelhecimento populacional e do acúmulo de fatores de risco ao longo da vida na dinâmica das doenças cerebrovasculares. É importante considerar que a redução observada nas taxas de mortalidade pode estar parcialmente associada ao chamado ‘efeito denominador’: com o aumento da população idosa, o número absoluto de mortes tende a se diluir em uma base populacional maior, o que pode reduzir a taxa sem, necessariamente, refletir queda no risco individual de morte. Além disso, sabe-se que as faixas etárias mais avançadas representam, muitas vezes, pessoas que acumulam diferentes fatores de risco para as doenças cerebrovasculares, sendo alguns deles hipertensão, dislipidemia, diabetes e tabagismo4,14.

Identificou-se, neste estudo, predominância de óbitos por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas brancas. Entretanto, análises ajustadas, por idade e raça/cor, demonstraram que o risco de mortalidade cerebrovascular é mais elevado entre pessoas pretas, seguidas por pardas, sendo menor entre brancas15. Esse aparente paradoxo pode ser explicado pelas diferenças de EV entre os grupos raciais: enquanto mulheres brancas alcançam em média 80 anos, mulheres negras vivem, em média, até 76 anos; entre os homens, a expectativa é de 74,5 anos para brancos e 68,6 anos para pretos16. Assim, o maior número absoluto de óbitos em pessoas brancas pode refletir não um risco mais elevado, mas a oportunidade de envelhecer e, consequentemente, de atingir idades avançadas em que as doenças cerebrovasculares são mais incidentes e letais. Em contrapartida, a menor sobrevida de pessoas pretas e pardas pode reduzir suas chances de alcançar essas faixas etárias mais vulneráveis, expressando desigualdades históricas e estruturais em saúde.

Os dados coletados demonstraram que a maioria dos óbitos ocorrereu em pessoas com menores níveis de escolaridade. Condições socioeconômicas desfavoráveis podem limitar o acesso a informações em saúde, dificultar a aquisição de alimentos saudáveis, reduzir a disponibilidade de espaços adequados para a prática de atividade física e restringir o uso de tecnologias de cuidado em saúde14. Esses fatores se somam ao impacto da baixa escolaridade, que compromete o acesso à educação e reduz a conscientização sobre questões de saúde, interferindo na adoção de comportamentos saudáveis e na capacidade de mobilização social voltada à melhoria da qualidade de vida17-19.

As regiões Norte e Nordeste apresentaram a menor redução na taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares no período analisado. Em consonância com a literatura, estudo anterior20 demonstrou que as regiões Norte e Nordeste apresentaram reduções menos evidentes e, em alguns municípios, aumento das suas taxas, possivelmente influenciados por fatores socioeconômicos, acesso aos serviços de saúde, subnotificação e transição demográfica tardia nessas regiões.

Em diferentes países, pessoas com renda mais baixa tendem a realizar menor procura aos serviços de saúde, sobretudo devido às dificuldades de acesso, resultando em piores condições de saúde. Essa situação também é evidente dentro de um mesmo país. No Brasil, pequenas diferenças na renda mensal domiciliar per capita são suficientemente sensíveis para identificar pessoas idosas com piores condições de saúde, menor mobilidade física e menor uso de serviços de saúde. Por isso, é importante considerar a situação socioeconômica das diversas localidades, a fim de desenvolver e implementar políticas coerentes com cada contexto social.

Corroborando ainda mais para a conclusão do impacto das questões socioeconômicas nas taxas de mortalidade por doenças cerebrovasculares, destaca-se o estudo da Carga Global de Doenças (Global Burden of Disease, 2015), o qual evidenciou que as maiores reduções na taxa de mortalidade ocorreram em estados brasileiros situados no tercil superior de desenvolvimento4. Isso explicaria o destaque da região Nordeste nas altas taxas de mortalidade de seus municípios quando analisados os mapas de taxa bruta de mortalidade e da análise de autocorrelação espacial. Assim, com muitos óbitos e uma transição demográfica lenta, gera-se uma taxa alta de mortalidade quando comparada a outras regiões do país.

Embora os dados utilizados tenham sido obtidos a partir de registros oficiais, não se pode descartar a possibilidade de subnotificações e inconsistências no preenchimento das declarações de óbito, subnotificação e variações regionais na qualidade da informação expressa no SIM. Destaca-se, ainda, a elevada utilização de categorias diagnósticas inespecíficas, como I64 e I69, que pode refletir limitações no acesso ao diagnóstico e heterogeneidades na estrutura dos serviços de saúde, devendo os resultados ser interpretados com cautela. A utilização do denominador fixo (população de 2015) para a taxa de mortalidade na análise espacial trata-se de aproximação para o período e pode distorcer níveis absolutos em municípios com grande variação populacional. Ademais, por se tratar de um estudo ecológico, os achados não permitem inferências em nível individual nem o estabelecimento de relações causais. Ainda assim, a análise dos óbitos em todo o território brasileiro constitui um diferencial importante, por permitir a representação da realidade de um país de dimensões continentais ao longo de 15 anos. Em conjunto, essas limitações não invalidam os achados, mas reforçam a necessidade de interpretá-los a partir das considerações das desigualdades regionais e das condições estruturais do sistema de saúde brasileiro.

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo indicam uma tendência temporal de redução da mortalidade por doenças cerebrovasculares em pessoas idosas no Brasil ao longo dos últimos 15 anos, embora as taxas ainda se mantenham elevadas. A análise espacial evidenciou a presença de aglomerados regionais de alta mortalidade, especialmente em estados das regiões Nordeste e Sul, demonstrando uma distribuição heterogênea no território nacional.

Esses achados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao cuidado integral das doenças cerebrovasculares e que considerem as desigualdades regionais e socioeconômicas no contexto do envelhecimento populacional brasileiro. Considerando os limites inerentes ao desenho ecológico, estudos complementares, com abordagens individuais e analíticas, são necessários para aprofundar a compreensão dos determinantes da mortalidade de pessoas idosas por doenças cerebrovasculares e sobre seus impactos no envelhecimento populacional.

  • Financiamento
    Financiamento da pesquisa: Bolsa de Iniciação Científica CNPq (IC) PIBIC 2023-2024 - EDITAL PIBIC Nº 01/2023/COPES/POSGRAP/UFS.

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Editado por

  • Editado por
    Cristian Arnecke Schröder

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Out 2025
  • Aceito
    03 Mar 2026
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