Open-access Violência doméstica contra a mulher e a educação médica: caminhos e desafios

RESUMO

Introdução:  A violência doméstica contra mulheres é um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo, com diversas implicações à saúde da mulher, desde agravos físicos até questões de âmbito social. Todavia, trata-se de um problema invisível no cotidiano das práticas dos serviços de saúde, com destaque para a atenção primária à saúde. A formação de profissionais de saúde, especialmente médicos, pode representar um obstáculo à integralidade da atenção à saúde, além de contribuir para o aumento da vulnerabilidade de mulheres à violência doméstica e para a rota crítica das mulheres na busca por cuidado.

Objetivo:  Neste contexto, o presente estudo teve por objetivo compreender a percepção de médicos recém-formados e alunos dos últimos anos do curso de medicina, de uma escola médica paulista, sobre a sua formação em relação à atenção integral à mulher em situação de violência.

Método:  Trata-se de estudo qualitativo de caráter exploratório, realizada por meio de entrevistas individuais, com roteiro de questões abertas. Participaram do estudo alunos dos quinto e sexto anos médico e recém-egressos da universidade em questão. A escolha dos participantes foi por conveniência e considerou o cumprimento total ou a maioria das disciplinas obrigatórias da grade curricular do curso. A participação dos entrevistados foi voluntária e mediante assinatura do termo de consentimento livre esclarecido. Os ambientes utilizados para as entrevistas foram, sala do Centro de Saúde Escola da universidade, e plataforma do Google Meets, dependendo do contexto epidemiológico da pandemia da covid-19, à época da coleta dos dados. Os dados obtidos foram analisados por meio da análise temática do conteúdo das entrevistas.

Resultado:  Os resultados apontam para a invisibilidade do tema na formação médica e a busca de conhecimento de modo individual pelos estudantes, em atividades extracurriculares. Também, o esforço dos participantes em oferecer cuidado às mulheres sob o horizonte normativo da integralidade.

Conclusão:  Assim, observa-se que, apesar da homogeneidade do grupo pesquisado, o estudo permite aprofundar as nuances da formação médica e a construção de um currículo de graduação em medicina, com busca em um olhar mais humanizado e integral para a temática da violência doméstica contra a mulher.

Palavras-chave:
Violência Contra a Mulher; Atenção Integral à Saúde da Mulher; Educação Médica

ABSTRACT

Introduction:  Domestic violence against women is a serious public health issue in Brazil and worldwide, with many implications to women´s health, from physical injuries to social relations concerns. However, it remains an invisible problem on the daily practices of health care services, particularly to primary health care. The training of health care professionals, especially physicians, might represent an obstacle to the comprehensiveness of health assistance; moreover, it contributes to increase the vulnerability of women to domestic violence and to the critical pathways of women seeking for care.

Objective:  Given that context, the purpose of this study is to understand the perception of recently graduated physicians and students attending the final years of medical education, from a medical school in the state of São Paulo, about their training regarding full assistance to women in situation of violence.

Methods:  This research is an exploratory study with a qualitative design, conducted through individual interviews using a script of open-ended questions. The study participants included medical students attending the fifth and sixth years and recently graduated alumni of the University. The participants’ selection was based on convenience and considered the completion of most or all of the mandatory subjects in the curriculum. The participation was voluntary, and the participants signed an informed consent form. The interviews were conducted in the University Health School Center and via Google Meets, depending on the epidemiological context of the COVID-19 pandemic by the time of data collection. The gathered data were analyzed using thematic analysis of the interview contents.

Results:   The results highlight the invisibility of the topic in medical training and the individual pursuit of knowledge by the students through extracurricular activities. Furthermore, is highlights the participants’ effort to provide care to women within the normative framework of comprehensiveness. Conclusion: Therefore, it is observed that, despite of the homogeneity of the research group, the study allows a deeper understanding of the nuances of medical training and the construction of a medical undergraduate curriculum focused on a more humanized and holistic approach to the issue of domestic violence against women.

Keywords:
Violence Against Women; Comprehensive Women’s Health Care; Medical Education

INTRODUÇÃO

Definida como qualquer ação ou omissão baseada no gênero feminino que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial no âmbito da unidade doméstica em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a mulher, independentemente de coabitação1, a violência doméstica contra mulheres é um problema de saúde pública de alta prevalência e graves consequências na vida cotidiana e na saúde delas, no Brasil e no mundo2)-(7.

De acordo com a quarta edição da pesquisa Visível e invisível​: a vitimização de mulheres no Brasil, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, 33,4% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram violência física e/ou sexual por parte de parceiro íntimo ou ex - principais autores da violência doméstica contra a mulher -, sendo maior do que que a média global, especialmente considerando a realidade das mulheres negras. Durante a pandemia da covid-19, o isolamento social em conjunto com seus parceiros intensificou a mazela, de modo que oito mulheres sofrerem violência física no Brasil a cada oito minutos8),(9.

Nos serviços de emergência, a violência doméstica é a segunda maior causa de lesão corporal, sobrepondo-se a acidentes de trânsito1),(10. Além disso, a violência doméstica contra a mulher está associada a maior risco de aborto espontâneo11 e a transtornos depressivos, ansiosos e de estresse pós-traumático12. Em detrimento de sua alta prevalência, os agravos à saúde causados pela violência raramente são reconhecidos no cotidiano dos serviços de saúde13),(14, o que se torna uma dificuldade em identificar a violência, bem como notificar e conduzir o caso de forma adequada, especialmente na atenção primária à saúde (APS).

Isso ocorre porque se trata da principal porta de acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) e propositora de uma atenção integral realizada em rede. Por suas diretrizes e seus pressupostos, constitui-se um ponto estratégico na rede para a prevenção, identificação, notificação e coordenação do cuidado e da assistência às mulheres em situação de violência4. E, na APS, o profissional médico tem um dos papéis centrais e de referência no seguimento da saúde da população do território de abrangência dos serviços.

Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta sobre a necessidade de formar profissionais de saúde capacitados a oferecer atenção integral a mulheres em situação de violência doméstica, visto que a violência contra elas é, muitas vezes, subnotificada, ocultada ou não documentada4),(15, e as respostas inadequadas ou culpabilizadoras oferecidas pelos serviços e de saúde e outros equipamentos sociais acabam por reiterar a violência e colaborar com uma rota crítica12),(16.

A atenção à saúde de mulheres em situação de violência exige uma atuação no âmbito da clínica ampliada12, o que envolve o acolhimento das histórias e dores vividas, expressas em diferentes esferas - “do corpo à alma” -, e também o reconhecimento clínico das queixas, a notificação ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e o projeto terapêutico singular, que considera a multiplicidade de aspectos que compõem a vida da mulher, incluindo os limites impostos pela realidade social e econômica16. Por tudo isso, é essencial compreender os obstáculos colocados para que os profissionais possam atuar de forma mais efetiva visando à garantia dos direitos das mulheres.

Investigações recentes têm apontado lacunas na formação médica para o cuidado integral destinado às mulheres em situação de violência doméstica. D’Oliveira et al.15 observam uma grande dificuldade dos profissionais médicos de associar como enfermidade algo que não necessariamente tem uma base anatomopatológica. Mais além, D’Oliveira et al.15 ressaltam que o conhecimento médico, por conta do seu aparato conceitual e técnico, reduz o problema da violência a uma questão do corpo individual, a ponto de o mesmo diagnóstico e a mesma conduta serem prescritos e oferecidos a uma mulher que sofreu uma fratura por conta de um acidente de automóvel e àquela que apresentou uma fratura devido a um espancamento de seu companheiro. Ademais, historicamente, o curso de Medicina possui uma tradição conservadora e com hegemonia do modelo biomédico, e, assim, temas como violência, etnia e gênero são pouco inseridos sob uma ótica político-social e ficam ainda focados na abordagem saúde-doença-conduta10.

Nesse sentido, estudar como a violência doméstica se insere nos currículos de formação médica pode trazer novas reflexões e apontar caminhos que contribuam para a implantação dos novos currículos.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório, de caráter qualitativo, desenvolvido por meio de entrevistas semiestruturadas. A justificativa da metodologia de entrevistas semiestruturadas se dá pela capacidade de aprofundamento e exploração do objeto investigado, por meio de um roteiro estruturado, mas que permite a flexibilidade na interação entre a interlocução, de, dessa forma, é possível criar novos tópicos que sejam relevantes aos entrevistados17),(18. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da instituição, conforme Parecer nº 4.860.812 e CAAE nº 45894621.6.0000.5411.

O roteiro foi previamente construído pela pesquisadora e testado em entrevista-piloto, contendo dez questões, as quais se propõem a identificar as percepções e vivências de estudantes de Medicina dos últimos anos e recém-egressos a respeito de sua formação médica com relação à violência doméstica contra a mulher. Todos participaram de modo voluntário da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido.

A seleção dos entrevistados se deu pela técnica bola de neve (snowball sampling ou link-tracing). Trata-se de uma amostragem não probabilística que utiliza cadeias de referência construídas a partir de pessoas que compartilham algumas características que são de interesse do estudo ou sabem de outras que as possuem. Trata-se de um método aplicável quando o objeto de estudo é composto de grupos de difícil acesso ou quando o estudo busca investigar assuntos privados ou específicos. A técnica começa com a seleção de um primeiro entrevistado, o qual pode ser chamado de “semente”, que ajuda o pesquisador a iniciar seus contatos e a identificar o grupo a ser pesquisado. Posteriormente as pessoas indicadas pela semente indicam novos contatos com as características desejadas, a partir de sua própria rede pessoal, e assim sucessivamente19.

É importante destacar que as entrevistas ocorreram no ano de 2022, e, considerando o contexto epidemiológico da pandemia da covid-19, a coleta dos dados foi realizada presencialmente, em sala ampla e arejada do Centro de Saúde Escola da universidade em questão, ou por meio de ambiente virtual, Google Meet, a depender das orientações sanitárias. Os participantes eram estudantes universitários, do quinto e sexto anos, ou recém-egressos do curso de Medicina. A escolha dos quintanistas e sextanistas, bem como dos recém-egressos, se deu em razão de já terem concluído a grade curricular ou as disciplinas que envolvem a saúde da mulher, permitindo, portanto, percepções mais fidedignas e aprofundadas a respeito do objeto de estudo. As entrevistas tiveram duração média de 45 minutos e foram gravadas e transcritas na íntegra para a análise de seus conteúdos. Interrompeu-se a coleta dos dados quando as entrevistas concluídas não trouxeram novos dados17),(18, encerrando-se com sete participantes.

Os dados das entrevistas foram explorados sob a ótica da análise temática de conteúdo, que consiste na investigação dos núcleos de sentido que compõem a comunicação de modo que sua presença ou frequência tenham significado para o objeto analítico. Para isso, a metodologia de análise de conteúdo contempla a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados a partir da interpretação dos conteúdos a partir de temas emergentes17),(18. Para trabalhar os conteúdos, optou-se pela técnica de elaboração de categorias. De acordo com Gomes20, a palavra categoria, de maneira geral, irá se referir a um conceito que abrange elementos e/ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre si. Respeitando os princípios éticos da pesquisa com seres humanos, na análise dos resultados, os participantes receberam a nomenclatura entrevistado, seguido de um número ordinal.

RESULTADO

Realizaram-se sete entrevistas, cuja escolha da amostra de entrevistados foi intencional, visto que todos os participantes eram recém-formados no curso de Medicina (entre 2020 e 2022) ou estudantes dos últimos anos da graduação com formação sob o mesmo currículo - anterior às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de 2014 - na mesma universidade. Todos aceitaram livremente participar da pesquisa. Essa seleção ocorreu com o propósito de investigar a formação conforme os anos finais da vigência do currículo de 1996, permitindo, com isso, analisar o impacto desse currículo nos médicos mais recentemente formados pela instituição.

Tabela 1
Características dos entrevistados

A análise temática dos dados foi estruturada a partir da elaboração de três categorias:

  1. Vazio formativo: a rota crítica da violência doméstica no currículo médico.

  2. Busca ativa: a possibilidade para a saída do vazio formativo?

  3. Integralidade do cuidado: indissociabilidade teórico-prática.

Categoria 1 - Vazio formativo: a rota crítica da violência doméstica no currículo médico

Parafraseando os estudos que tratam das rotas críticas de mulheres em situação de violência15, esta pesquisa buscou identificar e compreender a inserção do tema violência doméstica contra a mulher no currículo médico. Nesse contexto, percebe-se a fragilidade da formação médica com relação à atenção a mulheres em situação de violência: foi unanimidade na percepção dos entrevistados que há carência de atividades longitudinais e profundas sobre a mazelas em disciplinas da grade curricular obrigatória. As poucas experiências de aprendizagem foram contexto-dependente: como objeto de estudo de um dos grupos em saúde coletiva do terceiro ano da graduação ou com um caso atendido pelo estudante ou por um colega no internato de ginecologia e obstetrícia, entre o quinto e o sexto ano da graduação.

A gente não teve discussões específicas sobre isso [violência doméstica contra a mulher], não tivemos, o que mais tivemos foi o que comentei, foi com mais relação à sexualidade, sobre saúde da mulher, mas uma discussão mais especificamente sobre violência da mulher a gente nunca teve, pelo menos estou tentando (Entrevistado 1).

Teve grupos que vivenciaram a violência doméstica, mas acho que temas da graduação que coloquem a gente lá, pra poder refletir e falar sobre, e nos capacitar de certa forma, para conseguir atender, prestar assistência aos pacientes, eu não acho que a gente tenha de forma direta, uma proposta da graduação relacionada a esse tema (Entrevistado 3).

E aí, uma coisa que, eu tive, talvez, sorte, não sei, mas no terceiro ano, não sei se também no quarto a gente passa na saúde coletiva, a gente tem um projeto em grupo e, aí, o meu grupo foi sobre violência obstétrica, e, aí, acho que foi bem bacana assim, e aí a gente se aprofundou mais sobre esse tema, tudo, acho que foi um momento que eu aprendi mais especificamente sobre a saúde da mulher (Entrevistado 7).

Da mesma forma, até mesmo em discussões formais acerca da saúde feminina, com temas como sexualidade e infecções sexualmente transmissíveis (IST), há o predomínio de uma perspectiva biomédica, invisibilizando as determinações sociais que envolvem o processo saúde-doença-cuidado.

A gente tem pouco debate sobre quais são as determinações que levam ao adoecimento humano e da mulher, é… e muito mais focado na patologia, na fisiopatologia, no medicamento, na intervenção pós-adoecimento, e eu acho que a faculdade, em geral, né, falha nisso, assim de a gente ter um entendimento fisiopatológico, mas não social do adoecer. Eu acho que é uma crítica, mas, apesar disso, eu acho que a gente ainda tá numa bolha de excelência da universidade no Brasil, apesar do desmonte, apesar do sucateamento (Entrevistado 6).

Foi trazido que… foi uma mulher que eles não saberiam se consideravam virgem porque ela só tinha relações sexuais com mulheres, então ficava isso... “é virgem, não é” por questão especular, então foi muito voltado à parte anatômica, tipo “Ah, vou ter que colocar o espéculo de virgem pela mulher[]…” (Entrevistado 1).

Questões relacionadas à subjetividade, ao sofrimento psíquico e às dimensões sociais que atravessam a experiência da violência tendem a ser delegadas a outras especialidades, como a psiquiatria, em vez de serem compreendidas como parte integrante do cuidado em saúde. Tal dinâmica pode afastar os profissionais da perspectiva da integralidade, uma vez que o enfrentamento da violência doméstica contra a mulher envolve abordagens sensíveis às múltiplas dimensões do processo saúde-doença.

O foco sempre acaba sendo, assim, na grande maioria, né, é... por exemplo, se é na ginecologia, o foco acaba sendo o tratamento da doença em si e do parceiro em si também, né, porque diversas doenças, se você não fizer o tratamento em conjunto, vai continuar, né, e, acaba que, também, na obstetrícia também, as falas também, são sempre voltadas naquele termo do tipo assim, do finalizar a gestação, tudo certo com a gestação, voltadas para suas áreas. Chegam a ter até interconsultas. Às vezes, chamam a psiquiatria e tudo mais, mas nada assim, que realmente chega a ser algo que, eu, notoriamente vi assim que fosse realmente bom ou que auxiliasse essas mulheres, entendeu? (Entrevistado 2).

Categoria 2 - Busca ativa: a possibilidade para a saída do vazio formativo?

Os entrevistados apontaram atividades extracurriculares, como as ligas acadêmicas e o movimento estudantil, como espaços de aprendizado e aprofundamento teórico sobre o tema. Por um lado, o currículo paralelo permite preencher as lacunas do currículo formal, proporcionando espaços de sensibilização e aprofundamento temático, e, por outro, depende do interesse dos estudantes em buscar tal conhecimento, o que pode ser dificultado com uma grade que os induz a ter um raciocínio mais biologizante.

Eu acho que onde eu mais aprendi foi com o Coletivo Genis na verdade, porque foi de saúde, né, de mulher que faz sexo com mulher ou mulher que faz sexo com homem, e aí tinha as questões também de… ah, de prostituição, desse debate também, né, bastante, então… da violência doméstica, de como era organizado em Botucatu as casas que tinha de acolhimento, esse tipo de coisa, então, eu acho que assim, a formação, especificamente, assim, a gente pensar pra falar sobre a saúde da mulher (Entrevistado 7).

Na DENEM [Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina], todo evento tem dezenas de oficinas, de mesas, de discussões sobre gênero, sobre violência de gênero, então acaba que ali foi um espaço mais apto para aprender sobre… Teve desde o papel da mulher na sociedade, do porquê existe uma hierarquia entre homem e mulher, a importância de entender o que na sociedade leva ao papel do homem enquanto o dominador da casa e da mulher enquanto reprodução social até porque mesmo no movimento estudantil existe uma hierarquização… a questão trans, que acaba sendo negligenciada, ao pensar em gênero, acabamos tendo uma visão mais hegemônica de pensar na mulher cis… São vários debates bem ricos que a gente teve na DENEM e no Centro Acadêmico também (Entrevistado 6).

Categoria 3 - Integralidade do cuidado: indissociabilidade teórico-prática

Educador: a potência de uma formação dialética

A partir das entrevistas, é notável que, mesmo sem um espaço no currículo formal, a presença de um educador que mostre a integralidade do cuidado em sua prática médica é uma referência para os estudantes e, também, permite um aprendizado mais significativo e qualitativo para eles.

Lembro muito das discussões com uma professora específica que é a E. Ela sempre focou muito nisso, é o que ela gosta na gineco, da parte de conversar da mulher sobre a sexualidade, sobre como ela se enxerga e da gineco também algo muito frequente também de você estar atendendo uma paciente e ela falar de uma insatisfação com o casamento, com o marido (Entrevistado 1).

Nunca foi algo formal, nunca tive uma aula sobre isso, mas, num plantão que eu já dei na monitoria, tinha um caso que elas suspeitavam que talvez pudesse estar envolvendo uma violência… é… um caso de violência doméstica contra a mulher que a gente estava atendendo. E aí acabou que a professora abordou e discutiu com a gente, eu vi toda a conduta que ela foi tomando, então foram mais assim pontos de, na prática, se surgia o tema, tinha uma discussão mais informal (Entrevistado 5).

DCN de 2014: a possibilidade de mudança

Se as experiências de aprendizagem para o cuidado destinado às mulheres em situação de violência não percorrem um caminho consolidado na formação desses profissionais, os entrevistados demonstram a potência da escola médica estudada na compreensão para a prática da integralidade do cuidado, que fornecem certa base para um atendimento holístico. Da mesma forma, destaca-se a preocupação institucional com a educação médica, pois, embora sejam apontadas as bases flexnerianas do currículo em estudo21, também se pontua o processo de construção de um novo currículo na faculdade, que, baseado nas DCN de 2014, transcende o foco biomédico22.

Eu acho que houve avanços, não à toa aí, dez anos discutindo o currículo para tentar alguma mudança, e, antes disso, acho que também pessoas que participaram da construção desse projeto eram bem intencionadas e objetivavam, buscavam isso, igual eu falei, se na construção do SUS, teve pessoas militantes que participaram dessa luta e levantaram essas pautas das mulheres, eu acho o nosso projeto político-pedagógico também, com muitas limitações, eu acho, né, e que ainda são muitos presentes (Entrevistado 4).

Nunca tive a oportunidade de atender [um caso de violência doméstica], mas eu acho que, se eu me ver nessa situação, eu vou tentar fazer o máximo pra... pra conseguir abordar isso com integralidade a consulta com ela, porque, independente de ter ou não sido tão abordado a questão de violência doméstica contra a mulher, a integralidade no nosso atendimento foi uma coisa que sempre foi muito abordada, então eu acho que eu consigo transferir isso pras situações mais específicas, sabe? (Entrevistado 3).

Considerando a elevada prevalência da violência doméstica contra a mulher, é possível que o entrevistado 3 ou mesmo os profissionais que o acompanhavam na prática clínica não tenham reconhecido situações de violência no cotidiano assistencial. Nesse sentido, a dificuldade de identificação desses casos pode refletir processos de não reconhecimento da violência, frequentemente associados à ausência de formação específica para sua abordagem e à predominância de modelos de atenção centrados em queixas biomédicas imediatas.

Assim, a integralidade do cuidado, embora presente como princípio formativo, demanda também o desenvolvimento de competências para reconhecer dimensões sociais e subjetivas que atravessam o processo saúde-doença.

DISCUSSÃO

O cuidado integral à saúde é um dos preceitos base do atendimento humanizado preconizado pelo SUS, em que a pessoa deve ser vista em sua totalidade, abrangendo aspectos biopsicossociais23. Em detrimento desse horizonte normativo, a percepção dos entrevistados aponta fragilidades no ensino médico, no que se refere à integralidade do cuidado destinado às mulheres em situação de violência.

Entre os obstáculos a serem superados, destaca-se a negligência da abordagem acerca das determinações sociais em saúde. Sob essa perspectiva, evidencia-se uma expressão do currículo oculto, isto é, em consonância com Santome24, do conjunto de conhecimentos e valores adquiridos mediante a participação em processos de ensino-aprendizagem e nas interações diárias que reforçam as necessidades e os interesses da ideologia hegemônica. Nesse sentido, o estudo superficial sobre a problemática, que pouco discute os aspectos histórico culturais e socioeconômicos relacionados, converge para os valores heteronormativos, racistas e patriarcais predominantes, de modo a formar médicos que os ratifiquem em sua prática.

Esse modelo biologizante e intervencionista de formação dos futuros médicos21) resulta em uma reificação do sofrimento dessas mulheres pelos futuros profissionais e no despreparo dos médicos para identificar a situação e lidar com ela, e oferecer um suporte e acolhimento adequados, considerando também a interseccionalidade de violências, além de contribuir para a invisibilidade do problema. Um ciclo complexo e difícil de ser quebrado se forma a partir disso: as mulheres são as maiores frequentadoras dos serviços de saúde na atenção primária23, porém sofrem uma série de entraves nesse processo: despreparo dos profissionais de saúde, medicalização das emoções femininas e classificação delas como “poliqueixosas”4),(25.

Cabe destacar que os entrevistados nesta pesquisa têm como base de formação um currículo com plano pedagógico de curso anterior às DCN de 201422. Nesse currículo, o cuidado integral destinado às mulheres em situação de violência doméstica esbarra no seu próprio aparato extremamente tecnicista e pouco focado em assuntos político-sociais21),(26, e no despreparo técnico para relacionar aspectos da vida humana de âmbito social e os direitos humanos no cotidiano das práticas.

Em contraponto, no que se refere às oportunidades de aprendizagem, chama a atenção a fala dos estudantes quanto às disciplinas da saúde coletiva, com especial destaque para a integração ensino, serviço e comunidade (Iusc) como lugar singular para a aprendizagem da clínica ampliada, dos determinantes sociais em saúde e da territorialização e o trabalho em equipe27. Segundo Ricardo Ayres28, o cuidado em saúde se refere ao encontro terapêutico interessado e sensível à experiência do adoecimento, físico ou mental, e norteado pelos projetos de felicidade das pessoas. Esse encontro terapêutico de outra qualidade, mais “humanizado”, apresenta características técnicas diversas do tradicional, ele reclama novas bases para a relação terapêutica, novas mediações técnicas, de modo a garantir, para além do êxito técnico, o sucesso prático28.

A integralidade do cuidado e a empatia devem ser indissociáveis da prática médica, independentemente do cenário e do contexto de saúde em que a pessoa se encontra29),(30. Nesse contexto, a Iusc surgiu em decorrência do reconhecimento da necessidade de que alunos e professores vivenciassem práticas voltadas para a integralidade das ações em saúde, procurando romper com a concepção biomédica no processo de ensino/aprendizagem. Tem a principal preocupação de colocar o aluno em espaços extra-hospitalares, onde pode interagir com moradores, lideranças comunitárias e profissionais de saúde da área de abrangência das unidades básicas de saúde e de família, e assim poder vivenciar os diversos pontos que compõem a rede de atenção do SUS, do setor saúde ou de outros setores, em atividades que privilegiam a educação pelo trabalho, a integração teórico-prática, a interdisciplinaridade, a interprofissionalidade e a extensão universitária, utilizando recursos da metodologia da problematização27),(30.

Ainda que os entrevistados estivessem em uma formação curricular anterior às DCN, observam-se importantes avanços na produção de uma graduação em saúde mais humanista e com um olhar integral para o ser humano, englobando seus aspectos psicossociais, econômicos, culturais, históricos e biológicos22, em consonância ao recentes impulsos para uma mudança curricular da educação médica, iniciados em meados dos anos 2000, com a proposta de formar profissionais capazes de prestar uma atenção integral e humanizada, e que saibam tomar decisões que levem em consideração o contexto de vida dos usuários e dos recursos disponíveis27.

Nesse sentido, as entrevistas também ressaltam a potência de um educador que seja elo entre a teoria e a prática, e aponte caminhos possíveis para a efetivação da integralidade do cuidado, permitindo um aprendizado mais significativo e qualitativo para os estudantes. Na última década, fez-se um grande esforço, no âmbito das graduações de profissões da saúde, para reorientar a formação de modo a melhor atender às necessidades do SUS, com importante influência das DCN das profissões da saúde e do papel indutivo realizado pelos Ministérios da Saúde e Educação para se alcançar uma formação mais humanizada e desenvolvida mediante processo de ensino-aprendizagem em diferentes cenários e com práticas de interprofissionalidade. Na perspectiva da formação “para e no SUS”, o professor mediador não “já não é aquele que apenas educa, mas, o que enquanto educa, é educado em diálogo com o educando que ao ser educado também educa [p.68-69]”31. Além disso, caracteriza-se por promover espaços e momentos de troca de saberes dos alunos entre si, dos alunos com os profissionais dos serviços de saúde, corroborando as diversas oportunidades da educação interprofissional e da prática colaborativa32.

Como forma de superar as lacunas existentes no currículo médico para a atenção integral às mulheres em situação de violência, os entrevistados indicaram as ligas acadêmicas e o movimento estudantil como espaços produtores de conhecimento confiável e aprofundado. No que se refere aos espaços extracurriculares, eles podem fomentar reflexões críticas ao estudante acerca do papel social do médico, da mulher e da própria violência. Contudo, críticas a respeito desses espaços, em especial às ligas acadêmicas, se fundamentam no aprendizado não sistematizado, na possibilidade de subversão da estrutura curricular formal, na ocupação do tempo livre dos estudantes, na possibilidade de reforço a vícios acadêmicos e no exercício ilegal da medicina quando da falta de supervisão docente, e no aprendizado de conceitos e práticas equivocados. Além disso, elas abrem espaço para a intervenção da indústria farmacêutica, favorecem a especialização precoce dos estudantes, podem reforçar aspectos do currículo oculto, como a cultura machista e patriarcal, e se transformar em meras sociedades científicas, desconsiderando sua essência de extensão universitária e fragilizando o currículo formal33.

No que se refere à extensão universitária, a recente curricularização da extensão aponta para um caminho possível para que alunos e universidade estejam mais próximos do cotidiano social. Nesse contexto, mais apropriados e referenciados pelos problemas e pelas necessidades de saúde da população33.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O olhar com foco na doença e biomédico acerca de questões socioculturais é muito presente no currículo médico e contribui para a invisibilidade do problema e para o sofrimento de mulheres, além de dificultar o atendimento humanizado e integrado como preconizado pelo SUS. A partir das entrevistas e da análise qualitativa de seus conteúdos, observa-se que há um vazio formativo com relação ao tema da violência doméstica contra mulheres no currículo médico, e isso pode ser explicado pela própria construção teórica do currículo médico, com base no modelo biomédico flexneriano21, e pelo currículo oculto24, com valores patriarcais, ao qual os estudantes estão submetidos. Os resultados obtidos apontam para a importância de aprendizagens de questões socioculturais e seus impactos no processo saúde-doença de forma aprofundada, crítica e que desenvolvam competências para um cuidado acolhedor, humanizado e integral destinado à mulher em situação de violência doméstica29. Da mesma forma, demonstram que a violência contra a mulher é um tema social que requer para o seu enfrentamento mudanças estruturais, exigindo, além de adequação no currículo médico, uma universidade e uma sociedade comprometidas com os direitos sociais e humanos, e com o enfrentamento de desigualdades sociais, de gênero e de etnia, por meio de políticas, diretrizes e estratégias voltadas para seu enfrentamento. A homogeneidade do grupo pesquisado, se, por um lado, não permite generalizações para toda comunidade acadêmica de graduação em Medicina no país, permite, por outro, aprofundar nuances da formação médica em uma escola de Medicina conceituada do país, referência na formação de médicos e na construção de currículos de graduação médica ao longo dos anos.

AGRADECIMENTOS

À Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC-RT) - processo nº 6080
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

Editado por

  • Editor Chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor Associado:
    Andréa Tenório Correia da Silva.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Set 2025
  • Aceito
    28 Abr 2026
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