Open-access Aprendizagem e saúde mental na pandemia de Covid-19: vivência de ingressantes em Medicina

RESUMO

Introdução:   A pandemia do novo coronavírus resultou em medidas de contenção de sua disseminação, como a implementação de ensino remoto, e afetou o bem-estar dos indivíduos; assim, surge a necessidade de investigar as consequências sociais e emocionais para os alunos ingressantes em 2020 em uma escola de Medicina do interior paulista.

Objetivo:   Este estudo teve como objetivo compreender as repercussões da pandemia sobre a formação da turma ingressante de uma instituição de ensino superior paulista em 2020, analisando implicações acadêmicas e na saúde mental desses estudantes.

Método:   Trata-se de um estudo exploratório e qualitativo realizado por meio de questionário do tipo websurvey, na plataforma Google Forms, em que se solicitou aos estudantes de Medicina, ingressantes no ano de 2020, que avaliassem a aprendizagem durante o primeiro ano do curso, os pontos positivos e negativos do ensino remoto e as repercussões nos relacionamentos interpessoais, na aprendizagem e na saúde mental. Excluíram-se da amostra as duas primeiras autoras do trabalho científico (também ingressantes em 2020) e os discentes que se desligaram do curso entre a matrícula e a data da coleta de dados. Na sistematização dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo na modalidade temática.

Resultados:   Participaram 33 estudantes, sendo 18 do gênero feminino e 15 do masculino, com idades entre 20 e 30 anos. A análise de conteúdo identificou 21 núcleos de sentido, e, a partir deles, elaboraram-se quatro temas que versavam sobre os prejuízos ao processo institucional e ao desempenho acadêmico, as mudanças e restrições nas relações interpessoais, os benefícios e malefícios do uso de tecnologias digitais, e as repercussões do ensino remoto na saúde mental dos estudantes.

Conclusão:  Este estudo pode fornecer insights importantes para compreender o verdadeiro impacto da pandemia na qualidade da formação dos estudantes, nas relações interpessoais e na saúde mental. Com base nesses resultados, propõe-se que a faculdade desenvolva um melhor preparo para situações em que o ensino remoto precise ser implementado, oferecendo apoio psicossocial aos estudantes nesses momentos atípicos e outras medidas institucionais que visem atender às necessidades psicológicas e educacionais dos discentes.

Palavras-chave:
Estudantes de medicina; Saúde Mental; Aprendizagem baseada em problemas; Covid-19

ABSTRACT

Introduction:   The new coronavirus pandemic resulted in measures to contain its spread, such as the implementation of remote teaching, and affected the well-being of individuals; Thus, it becomes necessary to investigate the social and emotional consequences for students entering in 2020 at a medical school in the interior of São Paulo.

Objective:   To understand the effects of the pandemic on the formation of the incoming class of an HEI in São Paulo in 2020, analyzing the academic and mental health implications of these students.

Methods:   Exploratory and qualitative study using an online questionnaire, asking medical students to evaluate learning during the first year of the course, positive and negative points of remote teaching, effects on interpersonal relationships, learning and mental health. The first two authors and students who left the course between enrollment and the date of the research were excluded from the sample. The study was carried out through data analysis using Content Analysis, thematic modality.

Results:   33 students participated, 18 females and 15 males, aged between 20 and 30 years old. Content analysis identified 21 meaning cores; From them, four themes were created, dealing with the damage to the institutional process and academic performance, changes and restrictions in interpersonal relationships, the benefits and harms of using digital technologies, and the consequences of remote teaching on students’ mental health.

Final considerations:   This study can provide important insights to understand the true impact of the pandemic on the quality of student training, interpersonal relationships and mental health. Based on these results, measures can be implemented to meet these students’ needs.

Keywords:
Students, Medical; Mental health; Problem-based learning; COVID-19

INTRODUÇÃO

O novo coronavírus (Sars-CoV-2) foi identificado na China, em dezembro de 2019, após um surto de pneumonia na cidade de Wuhan. Em pouco tempo, o vírus tomou proporções mundiais e alcançou todos os países, tornando-se a primeira pandemia por coronavírus1),(2. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até o dia 28 de janeiro de 2024, confirmaram-se 774.469.939 casos de Covid-19 e 7.026.465 mortes pela doença no mundo. No Brasil, confirmaram-se 37.519.960 casos e 702.116 mortes pela Covid-19 até a mesma data3.

Devido à alta virulência do Sars-CoV-2 e à inexistência de fármacos ou vacinas contra a doença na época, foram implementadas várias medidas para a contenção da disseminação do vírus e da evolução da pandemia4. Com isso, as autoridades mundiais decretaram quarentena, isolamento social e restrição da atividade de serviços de diversos setores5. Essas mudanças, embora necessárias, acometeram o bem-estar dos indivíduos, desencadeando inúmeros sintomas psicopatológicos, como tristeza, ansiedade, nervosismo, problemas de sono e sintomas depressivos6.

Entre as instituições que foram afetadas pelos decretos, escolas, faculdades e universidades tiveram suas atividades presenciais suspensas desde março de 2020, por tempo indeterminado5. A partir disso, iniciaram-se discussões acerca de quais estratégias seriam utilizadas para que o ensino fosse mantido. Como solução, o Ministério da Educação (MEC) autorizou a utilização da educação remota a partir das tecnologias de informação e comunicação (TIC), que não exigiam a presença física7.

Nos cursos da área da saúde, tais alterações no ensino acarretaram atraso nas atividades práticas dos estudantes e mudanças no cronograma, provocando quadros ansiosos8. Isso não foi diferente em uma instituição de ensino superior (IES) do interior paulista, cujo currículo do primeiro ano do curso é composto pela Unidade Educacional Sistematizada (UES) e pela Unidade de Prática Profissional (UPP). A UES é realizada por meio de sessões de tutoria, utilizando a Aprendizagem Baseada em Problemas - ABP (Problem-Based Learning - PBL), e a UPP é composta por atividades práticas em cenário real - Estratégia Saúde da Família (ESF) - e em cenário simulado, a partir do Laboratório de Prática Profissional (LPP) e do Apoio da Prática Profissional (APP). Porém, por conta da pandemia, houve a necessidade de alterar a estrutura geral da série com a implementação de atividades remotas, já que algumas passaram a ser online e outras foram adiadas, com retorno reavaliado periodicamente, de acordo com a situação epidemiológica e as Diretrizes do Plano São Paulo9.

Com base na experiência das autoras - que vivenciaram a implementação do ensino remoto para a turma de ingressantes em Medicina da Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) - e na literatura, formulou-se o seguinte pressuposto: a implementação do ensino remoto no curso de graduação em Medicina trouxe consequências sociais e emocionais aos discentes que entraram na FAMEMA, na vigência da pandemia de Covid-19. Dessa forma, a seguinte pergunta norteou a pesquisa:

  • Como a pandemia de Covid-19 repercutiu sobre a educação médica da turma ingressante na FAMEMA, no ano de 2020, e quais foram as implicações acadêmicas e na saúde mental para esses estudantes?

Este estudo teve como objetivo compreender as repercussões da pandemia de Covid-19 sobre a educação médica da turma ingressante na FAMEMA, no ano de 2020, e as implicações acadêmicas e na saúde mental dos estudantes.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório e de abordagem qualitativa realizado em uma IES pública do interior paulista.

Foi utilizado como critério de inclusão ser estudante matriculado no curso de Medicina da instituição no ano de 2020. Excluíram-se da amostra as duas primeiras autoras do trabalho científico (também ingressantes no ano referido) e os discentes que se desligaram do curso entre a matrícula e a data da coleta de dados. Selecionaram-se de forma aleatória os estudantes a partir de listas institucionais, e o tamanho da amostragem foi determinado por exaustão.

Todos os estudantes (72) receberam o convite para participar da pesquisa, com prazo de resposta de 15 dias e três lembretes. Considerou-se o aceite quando o discente respondeu ao questionário. A falta de retorno foi entendida como recusa, e não houve sinalização de desistência. Cada participante leu e preencheu o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e uma cópia foi enviada por e-mail após o preenchimento. A participação foi voluntária, e os estudantes poderiam retirar seu consentimento a qualquer momento. Armazenaram-se os dados coletados em plataforma digital restrita, de uso exclusivo das pesquisadoras. Preservou-se a identificação dos participantes, e o material foi destruído após o término da pesquisa.

Realizou-se a coleta de dados entre os meses de fevereiro e junho de 2022, por meio de um questionário do tipo websurvey, na plataforma Google Forms, composto de dados de identificação (idade, gênero e local de residência antes e depois da aprovação na FAMEMA) e quatro perguntas de pesquisa de resposta dissertativa:

  1. Como você avalia sua aprendizagem durante o primeiro ano do curso de Medicina, considerando a pandemia de Covid-19? Explique e dê exemplos.

  2. Quais pontos positivos você encontrou no ensino remoto? Explique e dê exemplos.

  3. De que forma você relaciona o distanciamento social imposto pela pandemia e as relações interpessoais? Explique e dê exemplos, considerando separadamente colegas de turma, professores e demais profissionais?

  4. Como o ensino remoto repercutiu em sua saúde mental? Explique e dê exemplos, considerando as necessidades de cuidado que você vivenciou e precisou buscar nesse sentido.

As perguntas de pesquisa foram elaboradas com base na experiência e observação das autoras e em outros estudos semelhantes realizados10. O instrumento de pesquisa foi validado por meio de um questionário-piloto com os estudantes do curso de Enfermagem da Famema que ingressaram no ano de 2020, já que possuíam vivência semelhante à dos discentes de Medicina da mesma série, considerando que os dois primeiros anos dos cursos são integrados entre si, com as mesmas unidades educacionais e grupos formados por estudantes das duas áreas. A partir de listas institucionais, selecionaram-se seis estudantes por sorteio, dos quais quatro responderam ao questionário na plataforma Google Forms. Além disso, após participarem, perguntou-se aos entrevistados como foi o processo para identificar se o instrumento estava adequado ou se seria necessária alguma modificação. Constatou-se que era preciso separar em duas perguntas os pontos positivos e os pontos negativos do ensino remoto, já que anteriormente ambos eram abordados na mesma questão, e a maioria das respostas não dissertava sobre as potencialidades, apenas sobre as fragilidades. Ademais, foi adicionada em todas as perguntas a sugestão de o participante explicar o tema questionado e dar exemplos a respeito dele, pois identificou-se no piloto que os participantes tendiam a dar respostas genéricas e suscintas.

Após a coleta, os dados foram submetidos à Análise de Conteúdo, modalidade temática proposta por Bardin11, realizada manualmente em três etapas: 1. pré-análise; 2. exploração do material; e 3. tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Na pré-análise, foi escolhido o objeto que seria analisado a partir do material coletado. Logo após, realizou-se a leitura flutuante, em que as pesquisadoras se aproximaram do texto e estabeleceram as primeiras percepções. Retomaram-se as hipóteses e os objetivos da pesquisa, e houve a organização manual das respostas dos participantes em um programa de planilhas, formando o corpus, que representa os materiais que foram analisados11. Na etapa de exploração do material, fez-se a busca de unidades de registro no texto, a partir da separação por cores de ideias que se assemelhavam. Ao fim de cada ideia, houve a codificação dos participantes por números, com o intuito de facilitar a busca de trechos representativos da análise, caso fosse necessário. Em seguida, agruparam-se as ideias comuns em 25 núcleos de sentido, que, por fim, foram organizados em quatro temas. Posteriormente, realizaram-se inferências e interpretações, e, a partir disso, pôde-se fazer uso dos resultados para atingir os objetivos iniciais da pesquisa11),(12.

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) envolvendo seres humanos da Famema e devidamente aprovado, com Parecer nº 5.039.107, de 2021.

RESULTADOS

Participaram 33 estudantes, sendo 18 do gênero feminino e 15 do masculino, com idades entre 20 e 30 anos. Em relação à análise de conteúdo, quatro temas surgiram, conforme demonstrado no Quadro 1.

Quadro 1
Temas e seus respectivos núcleos de sentido.

Tema 1: Prejuízos do momento da pandemia ao processo institucional e ao desempenho acadêmico

Esse tema, que versou sobre os prejuízos da pandemia ao processo institucional e ao desempenho acadêmico, foi constituído pelos seguintes núcleos de sentido:

  • Avaliação negativa da aprendizagem acerca da dificuldade de adaptação ao método e da qualidade dos conteúdos ministrados remotamente.

  • Faculdade despreparada para a pandemia.

  • O online trouxe uma rotina diferente para os alunos, dificultando o gerenciamento de tempo e estudos, a falta de separação de ambientes de casa e estudo, além de provocar uma certa comodidade.

  • O desempenho acadêmico foi prejudicado pela falta de relações interpessoais.

A pesquisa demonstrou uma avaliação negativa da aprendizagem, por parte dos estudantes, acerca da dificuldade de adaptação ao método e da qualidade dos conteúdos ministrados remotamente. Entre os fatores que causaram prejuízos na aprendizagem, relataram-se a falta de preparo da faculdade para a pandemia, por conta da desorganização, a ausência de planejamento, a dificuldade de encontrar plataformas de qualidade, a baixa cobrança acadêmica e o não apoio por parte da instituição: “Houve falta de planejamento, dificuldades em encontrar plataformas de qualidade; falta de prática do que foi aprendido” (E9).

Além disso, os estudantes mencionaram que o ensino remoto trouxe uma rotina diferente para eles, o que dificultou o gerenciamento de tempo e estudos.

[...] não só tive que me adaptar ao método PBL, mas também me adaptar ao ensino remoto e o uso de plataformas de videoconferência para realizar as aulas. Senti muita dificuldade em gerenciar meu tempo para buscar fontes e estudar, então muitas vezes me sentia despreparado para participar nas tutorias, com poucas participações. Não conseguia absorver e entender o conteúdo [...] (E15).

O ensino remoto também gerou a falta de separação de ambientes de casa e estudo, e provocou certa comodidade pelo fato de os discentes estarem dentro da própria residência o dia todo.

[...] uma postura mais passiva e confortável frente à necessidade de aquisição de conhecimento, posto que online é muito natural a consulta às fontes durante a fala na tutoria, que talvez fosse melhor presencialmente (E16).

Falta de interação social que [...] promove memorização do aprendizado e bem-estar, facilitando o processo de ensino-aprendizagem; discussões mais “engessadas” (E20).

Por causa do ensino remoto e de sua qualidade, alguns estudantes relataram que surgiram dúvidas e inseguranças quanto à formação acadêmica: “me questionar durante todo o 1º ano se não deveria cancelar a matrícula e prestar outras instituições, já que achava (ainda acho!) completamente impensável uma metodologia ativa realizada de modo online” (E33).

Diante do exposto, percebe-se que os estudantes tiveram uma avaliação majoritariamente negativa da aprendizagem, sendo consequência da dificuldade de adaptação ao método e da qualidade dos conteúdos ministrados remotamente. Também foi evidenciado que, durante a quarentena, não havia separação do ambiente de casa e estudo, o que alterou a rotina dos estudantes. Além disso, o ensino remoto modificou as relações interpessoais, cooperando para o prejuízo no desempenho acadêmico.

Tema 2: Mudanças e restrições às relações interpessoais diante das medidas de isolamento social

Esse tema referente a mudanças e restrições às relações interpessoais diante das medidas de isolamento social foi elaborado a partir dos seguintes núcleos:

  • Relações interpessoais prejudicadas com o ensino remoto e distanciamento.

  • O ensino remoto impediu uma criação de vínculo com a faculdade e com o curso.

  • Com o ensino remoto, houve distanciamento das relações pessoais, restringindo-se à realização das atividades acadêmicas.

  • As relações interpessoais foram modificadas durante a pandemia.

  • Isolamento durante a pandemia foi necessário para a segurança das pessoas.

Com o advento da pandemia, do distanciamento e do ensino remoto, os estudantes ressaltam que as relações interpessoais com os colegas, professores e outros funcionários da instituição foram prejudicadas, inclusive houve mudanças no convívio dentro de casa. Os estudantes relataram que não conheciam a turma toda, pois o contato ocorria apenas com os colegas do grupo de tutoria, que ainda era muito impessoal, restringindo-se à realização de atividades acadêmicas.

O distanciamento social afetou todos os tipos de relações interpessoais. [...] impossibilitou a formação de vínculos [...] esse comportamento conjunto dificultou o contato entre pessoas de visões diferentes, travando o debate, o questionamento e até o crescimento como pessoa/profissional. Em relação aos professores e demais profissionais, o distanciamento foi ainda maior e contribuiu para a hierarquização no ambiente acadêmico (E26).

Em relação à minha família, acho que ao mesmo tempo em que fortaleceu também deu aquela vontade de fugir de casa, pois você passa altos e baixos o tempo inteiro com seus familiares durante o isolamento, e tem hora que você só quer um tempo sozinha [...] (E4).

Apesar de todos os prejuízos nas relações interpessoais, alguns estudantes destacaram que o isolamento social foi necessário para ajudar a combater a pandemia e para garantir a segurança das pessoas: “Para mim penso que o ensino remoto foi muito importante para a redução de casos durante a pandemia” (E28).

Alguns estudantes consideraram que houve pontos positivos acerca das relações interpessoais, como a facilidade de contato com professores e a possibilidade de criação de amizades online: “Com os professores, acredito que de certa forma facilitou o contato [...]. Já em relação aos demais profissionais, o distanciamento social permitiu de certa forma entrar em contato com (eles) por meio das redes sociais” (E7).

Tema 3: Benefícios e malefícios do uso de tecnologias digitais diante da necessidade do ensino remoto na pandemia

Esse tema trata dos benefícios e malefícios do uso de tecnologias digitais diante da necessidade do ensino remoto na pandemia, e possui os seguintes núcleos:

  • Aprendizagem avaliada como adequada, apesar das dificuldades do ensino remoto.

  • O ensino remoto trouxe facilidades e benefícios por tudo ser feito por meio do computador.

  • Aprendizado e uso de tecnologias digitais para o estudo.

  • O ensino remoto trouxe a comodidade de estar em casa e com a família.

  • Pontos positivos do online acerca das relações interpessoais.

  • Não enxerga nenhum ponto positivo no ensino remoto.

  • O uso exagerado do computador causou cansaço, esgotamento, distração e sintomas físicos.

  • O uso do computador para todas as atividades trouxe prejuízos por conta das limitações das plataformas e da conexão de internet.

  • Manutenção do ensino durante a pandemia foi importante.

Com o ensino remoto, parte dos estudantes enxergou pontos positivos acerca do uso de tecnologia: facilidade de tudo ser feito por meio do computador, possibilidade de aprender a usar as tecnologias digitais para o estudo e comodidade de estar em casa e com a família.

O único ponto positivo foi que é possível assistir às conferências da faculdade com maior flexibilidade, em relação aos horários (E27).

Os pontos positivos que o ensino remoto proporcionou foi a apreensão de conhecimento sobre o uso das plataformas digitais de ensino [...], para benefício próprio e sob]re a agilidade na busca de informações pela internet em artigos e livros baixados no computador (E12).

De acordo com alguns estudantes, apesar das dificuldades do ensino remoto, a manutenção do ensino durante a pandemia foi importante. Eis um ponto positivo citado: “manter o ensino durante um momento de atipicidade, de modo a manter algum senso de propósito e de rotina. [...]” (E18).

Apesar das dificuldades do ensino remoto, a aprendizagem foi avaliada como adequada por alguns estudantes. Entretanto, outros discentes relataram que não enxergaram nenhum ponto positivo no ensino remoto:

[Aprendizagem] satisfatória, visto que a faculdade nos coloca áreas básicas, não fomos tão prejudicados (E25).

Nenhum [ponto positivo no ensino remoto] (E25).

Ademais, foi relatado que o uso exagerado do computador gerou cansaço, esgotamento, distração, dificuldade de concentração e sintomas físicos, como dor de cabeça, ardência nos olhos e acentuação dos problemas de visão. Além disso, houve limitações das plataformas online e problemas de conexão com a internet: “Maior dificuldade para concentrar (ficar em frente ao computador é mais cansativo que um encontro presencial), problemas de conexão (internet fora do ar, plataformas travando) [...]” (E11).

Tema 4: Repercussão da pandemia e do ensino remoto na saúde mental dos estudantes

Esse tema discorre acerca da repercussão da pandemia e do ensino remoto na saúde mental dos estudantes, e é formado pelos seguintes núcleos:

  • A pandemia e o ensino remoto causaram ou agravaram transtornos psicológicos nos estudantes.

  • A pandemia e o ensino remoto causaram sentimentos negativos e prejuízos para a saúde mental dos estudantes.

  • Dúvidas e inseguranças quanto à formação acadêmica diante do ensino remoto e da qualidade dele.

  • Não houve repercussão negativa em sua saúde mental.

  • Alguns estudantes procuraram o serviço de psicologia para apoio nessa fase.

  • Alguns estudantes tiveram que recorrer a medicamentos para tratar os transtornos psicológicos desencadeados ou agravados nessa fase.

  • O estudante precisou realizar exercícios físicos para se distrair.

Com o advento da pandemia e do ensino remoto, muitos estudantes desenvolveram ou agravaram transtornos psicológicos, como ansiedade, depressão e insônia.

Perto do final do ano [de 2020] [...] eu me peguei cada vez mais cansada e menos esperançosa, isso acabou repercutindo tanto na minha saúde mental quanto no meu desempenho acadêmico: as minhas crises de ansiedade ficaram mais frequentes, minha insônia atacou, eu estava mais irritadiça e perdi 5 kg por conta do estresse (E1).

Além disso, mesmo aqueles que não tiveram um quadro psiquiátrico diagnosticado relataram que apresentaram sentimentos negativos com diversos prejuízos à saúde mental, como cansaço, irritação, nervosismo, desesperança, inquietação, angústia, desmotivação e frustração.

Sentimento de angústia (por estar fazendo um curso que deveria ter muita prática de forma online), desesperança (grande demora para retorno do presencial).” (E11).

Durante a pandemia me sentia muito tensa, sempre me preparando para a morte de alguém da família [...]. Culpa, cobrança e julgamento definem bastante esse tempo na minha vida [...] (E16).

Como solução para tais prejuízos, grande parte dos estudantes precisou recorrer a algum tipo de tratamento, como uso de medicamentos e acompanhamento com serviço de psicologia. Ainda, foi citado que a realização de exercícios físicos auxiliou no alívio dos sintomas psicológicos durante esse período: “2021 foi sem sombra de dúvidas o pior ano da minha vida, em termos de saúde mental. Precisei procurar ajuda psiquiátrica e psicológica, e desde então não parei mais” (E26).

DISCUSSÃO

A pandemia trouxe prejuízos ao processo institucional e ao desempenho acadêmico. Verifica-se que os estudantes tiveram uma avaliação negativa da aprendizagem por conta da dificuldade de adaptação ao método e pela qualidade dos conteúdos ministrados remotamente, como aulas de anatomia que deixaram de ser presenciais, o que causou insatisfação. Além disso, os participantes ressaltaram que, durante a quarentena, não havia separação do ambiente de casa e estudo, o que alterou suas rotinas. Também foi constatado que o ensino remoto modificou as relações interpessoais, cooperando para o prejuízo no desempenho acadêmico.

Isso se verifica em outros estudos, como na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh13 e na Universidade Makerere (Uganda), em que 50% dos estudantes de Medicina e Enfermagem observaram que o conhecimento alcançado no ensino remoto tinha uma qualidade inferior em relação ao presencial14. Ainda nesse sentido, 53% dos estudantes de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco relataram que sua aprendizagem foi menos proveitosa se comparada ao ensino presencial15. Outras universidades também obtiveram a mesma avaliação por parte dos alunos16),(17.

A falta de atividades práticas pode causar maiores dificuldades de adaptação ao ensino remoto16),(18, já que matérias que envolvem trabalho laboratorial não têm uma adequação apropriada para o online e interações interpessoais com os colegas e pacientes são fundamentais e insubstituíveis para a formação médica19. Isso é demonstrado pelos estudantes da Universidade Médica de Viena, dos quais 46,5% acreditam não ter competência prática suficiente para atuar futuramente19.

Além disso, no ensino remoto, a organização e o planejamento foram notórias dificuldades encontradas pelos discentes15, assim como a sobrecarga, causada pelo fato de ter que ficar em casa o tempo todo, inclusive para estudar21.

Em contrapartida à maioria dos estudos analisados, foi constatado que, em 2020, 62,1% dos estudantes de 90 universidades chinesas estavam satisfeitos com o ensino remoto. O que pode ter cooperado para essa avaliação é o fato de que, desde o começo da instauração da nova modalidade de ensino, as instituições deram orientações a respeito do online aos alunos22.

As medidas de isolamento social provocaram mudanças e restrições às relações interpessoais com colegas, professores, funcionários da instituição e até mesmo com os familiares em casa. Ademais, foi ressaltado que o ensino remoto impediu uma criação de vínculo com a instituição e com o curso. Porém, apesar de todos os prejuízos, alguns estudantes ainda destacaram que o isolamento social foi necessário para ajudar a combater a pandemia e que existiram alguns pontos positivos, como a facilidade de contato com professores e a possibilidade de criação de amizades online.

Entre os desafios resultantes da quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, é possível destacar a falta de interação social entre os alunos, que limitava o senso de comunidade23),(24, as discussões sobre as matérias do curso e a participação em eventos23. Na PBL, isso reduz a motivação e compromete o envolvimento e os resultados dos alunos25. Todo esse contexto decepcionante pode culminar em falta de vínculo com o ambiente acadêmico26, vontade de abandonar o curso21 ou pensamento de que não se matricularia novamente27.

Outro fator destacado é o de que a relação com professores e outros funcionários da faculdade, dada como insubstituível, foi prejudicada20),(28, e isso pode afetar o processo ensino-aprendizagem e a formação do aluno28. A pandemia também prejudicou a relação entre os discentes, pois o trabalho em equipe e a criação de vínculos foram dificultados, o que tornou os estudantes, principalmente do primeiro ano, menos colaborativos entre si29.

Diante da necessidade do ensino remoto na pandemia, o uso de tecnologias digitais trouxe benefícios e malefícios. Como pontos positivos, foram citados: a praticidade de tudo ser feito por meio do computador; a oportunidade de aprender a usar tecnologias digitais para o estudo; a comodidade de estar em casa e com a família; a facilidade do contato com professores por meio das redes sociais; e a possibilidade de manutenção do ensino mesmo durante a pandemia que, apesar das dificuldades, gerou uma aprendizagem adequada, segundo alguns estudantes.

Em contrapartida, alguns discentes relataram que não enxergaram nenhum ponto positivo no ensino remoto; e outros mencionaram que o uso exagerado do computador gerou cansaço, distração e sintomas físicos, como dor de cabeça, ardência nos olhos e acentuação dos problemas de visão. Além disso, houve limitações das plataformas online e problemas de conexão com a internet.

Os estudantes enxergaram como pontos positivos a flexibilidade de horários19),(30),(31) e a possibilidade de assistir às aulas gravadas repetidas vezes23),(30. O fato de estar em casa, um ambiente seguro e sem precisar se deslocar, também foi descrito como vantagem do ensino online17, além de ter mais tempo para ficar com a família, realizar exercícios físicos e lazer31. Outro ponto muito positivo foi a possibilidade de participar de múltiplos eventos dos meios acadêmico e médico, já que eram realizados de forma online por conta da pandemia, facilitando o acesso de todos e superando as barreiras geográficas31),(32.

Embora o material gravado seja encarado como positivo, ele possibilita que os alunos procrastinem e até mesmo não vejam o conteúdo, prejudicando a aprendizagem23. Outro problema que muitos alunos enfrentaram durante o online foi a distração, que muitas vezes estava presente, tanto pelo fato de o ambiente de casa ter vários distratores quanto pela própria tecnologia, o que prejudica a concentração17),(27),(31),(33)-(36.

As tutorias realizadas online foram citadas como mais passivas, com menor participação dos alunos e menor motivação17),(30),(33. Isso se correlaciona com o fato de as plataformas usadas no online serem dependentes da internet, que muitas vezes tem falhas e prejudica a discussão dos alunos13),(14),(28),(35, além do cansaço físico e mental causado pelo tempo excessivo de tela30.

A pandemia e o ensino remoto causaram repercussões na saúde mental dos estudantes. Muitos desenvolveram ou agravaram transtornos psicológicos, como ansiedade, depressão e insônia; e mesmo aqueles que não foram diagnosticados com quadros psiquiátricos apresentaram sintomas negativos, como cansaço, irritação, nervosismo, desesperança, inquietação, angústia, desmotivação e frustração. Ainda, alguns participantes relataram que surgiram dúvidas e inseguranças quanto à formação acadêmica. Poucos estudantes afirmaram que não tiveram repercussões negativas na saúde mental.

Como solução para tais prejuízos psicológicos, foram citados: tratamentos medicamentosos, acompanhamento com serviço de psicologia e realização de exercícios físicos.

Muitos estudos ressaltam a alta prevalência de ansiedade27),(31),(37)-(42 e depressão27),(31),(38),(39),(41),(42 entre os discentes de Medicina, e outros evidenciam também a existência de sentimentos negativos, como frustração29),(34, solidão16),(34, apatia16, mau humor27, desespero27, estresse37),(41)-(43, angústia21),(37),(44, desânimo, alteração do apetite, cansaço40, baixa motivação, esgotamento mental43),(44, preocupação21, insegurança37, tédio34 e prejuízos na qualidade do sono27),(40),(43. Foi constatada, inclusive, menor satisfação em relação ao sono entre alunos dos primeiros anos do curso27, além da evidência de que o sono inadequado ou a insônia é fator predisponente à ocorrência de transtornos mentais21),(45.

Pode-se ainda afirmar que houve maior prevalência de sintomas de ansiedade e depressão entre aqueles que já faziam algum tipo de tratamento ou acompanhamento nessa área42.

Para que pudessem lidar com tais prejuízos à saúde mental, os estudantes recorreram ao uso de medicação, principalmente benzodiazepínicos39, pois apresentavam uma pior percepção da qualidade de vida44.

Em contrapartida, alguns estudos relatam que a qualidade de vida dos estudantes não foi prejudicada durante a pandemia e o ensino remoto, porque eles se sentiam seguros em casa27, com apoio de amigos e da família44),(45. Ainda, há indícios de que esse período não teria afetado significativamente a saúde mental dos discentes46, uma vez que estudos prévios à pandemia já trazem altos níveis de transtornos mentais em acadêmicos de Medicina, de forma que o próprio curso seria o principal fator de risco para o desenvolvimento deles45. Exemplo disso foi um estudo realizado no Sri Lanka, em 2018, em que 40,4% dos estudantes se apresentavam em grave sofrimento psicológico47.

CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objetivo compreender as repercussões da pandemia de Covid-19 sobre a educação médica da turma ingressante na Famema, no ano de 2020, e as implicações acadêmicas e na saúde mental dos estudantes. É possível afirmar que houve uma predominante avaliação negativa da aprendizagem durante esse período, e convém pontuar que o método de ensino da faculdade foi um fator que prejudicou a adaptação dos estudantes ao ensino remoto.

Convém atestar que o online afetou as relações interpessoais com colegas e profissionais da instituição, o que comprometeu a criação de vínculos com a faculdade e o curso. Além disso, houve repercussões negativas na saúde mental dos estudantes, com destaque para a ansiedade e a depressão, já que muitos estudantes precisaram recorrer ao uso de medicamentos e psicoterapia. Isso corrobora a hipótese elaborada pelas autoras no início do estudo de que havia o pressuposto de que o ensino remoto trouxe consequências sociais e emocionais aos discentes que ingressaram em Medicina na Famema na vigência da pandemia de Covid-19.

Faz-se importante destacar que o ensino remoto também trouxe pontos positivos, como a facilidade de tudo ser feito pelo computador e a possibilidade de aprender a usar tecnologias digitais para o estudo. Porém, o uso excessivo das tecnologias digitais causou cansaço e desgaste físico nos estudantes, além de prejuízos nas atividades por conta de problemas de conexão com a internet.

Diante do exposto, constata-se que este trabalho alcançou o objetivo pretendido e respondeu à pergunta de pesquisa. A partir disso, a importância do presente estudo está na identificação dos danos causados pela pandemia ao aprendizado e na necessidade de correção dessas lacunas no ensino. Além disso, convém ressaltar a relevância da oferta de apoio psicossocial aos estudantes que estão em sofrimento psíquico, principalmente em momentos atípicos, como a pandemia. As faculdades devem se preparar melhor para situações em que o ensino remoto seja exigido futuramente, para que não ocorram as mesmas falhas evidenciadas neste estudo.

Aponta-se como limitação desta pesquisa o fato de ela ter sido feita em uma amostra pequena de estudantes. Porém, a pertinência está na sua abrangência, já que analisamos as circunstâncias de aprendizagem, as relações interpessoais, os benefícios e malefícios das tecnologias digitais, as condições de saúde mental dos estudantes e os tratamentos buscados por eles.

Para futuras pesquisas, propomos um estudo que avalie instituições que tiveram sucesso na implementação do ensino remoto utilizando metodologias de aprendizagem ativa em situações emergenciais, a fim de fornecer recomendações para outras faculdades, quando necessário.

REFERÊNCIAS

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editora associada:
    Agnes Cruvinel.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Maio 2024
  • Aceito
    27 Fev 2025
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