RESUMO
Introdução: As ligas acadêmicas (LA) são organizações estudantis importantes no contexto da extensão universitária durante a formação médica, cujo modelo vem-se espalhando para outros cursos da área da saúde nos últimos anos.
Objetivo: Este estudo teve como objetivo analisar a presença e os impactos das LA na formação de diversas categorias de profisisonais da saúde em nível nacional.
Método: Realizou-se um estudo transversal e descritivo com um formulário digital divulgado por e-mail a instituições de ensino (IE) em metodologia snowball, avaliando conhecimentos e percepções sobre as LA. Em seguida, conduziu-se uma análise exploratória e descritiva das 237 respostas válidas. Foram também realizados testes estatísticos de Kruskal-Wallis e post hoc de Dunn para avaliar as diferenças no padrão de resposta dos cursos de graudação avaliados em relação às médias gerais.
Resultado: Os(as) participantes conheciam uma média de 3,9 ± 2,8 LA sediadas em suas IE e participaram de 1,6 ± 1,0 LA, sendo predominantes as LA dedicadas a áreas interdisciplinares e especialidades médicas. Participantes de Medicina e Enfermagem citaram proporcionalmente mais LA sediadas em suas IE e LA das quais foram membros. Ademais, a maioria dos(as) participantes concordou que participar de LA contribuiu positivamente para seu desempenho acadêmico, sua capacitação profissional e responsabilidade social, embora este último aspecto tenha apresentado variação em decorrência do curso de graduação analisado.
Conclusão: Verificou-se que as LA encontram-se bem difundidas entre os diferentes cursos da área da saúde, com benefícios e desafios semelhantes àqueles já documentados para os cursos de Medicina.
Palavras-chave:
Educação em Saúde; Educação Médica; Organizações da Sociedade Civil
ABSTRACT
Introduction: Academic Leagues (AL) are important student organizations in the context of public outreach during medical education, whose model has been spreading in other healthcare undergraduate degrees in recent years.
Objective: This study had as an objective to analyze the presence and impacts of the AL in the formation of various categories of healthcare professionals at the national level.
Method: A cross-sectional and descriptive study was carried out with a digital questionnaire released by e-mail to educational institutions (IE) using the snowball methodology, evaluating knowledge and perceptions about AL. Next, an exploratory and descriptive analysis of the 237 valid answers was performed. Kruskal-Wallis statistical tests and Dunn’s post-hoc tests were also performed to evaluate the differences in the response pattern of the evaluated degrees when compared to the general averages.
Results: Participants knew an average of 3.9 ± 2.8 AL based in their IE and participated in 1.6 ± 1.0 AL, with AL dedicated to interdisciplinary areas and medical specialties predominating. Participants from Medicine and Nursing degrees cited proportionally more AL based in their IE and AL of which they were members. In addition, most participants agreed that participating in AL contributed positively to their academic performance, professional training and social responsibility, although the last aspect varied as a result of the degree analyzed.
Conclusion: it was found that AL are well spread among the different healthcare undergraduate degrees, with benefits and challenges similar to those already documented for medical schools.
Keywords:
Health Education; Medical Education; Civil Society Organizations
INTRODUÇÃO
As ligas acadêmicas (LA) são um importante modelo de organização estudantil no contexto da extensão universitária em cursos de Medicina e Enfermagem, sendo tradicionalmente definidas como organizações estudantis sem fins lucrativos, apartidárias e sem vínculos religiosos, que visam à integração de estudantes em torno de uma área de interesse comum1),(2. Essas organizações são geridas pelos/pelas próprios(as) estudantes, sob supervisão docente, e regulamentadas por estatutos que descrevem o seu propósito e funcionamento3.
As LA oferecem aos(às) estudantes a possibilidade de participar de eventos, atividades e projetos extracurriculares que dialogam com todas as vertentes do tripé universitário de pesquisa-ensino-extensão, enriquecendo as experiências universitárias4. Além disso, essas organizações vêm-se mostrando essenciais para a formação interdisciplinar dos(as) estudantes5, beneficiando-os com o contato mais próximo com pacientes e profissionais já atuantes na área e permitindo o desenvolvimento de habilidades técnicas, sociais e emocionais, por meio do aprendizado ativo6.
Nos últimos anos, acompanhando o crescimento das próprias universidades e as reformas curriculares, as LA enfrentaram um ápice de crescimento e diversificação7, difundindo-se, inclusive, para outras graduações na área da saúde, como Fisioterapia8, Odontologia9, Psicologia10, Biomedicina11 e Farmácia12. Ademais, a pandemia entre os anos de 2020 e 2022 contribuiu para a digitalização das LA13, quando atuaram como uma ferramenta de apoio ao ensino numa situação em que as próprias universidades demoravam a adaptar-se11.
Entretanto, a maior parte da literatura sobre as LA fora dos cursos de Medicina refere-se a estudos de caso, e não houve, até onde se sabe, trabalhos extensivos abordando a existência de LA em outras graduações em saúde no Brasil, tampouco analisando se a contribuição dessas novas entidades para a formação de profissionais da saúde de diferentes categorias é comparável aos benefícios já reportados entre estudantes de Medicina. Assim, o presente estudo tem como objetivo promover um mapeamento da presença de LA em instituições de ensino (IE) superior públicas e privadas brasileiras e da adesão dos(as) estudantes e profissionais de várias graduações na área da saúde a esse modelo de organização estudantil, analisando a contribuição das LA para a formação acadêmica, responsabilidade social e qualificação profissional de seus membros.
MATERIAIS E MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal e descritivo. Para a realização da pesquisa, utilizou-se um formulário online que foi divulgado, entre fevereiro e outubro de 2024, por meio de e-mails direcionados às IE. O processo de amostragem foi aleatório e voluntário, seguindo a metodologia de snowball, na qual os(as) voluntários(s) são incentivados(as) a compartilhar a pesquisa com outros(as) possíveis participantes. Devido ao método do estudo, assume-se que também ocorreu divulgação via aplicativos de mensagem, redes sociais e outros meios por iniciativa dos(as) participantes envolvidos(as).
Incluíram-se no estudo brasileiros(as) maiores de 18 anos, graduandos(as) de cursos da saúde (Medicina, Biomedicina, Educação Física, Enfermagem, Farmácia ou Farmácia-Bioquímica, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, entre outros) ou graduados(as) há no máximo dez anos. Excluíram-se graduandos(as) e graduados(as) em cursos não relacionados com a área da saúde e profissionais da saúde formados(as) há mais de dez anos. O critério para incluir ou excluir outros cursos inseridos pelos(as) participantes além das opções iniciais passou pela classificação de “área da saúde” seguindo o conceito de One Health (Saúde Única), que analisa as interfaces e relações entre a saúde humana, animal e vegetal14.
Após a apresentação e o aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o(a) participante era apresentado(a) a um formulário dividido em três partes, que avaliava: 1. informações sociodemográficas e educacionais (idade, gênero, estado de residência, autodeclaração étnico-racial, curso de graduação, ano de ingresso e financeamento da IE); 2. conhecimento das LA (sediadas na própria IE ou externas a esta) e adesão a elas; 3. autopercepção sobre os efeitos da participação em LA na sua formação acadêmica, responsabilidade social e qualificação profissional, com campo para comentários e grau de concordância com oito afirmações, mensuráveis por uma escala Likert de 1 a 5: 1 - discordo fortemente, 2 - discordo parcialmente, 3 - não concordo nem discordo, 4 - concordo parcialmente e 5 - concordo fortemente.
Em seguida, realizou-se uma análise exploratória e descritiva dos resultados, com auxílio do software Excel® 2016 habilitado com o suplemento Real Statistics para realização de testes estatísticos. Os gráficos foram produzidos no próprio Excel® 2016.
Para a caracterização das LA, realizou-se o agrupamento em áreas de concentração (normalmente evidenciadas no próprio nome das LA) e uma categorização dessas áreas em eixos temáticos: áreas interdisciplinares (áreas que permitem a atuação conjunta de profissionais médicos e de outras categorias de profissionais da saúde); indústria e tecnologia (áreas ligadas à atuação dos profissionais da saúde na indústria); ciências básicas da saúde (matérias comuns à grade curricular de vários cursos da área da saúde); e especialidades de cada curso de graduação. A classificação das áreas de concentração em cada eixo temático teve como critério o conteúdo programático de disciplinas obrigatórias e eletivas e as portarias curriculares dos respectivos cursos de graduação na universidade sede do estudo, bem como as especializações registradas pelos respectivos conselhos de classe de cada categoria de profissional da saúde até o ano de 2025. Os resultados foram expressos em frequências absolutas e relativas, correspondentes à quantidade de vezes que as LA da referida área de concentração foram mencionadas por um participante do estudo.
Para a determinação da quantidade média das LA citadas por participantes de cada curso, os resultados foram apresentados como média ± desvio padrão. Nessa etapa, realizou-se uma limpeza de dados para maior significância dos resultados, por meio da exclusão de outliers identificados com o método intervalo interquartil (interquartile range - IQR). Foram excluídos os resultados de um participante de Medicina, três de Medicina Veterinária, dois de Biomedicina, um de Farmácia, três de Enfermagem e três de Psicologia.
Para a análise da autopercepção dos(as) participantes sobre as LA, os resultados foram expressos em frequências absolutas e relativas, correspondentes ao resultado marcado por cada participante na escala Likert em cada afirmação. Após a constatação de que os dados seguiam uma distribuição não paramétrica com um teste Kolmogorov-Smirnov a 5%, procedeu-se à análise das diferenças das autopercepções em razão do curso de graduação, com a realização de um teste de Kruskal-Wallis e um teste post hoc de Dunn, a 5% e com correção de Bonferroni. Nessa etapa, consideraram-se apenas os cursos com ao menos três participantes que são ou foram membros de LA (n ≥ 3), a saber: Medicina (n = 8), Biomedicina (n = 15), Enfermagem (n = 12), Farmácia ou Farmácia-Bioquímica (n = 55), Fisioterapia (n = 7), Medicina Veterinária (n = 21), Nutrição (n = 4) e Psicologia (n = 6)
Este estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da faculdade que foi sede do estudo: CAAE nº 75560523.9.0000.0067.
RESULTADO
Obtiveram-se, ao todo, 249 respostas no formulário entre os meses de fevereiro e outubro de 2024. Dessas respostas, duas foram excluídas por virem de participantes que não concordaram com o TCLE ou declararam ser menores de 18 anos; cinco foram excluídas por virem de participantes que não cursam ou cursaram graduações na área da saúde; e cinco foram excluídas por virem de profissionais formados(as) há mais de dez anos. Restaram, portanto, 237 respostas válidas.
Características sociodemográficas e educacionais
Os(as) participantes declararam-se, em sua maioria, mulheres cisgênero (n = 180; 75,9%), brancas (n = 135; 57,0%), entre 18 e 29 anos (n = 219; 92,4%), residentes dos estados de São Paulo (n = 122; 51,5%) e Minas Gerais (n = 25; 10,6%). Frequentavam IE públicas (n = 191; 80,6%) e encontravam-se entre o terceiro e o quarto ano da graduação (n = 89; 37,5%). Os cursos de graduação mais frequentes foram Farmácia ou Farmácia-Bioquímica (n = 79; 33,3%), Biomedicina (n = 36; 15,2%) e Medicina Veterinária (n = 32; 13,5%). A Tabela 1 descreve a caracterização da amostra em relação às características sociodemográficas e educacionais aferidas.
Presença e caracterização das ligas acadêmicas em instituições de ensino superior brasileiras
A maioria dos(as) participantes conhecia o conceito de LA (n = 213; 89,9%), declarando haver quatro ou mais LA sediadas em suas IE (n = 139; 58,6%). Contudo, a maioria dos(as) participantes (n = 181; 76,4%) afirmou não conhecer LA interinstitucionais - isto é, LA com membros na sua IE, mas sede externa a esta. Quanto à divulgação, a maioria dos(as) participantes conheceu as LA por meios digitais, exclusivamente (n = 116; 48,9%).
Em relação às áreas de concentração, no caso das LA sediadas na IE do(a) participante, destacaram-se as LA dedicadas a áreas interdisciplinares (96 menções a 29 áreas de concentração) e especialidades de Medicina (77 menções a 28 áreas de concentração).
A maioria dos(as) participantes é ou foi membro de LA (136; 57,4%), destacando-se, nese caso, LA dedicadas a áreas interdisciplinares (63 menções a 25 áreas de concentração) e especialidades de Medicina (21 menções a 12 áreas de concentração).
Os gráficos 1 e 2 descrevem os eixos temáticos e as quantidades relativas e absolutas de menções a áreas de concentração de cada um deles, para LA sediadas nas IE dos(as) participantes e LA das quais os(as) participantes foram membros, respectivamente.
Quantidade de menções às áreas de concentração de cada eixo temático para as LA sediadas nas IE dos(as) participantes (n = 388 menções).
Quantidades de menções às áreas de concentração de cada eixo temático para as LA das quais os(as) participantes foram membros (n = 180 menções).
Variação no conhecimento das ligas acadêmicas e adesão a elas em cada curso de graduação
Dentre os(as) participantes que conheciam o conceito de LA (n = 213; 89,9%), a média de quantidade de LA citadas por participante foi de 3,9 ± 2,8 sediadas nas suas IE e 1,6 ± 1,0 LA de que foram membros.
Os(as) participantes que cursam ou cursaram Medicina e Enfermagem citaram proporcionalmente mais LA sediadas em suas IE e LA das quais foram membros. A média da quantidade de LA conhecidas nas IE dos(as) participantes e da quantidade de LA das quais o(a) participantes foi membro, em cada curso de graduação, está ilustrada no Gráfico 3. Observe-se que só foram estabelecidas as médias para cursos com um número de participantes igual ou superior a três (n ≥ 3) em cada situação.
Médias da quantidade de LA sediadas na IE do(a) participante e da quantidade de LA das quais o(a) participante foi membro, em cada curso de graduação.
Percepções sobre as ligas acadêmicas
A respeito das afirmações de autopercepção, a maioria dos(as) participantes concordou fortemente que participar das LA contribuiu para: melhorar seu desempenho em matérias da grade curricular do seu curso (53; 39,0%), melhorar a compreensão de matérias da grade curricular do seu curso (55; 40,4%), construir conhecimentos multidisciplinares (103; 75,7%), entrar em contato com estudantes de outros cursos e expandir o próprio conhecimento para outras áreas (71; 52,2%), aprofundar-se em conhecimentos técnicos específicos, que não são ofertados satisfatoriamente pelas disciplinas da grade curricular do seu curso (82; 60,3%), desenvolver competências fundamentais para o mercado de trabalho (54; 39,7%) e desenvolver habilidades importantes para solucionar problemas sociais, ampliando a responsabilidade social (68; 50,0%). Entretanto, a maioria dos(as) participantes não concordou nem discordou que participar das LA facilitou a inserção no mercado profissional na sua área de atuação (55; 40,4%). O Gráfico 4 apresenta o grau de concordância dos(as) participantes com cada uma das oito afirmações apresentadas. O teste Kolmogorov-Smirnov demonstrou que todas as afirmações apresentaram uma distribuição de respostas não paramétrica.
Grau de concordância dos(as) participantes com cada uma das oito afirmações apresentadas (n = 136).
No campo disponibilizado para comentários sobre as impressões e experiências da participação nas LA, foram recebidos 16 comentários sobre aspectos positivos e quatro sobre aspectos negativos. A maioria dos comentários positivos ressalta características como a possibilidade de explorar temas e assuntos não aprofundados durante as disciplinas da graduação, a ampliação da rede de contatos e o aprimoramento do senso de responsabilidade social, do autoconhecimento profissional e das habilidades interpessoais. Os comentários negativos, por sua vez, ressaltam características como repetição dos conteúdos já apresentados em sala de aula (especialmente no caso de LA classificadas no eixo temático “ciências básicas da saúde”), pouco impacto social perante outras entidades (como grêmios estudantis e coletivos sociais), desestruturação, falta de orientação e foco excessivo na socialização dos membros.
Variação nas percepções sobre as ligas acadêmicas em cada curso de graduação
O teste de Kruskal-Wallis demonstrou uma diferença significativa no grau de concordância entre os cursos de graduação apenas para a afirmação nº 8: “Participar de uma Liga Acadêmica me ajudou a desenvolver habilidades importantes para solucionar problemas sociais, ampliando minha responsabilidade social” (H(8) = 17,77; p = 0,023). O teste post hoc de Dunn revelou as seguintes diferenças específicas: variação positiva para a afirmação n° 1 - “Participar de uma Liga Acadêmica contribuiu para melhorar meu desempenho em matérias da grade curricular do meu curso” - entre os (as) participantes graduandos(as) ou graduados(as) em Medicina Veterinária e o total da amostra (p = 0,049), com esse grupo apresentando uma percepção mais positiva em relação à afirmação; variação positiva para a afirmação nº 2 - “Participar de uma Liga Acadêmica contribuiu para melhorar a compreensão de conteúdos de matérias da grade curricular do meu curso” - entre graduandos(as) ou graduados(as) em Psicologia e o total da amostra (p = 0,035), com esse grupo atribuindo maior benefício à participação em LA nesse aspecto; e variação negativa para a afirmação n° 8 - “Participar de uma Liga Acadêmica me ajudou a desenvolver habilidades importantes para solucionar problemas sociais, ampliando minha responsabilidade social” - entre graduandos(as) ou graduados(as) em Medicina Veterinária e o total da amostra (p = 0,046), indicando uma pior avaliação dessa categoria em relação à contribuição das LA para a competência avaliada.
DISCUSSÃO
O perfil sociodemográfico dos(as) participantes, com prevalência de mulheres brancas, jovens e cisgênero, condiz com o de diversos estudos que coletaram essas características entre estudantes de cursos da área da saúde nos últimos anos15)-(17. Contudo, o percentual acentuado de participantes de determinados cursos em relação aos demais, como Farmácia e Biomedicina, e residentes dos estados de São Paulo e Minas Gerais, provavelmente se deve à metodologia de amostragem em snowball. Já foi reportado que essa metodologia, conquanto seja uma boa alternativa para recrutamento de participantes de nichos distantes dos(as) pesquisadores, está sujeita a variações em cada nicho estudado devido a diferentes padrões de engajamento e contribuição para a divulgação da pesquisa18. Para impedir o enviesamento dos resultados, a literatura recomenda o estabelecimento de múltiplos pontos iniciadores fora do nicho inicial19, o que foi feito, no caso deste estudo, dando-se preferência à divulgação por e-mail para diversas IE de todas as regiões do país. Não se pode desconsiderar, porém, a possibilidade de que os resultados de participantes de determinados nichos estejam superestimados.
Os resultados da mensuração da presença de LA em instituições de ensino superior brasileiras demonstram que esse modelo de entidade, já consolidado em cursos de Medicina20, se encontra também bem disseminado por diversas outras graduações da área da saúde em todas as regiões do país. Além disso, o notório percentual de participantes que alegaram ter conhecido as LA por meios exclusivamente digitais confirma a recente tendência das LA à digitalização e adesão às redes sociais11),(13. Já em relação às áreas de concentração, embora a grande quantidade de menções a especialidades de Medicina seja um resultado esperado tendo em vista o histórico dessas entidades - com exemplos em cursos de Medicina que datam de 192021) -, a presença de áreas interdisciplinares como eixo temático com mais menções acumuladas demonstra o grande potencial dessas organizações para proporcionar experiências integrativas ao longo do processo de ensino-aprendizagem22, permitindo a integração e troca de conhecimentos entre diferentes categorias de profissionais da saúde, bem como o contato antecipado com os desafios da prática clínica, que muitas vezes requerem a atuação de equipes multiprofissionais23. Dessa forma, a expansão das LA pode permitir a graduandos(as) de diferentes áreas da saúde o aprimoramento não só de aspectos profissionais ou acadêmicos, mas também da formação cidadã, a partir do desenvolvimento do senso crítico e da responsabilidade social1.
Em comparativo com a literatura recente, os resultados alinham-se com o estudo publicado por Gonsalves et al.7 em 2024, que conduziram uma revisão sistemática de 74 artigos relacionados às LA na área da saúde nas últimas duas décadas, constatando que são bem diversificadas e distribuídas por várias áreas de concentração. Quantitativamente, Goergen et al.24) também relataram que estudantes de Medicina de uma universidade do Rio Grande do Sul participam, em média, de 3,56 ± 1,55 LA ao longo da graduação - valor razoavelmente próximo à média de 2,7 ± 1,4 encontrada para graduandos(as) ou graduados(as) em Medicina neste estudo.
A concordância com as afirmações relacionadas ao impacto positivo das LA em diferentes aspectos da formação (acadêmicos, profissionais e sociais) demonstra, mais uma vez, o seu potencial como ferramentas integradoras de ensino, pesquisa e extensão, e estimuladoras do aprendizado ativo3),(4) - dessa vez, com resultados que permeiam diversos cursos de graduação cujas LA não haviam sido estudadas tão a fundo como as de Medicina. Destacadamente, a concordância com afirmações referentes à atuação profissional demonstra a capacidade de as LA atuarem como antecipadoras das vivências profissionais, permitindo uma formação interdisciplinar orientada aos desafios da profissão25. O único resultado destoante, nesse sentido, é o grau de concordância mais baixo em relação à facilitação da inserção no mercado de trabalho, que pode estar ligado às dificuldades da empregabilidade contemporânea, passando por fatores como escassez de postos de trabalho qualificados e supervalorização da experiência prévia na função como fator de seleção26.
Por sua vez, a variação das autopercepções em razão do curso de graduação e os comentários negativos sobre as LA do eixo temático “ciências básicas da saúde” são indícios de que as LA voltadas sumariamente à especialização, sem tanto impacto na formação cidadã ou na interdisciplinaridade (como já reportado em alguns cursos de Medicina27), podem também já ser um fenômeno presente em outros cursos da área da saúde, tais como Medicina Veterinária. No entanto, não se pode descartar que as variações percebidas (ou a ausência delas) sejam devidas ao tamanho reduzido da amostra para alguns cursos de graduação, bem como ao risco de erro tipo I em múltiplas comparações, devendo ser interpretadas com cautela. Dessa forma, seriam necessários estudos específicos para cada grupo e com maior número de participantes para fornecer evidências conclusivas e significativas. Deve-se ressaltar, nesse contexto, que o crescimento e a diversificação das LA entre os(as) estudantes de Medicina já motivaram discussões, inclusive, sobre a sua regulamentação28, mostrando a importância de um diálogo entre estudantes, IE e sociedade para o devido funcionamento das LA como ferramenta de extensão também em outros cursos ligados à área da saúde.
CONCLUSÕES
Este estudo apresenta, de maneira inédita, resultados qualitativos e quantitativos referentes à presença de LA em IE brasileiras e à participação e às percepções de estudantes de diversos cursos da área da saúde nessas organizações.
Verificou-se que o conceito de LA é conhecido por estudantes de vários cursos da área da saúde e estados do país. A participação em LA também se mostrou expressiva, com destaque para áreas interdisciplinares e especialidades de Medicina. Com relação à contribuição das LA para a formação acadêmica, responsabilidade social e qualificação profissional dos(as) participantes, aferida por meio de suas próprias autopercepções, observaram-se efeitos benéficos para a maioria das situações (embora com alguma variação para os efeitos na responsabilidade social decorrentes do curso de graduação avaliado), evidenciando que o papel das LA como ferramenta de integração entre pesquisa, ensino e extensão, já longamente estudado entre graduandos(as) de Medicina, possivelmente se repete na formação de várias outras categorias profissionais - bem como os desafios atrelados à devida organização e supervisão desse modelo de entidade estudantil.
Por fim, como perspectivas futuras, um tópico de discussão que cabe ser explorado, em complemento à análise aqui realizada, é o mapeamento sob um olhar institucional das LA, considerando as métricas oficiais das próprias equipes administrativas sobre a presença de LA em suas IE e alcance entre os(as) estudantes, bem como percepções e considerações que possam ser trazidas pelos corpos docentes e administrativos. Ademais, discussões aprofundadas também devem ser realizadas a respeito dos impactos das LA e das iniciativas para sua regulamentação em cada um dos diferentes cursos da área da saúde, com o propósito de aprofundar o entendimento sobre cenários específicos e preservar os objetivos primários desse modelo de organização estudantil essencial para a extensão acadêmica e a educação interdisciplinar de profissionais da saúde.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem a todos(as) os(as) voluntários(as) que responderam ao formulário e ajudaram com a sua divulgação, possibilitando a realização deste estudo.
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Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.







Fonte: Elaborado pelos autores.
