Introdução: Embora a influência da negritude tenha sido incontestável para a atual conformação populacional do Brasil, as relações étnico-raciais são pouco ou quase nada discutidas em ambiente educacional. No contexto da medicina, por exemplo, a população negra é invisibilizada em diversos aspectos do currículo em saúde, uma vez que a sua representatividade na bibliografia médica é escassa e as disciplinas que abordam o tema são insuficientes ou facultativas.
Objetivo: Este estudo teve como objetivo avaliar a percepção de estudantes de Medicina sobre o acesso à educação étnico-racial na formação médica.
Método: Trata-se de um estudo transversal, de abordagem descritiva e quantitativa, com coleta de dados feita a partir de um questionário digital, semiestruturado e autoaplicável, desenvolvido pela equipe pesquisadora com base em estudos anteriormente publicados e no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. A população do estudo foi composta por estudantes de Medicina que indicaram a sua percepção quanto à abordagem racial durante os diferentes cenários de aprendizagem do curso médico. As informações coletadas foram revisadas, tabuladas, analisadas e submetidas ao software R versão 4.0.0 para a obtenção de números absolutos e relativos. Observou-se a Resolução nº 510/20616 do Conselho Nacional de Saúde, e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética sob o Parecer nº 6.001.343.
Resultado: Participaram da pesquisa 330 estudantes, com média de idade de 23 anos e predominância do sexo feminino (66%). Quando questionados, 57,9% afirmaram reconhecer parcial ou totalmente a presença das pautas étnico-racial nas discussões dos grupos tutoriais, 50,9% dos participantes negaram perceber discussões relativas aos aspectos étnico-raciais nas atividades laboratoriais do ciclo básico, enquanto 50,9% e 82,4% reconheceram, respectivamente, a existência de uma abordagem racial nos ambulatórios de ensino e nas práticas de atenção primária à saúde. Em relação à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, 59,1% da amostra afirmou ter entrado em contato com o documento ao longo da graduação.
Conclusão: A percepção dos estudantes de Medicina sobre o acesso à educação étnico-racial se mostrou variável conforme o cenário da graduação, sendo mais expressiva em contexto de atenção primária à saúde.
Palavras-chave:
Currículo; Educação Médica; Fatores Raciais; Origem Étnica; Saúde