Open-access Limitações metodológicas no uso de dados sobre escolas médicas federais do Programa Mais Médicos

Prezada Editora,

O artigo “Programas de desenvolvimento ou de provimento docente? Retrato das escolas federais do Programa Mais Médicos”1) aborda tema relevante ao discutir programas de desenvolvimento docente nas escolas médicas federais criadas no âmbito do Programa Mais Médicos (PMM). Após sua leitura, apontamos limitações metodológicas no texto que julgamos pertinentes para qualificar o debate sobre o tema e assegurar maior precisão nos registros sobre essas escolas médicas.

Primeiramente, chama a atenção que a principal base empírica do estudo seja o Painel da Educação em Saúde do Ministério da Educação2, cuja versão pública registra como última atualização a data de 16 de abril de 2024. Essa defasagem, por si só, restringe sua utilização como fonte única para caracterizar a situação dos cursos analisados. Como consequência, ficam comprometidas conclusões que dependem diretamente da atualidade dos dados, como o status de reconhecimento dos cursos e a oferta efetiva de vagas.

Um exemplo ilustrativo é o curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sediado em Caicó, que aparece no artigo como “não reconhecido”, embora tenha obtido reconhecimento em abril de 2023, informação disponível no sistema e-MEC3, base oficial e atualizada sobre cursos superiores no país. Situação semelhante ocorre com outros cursos, como os da Universidade Federal do Vale do São Francisco (campus Paulo Afonso) e da Universidade Federal de Alagoas (campus Arapiraca), que, à época da submissão do manuscrito (dezembro de 2024), também já se encontravam reconhecidos. Uma consulta sistemática ao e-MEC e às páginas institucionais teria evitado tais inconsistências.

Essas imprecisões têm impacto relevante na narrativa construída no artigo. Ao omitir o reconhecimento e os bons resultados obtidos por diversas escolas em processos avaliativos oficiais, o texto deixa de evidenciar um dos achados mais expressivos da política de expansão vinculada ao PMM: o fato de que muitos dos novos cursos federais alcançaram conceitos elevados em pouco tempo de funcionamento. Os próprios autores afirmam, no item “Material e método”, que, “para o melhor detalhamento das atividades, analisaram-se outras publicações nos espaços institucionais (documentos, portarias, sites)”. Contudo, uma busca simples em plataformas públicas - inclusive nos próprios registros oficiais e nos canais institucionais - permite identificar prontamente notícias e informações amplamente divulgadas sobre o reconhecimento desses cursos. Isso reforça a presença de limitações metodológicas no artigo e aponta para a necessidade de maior rigor na checagem e na triangulação das fontes utilizadas.

Ainda que o artigo reconheça brevemente a limitação quanto à disponibilidade de dados, a opção metodológica de basear a totalidade da análise em informações potencialmente desatualizadas impacta diretamente a validade das inferências apresentadas. Esse ponto mereceria tratamento mais cuidadoso, uma vez que o painel do MEC2 é uma base dinâmica, sujeita a revisões e atualizações frequentes.

No que se refere ao número de vagas discentes e de cargos docentes e técnico-administrativos, os autores associam os déficits observados principalmente a “concursos em andamento” e à “perda de códigos de vaga para outros cursos”, afirmando que esses códigos, uma vez perdidos, “não serão recuperados pelos cursos de Medicina já em funcionamento”. Essa inferência não condiz com o funcionamento real da gestão de pessoal nas universidades federais, que gozam de autonomia administrativa para gerenciar e redistribuir vagas entre cursos, conforme suas necessidades acadêmicas e demandas estratégicas. Portanto, considerações desse tipo exigem maior contextualização e diálogo com as realidades institucionais, sob pena de transmitirem ao leitor interpretações simplificadas sobre processos administrativos complexos.

Da mesma forma, merece ponderação a inferência que diz respeito à suposta “falta de profissionais qualificados nas localidades” como explicação central para a ausência de programas de desenvolvimento docente. Ainda que a interiorização das escolas efetivamente imponha desafios de provimento e desenvolvimento docente4, a escassez de programas estruturados de formação pedagógica é fenômeno amplamente documentado também em escolas médicas tradicionais, com longa trajetória institucional e corpo docente estável. É do conhecimento geral que se trata de um desafio sistêmico da educação médica brasileira, mais do que de uma peculiaridade das escolas criadas pelo PMM. Atribuir o problema predominantemente à condição geográfica e ao suposto déficit de qualificação, além de carecer de respaldo empírico e análise contextual, pode reforçar interpretações estigmatizantes sobre regiões historicamente menos favorecidas.

Outras inconsistências pontuais também merecem registro. No gráfico 1, o artigo aponta um déficit em relação à totalidade de vagas e cita o caso do estado do Amazonas, afirmando que, apesar de possuir “quase” 50 vagas autorizadas (número real é 48), não houve oferta. Essa informação não corresponde à realidade, pois houve oferta de vagas no curso de Medicina de Coari (Universidade Federal do Amazonas), porém a entrada de estudantes foi provisoriamente suspensa por determinado período, já tendo sido retomada por ocasião da submissão do artigo. Da mesma forma, o artigo menciona que o Rio Grande do Norte apresentaria déficit de 40 vagas ofertadas, sem explicar que esse número se refere à previsão inicial de abertura de três cursos (Caicó, Mossoró e Assu), dos quais apenas dois foram implementados. A ausência da descrição de todas as cidades-sede dos cursos na tabela 1 dificulta a compreensão desse cenário, visto que esses detalhes são fundamentais para a precisão analítica de um estudo dessa natureza.

O título do artigo também merece reflexão crítica. Ao contrapor “programas de desenvolvimento ou de provimento docente”, sugere-se uma dicotomia que pode induzir à interpretação de que as escolas analisadas teriam investido prioritariamente em políticas de provimento, em detrimento do desenvolvimento docente, o que não encontra respaldo na própria base empírica apresentada. Essa formulação, reforçada pelo resumo, induz o leitor a uma visão enviesada e depreciativa das instituições, reproduzindo um estigma que historicamente acompanha as escolas médicas oriundas do PMM - frequentemente vistas com desconfiança quanto à sua qualidade -, o que reflete, em parte, resistências estruturais à própria política do PMM. A redação do resumo reforça essa leitura ao destacar apenas aspectos negativos - ausência de programas estruturados e suposta falta de profissionais qualificados -, sem equilibrar a análise com as experiências exitosas oriundas de várias dessas instituições. Isso empobrece o debate e contribui inadvertidamente para a manutenção de uma visão hierarquizada e assimétrica entre as escolas médicas brasileiras.

Cabe lembrar que tais cursos foram planejados e implementados em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais, incorporando metodologias centradas no estudante, integração ensino-serviço-comunidade e educação baseada em competências. É, portanto, inconsistente supor que essas transformações tenham ocorrido sem o devido investimento em desenvolvimento docente.

Por fim, análises sobre as novas escolas médicas federais demandam sensibilidade contextual e diálogo com os sujeitos que as constroem cotidianamente. A máxima frequentemente utilizada em debates sobre representatividade - “Nada sobre nós sem nós” - parece adequada aqui: compreender o impacto do PMM na formação médica exige escutar gestores, docentes, estudantes e parceiros dos serviços de saúde dessas instituições. A ausência de tal perspectiva pode levar a inferências distorcidas ou incompletas sobre a relevância e a contribuição dessas escolas para a formação médica no país.

Reforçamos o reconhecimento da relevância do tema e do esforço dos autores em sistematizar dados sobre as escolas federais do PMM. Ao mesmo tempo, esperamos que as considerações aqui apresentadas contribuam para qualificar futuras análises, estimulando o uso de fontes de dados atualizadas, a triangulação de informações e a valorização da diversidade de contextos e conquistas que marcam a recente expansão da educação médica federal no Brasil.

REFERÊNCIAS

  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor associado:
    Fernando Almeida.

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Dez 2025
  • Aceito
    04 Fev 2026
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