Introdução: A escravidão deixou desigualdades que ainda afetam o acesso à saúde e à educação. No curso de Medicina, ações afirmativas ampliaram o acesso, mas persistem desafios de permanência e legitimação dos estudantes negros e indígenas no meio acadêmico.
Objetivo: Este estudo teve como objetivo compreender, na perspectiva da aprendizagem colaborativa, situações de discriminação étnico-racial e estratégias de enfrentamento do racismo no ensino médico.
Método: Trata-se de um estudo qualitativo com abordagem etnográfica que utilizou a observação participante e o grupo focal para coletar informações sobre as situações de discriminação étnico-racial e as estratégias de enfretamento do racismo na medicina. Foram realizadas três vivências acadêmicas, nas quais os participantes registraram em papéis-cartões suas experiências e propuseram soluções, com duração aproximada de uma hora cada. Reuniram-se 33 participantes, sendo 16 autodeclarados pardos ou pretos e dois indígenas das etnias Mundurucu e Borari. A análise e interpretação dos relatos seguiram os pressupostos teóricos da aprendizagem colaborativa, utilizando a técnica de análise temática de Minayo. O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos: Parecer nº 5.736.372.
Resultado: Evidenciaram-se formas sutis de racismo, marcadas pela naturalização da discriminação e pela lógica da negação, manifestadas por meio de microagressões, negação de identidades, dificuldades de ocupação e circulação em espaços médicos, além da reprodução de imagens estereotipadas sobre pessoas negras e indígenas. Em contrapartida, destacaram-se estratégias individuais e coletivas de enfrentamento, como a denúncia e o estímulo ao diálogo antirracista, a educação para relações étnico raciais, a aplicação de punições legais e a conscientização da população sobre o significado de ser negro ou indígena.
Conclusão: O racismo ainda permeia o ambiente universitário e de saúde, impactando negativamente a vivência de estudantes negros e indígenas. Ao mesmo tempo, aponta caminhos de resistência que reafirmam a importância das ações afirmativas, da consciência racial e da transformação na educação médica. Conclui-se que é imprescindível integrar o debate étnico-racial na formação em saúde, a fim de promover uma educação inclusiva e socialmente comprometida.
Palavras-chave:
Discriminação racial; Medicina social; Equidade; Educação médica