Open-access Residência médica entre práticas e políticas educacionais: o papel do grupo de trabalho da Abem

RESUMO

Introdução:   A residência médica (RM) no Brasil é reconhecida como forma preferencial na formação de especialistas. Apesar de sua relevância, ainda há pouca pesquisa sobre o tema no universo da produção acerca da educação médica. Diante dos desafios atuais, a Abem criou em 2024 um grupo de trabalho (GT) de RM que desenvolveu o I Fórum de Residência Médica.

Relato de experiência:   O Fórum de Residência Médica, realizado durante o 63º Cobem, reuniu participantes em grupos temáticos para construir imagens-objetivo sobre eixos estruturantes da RM, como acesso, saúde mental, avaliação e governança, consolidando propostas validadas coletivamente.

Discussão:   Destacaram-se desafios como a distribuição desigual de vagas, o adoecimento de residentes, a avaliação dos programas e o fortalecimento da CNRM. Políticas como o Pró-Residência, o Enare e o Programa Mais Médicos contribuíram parcialmente para ampliar o acesso.

Conclusão:   Apesar dos avanços nas políticas públicas para a RM, persistem desafios estruturais. A criação de um Sistema Nacional de Residências em Saúde é proposta como estratégia para fortalecer a formação de especialistas no SUS. Nesse contexto, o GT da Abem se consolida como espaço essencial de reflexão, produção científica e apoio à formulação de políticas públicas.

Palavras-chave:
Internato e Residência; Educação Médica; Associações Profissionais; Advocacia em Saúde

ABSTRACT

Introduction:   Medical residency in Brazil is recognized as the preferred pathway for specialist training. Despite its relevance, research on the topic remains limited within the broader field of medical education. In response to current challenges, ABEM established a Medical Residency Working Group in 2024, which led to the development of the Association’s First Medical Residency Forum.

Experience Report:   Held during the 63rd COBEM, the Medical Residency Forum brought together participants in thematic groups to build objective-images around key pillars of residency training, such as access, mental health, evaluation, and governance, resulting in collectively validated proposals.

Discussion:   Key challenges identified included unequal distribution of residency slots, resident burnout, program evaluation, and the strengthening of the CNRM. Policies like Pró-Residência, ENARE, and the Mais Médicos Program contributed partially to expanding access.

Conclusion:   Despite progress in public policies for medical residency, structural challenges remain. The creation of a National System of Health Residencies is proposed as a strategy to enhance specialist training for the SUS. In this context, ABEM’s working g roup stands as a vital space for reflection, scientific production, and support in shaping public policies.

Keywords:
Internship and Residency; Education, Medical; Societies; Health Advocacy

INTRODUÇÃO

A residência médica (RM) tem sua origem nos Estados Unidos, no fim do século XIX, para treinamento de cirurgiões. No Brasil, é inaugurada na década de 1940, em serviços no Rio de Janeiro e em São Paulo. Contudo, seu processo organizativo a partir do Estado se dá apenas em 1977, quando então é criada a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM)1.

Em 1981, é promulgada a Lei nº 6.932, considerada a mais importante para a RM no país2. Essa lei afirma o caráter de pós-graduação, caracterizando-a como treinamento em serviço, e cria a exclusividade de credenciamento desse modelo para a CNRM3.

Desde o decreto de criação da CNRM, as decisões no âmbito da comissão e que repercutem sobre toda a RM do país são tomadas por um colegiado composto por setores do governo e entidades médicas. A Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) integra a composição da CNRM desde sua criação em 19774),(5.

Reconhecida como referência na formação de especialistas, a RM consolidou-se como um modelo de excelência (padrão ouro) na pós-graduação em saúde6. Apesar de sua ampla adoção e valorização, ainda são limitadas as investigações sistemáticas que avaliem com rigor a qualidade dessa modalidade e os efeitos da diversidade organizacional entre os diferentes programas de residência médica (PRM).

A título de exemplificação da nossa escassa produção científica sobre RM, a Revista Brasileira de Educação Médica (Rbem), principal periódico do Brasil sobre educação médica e existente desde 1978, possui desde sua criação 112 artigos relacionados diretamente à residência. Isso significa 4,61% das 2.429 publicações entre 1978 e 2025, dados esses levantados a partir dos títulos das publicações na Rbem disponíveis na Scientific Electronic Library Online (SciELO). Vale ressaltar ainda que 81,25% das publicações na Rbem sobre residência se concentram nos últimos 15 anos.

Faz parecer, então, que a RM merece espaço para ampliação de reflexões científicas e políticas, sobretudo com a tendência de mudança na graduação em Medicina no Brasil, o que é caracterizado por abertura ampla de escolas médicas7, mudança do perfil de estudantes que acessam o ensino superior8, endividamento estudantil9 e ampliação das pós-graduações lato sensu não residência10.

A formação de médicos especialistas no Brasil apresenta gargalos e distribuição iníqua, justificada inclusive por políticas públicas específicas como a recente criação do Programa Agora tem Especialistas11. Existe ainda uma tendência apontada no último estudo da Demografia médica que demonstra certa convergência entre diversos setores (governo, entidades médicas e especialistas em educação médica) de que a RM é a principal e mais adequada estratégia para formação de especialistas. Contudo, ela ainda enfrenta problemas históricos, como excessivas cargas horárias, baixa remuneração e discrepância entre o número de egressos dos cursos de Medicina (que tem aumentado) e de vagas para ingresso na RM, que não seguem a mesma proporção10.

Dessa realidade, surge a necessidade de ampliar dentro da Abem a agenda da RM, e, por isso, a partir de oficinas e encontros realizados entre 2022 e 2023, cria-se um grupo de trabalho (GT) de RM da Abem, com o objetivo de ampliar a visibilidade e produção político-científica na entidade sobre temática tão cara à educação médica. O GT de RM é oficializado em 2024 e, desde então, tem produzido reflexões, contribuições, posicionamentos e diretrizes para a RM brasileira.

No Congresso Brasileiro de Educação Médica (Cobem) de 2025, é realizado então o I Fórum de Residência Médica da Abem, com a intenção de produzir sínteses sobre os grandes eixos da RM. O objetivo deste trabalho é relatar a construção e o produto final desse fórum.

RELATO DA EXPERIÊNCIA

O GT de RM da Abem é composto de educadores, educandos e gestores que possuem vínculo associativo com a entidade e apresentam desejo pela discussão do tema. A estrutura organizativa dos GT na Abem é algo novo, tendo sido regulamentada a partir de março de 2023 pelo regimento geral da entidade. Passa a ser oficializada, então, a possibilidade de composição de grupos temáticos para o aprofundamento e a produção de estudo sobre as temáticas ou os eixos específicos da educação médica12.

A organização do grupo de trabalho e suas ações

A iniciativa para a ampliação das reflexões sobre RM na Abem nesse período mais recente teve como marco inicial a oficina “Residências médicas no Brasil: construindo um diagnóstico inicial e entendendo o papel da Abem”, realizada em 2022, no Cobem de Foz de Iguaçu. Nesse encontro, os objetivos eram elencar desafios centrais e estruturantes das RM e levantar estratégias de atuação para a Abem. Em uma etapa inicial, foi construída uma nuvem de palavras a partir da seguinte pergunta: “Quais são os principais desafios que precisamos enfrentar para construir uma residência médica de qualidade e socialmente referenciada no Brasil?” (Figura 1).

Figura 1
Nuvem de palavras - oficina “Residências médicas no Brasil”.

Essa nuvem norteou o desenvolvimento da oficina, em que se destacaram os seguintes aspectos: acesso, quantidade e distribuição de vagas de RM, regulação do exercício profissional da medicina, formação de preceptores, currículo e avaliação. Da oficina emergiu um conjunto de ações, como a constituição do GT e seu fortalecimento.

Ao longo dos anos seguintes, o GT teve a oportunidade de contribuir para a construção da Política Nacional de Residências em Saúde (PNRS), de posicionar-se em relação à mudança da composição da CNRM em 2024 e de realizar encontros mensais temáticos online em parceria com o SIG Colaborativo em Educação Médica da Rede Universitária de Telemedicina (Rute).

Preparação e metodologia do Fórum de Residência Médica

Ao longo de 2025, organizou-se então o primeiro Fórum de Residência Médica da Abem, com o objetivo de construir sínteses sobre os eixos estruturantes da RM, os quais foram elaborados a partir de reflexões oriundas de todas as produções anteriores do GT.

O fórum aconteceu no 63º Cobem sem a necessidade de inscrições prévias, com a participação de 30 pessoas. Além de uma conferência de abertura sobre “educação pelo trabalho”, os participantes foram convidados a trabalhar em pequenos grupos distribuídos de maneira aleatória, respeitando a proporcionalidade de residentes e não residentes em cada grupo. Entre os participantes, havia oito residentes, quatro gestores e 22 docentes/preceptores: 16 mulheres cis e 14 homens cis. Não se registraram a origem regional dos participantes nem sua autodeclaração de raça/cor. Cada grupo deveria construir uma imagem-objetivo13, ou seja, a representação clara de um cenário ideal que se busca alcançar sobre determinado eixo da RM. As imagem-objetivo deveriam ter características como clareza, ser motivadora, realista, ambiciosa e consensual. Cada um dos eixos recebeu ainda um conjunto de perguntas disparadoras de maneira a facilitar o debate e a reflexão (Quadro 1).

Quadro 1
Eixos e perguntas disparadoras de pequenos grupos.

O processo de trabalho ocorreu a partir da seleção de um relator entre os participantes do pequeno grupo que realizaria a síntese e relatoria da discussão, produzindo assim a imagem-objetivo mediante registro em folha de flipchart. A síntese deveria ser validada por consenso dos participantes daquele grupo. A posteriori, todas as produções do grupo foram avaliadas em plenária com a presença de todos os participantes, cabendo às pessoas que não estavam inicialmente naquele grupo propor mudança, validar ou suprimir as ideias presentes na síntese realizada. O consenso foi a estratégia de mediação utilizada, não cabendo nas imagens-objetivo ideias que não fossem validadas por todos os participantes.

Essa estratégia do fórum, embora privilegie consensos como estratégia de medicação e equilíbrio de vozes nos grupos, depara-se com limites importantes, como o desafio da representatividade de uma relatoria única, a possibilidade de o consenso invisibilizar prováveis divergências oportunas para o processo de discussão, o tempo limitado para negociação, o limite do número de participantes e a desproporção entre categorias. Cabe ainda ressaltar que, por se tratar de um espaço aberto - nesse caso, a adesão a um evento amplo de discussão de educação médica não exigia inscrição prévia -, há um possível viés na representatividade do grupo, favorecendo participantes engajados na temática ou já alinhados a essa agenda de discussão da residência.

Produto final dos pequenos grupos validados pelo fórum

O trabalho em pequenos grupos permitiu uma discussão mais aprofundada dos eixos e a estruturação das ideias a partir de relatórios para que fossem validadas ao fim com todos os participantes do fórum. A seguir, apresenta-se o conjunto final de imagens-objetivo construídas no I Fórum de Residência Médica.

Eixo 1

Acesso à residência e permanência nela (universalização, fixação de especialistas e terminalidade do curso de medicina)

É necessário caminhar para um modelo em que o acesso à residência é universal, justo e conectado às reais necessidades do país. Todo egresso do curso de Medicina deve encontrar uma vaga de residência garantida, em um modelo que reconhece a residência como etapa essencial da formação médica - e não como algo restrito e opcional.

Dessa maneira, o número de vagas precisa acompanhar o número de formandos, com distribuição estratégica e equitativa, mediada por políticas públicas que articulam as demandas locais com a oferta de vagas. O Exame Nacional de Residência (Enare) pode se consolidar como um programa de seleção nacional único, promovendo equidade e transparência, com critérios claros e democráticos para ingresso e alocação.

A RM precisa se tornar parte de um plano de carreira estruturado, com políticas de permanência que incluam incentivos financeiros, complementação da bolsa conforme o território e a especialidade, além de melhores condições de trabalho. O residente deve ser estimulado a atuar em regiões com menor infraestrutura por meio de estratégias de fixação que vão além da obrigação - com suporte, reconhecimento e perspectiva de crescimento na carreira.

As escolas médicas devem assumir papel ativo na gestão das vagas, integrando seus processos avaliativos ao modelo de ingresso e promovendo maior justiça social, com ações afirmativas. Deve haver maior integração e diálogo, via CNRM, de gestores nacionais, estaduais e municipais, de modo a fortalecer a formação em rede.

Nesse horizonte, o acesso à RM deixa de ser um funil excludente e se transforma em uma ponte sólida entre formação e atuação, cabendo um papel mais intenso do Estado por meio de seus órgãos colegiados e atuação de todos os entes federados na regulação do acesso.

Eixo 2

Saúde mental na residência médica

Um futuro em que os PRM reconheçam e valorizem a saúde mental como um pilar essencial da formação profissional. Os residentes devem ser acolhidos desde o primeiro dia, com suporte para adaptação geográfica, emocional e financeira - incluindo acesso facilitado à assistência e permanência, como o auxílio-moradia e transporte.

Sendo assim, a residência precisa se estruturar de maneira a fortalecer o papel do residente na gestão do programa, com canais abertos e seguros para escuta e denúncia, enfrentando com firmeza as opressões estruturais como racismo, LGBTQIAPN+fobia, assédio moral e sexual. Os fluxos institucionais devem ser claros, acessíveis e respaldados por manuais que orientem condutas e garantam proteção.

A carga horária dos programas precisa ser compatível com a vida: permitir conciliar trabalho, estudo e vida pessoal - inclusive maternidade, cuidados familiares e descanso. A bolsa de residência precisa ser revista e ajustada à realidade do mercado de trabalho médico, evitando que a residência se torne um fardo financeiro.

A saúde mental deve ser promovida por meio de linhas de cuidado específicas, grupos de acolhimento e acompanhamento individualizado. Os programas precisam realizar avaliações e perfis de ingresso dos residentes rotineiramente. Os preceptores precisam de valorização com incentivos e formação continuada, preparando-os para exercer com responsabilidade e empatia seu papel educador.

Por fim, as Comissões Estaduais de Residência Médica (Cerem) devem ser fortalecidas e as reflexões sobre saúde mental do residente precisam ser institucionalizadas nos órgãos regulatórios e de acompanhamento, garantindo adequação dos programas a um cenário que possa valorizar o cuidado do residente.

Eixo 3

Avaliação dos residentes e dos programas de residência médica

A RM precisa valorizar a avaliação como instrumento de cuidado e aprimoramento - e não como punição ou exclusão. Um modelo em que residentes, preceptores e programas sejam avaliados de forma contínua, transparente, com critérios construídos coletivamente e alinhados às práticas reais do serviço. Cada RM deve possuir um plano de avaliação estruturado que contemple:

  • Autoavaliação dos programas, com escuta ativa dos residentes, preceptores, gestores e usuários do SUS.

  • Critérios claros e públicos que consideram não apenas o desempenho técnico, mas também aspectos éticos, relacionais e pedagógicos realizados de maneira oportuna e permanente.

  • Instrumentos diversificados, como portfólios reflexivos, avaliações formativas, feedbacks estruturados, indicadores de qualidade assistencial, entre outros.

O Teste de Progresso pode se consolidar como ferramenta nacional de acompanhamento longitudinal da formação, permitindo que residentes, programas e gestores compreendam o desenvolvimento do conhecimento ao longo do tempo. Ele deve ser construído com base em práticas confiáveis, com a participação das sociedades científicas e dos próprios residentes.

As autoavaliações precisam contemplar critérios gerais para todos os programas, como: infraestrutura, contratualização com cenário de prática, planejamento pedagógico, avaliação, suporte ao residente e preceptor, política para desenvolvimento e carreira de preceptores, controle social e cumprimento das normas e diretrizes da CNRM, além de critérios específicos para cada especialidade e campo de prática.

A avaliação precisa deixar de ser um mecanismo de controle vertical e se transformar em um processo horizontal, ético e transformador - capaz de fortalecer a formação na residência e proteger os profissionais e usuários.

Eixo 4

Fortalecimento de órgãos e mecanismos de controle da residência

Propomos um sistema de RM no Brasil que seja coordenado por órgãos fortalecidos, articulados e comprometidos com a qualidade da formação, a equidade no acesso e a escuta ativa dos diversos agentes envolvidos. Um modelo em que a CNRM, as Cerem e os PRM atuem com autonomia, representatividade e capacidade técnica para garantir que cada programa de residência funcione com compromisso social.

Nesse cenário, os órgãos reguladores são capazes de enxergar a diversidade dos programas e das realidades locais, protegendo-os dos interesses corporativos e assegurando que a formação na residência esteja voltada para as necessidades do SUS. As políticas públicas devem ser construídas com base em indicadores sociais, respeitando os territórios e promovendo estratégias de provimento que incentivem a atuação de especialistas em regiões historicamente desassistidas.

A matriz de competências é reformulada com base em práticas efetivas, dialogando com as realidades dos serviços, para além das sociedades de especialidade. A formação precisa ser contínua, com instrumentos avaliativos confiáveis e participativos - como o Teste de Progresso - que acompanham o desenvolvimento desde o início do programa e permitem ajustes pedagógicos ao longo do percurso.

A organização da RM deve deixar de ser fragmentada e passar a ser integrada, transparente e voltada para o fortalecimento do SUS. Os mecanismos de controle se tornam instrumentos de cuidado e não de punição, promovendo a escuta das comunidades, a valorização dos profissionais e a construção de projetos pedagógicos comprometidos com o sistema de saúde.

DISCUSSÃO

A organização de um Fórum de Residência nasce a partir da ideia de “primeiros passos”, ou seja, um espaço inicial de proposição de contribuições às discussões da RM que tem o caráter provisório e precisa ser sempre revisitado no processo de reflexão acerca das políticas públicas.

Entre as imagens-objetivo apontadas pelo Fórum de Residência, alguns aspectos necessitam de especial atenção, destacando-se a discussão do acesso à RM no país, bem como sua distribuição de vagas e universalização. É importante situar que, ao longo das últimas décadas, foram criadas estratégias na perspectiva de interferir na distribuição iníqua das vagas de RM pelo Brasil.

O Programa Nacional de Apoio à Formação de Médicos Especialistas em Áreas Estratégicas (Pró-Residência) foi e continua sendo um instrumento nesse sentido. Há indicativos de que tem cumprido esse papel, ainda que se mantenha forte concentração de especialistas nas regiões Sul e Sudeste. Embora importante, seus efeitos são considerados de baixa magnitude dadas as condições estruturantes de múltiplas causas sobre as quais o Pró-Residência não consegue atuar, como a própria concentração de oferta de serviços de saúde e unidades hospitalares de maior porte nas regiões Sul e Sudeste, e a descentralização da seleção para residência, que começa a ser atenuada pela existência do Enare como prova nacional de seleção14),(15.

Nessa perspectiva, o Enare também precisa ganhar destaque como uma política de indução à descentralização e ocupação de vagas ociosas. O exame possibilitou redução de custo em inscrições para a realização de processo seletivo e oportunidade em selecionar vagas em PRM distantes do lugar de origem do concorrente. Em 2025, contou com oferta de 6.894 vagas de RM em 1.806 PRM16.

Outra política pública de grande impacto sobre a RM foi o Programa Mais Médicos. O programa previa, inicialmente, a obrigatoriedade da residência em medicina de família e comunidade (MFC) como pré-requisito para grande parte dos PRM e a instituição de avaliação específica anual na residência, e apontava o caminho de universalização das vagas17. Apesar de bastante desidratado ao longo dos anos, a ponto de perder boa parte dos elementos mais estruturantes, também teve resultado em ampliação de vagas em regiões vulneráveis e prioritárias, permanecendo desafios para maior expansão e ocupação delas17)-(19.

Parece, portanto, que as políticas públicas foram capazes de atenuar, ainda que de forma limitada, a distribuição da RM no país e garantir o acesso universal. Em estudo disponibilizado pelo Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems) do Rio de Janeiro, entre as possíveis correlações de distribuição de médicos no estado, quando se compararam população, PIB per capita, leitos disponíveis e cobertura da saúde suplementar, foi observado que quanto maior a cobertura de planos e seguros de saúde, maior a disponibilidade de médicos20.

O histórico de autorregulação da medicina somado ao fato de o Estado não desempenhar um papel de planejamento, controle e regulação da profissão pode diminuir a disponibilidade de profissionais para o SUS, bem como afetar a expansão e distribuição de vagas da residência, agindo assim como uma limitação estrutural. A profissão médica desempenha papel relevante na definição de como processos regulatórios acontecem e disputam esse papel com o Estado, não sendo realidade exclusiva do Brasil. Parte da corporação médica não responde adequadamente ao contexto sociocultural amplo, tendendo a agir apenas quando há interferência do Estado21),(22.

Outro aspecto a se destacar e que ecoou nas discussões do Fórum de Residência se relaciona com o processo de esgotamento e adoecimento dos médicos residentes. A preocupação com a saúde mental decorre de evidências de um modelo de formação que tem demonstrado incorrer em altos índices de ansiedade, depressão, burnout, entre outros23)-(26.

Existem fatores de adoecimento relacionados a características pessoais, do processo formativo e do cenário de prática, sendo mulheres e pessoas negras mais acometidas. Baixo suporte pedagógico, alta carga horária, privação de sono, condições de trabalho precarizadas estão entre alguns dos desencadeantes27. A saúde mental do residente precisa ser refletida à luz da proteção do profissional que está inserido em um processo de aprendizado, mas também refletir a segurança do paciente. Profissionais adoecidos apresentam maior propensão a cometer falhas, a exemplo do emblemático caso de Libby Zion, ocorrido nos Estados Unidos, que gerou amplas reformas no processo de formação por RM28. Portanto, é imprescindível construir estratégias de suporte psicológico e pedagógico, avançar em uma agenda nacional de redução das cargas horárias e valorização financeira, além de investir na qualificação da supervisão e preceptoria.

A avaliação de residentes e da RM precisa refletir, inclusive, esses aspectos relacionados ao cuidado e aprimoramento dos programas e profissionais. Em 2023, a CNRM tornou pública uma resolução acerca da avaliação de médicos residentes. Essa resolução aponta para avaliações sistemáticas formativas e somativas, a partir de domínios cognitivos, de habilidades e atitudes, com feedback estruturado, além de incentivar outras estratégias avaliativas, como o Teste de Progresso e o uso de entrustable professional activities para atestar progressão de níveis29.

Alcançar as metas avaliativas estabelecidas nessa resolução, contudo, não é algo simples de se cumprir. Os PRM precisam ser acompanhados de maneira que tais metas sejam implementadas. As sociedades de especialidade nesse sentido podem ser entidades que auxiliem e fortaleçam a qualidade dos PRM30. Para tanto, devem ser orientadas por diretrizes gerais da CNRM alinhadas às necessidades de combate a iniquidades, como já mencionado, e de uma avaliação que tem o cuidado do binômio residente-paciente no centro do processo.

Por fim, os PRM precisam ser avaliados a partir de características comuns a todos os programas e de características específicas de cada especialidade. Infraestrutura, contratualização de cenários, planejamento pedagógico, estratégias de avaliação, controle social, suporte ao residente e preceptor, e políticas de desenvolvimento e carreira para preceptores foram os aspectos apontados pelos participantes do fórum como pontos centrais de uma avaliação de PRM.

A constituição da CNRM foi uma etapa fundamental na regulamentação dos programas de residência e trouxe avanços históricos, mas ainda há lacunas nesse processo. É imprescindível fortalecer o funcionamento pleno da CNRM e das Cerem, de modo a permitir o acompanhamento e a avaliação dos PRM de maneira constante. Ainda há frágil regulamentação do papel dos estados e municípios na organização da RM31.

O fortalecimento da infraestrutura orçamentária, técnica e política da CNRM também foi discutido no fórum. Sem capacidade de se projetar para os estados e municípios e manter diálogo forte com os PRM, haverá maiores dificuldades de que resoluções, avaliações e processos de qualidade sejam implementados e acompanhados.

As proposições trazidas pelo fórum como discussão inicial ainda se mantêm no campo conceitual, e haverá necessidade de avanços em refletir mecanismos operacionais claros e estratégias de governança para a efetivação de ações que precisaram ser ordenadas em comum acordo entre os entes federativos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nas reflexões realizadas no Fórum de Residência, foi possível identificar avanços em termos de políticas públicas para a RM nos últimos anos. Parte importante dos desafios se mantém, observados pelas próprias experiências dos atores que constituíram a atividade. Para enfrentá-los, será necessário apresentar formulações e acumular discussões e reflexões ainda mais profundas sobre o papel do Estado e das organizações dos serviços para a consolidação da residência.

Um dos caminhos identificados, que necessita de melhor avaliação e estudo para validação e arranjo efetivos, seria a constituição de um Sistema Nacional de Residências em Saúde, na perspectiva de avançar em conquistas de qualidade e formação de especialistas.

As contribuições realizadas nesse fórum precisam ainda ser discutidas à luz da PNRS que até o momento de submissão deste artigo ainda não haviam sido publicadas, após longa etapa de construção e consulta pública.

Como relato de experiência, este estudo apresenta limitações inerentes ao próprio formato. Por se tratar de uma descrição de vivências e processos, ele privilegia o caráter narrativo em detrimento de análises sistemáticas, o que reduz a possibilidade de generalização dos resultados para outros contextos. Além disso, as conclusões dependem fortemente da percepção dos participantes envolvidos, o que pode introduzir vieses e limitar a diversidade de perspectivas. Por fim, as contribuições têm caráter provisório, funcionando como “primeiros passos” que precisam ser revisitados e ampliados em novos espaços de reflexão e pesquisa, o que reforça a natureza exploratória e não conclusiva do estudo.

Por isso, o GT de RM da Abem se torna um espaço fundamental para seguir refletindo, acumulando consensos e caminhos, além de produzir cientificamente sobre a RM de maneira a oferecer ao Estado brasileiro possibilidades, subsidiando a construção de políticas para a RM alinhadas às necessidades do SUS.

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  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
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  • Editora-chefe:
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    Jorge Guedes.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Out 2025
  • Aceito
    02 Abr 2026
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