Resumo
O objetivo deste trabalho é divulgar, por meio de uma tradução comentada, um dos principais trabalhos escritos por Dominique François Jean Arago (1786-1853) relativo ao eletromagnetismo. Trata-se de uma descrição das experiências feitas por ele, relativas à magnetização do ferro e do aço pela ação da corrente voltaica.
François Arago; André-Marie Ampère; eletromagnetismo
Abstract
The goal of this paper is to divulge, through a commented Portuguese translation, an important work written by Dominique François Jean Arago (1786-1853) concerned with electromagnetism. He gives an account about experiments related to the magnetization of iron and of steel by the action of the voltaic current.
François Arago; André-Marie Ampère; electromagnetism
HISTÓRIA DA FÍSICA E CIÊNCIAS AFINS
Sobre as experiências relativas à imantação do ferro e do aço pela ação da corrente voltaica: uma tradução comentada do artigo escrito por François Arago
On the experiences concerned with the magnetization of iron and of steel by the action of the voltaic current: a commented Portuguese translation of the article written by François Arago
Moacir Pereira de Souza Filho I, II,*; João José CaluziI, II
IPrograma de Pós-Graduação em Educação para Ciência, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, SP, Brasil
IIDepartamento de Física, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, SP, Brasil
RESUMO
O objetivo deste trabalho é divulgar, por meio de uma tradução comentada, um dos principais trabalhos escritos por Dominique François Jean Arago (1786-1853) relativo ao eletromagnetismo. Trata-se de uma descrição das experiências feitas por ele, relativas à magnetização do ferro e do aço pela ação da corrente voltaica.
Palavras-chave: François Arago, André-Marie Ampère, eletromagnetismo.
ABSTRACT
The goal of this paper is to divulge, through a commented Portuguese translation, an important work written by Dominique François Jean Arago (1786-1853) concerned with electromagnetism. He gives an account about experiments related to the magnetization of iron and of steel by the action of the voltaic current.
Keywords: François Arago, André-Marie Ampère, electromagnetism.
1. Introdução
A eletricidade e o magnetismo, por um longo período, foram considerados ramos de estudos distintos. Contudo, havia algumas evidências que indicavam a possibilidade de interação entre os fenômenos elétricos e magnéticos. Benjamin Franklin (1706-1790) relatou que agulhas de bússolas, ao serem atingidas pelo fogo elétrico (faíscas elétricas), perdiam suas propriedades magnéticas. Ele relatou também que agulhas de costura, ao serem percorridas pela eletricidade proveniente de garrafas de Leiden,1 adquiriam tais propriedades se alinhando ao campo magnético terrestre quando postas para flutuar em um recipiente contendo água2 [1]. Além destas observações pontuais entre os fenômenos elétricos e magnéticos, buscavam-se outras equivalências mais profundas entre os mais diversos fenômenos da natureza, devido à influência da Naturphilosophie3 no período. Para uma discussão mais aprofundada sobre o tema, ver Ref. [3]. Outro exemplo da busca da equivalência e similaridade entre eletricidade e magnetismo, pode ser encontrado no artigo "Sobre os experimentos eletromagnéticos dos Srs. Ørsted e Ampère" [4], publicado em 1821, por Jean Nicolas Pierre Hachette (1769-1834). Neste trabalho, Hachette comenta o experimento realizado por ele e pelo físico e químico francês Charles Bernard Desormes (17771862). Em 1805, puseram uma bateria elétrica sobre um pequeno bote e colocaram ambos para flutuarem em água, na tentativa de verificar se a Terra possuía polos elétricos, assim como, ela possui o meridiano magnético.4
O trabalho de Hans Christian Ørsted5 (1777-1851), em 1820, apresenta uma relação mais sólida entre os fenômenos elétricos e magnéticos, dando início ao eletromagnetismo.6 Dominique François Jean Arago (1786-1853) assiste em Genebra a repetição do experimento feito por Ørsted. De volta a Paris, ele publica nos Anais de Química e Física7 uma tradução deste trabalho. Comunica à Academia de Ciências de Paris,8 em 4 de setembro de 1820, a nova descoberta e repete este experimento perante a Academia em 11 de setembro do mesmo ano [5]. A partir daí, muitos cientistas como André-Marie Ampère9 (1775-1836), Jean Baptiste Biot (1774-1862), Felix Savart (1791-1841) entre outros, trabalhavam experimentalmente e teoricamente sobre o tema, em busca de um modelo para descrever o fenômeno da interação entre o fio condutor e a agulha imantada da bússola.
Em 25 de setembro de 1820, Ampère leu seu primeiro trabalho sobre os fenômenos eletrodinâmicos para a Academia de Ciências e, em 2 de outubro do mesmo ano, ele apresentou seu trabalho por escrito. Nele, descreve suas observações da ação entre correntes e defende a concepção da ação à distância entre os corpos interagentes, ao conceber a existência de correntes elétricas no interior da agulha imantada. Para ele, a corrente elétrica que circulava pelo fio interagia, pelo princípio newtoniano da ação e reação, com aquelas existentes no interior da agulha da bússola. Portanto, ele reduziu o experimento de Ørsted à interação entre correntes elétricas [7]. Uma tradução da primeira parte deste trabalho para o português encontra-se na Ref. [8].
Para testar suas idéias Ampère, enrolou o fio na forma de uma espiral plana e demonstrou que o fenômeno da atração e repulsão podia ser observado fazendo passar uma corrente elétrica constante através do condutor e aproximando da espira um ímã em forma de barra. Ao substituir o ímã por outra espiral, alinhada com a primeira, ele notou que também era possível observar os fenômenos atrativos e repulsivos por meio da interação entre espirais, conduzindo correntes constantes. A atração ou repulsão depende do sentido no qual os fios são enrolados e, do sentido com que as correntes elétricas circulam pelas espiras. Este foi o primeiro experimento feito por Ampère para demonstrar a interação entre correntes elétricas [9]. Pode-se facilmente demonstrar seus efeitos por meio de uma montagem didática simples, proposta em [10]. Uma versão para a língua inglesa desta sugestão experimental didática pode ser encontrada na Ref. [11].
Contrariamente a esta concepção, Biot e Savart [12] apresentam um trabalho à Academia de Ciências de Paris, em 30 de outubro de 1820, em que eles interpretam a experiência de Ørsted, por meio da interação entre polos magnéticos. Segundo eles, a corrente elétrica, ao passar pelo circuito, magnetizaria o fio condutor. Consequentemente, os polos magnéticos, espalhados ao longo da seção reta do fio, interagiam com os polos magnéticos ou "moléculas" magnéticas da agulha imantada da bússola. Este artigo encontra-se traduzido para o português em [13].
François Arago, adepto da concepção de Ampère, publica também no ano de 1820, nos Anais de Química e de Física,10 um trabalho intitulado Experiências relativas à imantação do ferro e do aço pela ação da corrente voltaica11 [14]. Tendo em vista a importância deste trabalho, apresentaremos aqui, sua tradução comentada.
Neste artigo, Arago observa que um fio ligado à bateria voltaica é capaz de atrair pequenas limalhas de ferro ao seu redor. Ao enrolar o fio no formato de uma espira, ele observa a presença de polaridades em suas extremidades. A posição destes polos depende do sentido da corrente e do sentido em que o fio é enrolado. Colocando-se um núcleo de aço no interior das espiras o efeito se intensifica e o aço adquire propriedades magnéticas. Finalmente, Arago se preocupa em diferenciar este tipo de imantação daquele em que a descarga elétrica percorre a agulha de aço longitudinalmente, o que já havia sido tentado, em vão, por alguns cientistas do século XVIII. Este trabalho merece destaque não só pela sua simplicidade e clareza, mas principalmente, pela sua relevância. Na época, este trabalho mostrou que, por meio da eletricidade, era possível obter efeitos magnéticos semelhantes a um ímã comum em forma de barra. Ou seja, o fio enrolado em hélice apresenta polaridades e produz efeitos atrativos e repulsivos.
Todas as notas deste artigo são dos tradutores, exceto a nota 46 que é do próprio Arago. As palavras entre colchetes e as figuras foram introduzidas com o objetivo de facilitar o entendimento do texto.
2. Dados biográficos de François Arago
Dominique François Jean Arago, físico francês, nasceu em 26 de fevereiro de 1786 em Estagel, um pequeno vilarejo próximo a Perpignan e, morreu em Paris, em 2 de outubro de 1853 [15, p. 324]. Mostrando-se decidido a ingressar na carreira militar, Arago entrou no Colégio de Perpignan, onde iniciou seus estudos relacionados à matemática na sua preparação para o exame de ingresso à renomada Escola Politécnica de Paris, com o objetivo de tornar-se oficial engenheiro. Em 1803, entrou para a Escola Politécnica, mas seus estudos não o conduziram ao seu objetivo original [16, p. 160]. No ano seguinte, começou a fazer pesquisas sobre astronomia no Observatório de Paris. Pierre Simon de Laplace (1749-1827), que liderava o Observatório e o Bureau des Longitudes, recrutava jovens pesquisadores formados na Escola Politécnica para pesquisas de seu interesse [17, p. 46]. Em 1806, Arago foi nomeado secretário do Bureau des Longitudes e enviado à Espanha, junto com Biot, para uma expedição geodésica12 [16, p. 160]. Sua operação foi interrompida pela guerra entre França e Espanha. Em junho de 1808, foi aprisionado, mas logo, escapou e, após várias aventuras, ele finalmente retornou à França [15, p. 324]. De volta a Paris, em 1809, Arago passou a fazer parte das principais instituições da França. Com apenas vinte e três anos de idade, sucedeu a Jérôme Lalande (1732-1807) e foi eleito membro da Academia de Ciências de Paris [18, p. 18]; foi indicado para assumir a cadeira de geometria analítica da Escola Politécnica e, também; foi nomeado astrônomo do Observatório de Paris. Em 1825, Arago foi o primeiro cientista francês a receber uma medalha de honra da Royal Society de Londres [16, p. 160]: Após a morte de Laplace, o prestígio de Arago cresceu; ele foi eleito secretário permanente da Academia de Ciências e, quatro anos mais tarde, tornou-se diretor do Observatório de Paris [17, p. 47]. Arago foi um ardente político liberal e fez parte das revoluções de 1830 e 1848, quando desenvolveu um importante papel político. Após a segunda revolução, ele se tornou Ministro de Guerra e da Marinha [15, p. 324].
Os trabalhos científicos de Arago estão relacionados principalmente com o eletromagnetismo e com a teoria ondulatória da luz, ver Refs. [14, 15, 18, 19]. "Continuando o trabalho de H. C. Ørsted, Arago mostrou, em 1820, que uma espira cilíndrica feita de fio de cobre, por meio da qual flui uma corrente elétrica, atrai limalhas de ferro assim como um ímã comum, mas que as limalhas se desprendem assim que a corrente cessa"13 [20]. Ver a Ref. [14]. "Arago também mostrou, em 1824, que um disco de cobre produz a oscilação em uma agulha magnética suspensa sobre ele, relatando verbalmente à Academia de Ciências, os resultados de alguns experimentos que ele fez, sobre a influência que metais exercem sobre a agulha magnética" [20]. Ver a Ref. [18]. A presença do disco de cobre diminui rapidamente a amplitude de oscilação da agulha magnética, sem alterar sensivelmente o seu período. Ou seja, se uma agulha magnética oscilar próximo a um disco de cobre, sua amplitude de oscilação diminui. Segundo Arago, o movimento é relativo, pois se a agulha magnética estiver parada e o disco de cobre se mover, depois de algum tempo, a agulha entra em oscilação14 [18, 19]. "Estes efeitos foram posteriormente explicados por Michael Faraday15 (1791-1867) como sendo devidos ao fenômeno da indução de correntes elétricas"16 [20].
Os trabalhos de Arago relacionados à óptica foram extremamente relevantes para o progresso da teoria ondulatória da luz.17 Ao tentar interpretar o fenômeno da aberração das estrelas fixas observado por Bradley,18 Arago e Biot verificaram em 1806, por meio da medida da refração da luz emitida por vários corpos celestes, a constância da velocidade da luz, o que não era aceito pela teoria corpuscular.19 Em 1810,20 Arago verificou que a composição entre a velocidade da luz produzida pela adição/subtração com a velocidade de translação da Terra, não mostrou variação no ângulo de refração em um prisma posicionado na Terra. Essas experiências revelaram um elo fraco na teoria corpuscular, dando oportunidade para que Fresnel interpretasse os fenômenos da luz, considerando-se a infiuência do movimento dos corpos, dentro de uma visão ondulatória da luz. Fresnel supôs que uma pequena parte deste éter era arrastada por corpos transparentes em movimento com a Terra.21 Neste caso, os dois fenômenos podiam ser interpretados pela teoria ondulatória (Refs. [17, 22]).
Arago e Fresnel publicaram vários trabalhos relacionados a natureza da luz. Em um trabalho importante, eles descrevem os experimentos sobre a interferência da luz polarizada, no qual, pode-se concluir que as vibrações da luz são transversais à sua linha de propagação [15].
3. Considerações finais
Durante muito tempo se buscou a interação entre os fenômenos elétricos e magnéticos, fazendo com que, descargas elétricas percorressem agulhas de aço longitudinalmente, mas os experimentos realizados não apresentaram resultados conclusivos. Somente em 1820, com experimento de Ørsted, pôde-se verificar a interação entre estes fenômenos, dando início ao eletromagnetismo. Ele mostrou que a corrente elétrica que passa pelo fio condutor interage com a agulha imantada da bússola (princípio do motor elétrico). Posteriormente, Ampère mostrou que a interação eletrodinâmica de fios conduzindo correntes constantes, interagiam entre si, apresentando efeitos atrativos e repulsivos, semelhante aos ímãs. A grande contribuição de Arago para o eletromagnetismo foi mostrar que, além da interação entre estes fenômenos, era possível gerar um fenômeno a partir do outro. O artigo de Arago, que vamos expor neste trabalho, mostrou que a corrente que fiui através de um solenóide é capaz de imantar um cilindro de aço (eletroímã), que inicialmente, estava totalmente desprovido das características magnéticas. Isto foi extremamente relevante, pois a partir daí, seria possível obter imãs artificiais por meio da eletricidade. Arago também mostrou que metais sofrem interação ao se moverem22 próximos aos ímãs, o que, de acordo com Faraday, era devido às correntes elétricas induzidas pelos ímãs nos metais.
A contribuição de Faraday foi imaginar a existência de linhas físicas de força no entorno dos ímãs ou dos solenóides. Estas linhas podiam ser visualizadas espalhando limalhas de ferro em suas proximidades e, observando que cada limalha se posicionava, de modo a formar linhas retilíneas ou curvilíneas, o que hoje em dia, concebemos como sendo, as linhas de campo magnético. Baseado nisto, ele mostrou experimentalmente o poder que, ímãs ou correntes elétricas, variando no tempo, possuem em produzir alguns efeitos em sua vizinhança imediata. Ele mostrou que, se movermos um ímã próximo a um enrolamento de fio condutor (semelhante a um solenóide), ligado a um galvanômetro, poderemos observar, por meio do movimento de seu ponteiro, a presença de correntes elétricas induzidas. Portanto, Faraday mostrou que, por meio do magnetismo, era possível gerar a eletricidade (princípio do gerador elétrico). Ele também mostrou que, se tivermos dois enrolamentos próximos entre si, montados sobre um núcleo de ferro e, fizermos variar uma corrente no circuito primário, teremos uma corrente induzida no circuito secundário (transformador elétrico). Finalmente, mais tarde, James Clerk Maxwell (18311879) sintetizou o eletromagnetismo por meio de algumas expressões matemáticas e sugeriu que ondas eletromagnéticas podiam-se propagar pelo espaço na velocidade da luz (ondas de rádio e TV, microondas, etc.) e, que, a luz nada mais é, que uma onda eletromagnética.
Queremos destacar aqui que, os trabalhos destes cientistas foram fundamentais para a formação e a consolidação do eletromagnetismo, e que, especialmente os princípios físicos do trabalho de Arago, que vamos apresentar ao leitor, são utilizados em nosso cotidiano nos mais variados dispositivos eletro-eletrônicos, tais como, relês, talhas eletromagnéticas, válvulas solenóides, etc., com uma infinidade de aplicações práticas.
4. Tradução
Sobre as experiências relativas à imantação do ferro e do aço pela ação da corrente voltaica [p. 93]
A brilhante descoberta que o Sr. Ørsted acaba de fazer, consiste, como se tem visto, na ação que a corrente voltaica exerce sobre uma agulha de aço previamente imantada. Ao repetir as experiências do físico dinamarquês, reconheci que esta mesma corrente desenvolve fortemente a virtude magnética nas lâminas de ferro ou de aço, que inicialmente, estavam totalmente desprovidas [desta virtude].23
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Relatarei as experiências que estabelecem este resultado, na ordem, mais ou menos, em que elas foram feitas.
Tendo adaptado um fio cilíndrico de cobre, bem fino, a um dos polos da pilha voltaica,24 observei que no instante em que este fio estava em comunicação25 com o polo oposto,ele atraía limalha de ferro doce, como teria feito um verdadeiro ímã.
O fio, mergulhado em limalhas,26 se carregava igualmente em todo o [seu] redor,27 e adquiria, por esta adição, um diâmetro quase igual aquele de um tubo [recoberto] de pluma comum.
Assim que o fio conjuntivo28 cessava de estar em comunicação com os dois polos da pilha ao mesmo tempo, as limalhas se desprendiam do fio e caíam.
Estes efeitos não dependem de uma imantação prévia das limalhas, visto que as barras29 de ferro doce ou de aço não atraíam nenhuma quantidade [de limalhas].
[Como] poderíamos explicar resumidamente [estas atrações] atribuindo a elas ações elétricas comuns;30 se, ao repetir a experiência com limalhas de cobre e de latão, ou com serragens de madeira, observa-se que elas não atraem, em nenhum dos casos, de maneira perceptível ao fio conjuntivo. Esta atração, que o fio conjuntivo exerce sobre as limalhas de ferro, diminui muito rapidamente à medida que a ação da pilha se enfraquece. Talvez a gente encontre, um dia, nos pesos da quantidade de limalhas, levantadas por um dado comprimento de fio, a medida da energia deste instrumento,31 em diferentes épocas de uma mesma experiência.
A ação do fio condutor sobre o ferro se exerce a distância.32 é fácil de notar, com efeito, que as limalhas
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se levantam bem antes do fio estar em contato com elas. Eu não tenho falado até aqui apenas de um fio conjuntivo de latão; mas [também] fios de prata, de platina, etc. dão resultados análogos. Resta, entretanto, estudar se fios de mesma forma, massa ou diâmetro, de diferentes metais, agem exatamente com a mesma intensidade.33
O fio conjuntivo somente comunica ao ferro doce uma imantação momentânea, se pequenos pedaços de aço forem usados, eles às vezes, se tornam permanentemente magnetizados. Eu mesmo cheguei a imantar, desta maneira, completamente, uma agulha de costura.
O Sr. Ampère, a quem eu mostrei estas experiências, acabava de fazer a importante descoberta que dois fios retilíneos e paralelos, através dos quais passam duas correntes elétricas, se atraem quando as correntes se movem no mesmo sentido, e se repelem quando elas são dirigidas em sentidos contrários.34 Ele tirou daí, por analogia, esta consequência que as propriedades atrativas e repulsivas dosímãs dependem de correntes elétricas que circulam em torno das moléculas do ferro e do aço, em uma direção perpendicular à linha que une os dois polos.35 O Sr. Ampère supôs ainda que, sobre uma agulha horizontal dirigida ao norte, a corrente na parte superior se move de oeste a leste.36 Estas visões teóricas lhe sugeriram, no mesmo instante, pensar que obteríamos uma melhor imantação ao substituir um fio condutor reto que eu tinha utilizado, por um fio enrolado em hélice, no centro do qual, a agulha de aço seria colocada.37 Ele esperava ainda que se obtivesse assim, uma posição constante dos polos, o que não se chegava
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pelo meu método.38 Eis como nós, o Sr. Ampère e eu, temos submetido estas conjecturas à prova da experiência. Um fio de cobre enrolado em hélice [foi confeccionado, de modo que, as suas extremidades] fossem terminadas por duas porções retilíneas que podiam se adaptar, à vontade, aos polos opostos de uma forte pilha voltaica horizontal;39 uma agulha de aço envolvida em papel foi introduzida na hélice, mas, somente após as comunicações entre os dois polos terem sido estabelecidas, a fim de que o efeito esperado não fosse atribuído à descarga elétrica, que se manifesta no mesmo instante em que o fio conjuntivo se conecta aos dois polos.40 Durante o experimento, a parte deste fio na qual a agulha de aço estava colocada, foi mantida sempre perpendicular ao meridiano magnético, de modo que não houvesse nenhuma sensibilidade da ação do globo terrestre.
Ora, após alguns minutos de permanência na hélice, a agulha de aço recebeu uma forte dose de magnetismo; a posição dos polos norte e sul se encontrou, de fato, perfeitamente conforme ao resultado que o Sr. Ampère havia deduzido, de antemão, da direção dos elementos da hélice,41 e da hipótese de que a corrente elétrica percorre o fio conjuntivo indo da extremidade de zinco da pilha à extremidade do cobre.42
Portanto, parece provado, de acordo com estas experiências, que se um fio de aço é imantado por uma corrente galvânica que o percorre longitudinalmente, a posição dos polos não é determinada unicamente pela direção da corrente; e que as circunstâncias irrisórias e quase imperceptíveis, como por exemplo, um leve começo de imantação; uma ligeira irregularidade na
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forma ou na textura do fio podem alterar perfeitamente os resultados;43 enquanto que se a corrente galvânica circula ao redor do [cilindro de] aço, ao longo das espiras de uma hélice, se poderá sempre prever de antemão, aonde virão se colocar os polos norte e sul.44
Refletindo, contudo, sobre os desacordos singulares que as experiências de imantação pelas descargas elétricas têm apresentado aos físicos que se ocuparam desta investigação,45 pareceu-me necessário submeter às provas mais decisivas os fenômenos das correntes helicoidais. O leitor irá julgar se nós atingimos este objetivo. Imaginei primeiro, em formar, com um fio de cobre, duas hélices simétricas.46 Cada uma com cerca de cinco centímetros e, separadas por uma parte retilínea do mesmo fio; as espiras de uma das hélices giravam num sentido;
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[as espiras] da outra [hélice] em sentido contrário, mas com as inclinações paralelas (ver
); os diâmetros eram iguais. Um cilindro de aço contido num pequeno tubo de vidro foi introduzido na primeira hélice; coloquei, em seguida, um cilindro perfeitamente semelhante ao precedente [na hélice vizinha], e garanti também [que não houvesse] qualquer contato elétrico colocando um isolante de vidro
na hélice vizinha; uma pequena extremidade de fio de cobre estabelecia uma comunicação constante entre esta última hélice e o polo positivo da pilha. A partir daí, para começar a experiência, era suficiente unir ao polo negativo, o fio que partia da extremidade da segunda hélice: ora, no instante em que esta comunicação era estabelecida, a eletricidade acumulada no polo positivo do instrumento se escoava pela parte direita do fio conjuntivo; atingia a primeira hélice, seguia gradualmente [por] todas as suas espiras, chegava à segunda hélice pelo fio reto que a separava da precedente, e após têla percorrido, retornava ao polo negativo. Os dois cilindros de aço se encontravam, portanto, submetidos um ao outro durante a experiência, pela ação de uma corrente galvânica de mesma intensidade. Esta corrente, densamente, movia-se em uma só direção mas se ela circulasse da esquerda para a direita, ao redor do primeiro cilindro, este mesmo movimento se executava da direita para a esquerda ao redor do segundo [cilindro]. Ora, em todas as experiências deste tipo que fizemos com o Sr. Ampère, utilizando uma pilha bastante forte que ele possui,
foi suficiente por esta simples mudança no sentido da qual a corrente circulava ao redor dos cilindros de aço, para dar lugar a uma inversão completa dos polos, de modo que os dois cilindros contidos nas duas hélices simétricas estavam, ao mesmo tempo, imantados em sentidos contrários.
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Num outro ensaio, dobrei o fio de cobre em hélice, da direita para a esquerda sobre um comprimento de cinco centímetros. Seguidamente da esquerda para a direita, sobre um comprimento igual; depois, enfim, uma segunda vez, da direita para a esquerda: estas três hélices estavam separadas por porções retilíneas do mesmo fio.
Um único e mesmo cilindro de aço suficientemente longo, de mais de um milímetro de diâmetro, e envolvido por um tubo de vidro, foi colocado nas três hélices ao mesmo tempo. A corrente galvânica, ao percorrer as espiras destas diversas hélices, imanta as porções correspondentes do cilindro de aço, como se elas tivessem sido separadas umas das outras. Observei, com efeito, que em uma das extremidades se encontrava um polo norte; a cinco centímetros de distância, um polo sul; mais distante um segundo polo sul, seguido de um polo norte; por último, um terceiro polo norte, e a cinco centímetros daí, ou na outra extremidade do cilindro, um polo sul.50 Nós poderíamos, portanto, por este método, multiplicar à vontade estes polos intermediários que os físicos têm designado pelo nome de pontos consecutivos.51
Eu devo observar, contudo, que em geral nestas experiências, a inºuência das hélices se exerce não somente sobre as porções do cilindro de aço contidas nelas, mas ainda, sobre as partes vizinhas; de modo que, por exemplo, se o intervalo compreendido entre as hélices consecutivas é pequeno, as porções do cilindro de aço, correspondentes a estes intervalos, serão imantadas como se o movimento de rotação imprimido ao fluido magnético, de acordo com a idéia do Sr. Ampère52 pela influência de uma hélice, continuasse para além das últimas espiras.
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Tendo procurado descobrir, enquanto escrevia a folha precedente, quais eram as circunstâncias que faziam variar a posição dos polos quando os fios de aço eram percorridos longitudinalmente por uma corrente galvânica, encontrei invariavelmente, que mesmo com uma pilha muito ativa, se o fio conjuntivo for perfeitamente reto, uma agulha de aço [sendo] colocada acima não recebe nenhum magnetismo.53 A agulha de costura a qual eu havia utilizado nas minhas primeiras experiências tinha evidentemente adquirido polos, porém, os efeitos dependentes da forma do fio conjuntivo não eram conhecidos. E para manter mais facilmente a agulha, tive que enrolar um pouco o fio ao redor54 das suas extremidades.
Vê-se que eu estava cauteloso nas experiências precedentes, para evitar que nenhuma descarga passasse do fio conjuntivo para a barra de aço sobre a qual operava.55
Há, portanto, uma distinção essencial por estabelecer entre este modo de imantação e aquele que foi o objeto das investigações de Wilke, Franklin, Dalebard, Beccaria, VanSwinden e Van-Marum;56 pois, neste último modo, a imantação era produzida pela passagem de uma forte faísca elétrica através da barra de aço.57 Podia ser curioso, contudo, pesquisar se a faísca fornecida pela pilha não se comporta como aquela que se escapa de uma máquina eletrostática. Ora, aprendi com o Sr. Boisgiraud, instrutor de física na escola militar Saint-Cyr, que fez esta experiência com sucesso. Ele suspeitava que operando assim, a
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força magnética somente se tornava um pouco mais sensível, tanto que, as duas porções de fio destinadas a conectar a agulha aos polos de cobre e zinco são de aço, e elas formam como que duas espécies de armaduras. O Sr. Boisgiraud promete, a este respeito, novas experiências, as quais nós nos apressaremos em divulgar aos leitores dos Anais.58
O fio conjuntivo de cobre é dotado, como se tem visto, de uma virtude magnética muito intensa, quando ele se comunica aos dois polos da pilha. Ele chegou, mais uma vez, a apresentar ainda, vestígios desta propriedade, cerca de instantes após a comunicação entre os dois polos ter sido totalmente interrompida. Mas este fenômeno é muito fugaz, e eu não pude reproduzi-lo à vontade. O Sr. Boisgiraud não foi mais feliz que eu, embora, num caso, o cilindro de platina que ele utilizava se conservou com bastante força, após ter sido completamente desconectado da pilha, para suportar uma pequena agulha de costura.59
As experiências do Sr. Ørsted, parecemme que podem ser repetidas numa circunstância que acrescentaria ainda [mais] ao interesse que elas devem inspirar, fazendonos dar um passo a mais em direção a explicação do fenômeno, até agora, [tão] incompreensível, das auroras boreais. Exis-te, na Instituição Real de Londres, uma pilha voltaica, composta de 2000 placas duplas de quatro polegadas60 quadradas. Servindo-se deste potente aparelho, o Senhor Humphry Davy61 reconheceu que se produz uma descarga elétrica entre duas pontas de carvão adaptadas
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às extremidades dos condutores positivos e negativos, mesmo que estas pontas estejam ainda distantes uma da outra 1/30 ou 1/40 de polegada. O primeiro efeito da descarga é avermelhar os carvões. Ora, tão logo a incandescência é estabelecida, as pontas podem ser gradualmente aproximadas, até quatro polegadas, sem que com isto, a luz intermediária se rompa. Esta luz é extremamente viva, e mais larga no seu meio, do que nas suas extremidades: ela tem a forma de um arco.62 A experiência terá melhor resultado quanto mais o ar estiver rarefeito.63 Sob uma pressão de um quarto de polegada, a descarga de uma ponta de carvão à outra começava a uma distância de meia polegada. Afastando gradualmente os carvões, o Senhor Humphry Davy obteve uma chama púrpura contínua, e que tinha até sete polegadas de comprimento.64
é, sem dúvida, muito natural supor que esta corrente elétrica agirá sobre a agulha imantada da mesma maneira que se movesse ao longo de um fio conjuntivo metálico. No entanto, a experiência me parece merecer ser recomendada aos físicos que têm às suas disposições, pilhas voltaicas de uma grande força, sobretudo devido às vistas que se pode fazer nascer relativamente às auroras boreais. Não seria, aliás, inde- pendentemente de toda aplicação imediata, um fenômeno digno de observação, que a produção no vácuo, ou com ar muito rare- feito, de uma chama que, agindo sobre a agulha imantada, por sua vez, fosse atraída ou afastada pelos polos do ímã?65
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Prof. Dr. André Koch Torres de Assis pela revisão do artigo. Agradecem também a Sérgio Luiz Bragatto Boss e a João Paulo Martins de Castro Chaib pelas sugestões apresentadas ao trabalho.
Referências
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[4] J.N.P. Hachette, Philosophical Magazine 57, 40 (1821). Disponível em http://www.ampere.cnrs.fr. Acessado em 22/nov/2007.
[5] R.A. Martins, Caderno de História e Filosofia da Ciência 10, 89 (1986). Disponível em http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc/ram-pub.htm. Acessado em 22/nov/2007.
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Recebido em 28/3/2008
Revisado em 15/11/2009
Aceito em 24/1/2009
Publicado em 30/4/2009
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