Open-access Como avaliar se um material ou técnica são apropriados para a revelação de impressões digitais latentes?

How to assess if a material or technique is appropriate for latent fingerprint development?

Resumo

O aprimoramento das técnicas de desenvolvimento e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais são objeto de constantes discussões científicas na atualidade. Além de se buscar processos menos tóxicos, ambientalmente seguros, mais baratos e com melhor qualidade de revelação é comum se investigar novas abordagens para as superfícies sobre as quais ainda não existem técnicas capazes de revelar impressões digitais latentes. Entretanto, muitas vezes, essa busca é desprovida de metodologias e/ou recomendações da ciência forense. Isso faz com que os resultados entregues por alguns desses trabalhos sejam questionados diante da não utilização de práticas seguras e consagradas pela área. Dessa forma, visando padronizar, minimizar o risco de viés e popularizar entre os pesquisadores brasileiros as boas práticas para o desenvolvimento e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais, uma rigorosa seleção bibliográfica foi empreendida sobre a base de dados Web of Science para viabilizar a presente revisão sobre o tema.

Palavras-chave:
Melhores práticas; Ciências forenses; Avaliação; Novos reveladores; Impressões digitais latentes

Abstract

Improving the techniques for developing and evaluating new latent fingerprint development materials is an ongoing scientific discussion. In addition to the search for less toxic, environmentally friendly, less expensive processes with better development quality it is common to investigate new approaches for surfaces on which no techniques exist that can develop latent fingerprints. However, this search often lacks methodologies or recommendations from forensic science. As a result, the outcomes of some of these studies are questioned due to the lack of use of safe and established practices in the field. Therefore, in order to standardize, minimize the risk of bias, and popularize among Brazilian researchers the best practices for the development and evaluation of new fingerprint development materials, a rigorous bibliographic selection was undertaken on the Web of Science database to enable the present review on the topic.

Keywords:
Best practices; Forensic science; Assessment; New developers; Latent fingerprint

1. Introdução

A variedade de superfícies, as diferentes secreções endógenas ou resíduos exógenos que compõem as impressões digitais latentes e a diversidade de condições sob as quais essas marcas podem ser geradas tornam remota a possibilidade de um único material revelador ser eficiente para todas as situações operacionais. Aliado a isso, muitos materiais empregados atualmente ainda apresentam elevada toxicidade, como exemplo pode-se citar uma das técnicas mais difundidas e empregadas em todo o mundo: a pulverização de pós reveladores para revelar impressões digitais latentes [1]. Os pós regulares preto e branco são compostos, respectivamente, por negro de fumo e dióxido de titânio. Esses dois materiais foram associados a efeitos cancerígenos em humanos [2], o que os torna potencialmente perigosos para uso prologando, o que frequentemente ocorre com especialistas da área de identificação humana [3].

Dessa forma, é natural – e mandatória – a busca por novas abordagens e/ou materiais na tentativa de se reduzir os custos, impactos ambientais e toxicidade das abordagens existentes, principalmente se for possível melhorar a qualidade das revelações obtidas. Essa busca por novas abordagens tende a aprimorar as técnicas de revelação existentes [4]; entretanto, é comum entre os pesquisadores o desconhecimento das diretrizes das ciências forenses, o que pode levar a questionamentos a respeito das metodologias empregadas e, também, da confiabilidade dos resultados alcançados. A Declaração de Sydney recentemente alertou para isso, evidenciando que muitos dos problemas atribuídos às ciências forenses decorrem de sua apresentação por meio de lentes não forenses [5].

Visando evitar problemas dessa natureza e incentivar o estudo e possíveis extensões didáticas sobre a revelação de impressões digitais entre os pesquisadores brasileiros, a presente revisão evidencia os principais guias das ciências forenses relacionados à comparação e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes. É a primeira vez que aspectos técnicos, específicos e fundamentais sobre o tema são detalhados em língua portuguesa, municiando possíveis interessados em âmbito nacional com os procedimentos e ferramentas necessários para comparações e avaliações de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes alinhadas à melhores práticas das ciências forenses.

2. Metodologia

Por meio de uma revisão narrativa da literatura, as diretrizes das ciências forenses com relação às melhores práticas de avaliação e comparação de novos materiais reveladores serão apresentadas e discutidas. Para facilitar a abordagem de um tema tão abrangente, o assunto foi dividido em diferentes tópicos [6], a saber: 3.1 Informações gerais, 3.2 Coleta de impressões digitais, 3.3 Avaliação da qualidade das revelações e 3.4 Outros tópicos importantes. Na sequência, buscou-se evidenciar em seção própria (3.5) os possíveis benefícios da integração entre a expertise de comparação e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes e as discussões acadêmicas em cursos de Física ou ciências.

Para obter os artigos utilizados no presente estudo, aplicou-se uma estratégia de busca composta por uma parte automática e outra manual. Na primeira, a base de dados Web of Science foi utilizada na busca dos artigos relacionados às melhores práticas de avaliação e comparação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes. A escolha dessa base bibliográfica é devido ao seu rigor editorial e à curadoria seletiva de periódicos científicos de alto impacto, o que reforça a confiabilidade das fontes utilizadas. A consulta foi realizada no dia 23 de maio de 2025 e nenhuma restrição de data, periódico, língua ou país foi aplicada. Na segunda parte, as listas bibliográficas dos artigos encontrados foram examinadas manualmente para identificar artigos pertinentes ao tema sob investigação, mas que eventualmente não foram localizados na fase automática da estratégia de busca.

A string de busca empregada sobre a base de dados foi a seguinte: (((Fingermark OR “Finger print” OR “Finger mark” OR “Latent Fingerprint” OR “Latent Fingermark” OR “Latent Finger print” OR “Latent Finger mark” OR “Latent print” OR “Latent mark” OR “Marks of the finger” OR “Print of the finger” OR “Prints of the finger”) AND (guideline OR protocol OR manual OR recommendation ORguideOR “standard procedure” OR “best practice” OR standardizing)) NOT (“spectral fingerprinting” OR “fingerprint profile” OR “structural fingerprint” OR “optical fingerprint” OR “fingerprint information” OR “molecular fingerprint” OR “molecular fingerprint” OR “fingerprint-driven” OR “fingerprint pattern” OR “fingerprint plots” OR “chemical fingerprint” OR “elemental fingerprint” OR “fingerprint approach” OR “meta* fingerprint” OR “fingerprint band” OR “2d fingerprint” OR “fingerprint peak” OR “fingerprint spectrum” OR “fingerprint signal” OR “spectroscopic fingerprint”)).

Resumidamente, três distintas partes compõem a string de busca utilizada: Parte 1 – fingermak (e possíveis sinônimos); Parte 2 – guideline (e possíveis sinônimos); Parte 3 – “spectral fingerprinting” (e possíveis sinônimos). As duas primeiras foram unidas pelo conectivo booleano “AND”, para indicar a intersecção entre os termos, e a última delas foi adicionada com “NOT”, para evitar artigos relacionados a perfis espectrais moleculares. Optou-se por utilizar os termos em inglês diante do fato de esta ser a língua mais utilizada para fins acadêmicos. Além disso, é muito comum que artigos escritos em outras línguas também apresentem o título e o resumo em inglês, fazendo com que estes também possam ser encontrados pela estratégia de busca empregada.

3. Resultados e Discussão

3.1. Informações gerais

Nesta seção, aspectos gerais relacionados à avaliação de novos materiais reveladores são abordados. Informações quanto à necessidade de se reverenciar os guias das ciências forenses e de se buscar aprovação ética da pesquisa são discutidas. Além disso, considerações a respeito da fase da pesquisa, da toxicidade e da fotoluminescência do material revelador, do descarte adequado de seus subprodutos e do método de revelação empregado serão detalhadas.

3.1.1. Reverência aos guias das ciências forenses

A ciência é uma teia de descobertas que vai se avolumando com o passar do tempo. Quando um profissional de área técnica-científica (como um perito papiloscopista ou um cientista em uma universidade, por exemplo) pensa a primeira vez sobre determinado tema, certamente alguma outra pessoa em outro momento também já refletiu sobre este tema. Vivemos uma era na qual somos bombardeados de informações por todos os lados; entretanto, ao menos no que concerne à ciência, temos de dar o devido crédito às pessoas que vieram antes de nós e que estabeleceram os fundamentos sobre os assuntos que lidamos na atualidade.

Nesse sentido, um trabalho que esteja investigando a validade de um novo material revelador de impressões digitais precisa listar entre as suas referências algumas das bibliografias mais fundamentais sobre o assunto. Tendo como ponto de partida esta literatura mais específica e proeminente, o novo estudo tende a apresentar maior credibilidade diante da comunidade científica, considerando a adequada especialização e contextualização do trabalho. Entretanto, muitos pesquisadores se limitam ao levantamento bibliográfico relacionado ao novo material revelador em si e não se preocupam com os preceitos afetos às ciências forenses. Por exemplo, ao investigarem a utilização da cúrcuma na revelação de impressões digitais, fazem um profundo levantamento bibliográfico sobre esta planta e suas diferentes características, mas se esquecem das recomendações específicas das ciências forenses relacionadas ao desenvolvimento de novos reveladores de impressões digitais.

A ciência forense é autônoma e possui princípios, paradigmas e recomendações próprias [5]. Nessa linha, a Tabela 1 apresenta de forma resumida algumas das obras mais importantes relacionadas ao desenvolvimento de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes. Ao menos essas publicações precisam ser conhecidas pelos que demonstram interesse em desenvolver, testar ou avaliar quaisquer novos materiais reveladores de impressões digitais.

Tabela 1
Obras padronizadoras de procedimentos relacionados à pesquisa e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes.
3.1.2. Aprovação ética

Toda pesquisa que possua como participante o ser humano e o envolva de forma direta ou indireta – incluindo o manejo de seus dados, informações ou materiais biológicos – precisa ser previamente analisada pelo Comitê de Ética em Pesquisa – CEP instituído nacionalmente no âmbito do Conselho Nacional de Saúde – CNS [19]. Esta não é uma exigência apenas para estudos brasileiros. Todos os trabalhos que envolvem substâncias biológicas humanas deverão passar por uma análise semelhante, nos termos da Declaração de Helsinque [20]. Em âmbito nacional, a Plataforma Brasil é o repositório sob o qual é possível consultar as pesquisas já autorizadas pelo CEP, bem como submeter novos projetos [21].

A título de exemplo, registre-se que as impressões digitais utilizadas em uma pesquisa que entente desenvolver novos materiais reveladores podem ser desviadas de seu propósito primeiro e utilizadas na falsificação de documentos, como didaticamente demostrou estudo de autoria de Girelli [22]. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, documento detalhadamente analisado e aprovado pelo CEP para cada tipo de estudo, presta-se a cientificar o participante da pesquisa quanto à esta possibilidade de exposição e diversos outros aspectos relevantes ao participante e à pesquisa. Dessa forma, o responsável pelo estudo, ao submeter seu trabalho ao CEP, deve se pautar pelo respeito à dignidade humana e pela proteção especial devida aos participantes de uma investigação científica [19]. Uma análise ética prévia por comitê especializado tende a fortalecer esses aspectos [6]. Não à toa, o Grupo Internacional de Pesquisas sobre Impressões Digitais – IFRG (do inglês, International Fingerprint Research Group) alerta os pesquisadores quanto à existência de eventuais exigências locais no que concerne à obtenção ou não de aprovação ética antes de se iniciar a coleta de amostra de impressões digitais em pesquisas de novos reveladores [14].

Impende mencionar, entretanto, que há argumentos no sentido de que a análise do comitê de ética pode ser dispensada em alguns casos que envolvam estudos sobre impressões digitais [23]. Para tanto, o estudo deve ser enquadrado em uma das possibilidades de dispensa discriminadas no artigo 26 da Resolução n° 674 do CNS [24]. Considerando que o procedimento de submissão e aprovação ética junto à Plataforma Brasil pode ser trabalhoso e demorado, recomenda-se verificar previamente se o estudo pode ser enquadrado em uma das possibilidades de dispensa de análise por parte do Comitê de Ética em Pesquisa. Em sendo a dispensa possível, certamente significativos tempo e esforços serão poupados.

3.1.3. Fase do estudo

As pesquisas afetas a novos materiais reveladores de impressões digitais latentes costumam ser classificadas em quadro fases, a depender do grau de detalhes ou nível de aprofundamento que o estudo apresenta com relação à avaliação do novo material revelador. Resumidamente, os principais objetivos dos estudos das fases 1, 2, 3 e 4 são, respectivamente, estudo piloto, otimização, validação e ensaios de caso real [14]. Considerando que muitas características estão envolvidas no processo de avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais, é natural a existência de sobreposição entre as fases. Além disso, nem todas as características são aplicadas indistintamente a todas as fases. Não faz sentindo algum exigir que um estudo piloto (fase 1) comprove a certificação do laboratório responsável pelos testes das impressões digitais ou que apresente testes sistematizados com ensaios de casos reais. Essas características são de estudos bastante maduros de fase 4 e não se aplicam a estudos de fase 1. Para um estudo detalhado quanto às diferentes fases, sugerimos as referências [14, 16].

A integração de aspectos técnicos das ciências forenses no ensino de física ou outras ciências proporciona uma rica oportunidade para explorar temas multidisciplinares. Os alunos perceberão que saber a fase do estudo ajuda a examiná-lo adequadamente, de acordo com as características que deve apresentar. Além disso, perceberão a importância de mencionar em qual fase o novo revelador que eventualmente estejam investigando se encontra, facilitando a recepção do estudo pela comunidade científica especializada no assunto [6].

3.1.4. Avaliação da toxicidade

Apesar da recomendação expressa por uma contínua busca por reveladores de menor toxicidade [14], é bastante comum a apresentação de novos materiais reveladores sem qualquer menção ao grau de toxicidade. Periódicos com pouca experiência em Ciências Forenses acabam negligenciando este tópico e não exigem dos autores nenhum tipo de ensaio, ou mesmo discussão, quanto a este aspecto. Entretanto, é importante lembrar que o especialista inevitavelmente terá um contato bastante próximo com o material revelador, potencialmente por interação epidérmica ou por inalação das pequenas partículas ou gases deste novo material. Além disso, resquícios deste novo material inevitavelmente serão descartados no meio ambiente, o que vincula os autores a ao menos mencionarem a melhor forma de fazê-lo. Dessa forma, é fundamental evidenciar o eventual impacto que esse novo material pode infligir diretamente ao especialista e, indiretamente, ao meio ambiente.

Para avaliar a toxicidade de um material, utiliza-se uma combinação de métodos experimentais, computacionais e de análise em sistemas biológicos. É importante notar que a escolha da abordagem depende de vários fatores, incluindo o objetivo do estudo, o tipo de composto e as diretrizes regulatórias aplicáveis. Além disso, há uma tendência crescente em integrar múltiplas abordagens para obter uma avaliação toxicológica mais abrangente e precisa [25 26]. A seguir, as abordagens mais comuns serão rapidamente apresentadas.

3.1.4.1. Testes in vitro

Os testes in vitro utilizam culturas celulares ou tecidos para avaliar a toxicidade de compostos sem o uso de organismos vivos completos. Basicamente, eles identificam efeitos tóxicos em nível celular, como morte celular, dano ao DNA e alterações metabólicas [27]. Os métodos mais comuns incluem ensaios de viabilidade celular; ensaios de apoptose e necrose; e ensaios de estresse oxidativo. São bastante empregados diante do baixo custo de execução e da facilidade de obtenção dos requisitos éticos de pesquisa, quando comparado aos testes com animais ou seres humanos.

3.1.4.2. Teste in vivo

Os testes in vivo, como o próprio nome sugere, são aqueles realizados em organismos vivos, tais como ratos, coelhos, camundongos, zebrafish1 e outros animais. Este tipo de teste avalia a toxicidade em níveis mais complexos, incluindo órgãos e sistemas. Apesar de serem mais representativos que os teste in vitro, há um crescente questionamento ético quanto a utilização de animais e, também, quanto aos resultados com os animais não serem necessariamente extrapoláveis para humanos [28]. No Brasil, projetos de pesquisa nos quais sejam utilizados protocolos experimentais com animais precisam ser submetidos à apreciação do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal – CONCEA. Resumidamente, esse órgão busca: garantir que a utilização de animais seja justificada, levando em consideração os benefícios e os potenciais efeitos sobre o bem-estar dos animais; garantir que o bem-estar dos animais seja sempre considerado; o desenvolvimento e o uso de métodos alternativos que substituam o uso ou reduzam o número de animais em pesquisa científica; minimizar o número de animais utilizados em projetos ou protocolos sem comprometer a qualidade dos resultados a serem obtidos; refinar métodos a fim de evitar a dor nos animais utilizados em atividades de pesquisa [29].

3.1.4.3. Modelagem computacional (in Silico)

A modelagem computacional emprega ferramentas matemáticas, estatísticas e de ciência da computação para entender melhor os mecanismos pelos quais um determinado produto químico induz danos e, finalmente, ser capaz de prever os efeitos adversos dos tóxicos na saúde humana e/ou no meio ambiente. Este método tem ganhado força diante da necessidade de novas e melhores formas de se avaliar a toxicidade [30].

3.1.4.4. Testes clínicos e estudos epidemiológicos

São testes executados diretamente em seres humanos, mas em um ambiente controlado que visa melhor avaliar a segurança e/ou a eficácia de compostos. Costuma ser dividido da seguinte forma: Fase I – Testa segurança e dosagem em um pequeno grupo; Fases II e III – Avaliam eficácia e efeitos adversos em grupos maiores; Epidemiologia – Analisa dados populacionais para associar exposição a substâncias químicas com desfechos de saúde. Os estudos em humanos são essenciais para o avanço do conhecimento científico, mas geralmente são restringidos por desafios éticos e logísticos. Esses desafios incluem questões relacionadas ao consentimento, confidencialidade, considerações culturais e implicações éticas de certos desenhos de estudo [31].

3.1.5. Descarte adequado

Outro aspecto pouco mencionado na literatura de ciências forenses, mas de grande importância prática, é a necessidade de descarte adequado para os subprodutos e produtos da síntese do novo material revelador de impressões latentes. É fundamental que o especialista saiba como descartar cada resíduo de maneira correta, sempre se pautando no plano de descarte de resíduos da instituição e na tabela de incompatibilidade de resíduos. Tal procedimento aumenta a segurança no local de trabalho, minimiza os riscos de impactos ambientais, reduz os custos de tratamento e descarte final e proporciona o cumprimento das legislações vigentes.

O foco de qualquer sistema de gestão de resíduo é sempre prezar pela diminuição da geração do resíduo em si [32]. Este aspecto é conhecido como o incentivo à redução na fonte, o qual busca a máxima redução do resíduo perigoso ou a substituição de processos por outros que gerem resíduos de menor risco. Também é visto de forma muito positiva o reaproveitamento do resíduo em outros processos, gerando uma economia de recursos naturais e reduzindo a quantidade de material ainda útil para o descarte final [33]. Vale ressaltar, ainda, a importância de se buscar diminuir a reatividade, toxicidade e as quantidades dos resíduos através de um processo de redução de volume (tratamento interno), o que tende a reduzir a quantidade de produto a ser encaminhada para o descarte final [34]. Entretanto, é necessário bastante cuidado ao misturar resíduos, pois muitos são incompatíveis, podendo gerar efeitos adversos, tais como explosão, fogo, gás inflamável ou tóxico, calor ou solubilização de toxinas.

Para as instituições que eventualmente geram resíduos, mas ainda não possuem uma política bem definida de gerenciamento desses materiais, recomenda-se a formatação de convênios com universidades federais e/ou estaduais, considerando que essas possuem o adequado conhecimento sobre o tema, além de toda uma infraestrutura já estabelecida para o gerenciamento de resíduos.

3.1.6. Método de revelação

Esta subseção serve para alertar o pesquisador quanto à necessidade de evidenciar qual o método de revelação está sendo utilizado na nova abordagem sob estudo: seria um pó revelador, uma solução reveladora ou algum outro método? Apesar de ser uma informação básica, muitos trabalhos são silentes quanto a este aspecto [6], impactando nas comparações entre pesquisas similares de novos materiais reveladores.

Se o novo material revelador for um pó, recomenda-se explicitar a forma como este pó foi aplicado sobre as impressões latentes. Se o pó for pulverizado sobre a impressão latente utilizando-se pincéis aplicadores, o tipo de pincel precisa ser cuidadosamente escolhido para se evitar danos aos resíduos formadores das impressões papilares e para melhorar a qualidade do desenvolvimento [1]. Não esqueça de mencionar a marca e o modelo do pincel utilizado. Também é possível aplicar pós reveladores por via húmida (em inglês, este processo é conhecido como Powder Suspensions). Neste caso, o pó é misturado a água e a um surfactante e, depois, a mistura pastosa resultante é aplicada com um pincel de pelo de animais sobre a superfície onde se encontra a impressão latente ou esta superfície é integralmente submersa na mistura. Em ambos os casos, posteriormente ao empoamento por via húmida, a superfície precisa ser cuidadosamente enxaguada em água corrente para a remoção do excesso de pó. Esta técnica de empoamento por via húmida é bastante utilizada para revelações em superfícies adesivas, apesar de não se limitar a este tipo de superfície. Testes exaustivos foram efetuados com diferentes tipos de pós e diferentes tipos de superfícies demostrando a ampla utilização do método de empoamento por via húmida [12, 35].

Se o revelador for um líquido, é sempre bom deixar claro como este líquido foi aplicado na revelação. Basicamente, há duas formas de fazê-lo: borrifamento ou imersão. Como os próprios nomes sugerem, no primeiro caso, uma pequena quantidade do líquido revelador é aspergido sobre a superfície que contém a impressão digital latente; enquanto, no segundo caso, a superfície como um todo é submersa na solução reveladora. É muito comum, principalmente para as revelações de mergulho, lavar o excesso do material revelador com água, o que também precisa ser mencionado pelos pesquisadores, como etapa do processo de revelação com o novo material, se for o caso.

Outro aspecto importante é se o novo método deve ser avaliado em termos de desempenho em uma sequência com métodos estabelecidos, esclarecendo como o novo revelador se comporta quando incorporado em sequências de aprimoramento existentes. Por exemplo, um novo método considerado isoladamente pode ser descartado se for demonstrado que, lado a lado com um método estabelecido, ele exibe sensibilidade e/ou seletividade reduzidas. No entanto, o método tem valor se puder desenvolver marcas latentes adicionais quando usado em uma sequência com métodos estabelecidos. Da mesma forma, o melhor método de revelação único pode não necessariamente fazer parte da melhor sequência de detecção. Complementaridade e compatibilidade com outros métodos podem, portanto, ser componentes críticos do processo de avaliação [14].

3.1.7. Fotoluminescência

Se o novo material revelador exibe fotoluminescência, ele deve ser comparado a outro material de revelação conhecido que também exibe fotoluminescência (controle) [16]. Ambos os materiais devem ser avaliados sob seus respectivos comprimentos de onda de excitação e emissão ideais para permitir o melhor desenvolvimento de cada material separadamente. Depois disso, as comparações podem ser feitas entre eles [14]. Para tanto, o trabalho precisa fazer a ligação dos espectros de absorção e emissão advindos da caracterização (espectroscopias UV-Vis e fotoluminescente) com os comprimentos de onda utilizados para excitar e observar as impressões digitais reveladas com o novo material.

Outro aspecto digno de nota sobre o tema é o fato de vários estudos apresentarem um novo revelador fotoluminescente para impressões digitais latentes em formato de pó, mas que toda a caracterização fotoluminescente foi realizada quando este se encontrava no formato de solução. Isso não é muito apropriado principalmente porque os espectros do pó e da solução serão diferentes diante das variações nas interações moleculares, efeitos de solventes e diferenças estruturais [36, 37]. Esses fatores afetarão a intensidade da fotoluminescência, os comprimentos de onda dos picos de excitação e emissão e o decaimento fotoluminescente [36]. Com base nisso, caso o estudo não tenha como obter os espectros para o novo revelador no mesmo formato no qual ele será aplicado nas revelações, ao menos uma ressalva explicando os motivos se faz necessária.

3.2. Coleta de impressões digitais

A presente seção aglutina os aspectos gerais dos guias das ciências forenses com relação aos procedimentos de coleta de impressões digitais latentes para fins de estudo de novos materiais reveladores para este tipo de marca. Temas como o tipo de impressão digital, a necessidade de se ampliar o universo de doadores de impressões digitais e de se controlar as condições ambientais nas quais essas marcas são geradas e armazenadas são discutidos, além de vários outros relacionados ao assunto.

3.2.1. Tipos de impressões digitais

No contexto de avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais, é comum encontrar três diferentes tipos de impressões digitais: natural, écrina e sebácea. O procedimento detalhado de obtenção de cada um desses tipos de impressões digitais foi descrito por Sears e colaboradores [12]. Resumidamente, são os seguintes:

  • Impressão natural – devem ser depositadas por doadores que não lavaram as mãos nos últimos 30 minutos, não aplicaram cosméticos no mesmo período e não esfregaram deliberadamente as mãos em regiões do rosto ricas em materiais sebáceos (nariz e testa);

  • Impressão écrina – com as mãos secas, após lavá-las com sabão neutro, o doador calça luvas limpas e sem pó (ou as envolve em um saco plástico), com o objetivo de fazê-las transpirar (carregando deliberadamente as impressões digitais com resquícios écrinos). Após cerca de 30 min, as luvas são removidas para que as impressões possam ser depositadas;

  • Impressão sebácea – com as mãos secas, após lavá-las com sabão neutro, o doador esfrega os dedos sobre o nariz, carregando deliberadamente as cristas de fricção com sebo, e deposita as impressões digitais. O uso da região do nariz como fonte de sebo é o método ideal para a geração de impressões sebáceas, pois outras áreas do corpo possuem também glândulas écrinas, tornando-as menos adequadas para esse propósito [12].

Os manuais, de uma maneira geral, recomendam a utilização preferencial de impressões digitais naturais na comparação do novo material revelador com alguma técnica já estabelecida. Mesmo assim, impressões carregadas (écrinas ou sebáceas) também são valiosas, pois permitem identificar os constituintes com os quais o novo material revelador pode estar interagindo. Entretanto, raramente esse é o foco, já que [6] na maioria das vezes, os pesquisadores carregam as impressões digitais (do inglês, groomed fingerprints) para facilitar as revelações, e não para avaliar a interação, enviesando a qualidade das revelações.

Cabe mencionar que trabalhar com impressões digitais carregadas com algum contaminante em certas situações pode ser necessário. Por esta razão, alguns autores consideram este procedimento aceitável para estudos de Fase 1 [16]. No entanto, os autores devem evidenciar que as impressões digitais utilizadas são carregadas, inclusive descrevendo o procedimento para obtê-las. Este simples reconhecimento é de fundamental importância para o cientista forense, pois permite uma interpretação imparcial dos resultados deste estudo em comparação direta com estudos que não usaram impressões digitais carregadas [6].

Como últimas recomendações ainda relacionadas a este tópico, cabe ainda registrar que os doadores devem ser previamente orientados a não utilizarem quaisquer tipos de cosméticos no dia em que farão a deposição das impressões digitais e que é necessário que todos os doadores lavem as mãos com sabão neutro, deixando-as secar naturalmente, previamente à deposição das impressões digitais. Em ambos os casos se evita que algum contaminante externo domine a revelação de forma a mascarar os verdadeiros resultados do revelador.

Por último, impende mencionar que para estudos mais avançados, fases 3 e 4, é muito comum que as impressões digitais sejam coletadas às cegas, significando que os doadores não serão instruídos quanto à forma de deposição de suas impressões digitais naturais sobre as superfícies. Também é possível a utilização de itens remanescentes de casos reais para testes com os novos reveladores, tais como aqueles materiais que não foram periciados na investigação ordinária, pois não fizeram parte da amostra eleita pela perícia. Algumas apreensões são muito numerosas, o que inviabiliza que todos os itens sejam periciados, como é o caso, por exemplo, do crime de descaminho de cigarro. Nas apreensões que geralmente acompanham a materialidade deste tipo de crime, apenas uma fração dos milhares de pacotes de cigarro apreendidos é regularmente periciada.

3.2.2. Diversidade de doadores

Ao avaliar o procedimento de coleta de impressões digitais, é importante avaliar a diversidade de doadores para evitar conclusões precipitadas ou tendenciosas resultantes de um tamanho de amostra pequeno. Mas como saber o tamanho da amostra ideal para demostrar a diferença do novo material revelador em comparação com o revelador da rotina operacional? Não existe uma resposta fácil e universalmente aplicável para essa pergunta. Na verdade, como bem alertou Hockey e colaboradores, o número de doares (consequentemente, o número de impressões digitais) necessários depende de quão definitivos são os resultados da comparação, criando um infeliz dilema de causalidade. Se as distribuições sendo testadas forem razoavelmente semelhantes, mais evidências serão necessárias para demonstrar uma diferença, portanto, um tamanho de amostra maior será necessário. Se o inverso for verdadeiro, menos amostras serão necessárias [15].

Enfatizando a importância dessa diversidade e da necessidade de registrá-la de forma a enriquecer a discussão quando das comparações nas diferentes situações, Girod destaca a necessidade de obter impressões digitais de ambos os sexos, de doares de diferentes idades e de diferentes origens étnicas. Além disso, recomenda registrar o uso de medicação, o estado psicológico e de saúde, o metabolismo e a dieta desses diferentes doadores [11].

O IFRG recomenda que os estudos de fase 1 trabalhem como pelo menos 3 doadores e que os estudos de fase 2, com pelo menos 6. Já para os estudos de fases 3 e 4, este número deve ser no mínimo 20 doadores [14].

3.2.3. Registro das diferentes condiçõesambientais

Registrar as diferentes condições ambientais pode ser importante no momento de se comparar e discutir os diferentes materiais reveladores sob investigação. Em se tratando de um novo material recém-sintetizado, tanto as condições da síntese como as de armazenamento após a produção devem ser discriminadas. É comum a preocupação dos pesquisadores em informar as condições ambientais relacionadas à síntese, mas poucas são as menções afetas a pós-produção, principalmente no que se refere à estabilidade do novo material [6]. Esses aspectos também fazem parte do processo de avaliação do novo revelador, podendo influenciar na qualidade das revelações. Dessa forma, é prudente e desejável que o novo material seja submetido a testes diversos, tais como de exposição à luz branca e/ou à luz UV; diferentes forças iônica, pH, concentração e/ou temperatura.

Também é importante registar as condições ambientais relacionadas à coleta das impressões digitais latentes e, se for o caso, às condições afetas a como essas marcas serão armazenadas ao longo dos diferentes tempos de envelhecimento. A composição dos resíduos formadores das impressões digitais latentes muda com o passar do tempo e as condições de armazenamento podem influenciar significativamente essa variação [11]. Por exemplo, entre 20-70% dos resíduos presentes na impressão digital latente é água [38], consequentemente, a evaporação dessa água será diretamente impactada pela umidade relativa do ar, ventos, exposição a luz e variações de temperatura. Esses detalhes são fundamentais quando do exercício de comparação entre as qualidades de revelação de diferentes materiais reveladores.

3.2.4. Diferentes tempos de envelhecimento

Como mencionado na subseção anterior, a composição da impressão digital varia com o passar do tempo (perda de umidade e outros compostos voláteis, reações químicas e oxidação [11]), de forma que as marcas recentes são mais facilmente reveladas do que as envelhecidas. Então, é fundamenta que o estudo que esteja avaliando um novo material revelador informe os diferentes tempos de envelhecimento empregados, de forma a permitir comparações justas com revelações empreendidas por outros reveladores. Muitos estudos trabalham com marcas recentes de apenas alguns poucos minutos, o que não é recomendado, pois a maioria das provas de cenas de crime não são tratadas antes de 24 horas após o incidente [10]. Com base nisso, foi padronizado o prazo de 24h após a deposição da impressão digital como o tempo padrão para revelação de impressões digitais recentes, facilitando comparações entre diferentes reveladores [6].

Estudos de fase 1 geralmente trabalham com impressões digitais recentes (1 dia), enquanto os de fase 2, com pelo menos três diferentes tempos de envelhecimento (geralmente 1 dia, 1 semana e 1 mês). Já os estudos mais profundos, de fases 3 e 4, buscam cobrir as mudanças composicionais mais significativas das impressões digitais, abrangendo marcas envelhecidas por diferentes períodos ao longo de pelo menos 1 ano [12, 14].

3.2.5. Superfície

Não apenas o tipo de material que compõe as superfícies, mas a porosidade que apresentam influenciam significativamente no tipo de revelador a ser empregado e, também, na qualidade das revelações obtidas. Qualquer superfície que absorva rapidamente os resíduos presentes na impressão digital é classificada como porosa [39]. Superfícies como papel e madeira não tratada, em apenas alguns segundos, já apresentam nas suas primeiras camadas bastante do material solúvel em água absorvido das impressões digitais, enquanto os resquícios insolúveis tendem a permanecer sobre a superfície. Em contrapartida, as superfícies que não absorvem os resíduos das impressões digitais são chamadas de lisas ou não porosas (exemplos clássicos são sacolas plásticas, vidro, metal polido). Neste tipo de superfície, todos os componentes da impressão digital (solúveis e insolúveis em água) permanecem sobre a superfície, a menos que sejam removidos (lavados) da superfície ou venham a se degradar devido ao envelhecimento ou à efeitos ambientais [35].

Diferentes superfícies influenciam de diferentes formas a impressão digital latente. Há superfícies que praticamente não é possível revelar impressões digitais, tais como a pele humana e os tecidos de roupas [40, 41]. Dessa forma, é fundamental que o estudo mencione em quais superfícies está realizando os testes do novo material revelador. Estudos de fase 1 geralmente testam o revelador em uma ou duas superfícies, enquanto os de fase 2 testam em mais de três. Estudo de fases 3 e 4 testam em mais de 10 superfícies, mas os de fase 4 tendem a fazê-lo em situações de caso real [14]. Vale mencionar que testar o revelador em várias superfícies permite o diagnóstico de sua versatilidade.

3.2.6. Indicação do dedo amostrado

Apesar de ser uma informação óbvia, poucos estudos mencionam a partir de qual dedo as impressões digitais estão sendo geradas [6]. Boa parte da avaliação da qualidade de um novo material revelador é compará-lo com outros estudos ou outros materiais reveladores. Assim, até mesmo uma informação simples como a partir de qual dedo determinada impressão digital foi gerada pode ser importante na comparação, principalmente porque as áreas geradoras de impressões digitais são diferentes nos diferentes dedos.

3.3. Avaliação da qualidade das revelações

Nesta seção serão apresentadas as formas mais aceitas pelas ciências forenses para se promover a avaliação de impressões digitais latentes reveladas por novas técnicas. Temas como série de depleção, impressões divididas, escalas de avaliação, testes estatísticos, entre outros, serão abordados.

3.3.1. Série de depleção

Uma série de depleção é obtida a partir de sucessivos contatos do mesmo dedo com uma superfície de controle ou teste, sem que qualquer tipo de recarga proposital de secreção aconteça no dedo. Se as impressões digitais latentes forem geradas com a mesma pressão, cada contato com a superfície deixará menos resíduo sobre a superfície. Quanto mais distante na série o novo material revelador for capaz de deixar visível as impressões latentes, mais sensível este novo material será [16]. Há diferentes formas para se gerar uma série de depleção, a depender de qual característica o pesquisador tem interesse em evidenciar. Há séries de depleção com impressões divididas (impressões divididas serão explicadas na próxima seção), com diferentes tipos de impressões, com diferentes superfícies etc. A Figura 1, por exemplo, apresenta uma série de depleção para cada um dos três tipos de impressões digitais – natural, sebácea e écrina. Dez impressões digitais latentes foram depositadas sobre um plástico transparente em cada uma das séries e, depois, essas impressões foram reveladas com o novo material sobre estudo.

Figura 1
Exemplo de séries de depleção de impressões digitais naturais, sebáceas e écrinas (nesta ordem, de cima para baixo).
3.3.2. Impressões divididas

Um procedimento bastante empregado pelos pesquisadores de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes é a técnica de dividir longitudinalmente uma impressão digital latente em duas partes para, depois, aplicar em cada uma das metades um diferente material para tornar visível as marcas latentes (Figura 2). Após, essas metades são reunidas para se promover uma comparação entre elas. A comparação pode se dar apenas pela visualização direta das imagens ou por intermédio de uma escala relativa de qualidade (a próxima seção detalhará as escalas de avaliação de qualidade). É importante mencionar que existem processos de revelação para os quais a presença de uma borda dividida pode criar efeitos de borda que não são representativos de como o processo funcionaria em uma superfície contínua (comum nos desenvolvimentos que utilizam pós) [12]. Para essas situações, a técnica de impressões divididas pode não ser o método mais adequado.

Figura 2
Procedimento para obtenção e comparação de impressões digitais divididas.
3.3.3. Escalas de avaliação

A comparação das imagens das revelações obtidas pelas diferentes técnicas é considerada uma forma válida de avaliação da qualidade das revelações; entretanto, espera-se que à medida que os estudos evoluam para fases mais maduras, outras formas de avaliação estejam presentes, tais como o emprego de escalas de avaliação ou a obtenção de uma distribuição estatística da avaliação (a partir da participação de muitos avaliadores). Essas abordagens são importantes para reduzir o viés que eventualmente pode estar presente no processo de avaliação. Para estudos de fase 1, uma comparação inicial com algum método da rotina operacional precisa ser empreendida. Para as demais fases, a comparação deve ser realizada com a técnica padrão ouro. Neste processo, é recomendada a participação de especialistas em impressões digitais [14].

Apesar de atualmente não existir um método universalmente aceito para avaliar as técnicas de revelação implementadas em pesquisas, uma forma mais confiável de promover esse tipo de avaliação entre diferentes materiais reveladores é o emprego de escalas de avaliação [17]. Há escalas absolutas ou holísticas e escalas relativas ou comparativas. De uma maneira geral, as escalas absolutas focam nos detalhes das linhas de uma impressão digital inteira revelada (Tabela 2), como é o caso da escala do Centro de Ciência Aplica e Tecnologia (CAST) [8], ou na clareza das características de nível 2 (minúcias) de uma impressão digital inteira revelada (Tabela 3), como é o caso da escala da Universidade de Lausanne (UNIL) [42]. Um exemplo de escala relativa é a de McLaren [9], também conhecida como escala da Universidade de Canberra (Tabela 4). Nela meias impressões digitais são utilizadas para comparar duas diferentes técnicas diretamente uma com a outra.

Tabela 2
Escala CAST de avaliação da qualidade da revelação da impressão digital.
Tabela 3
Escala UNIL de avaliação da qualidade da revelação da impressão digital.
Tabela 4
Escala McLaren de avaliação da qualidade relativa entre duas metades de impressões digitais.
3.3.4. Análise estatística das avaliações

Ainda com relação à avaliação da qualidade das revelações obtidas para um novo material em comparação com a técnica da rotina operacional, é importante registrar que uma distribuição de respostas em vez de uma única resposta permite uma compreensão mais sutil e abrangente dos dados, especialmente em cenários ambíguos ou complexos. Essa abordagem viabiliza a percepção de diferentes perspectivas e tende a se tornar mais eficiente, levando a resultados mais confiáveis [43]. Dessa forma, recomenda-se que a avaliação de qualidade seja efetuada por diferentes voluntários e que as respostas sejam organizadas e tratadas estatisticamente.

Vale lembrar que a aplicação de testes estatísticos não é obrigatória na avaliação da qualidade das revelações; entretanto, esses testes possuem a forte característica de auxiliar nas conclusões [44], o que os tornam atrativos para o tipo de avaliação comparativa entre diferentes revelações. Mesmo assim, não se pode esquecer que nem toda diferença visual corresponde a uma diferença estatisticamente significativa e, por outro lado, que nem toda significância estatística implica uma diferença com relevância prática que justificaria a substituição de um revelador consagrado. Os resultados precisam ser interpretados em conjunto, levando-se em consideração a totalidade de variáveis envolvidas. Por exemplo, em um cenário de busca por materiais não tóxicos, baratos, localmente sustentáveis e que não agridem o meio ambiente, determinado revelador pode se mostrar mais adequado mesmo que não seja o que consegue desenvolver a maior quantidade de minúcias individualizadoras de uma marca latente.

Um outro importante aspecto relacionado a este tema é a recomendação de Hockey e colaboradores. Esses autores ensinam que para realizar análises estatísticas sobre as classes correspondentes às notas das escalas de avaliação, é necessário aplicar testes estatísticos não paramétricos, diante da característica ordinal das diferentes classes (ou categorias). A rotulagem numérica das classes é arbitrária, significando nada mais do que uma nota ser melhor que outra [15], por isso que não faz qualquer sentido calcular média ou desvio-padrão das classes de avaliação. Esse tipo de informação é importante para evidenciar que os pressupostos e limitações dos testes estatísticos precisam ser respeitados. Além disso, a escolha do teste adequado, a natureza dos dados e a interpretação dos resultados devem sempre ser conduzidas com critério técnico, evitando conclusões enviesadas.

3.3.5. Avaliação objetiva de qualidade

Um derradeiro tópico digno de menção sobre a avaliação da qualidade das impressões digitais latentes reveladas com novos materiais se refere à inexistência de métodos objetivos universalmente aceitos pelos cientistas forenses. Neste tipo de abordagem, softwares são empregados na tentativa de aumentar a objetividade na avaliação de impressões digitais [13, 17]. Entretanto, de uma maneira geral, essas abordagens não conseguem ainda fornecer um limite indicativo do que seria de melhor qualidade, pois não existe um consenso sobre quanto detalhe uma dada impressão digital deve ter para ser considerada de qualidade superior [6]. A avaliação objetiva da qualidade das revelações é um tema ainda em aberto e fruto de muitas discussões na atualidade [12].

3.4. Outros tópicos importantes

Para estudos mais maduros, fases 3 ou 4, recomenda-se que os testes com o novo material revelador sejam efetuados por diferentes agências, em diferentes regiões geográficas, testando ao extremo o desempenho do novo revelador em diferentes condições. Neste processo, os envolvidos precisam armazenar todos os dados de suporte relacionados ao uso operacional da nova técnica e monitorar o desempenho dela ao longo de vários anos. Também é esperado que essa nova abordagem seja incluída nos procedimentos operacionais padrão do órgão (ou até mesmo em cenários de acreditação e/ou certificação), passando não apenas a figurar formalmente entre as técnicas internamente aplicáveis, mas também apta a ser executada por qualquer um dos profissionais habilitados a fazê-lo.

É sempre bom alertar os pesquisadores quanto à necessidade de tomar cuidado com as conclusões que são possíveis de serem atingidas com o estudo de comparação e avaliação de novos materiais reveladores. A princípio, essas conclusões devem ser bastante conservadoras, considerando o caráter inicial no qual as comparações são executadas: não envolvimento de peritos especializados em impressões digitais, critérios subjetivos de avaliação de qualidade, poucos doadores, poucas impressões digitais, poucas superfícies, poucos tempos de envelhecimento, inexistência de testes em situações de casos reais, entre inúmeras outras variáveis não controladas.

3.5. Possível inserção didática em cursosde Física ou ciências

Apesar de a ciência forense ser autônoma e possuir princípios, paradigmas e recomendações próprias [5], é inegável a significativa interseção que apresenta com as demais áreas científicas [45]. Dessa forma, a inserção de aspectos técnicos relacionados à avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes nas discussões acadêmicas de cursos de física ou ciências pode proporcionar oportunidades de aprendizagem multidisciplinar e que alinham a teoria científica a práticas aplicadas.

As diferentes expertises relacionadas à comparação e avaliação de novas técnicas para a revelação de impressões digitais latentes podem ser utilizadas como base para a implementação de protocolos em laboratórios de ensino, promovendo boas práticas científicas, certificação de processos e o aprendizado estruturado sobre metodologias científicas e segurança no trabalho com substâncias químicas e biológicas. Além disso, as práticas da ciência forense fomentam o pensamento crítico e a responsabilidade profissional entre os estudantes, por ensiná-los a tirar conclusões baseadas em evidências empíricas e dentro do contexto científico. Vale lembrar que a ciência forense se sustenta em decisões fundadas na objetividade e imparcialidade de metodologias científicas, o que é fundamental para garantir que o sistema jurídico a utilize de forma precisa e válida [46].

No contexto de avaliação de diferentes abordagens para a revelação de impressões digitais latentes, por exemplo, não se escolhe os doadores, as superfícies, as condições de armazenamento ou o tipo de revelador a ser utilizado como controle de qualquer forma. Pelo contrário, existem explicações objetivas, imparciais e que minimizam o risco de viés para todas essas escolhas. Isso acontece porque os novos materiais para revelação de impressões digitais precisam ser rigorosa e abrangentemente avaliados. Não há como defender um novo material revelador que apresente excelente qualidade de revelação, mas que não tenha sido estudado quanto à toxicidade e ao impacto ambiental. A comunidade científica simplesmente não aceitará esse novo material, pois entenderá que ele não foi avaliado com base nas melhores práticas da ciência forense.

Outra importante perspectiva é que a ciência forense tem como essencial a integridade das evidências, a validação científica, a comunicação transparente e a formação de conclusões confiáveis [47]. Todas essas perspectivas são, portanto, inerentes aos procedimentos de comparação e avaliação de novos materiais reveladores de impressões digitais latentes e, se associadas às práticas educacionais de ensino de física ou ciências, possuem o potencial de criar ricas oportunidades de compressão ampla e prática de conceitos acadêmicos. Consequentemente, preparam os estudantes para aplicações reais, estimulando a multidisciplinariedade e integrando teoria e prática em um contexto inovador e relevante.

4. Considerações Finais

Este é o primeiro trabalho de revisão e descrição didática em língua portuguesa acerca dos principais guias e estudos que abordam os procedimentos operacionais aplicáveis à pesquisa com novos reveladores ou novos métodos de revelação de impressões digitais latentes. As diferentes metodologias e recomendações da ciência forense relacionadas ao tema foram apresentadas e discutidas de forma a padronizar procedimentos, minimizar o risco de viés e popularizar o assunto entre os pesquisadores, peritos papiloscopistas e estudantes de física ou ciências brasileiros. Dessa forma, tornam-se acessíveis e amplamente disponíveis informações antes restritas a uma pequena parcela de especialistas. O presente trabalho, portanto, configura-se numa ferramenta de mudança de paradigma, a partir da qual a investigação de novos materiais e técnicas capazes de desenvolver marcas latentes de impressões digitais pode ser objetiva e rigorosamente empreendida por qualquer um que se interesse pelo tema. Espera-se que a reconhecida criatividade do povo brasileiro explore a exuberante biodiversidade nacional em busca de abordagens menos tóxicas, ambientalmente amigáveis, sustentáveis, rentáveis para o país e que também apresentem melhor qualidade de revelação, quando comparadas às técnicas consagradas.

Agradecimentos

Os autores agradecem o fomento das agências brasileiras: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES (Referência N° 001); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (Referência N° 309899/2020-6) e Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal – FAPDF (Processo n° 00193-00001747/2024-12). D.S.C. agradece o apoio institucional da Polícia Federal, por intermédio do Instituto Nacional de Identificação – INI e da Diretoria da Academia Nacional de Polícia – Diren-ANP, e o apoio da Associação Brasileira de Papiloscopistas Policiais Federais – ABRAPOL.

Disponibilidade de Dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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    Os testes com zebrafish podem ser tanto in vivo quanto in vitro. Os estudos com larvas de zebrafish até 120 horas pós-fertilização são considerados in vitro, enquanto os testes com zebrafish adultos são in vivo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Jun 2025
  • Revisado
    24 Jul 2025
  • Aceito
    24 Jul 2025
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